sábado, 5 de abril de 2008

A alvorada de HAL - Entrevista com Arthur Charles Clarke - Parte 1/4



Dawn of HAL -Entrevistador Dr. David G. Stork

Stork: Diga-nos como foi seu primeiro encontro com Kubrick e como 2001 começou.

Clarke: Estava em Sri Lanka quando Stanley Kubrick me escreveu e disse que queria fazer um bom filme de ficção científica, que ficasse famoso, subentendendo que até então não havia nenhum que fosse bom o bastante. Não concordei totalmente com ele. Nesta época eu estava indo para New York, trabalhar em um projeto para a Time/Life, um livro que se chamaria ‘Man and Space’. Assim que cheguei, entrei em contato com Stanley e nos encontramos e decidimos trabalhar em um projeto que se chamaria ‘The journey beyond the stars’, acho que era esse o título. Minha sugestão era ‘How the solar system was one’, que eu ainda acho que era um bom título. Você está ouvindo Steven Spielberg? De qualquer forma, eu estava trabalhando na Time/Life e estava numa reunião com Stanley certa tarde e eu ia de um projeto para o outro, então tive que voltar para Sri Lanka e nós mantivemos nos falando de todo jeito. Quando finalmente o contrato ficou pronto, me mudei para a Inglaterra e lá a maioria do trabalho foi feito. Apesar disso, a maioria dos meus escritos preliminares foram feitos na suíte do Hotel Chelsea, em New York.

Stork: Quais idéias são suas? Quantas são dele? Como foi o relacionamento para escrever o roteiro?

Clarke: Depois de mais de um quarto de século é difícil lembrar quem fez o que. Mas tenho certeza de que o título ‘2001’ foi de Stanley. E ainda não sei de onde tirou, não sabia na época, que 2001 era o primeiro ano de um novo século e de um novo milênio.
Começamos selecionando seis contos meus que achei que seria um material que poderíamos utilizar. Mas de fato, usamos apenas um, ‘The sentinel’, que era sobre a descoberta de um artefato alienígena na lua.

Stork: Mas não existe um computador em ‘The Sentinel’, então você precisou acrescentar mais um personagem, HAL.

Clarke: É claro que o personagem chave na expedição era o computador HAL, que como muitos disseram era o único personagem humano no filme. HAL surgiu aos poucos. Em certo momento íamos usar uma voz feminina. Athena, acho que era seu nome. Não sei por que, de novo, mudamos para HAL. Tentei por anos acabar com a lenda de que HAL viesse de IBM. Mas de fato, como disse no livro, HAL vem de ‘Heuristic Algorithmic’, e significa que ele pode trabalhar com um programa pronto ou pode olhar em volta e procurar uma solução melhor, desta forma você vai ter o melhor dos dois mundos. Foi assim que HAL foi criado.

Stork: Ficou popular que HAL vinha de IBM, apenas sendo a sílaba anterior. Qual foi a sua reação quando isso foi divulgado?

Clarke: Não sei quem descobriu a coincidência, que não foi realmente marcante. E não me lembro de Stanley ter comentado sobre isso. Por algum tempo ficamos embaraçados com isso, mas eu acho que hoje a IBM se orgulha da associação.

Stork: E como era no set de filmagem?

Clarke: Raramente eu ia ao set. Em anos eu só visitei duas ou três vezes. Acho que minha principal impressão de Stanley era sua determinação e também sua bondade. As pessoas pensam que ele era um tirano, um personagem do tipo Napoleão. É claro que Napoleão era uma personalidade que interessava a Stanley. Mas não, ele tinha muita atenção comigo.

Stork: Como você aprendeu sobre ciência da computação? Aquele era o inicio da moderna ciência da computação. Como você imaginou que HAL seria?

Clarke: Sempre me interessei por computadores. No meu tempo de serviço civil, eu costumava freqüentar o Museu das Ciências. O item que mais me fascinava era o computador incompleto de Babbage. Uma maravilhosa maçaroca de engrenagens, que podia calcular tabelas algorítmicas. De fato, houve um modelo posterior que foi terminado. Eu já coloquei minhas mãos nele uma vez. Acho que está num filme no Museu das Ciências. Então, sempre me interessei, acho que ele aparece em várias histórias minhas, acho que era inevitável...


Stork: Você também aprendeu como programar em um HAL Jr. 9.000. Nos fale disso.

Clarke: A Hewlett Packard gentilmente me presenteou com um dos primeiros computadores de mesa. Aprendi sua programação bem primitiva. Tinha cartões que eram inseridos dentro. Lembro de escrever um programa com 25 linhas e somente cinqüenta erros nele.

Stork: Mas você com certeza leu e se aconselhou com cientistas. Nos diga como foi.

