quarta-feira, 15 de abril de 2009

O Futuro da Ficção Científica - Norman Spinrad (1980)


Muitos anos atrás, Michel Butor sugeriu seriamente que os escritores de FC deveriam se unir e decidir como será nosso futuro, guiando-nos e através de seus romances e contos, construiriam esta utopia coletiva.

Era uma idéia boba, mas hoje parece até razoável, se pararmos para pensar.

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Vivemos ainda hoje do grande boom da Ficção Científica dos anos 70. O número de títulos de FC publicados a cada ano está subindo. Além disso, algo como 25% de toda a ficção publicada na forma de livro nos Estados Unidos é hoje de Ficção Científica (FC).

Títulos de FC fazem parte das listas de best-sellers nacionais.
A revista Isaac Asimov Science Fiction Magazine, em sua breve existência, chegou ao topo da circulação de 100 mil exemplares; a OMNI, com uma existência menor ainda, alcançou um milhão.

A ficção científica tem sido a grande esperança de Hollywood. Charles Brown, da Locus, estima que algo em torno de 75% de todos os romances de FC publicados até hoje estão, ainda, disponíveis. O que acontecerá? Isso vai continuar ou o colapso da bolha, como aconteceu em 1950, nos trará de volta a Terra, quando cada palavra pagava 50 cents e os adiantamentos eram de dois mil dólares?

A comunidade FC nunca viveu sem suas Cassandras e muitos, nesta área, cresceram na dificuldade, com pouco dinheiro e até com um pouco de auto-satisfação de viver sendo grotescamente sub-pago e sabendo disto, olhavam por sobre seus ombros, esperando o machado cair mais uma vez.

O boom dos anos 70 foi principalmente um produto da moda, impulsionado por grandes filmes, como 'Guerra nas Estrelas' e 'Contatos Imediatos', acrescido do instinto de alguns editores de FC que se encontrava em guerra pelas licitações. Quando Hollywood agarrar-se ao próximo modismo e deixar de lado os romances de FC, o ar se tornará pesado para os que estavam nesta bolha, cabeças rolarão e todos nós voltaremos ao nosso belo e pequeno recanto literário.
Bem, talvez, mas eu não penso assim.

O fenômeno comercial do atual boom da FC tem suas raízes históricas, culturais e até espirituais mais profundas do que campanhas de filmes de milhões de dólares ou adiantamentos de cem mil dólares para novos livros.
Estamos vivendo um momento crítico na evolução de nossa espécie e a Ficção Científica encabeça a cultura popular como uma parte forte de nossa cultura e está além de nosso controle.

Qualquer que seja a moda, ela não pode efetivamente, ser duradoura ou preencher por muito tempo um vácuo psicológico. A moda efetivamente envolve manipulação, deslocamento do imaginário, estruturas míticas e forças históricas e psicológicas que prevalecem na consciência da massa, que é o seu alvo. Talvez se possa vender gelo para esquimós, mas não se pode esperar que todos comprem. Então, enquanto o aspecto comercial do boom da FC da década de 70 estiver super valorizado pela moda em torno de 'Guerra nas Estrelas', 'Contatos Imediatos', 'Super Homem', 'Jornada nas Estrelas', 'Galáctica' e companhia, esta moda não pode ser tão bem sucedida, sem que a chave não fossem forças poderosas já existentes na psique coletiva.

Consideremos o - muito medíocre para ser caridoso - aspecto artístico desses filmes comerciais, que encheram o balão da FC. Assumindo que o povo não é composto de tolos - vamos admitir (é uma questão passível de debate em certos círculos) - que os épicos hollywoodianos de FC não são um sucesso por serem obras de arte do cinema, mas por serem ficção científica.

A verdade é que esta moda criou um novo público para a FC. Verdade também que a maioria dos beneficiários deste modismo não possuía a mesma fama e relevância artística comparável ao trabalho produzido pelos membros da SFWA ou de escritores premiados por seus livros.
Mas isso seria para sempre?

