sexta-feira, 21 de setembro de 2007

The Hobbit - JRR Tolkien - Ilustrações de Alan Lee



ARTBOOK - ALAN LEE - THE HOBBIT ( Download )

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

NOTAS SOBRE FICCAO CIENTIFICA: PHILIP DICK, GIBSON E ASIMOV - Flávia Pihtan*

A ficção científica é a soma da evolução tecnológica com a imaginação de escritores vistos como visionários, homens que conseguem unir tecnologia com comportamentos e transformações sociais, e “pré-vêem” o futuro.

A ciência, a tecnologia de redes, a robótica, a bioquímica, as técnicas de inteligência artificial e a cibernética, a manipulação genética, os ambientes de realidade virtual são elementos-chave para a ficção científica.

Isaac Asimov, russo nascido em 1920, cientista e escritor, inventou a palavra robô em 1942. Ele via nos computadores e nas máquinas a possibilidade de libertar os homens para poderem se dedicar a tarefas mais criativas. Ele cunhou três leis, talvez na tentativa de regular a relação entre robôs e humanos, garantindo o poder aos homens para controlar os robôs. As leis da robótica, criadas por ele diziam o seguinte (ASIMOV E SILVERBERG, 1998):

1) Nenhum robô pode lesionar a um ser humano ou, através de sua omissão, permitir que um ser humano seja lesionado.
2) Todo robô deve acatar as ordens que os seres humanos lhes dão, exceto se estas entram em conflito com a primeira lei.
3) Todo robô deve sempre proteger sua existência desde que essa proteção não entre em conflito com a primeira ou a segunda lei.

No filme 'O Homem Bicentenário', originado por uma obra de Isaac Asimov e Robert Silveberg, O Robô Humano, pode-se perceber um perfil positivo dos robôs, que em nenhum momento tomam o controle de suas próprias ações e se voltam contra seus criadores, ou seja, passam a ter livre arbítrio. Este perfil é o oposto nas obras de outros escritores, que passam a expressar as possíveis conseqüências da mistura homem-máquina, ou seja, o impacto das novas tecnologias na sociedade.

O escritor norte-americano, Philip Krended Dick, nascido em Chicago, em 1928, expressa em suas obras as transformações morais e sociais de sua época e suas angústias frente a essas situações. Em seus contos aparecem elementos como a psicodelia, a promiscuidade tecnológica, o descrédito no governo e nas autoridades, problemas religiosos e sociais, experiências genéticas, falsas realidades, o humano versus a máquina.

A juventude norte-americana e internacional dos anos 60 tinha o desejo de mudar a sociedade criando uma sociedade alternativa. As drogas eram vistas como uma experiência, que ampliava as capacidades cognitivas das pessoas e estimulava um processo de “libertação” mental das convenções repressivas do sistema. Usava-se nesta fase o LSD (Lysergic Acid Diethylamide), que vinha sendo experimentada por psiquiatras em tratamento de distúrbios mentais.

O psicólogo norte-americano Thimoty Leary, doutor de Harvard, divulgou a droga, acreditando ter descoberto a chave para abrir a consciência humana. Foi preso em 1966 quando a droga foi proibida. O coquetel de ácido era considerado como a passagem para uma nova dimensão, uma nova tribo, uma nova maneira de estar no mundo. Esse caráter alucinógeno das drogas é encontrado nas obras de ficção científica, que misturam o imaginário dos autores com a realidade.

Na obra 'Do Androids Dreams of Electric Sheep?', de Philip K. Dick, o autor evidencia sua preocupação com a conseqüência da fusão entre o homem e a máquina, ou seja, a mistura de elementos animais ou humanos com elementos artificiais, característicos das máquinas, ou vice-versa.

O filme originado por este livro é o conhecido 'Blade Runner', filme que mistura a realidade com o imaginário e as evoluções tecnológicas. As pessoas são manipuladas, ou melhor, já não se sabe mais quem é humano e quem é andróide. Implantes de memória, simulações, tecnologia de ponta, problemas sociais,..., são os elementos misturados que originaram os seres do futuro apresentados no filme, que tenta evidenciar como a vida é ou será influenciada por esta explosão de evoluções que marcam e caracterizam a cibercultura.

