segunda-feira, 9 de março de 2009

Sangue e Ouro - As crônicas vampirescas - Anne Rice


O OUVINTE

1

SEU NOME ERA THORNE. No antigo idioma das runas, era mais comprido — Thomevald. Mas, quando se tornou um bebedor de sangue, o nome fora mudado para Thorne. E Thorne ele continuava sendo agora, séculos depois, ali deitado na sua caverna no gelo, em sonhos.
Quando chegou pela primeira vez à terra congelada, sua esperança tinha sido a de dormir para sempre. No entanto, de vez em quando a sede de sangue o despertava; e, usando o Dom da Nuvem, ele alçava vôo e saía em busca dos Caçadores da Neve.

Alimentava-se deles, com cuidado para nunca tirar sangue demais, de tal modo que ninguém morresse por sua causa. E, quando precisava de peles e botas, também as apanhava antes de voltar para seu esconderijo.

Esses Caçadores da Neve não eram da sua gente. Tinham a pele morena e os olhos oblíquos, e falavam uma língua diferente, mas ele os havia conhecido nos tempos de outrora, quando viajara com o tio pelas terras do Oriente como mercador. Não gostara do comércio. Preferia a guerra. Mas havia aprendido muito naquelas aventuras.
Em seu sono no norte, ele sonhava. Não tinha como evitar.
O Dom da Mente fazia com que ouvisse a voz dos outros bebedores de sangue.

A contragosto, via através dos olhos deles e contemplava o mundo como eles o contemplavam. Às vezes não se importava. Até gostava. Objetos modernos o divertiam. Escutava a música elétrica ao longe. Com o Dom da Mente, compreendia coisas como locomotivas a vapor e estradas de ferro. Chegava mesmo a entender computadores e automóveis. Sentia que conhecia as cidades que deixara para trás, muito embora já se houvessem passado séculos desde que as abandonara.
Começara a ter consciência de que não iria morrer. A solidão em si não conseguiria destruí-lo. O desamparo não seria suficiente. E por isso dormia.

Aconteceu então uma coisa estranha. Uma catástrofe abateu-se sobre o mundo dos bebedores de sangue.

Surgira um jovem cantor de sagas. Chamava-se Lestat, e, em sua música elétrica, Lestat retransmitia antigos segredos, segredos que Thorne jamais conhecera.
Erguera-se então uma Rainha, ser nefasto e ambicioso. Alegava ter dentro de si o Cerne Sagrado de todos os bebedores de sangue, de tal modo que, se ela morresse, toda a espécie pereceria com ela.

Thorne ficara pasmo.

Nunca tinha ouvido esse tipo de mito a respeito da sua própria gente. Não sabia se acreditava naquilo.
No entanto, enquanto dormia, enquanto sonhava, essa Rainha começou, com o Dom do Fogo, a destruir os bebedores de sangue por toda parte no mundo inteiro. Thorne ouvia seus gritos quando tentavam fugir. Via sua morte quando outros a estavam presenciando.
Enquanto vagava pela terra, essa Rainha aproximou-se de Thorne, mas o ignorou. Ele estava mudo, oculto na sua caverna. Talvez ela não houvesse sentido sua presença. Mas ele havia percebido a dela, e nunca na vida encontrara tamanha idade ou força a não ser na bebedora que lhe dera o Sangue.

E ele se descobria pensando nela, na Criadora, a bruxa ruiva de olhos sangrentos.
A catástrofe entre sua gente piorou. Um número maior foi abatido; e dos esconderijos surgiram bebedores de sangue tão velhos quanto a própria Rainha; e Thorne viu esses seres.

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