domingo, 27 de abril de 2008

Ficção Científica às cegas - Parte 1/2



Assombrados com a velocidade com que a tecnologia avança, uma facção de escritores (geeks de carteirinha) acredita que nosso mundo irá mudar tão radicalmente que prever o que está por vir é quase impossível.

A nave estelar FIELD CIRCUS atravessa o espaço em sua jornada de 7 anos em direção a uma anã marrom há 3 anos luz de distância da Terra e, se tudo correr bem, a um encontro de negócios com uma civilização alienígena.

Estamos por volta do ano 2030 e temos muito tempo para matar. Os três membros da tripulação, Boris, Pierre e Su Ang, estão sentados no bar, uma sala de paredes de madeira, decorada como um pub de 300 anos em Amsterdam. O cardápio de cervejas tem 16 páginas, mas Boris optou por um coquetel feito de medusas jovens. Pierre está prestes a dar um gole em sua cerveja quando a jornalista Donna aparece. Ela não é exatamente bem vinda, mas se senta perto deles e pede uma garrafa de cerveja alemã ao garçom e pergunta aos três se eles acreditam na Singularidade.

Ah sim, a Singularidade. Uma palavra bastante real, apesar de ter sido tirada de um romance, 'Accelerando', de um escritor britânico chamado Charles Stross. A idéia foi concebida por Vernor Vinge, um cientista de computadores e escritor de ficção científica, professor emérito da universidade de San Diego. Segundo Vinge, vivemos um período sem precedentes tecnológica e cientificamente na história. Em algum momento, a convergência de campos como a inteligência artificial e a biotecnologia levará a humanidade a uma mudança sem precedentes. No momento seguinte ao acontecimento da Singularidade, o mundo será tão diferente daquele que conhecemos quanto hoje nos parece a idade da pedra.

De volta a bordo da Field Circus, Donna, a jornalista, pergunta aos membros da tripulação quando eles acham que a Singularidade realmente ocorreu.

Quatro anos atrás, diz Pierre. Su Ang vota em 2016. Mas Boris, o bebedor de medusas, diz que a noção da Singularidade é tolice. Para ele, tal coisa não aconteceu.

Espere um minuto, interrompe Su, estamos aqui viajando em uma espaçonave do tamanho de uma lata de soda limonada. Deixamos nossos corpos para trás, poupando espaço e energia necessários para que a Field Circus, movida a vela-laser, possa viajar mais rápido. Nossos cérebros foram 'uplodados' e nós vivemos eletronicamente dentro de pequenos nano-veículos espaciais. O pub aqui, assim como outros ambientes, é virtual, para que nós não soframos o choque da privação sensorial. E você me diz que a idéia de uma mudança fundamental na condição humana é tolice?

'Accelerando' é a história de três gerações de uma família disfuncional vivendo na Singularidade.

O que faz o romance pouco usual não é o tamanho da nave ou os estranhos coquetéis ou mesmo a metáfora sexual - uma transferência do código-fonte culmina em um coito - mas o fato de que Stross tem a intenção de imaginar nosso, relativamente próximo, futuro.

Este é um ato de coragem, por que a moderna ficção cientifica está passando por uma crise de fé.

A última safra de histórias, na maioria, embarcou no caminho da fantasia (elfos e magos), história alternativa e space-operas sobre civilizações interestelares do ano 12.000 (que tipicamente tratam sobre como estas civilizações se envolvem umas com as outras).

Apenas uma pequena parte de tecno-profetas está atenta a extrapolar as correntes mais comuns e imaginar como parecerá nosso mundo nas próximas décadas.

'Estamos parados em um nevoeiro, diz Stross, não sabemos para onde estamos indo, só que estamos indo bem rápido.'

Os lendários Arthur Charles Clarke, Isaac Asimov e Robert Heinlein ainda parecem soberbos. Clarke levou a humanidade a alcançar os céus com sua visão de satélites de comunicação, elevadores espaciais e estações espaciais giratórias. Asimov mudou nossa perspectiva sobre encher nossos lares com robôs que limpam, cozinham e algumas vezes se viram contra seus donos. E, com suas empolgantes aventuras espaciais, Heinlein nos levou para galáxias distantes e civilizações futuras. A época de ouro da FC, que durou dos anos 40 aos 50, inspirou gerações de jovens a se tornarem astronautas, físicos e engenheiros, a tentar tornar reais algumas daquelas histórias.

(E alguns destes jovens ainda prestam reverência a suas raízes: A NASA por exemplo, algumas vezes se utilizam de escritores de FC como consultores.)

Em uma feira de FC em Boston, meses atrás, vi à venda diversas reimpressões de clássicos da FC da época de ouro, mas também encontrei quadros de pessoas seminuas em cenas de batalhas contra dragões, vendedores de cristais e um músico de folk se preparando para um recital. Onde estava a ciência da Ficção científica? O que houve com aquela história de antecipar o futuro?

A antropóloga Judith Berman, que recentemente escreveu um artigo sobre FC, deu uma resposta terrível para estas perguntas.

'A maioria das histórias modernas é nostálgica e tratam com prudência e pouco entusiasmo as novas tecnologias. Ainda assim, existe ainda muita gente excitada com a visão da Singularidade de Vinge, mas esta mudança ainda está a caminho, científica e tecnologicamente. A cosmologia está passando por revisões fundamentais, a genética oferece, aos pesquisadores, as ferramentas para reconstruir os blocos da vida e a nanotecnologia, muito recentemente, deixou de ser uma fantasia para virar realidade.'

'Muitas linhas de progresso estão convergindo', diz o físico e editor da revista Analog Stanley Schmidt. 'Se você se fixa em apenas uma dessas linhas, você não irá entender como outra delas pode afetá-lo.'

Este novo tipo de futuro exige uma nova espécie de guia, como Stross, cujo primeiro romance 'Singularity Sky', foi indicado para o prestigioso prêmio Hugo, ou suas freqüentes colaborações com Cory Doctorow, que em 2000 ganhou o premio Campbell como melhor novo escritor de FC.

Ambos são programadores de computador por formação.São geeks. Eles acompanham o que acontece na ciência e na biotecnologia, sem esquecer de mencionar política e economia. E eles elegeram a Singularidade como a idéia que simboliza a 'nova descoberta' da nossa era. Se suas histórias irão dar vida a uma nova época de ouro ou inspirar uma nova geração de sonhadores ainda veremos, mas seu foco é pertinente.

'Agora mesmo, vivemos um tempo excitante por que existe uma explosão de descobertas na biologia, na astronomia, física, por toda parte.' diz David G.Hartwell, o editor-senior da Tor Books. 'E Doctorow e Stross são os escritores que estão mais ligados a isso tudo.'

Ficção Científica às cegas - Parte 2