terça-feira, 30 de dezembro de 2008

O dia em que a Terra parou (Adeus ao Mestre - Harry Bates ) Parte 4/7



ADEUS AO MESTRE - HARRY BATES

Parte 4


Cliff aguçou a audição para ter certeza de que o último guarda havia ido embora, o silêncio na ala era total. Estava feliz com isso, mas não completamente.
A escuridão e a idéia de que não estaria seguro fez a possibilidade de uma companhia algo não de todo desagradável.
Uma hora após o escurecer por completo, retirou os sapatos, amarrou-os juntos, pendurando-os no ombro e percorreu o corredor que o deixaria na área de exibição.
Tudo se assemelhava a noite anterior.

Gnut era uma grande sombra distinta no fundo do salão. Seus olhos vermelhos brilhando de novo como se sobre Cliff.
Igual a vez anterior, mas ainda mais cauteloso, Cliff esgueirou-se como uma cobra, com o estômago ao chão e lentamente alcançou a plataforma onde ficava o painel de controle.
Uma vez em seu esconderijo, colocou sua câmera a postos, assim como a arma no coldre do ombro, apertado contra o peito.
Desta vez, disse a si mesmo, ele conseguiria as fotos.
Sentou-se numa posição de onde pudesse manter Gnut à vista o tempo todo. Sua visão já se adptara à falta de luz.
Eventualmente sentia-se solitário e com um pouco de medo, os olhos vermelhos estavam lhe dando nos nervos, o fazendo pensar que Gnut não lhe faria mal de jeito algum.
Ainda tinha dúvidas se estava sendo observado.

Horas se passaram.
De tempos em tempos, ouvia alguns sons da entrada, do lado de fora, um guarda talvez, ou alguns curiosos passando.
Lá pelas nove da noite ele viu Gnut se mover. Primeiro sua cabeça, virou-se de tal modo que seus olhos brilharam mais intensamente, pois olhava para Cliff. Por um tempo foi só isso, então o vulto de metal escuro deslizou pra frente e então direto na sua direção.
Cliff pensou que não sentiria medo agora, mas seu coração parara. O que iria acontecer?
Com um silêncio surpreendente, Gnut chegou perto, sua sombra cobrindo Cliff, seus olhos vermelhos queimando em direção ao homem minúsculo. Cliff tremia, pois sentia mais medo do que a primeira vez. Não havia planejado isso, e quando viu, falava com a criatura:
‘Não me machuque. Só estava curioso, queria saber o que estava acontecendo. É o meu trabalho. Você me entende? Não vou machucar ou ferir você, eu... não faria isso mesmo se pudesse. Por favor!’
O robô não se moveu e Cliff não sabia se suas palavras haviam sido compreendidas.
Quando sentiu que não conseguiria suportar mais o suspense, Gnut se esticou e pegou algo da mesa ou talvez colocou algo nela, então virou e recuou.
Cliff estava seguro! Novamente o robô o havia poupado.
Cliff perdera parte de seu medo. Sentiu que estava seguro agora e que Gnut realmente não o faria mal. Por duas vezes tivera esta possibilidade e nas duas vezes apenas olhara para ele e se afastara.
Cliff não sabia o que Gnut tirara da mesa.
Como da vez passada, o robô fôra até a nave, fizera uma série de ruídos e então a porta se abriu e quando a rampa desceu, ele entrou.
Cliff ficou sozinho por provavelmente quase duas horas.
Nenhum som vinha lá de dentro.
Cliff podia espiar da porta, mas não estava certo de que devia fazê-lo.
Com a arma ele poderia enfrentar outro gorila, mas se Gnut o pegasse então seria o fim.
Esperou que algo fantástico acontecesse, sem saber o quê; talvez o rouxinol de novo, talvez o gorila, talvez nada.
O que quer que acontecesse, mais uma vez o pegaria completamente de surpresa.
Ouviu um som abafado e então palavras, voz humana, até familiar.

‘Senhoras e senhores. O instituto Smithsonian os saúda nesta nova ala interplanetária e as maravilhas que no momento presenciam.’

Era a gravação da voz de Stillwell, mas não vinha dos falantes do teto, mas de algum lugar de dentro da nave. Depois de uma pausa, continuou:

‘Todos vocês devem...devem...’ e então parou.

O cabelo de Cliff se arrepiou. Esta não era a gravação.
Houve silencio por pouco tempo então um grito, um grito humano abafado, de dentro do coração da nave; seguido por tosse e choro de um homem em grande terror.