(...) podemos compreender a Cibercultura como a forma sócio-cultural que emerge da relação simbiótica entre a sociedade, a cultura e as novas tecnologias de base micro-eletrônica que surgiram com a convergência das telecomunicações com a informação na década de 70 (LEMOS in: LEMOS E CUNHA, 2003, p. 12).

De acordo com Lemos in: Lemos e Cunha, parte desta idéia da mistura homem-máquina remete ao corpo como objeto de intervenção, ou seja, a relação entre a physis e a techne:

O corpo sempre foi um constructo cultural e está imbricado no desenvolvimento da cultura. Nesse sentido, o corpo da Cibercultura é um corpo ampliado, transformado e refuncionalizado a partir das possibilidades técnicas de introdução de micro-máquinas que podem auxiliar as diversas funções do organismo (2003, p.19).

De um lado órgãos artificiais substituem órgãos verdadeiros, seqüências de DNA defeituosas são detectados e podem ser trocadas por outra...; por outro lado, técnicas de inteligência artificial permitem às máquinas comportamentos típicos de seres vivos: as redes neurais detectam comportamentos e aprendem, com o passar do tempo, que animais eletrônicos também possuem a capacidade de adaptação ao seu ambiente. Essas evoluções tecnológicas estão ocorrendo em uma velocidade frenética. Como exemplo, pode-se citar que em dez anos de pesquisas, pesquisadores conseguiram desenvolver robôs bípedes, o que era um desafio até então. Esses robôs, equipados com as técnicas de Inteligência Artificial, identificam obstáculos, objetos encontrados no ambiente onde se encontram ou por onde se movimentam. Além de terem a capacidade de reconhecer seu dono, obedecer comandos de voz, identificar de onde vêm os sons...

Pode-se perceber que a visão de Philip K. Dick, apresentada no filme 'Blade Runner', é uma visão pessimista sobre o impacto das novas tecnologias na sociedade, o que resultaria numa vida caótica. Chuvas ininterruptas, dominação tecnológica, extermínio de animais e quase o extermínio do homem, emigração em massa, manipulação religiosa ou por drogas...

Outro escritor americano, William Gibson, com 'Neuromancer', escrito em 1984, definiu uma nova forma de ficção científica que depois ficou conhecida como “cyberpunk”, movimento ao qual também pertenciam Bruce Sterling, John Shirley, Rudy Rucker e Lewis Shiner. Eles acreditam que “a maior parte da produção da ficção científica estava atrelada a fórmulas concebidas no passado, quando a alta tecnologia ainda não moldava diretamente o cerne da experiência humana” (ANTUNES In: GIBSON, 2003, p. 5).

Foi neste livro de Gibson que nasceu o conceito de ciberespaço na década de 70:
Conforme a popularização da comunicação mediada por computador, tornava mais conhecida a noção de (e a experiência do) ciberespaço, mais comuns e freqüentes passaram a ser as menções a determinados elementos das difusas descrições do ciberespaço e do universo distópico retratado em Neuromancer (FRAGOSO. In: LEMOS e CUNHA, 2003, p.212).

De acordo com Lemos (2002), o imaginário cyberpunk marca toda a cibercultura. O termo surgiu no movimento de ficção científica que associa tecnologias digitais, psicodelismo, tecno-marginais, ciberespaço, cyborgs e poder midiático, político e econômico dos grandes conglomerados multinacionais.

Autores desse gênero de ficção científica são pessimistas em relação ao futuro, mostram os efeitos negativos das novas tecnologias na sociedade e perceberam a ligação com a visão mística disseminada nos anos 60 e 70, “o infinito visto como instância simultaneamente exterior e interior ao ser humano” (ANTUNES. In: GIBSON, 2003, p. 5). Daí a subjetividade envolvida no conceito de ciberespaço. Escritores dessa tendência viram que a revolução da ciência está na computação e nas telecomunicações. A possibilidade de uma rede mundial eletrônica de informação e a preocupação com - onde esta tecnologia irá nos levar -, são explicitadas em seus textos.

O filme 'Matrix', escrito e dirigido pelos irmãos Wachowski, pode ser considerado como o “esboço da adaptação de Neuromancer para o cinema” (ANTUNES, in: GIBSON, 2003, p. 7).

