domingo, 27 de abril de 2008

Ficção Científica às cegas - Parte 2/2


Stross e Doctorow estão sentados do lado de fora no bar do hotel Chequers em Newbury, uma pequena cidade a oeste de Londres.
O hotel está repleto por uma espécie distinta de fãs de FC, membros de um grupo chamado Plokta (Press lots of keys to abort = ‘Pressione um monte de botões para abortar’)

Stross e Doctorow só se encontraram quatro vezes, mas possuem a intimidade confortável de amigos de longo tempo, o que só é possível na era do email. (Escreveram juntos inúmeras e aclamadas histórias e romances muito antes de se conhecerem pessoalmente.)

Stross, 39 anos, natural de Yorkshire, mora em Edinburgo, parece uma mistura de monge Shaolin e um balconista barbudo de uma videolocadora, com a cabeça raspada - exceto por um rabo de cavalo.

Doctorow, um canadense de 33 anos, parece um jovem escritor de moda, jaqueta de couro e óculos fashion, também ao modo dos geeks, com um laptop G4 (Mac) sempre à postos.

Parecem ter o mesmo background, Stross trabalhou nos anos 90 como desenvolvedor de software para duas firmas 'dot-com' inglesas; então virou jornalista e começou a escrever uma coluna sobre Linux para uma revista de computadores. Doctorow, que recentemente se mudou para Londres, saiu da faculdade aos 21 anos direto para seu primeiro emprego como programador, começou uma empresa 'dot-com' e foi co-fundador de um conhecido blog sobre tecnologia, o Boingboing.net.

Apesar de estarem já a algum tempo longe da programação, isso continua a influenciá-los e a infectar suas idéias.

No Chequers, Doctorow menciona o título original de um de seus romances, uma história sobre um filtro de spam que se torna inteligente e tenta comer o universo. 'Pensava em chamá-lo de /usr/bin/god ''Genial.' diz Stross."Há um público que sabe que /usr/bin significa o repositório para programas Unix e que god (Deus) seria o nome do programa, mas parece um pouco abstrato para o restante do público.

Esta tendência pode tornar difícil para um leitor desavisado de Stross; para compreendê-lo, as pessoas precisariam de uma overdose de Slashdot (um blog que se auto-intitula 'Notícias para Nerds'). Ainda assim, é esta fluência em computação que permite a estes escritores se aproximarem tanto, do futuro.

'Stross e Doctorow são os tipos certos para isso, com a cabeça cheia de bits' disse o romancista Bruce Sterling, um dos ciperpunks original.

Nesta tarde de sábado, o pessoal do Plokta convergiu para o bar, para trocar idéias e opiniões. Alguns sacaram seus laptops para aproveitar do hotspot Wi-Fi (área de banda larga de internet sem fio)local.Eles me lembraram o que acontece quando Manfred Macx, um personagem de 'Accelerando', chega em uma nova cidade no início do livro:o seu traje-computadorizado começa a trocar dados e ele pensa 'ah, a banda (internet) daqui é boa'. Eu me sinto mais como Donna, a jornalista da Field Circus, aproveitando um belo dia de conversas e drinques, questionando sobre a Singularidade.

Na mesa do bar com Stross e Doctorow, tiro vantagem de uma rara pausa na conversa para perguntar:'Será a Singularidade o evento mais notável da história humana?

'Numa resposta em dupla, os dois revolucionários dizem que será como o nascimento de uma linguagem, o ocaso da agricultura; mas logo concordam que a Singularidade irá muito além de tudo isso em intensidade.

'A singularidade é bem termonuclear em sua finalidade' diz Doctorow 'É apocalíptica, no sentido exato da palavra'.

A dramatização de Doctorow é fácil de digerir perto do que Vinge diz da Singularidade:

'Logo depois dela ocorrer, a era humana chegará ao fim. A Singularidade marcará o início da era 'pós-humana'.

Vinge espera que a Singularidade ocorrerá quando a inteligência da máquina sobrepujar a dos homens. A vida na Terra sempre avançou por simulação e adaptação, pondera. A vida animal conseguiu sua evolução desta forma. Os homens são os únicos animais que aprenderam a fazer isso mais rápido, através da solução de problemas. Uma máquina sapiente o fará ainda mais rápido.

Há uma sensação de expectativa do Plokta enquanto Doctorow se prepara para entrevistar Stross na sala de conferência da Chequers. Esta entrevista de escritor-para-escritor é um dos pontos altos da semana: duas das mentes mais avançadas dentro da FC trocando idéias livremente entre eles e a audiência, discutindo sobre tudo, desde o progresso da inteligência artificial até as tênues relações entre FC e a ciência em si.

Doctorow destila esta última questão com uma simples pergunta:

'Frankenstein seria um romance melhor se Mary Shelley usasse de detalhes biológicos corretos?'

Debatem por um pouco, então Stross sugere: 'Talvez ela estivesse correta - para seu tempo.'

Escritores de FC costumam dobrar as leis da física em prol da história, algumas vezes, Einstein que se dane, você precisa viajar mais rápido que a luz para que nosso herói consiga atravessar a galáxia de uma ponta a outra. Mas o comentário de Stross sobre os escritos de Shelleyse aplica diretamente àqueles que escrevem sobre a Singularidade: tentam ser acurados o máximo que conseguem ser em relação ao seu tempo, extrapolando tendências atuais.

Doctorow diz que só trapaceia se for forçado pela narrativa. Em 'Down and Out', por exemplo, quando as pessoas precisam ser restauradas de suas cópias de backup, os doutores baixam seus cérebros para corpos recém-clonados. A idéia de clones instantâneos é quase mágica, (na realidade clones começam como embriões e crescem até a fase adulta em tempo normal), mas o invento não funciona e permite que um personagem recentemente assassinado volte à sua velha vida para encontrar seu assassino.

O respeito pela precisão é algo natural para os geeks, mas também é um jeito de evitar aquilo que Doctorow chama de 'correções pedantes' dos fãs, que são tão exigentes quanto leais.

O escritor Larry Niven sabe disso mais do que todos. Durante a convenção mundial de FC de 1971, estudantes do MIT protestaram contra a física usada no livro Ringworld gritando:
'O Ringworld é instável!'

Stross, Doctorow e seu público não se limitam aos seus próprios interesses ou mesmo à tecnologia. Para eles, escrever textos futurísticos de FC não significa ter que entender relatividade ou estimar com proximidade a área de superfície de uma vela solar capaz de impulsionar uma espaçonave à metade da velocidade da luz.

O resultado desta obcecada atenção por detalhes gera idéias fabulosas.

Greg Egan, um cientista de computadores e escritor, é um dos inovadores da ficção sobre Singularidade e desenvolveu uma teoria inteiramente nova de cosmologia para este universo pós-Singularidade em seu livro 'Schild's Ladder'. Ele a chama de Teoria Quantum Gráfica, e seu trabalho deixou alguns de seus colegas escritores, alguns deles físicos, confusos, coçando suas cabeças. (Stross brinca dizendo que Egan, pode ser na verdade uma inteligência artificial, pois ele se recusa a dar entrevistas com medo de ser desmascarado no teste de Turing.)

'Apeals Court', uma história que Stross e Doctorow co-escreveram, se passa nos pântanos da Flórida, que sofreram reengenharia para gerar energia. 'Accelerando' é tão densamente tecnológico quanto a FC permite. Numa das passagens, Amber, a filha de Manfred Macx, recebe um pacote de seu pai há muito tempo desaparecido. O entregador da FedEx utiliza um seqüenciador de DNA rápido para que o pacote se abra e revele uma impressora 3D baseada nos condensados Bose-Einstein, uma forma altamente instável de matéria, citada primeiramente em 1995.

É uma técnica clássica de FC: Enquanto os físicos estão ocupados em descobrir uma maneira de criar e manipular esta forma de matéria e publicar seus resultados em ensaios, Stross se debruça sobre seu laptop em seu escritório, buscando artigos sobre estas idéias, concebendo o que aquele trabalho pode vir a criar em 20, 30 ou 100 anos.

Então, estes escritores estão predizendo o futuro ou apenas se divertindo inteligentemente?

Quando perguntei a Vinge, o poderoso-chefão da ficção, sobre a Singularidade, ele parafraseou Robert Heinlein:
(FC é uma grande e incestuosa família. Joan Vinge, ex-esposa de Vernor também é uma escritora de FC; então, sempre que você faz uma pergunta para um escritor, ele ou ela sempre lhe dará a resposta de outro.)

'Se você tiver 1000 macacos escrevendo FC, Heinlein disse, alguns deles poderão estar certos'.

As boas histórias, Vinge acrescenta, deveriam ao menos prover indicações úteis sobre o futuro.

'Ler uma história bem escrita de FC é como executar uma simulação com algum tipo de regra geral. Quando algo fica claro é como se pudéssemos dizer "olhe, este é um pré-sintoma do cenário Z." Então, você fica imediatamente ciente das possibilidades vindouras.

'Em 'Accelerando', as primeiras criaturas a receberem 'uploads' não são humanos, e sim lagostas. Stross disse que teve esta idéia a partir de um artigo de um grupo de cientistas da universidade de San Diego, que criou uma versão eletrônica funcional de uma pequena parte do cérebro de uma lagosta californiana. Stross resume o material publicado da pesquisa para mim, mas diz que não sabe o seu desenrolar.

Parte de mim, confesso, pensa que ele está exagerando, criando uma história como base para o seu trabalho.Poucos dias depois, volto para New York e encontro na internet as pesquisas dos caras de San Diego; pergunto a Stross se são os mesmos de quem ele me falou.
Sigo por um link desta pesquisa, faço perguntas e, algumas horas depois, um físico deste grupo, Henry Abarbanel, me liga. Ele está empolgado, mas também um pouco confuso.