Cada nervo de Cliff se retesou quando ele chegou até a porta. O som que ouvira saindo de dentro agora se aproximava, saindo das sombras, uma forma certamente humana. Tossindo e meio cambaleante, correu na direção de Cliff.
Três metros atrás, a sombra enorme de Gnut surgiu na porta, seguindo-o.
Cliff parou sem respiração.
O homem era Stillwell, ele corria para a mesa que antes Cliff usara como esconderijo, estava bem perto dela quando seus joelhos dobraram e ele caiu ao chão. Gnut já o alcançara, mas Stillwell não o vira ainda. Parecia bastante doente, fazendo esforços espasmódicos.
Gnut não se moveu, então Cliff disse:
‘O que foi, Stillwell? Eu posso te ajudar? Não tenha medo! Sou eu, Cliff Sutherland, você me conhece, o repórter.’
Sem mostrar surpresa em encontrar Cliff ali e tossindo como um afogado, Stillwell gemeu:
‘Me ajude! Gnut... Gnut.’
Parecia não conseguir falar.
‘Gnut o quê?’
Consciente dos olhos vermelhos sobre ele e receoso de ir até o sujeito, Cliff disse afirmativo:
‘Gnut não vai machucá-lo. Tenho certeza que não. Ele não me feriu. Qual o problema? O que eu posso fazer?’
Então, num acesso de energia, Stillwell levantou-se nos cotovelos.
‘Onde eu estou?’ perguntou.
‘Na ala interplanetária do museu. Não reconhece?’
Somente a respiração pesada de Stillwell era ouvida. Então fraco perguntou:
‘Como cheguei aqui?’
‘Eu não sei.’ Respondeu Cliff.
‘Eu estava fazendo uma gravação, quando de repente, estava aqui, ou melhor, lá...’
O medo tomou-o novamente.
‘Então o quê?’ perguntou Cliff gentil.
‘Eu estava numa mesa e Gnut estava sobre mim. Gnut! Eles o inutilizaram. Ele nunca poderia se mover!’
‘Agora ele pode. Mas acho que não irá machucá-lo.’
Stillwell caiu de costas ao chão.
‘Estou muito fraco. Você me consegue um médico?’
Não parecia se dar conta que o robô estava bem próximo dele, olhando-o na escuridão.
Como Cliff hesitou sobre o que fazer, o homem começou a tossir, regular como um relógio.
Cliff não ousava se mover, mas nada que fizesse poderia ajudá-lo agora.
De repente Stillwell estava silencioso e quieto.
Cliff temia pelo seu coração, então olhou para a os olhos nas sombras sobre ele.
‘Ele morreu.’ Sussurrou Cliff.
O robô pareceu entender, ou ao menos o ouviu. Curvou-se para a frente e contemplou a figura imóvel.
‘O que é isso, Gnut? O que você está fazendo? Posso ajudá-lo de algum jeito? De alguma forma eu sei que você não é hostil, e não acredito que tenha morto este homem. Mas o que aconteceu? Pode me compreender? Você fala? O que está tentando fazer?’
Gnut não fez qualquer som ou movimento, apenas olhava para o corpo aos seus pés.
Na face do robô, Cliff viu triste contemplação.’
Gnut permaneceu de pé por muitos minutos, até que se abaixou, agarrou o morto com cuidado, até gentileza, pensou Cliff, e em seus poderosos braços carregou-o para perto da parede onde jaziam os pedaços desmembrados dos robôs atendentes. Deitou-o ao lado deles e então deu as costas e voltou para a nave.
Sem nenhum traço de medo, Cliff começou a andar até a parede, onde estavam os robôs desmantelados. Quando parou, Gnut voltava emergindo da nave de novo.
Carregava num braço outra forma de vida, uma maior, e algo na sua mão. Colocou-as ao lado do corpo de Stillwell, o que Cliff não conseguiu ver bem, e então voltou à nave e de lá trouxe um novo corpo, que colocou junto aos outros e desta vez, ao voltar para a nave, parou na rampa olhando para trás, imerso em pensamentos profundos.
Cliff reteve sua curiosidade enquanto pode e então foi ver o que Gnut depositara ao chão.
O primeiro da fila era o corpo de Stillwell, como esperava, a seguir estava a grande massa do gorila morto, aquele da última noite. Ao lado do gorila estava o pequeno rouxinol.
Estes dois haviam estado dentro da nave durante o dia e Gnut, apesar da gentileza com que os tratara, pensou, estava apenas limpando a casa.
Mas havia um quarto corpo na história, e que ele não conhecia.
Teve que chegar bem perto para olhar bem.
O que ele viu, o fez perder o fôlego.
Impossível! Seu sangue gelou.
O primeiro corpo era o de Stillwell, mas o último era Stillwell também, haviam dois corpos de Stillwell, ambos idênticos e ambos mortos.
Cliff recuou com um grito e então o pânico o fez correr de Gnut e gritar e chutar freneticamente a porta de entrada. Ouviu sons de fora.
‘Deixe-me sair! Gritava aterrorizado. Deixe-me sair! Deixe-me sair! Rápido!’
Uma abertura surgiu entre as portas e ele passou por ela como um animal selvagem e correu pelo caminho.
Um casal que passava próximo parou para vê-lo correndo até que alguma razão penetrasse em sua cabeça, então diminuiu a velocidade até parar.
Olhou para o prédio onde tudo parecia normal como sempre e apesar do medo, Gnut não o perseguia.
Estava descalço e respirava com dificuldade.
Sentou no gramado úmido e calçou os sapatos, então parou para observar o prédio e recompor-se.
Que reunião incrível. Um Stillwell morto, um gorila morto e o rouxinol morto, todos diante dos seus olhos. E a última e assustadora coisa, o segundo Stillwell morto, que ele não vira morrer.
E a estranha gentileza de Gnut para com eles e sua expressão de tristeza, que vira por duas vezes em seu rosto.