Hoje o ciberespaço é o habitat das novas tecnologias. Levy (1999) define o ciberespaço como sendo o “espaço de comunicação aberto pela interconexão mundial dos computadores e das memórias dos computadores”.

O mundo encontra-se num emaranhado de descobertas e avanços tecnológicos... muito do que fazia parte apenas do imaginário de alguns escritores de sci-fi, hoje já virou realidade, enfim, a ficção científica de Philip K. Dick, William Gibson, Isaac Asimov, está cada vez mais próxima da realidade. E o que é importante lembrar é que um dos veículos que torna tudo isso mais público e evidente, é o cinema.

Sessões do imaginário - Cinema - Cibercultura - Tecnologias da Imagem
Flávia Pihtan é Mestranda do PPGCOM/PUCRS

REFERÊNCIAS
ANTUNES, Alex. Prefácio à edição brasileira.
In: GIBSON, William. Neuromancer. 3. ed. São Paulo: Aleph, 2003.
ASIMOV, Isaac e SILVERBERG, Robert. El Robot Humano. Barcelona: Plaza & Janés,1998.
DICK, Philip Kendred. Sueñan los androides con ovejas eléctricas? 10. ed. Barcelona: Romanyà, 2001.
FRAGOSO, Suely. Um e Muitos Ciberespaços. In: LEMOS, André e CUNHA, Paulo. Olhares sobre a Cibercultura. Porto Alegre: Sulina, 2003.
LEMOS, André. Cibercultura. Alguns pontos para compreender a nossa época. In:____________ e CU­NHA, Paulo.Olhares sobre a Cibercultura. PortoAlegre: Sulina, 2003.
LEMOS, André. Cibercultura, tecnologia e vida social na cultura contemporânea. Porto Alegre: Sulina, 2002.
LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Ed. 34, 1999.

Projeto Democratização da Leitura


sábado, 15 de setembro de 2007

'Do Pai-Robô à Bio-Puta" - Charles Tonderai Mudede

,“Quase todas as ciências devem alguma coisa aos diletantes, freqüentemente, muitos pontos de vista valiosos. Mas o diletantismo como o princípio único seria o fim da ciência. Aquele que anseia pela ‘visão’, que vá ao cinema...” (Max Weber)

A ciência ocidental nos deu dois mundos: um mundo Newtoniano e um Darwiniano.

E se nós pudermos nos arriscar a uma definição ampla das nossas últimas descobertas científicas, poderíamos descrever como uma série de embates entre estas duas doutrinas: física versus biologia, a máquina versus o corpo, exploração de espaço versus a pesquisa molecular; um nos conduzindo às estrelas, o outro à célula; um fascinado por leis inexoráveis, o outro tendendo para a probabilidade estatística; um apontando para longe de Deus, o outro perseguido pela psique; um masculino, o outro inegavelmente fêmea.

E o vencedor desta competição poderá ganhar financiamento ilimitado e a completa lealdade das massas.

Por muitos anos, o mundo Newtoniano deteve o controle nesta competição; elaborando máquinas que responderiam nossas perguntas.
Bilhões foram destinados à robótica e programas espaciais; telescópios e sondas lançadas aos céus, mas quando transmitiram suas descobertas, todos eles nos mostraram mais estrelas brilhantes, mais galáxias espirais, mais vazio, mais perguntas.

Finalmente, perdemos a fé em Newton e nos jogamos aos pés da ciência Darwiniana, que fez crescer um ouvido humano nas costas de um rato e duplica um simples carneiro.

Nestes últimos 20 anos, nossa mudança de fé, nossa transição de Newtonianos para Darwinianos, pode ser traçada por uma série de filmes de ficção-científica de grande bilheteria.

Das décadas de 70 e 80 como sendo os últimos anos de dominação Newtoniana aos 90, marcando a ascensão do novo mundo Darwiniano.

‘Alien’, 1979, Ridley Scott

Este filme é excepcional não unicamente porque começa um ciclo que James Cameron identificou como “tecno-noir" (Blade Runner, Terminator, Robocop), mas pela primeira vez na ficção científica, um alienígena é imaginado, não como o descendente de uma civilização altamente organizada (‘Newton’), avançada em eficiência e com armas sofisticadas que vaporizam o inimigo, mas ao invés disso, como um primitivo sanguinolento, uma criatura empenhada em uma luta intergaláctica Darwiniana para a sobrevivência. Aqui a batalha entre as doutrinas está claramente representada, a ciência Newtoniana escapa por pouco, derrotando a criatura que fica perdida no espaço, sozinha entre as estrelas.