Empolgado por seu trabalho em grupo ter inspirado um romance de FC, perplexo por que ele não consegue perceber uma referência de sua pesquisa na história, apesar de existirem várias referências a lagostas.Falamos um pouco sobre FC em geral: ele era um fã de Asimov quando criança;e então Abarbanel explica o que ele e seus colegas estão fazendo com estas lagostas.
A pesquisa, liderada pelo biólogo Allen Selverston, se concentra na lagosta californiana, porque apenas 14 neurônios são responsáveis por uma área do processo gástrico.
O número de neurônios é incrivelmente pequeno, o que faz com que esta área sirva como modelo. Ainda assim, entender a neurobiologia destes neurônios não é fácil.
Custou a Selverston 25 anos de estudos.

Então Abarbanel e seus colegas precisaram de mais dois anos para entender como recriar este sistema eletronicamente.Também é um trabalho difícil:
Abarbanel compara a ter todas as partes de um 747 no chão de um hangar sem o manual de instruções e tentar juntar as peças e construir um avião.
Tudo isso para simular apenas 14 neurônios.

Uma tarefa simples se comparada a simular os milhares de neurônios que compõem um cérebro humano.Naturalmente, imagino que Abarbanel iria rir sobre a idéia de 'uplodar' uma mente humana.

Mas isso não impede Stross de dar saltos em sua imaginação.

'Francamente, diz Abarbanel, não considero isso uma loucura. Mesmo que isso leve 5, 10 ou 500 anos, não tenho dúvida de queum dia descobriremos como fazê-lo'.

Esta nova tendência na FC, imagino, como todas as melhores que antes vieram, não se trata somente de predizer o futuro ou incrementar uma 'agenda' ou mesmo se trata daquele velho entretenimento com tecnologia.

É tudo isso mas também sobre explorar os limites do possível, construindo mundos distantes e povoando-os, trazendo estas grandes idéias à realidade, ao nosso mundo'.

'É o que supostamente se faz com a Ficção Científica, diz Abarbanel. Fazemos uma extrapolação absurda em magnitude, além daquilo que hoje podemos fazer e se não conseguimos fazê-lo é por que não podemos chegar lá'.

Gregory Mone (Popular Science, 2004) autor do livro 'The Wages of Genius'.


Charles Stross - Accelerando [ Download ]
Charles Stross - Singularity Sky [ Download ]
Cory Doctorow - Down and Out [ Download ]


Ficção Científica às cegas - Parte 1/2

Ficção Científica às cegas - Parte 1/2



Assombrados com a velocidade com que a tecnologia avança, uma facção de escritores (geeks de carteirinha) acredita que nosso mundo irá mudar tão radicalmente que prever o que está por vir é quase impossível.

A nave estelar FIELD CIRCUS atravessa o espaço em sua jornada de 7 anos em direção a uma anã marrom há 3 anos luz de distância da Terra e, se tudo correr bem, a um encontro de negócios com uma civilização alienígena.

Estamos por volta do ano 2030 e temos muito tempo para matar. Os três membros da tripulação, Boris, Pierre e Su Ang, estão sentados no bar, uma sala de paredes de madeira, decorada como um pub de 300 anos em Amsterdam. O cardápio de cervejas tem 16 páginas, mas Boris optou por um coquetel feito de medusas jovens. Pierre está prestes a dar um gole em sua cerveja quando a jornalista Donna aparece. Ela não é exatamente bem vinda, mas se senta perto deles e pede uma garrafa de cerveja alemã ao garçom e pergunta aos três se eles acreditam na Singularidade.

Ah sim, a Singularidade. Uma palavra bastante real, apesar de ter sido tirada de um romance, 'Accelerando', de um escritor britânico chamado Charles Stross. A idéia foi concebida por Vernor Vinge, um cientista de computadores e escritor de ficção científica, professor emérito da universidade de San Diego. Segundo Vinge, vivemos um período sem precedentes tecnológica e cientificamente na história. Em algum momento, a convergência de campos como a inteligência artificial e a biotecnologia levará a humanidade a uma mudança sem precedentes. No momento seguinte ao acontecimento da Singularidade, o mundo será tão diferente daquele que conhecemos quanto hoje nos parece a idade da pedra.

De volta a bordo da Field Circus, Donna, a jornalista, pergunta aos membros da tripulação quando eles acham que a Singularidade realmente ocorreu.

Quatro anos atrás, diz Pierre. Su Ang vota em 2016. Mas Boris, o bebedor de medusas, diz que a noção da Singularidade é tolice. Para ele, tal coisa não aconteceu.

Espere um minuto, interrompe Su, estamos aqui viajando em uma espaçonave do tamanho de uma lata de soda limonada. Deixamos nossos corpos para trás, poupando espaço e energia necessários para que a Field Circus, movida a vela-laser, possa viajar mais rápido. Nossos cérebros foram 'uplodados' e nós vivemos eletronicamente dentro de pequenos nano-veículos espaciais. O pub aqui, assim como outros ambientes, é virtual, para que nós não soframos o choque da privação sensorial. E você me diz que a idéia de uma mudança fundamental na condição humana é tolice?

'Accelerando' é a história de três gerações de uma família disfuncional vivendo na Singularidade.

O que faz o romance pouco usual não é o tamanho da nave ou os estranhos coquetéis ou mesmo a metáfora sexual - uma transferência do código-fonte culmina em um coito - mas o fato de que Stross tem a intenção de imaginar nosso, relativamente próximo, futuro.

Este é um ato de coragem, por que a moderna ficção cientifica está passando por uma crise de fé.

A última safra de histórias, na maioria, embarcou no caminho da fantasia (elfos e magos), história alternativa e space-operas sobre civilizações interestelares do ano 12.000 (que tipicamente tratam sobre como estas civilizações se envolvem umas com as outras).

Apenas uma pequena parte de tecno-profetas está atenta a extrapolar as correntes mais comuns e imaginar como parecerá nosso mundo nas próximas décadas.

'Estamos parados em um nevoeiro, diz Stross, não sabemos para onde estamos indo, só que estamos indo bem rápido.'

Os lendários Arthur Charles Clarke, Isaac Asimov e Robert Heinlein ainda parecem soberbos. Clarke levou a humanidade a alcançar os céus com sua visão de satélites de comunicação, elevadores espaciais e estações espaciais giratórias. Asimov mudou nossa perspectiva sobre encher nossos lares com robôs que limpam, cozinham e algumas vezes se viram contra seus donos. E, com suas empolgantes aventuras espaciais, Heinlein nos levou para galáxias distantes e civilizações futuras. A época de ouro da FC, que durou dos anos 40 aos 50, inspirou gerações de jovens a se tornarem astronautas, físicos e engenheiros, a tentar tornar reais algumas daquelas histórias.

(E alguns destes jovens ainda prestam reverência a suas raízes: A NASA por exemplo, algumas vezes se utilizam de escritores de FC como consultores.)

Em uma feira de FC em Boston, meses atrás, vi à venda diversas reimpressões de clássicos da FC da época de ouro, mas também encontrei quadros de pessoas seminuas em cenas de batalhas contra dragões, vendedores de cristais e um músico de folk se preparando para um recital. Onde estava a ciência da Ficção científica? O que houve com aquela história de antecipar o futuro?

A antropóloga Judith Berman, que recentemente escreveu um artigo sobre FC, deu uma resposta terrível para estas perguntas.

'A maioria das histórias modernas é nostálgica e tratam com prudência e pouco entusiasmo as novas tecnologias. Ainda assim, existe ainda muita gente excitada com a visão da Singularidade de Vinge, mas esta mudança ainda está a caminho, científica e tecnologicamente. A cosmologia está passando por revisões fundamentais, a genética oferece, aos pesquisadores, as ferramentas para reconstruir os blocos da vida e a nanotecnologia, muito recentemente, deixou de ser uma fantasia para virar realidade.'

'Muitas linhas de progresso estão convergindo', diz o físico e editor da revista Analog Stanley Schmidt. 'Se você se fixa em apenas uma dessas linhas, você não irá entender como outra delas pode afetá-lo.'

Este novo tipo de futuro exige uma nova espécie de guia, como Stross, cujo primeiro romance 'Singularity Sky', foi indicado para o prestigioso prêmio Hugo, ou suas freqüentes colaborações com Cory Doctorow, que em 2000 ganhou o premio Campbell como melhor novo escritor de FC.

Ambos são programadores de computador por formação.São geeks. Eles acompanham o que acontece na ciência e na biotecnologia, sem esquecer de mencionar política e economia. E eles elegeram a Singularidade como a idéia que simboliza a 'nova descoberta' da nossa era. Se suas histórias irão dar vida a uma nova época de ouro ou inspirar uma nova geração de sonhadores ainda veremos, mas seu foco é pertinente.

'Agora mesmo, vivemos um tempo excitante por que existe uma explosão de descobertas na biologia, na astronomia, física, por toda parte.' diz David G.Hartwell, o editor-senior da Tor Books. 'E Doctorow e Stross são os escritores que estão mais ligados a isso tudo.'

Ficção Científica às cegas - Parte 2

Por que a Ficção Científica Brasileira é invisível e marginalizada?



Marcello Simão Branco - 16/04/2008

Creio ser interessante iniciar esta conversa procurando responder ao título provocativo de um artigo do crítico e escritor Fausto Cunha, intitulado: “A Ficção Científica no Brasil – Um Planeta Quase Desabitado”.

O texto, publicado no livro 'No Mundo da Ficção Científica', do professor universitário americano L. David Allen, em 1975, faz uma recapitulação das origens do gênero no Brasil, situando-o como de importância marginal na literatura brasileira e intermitente quanto ao volume de sua publicação, baseada em sua maioria em autores estrangeiros.

Veja que o texto é de 33 anos atrás. Na época ainda havia algumas editoras publicando o gênero, até com séries específicas, como a Hemus, a Expressão e Cultura, a José Olympio e a Francisco Alves, fora outras editoras importantes que o publicavam também como a Nova Fronteira, a Brasiliense e a Record.

