domingo, 31 de maio de 2009

Com a FC correndo no sangue - entrevista com Greg Bear



Greg Bear é sem dúvida uma das figuras de proa da Ficção Científica contemporânea.

Sua bem informada e inspirada especulação científica lança de forma visionária, questionamentos sobre as raízes biológicas, sociais e psicológicas da espécie humana, enquanto escreve histórias que aparentemente se encontram dentro dos parâmetros deste ou daquele subgênero, mas que consistentemente transcende qualquer limite.

Suas primeiras experiências literárias, exercícios altamente imaginativos, apesar de certa limitação técnica, já anunciavam o teor de seu universo, de seus trabalhos mais maduros.

Hegira (1979), Beyond Heaven's River (1980) e Strength of Stones (1981) são tentativas de abordar a história futura através da space-opera. Psychlone (1979) brinca com o terror tecnológico; The Infinity Concerto (1984) e The Serpent Mage (1986), discutem o mecanismo da criação do nosso mundo; Corona (1984) é talvez a mais impressionante história do universo Star Trek já escrita. Estes livros indicavam que um mestre do gênero estava por se formar.

Quatro livros marcariam esta transição: Blood Music (1985), Eon (1985), Eternity (1988) e The Forge of God (1987).

Nos anos 90, Bear construiria com incomparável versatilidade, suas fundações, com Queen of Angels (1990), Slant (1997) e Foundation and Chaos (1998), recontextualizando os eventos iniciais da trilogia Fundação de Asimov.

Nos últimos anos, Bear explorou temas evolucionários com um livro de ação que se passa em um futuro próximo, chamado Darwin's Radio (1999); e com Darwin's Children (2003), narrou os anos díficeis de convivência com uma nova espécie de estranhos humanos.
Com Vitals (2002) indagou sobre as origens biológicas da morte e os perigos da imortalidade.
Estes três livros revolucionaram nosso entendimento da seleção natural e de como a natureza organiza a si própria.

Pergunta: Como você enxerga os efeitos dos desastres espaciais (o ônibus espacial Columbia) sobre a literatura de FC e qual sua consequência?

Bear: Estivemos pressionando a NASA e o programa espacial por décadas. Por diversos motivos acabamos por fechar projetos de desenvolvimento de outras espécies de veículos para tomar o lugar dos antigos ônibus. Eles são uma maravilha da tecnologia, mas são antigos e de manutenção dispendiosa, precisamos de algo mais simples e seguro. Infelizmente o povo americano não vê com bons olhos o gasto que seria necessário para se manter pessoas no espaço, em um tempo de déficits e guerras. Temos que pensar se queremos continuar a promover a exploração espacial através de vôos tripulados, sabendo que mais gente irá com certeza morrer.

Pergunta: Em 2003 você chegou à maturidade em sua carreira. Publicou livros que estão entre os mais vendidos, vendeu um deles para o cinema. Como se sente com o sucesso?

Bear: Eu agradeço pelas suas palavras gentis. Mas devo dizer que o auge vem assim como se vai. Se você para no topo, o que acontece é despencar em seguida. Se você não continua procurando por novas ideias e melhores histórias, pode acontecer de se enganar, ou se entediar, o que é pior.
Tenho sorte por ter leitores fieís que toleram minhas fobias e que me seguem por novos territórios; são minha grande força e eu devo a todos eles.

P: A ênfase de seu trabalho mais recente de FC está solidamente fincada dentro da biologia terrestre. Em trabalhos anteriores, como Blood Music e Legacy, já mostrava ser esta uma área de seu interesse; mas o que o levou a explorá-la desta forma, em três livros sucessivos?

Bear: A bilogia moderna está experimentando um crescimento inacreditável de informações, mas a teoria é mais lenta - em parte devido a uma cultura científica conservadora. O término daquela velha forma de se pensar as coisas, e o início de novas teorias, é sem dúvida um tempo excitante de se viver, e nos últimos 20 anos descobri que tenho propensão a teorizar sobre a biologia. Leio jornais e converso com cientistas e derrepente minha mente dispara. Pegando todo tipo de fatos estranhos e buscando as pequenas chaves, e então surgem conclusões que para mim são inevitáveis. Existem aqueles que não concordam, e ai está a graça da coisa. Tenho recebido encorajamento e apoio de cientistas e biologistas de outras áreas. É um tempo maravilhoso para se estar vivo. Todo dia as manchetes de jornais se parecem com a Ficção Científica dos velhos tempos.

P: Uma tese compreensiva sobre a evolução biológica parece emergir de seus romances, algo bem diferente do ortodoxismo darwiniano. Em resumo, como você enxerga o processo e o propósito da evolução?