'Terminator', 1984, James Cameron

Embora a máquina tente passar por um ser humano, a estória assegura a honra e a dignidade emocional da espécie humana, amante da liberdade. Mas admiramos a eficiência do homem-máquina; o cyborg com seu exterior de imitação de carne humana e o esqueleto de metal. Esta criatura não tem emoções e sua vida tem significado totalmente Newtoniana.


‘RoboCop’, 1987, Paul Verhoeven

Como um ser humano comum, o oficial de polícia Murphy (Peter Weller) era um policial fraco com uma arma fraca tentando manter a ordem em uma cidade, que em todos os níveis (dos escritórios das corporações nas alturas aos pequenos negócios nas ruas) está fora de controle e torna-se "o coração das trevas." Mas como um homem-máquina equipado com armas poderosas, ele pode retornar com a sociedade à sua normalidade , como planetas rebelados de suas órbitas, voltam aos seus lugares Newtonianos. (É interessante notar que o RoboCop está quase morto na mesma fábrica (‘Fordiana’) decaída onde, sete anos mais tarde, o modelo T-800 em ‘Terminator 2’, o último homem-máquina, está para morrer em um banho líquido e quente.)


‘Aliens’, 1987, James Cameron

Imagine um planeta colonizado por seres humanos Newtonianos, que foram rapidamente destruídos por alienígenas Darwinianos, que culmina em um combate fatal entre a mulher-máquina (Ripley dentro de um manuseador-robô de carga pesada) e o alienígena. Novamente o mundo Darwiniano perde, mas não por muito tempo, sua vez está chegando.


‘Species’, 1995, Roger Donaldson

Com a destruição do último homem-máquina (Arnold Schwarzenegger) naquela triste despedida no fim de ‘Terminator 2’, o cenário é caracterizado, não unicamente pela era pós-industrial, mas também pela era ‘bestial’. Neste filme isto rapidamente torna-se claro, que o mundo, Darwiniano, é dominado por mulheres, reprodutores, as viúvas negras - e não por homens racionais de metal, como no mundo Newtoniano.
A história é esta: DNA humano é misturado com DNA alienígena, e o resultado é uma ultra-atrativa, hiper-instintiva, tremendamente sensual humana, dedicada ao fundamental (ou funnaminal, como Joyce poderia colocar isto) princípio Darwiniano: transar com machos saudáveis e produzir bebês-alienígenas saudáveis.


‘Mimic’, 1997, Guillermo Del Toro

Em ‘Mimic’, uma bióloga brilhante (Mira Sorvino), que é estéril e falha em produzir crianças com o companheiro viril (que é também um cientista, mas de menor importância) salva o planeta de uma infestação de baratas mortais. Mas ao tocar nos segredos do DNA, torna-se a mãe de uma nova semente de insetos-humanos que, outra vez, são dirigidos por motivos Darwinianos - eles não desejam apenas sobreviver, mas dominar Nova Iorque, a capital do mundo financeiro e centro de comando para não menos do que todos aqueles satélites transmitindo dinheiro virtual.


‘Alien: Resurrection’, 1997, Jean Pierre Jeunet

Neste novo ‘Alien’, Ripley é transformada por experimentos (DNA) , numa poderosa criatura (besta). Nesta condição, ela está distante do homem-máquina que tentou tornar-se em ‘Aliens’, ao invés disso, aqui ela é perfeição, perfeição da natureza, perfeição de movimento, sexualidade, instintos. Neste formato mais elaborado, ela torna-se a mãe e rainha dos aliens (ela também esbarra na semelhança com a Rainha Elizabeth I, ou ao menos os desenhos que tenho visto desta criatura mítica). E ao fim do filme, vemos seus descendentes retornarem para a Terra, para controlar o povo esperançoso e possivelmente proibir a exploração do espaço para sempre.

Apesar de grupos de resistência à ordem Darwiniana ainda persistirem, e muitos que "adoram o espaço" estão bastante céticos sobre o futuro das corporações de biotecnologia (como em ‘Blade Runner’), o fim do espaço é definitivo. A palavra oficial da 20th Century Fox Estudio, produzindo o próximo 'Alien' diz tudo: "O filme se passará na Terra."