Clarke: Quando estavamos fazendo 2001, nós consultamos especialistas em diversas áreas concernentes a certas partes do filme. Então, obviamente, encontramos os melhores nesta área de computação, o que significa dizer MIT e Marvin Minsky, que veio ao estúdio e conversou com a gente. E sabe, nós pegamos suas idéias, mas que não foram necessariamente responsáveis pelo que acontece no filme.

Stork: O que eles disseram?

Clarke: Não me lembro agora.

Stork: O filme é tão preciso quanto a descrição da tecnologia, por que isso é tão importante, usar da ciência corretamente, quando se faz um filme ou qualquer trabalho de arte?

Clarke: Isso sempre provocou discussão - o quão preciso cientificamente precisa ser um filme de ficção científica. E meu argumento é de que se não for assim, não é ficção científica, é fantasia. Agora, não tenho nada contra a fantasia, alguns dos meus trabalhos favoritos são de fato fantasia. Mas se for ficção científica então deve haver possibilidade daquilo acontecer ou pelo menos não deve haver argumentos contra. Algumas vezes eu estendo meus horizontes, como no meu romance com Baxter, ‘The light of other days’, criamos uma espécie de bureau do tempo, onde se pode ver e ouvir qualquer coisa que já aconteceu. Bem, tivemos que escrever muito para explicar como ele funcionaria. Então você não pode provar que é impossível. Pode ser que toda a informação esteja de alguma forma guardada em algum lugar. Sendo assim, nós poderíamos ser capazes de recuperá-la.

Stork: 2001 devia parecer muito distante em 1964. Você chegou a pensar seriamente em estar aqui hoje, no início de um novo século ?

Clarke: Em 1964, quando começamos a trabalhar no filme, o primeiro pouso lunar ainda levaria 5 anos para acontecer. 2001 se parece de fato, com 1984; foi uma data escolhida aleatoricamente, pois parecia um futuro remoto. Não sei onde suspeitava ou esperava estar por volta de 2001, você sabe que assumimos que as coisas que mostramos um dia iriam acontecer. Hoje nos esquecemos que na década de 60, haviam planos por parte da NASA, de se colocar homens em Marte na década de 80.

Stork: Então você está desapontado?

Clarke: Sempre me pergunto o por que das coisas que mostramos, como a base lunar, a exploração de júpiter, ainda não aconteceram. Minha resposta é que muito mais coisas aconteceram do que poderíamos pensar. A exploração através de sondas de quase todos os planetas. Closes da superfície marciana, a Sojourner correndo entre as rochas. Que visão fascinante!

Stork: Dos novos desenvolvimentos, algum em particular mexeu com você?

Clarke: Suponho que a maior surpresa em tecnologia desde que fizemos 2001 foi a revolução do microchip. Foi uma das maiores na história. É um dos exemplos da terceira lei de Clarke - qualquer tecnologia avançada o bastante é indistinguível de magia. Meu exemplo favorito é o cd-rom. Aqui está um disco prateado que cabe na sua mão e você pode colocar um filme inteiro nele! Nos mais modernos, você pode colocar oito filmes inteiros nele!

Stork: HAL, é claro, era inteligente ou parecia, e era bem malvado. Você de alguma forma ligava inerentemente a inteligência à maldade?

Clarke: Inteligência não é algo fácil de se definir. Eu gosto de pensar que seja a reação apropriada à qualquer circunstancia. HAL se viu diante de uma situação onde ele pensou que a missão estava em perigo, devido ao comportamento dos astronautas e tomou uma decisão que ele depois admitiria ter sido desastrosa.

Stork: Por todo o filme existe esta ligação do desenvolvimento ferramental com o bélico. A bela cena onde o osso está flutuando e corta para uma arma nuclear no espaço. Parece fazer esta ligação, entre inteligência e guerra.

Clarke: É um fato triste que muito do desenvolvimento tecnológico se destina a destruição, e este é um dos temas de 2001. Não fica claro no filme, quando aquele osso sobe no ar e se torna um artefato nuclear orbital. Mas é exatamente o que quer dizer.

Stork: Então por que vocês decidiram que HAL deveria matar a tripulação?

Clarke: No filme isso acrescenta dramaticidade para uma história que alguns críticos disseram depois, onde quase nada acontecia. Nós não explicamos o por que. Se tivéssemos feito, parte da magia se perderia. De fato, fui acusado de fazer com que a magia fosse destruida, por explicar demais o que acontecera, nos livros seguintes.

Stork: Quer dizer que não vai explicar agora?

Clarke: Bem, eu não expliquei exatamente por que HAL fez o que fez. Mas Stan foi gentil ao dizer que nós estávamos tentando construir um mito. E um mito deve ser inesgotável, e deve ter um número de explicações pendentes, na verdade muitos livros foram escritos por outras pessoas, explicando do que 2001 se tratava.



The Sentinel [ Download ]
The light of other days [ Download ]
Marvin Minsky - Why peoples think computers can't [ Download ]
Marvin Minsky - Society of mind [ Download ]


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