segunda-feira, 13 de abril de 2009

Entrevista com Michael Swanwick


Ismo Santala: Você disse que quando decidiu ser um escritor, suas ambições literárias estavam entre ser um segundo JRR Tolkien ou James Joyce Júnior. Quando esta bifurcação teve lugar e como resolveu este dilema?

Michael Swanwick: Ah, isso foi nos tempos de colégio e da universidade, eu passava meu tempo escrevendo péssimas histórias de fantasia e coisas ainda piores. Tolkien e Joyce pareciam cada qual no topo de suas montanhas e era lá que eu queria estar, no topo. Minha lealdade a um ou outro mudava de tempos em tempos, dependendo do que minha caneta quisesse.
Para resumir... eu poderia ser um adulador e dizer que decidi por ser o próximo Vladimir Nabokov, pois todos meus primeiros heróis da literatura tendiam a ser grandiosos - mas a verdade foi que eu parei de tentar pular carniças nestes dez anos de crescimento literário e comecei a escrever narrativas simples que eu pudesse aprender com elas. Isso se deu aproximadamente no inicio dos 70 quando vim para Filadélfia e encontrei Gardner Dozois e Jack Dann e outros autores de FC e pude ver como autores de verdade trabalhavam. Escrever parece muito com arquitetura, pois existe muito deste trabalho pouco romântico, pouco glamoroso e que tem que ser feito antes de se obter grandes efeitos. Levantar uma parede requer trabalho braçal, o personagem precisa de uma motivação muito forte. Meus primeiros onze anos como escritor, eu escrevia constantemente e ainda assim não conseguia terminar as histórias. Quando aprendi o básico da coisa, eu consegui.

E é claro que a primeira boa história que você escreve é como vento nas velas, ela te leva à frente e dá seu curso. Você passa a querer escrever melhor.
Você vislumbra o horizonte.


Um inesperado benefício do meu começo foi que quando publiquei pela primeira vez, sabia mais sobre ficção do que a maioria dos autores iniciantes, então as minhas duas primeiras histórias a serem publicadas ('Gunungagap' e 'The feast of Saint Janis') apareceram relacionadas para concorrer ao Nébula. Isso chamou a atenção para mim. Mas não aconselho aqueles que querem se tornar escritores que se espelhem no meu início de carreira. É terrível chegar perto dos trinta anos sem ter escrito nada ainda e sem conhecer sobre sua habilidade para seguir esta carreira.

Quais são seus escritores prediletos? Novos, antigos, conhecidos ou emergentes?

Puxa! Poderíamos ficar uma semana falando deles. Estabelecidos eu diria: Gabriel García Márquez, Ursula K. Le Guin, Gene Wolfe, Djuna Barnes, A. S. Byatt, Jorge Luis Borges, Joanna Russ, John Barth em seu inicio (particularmente The Sot-Weed Factor e Chimera), Julio Cortázar, Italo Calvino, John Fowles, Samuel R. Delany, Donald Barthelme, Muriel Spark, William S. Burroughs, e inevitavelmente Thomas Pynchon.

Esses são apenas aqueles que me vem mais rapidamente à cabeça. Mas existem estes escritores como Kafka e Salinger e Twain que me são tão familiares e que acabo por esquecer de citá-los.
Novos e emergentes: Greer Gilman, autor de um livro e dois contos de fantasia. China Mieville, que tem recebido muita atenção hoje em dia, e merece. Ellen Kushner e Delia Sherman autoras de The Fall of the Kings. Andy Duncan, chamado de Howard Waldrop da sua geração. Sherman Alexie ainda é novo? Ele é sensacional ainda assim.

Charlie Stross e seu livro Accelerando que me inspira com cada linha dele. Ian R. MacLeod. Geoff Ryman. Paul Park. Gwynneth Jones. Ken MacLeod. Michael Chabon, é claro. Kelly Link. Ted Chiang que consegue ser original e novo a cada história. Mas é claro, estou falando apenas de lembrança, o que vem à cabeça.

Estive em Helsinque recentemente onde fui entrevistado por um fanzine finlandês e meu entrevistador me perguntou se eu não pensava que este era uma época extraordinária para o gênero, comparável a New Wave, porêm maior, pois há tantos escritores fazendo trabalhos fantásticos, tanto na FC quanto na fantasia. E eu pensei: Sim! Com certeza! Foi um tipo de choque, um deja vu. Tive que viajar até a Finlândia para que alguém me apontasse o óbvio, mas a verdade. Existe um enorme número de ainda-não-conhecidos autores surgindo para a literatura, o que é totalmente sem precedentes, neste exato momento. Se eu me atrevesse a fazer uma lista dos melhores escritores atualmente escrevendo, você ficaria de saco cheio antes mesmo de eu terminar.