Considere filmes mais recentes, como o de Paul Verhoeven, ‘Starship Troopers’ e Andrew Niccol ‘,Gattaca’. Ambos pretendem deixar claro que o valor social dos ‘Exploradores Espaciais’, ‘Viajantes das estrelas’ e ‘Uniões Galácticas’ não passam de vapores de pura fantasia.
(Em ‘Gattaca’, o programa espacial às luas geladas de Saturno, funciona unicamente como uma metáfora do desejo interior do herói para escapar a realidade eficiente da bio-utopia na Terra.)

O mundo Newtoniano não mais nos transmite ou pressupõe um futuro acreditável, ao invés disso, é útil unicamente quando se deseja olhar para trás, como com o mito dos Cavaleiros do Rei Arthur, decifra os medos e sonhos do passado, muito tempo atrás, em um lugar distante, muito distante...

Charles Tonderai Mudede nasceu em Zimbabwe. Ele vive hoje em Seattle e, junto com o ensino de literatura no Seattle Arts and Lecture , contribui como crítico de cinema no semanal ‘The Strange’.
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segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Jules Verne (Matéria sobre o Centenário da Morte)



O mundo mágico criado, atualmente, por escritores, roteiristas e diretores de filmes como "O senhor dos anéis", "Harry Potter" e "Guerra nas estrelas", certamente paga um tributo ao pai da ficção científica, cuja morte completa cem anos.
Escrita num mundo muito distante das possibilidades acenadas pela alta tecnologia de hoje, "Cinco semanas em um balão", obra inaugural do então desconhecido autor francês Jules Gabriel Verne, lançada em 31 de janeiro de 1863, propunha a primeira de uma série bem-sucedida de viagens literárias, mais tarde chamadas de ficção científica. O produtivo escritor Julio Verne, como ficou popularmente conhecido no idioma português, alimentaria a imaginação de seus leitores com histórias que dificilmente são superadas mesmo depois de passado um século de sua morte, em dia 24 de março de 1905. Seus personagens cruzaram os sete mares, o espaço aéreo terrestre, mergulharam nas águas e penetra-ram nas terras mais profundas, quentes e geladas, até atingir a Lua, ambientadas no presente, passado ou séculos à frente, em trajetórias descritas em mais de 70 obras. Verne nasceu em 8 de fevereiro de 1828 em Nantes, na França, com a vida planejada para seguir carreira de advogado, como o pai. Nessa direção, embarcou para Paris, mas o amor ao teatro promoveu um desvio de rota, ao acatar o conselho do amigo Ale­xandre Dumas (autor de Os três mosqueteiros) para escrever peças, enquanto ganhava a vida como corretor da bolsa de valores da cidade. Com o apoio do amigo e editor Pierre Jules Hetzel, que adequava seus escritos, produzidos com tal avidez que lhe garantia duas a três novas publicações ao ano, trilhou uma bem sucedida carreira. Sua obra constitui-se de ensaios, peças, poemas, contos e romances, mas foram as suas “Viagens Espetaculares” que o consagraram.

Muitas vezes descritas em mais de um volume, publicadas com alguns anos de diferença, as viagens foram material fértil que os estúdios de Hollywood popularizaram pelo mundo afora.

Ricas em detalhes e escritas em tom de diário de viagem, inclusive com notas de coordenadas geográficas, essas histórias maravilhosas nasciam inspiradas na leitura que Verne fazia de outros autores, como o norte-americano Edgar Allan Poe, de revistas como Le Tour du Monde Nouveau Journal de Voyages, e em conversas com amigos cientistas sobre as recentes descobertas e avanços, como Felix Nadar, interessado em navegação aérea e balonismo, tema recorrente em diferentes romances. O resultado é uma fascinante mescla de ficção e realidade, aventura e princípios científicos, que lhe renderam, inclusive, o título de profeta de feitos que a ciência produziria, pelo menos, seis décadas mais tarde, como em sua Da Terra à Lua (1865), com eventos que se assemelham ao programa espacial da Nasa.


O FANTÁSTICO NAS IMAGENS.