E anda assim, Cunha dizia que a ficção científica no país era um planeta quase desabitado, se referindo principalmente aos autores brasileiros, que ele situa como tendo o melhor momento nos anos 60, por meio das coleções de livros editadas por Gumercindo Rocha Dorea, na GRD, e Álvaro Malheiros, na Edart.

Nesse sentido, agora no início do século 21, a ficção científica brasileira ainda seria um planeta quase desabitado?

Creio que com o movimento de fãs e escritores do início dos anos 80, naquilo que já foi identificado como a Segunda Onda da FCB, o gênero no Brasil começou a ser mais habitado, para usar o termo de Cunha, mas mesmo com mais de 20 anos de vida, ainda seria de uma espécie difícil de ser encontrada. Como se vivesse no subterrâneo, no fundo de um oceano ou uma região de difícil acesso.

E quais as razões desta ‘marginalização’ e desta ‘invisibilidade’? Certamente há várias, creio que relacionadas com aspectos internos à ficção científica e externos a ela.

Para aqueles que a cultuam e praticam o discurso de preconceito e marginalização é recorrente, procurando situar o problema fora de seus muros. Desta perspectiva, o gênero seria discriminado porque
1) as pessoas não gostam de ciência e a tomam como uma leitura difícil;
2) as pessoas acham que é uma literatura escapista ou alienada, que reproduz valores estranhos à sociedade brasileira, sendo não mais do que um sub-produto da
indústria cultural capitalista e
3) seria difícil levar a sério uma ficção científica escrita por brasileiros, já que o país tem problemas de educação e falta de investimento em ciência e tecnologia muito graves.

É possível defender que ao menos parte destas três razões apontadas principalmente pelo fã do gênero, tenha perdido um pouco de seu vigor.

Primeiro, porque os assuntos científicos estão inseridos no cotidiano das pessoas, num país quase totalmente urbanizado e integrado internacionalmente como o Brasil.

Segundo, porque a ficção científica não é apenas entretenimento, podendo discutir e refletir sobre grandes questões do nosso tempo e a partir de uma perspectiva ora distanciada, ora metafórica.

Terceiro, porque embora o país ainda tenha um longo caminho a percorrer em direção a uma educação básica de qualidade, o parque industrial brasileiro é o maior do Hemisfério Sul, as universidades brasileiras possuem algumas conquistas científicas importantes e, mais do que um símbolo, o Brasil é um dos poucos países do mundo que já enviou um homem ao espaço.

Estes são os chamados problemas externos ao gênero no Brasil, principalmente do ponto de vista dos fãs, mas haveria também alguns que estão situados em seu interior. Estes mais controversos e difíceis de serem comparados com os externos, pois se referem a uma realidade particular de uma pequena, mas combativa comunidade de fãs e escritores forjados em seu meio.

Em todo caso, os tais problemas externos de certa forma justificariam uma postura mais defensiva e auto-centrada por parte daqueles que cultuam e praticam o gênero no Brasil. Desta forma, criam sua própria sub-cultura, não por acaso utilizando o nome estrangeiro de fandom (domínio do fã) para se auto-intitular.

É uma marca desta geração em sua criação e desenvolvimento ser muito semelhante às suas congêneres estrangeiras, especialmente no que diz respeito às suas instituições, como clubes, fanzines, prêmios e convenções.

Por pelo menos uma década todas funcionaram relativamente bem, algumas com muito boa qualidade. É possível dizer que a comunidade brasileira de ficção científica tem procurado se integrar e participar de uma comunidade internacional dedicada ao gênero.

Ler na íntegra o artigo no site da Scarium

sábado, 26 de abril de 2008

The rough guide to sci-fi movies - John Scalzi


Contents:
The Origins: Science fiction literature
The History: A warp-speed tour of sci-fi film
The Canon: 50 sci-fi classics

A Clockwork Orange
The Adventures Of Buckaroo
Banzai Across The 8th Dimension!
Akira
Alien
Aliens
Alphaville
Back To The Future
Blade Runner
Brazil
Bride Of Frankenstein
Brother From Another Planet
Close Encounters Of The Third Kind
Contact
The Damned
The Day The Earth Stood Still
Delicatessen
Destination Moon
Escape From New York
E.T: The Extraterrestrial
Flash Gordon: Space Soldiers (serial)
The Fly
Forbidden Planet
Ghost In The Shelll
Gojira
The Incredibles
Invasion Of The Body Snatchers
Jurassic Park
Mad Max 2
The Matrix
Metropolis
On The Beach
Planet Of The Apes
Robocop
Sleeper
Solaris
Star Trek II: The Wrath Of Khan
Star Wars: A New Hope
Star Wars: The Empire Strikes Back
The Stepford Wives
Superman
Terminator 2: Judgement Day
The Thing From Another World
Things To Come
Tron
12 Monkeys
28 Days Later...
20,000 Leagues Under The Sea
2001: A Space Odyssey
La voyage dans la lune
War Of The Worlds

The Icons: Faces of sci-fi film
Crossovers: Blurring sci-fi
The Science: Theories that fuel sci-fi

The Locations: Star tours
Global: Sci-fi film around the world




The rough guide to sci-fi movies - John Scalzi [ Download ]

Horror em Amityville - Jay Anson




A 18 de dezembro de 1975 um casal jovem com três filhos mudou-se para uma bela casa com porão decorado, piscina e abrigo para barcos.

Vinte e oito dias depois eles fugiram aterrorizados, abandonando praticamente todos os seus bens.

A história fantástica de suas experiências recebeu ampla publicidade na televisão, jornais e revistas americanas. A família Lutz, porém, nunca revelou todos os detalhes para qualquer órgão dê divulgação. Agora suas lembranças cuidadosamente reconstituídas juntamente com entrevistas independentes com o clero e a polícia local -trazem à tona toda a sua angustiante história.

George e Kathleen Lutz sabiam que a casa fora cenário de um crime monstruoso -Ronald DeFeo, de 23 anos, fora condenado por ter assassinado seus pais, irmãos e irmãs. Mas a propriedade pareceu-lhes ideal, e o preço era conveniente.

No dia da mudança, um padre convidado para benzer a casa ouviu uma voz ordenar: "Saia!" Na casa paroquial, o sacerdote começou a sofrer uma série de padecimentos inexplicáveis. Enquanto isso, na nova casa, a família Lutz iniciava a mais terrível experiência de suas vidas.

Tudo começou quando a menina de cinco anos vangloriou-se de ter um novo companheiro de brinquedos, alguém - ou alguma coisa, chamada "Jodie".

Horror em Amityville - Uma história verídica por Jay Anson [ Download ]

Revistas de FC, Fantasia, Fantástico e Horror

Bang [ Download ]


Samizdat 01 [ Download ]

Black Rocket 01 [ Download ]

THX 1138 - Ben Bova



Chapter 1
"I need something stronger."
The observer frowned at his viewscreen picture. It was badly distorted. He could hardly make out the man's face.
"What's wrong?" he asked.
"Nothing. . . nothing really. I just feel. . . I need something stronger."
There were fifty viewscreens on the observer's panel; all of them clamoring for attention. His head throbbed painfully. He said to this one:
"If you have a problem, don't hesitate to ask for assistance. Call 348-853." And get off my back. . .
"Yes. . . Thank you, I'll be all right. I'll be all right," said THX 1138.
He stood in front of the medicine cabinet and somehow knew that the observer was no longer paying attention to him. He took two pills from the nearest bottle and returned the bottle to the cabinet.
Popping the two pills into his mouth, THX 1138 made his way back to the hologram room.

THX1138 de Ben Bova a partir do roteiro de George Lucas e Walter Munch [ Download ]

THX 1138 - Roteiro



1. BLACK T.V. MONITOR
Point of view from inside a small medicine cabinet. The door is opened creating a low hum, and throwing light on THX 1138, a man about thirty-five years old. He has a closely shaved head: which makes him appear bald. The image is distorted as seen over a TV monitor.

MALE VOICE
What's wrong?

THX takes a bottle of blue pills out of the cabinet and talks directly into the camera.

THX
Nothing, nothing really. I just feel kind of lousy. I need something stronger.

MALE VOICE
If you have a problem, don't hesitate to ask for assistance. CALL 348-853

THX
Yes, Thank you, I'll be all right. I'm all right.

He takes two of the pills and returns the bottle the cabinet.

FEMALE VOICE
For more rapid results use your new D code on your Mercicontrol card. Thank you.

THX closes the cabinet.

THX 1138 - Roteiro de George Lucas e Walter Munch [ Download ]

domingo, 20 de abril de 2008

RAY CUMMINGS


Raymond King Cummings (30 de Agosto 1887 - 23 Janeiro 1957) escritor americano nascido em New York, considerado por muitos como o pai do gênero de Ficção Científica pulp.
Cummings trabalhou com Thomas Edison como assistente pessoal e escritor de ensaios técnicos entre 1914 e 1919. Seu trabalho mais conhecido se chama 'The Girl in the Golden Atom', publicado em 1922. Sua carreira como escritor conta com mais de 750 romances e contos, alguns com o pseudônimo de Ray King, Gabrielle Cummings e Gabriel Wilson.

A brand new world
Tama of the light country
Aerita of the light country
Monster of the moon
Requiem for a small planet
The Golden temple
Derelict of space
The dead man laughs
The white invaders
Wandl the invader
The girl in the golden atom
Tarrano the conqueror
Beyond the vanish point
Brigands of the moon

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50 robots to draw and paint - Keith Thompson


50 robots do draw and paint - Keith Thompson [ Download ]

domingo, 13 de abril de 2008

Pretensões da Ficção Científica do século 21 - Entrevista com David Brin


Entrevista concedida a by Cristopher Hennessey-DeRose

David Brin, este autor-pai-marido-professor de ciências, escreveu diversos romances, entre eles o indicado ao Hugo, ‘The Postman’, que o levou a ganhar um Locus e foi adaptado para o cinema. ‘The uplift war’ e ‘Earthwere’ foram indicados para um Hugo assim como seu trabalho ‘Kiln People’.