Quando o povo desenvolver um novo apetite, não haverá em curto prazo, aqueles que produzirão o próximo fast-food na área de FC? Isso é eterno, é parte da natureza da interface comercial.
Nada de novo, então. O que é novo é que esta fome permitirá que produtos medíocres faturem milhões através dos franchises da fast-food literária. Será que a natureza deste apetite mudará o futuro da FC e este relacionamento será recíproco? O que todo modismo faz é expor uma grande e nova platéia a algo semelhante à FC, poderíamos dizer, como se um pequeno restaurante de tacos pudesse expor ao paladar de seus inocentes fregueses, algo como a verdadeira comida mexicana e então aprimorar o seu gosto.
A questão principal é por quê.

Obviamente, a Ficção Científica de repente começou a alimentar uma fome que não estava satisfeita por nenhuma outra 'cozinha ficcional'. A viagem até o pato de Pequim começa pelo rolinho primavera.

A coisa mais importante sobre tudo é que o modismo não ficará sendo somente, a venda de junk food para a mente, mas também irá expor muitas pessoas a uma Ficção Científica que jamais puderam experimentar antes.

Na realidade estaremos expondo a Ficção Científica para pessoas que nunca a leram, inclusive, mas que desenvolveram uma fome por experiências psicológicas a partir disto.
Por quê? O que desejamos encontrar ao alimentar, nesta conjuntura, a evolução da cultura popular? Vamos pensar em alguns fenômenos colaterais.

O boom da FC nos anos 70 foi precedido por uma proliferação de novos cultos religiosos.
É um fato comum que a nossa corrida atrás da ciência e da tecnologia tem diminuído a credibilidade das religiões tradicionais.
É fato também que a visão de um mundo científico deveria prover uma nova fonte de nutrição espiritual que tomasse o lugar daquela desacreditada.
É fato que o espírito humano tem a necessidade de experimentar o transcendental. Todas as vezes que a ciência e a tecnologia tomaram conta da nossa cultura, presenciamos o renascimento de um misticismo atávico e da procura pelo espiritual, e o nascimento desses novos tipos de cultos religiosos, ou mais precisamente, a totalidade deste novo tipo de fenômeno tomava o nicho psicológico deixado vago pela religião tradicional.

Organizações como a Cientologia, a ARICA, Silva Mind Control, etc, etc, são tentativas de unir a experiência mística do oriente com os métodos científicos do mundo moderno segundo a visão ocidental.

Tipicamente um guru ou mestre perfeito, como o pináculo de uma hierarquia bem estruturada, um método ou um caminho que será seguido pelos seus crentes e uma visão de uma Nova Jerusalém ao final do arco-íris. Porém, mais do que uma moral teológica ou um livro de receitas de como chegar ao paraíso, esses grupos oferecem aos seus seguidores uma ciência ou um método quase científico de transcender a consciência aqui e agora.

É claro que o budismo e o hinduísmo em sua pureza teórica fazem a mesma coisa, porém o que é novo nisto tudo é um tipo de culto religioso que atende à psique moderna, que se adaptou não ao culto de imagens de deuses e demônios, mas à metodologia e às armadilhas da pseudo-ciência.

Eles estão tentando reintroduzir experiências místicas transcendentais na cultura moderna através da ciência, não ao invés da ciência, mas transcender os parâmetros espirituais sob a ótica de um mundo científico, não o negando, mas se apropriando de sua metodologia com fins transcendentais.

Vinte anos atrás ou mais, os fãs da Ficção Científica já diziam que estavam tentando recapturar o 'sense of wonder'. Esta fome de experiências atrás de flashes de uma consciência transcendental e que não rivalize com o avanço da ciência e da tecnologia, sempre foi um ponto comum àquelas pessoas que liam FC. Aliás, a preocupação predominante da FC com viagens no espaço, outros mundos, alienígenas e criaturas superpoderosas sempre disse diretamente ao transcendentalismo científico.

O espaço, por si só, é uma experiência de um outro plano existencial; outros planetas são novos mundos desconhecidos, criaturas alienígenas são seres não humanos, sencientes como deuses e demônios e mutantes são homens que transcenderam os parâmetros de nossas atuais definições de humanidade, não através do mito, mas à verossimilhança plausível, possível cientificamente.