Bear: Evolução tem a ver com resolver problemas e antecipá-los, ao nível de espécies ou grandes grupos de organismos. A ideia chave em meus trabalhos é a da distribuição em rede, genes e células em um nível, organismos de uma espécie num nível superior, organismos de um ecosistema em um nível maior ainda... isso em padrões de comunicação, organização e comportamento, adaptando-se aos desafios ambientais ou mesmo modificando o ambiente. Não há nada intrisicamente diferente entre uma colônia de insetos interagindo para resolver problemas e os neurônios em nossos cérebros. Ambos trabalham em grupo, em redes, solucionam problemas para ter acesso a mais recursos para a colônia ou para o cérebro.

P: Se, como você teoriza, a biosfera terrestre é composta de redes neurônicas, como muitos níveis de uma 'mente', mas não consciente como compreendemos, qual o lugar do auto-conhecimento humano neste esquema?

Bear: Faz tempo que eu digo que somos as gônadas da Terra. Nós também podemos ser uma espécie de olhos altamente especializados, ligados a um cérebro que adora se arriscar. Nós estamos olhando para fora e observando os céus antes de darmos alguns passos bem arriscados para além do ambiente terrestre. Toda nossa energia e criatividade está focada em explorar, expandir e conquistar novos territórios poucos amigáveis. Somos viajantes, curiosos e envolvidos com coisas novas. Ainda assim somos um enorme e complexo grupo de animais sociais - o que significa que parte do nosso ferramental, para expandirmos nosso pensamento, é o auto-conhecimento, um tipo de interface social que nos permite moldar o comportamento uns dos outros, em grupos. Isso é o que a cultura ocidental chama de vontade. Isso nos dá um tremendo, e as vezes perigoso foco, e como a maioria das grandes ferramentas, por vezes é responsável pela maneira que enxergamos a realidade e o que está ao nosso redor. A vontade nos leva ao ego, que é um obstáculo difícil de se vencer, pois parece ser uma coisa real, e pior ainda, parece ser a coisa mais importante. De fato não somos pura vontade, e nossos corpos são compostos de várias mentes. Mas este é outro ensaio...

P: Seria justo ver Darwin's Radio, Vitals e Darwin's Children como variações de seu grande tema biológico, o primeiro a premissa evolucionária, o segundo a ameaça e finalmente uma síntese elaborada dos dois ?

Bear: É uma visão bastante justa e descritiva dos três. Penso que Vitals como um alerta: ego demasiado e egoísmo pode ser o equivalente à individualidade humana das células de um tumor. Tenho encorajado pesquisas científicas e novas ideias sobre a mente e a biologia humana; mas nesta questão eu cheguei a uma posição preservativa, baseada em uma sólida metáfora biológica. Sem grandes salvaguardas e uma considerável dose de sabedoria e humildade, a busca da imortalidade pode se tornar um grande problema para as próximas décadas. O fator de medo em Vitals está tecido na convulsão da história, da ciência e do texto em si; eu a chamo da maior conspiração paranóica jamais escrita. Mais como Michael Crichton tocando com Robert Ludlum, com Richard Condon na bateria, diferente dos meus primeiros livros, ou seja, mesmo os grandes cientistas precisam ser cautelosos.

P: A premissa em Darwin's Radio foi a do surgimento de uma geração única, o que já foi utilizado na FC - Theodore Sturgeon, Arthur C. Clarke e Nancy Kress estão entre os autores que mais contribuiram para isso. Você concebe Darwin's Radio como uma variação definitiva ou revisionista deste conceito?

Bear: Creio que um pouco revisionista. Muitas das histórias sobre a Próxima Raça Humana envolvem o crescimento mental ou poderes psíquicos, ou algum outro tipo de expansão de um número limitado de atributos básicos. O que percebemos no registro evolucinário contudo, são os primeiros passos em direção ao aprimoramento das ferramentas de comunicação e manipulação, que tem a ver com refinamentos da nossa arquitetura cerebral. Contrário à crença popular, os Neanderthals tinham cérebros do mesmo tamanho e até maiores que os nossos... A questão não é sobre ter cérebros maiores. É sobre aumentar a quantidade de informações trafegando entre indivíduos que se comunicam, e através disso expandir oportunidades e planos para as sociedades humanas.

P: Tanto em Darwin's Radio quanto Darwin's Children, você descreve a reação do Homo Sapiens ao surgimento de uma nova espécie, através do preconceito cego e do pânico. Esta é a reação natural ou se trata de um comportamento negativo, típico da política de rebanho?

Bear: Não posso dizer ser esta uma descrição justa da situação encontrada nestes romances. O que eu descrevo é o processo - detestável, cruel mas inevitável - e bastante universal na história e na natureza. Tudo que é novo é testado até o ponto extremo, incluindo nossas crianças.
Muitos individuos experimentam preconceito e medo, o que é um fato hoje em dia, na relação das raças e no discurso político entre seres humanos do mesmo tipo.
O quão intenso seria, quando os humanos pensarem, e parecerem, e se comportarem, de forma substancialmente diferente? Ainda pior, a biologia em Darwin's Radio nos leva a possibilidade real de uma guerra entre espécies biológicas, pela recombinação e ativamento de antigos vírus. Um desafio incrível para nós, pobres humanos.