Também tem escrito sobre a ciência por trás da FC, para revistas respeitadas, como Analog e Science Fiction Age, se tornando uma voz reconhecida, quando o assunto envolve questões políticas e sociais.

Cristopher: A Ficção Científica é largamente utilizada por inúmeros autores para contar histórias de interesse humano, e como uma decisão pode afetar muitos, tentando assim, tornar a mensagem mais fácil de digerir.

Brin: Somente uma fração dos autores de Ficção Científica possuem algum conhecimento científico. Aquilo que mais nos dá prazer em ler é a história. Eu penso que um nome melhor para nosso gênero devia ser 'história especulativa' - da saga humana, o que Einstein chamou de 'gedankeneksperimenten', ou 'considerações-experimentais colaborativas', onde o leitor é um parceiro ativo. O futuro é uma dimensão para estes experimentos. Outros podem se ocupar criando um passado plausível ou um presente alternativo, como Nabokov tentou fazer em seu romance Ada.

De uma maneira geral, FC é sobre expandir as perspectivas disponíveis, além do limitado presente familiar, libertando a literatura pela extensão da história do homem através do reino das possibilidades. A Fantasia vai além, mergulhando na improbabilidade.

Isto acontece por que se dá na mais poderosa parte do cérebro humano, o lóbulo prefrontal, que usamos diariamente para explorar nossas opções, criando cenários futuros ou simplesmente para o dia seguinte. Nada é mais humano. Ainda assim, algumas pessoas parecem compelidas a menosprezar a FC como uma caricatura - pastiches de Star Wars (Guerra nas Estrelas).
Não tenho idéia do porquê fazem isso.

Cris: O que pensa a respeito da clonagem?

Brin: A clonagem é inevitável, como o avião ou a eletricidade. Não é necessariamente mal. O ponto chave moral é que o clone de qualquer pessoa será uma pessoa viva, com direitos humanos. Duplicar genes não muda isso, assim como vemos gêmeos idênticos como uma cópia do outro. Se chegarmos a isso, o estúpido dilema moral - como o dos ricos pagando por órgãos novos, para se manterem vivos - irá desaparecer.

Glory Season fala sobre clonagem em um futuro próximo. Kiln People é sobre algo diferente - sobre fazer cópias temporárias de si mesmo. Essas cópias - ou golems - de vida curta, apenas um dia, não são seres vivos independentes, mas extensões da pessoa original, que redeposita suas memórias ao final do dia, oferecendo a conveniência de poder estar em dois ou mais lugares simultaneamente. Em outras palavras, é o sonho das pessoas muito ocupadas, mas com conseqüências.

Cris: Você tem uma visão especial, de como as pessoas lidam com mudanças?

Brin: Eu tento evitar colocar esta 'Coisa', nas mãos de alguma elite convenientemente segregadora - algum tipo de agência governamental obscura e conspiradora, ou de um cientista louco. Estas convenções acabam gerando histórias divertidas - mas se tornam terríveis clichês. Ao invés disso, gosto de imaginar o que aconteceria se todos tivessem acesso a esta novidade. Dando-a para as massas. Não somente por que é mais interessante, mas é o que acontece.

Cris: Ter nascido no sul da Califórnia teve algum efeito nos seus escritos?

Brin: Se o ambiente onde você cresce te afeta? A Ficção Científica floresce sob condições como eu conheci quando criança - um misto de confiança e otimismo e novos tipos de terror abstrato. Abundância sem precedentes, os pulmões queimando pela fumaça venenosa de Los Angeles. Os livros de história afirmavam que, qualquer outro tempo da história humana era mais violento do que a minha calma vizinhança, uma segurança surpreendentemente acolhedora, balanceada pela expectativa do mundo, a qualquer momento, fritar numa guerra nuclear. Estas justaposições significam dizer que eu, como muitos escritores da Califórnia, nos sentimos seguros sobre discutir e explorar extravagantemente , com completa falta de inibição pessoal. Não tenho medo de ser queimado na estaca. E ao mesmo tempo, não estamos tranquilos. De uma posição segura, podemos olhar horrorizados uma miríade de fracassos, dez mil maneiras de brilhantes esperanças acabarem mal. Isso acaba criando o hábito de sempre se perguntar - ‘e se’. É claro que não é a primeira vez que o paradoxo favorece a exploração. Sempre existiu alguns jovens pirados, querendo contrariar a aristocracia e mudar as convenções. Só que agora estes poucos são centenas, e não pertencem a uma casta rica. Excentricidade tornou-se um dos traços pessoais mais admiráveis - ao menos é o que mostra a mídia de massa. Algo, definitivamente mudou e a Ficção Científica fez seu papel.

Cris: Ser classificado como autor de Ficção Científica preocupou você?

Brin: Isso pode ser um pouco cansativo. Aqueles que desesperadamente procuram erguer os muros nesse gueto, estão sempre se auto proclamando independentes, alardeando sua veneração às ‘eternas verdades da humanidade’ - uma das frases mais decrépitas que posso imaginar. Isso glorifica a crença de que a natureza humana é intrinsicamente extática - exatamente os mesmos problemas, os mesmos erros paralisantes que contaminam cada geração. Nem sequer tranformam isso em uma coisa boa! Não me entenda mal. A Ficção Científica reconhece o valor da grande literatura do passado, de Aristóteles a Melville, de Shakespeare a Shelley. Mas neste longo percurso, nossos jovens devem lutar contra as mesmas agonias mostradas por Eurípides, Dostoyevsky e Fitzgerald? Não é o propósito de uma boa história, transmitir empatia pelo sofrimento do outro, para que outros não precisem repetí-los?

As crianças não são capazes de aprender com os erros dos pais? Se podem, então certamente eles se depararão com problemas novos e estarão diante de novos desafios, iguais aqueles que enfrentamos, que nossos avós consideravam impossíveis. Ao invés de ‘verdades eternas’, a ficção cientifica é obcecada por transformações e mudanças. Explorar as possibilidades - para o bem e para o mal - o que nos espera logo à frente. Que gênero poderia ser mais relevante nos tempos em que vivemos?

Cris: Do ponto de vista de negócios, você prefere tratar com editores ou diretores de cinema?

Brin: Hollywood tem a vantagem de estar voltada para o lucro obsceno - de uma maneira ou de outra, você não pode resistir. Em contraste, publicar é relativamente barato. O lado bom disso é que os grandes egos são atraídos para o cinema. Publicar é bem menos avarento e intrometido. Se você se garante como autor, você fica livre para criar o que você bem quizer. O meio do caminho entre uma coisa e outra, é o mundo das graphic novels (quadrinhos para adultos). Meu segundo título (enorme - 144 páginas) chamou-se ‘The life eaters’ (DC Comics, Outubro de 2003), foi uma colaboração fascinante com um grande artista, Scott Hampton, mais Todd Klein, assim como produtores, diretores de arte, etc.
O processo de roteiro - é muito parecido com o de um filme. Um filme de orçamento baixo porém, com maravilhosos - apesar de planos - efeito especiais, e a complexa satisfação de ter participado dos esforços de uma equipe de verdade. Espero que venham a aparecer outras formas de intermediar as artes no futuro, de uma maneira de que toda a noção de fazer um filme e contar uma história, se misturem em algo novo.

Cris: Como você fica por dentro da tecnologia atual?

Brin: As pessoas me mandam coisas. Sou convidado a participar de conferencias científicas. Sou contratado como consultor ‘tecno-futurista’ por empresas de ponta. Em outras palavras, sou bem pago para fazer perguntas para as mentes mais brilhantes do mundo. A vida é tão injusta. Em outras civilizações, eles queimavam gente como eu em estacas. Apesar de uma miríade de perigos e rompantes de estupidez, vivemos uma verdadeira renascença.

Cris: O que te inspira?

Brin: A difícil saga da história humana. Toda manhã quando levanto e percebo que os bárbaros não incendiaram minha casa, nem levaram meus filhos, é um grande dia. Qualquer um que nega a palpável existência do progresso, não sabe nada sobre a vida, ou o passado. Mas é uma confiança frágil. Pode ser destruída se formos tolos ou não batalharmos o máximo que pudermos. Não quero que minhas crianças voltem a viver em cavernas. Quero vê-los voando por ai, feito deuses, em um mundo seguro. É pedir muito? Os chatos e os niilistas que criticam sem parar, sem ver o progresso, não estão tentando fazer as coisas melhorarem. Estão só aproveitando o barato entorpecente do ressentimento, sem contribuir com coisa alguma construtiva. De qualquer forma, é melhor eu estar certo. Por que só um mundo, cheio de pessoas espertas, será capaz de lidar com os problemas que esperam à nossa frente. Grandes problemas requerem atenção de uma civilização melhor.

Cris: Qual a responsabilidade dos escritores de FC hoje?

Brin: Liberdade. Liberdade para explorar. Para se encantar com a mudança e com a transformação e compartilhar com prudência este encanto, com as pessoas que irão experimentar rápidas mudanças em suas vidas.

Cris: O quanto deste papel de desorientação social cabe a Ficção Científica atual?

Brin: Bastante, eu creio. Poucos autores estão dispostos a considerar a possibilidade das pessoas comuns serem mais inteligentes do que eles pensam. De fato, eu acho isso surpreendente, quão adaptáveis as pessoas comuns podem ser. Se fossem completos idiotas, ao invés de agir como tolos - todos estariam mortos. Então por que tantos escritores agem como se tivessem inventado o ultraje moral e o as roupas de couro pretas? Não tem uma mensagem mais comum na mídia em massa - dos vídeos de rock aos filmes e romances - do que a 'Suspensão da Autoridade' (“Rebeldes são sempre os heróis. Obediência das normais é mostrado como algo pior do que a morte" Jean Baudrillard) Recebemos esta mensagem desde bem cedo. Não dá para convencer as pessoas de sua quase infinita capacidade criativa, se as pessoas inteligentes permanecerem nos mesmos ‘tropos’ (movimento orientado por um estimulo exterior que opera unilateralmente) com que foram amamentadas.

