domingo, 26 de abril de 2009

Charles Stross - entrevista II


'Não escrevo Ficção Científica como um veículo de propaganda para conceitos científicos. Se existe algum conteúdo polêmico no que faço, ele é político e social.'

HardSF: O que inspira você a colocar ciência na sua ficção?

Charles Stross: Não estou certo se o faço. Você vai encontrar nas minhas histórias coisas como viagem mais rápida que a luz, máquinas do tempo, upload de mentes, nanotecnologia. Algumas destas coisas são mais plausíveis do que outras, de maneira que podem ser possíveis, mas não posso dizer que deliberadamente decido por incorporar a ciência na ficção de maneira sistemática.

HardSF: O quanto isso é importante para você, se no fim o leitor acaba aprendendo conceitos científicos através das suas histórias?

CS: Não é. Mais importante para mim é que eles não comecem a achar que certas coisas que são obviamente irreais, possam acontecer algum dia, mas isso não é exatamente o que eu pretendo fazer. Não escrevo Ficção Científica como um veículo de propaganda para conceitos científicos. Se existe algum conteúdo polêmico no que faço, ele é político e social.

HardSF: Você acha que as teorias científicas, por serem abastratas e intangíveis, afetam a sua habilidade em vender literatura baseada em FC Hard*?

CS: O que me afeta, em se tratando de trabalhar com literatura, é que de fato para cada livro vendido de Ficção Científica, são vendidos dois do gênero Fantasia, e para cada livro vendido de Fantasia, são vendidos cinco romances. Sendo assim, se eu escrevesse apenas Ficção Cientifica eu estaria, por vontade própria. reduzindo meu pagamento de royalties. Mais interessante do que isso, eu estou escrevendo para uma audiência que é ínfimamente pequena. 25% da população do planeta fala ou lê em inglês (e menos que isso tem o inglês como primeira língua) e 2% da ficção vendida é de FC. Então antes mesmo de começar, tenho que aceitar que não vou conseguir mover montanhas ou ter multidões me seguindo.
Afinal sou apenas um escritor de ficção, e não algum tipo de pregador vendendo a salvação eterna, não é mesmo?

HardSF: Você pensa que a FC Hard é o único tipo possível de FC? Ou tem espaço para a FC 'Soft'?

CS: Acho que toda esta distinção não faz sentido. Eu escrevo ficção, ponto. Se eu escolho falar sobre algum tipo de ciência dentro dela, tento então fazer da forma certa ou ao menos plausível. Mas a retórica da FC Hard versus FC 'soft' me parece pairar ridiculamente nas origens do gênero, criado por Hugo Gernsback no passado, quando havia toda esta agitação - tipo propaganda política - tipo o braço de um movimento, tecnocracia.

HardSF: Como se pode tornar a FC Hard mais agradável para o grande público?

CS: Acho que a FC Hard foi atropelada pela fantasia, basta ver Guerra nas Estrelas, Jornada nas Estrelas e os filmes com efeitos especiais, quase 30% de tudo que Hollywood vende como FC, e aquilo que você pode razoavelmente classificar como FC Hard é quase nada - dá para contar nos dedos de uma das mãos.

Se levarmos para este público potencial de leitores e espectadores, poderemos fazer com que se interessem. Mas francamente, acho que a onda da FC Hard já passou. A FC Hard surgiu em um contexto bem específico, durante os anos 30 - um tempo em que as pessoas que haviam cruzado as pradarias em carruagens, ainda estavam tentando descobrir como lidar com a eletricidade e máquinas voadoras, e daí os computadores, a energia nuclear e naves espaciais. Foi uma ferramenta educacional bastante útil, expandindo horizontes, mostrando que de certa forma aquilo seria relevante na vida das pessoas. Hoje estamos cercados de gizmos. Provavelmente há mais computadores no meu apartamento hoje, do que em todo este pais (Escócia) nos anos 60. A Ficção Científica implodiu com o presente; mudanças climáticas globais nos afetando diretamente, naves espaciais pousando nas luas de Saturno, transplantes de rosto na França (Ei, esta não era uma história do Fu Manchu, sessenta anos atrás?) e mundos virtuais com PIB maiores do que o da Áustria.