P: Em todas estes três livros, mas principalmente em Darwin's Children, você evidencia uma profunda descrença no processo político institucionalizado. Esta é uma reflexão de seus princípios gerais e em particular, sua resposta à política corrente e ao governo americano?

Bear: Na política, assim como na biologia, as respostas são o resultado da luta entre desafio e aceitação, entre competição e cooperação. Resolvemos problemas em larga escala através tanto do diálogo quanto do conflito, fabricamos leis destrutivas, e as vezes com violência, inclusive com guerras. Todos estes processos tem o objetivo final de resolver os grandes problemas em escala cultural e finalmente da espécie humana. Cruel? Pode apostar que sim. Mas se você visse como é cruel e frustrante a vida diária de um neurônio em nosso cérebro, você ficaria boquiaberto.

Atualmente os EUA estão relutantes em assumir o papel de maior potência do mundo. Não acredito que a administração Bush e o partido republicano, como está configurado, possa entender como se deve fazer isso de forma apropriada. São as pessoas erradas, no momento errado, com os instintos errados. Enquanto eu escrevia Darwin's Children, por vezes eu me senti como se o mundo estivesse fazendo minha pesquisa por mim, em tempo real. O que eu escrevi no livro sobre acabar com as liberdades constitucionais, a fim de se obter um falso sentimento de segurança, começa a aparecer nas manchetes. E isso é assustador.

P: Uma nova direção em seu trabalho é a da história secreta - uma evolução às escondidas, um comportamento de cooperação entre espécies de hominídeos do passado, em Darwin's Radio e Darwin's Children, assim como as pesquisas secretas e a conspiração em Vitals. Você declarou guerra à autoria da História como a conhecemos?

Bear: Se eu estivesse declarando guerra contra alguma coisa ou alguém, seria uma ignorância, seria arrogância e presunção minha. Não sabemos nada sobre a evolução humana e ainda há muito para se aprender. Se assumirmos que já temos todas as respostas e não nos dedicarmos à explorar ou especular, será um erro fatal. Tudo que tento fazer em meus livros é apagar algumas marcas e sugerir outros caminhos, para aprendermos ainda mais.

P: Existe um prazer intelectual óbvio em não ser ortodoxo ou heterodoxo. Por exemplo, em Darwin's Children você se diverte elaborando a colonização da América por parte de aborígenas da Austrália, muito antes da presença de nativos americanos. Este tipo de pensamento lateral é essencial para qualquer iluminação ou progresso?

Bear: Para escrever Ficção Científica ele é essencial. Não olharmos para além de nosso conhecimento científico atual é não fazer uso de nossa capacidade de assumir o controle, o que nos deixa indignados e também nos estimula.

Encontramos diversos esqueletos de diversas raças na América do norte, de 10 mil anos atrás ou mais. Na América do sul encontramos artefatos humanos datados de 30 mil anos. Na Austrália, restos humanos foram encontrados datando de 60 mil anos. Quando foi que os ancestrais asiáticos dos nativos americanos atuais chegaram aqui, é desconhecido para todos - pode ter sido dez mil anos antes que os cientistas atualmente acreditam - e parecem bem diferentes daqueles da Terra do Fogo, vistos por Darwin quando esteve na América do sul. E estes que vieram antes deles? Como Thomas Mann disse, mesmo o mais recente passado é tremendamente obscuro...

P: Darwin's Children tem um final que pode ser chamado de feliz. Um ar de idealismo temperado pelo realismo. Há alguma possibilidade desta série ter uma continuação?

Bear: É possível. Temos ainda que estabelecer Stella Nova neste estágio do mundo. Ela é filha de sua mãe e de seu pai, apesar das suas diferenças.

P: Olhando para frente, além de termos sua trilogia filmada, o que poderemos esperar pela frente? Parece que você está trabalhando em um thriller que se passa em um futuro próximo, sua versatilidade é lendária.

Bear: A próxima será uma história de um fantasma high-tech. Espero poder escrever a mais apavorante história de fantasmas jamais escrita, ainda assim introduzindo uma pitada de otimismo metafísico. Estou relendo Shirley Jackson e M.R. James e Richard Matheson e Stephen King e Kingsley Amis e meia dúzia de outros mestres...

Entrevista concedida a Nick Gevers, fevereiro de 2003


Atualmente Greg Bear está à frente do projeto de escrever a trilogia Forerunner, uma nova etapa dos livros da série Halo. A trilogia viaja 100 mil anos no passado de Halo, explorando a história por trás dos Forerunners. O primeiro livro tem seu lançamento previsto para 2010, pela Tor Books.