Cris: Algum conselho final para se viver o século 21 ?

Brin: Questione conjecturas. O esperado. Meus colegas autores de FC - vocês são pagos para isso! Em algumas outras culturas, seriamos queimados por isso! Diabos, nossa cultura
pode derrepente se deteriorar - está mais perto disso e já quase aconteceu várias vezes.


www.davidbrin.com

www.futurist.com/portal/future_trends/david_brin_empowerment.htm

Roteiros de Terror - The Shining





















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Roteiros de Terror - Planet Terror

















Planet Terror [ Download ]

Roteiros de Terror - Land of the dead

















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Roteiros de Terror - Doctor Strangelove






















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Roteiros de Terror - The Birds





















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Roteiros de Terror - The Rocky Horror Picture Show














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sábado, 5 de abril de 2008

A alvorada de HAL - Entrevista com Arthur Charles Clarke - Notas e links


O PLANETA DOS MACACOS E O OSCAR

O filme ‘O Planeta dos Macacos’ (PLANET OF THE APES) foi baseado no romance de Pierre Boulle, dirigido por Franklin Schaffner e recebeu três indicações para o Oscar de 1968: Arranjo musical (Jerry Goldsmith), Figurino (Morton Haack) e Maquiagem (John Chambers). Ganhou com o último.

O CENÁRIO LUNAR

Havia uma teoria na época sobre uma conspiração ligando Stanley Kubrick e a NASA. Ele teria auxiliado na criação dos efeitos especiais utilizados na fraude do pouso lunar americano.
A imagem http://www.afraudedoseculo.com.br/images/kubrick3.jpg é do set do filme ‘2001’.

A RENÛNCIA QUE QUASE CANCELOU O FILME

Lyndon B. Johnson, líder político democrata, eleito vice-presidente de John Kennedy em 1960, assumiu a presidência dos EUA após o assassinato de Kennedy e foi o idealizador da ‘Grande Sociedade’. Sob seu governo, o país fez explorações espaciais espetaculares. Quando três astronautas orbitaram com sucesso a lua (Dezembro de 1968) Johnson disse:: "Vocês levaram todos nós, de todo o mundo, a uma nova era."

Apesar de ter sido reeleito em 1964, crises como a da questão racial e a situação no Vietnã, o levaram a entregar o cargo em 1968. Morreu cinco anos depois, de ataque cardíaco, em seu rancho no Texas.

BRITSH INTERPLANETARY SOCIETY (BIS)

A FAMOSA PARTIDA DE XADREZ ENTRE MÁQUINA E HOMEM

Em Maio de 1997 o supercomputador da IBM, Deep Blue, disputou várias partidas com o campeão mundial de xadrez da época, Garry Kasparov, derrotando-o. O evento foi transmitido pela Internet.

Site oficial Deep Blue

A BELL

Conhecida como Bell Labs ou hoje, AT&T Bell Laboratories, é uma empresa dedicada a pesquisa e desenvolvimento de novas tecnologias e teve sua origem na Bell Telephone Company fundada em 1878 por Alexander Graham Bell.

ALAN TURING

ALAN TURING HOMEPAGE

A ENIGMA

Enigma era uma máquina usada para de/criptografar mensagens. Usada comercialmente desde 1920, foi adotada pela Alemanha Nazista durante a Segunda Guerra Mundial.

BLETCHLEY PARK

SRI LANKA

A ilha de Sri Lanka, ou pequena lágrima da Índia, no passado conhecida como Serendib, Dharma e Ceilão, fica no sul da Ásia, a 31 km da Índia. Ex-colônia inglesa, é desde 1948, uma república independente.

TEORIA ALGO-HEURÍSTICA

CHARLES BABBAGE

MARVIN MINSKY

Marvin Lee Minsky professor da MIT, formado em matemática pela Harvard e Princeton, é uma autoridade no campo da Inteligência Artificial, psicologia cognitiva, lingüística computacional, robótica e ótica. Trabalhou na construção do primeiro simulador de rede neural e colaborou no desenvolvimento das mãos mecânicas, no microscópio de varredura, no sintetizador musical e na linguagem Logo, entre outras invenções.

Marvin Minsky Homepage

SOJOURNER

DAISY

A canção ‘Daisy Bell’, que faz parte da cultura popular inglesa, foi utilizada em 1962 pelo físico John Larry Kelly Jr. da Bell Labs, para demonstração do sintetizador de voz desenvolvido pela empresa. Arthur Clarke por coincidência visitava na época um amigo, John Pierce, na Bell Labs, e ficou tão impressionado que solicitou uma gravação para ser usada em ‘2001, Uma Odisséia no espaço’.

A letra: ‘ There is a flower within my heart / Daisy, Daisy / Planted one day by a glancing dart / Planted by Daisy Bell / Whether she loves me or loves me not / Sometimes it's hard to tell / Yet I am longing to share the lot / Of beautiful Daisy Bell / Daisy, Daisy, give me your answer do / I'm half crazy all for the love of you / It won't be a stylish marriage / I can't afford a carriage / But you'll look sweet upon the seat / Of a bicycle built for two / We will go 'tandem' as man and wife / Daisy, Daisy / Ped'ling away down the road of life / I and my Daisy Bell / When the road's dark, we can both despise / Policemen and lamps as well / There are bright lights in the dazzling eyes / Of beautiful Daisy Bell / I will stand by you in "wheel" or woe / Daisy, Daisy / You'll be the bell(e) which I'll ring you know / Sweet little Daisy Bell / You'll take the lead in each trip we take / Then if I don’t do well / I will permit you to use the brake / My beautiful Daisy Bell’

Bell Labs: Where "HAL" First Spoke

BIG BROTHER

Big Brother é um personagem ficcional do romance 1984 (de George Orwell), o enigmático ditador de Oceania, um estado totalitário. Orwell descreve que todos nesta sociedade, são permanentemente mantidos sob a vigilância através da tele-telas. O povo é constantemente relembrado disso pela frase ‘Big Brother está vendo você’ e a sua representação lembra a aparência do ditador russo Stalin. O livro não deixa claro se Big Brother realmente existe como uma pessoa ou se é uma imagem criada pelo Partido que governa Oceania.

FLYBY

DOUG LENAT

Douglas B Lenat, matemático e físico, é presidente da Cycorp Inc. em Austin,Texas, e um proeminente pesquisador de inteligência artificial, engenharia ontológica, especialmente sobre ‘máquinas que aprendem’ (programa Eurisko). Trabalha também com simulações militares e ficou conhecido por um artigo criticando a validade do conceito de mutação randômica do Darwinismo.

Out of Mind - Lenat

SONHO E REALIDADE, O COMPUTADOR DE 2001

Como se construir HAL hoje, em 3 simples passos

Restaurando a reputação de HAL (Wired)



Parte 1 - Parte 2 - Parte 3 - Parte 4



A alvorada de HAL - Entrevista com Arthur Charles Clarke - Parte 4/4





Stork: Será que o desenvolvimento dos CG mudará a natureza fundamental da nossa interação com computadores. Será mais visual do que tátil?

Clarke: Irá ser cada vez mais visual, mas também pela fala, e as pessoas já estão tratando computadores como indivíduos, cada vez mais.

Stork: Você consegue enxergar seu laptop ou desktop com uma personalidade ou uma identidade?

Clarke: Meu computador tinha um programa que dizia ‘Me desculpe Dave, eu não posso fazer isso’, quando eu o mandava fazer algo idiota. Mas não é uma personalidade de verdade ainda.

Stork: Podemos ocasionalmente atribuir um sentido nosso às máquinas, mas HAL tinha seu próprio e sabia que existia, de alguma forma. De onde isso veio?

Clarke: Não tenho certeza de onde tiramos nosso sentido de identidade, obviamente ele se desenvolve conforme crescemos e presumidamente HAL também desenvolveu ao nascer em Urbana, ao aprender com Mr.Langley.

Stork: Ainda assim, o sentimento da própria existência, todos temos um. Você acha que uma máquina possa verdadeiramente ter um?

Clarke: Não vejo razão por que um computador não possa possuir qualquer atributo que um ser humano possui. Gosto de citar Marvin Minsky quando diz ‘Sou uma máquina, eu penso’. e você poderia dizer ‘Sou uma máquina, tenho emoções.’ E nós somos máquinas, máquinas baseadas em carbono, algumas pessoas podem dizer ‘ah, você é muito mais do que uma máquina’. Ok, me mostre o que temos, que uma máquina não poderia ter? Esta discussão já dura milhares de anos, eu acho. O fantasma na máquina.

Stork: Então para você não há diferença fundamental entre coisas animadas e inanimadas?

Clarke: Neste espectro contínuo sim, entre estar vivo e não estar, consciente e inconsciente não há divisórias, acho.

Stork: A obscura distinção entre humanos e máquinas, entre animados e inanimados, pensante e não pensante.

Clarke: A barreira entre máquinas e homens, entre computadores e homens, está se movendo o tempo todo. E eventualmente haverá computadores que pensarão serem seres humanos, se você deixar que eles se desenvolvam. E ultimamente podem haver computadores que começaram a fazer coisas que nós sequer começamos a entender, já que uma geração de computadores sucede a outra, com mais e mais recursos. Este é o pensamento que assusta muita gente. Sabe, a velha história de Frankenstein, mas eu sempre disse, talvez otimisticamente, que a real inteligência não será malévola.

Stork: Por que?

Clarke: Qualquer inteligência não será malévola ou agressiva, até que tenha que se defender. Costumo dizer que se houver uma guerra entre homem e máquina, eu saberei dizer que lado a começou.