Acredito que o atual crescimento na procura pela Fantasia, comparativamente a FC, é o resultado sintomático deste nosso mundo, como se os leitores gritassem 'PAREM, POR FAVOR' e buscassem conforto em um tempo em que eles sabiam o que diabos estava acontecendo. Alvin Toffler acertou nos anos 70 - chama-se Choque do Futuro.

HardSF: Qual tópico científico você acha que será o mais falado nas próximas décadas?

CS: O de sempre - não há nada de novo na FC hoje. O Aquecimento global continuará sendo de nosso interesse, não importa se você acredita que é antropogênico ou natural - é o elefante na sala de estar, e temos que aprender a viver com isso. Até hoje, apenas Kim Stanley Robinson tem se agarrado a isso nos EUA, ele é um dos escritores de FC Hard mais interessante trabalhando por aí, mesmo estando em conflito ideológico com a velha guarda stalinista da Ficção Científica em geral.

Avanços na tecnologia médica é uma aposta certa, mas não sei se ainda há algo a ser dito e que Bruce Sterling já não o tenha feito em 'Holy Fire', quase dez anos atrás.

Nanotecnologia... cedo ou tarde passaremos deste estágio primitivo, onde nos encontramos presos à quase uma década. E então os prognósticos de Eric Drexler vão parecer tão ultrapassados quanto Jules Verne em 1890. Será como sermos cozidos lentamente, como o provérbio do sapo.

A física parece estar ainda em 1895, com tudo amarradinho, exceto por algumas pontas soltas, como o por que dos elétrons não se neutralizarem a si mesmos ou por que 70% de toda a massa do Cosmos estar oculta. Da primeira crise veio a mecânica quântica e a relatividade, a segunda nos trará... quem sabe? Estou quase certo de que não será a teoria das cordas, mas ainda não posso apostar...

HardSF: Você geralmente escreve sobre o que domina e conhece, ou intencionalmente procura por novos e incertos territórios?

CS: Quase sempre sobre aquilo que conheço, mas sou eclético, aleatório, e um entusiasta por aprender coisas novas (minha formação universitária cobre alguns assuntos úteis para mim; farmacologia, bioquímica, física, ciência computacional)

HardSF: Qual você considera ter sido a sua maior realização; sua contribuição na ciência ou na literatura?

CS: Para a literatura - por que não penso ter feito alguma coisa para a ciência! Poucas pessoas fazem. Mesmo a média das teses de doutorado é um simples pixel em um mosaico do tamanho da Grande Muralha da China. Ao menos na literatura é mais fácil de deixar sua marca.

HardSF: Está trabalhando em algo agora?

CS: Agora mesmo estou trabalhando em um romance de FC mundana*. É um movimento britânico pouco falado, que não se utiliza destas tralhas como alienigenas, viagem mais rápida que a luz, máquinas do tempo e coisas assim. Estou escrevendo uma história de detetive que se passa na Escócia daqui a uns 12-15 anos. É sobre um jogo de computador e a heroína é uma contadora. Parece bem louco pra mim.

(HardSF - 2006-06-28)


*FC Hard é uma modalidade da Ficção Científica que procura dar embasamento científico à história que está sendo contada e portanto exige mais conhecimento do autor. Arthur C.Clarke é um autor famoso de FC Hard.

*FC Mundana (ou terrestre) é um subgênero da Ficção Científica criado em 2002 pelo escritor Geoff Ryman e que se caracteriza por se utilizar de tecnologia atual ou derivada dela, de forma contida e apoiada na ciência. Na FC Mundana, o homem não alcança as estrelas, não existem civilizações de outros planetas, assim como as viagens no tempo, ou mais rápido que a luz e outras dimensões são impossíveis.
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