Enquanto olhava, as coisas ao redor do prédio já não eram as mesmas.
Muitas pessoas apareceram à porta, o som de sirenes de um helicóptero da polícia e de outros lugares, pessoas chegavam correndo, a princípio poucas, mas daí mais e mais.
Os helicópteros policias pousavam do lado de fora do prédio e ele pensou já ver alguns policiais espiando o interior do prédio. Então de repente as luzes do prédio se acenderam.
Controlado, Cliff voltou. Entrou.
Achava ter visto Gnut pela última vez subindo a rampa, mas agora ele estava na posição de sempre, como se nunca tivesse saído de lá. A porta da nave estava fechada e a rampa desaparecera.
Mas os corpos, os quatro corpos estranhamente colocados em linha, continuavam deitados entre os restos dos robôs destroçados, exatamente onde ele os deixara na escuridão.
Ouviu assustado um grito atrás de si. Um guarda uniformizado do museu apontava para ele.
‘É aquele homem! Quando eu abri a porta ele a forçou para sair de dentro e correu como um louco!’
Os policiais cercaram Cliff. ‘Quem é você e o que é isso tudo?’ perguntou um deles áspero.
‘Me chamo Cliff Sutherland, repórter fotográfico. Era eu que estava aqui dentro e que saiu correndo, como disse o guarda.’
‘O que fazia? E de onde apareceram aqueles corpos?’
‘Senhores, terei prazer em responder, mas primeiro os negócios. Coisas fantásticas aconteceram nesta sala e eu vi tudo e sei da história toda, mas...’ Sorriu. ‘Eu declino de responder suas perguntas antes que eu tenha vendido a minha história para os jornais. Sabem como é. Se me deixarem usar o rádio da polícia, apenas por um momento, os senhores terão toda a história em seguida, digamos, em meia hora, quando a televisão a transmitir. Enquanto isso podem acreditar, não há nada que possam fazer e nada perderão com o atraso.’
O policial que fizera a pergunta piscou para um dos outros, decerto não se tratava de um cavalheiro; avançou para Cliff com algemas, que só reagiu mostrando suas credenciais de imprensa. Ele as olhou rapidamente e as guardou em seu bolso.
Umas cinqüenta pessoas já estavam por ali e entre elas dois membros do sindicato, que Cliff conhecia. Eles sussurraram algo no ouvido do policial e então saíram todos até o helicóptero.
Lá, por rádio, em cinco minutos, Cliff fechou um acordo onde ganharia mais dinheiro do que receberia trabalhando um ano inteiro. Depois entregou as fotos e negativos, contou toda a história e eles não perderam sequer um segundo, partindo para a central levando a exclusiva.
Mais e mais pessoas chegavam e os policiais faziam a segurança ao redor do prédio.
Dez minutos depois, uma grande equipe de rádio e televisão abriu caminho entre a multidão, mandada ali pelos homens do sindicato com os quais havia feito acordo. E poucos minutos depois, sob as luzes dos refletores montados por operadores, e de pé junto à nave, não muito distante de Gnut – ele recusou-se ficar junto do robô – Cliff contava a sua história para as câmeras e microfones e, numa fração de segundos, para todos os cantos do sistema solar.
Imediatamente após, a polícia o levou para a prisão.
Fizeram isso por princípio, e porque estavam furiosos com ele.