Stork: Mas imagine que Kubrick discordasse disso. Que máquinas pudessem ser malévolas e que fossem. Ele poderia ter uma idéia diferente de quem começou a guerra.

Clarke: Kubrick tinha uma visão sarcástica, se não pessimista, da tecnologia. É claro que ‘Dr.Strangelove’ é um clássico exemplo de máquinas que vão para o lado errado. Eu não sei se ele concordaria comigo, que uma máquina realmente inteligente não faria o mal.

Stork: Para seres humanos evoluírem é necessário algum conflito. As máquinas não necessitam da seleção natural, do conflito. Talvez esta noção do beneficio inerente ao conflito seja algo que se perca com relação às máquinas e portanto, elas não precisariam ser beligerantes.

Clarke: Nós provavelmente desenvolvemos nossos instintos agressivos através da evolução, por vivermos em um ambiente perigoso, então as máquinas não teriam este pano de fundo, então talvez não fossem agressivas e não fossem malévolas, a não ser que fossem deliberadamente programadas por nós neste sentido, o que é incidentalmente o que ocorre hoje. Todas esperando dentro de silos subterrâneos espalhados pelo mundo.

Stork: Você é praticamente um otimista quanto a tudo que eu li e tudo que sei sobre você. Tudo que eu vi de Kubrick me parece bem pessimista. Foi difícil trabalhar junto com ele, se admitirmos que vocês são pessoas com visões de vida diferentes?

Clarke: Discutíamos sobre todo tipo de coisa, mas não me lembro de perdermos nossa cabeça em momento algum, um com o outro; exceto talvez por uma coisa; a data de publicação do livro.

Stork: Ele tinha medo que o livro viesse a explicar demais?

Clerke: Ele disse que não tinha tempo de olhar meu manuscrito, pois estava ocupado demais com o filme. Apesar disso, tudo correu bem.

Stork: Na sua opinião, quais são as maiores diferenças entre o livro e o filme?

Clarke: São inúmeras diferenças fundamentais entre eles. No livro usamos a gravidade de Júpiter como um impulso (flyby), exatamente como a Galileo fez e está fazendo e as outras sondas espaciais também. Fomos para Saturno por dois motivos: Saturno é o mais belo e mais espetacular dos planetas. Nós decidimos não ir para Saturno no filme por que o departamento de artes não conseguiria reproduzi-lo, e fiquei feliz com isso, por que sei da incrível complexidade dos anéis de Saturno. Nosso Saturno iria parecer ultrapassado, datado. Fiquei feliz por trocar por Júpiter, que também é bastante espetacular, de qualquer maneira.

Stork: O departamento de artes trabalhou bem com a lua. Diga-nos sobre o esforço de fazer uma lua direito. Vocês depois conversaram com astronautas que estiveram lá e que poderiam comparar sua versão com a lua de verdade.

Clarke: Quando fizemos o filme não sabíamos exatamente como era a superfície lunar. Sabemos agora que a superfície é bombardeada constantemente. Tivemos que fazer algumas apostas. Felizmente não estávamos tão longe da verdade. Não pareceu muito ridícula. Os astronautas depois nos cumprimentaram. Eu tenho ao meu lado um belo mapa lunar da missão Apollo 15, com a assinatura deles. Eles deram nome a uma das crateras, de um dos meus livros. Muitos disseram que parecia que nós havíamos estado lá antes deles.

Stork: Uma das diferenças entre o livro e o filme, é que o livro explica bastante enquanto o filme não. Por que não ter as explicações no filme?

Clarke: Sempre sou acusado de dar explicações demais no livro e Stanley era acusado de não tê-las feito, mas Stanley dizia para mim ‘Eu quero dar a você uma experiência emocional, e você não precisa entender exatamente o que está acontecendo, se você sentir aquilo que eu quero evocar.’ Acho que ele estava certo. Stanley queria criar um mito, e um mito é inesgotável e você pode ter suas próprias idéias sobre aquilo ou você pode não concordar com a opinião do cara sentado ao lado. Eu tentei explicar o necessário. Talvez eu tenha explicado coisas demais.

O legado de HAL


Parte 1 - Parte 2 - Parte 3 - Notas e Links

A alvorada de HAL - Entrevista com Arthur Charles Clarke - Parte 3/4



Stork: HAL vive em uma espaçonave entre cientistas, engenheiros e astronautas, mas muito do que hoje ocorre na ciência de computadores está ligado ao lado comercial. Qualquer pessoa possui um computador de mesa, ou um som digital, ou um relógio digital. Me parece uma tendência que foi subestimada e não prevista em 2001.

Clarke: Ninguém imaginou como os computadores tomariam conta do mundo. O presidente da IBM ficou famoso por dizer em 1940, que só haveriam no mercado, cinco ou seis computadores, não me lembro do número exato, mas cada casa hoje tem mais computadores do que isso, quase que em cada quarto. Ninguém, nem mesmo o mais louco dos escritores de ficção cientifica, talvez apenas Isaac Asimov, colocou um Palm top em suas histórias. Isaac provavelmente, eu certamente não.

Stork: Como foi que não percebemos isso?

Clarke: Apenas vemos o que é obvio eventualmente.

Stork: Você foi tão presciente sobre os satélites orbitais. Nos conte sobre sua previsão.

Clarke: Bem, o conceito de um satélite de comunicação orbital é, honestamente, algo simples. Se eu não tivesse escrito meu artigo em 1945, eu sabia de 10 pessoas que o fariam em 1946.

Stork: Descreva-o para nós.

Clarke: Em 1945 eu trabalhava com o mais avançado radar do mundo. Radar de aproximação, que trabalhava com freqüências de 3cm de tamanho de onda. Era um grande segredo. Lembro que quando um dos nossos magnetrons, que geravam a energia, teve que ser mandado para reparos, tive que portar uma arma, no caso de tropas de paraquedistas alemães tentarem roubá-lo. Acho que não faria tanta resistência assim e nem tão eficaz. De qualquer forma, os magnetrons eram secretos e agora tem um em cada forno de microondas. Trabalhava nesse radar de feixe estreito e é claro, que eu sempre estive interessado em viagens espaciais, toda minha vida, e tinha sido membro da British Interplanetary Society, em 1936 em Liverpool. Em 1945 quando parecia que a guerra logo terminaria, alguns de nós, prematuros cadetes do espaço, nos reunimos e dissemos, bem, como podemos fazer algum dinheiro para construir nosso foguete para chegarmos até a lua. Enquanto pensávamos sobre isso, o conceito de usar satélites como retransmissores me surgiu. Não tenho certeza hoje como a idéia não surgiu para outros, nas nossas discussões. Eu fui aquele que escreveu o artigo, então eu o desenvolvi como um trabalho e que incluía tudo que já fora feito até aquela época, incluindo algo que só recentemente foi feito, como o link ótico entre satélites.

Stork: Dos dois maiores desenvolvimentos no mundo da comunicação, satélites e Internet, você foi diretamente responsável por um deles.

Clarke: O que eu não previ e ninguém o fez, foi o extraordinário aparecimento dos cabos. Escrevi um livro sobre o cabo atlântico. Ninguém nunca imaginou que simples filamentos de vidro, teriam uma performance tão superior a qualquer cabo de cobre e desbancariam, inclusive, os satélites - mas são limitados ao sistema ponto a ponto e você precisa de satélites para cobertura global e móvel.

Stork: Durante a produção do filme, você viu apenas partes e pequenos pedaços. A primeira vez que assistiu inteiro foi na noite de lançamento. Você ficou impressionado?

Clarke: Acho que vi o filme completo pouco antes disso, mas só rapidamente e mais o final. Stanley ainda estava montando-o, cortando e mudando-o e não me lembro de meus sentimentos a respeito da primeira vez no cinema, que foi em Uptown, em Washington. Na verdade eu estive nas três apresentações noturnas sucessivas, esta em Washington, em New York e em Los Angeles, vestido de pingüim. Faz tanto tempo, não confio na minha memória do evento. Quase foi um fracasso, devido ao Presidente Johnson ter anunciado sua renûncia e Martin Luther King tinha sido assassinado, muitas coisas estavam acontecendo nos bastidores. Nós realmente não sabíamos o que tínhamos realizado.

Stork: Fale-nos do Oscar.

Clarke: 2001 foi indicado. Acho que por efeitos especiais. Estava no Arthur Chandler Pavilion para a cerimônia, com o melhor discurso não lido jamais escrito. Foi sem dúvida um desapontamento, quando eles anunciaram que você não conseguiu aquilo que tanto desejava. Acho que fiquei um pouco aborrecido por que ‘O planeta dos Macacos’ ganhara um Oscar por maquiagem e achava que tínhamos feito algo ao menos tão bom quanto aquilo.

Stork: O que você teria dito se tivesse ganho?

Clarke: Não tenho a menor idéia do que dizia o discurso. Tenho que procurá-lo qualquer dia desses. Deve estar enterrado nos ‘clarkivos’.

Stork: Vamos falar de HAL e da sua visão. Nós vemos primeiramente HAL como um grande olho vermelho. De onde ele veio?

Clarke: O famoso olho vermelho foi um produto do departamento de artes e eu acredito que alguem em algum lugar, tem o verdadeiro olho que foi leiloado. Na verdade não faz muito sentido, pois eu queria visão binocular. Por que era vermelho? Dava uma impressão agourenta, mas não era prático.

Stork: Mas a gente tinha a impressão de que era ominipresente, não interessava onde você ia, tinha um olho.

Clarke: O Grande HAL está olhando você!

Stork: Você foi unfluenciado pelo Grande Irmão (Big Brother)?

Clarke: Nós estamos entrando em um mundo onde computadores tipo HAL estão nos vigiando. Eles estão instalando câmeras pelas cidades, particularmente em áreas de alta criminalidade, o que nos causa alguma preocupação, mas sou a favor.

