segunda-feira, 23 de março de 2009

Saudades do futuro: o cinema de ficção científica como expressão do imaginário social sobre o devir



A metáfora saudades do futuro apresenta a questão central desta tese: o cinema de ficção científica como expressão do imaginário social sobre o devir, formulado pelos habitantes das grandes metrópoles ocidentais contemporâneas.

As preocupações relativas ao futuro, que acompanham a humanidade desde os seus primórdios, ganharam visibilidade apenas no século XX por meio da linguagem cinematográfica, nos filmes de ficção científica, como resultado dos entrecruzamentos entre desenvolvimento científico e tecnológico, espírito inventivo, ilusionismo e arte.

As metáforas científico-ficcionais das narrativas fílmicas são vistas como testemunhos dos contextos sociais e históricos nos quais são produzidas, e sua análise parte dos elementos internos da narrativa, buscando estabelecer relações com os ambientes nos quais estão
inscritas. O conceito de imaginário social aqui é entendido como a base na qual cada sociedade elabora a imagem de si mesma e do universo em que vive.

A idéia de “passado”, “presente” e “futuro” referencia a experiência da construção social humana na noção de tempo, e o futuro, ou, os futuros, projetam as inquietações que habitam
o imaginário de homens e mulheres quanto às transformações do corpus social do qual fazem parte.

As cidades são personagens centrais nos filmes de ficção científica, porquanto habitadas por massas humanas, devastadas por guerras, cenários de heróis, palcos de lutas e degradação do meio ambiente. A ameaça de instalação de sociedades totalitárias atravessou décadas, tomando a forma de questionamentos quanto às possibilidades de controle do comportamento social por meio da comunicação de massa, do desenvolvimento tecnológico, e do desenvolvimento da ciência biogenética.

Sobre as cidades científicoficcionais pairam sempre as ameaças trazidas pela presença do outro,
seres alienígenas, de origem e natureza estranhos, estrangeiros, predadores, macacos quase humanos violentos e autoritários, máquinas inteligentes que suplantam a humanidade, viajantes no tempo.

O discurso ideológico, que orienta as narrativas científicoficcionais, apropria-se de elementos do universo do imaginário, para justificar seus projetos. No entanto, o imaginário social, situado além
das manipulações ideológicas, preside a produção do “amálgama” das instituições sociais.
Mais que isso, os mecanismos que dão expressão ao imaginário cumprem papel histórico na popularização de questões científicas e tecnológicas.

Nas histórias de ficção científica prevalece o desejo primevo de voltar ao princípio, ao anel de moebius do tempo, ao elo mítico onde o passado remoto e o futuro longínquo se entrelaçam e se
confundem para dar sentido à grande viagem da saga humana.
Por isso: saudades do futuro...


Saudades do futuro: o cinema de ficção científica como expressão do imaginário social sobre
o devir - Alice Fátima Martins (Doutorado em Sociologia - resumo de tese - UnB/2004)