O que aconteceu nos anos 70 é que a história, o modismo e a perda da credibilidade lógica na perda das fontes tradicionais combinada com a experiência transcendental fornecida pela Ficção Científica (com a sua estética do 'sense of wonder'), agiu como um novo e moderno culto a preencher o vácuo psicológico de então.

A fome de parte desta platéia pelo que a Ficção Científica poderia fornecer era uma condição já preexistente. A moda meramente focalizou o público para isso.

E se você duvida, olhe para o tipo de Ficção Científica que construiu este grande boom, não somente em termos de mérito literário, mas em termos de conteúdo. 'Jornada nas Estrelas' se passava inteiramente no espaço, em outros mundos, e apresentava a figura mefistofélica e benevolente do Sr. Spock. A space opera 'Guerra nas Estrelas' tinha em seu centro a metafísica, a Força. Os adoráveis e benignos alienígenas de 'Contatos Imediatos do Terceiro Grau' eram como deuses bondosos. As figuras messiânicas como Michael Valentine de 'O Estranho Numa Terra Estranha' e Paul Atreides de 'Duna'. Os super-heróis da Marvel. A fantasia metafísica de Tolkien.

Finalmente, emergindo ao mesmo tempo da grande bolha, nós tínhamos os fenômenos na FC do movimento L5 (Grupo não-governamental formado por cientistas para a criação de uma cidade no espaço) . O conceito, a construção de uma cidade auto-suficiente e permanente no espaço era algo totalmente novo, mas que nascera nos escritos de Gerard O Neill.
Nós todos sabemos que isso foi o tema comum da ficção científica por décadas.
E este é o ponto.
De fato, o movimento L5 não cresceu fora do fandom FC ou dos tradicionais leitores de Ficção Científica. Ele se desenvolveu colateralmente ao boom da FC, mas de forma independente em seu campo, aparentemente ignorante da maior parte do que concerne à Ficção Científica, porém com a força evolucionária que produziu o boom da FC.

Sem duvida, a visão de uma nova Jerusalém cientifica e tecnológica, no espaço, está no processo para gerar um movimento popular de massa. A NASA está se esforçando para isso também.
As primeiras raízes desta organização estão começando agora.

Finalmente este movimento acabará por invadir a FC, fazendo um circulo completo e que nos leva ao tema do ensaio, o Futuro da FC. Vai haver uma enxurrada de histórias usando a estação espacial da L5, talvez pela primeira vez na história, o gênero poderá se nutrir da vida real, a L5 vai finalmente unir escritores e leitores como aliados,

E o que tudo isso significa para o futuro da FC?
Significa que a FC está chegando ao centro da consciência popular ou melhor, o povo está indo para onde a FC sempre esteve, e por razões que transcendem o sucesso de alguns filmes, e é por isso que eu acho que a bolha não vai estourar desta vez.

É claro que não vai ser um caminho fácil , haverá escorregadelas e tropeços, a FC ainda alimentará novos e antigos escritores por mais duas décadas, que irão colaborar para tornar ainda mais rico este gênero, um amplo e mais preparado publico está por vir, talvez possamos dizer que a FC possa se tornar o principal gênero na America do Norte dominando a ficção.

Hoje a FC já é um grande negócio, tem importância em nossa cultura e junto à ciência, estaremos juntos com os grandes literatos, com certeza, em breve.

Somos os candidatos a gurus do que ainda está por ser feito e isto também é perigoso.

Assim como os combustíveis fosseis irão um dia acabar, as pessoas terão que perceber que o futuro será diferente dos dias atuais, nossas visões, nossa ficção, será parte de nossos desejos, estará nos programas de televisão, nos esforços para a colonização do espaço, não mais como apenas ficção, mas como prática e realidade.

Muitos anos atrás, Michel Butor sugeriu seriamente que os escritores de FC deveriam se unir e decidir como será nosso futuro, guiando-nos e através de seus romances e contos, construiriam esta utopia coletiva.

Era uma ideia boba, mas hoje parece até razoável, se pararmos para pensar.