Stork: Então HAL reconhece os tripulantes. Ele faz leitura labial. Nos fale de suas habilidades.

Clarke: A única que eu sei foi a sugestão de Stanley, o poder de ler lábios. Primeiro, eu não acreditava que um computador pudesse fazê-lo. Segundo, por que alguem se importaria em dar esta capacidade a ele? É um ponto inportante que nunca foi explicado. De qualquer jeito, produziu uma seqüência inesquecível.

Stork: Mas talvez a leitura labial só tenha aparecido. Uma vez que você tem reconhecimento de fala, uma vez que tem visão,HAL poderia ter juntado tudo isso. Além disso, você nunca aprende leitura labial e assim mesmo consegue fazê-lo.

Clarke: Bem, eu não consigo ler lábios, a não ser que o faça inconscientemente. E agora que estou ficando surdo, eu deveria estar fazendo mais leitura labial. Mas parece incrível para mim que um bom leitor de lábios, possa enganar as pessoas a volta, a ponto de achar que ele pode ouvir.
Stork: Que tipo de problemas HAL teria com este problema de visão? Ele tinha que reconhecer a equipe. Como o faria?

Clarke: O problema técnico é fazer com que HAL reconhecesse o que acontece ao seu redor, milhões e bilhões de bytes de informação por segundo. O que é relevante, e o que não é. É um problema fantástico de programação, mas tenho certeza de que pode ser resolvido, apesar de eu não saber como.

Stork: Por que os seres humanos são tão bons nisso e as máquinas não?

Clarke: Acho que os humanos são bons em extrair mensagens importantes das suas cercanias, por que se não soubessemos que o tigre dentes de sabre está na espreita, nós não estaríamos aqui. Então selecionamos esta nossa habilidade para isso.

Stork: Mas como ele consegue saber onde a tripulação se encontra? Parece um milagre de certa forma, no meio daquela confusão de sinais sensoriais, HAL de alguma forma pode escolher o que ver, o que ouvir.

Clarke: O mais importante para HAL é saber onde a tripulação se encontra. O trabalho de ensiná-lo o que é importante seria tremendo. É o inesperado. Coisas que ninguém pode provavelmente ter imaginado, é que causam os problemas reais. Quero dizer, coisas realmente impossíveis, que vemos na tecnologia de acidentes, que ninguém sonhou o que ocorreria e acontecem.

Stork: Humanos são flexíveis e muita gente acha que os computadores só fazem aquilo que lhes dizem e que nunca serão capazes de antecipar estes eventos inesperados.

Clarke: É uma falácia imaginar que computadores só fazem aquilo que lhes dizem para fazer, por que nós podemos estender suas habilidades. Podemos dizer a eles para serem curiosos, e eles podem aprender coisas que nós não sabemos. Isso já foi feito, de fato, na matemática.

Stork: Quer falar sobre isso? No trabalho de Doug Lenat sobre descobrir novos teoremas matemáticos com computadores?

Clarke: Não sei muito a respeito.

Stork: Nós humanos confiamos bastante na visão. Muito do nosso mundo é visual, muito do nosso cérebro é visual. Acha que poderia ter um HAL sem visão?

Clarke: HAL sem visão seria limitado, mas existem outros sentidos, a habilidade de ler ondas eletro-magnéticas. O som, é claro, você pode ‘ver’ através do som, como os golfinhos fazem. Apesar da visão ser importante, talvez não seja tão mais importante.

Stork: Outro aspecto de HAL é sua emoção. HAL parecia mais emocional do que sua tripulação, como mencionou. Por que fazê-lo assim?

Clarke: Existe um argumento a ser considerado e que poderia explicar o por que de computadores emocionais. Será que poderiam ser inteligentes se não tivessem emoções? É uma questão para a qual não tenho certeza de saber a resposta. Eu penso que emoções são essenciais, a outra é, podemos ter emoções sem inteligência, e todos conhecemos pessoas assim.

Stork: Como ele demonstra estas emoções? Ele é só um olho e uma voz.

Clarke: Com sua voz. É claro que a voz é critica. Não imagino HAL sem a voz de Douglas Rain. De outro modo, é claro, ele mostra suas emoções com suas ações. Desconectar os astronautas dos sistemas de suporte de vida por exemplo.

Stork: Ele diz que tem medo. Um computador pode sentir medo?

Clarke: Não tenho certeza que possa, mas pode ser programado para se comportar como tal. Não sei qual a distinção filosófica entre uma coisa e outra.

Stork: No filme ouvimos a explicação que a programação emocional de HAL faz com que, seja mais fácil de se falar com ele. Mas se HAL possuía sentimentos genuínos nunca saberemos. Ele tinha?

Clarke: Acho que sim. Há uma discussão no filme de fato, onde dois astronautas tentam decidir se HAL tem uma personalidade e se ele é uma pessoa de verdade, e um deles diz ‘ele age como se acreditasse que é’. E é isso. Eu tenho um cachorro e sou muito ligado a ele e eu acho que ele me ama, mas será que ele está somente agindo como se me amasse?

Stork: Isso importa?

Clarke: Quando um comportamento se parece tanto com a coisa real, qualquer que seja, a ponto de não poder distinguí-los, então eu acho que não importa.

Stork: Como você concebeu a morte de HAL?

Clarke: A sua morte é certamente um dos aspectos mais emocionantes do filme, quando Bowman puxa lentamente os módulos. Ainda bem que não fizemos aquele filme nos dias de hoje, pois seriam microchips deste tamanho (indica com os dedos algo minúsculo) ao invés de belos módulos manuseáveis. Não seria nada dramático. Mas, é um tipo de lobotomia, é claro. A idéia básica é essa.

Stork: Você colocou estes módulos apenas para causar o efeito ou existia alguma consideração cientifica por detrás ?

Clarke: Puramente efeito dramático, queríamos que fossem puxados, um depois do outro.

Stork: A sala do cérebro era grande como uma casa e muito iluminada. Quem estava lá além de HAL para ver tanta luz?

Clarke: A sala do cérebro de HAL é engraçada, se pensarmos nos computadores de hoje. Um dos engenheiros poderia precisar entrar lá para ver se tudo estava de acordo.

Stork: Por que a tripulação não tinha relógios digitais?

Clarke: É difícil imaginar o que uma mudança tecnológica pode fazer em 30 anos ou desde que o filme foi feito. Não me lembro dos relógios. Acho que tínhamos alguns com um design antigo por lá, em algum lugar. Poucas tecnologias desaparecem completamente.

Stork: HAL parecia bem simples graficamente. Quer falar algo sobre o crescimento do CG (Computer Graphics)?

Clarke: Aquilo que vemos em 2001 parecia impressionante na época. É claro que hoje podemos fazer coisas incríveis.


Parte 1 - Parte 2 - Parte 4 - Notas e Links


A alvorada de HAL - Entrevista com Arthur Charles Clarke - Parte 2/4



Stork: Kubrick via 2001 por um lado ‘espiritual’. Por que você acha que ele pensava assim?

Clarke: O uso que Kubrick dava para a palavra ‘espiritual’ em relação ao filme é complicado de definir. Eu acho que ‘emocional’ talvez fosse melhor.

Stork: É notável que seja ‘emocional’, quando os personagens não demonstram suas emoções.

Clarke: Surpreendentemente muito da emoção vem quando HAL desconecta os astronautas que dormem e você vê os sistemas de suporte a vida falhando, aquilo é muito tocante.

Stork: Muitos momentos decisivos ocorrem no silêncio.

Clarke: Tentamos ser precisos sempre. Parte da ação acontece fora da Discovery, no espaço, que é claro, totalmente silencioso.

Stork: O que pensa sobre o progresso da Inteligência artificial?

Clarke: Concordo que a Inteligência artificial, como definimos, está uns dez anos à nossa frente. Este dia virá.

Stork: Se você escrevesse esta mesma história hoje, você faria HAL igual?

Clarke: Em ‘2010’ eu fiz mudanças em HAL, e eventualmente fiz dele um sujeito bacana. Se eu tivesse planos de fazer um novo filme, eu certamente o faria desta forma.

Stork: Por que você o fez?

Clarke: Acho que mesmo o pior sujeito pode ser recuperado eventualmente, e esta é uma mudança interessante, fazer de HAL um bom sujeito.

Stork: Então você não pensa nele como uma extensão natural da maldade humana?

Clarke: Inteligência é uma ferramenta que pode ser usada para o bem ou para o mal. A história humana prova que sem a inteligência não se pode fazer nada. É como o fogo. Sem ele não teríamos a civilização e olhe quanta destruição o fogo causou.

Stork: Tem uma cena maravilhosa de HAL cantando ‘Daisy’. Pode nos dizer como isso se originou?

Clarke: Quando HAL é desconectado e canta ‘Daisy, Daisy’ é uma piada, por que o primeiro computador construído para falar nos laboratórios da Bell em 1940, 1950,
cantou ‘Daisy, Daisy’ com uma voz bem mecânica; combinamos isto com meu amigo John Pierce, o diretor do laboratório.

Stork: HAL nasceu em Urbana, Illinois. Por que?

Clarke: Eu escolhi Urbana por um motivo pessoal. Meu professor de matemática aplicada na Kings era George MacVeaty, que depois foi para Urbana e para a Universidade de Illinois. Eu descobri depois que George trabalhou em Bletchley Park, onde eles quebraram o código do Enigma, o código alemão. E aconteceu que o primeiro computador, o Colossus, foi construído com o propósito de quebrar este código. Também em Bletchley Park, trabalhava Alan Turing e ele desenvolveu o teste Kana Machine, eles escreveram um livro chamado ‘Kana Machine Think’ e eles inventaram o famoso teste que se você está conversando, digamos, através de um teleprinter ou um computador e não puder dizer se o seu interlocutor do outro lado, é um ser humano ou uma máquina, estará provado que do outro lado haverá uma inteligência. Hoje este teste é aplicado em outras áreas e as pessoas podem ser enganadas por pouco tempo, mas eventualmente você perguntará alguma coisa e receberá uma resposta estúpida.