As mais de quatro mil imagens presentes nas Viagens Extraordinárias potencializavam a verossimilhança dos acontecimentos e contribuíam para tornar a leitura ainda mais saborosa, em tem­pos em que esforços para combater o analfabetismo na França ainda estavam em andamento.

Arthur Evans, editor do periódico Science Fiction Studies e professor da Universidade
DePauw, dos EUA, analisou as ilustracoes das obras de Julio Verne e concluiu que, para cada seis ou oito páginas, há uma imagem que ilustra os protagonistas, locais visitados, documentos (como mapas e cartas náuticas) e acontecimentos, geralmente antecedendo os fatos narrados, como uma forma de motivar a leitura. Para Evans, as ilustra­cões teriam mais um valor pedagógico do que propriamente o de reproduzir momentos cruciais da história. Entre os principals ilustradores de Julio Verne estavam George Roux e León Benett, cujo trabalho era minuciosamente acompanhado e muitas vezes até modificado pelo próprio autor das histórias. Certa vez, o editor Hetzel se viu obrigado a intervir em um aparente desentendimeto entre Verne e Benett sobre a representacao de um dos protagonistas. Embora Julio Verne nunca tenha visitado o Brasil, ambientou uma de suas Viagens Extraordinárias em solo nacional. Em A jangada – 800 léguas pelo Amazonas, publicada em 1881, conta a trajetória de uma família em uma espécie de casa flutuante até o destino final, Belém, para realizar o casamento da filha. Há também mencões ao descobrimento oficial do Brasil, em uma publicacao de 1873.

VISÃO FUTURISTA

Seus últimos trabalhos tratavam dos impactos da tecnologia no ambiente, como em "Propeller Island" (1896), onde populações nativas de ilhas da Polinésia são destruídas, ou em "The sphinx of the ice fields" (1897), onde prevê a dizimação de baleias. A última obra foi "A invasão do mar" (1905), onde um projeto de criação de um mar através de canais de comunicação com o Mediterrâneo, é mal recebido pela população local que vê seu estilo de vida ameaçado. A mudança do tom, inicialmente otimista em relação aos benefícios que a tecnologia poderia trazer à humanidade, acontece, principalmente, depois da morte de Hetzel, em 1886 e é um dos motivos do livro "Paris no século XX" (1863) só ter sido publicado em 1989, pelo bisneto de Verne. Temendo a repercussão negativa que teria na carreira do escritor, seu editor preferiu censurar a história de um jovem que vive em um mundo de arranha-céus, trens de alta velocidade, carros movidos a gás e rede mundial de comunicação, que não encontra a felicidade diante de um ambiente altamente materialista, resultando em um fim trágico.

CENTENÁRIO

As comemorações são coordenadas pelo Centro Internacional Jules Verne, na França que iniciou o Congresso Mundial de Ju­les Verne, de 19 a 27 de março, com uma série de debates, encontros e visitas que transcorreram em várias cidades francesas como Picardie, Loire e Paris. As Viagens Extraordinárias também serão recontadas ao público de Picardie até novembro deste ano e a Casa de Jules Verne, localizada em Amiens (cidade onde morreu), deverá ser inaugurada em dezembro de 2005 com a proposta de ser um espaço de encontro com a vida e obra do autor francês. Em 16 de outubro de 2004 os estudantes Gilles Savy e Nicolas Pimbaud refizeram a famosa Viagem ao redor do mundo em 80 dias, monitorada por satélite e que produ-ziu fotos, vídeo e material que será divulgado durante o ano todo nas escolas de Picardie. A editora Actes Sud e a cidade de Nantes reeditarão títulos pouco conhecidos e esquecidos, na coleção "Os mundos conhecidos e desconhecidos", em 9 volumes. Até o início do ano, não havia eventos
programados no Brasil. Uma série de edições em português e filmes inspirados nas "Viagens Extraordinárias" está acessível em bibliotecas, livrarias, sebos e locadoras.

Obras mais populares de Julio Verne:
■ Cinco semanas em um balão, 1863
■ Paris no século XX, 1863
■ Viagem ao centro da terra, 1864
■ Da terra a lua, 1865
■ Vinte mil léguas submarinas, 1870
■ A volta ao mundo em oitenta dias, 1872
■ A ilha misteriosa, 1874
■ Robur, o conguistador, 1886

Germana Barata.