Deixei de fora todos da minha geração, contudo suas obras estão particularmente próximas do meu coração, porque sou amigo da maioria deles. Mas é uma competição. São os caras com quem eu tento conviver.

Um dos apelos da FC é que o gênero oferece um universo de conceitos que o escritor pode acentuar ou perverter, de acordo com seus desejos. Seria certo dizer que você estaria interessado também no lugar comum literário dos clichês pela mesma razão?

Como qualquer outra coisa, a caixa de ferramentas da FC prestasse como um bom criado para um pobre mestre. Minha série de histórias curtíssimas, The Periodic Table of Science Fiction, invoca fortemente aquele material preexistente na FC, algumas vezes tratado seriamente, outras vezes como brincadeira. Mas tem um lado ruim também. Muitos escritores procuram trabalhar na mudança de algumas alegorias existentes, como um mágico de palco irá superficialmente modernizar um dos números do Houdini, enquanto mantém a mecânica intacta.

Você encontra naves espaciais baseadas em navios da marinha mercante da Segunda Guerra Mundial e que fazem prospecção de minérios em asteróides igual à corrida pelo urânio dos anos 50, é uma ficção que nenhuma pessoa sã pode acreditar que algum dia poderá acontecer. Em casos extremos você encontra astronautas com armas laser, estes autores não percebem que eles há muito não escrevem Ficção Científica mas meramente ficção inexata dos dias atuais.

O verdadeiro desafio, o jogo de verdade, é desenvolver idéias originalmente genuínas. O escritor que inventou a máquina do tempo ou a nave das gerações, ou o ciberespaço, pensavam grande. Aquele que for fazer uma versão engraçadinha de uma destas coisas irá ser publicado e esquecido. São as regras do jogo. Se não pode aparecer com algo novo, se tudo que você tem é a força da sua prosa, então você deveria tentar escrever outra coisa qualquer.
Escrever coisas mais simples não basta. Você tem que trazer algo de novo, uma razão para alguém querer ler seu trabalho ao invés de usar este mesmo tempo para reler Proust.

Como você descreve a diferença entre seus contos e seus romances? Por exemplo, alguma idéia destes contos acaba se tornando um romance ou você sabe até onde a idéia pode ir?

Uma história curta é um objeto mental que pode ficar na mente por completo. Um romance é grande demais para isso. Parece mais como uma viagem. Você pode saber do inicio e do fim e ter o sentimento, mas os incidentes surgem separadamente. Um conto é como uma alucinação viva, mas um romance é imenso, algo que você pode se mudar para dentro e viver por uma temporada.

Quando tenho uma idéia, não sei se ela irá crescer o bastante para se tornar uma ficção, muito menos de que tipo. Mas vou brincar com ela e pensar sobre ela e fazer algumas anotações e eventualmente, se não for robusta o bastante, vai ficar claro para mim. Com a ocasional exceção da loucura, eu não começo nada até que eu tenha a linha inicial escrita e uma visão clara de como irá se desenvolver até o seu fim. O ultimo parágrafo essencialmente, o momento emocional onde tudo que foi escrito até então contribuiu para que ele existisse. Quando tenho isso, posso começar escrever e conduzir o enredo (não tenho idéia de onde vai parar, somente o que está estabelecido para que a história faça sentido) tão simples e certo em direção ao fim. Quando o leitor chega lá, saberá que é inevitável por que o trabalho todo foi dedicado a justificá-lo. Mas também pode ser surpreendente, por que sabendo do que se aproxima, posso acrescentar algumas distrações e desorientações, que manterá o leitor longe do que está por vir.

Nunca tive um conto que chegou a se tornar um romance. Seria violar o formato e o sentimento da idéia, como um oleiro sentar-se para fazer um pote e terminar com um camelo de cerâmica. Mas certa vez comecei um trabalho que era para ser um romance e terminei com um conto curto de 425 palavras. Cortei a história em tiras pequenas, colei sobre uma máscara com o rosto da minha esposa, feita de gaze cirúrgica, e pendurei na parede da sala de jantar.

A freqüência com que ocorrem colaborações literárias é um dos aspectos notáveis da FC/Fantasia. Você trabalhou com outros escritores em inúmeras ocasiões; como se compara com trabalhar sozinho? (e seu próximo trabalho em colaboração com Gene Wolfe.)