Stock: HAL nasceu em 12 de Janeiro de 1992. Por que a data, e por que tão antes de 2001?

Clarke: Acho que HAL teve duas datas de nascimento, uma no filme e outra no livro e ambas ocorreram bem antes de 2001. Não sei por que escolhemos estas datas. Nem estou certo de que sabiam que ambas eram domingos.

Stork: Você chegou a pensar em fazer de HAL um robô. Por que a rejeitou?

Clarke: Pensamos em fazer HAL um robô convencional. Poderia se mover e fazer coisas. Então nós chegamos a conclusão de que seria um clichet. Já haviam muitos monstros mecânicos, você sabe. Robbie, o robô e outros. E é claro, o mais belo robô de todos, em Metropolis, de Fritz Lang. Então fugimos do clichet e pensamos que se distribuíssemos sensores nós poderíamos ver tudo por toda parte e talvez manipuladores que poderiam controlar coisas, não precisariamos mover o cérebro central. Poderia ficar em um só lugar, imóvel. De novo esta era uma idéia antiga, de Olof Stapledon, ‘Last and First men’ onde há uma raça de gigantescos cérebros imóveis, com suportes de vida e todo tipo de sensores, mas nunca se mexiam. Não precisavam.

Stork: Você pode dizer então que primeiramente foi por rações artísticas? Não fazê-lo como um robô.

Clarke: Acho que parte por razões artísticas e também por que era bem mais fácil assim. Imagine em um confronto ente os astronautas e um HAL móvel, balançando os braços e tudo mais, seria uma cena bem dramática - acho que algo parecido com isso é feito de tempos em tempos, mas fico agradecido por não termos feito. Incidentalmente eu me tornei como HAL, por que não posso me mover, mas tenho sensores espalhados pelo mundo.

Stork: HAL matou. Foi assassinato?

Clarke: Quando ele mata, não acho que seja assassinato. Bem, depende inteiramente da sua definição. Podemos dizer que foi auto-defesa, que é um argumento utilizado pela lei. Acho que foi mais auto-defesa do que assassinato.

Stork: Não seria imoral, se desconectar um computador inteligente como HAL?

Clarke: Esta é uma pergunta interessante, se seria imoral desconectar ou desligar-se temporariamente um computador inteligente. De outra forma, alguns computadores poderiam ser capazes de dormir de tempos em tempos, como nós. É um ponto para se discutir. Uma das razões pelas quais fizemos HAL daquele jeito, foi poder mostrá-lo sendo dramaticamente desconectado. Puxando aquelas coisas. Mas é claro, não seria tão dramático se fossem microchips.

Stork: HAL pergunta, não no filme, mas no livro, se vai sonhar quando for desligado. Um computador sonha quando está desligado?

Clarke: Não vejo por que razão não possam. Nós sonhamos para organizar e rejeitar todo tipo de input e informações que retemos durante o dia. Jogue no lixo isso, guarde aquilo, e assim vai. Isso é só o que os sonhos fazem. Estou certo que um computador inteligente terá que fazer o mesmo. Provavelmente o fará por multi-tarefa e não precisará ser desligado.

Stork: Ao longo do filme vemos vários comerciais interessantes. Fale-nos sobre eles e por que você achou que seria a Bell Telephone a ganhar o espaço em 2001.

Clarke: Como a maioria dos filmes de grande orçamento, tenta-se jogar com a indústria, por dois motivos, algumas vezes as companhias irão pagar por isso, de qualquer jeito é uma boa publicidade, nas duas direções, mesmo que nenhum dinheiro venha a aparecer. A Bell Labs é claro, se interessou. É uma ironia que tenha sido desfeita pouco depois do lançamento do filme.


Stork: Nos fale sobre o xadrez como uma marca da inteligência e o que HAL tem a ver com isso.

Clarke: Kubrick escolheu o xadrez por várias razões, estou certo disso. Um dos motivos é que ele modestamente ganhava para jogar xadrez na Washington Square, contra adversários, poucos dólares, mas dava para viver. Felizmente eu nunca aprendi nem as regras mais básicas. Deliberadamente, pois tinha medo de que se eu aprendesse, seria possuído. Foi muita sorte; esta foi uma decisão que tomei quando criança. Eu era aficcionado por jogo de damas e dardos, mas xadrez, de jeito algum! E se eu tivesse me tornado um enxadrista, 2001 nunca teria sido feito. Estou certo que Stanley e eu passaríamos muito tempo jogando e eu ficaria muito frustrado por ser derrotado por ele. Se xadrez é uma prova de inteligência, é claro que é discutível, desde que o campeão de xadrez atual é um computador.

Stork: Por que diz que é discutivel? Deveria significar que a máquina é inteligente. Acha que Deep Blue é inteligente?

Clarke: Se xadrez for um teste de inteligência, então obviamente alguns computadores são mais inteligentes do que seres humanos. Mas se xadrez for uma questão de ‘força bruta’; você sabe, utilizar algoritimos, apenas tentando de tudo até que se encontre um que funcione, então não é realmente inteligência.

Stork: Então você está dizendo que não existem máquinas inteligentes hoje?

Clarke: Tenho duvida se existe alguma máquina realmente inteligente hoje, mas estou certo de que existem algumas sendo testadas. Talvez em dez anos. Robôs que podem construir outros robôs já são uma realidade.

Stork: É vida artificial?

Clarke: Vida artificial é outra questão, não é o mesmo que inteligência artificial. Existem células automatas que são padrões que se movem de um computador para outro de acordo com regras bem simples, e tem um comportamento como seres vivos. Elas podem ser definidas como criaturas vivas, embora suas possibilidades sejam limitadas, eu diria.

Stork: Então você define a vida como algo separado do substrato?

Clarke: Vida é algo que surge com complexidade. Aconteceu de surgir aqui, com base no carbono. Mas poderia ser silício, amônia, plasma. Como no livro de Fred Hoyles ‘The black cloud’ - tudo é possível. Mesmo galáxias inteligentes. É claro que elas pensavam bem vagarosamente.

Stork: E quanto aos sistemas econômicos, são grandes e bem complexos. Aprendem, podem reagir, trocar produtos e as pessoas agem dentro dele.

Clarke: Sim, sistemas econômicos mundiais, são certamente organismos. Eu escrevi um conto, muitos anos atrás, chamado ‘Dial F for Frankenstein’, onde eu assumo que o sistema telefônico mundial em certo ponto, se torna uma entidade viva. Depois de uma ligação, ele subitamente começa a pensar e toma o controle do mundo. Escrevi isso nos anos 60 e acho que foi publicado na Playboy. ‘Dial F for Frankenstein’ se tornou datado hoje, por que ninguém mais disca é claro, e hoje se isso acontecesse, não seria com o sistema telefônico, mas com a Internet. Mas é claro que é uma possibilidade real. Quando a Internet irá tomar conta?

Stork: Alguma sugestão? Alguma idéia?

Clarke: Acho que a Internet já assumiu o controle. Passo 90% do meu tempo na Internet trocando emails, então provavelmente isso já aconteceu.

Stork: Mas ainda não é inteligente. Acho que concorda comigo.

Clarke: A Internet não é inteligente, nem a maioria das pessoas que a utilizam. Acho as vezes penso que não sou inteligente, por gastar tanto tempo da minha vida nela.

Stork: Computadores são ubiguos. Tratamos com eles de diversas maneiras. Teclamos neles, falamos com eles, escrevemos neles com canetas especiais. Como HAL. Você poderia especular que métodos surgirão para que humanos e máquinas se comuniquem?

Clarke: Hoje usamos teclados para nos comunicar. E cada vez mais usaremos a voz e eles falarão conosco. Em breve, acho que teremos implantes cerebrais e isso já está sendo testado - já está acontecendo. Na semana passada, um rapaz ganhou uma mão biônica que era controlada mentalmente. É obvio que é o próximo passo, e em um dos meus livros eu mostro um capacete que se ajusta ao crânio. Com milhares de micro eletrodos, não irei entrar em detalhes técnicos, deixarei para os engenheiros. E teremos comunicação mental direta, telepatia eletrônica se preferir, com computadores e é claro, entre eles. Irá revolucionar a sociedade. É algo bastante comum em livros de ficção científica. Uma coisa que me preocupa é a quantidade enorme de informação que estamos guardando. Quando ficaremos sem espaço para tanto? Parece que não vai acontecer por que os equipamentos de armazenamento estão ficando cada vez mais poderosos e os números são inacreditáveis. Vivo em um pais onde a grande maioria acredita em reincarnação. Meu problema com a reincarnação é: como funciona este mecanismo de entrada-e-saida e como é o sistema de armazenamento? Nunca tive uma resposta, mas acho interessante. Se somos de alguma forma guardados depois de morrer e então podemos ser reavivados, então a pergunta é - se a informação nunca se perde, se tudo é guardado de algum modo no tecido cósmico, então todo mundo que já viveu deveria reincarnar e isso é um assunto para séria especulação filosófica.

Stork: Então você prevê um estado único entre homens e máquinas?

Clarke: Homens e máquinas vão se unir. Hoje já existem pessoas com mecanismos artificiais dentro de seus corpos. Corações artificiais. Um dia eles terão cérebros artificiais. Serão capazes de baixar nossos pensamentos, nossas personalidades em um computador. Acho inevitável. E não me preocupa. O fato de ser um bípede baseado em carbono, não me leva a menosprezar um bípede baseado em silicio.

Stork: Direitos iguais?

Clarke: Direitos iguais para robôs.


Parte 1 - Parte 3 - Parte 4 - Notas e Links


Marvin Minsky - The Turing option [ Download ]
Alan Turing - Can machines think [ Download ]
Fred Hoyle - Black Cloud [ Download ]
Olaf Stapledon - Last and first men [ Download ]