Cada colaboração é única. As histórias que escrevi com Jack Dann e Gardner Dozois, foram como parcerias de escola. Gardner e Jack sabiam tudo sobre como escrever e eu era um principiante. Foi uma oportunidade incrível para aprender. 'Green Fire' com Eileen Gunn, Pat Murphy e Andy Duncan era a criança dos olhos de Eileen desde o inicio. Ela possui um talento enorme e estranho e lamentavelmente pouco prolífico, então foi um privilégio trabalhar com ela e ver como sua mente funcionava. As duas histórias que fiz com Avram Davidson foram póstumas, pois trabalhei em histórias que ele deixou inacabadas. 'Apenas sobre seu corpo morto' eu disse para as pessoas 'era o único jeito dele deixar isso acontecer.'

'Dogfight' minha colaboração com William Gibson, eu vejo como um completo sucesso mas não acho que ele gostou. Possivelmente Bill não quisesse colaborar, pois sua visão era tão específica que as palavras de outra pessoa em sua ficção, mesmo boas, nunca iriam satisfazê-lo. Gene Wolfe é para mim, o maior escritor na língua inglesa vivo atualmente. Um editor que conheço pensa que ele irá ser um segundo Saul Bellow mas eu li Ravelstein e não vejo diferença.

Em seus dois maiores ensaios, 'In the tradition...' (Fantasia) e 'A user's guide to the Postmoderns' (FC) você mapeia certas tendências de cada gênero. O que pensa sobre o status acadêmico da Ficção Científica e da Fantasia?

Se você for procurar por ensaios criticas sobre a FC e a Fantasia você será soterrado com trabalhos sobre Stanislaw Lem, Ursula K. Le Guin, Philip K. Dick e (sem brincadeira) Jane Austen. Por que infelizmente a maioria das pessoas no estudo destes gêneros são acadêmicos que não acreditam em seus gostos e julgamentos próprios. Eles não escrevem sobre Clifford Simak ou Leigh Brackett ou Jack Vance por que estes autores - cuja as obras são tremendamente importantes - não foram sancionados pelo consenso critico e podem parecer que não possuem literalidade afinal.

Existem exceções é lógico, e por que elas existem, eu devo dizer que meus próprios ensaios não possuem o rigor intelectual de trabalhos de crítica acadêmica. Foram escritos como propaganda. Eu queria promover alguns trabalhos que eu pensava não estar recebendo a devida atenção, e provocar as pessoas para argumentar sobre seus méritos.
A única coisa que eu já escrevi e que pode ser encarado como um resenha de um olhar rigoroso é 'Hope-in-the-mist', um ensaio biográfico de Hope Mirrlees (escritora de fantasia, cujo maior sucesso foi Lud in the mist de 1926) que apareceu em Foundation, um jornal britânico sobre estudo dos gêneros.

Por fim, para fechar como esperado, no que você está trabalhando atualmente?

Nunca tenho certeza absoluta. Dois livros, ou quase. Estou escrevendo uma fantasia que começa com um estilo meio guerra do Vietnam no reino das Fadas. O protagonista, Will, começa como um relutante criado de um dragão mecânico e em decorrência disso é levado de sua vila para um mundo maior e mais estranho, vitima de um destino inesperado que espera a maioria dos heróis das histórias de fadas. Pode ser que se passe, ou não, no mesmo universo de The Iron Dragon's Daughter. Certamente os dragões serão os mesmos. Mas num continente inteiramente diferente e abordando um reino diferente.

O outro - no qual ainda estou nos estágios iniciais de pesquisa - será sobre ficção cientifica pura, uma viagem de descobrimento em uma das luas do sistema solar, com Lizzie O'brien, o protagonista de 'Slow Life', indicado para o Prêmio Hugo. A graça desta história está em reimaginar que no futuro próximo, a exploração espacial será uma realidade, Por exemplo, no conto - que pretendo que não se torne um livro - o astronauta tem que passar muito do seu tempo dando resposta engraçadinhas para perguntas idiotas na internet. É óbvio que as primeiras pessoas a irem para Marte irão inevitavelmente ter que se render a isso. Mas eu espero tratar de coisas mais sérias também.

Também estou trabalhando em muitas, muitas histórias curtas. Tenho quarenta delas parcialmente escritas no meu computador e notas e idéias mais, e que não consigo dar conta. Algumas jamais serão finalizadas, outras serão, e não tem jeito de saber qual é qual até que aconteça. Ah, e alguns projetos estranhos, tanto de ficção quanto não, dos quais não posso falar porque se eu o fizer, jamais irei sentar para escrever sobre eles.

E a minha muito esperada primeira coleção de contos curtíssimos, Cigar-box Faust and Other Miniatures, está finalmente chegando este outono pela Tachyon, em tempo para a Convenção Mundial de Fantasia que se aproxima.

Então continuo ocupado. As idéias hoje chegam cada vez mais rápidas, mas escrever ainda é demorado como sempre foi, infelizmente.

(Ismo Santala - 2003)