sábado, 2 de maio de 2009

Diários estelares - 23° viagem - Stanislaw Lem


Da conhecida Cosmozoologia do professor Tarantoga, li sobre um planeta que orbita ao redor da estrela dupla Erpeya, que é tão pequeno que se todos seus habitantes saíssem de suas casas ao mesmo tempo, a única maneira de poderem caber na superfície seria levantando uma das pernas.
A despeito da enorme reputação do professor Tarantoga, contudo parece ter exagerado um pouco neste ponto, então decidi que iria determinar a veracidade pessoalmente.

Minha viagem foi confusa, na variável Cefeida-443 meu motor falhou e o foguete começou a cair em direção da estrela, o que me deixou alarmado, já que a temperatura da coisa era de seis mil graus centígrados. O calor aumentava a cada minuto e ficou de tal forma que precisei me espremer dentro do pequeno congelador onde usualmente eu guardava a comida – certamente uma tremenda falta de sorte, pois nunca antes tal coisa me havia acontecido .
Com sucesso reparei o problema e voei para Erpeya sem mais incidentes.

A estrela dupla era constituída de uma gigante vermelha, vermelha como uma fornalha, mas não tão quente, enquanto a outra era uma pequena azul que emitia um calor terrível.

O planeta em si era de fato bem pequeno, só o encontrei após percorrer a vizinhança inteira. Seus habitantes, os Whds, receberam-me muito cordialmente.

Excepcionalmente belos eram os sucessivos ocasos e auroras, os eclipses também forneciam visões espetaculares. Por metade do dia, brilhava o sol vermelho e todos os objetos pareciam mergulhados em sangue, na outra metade do dia surgia o sol azul, poderoso, e era preciso andar com os olhos fechados, apesar de disso, era quase tolerável. Sem saber o que era a noite, os Whds chamavam o sol azul de dia e o vermelho de noite.

Suas casas, e isso era verdade, eram incrivelmente minúsculas, mas os Whds sendo bastante inteligentes e possuindo grande conhecimento particularmente da física, haviam superado esta dificuldade através de uma idéia engenhosa, contudo admiravelmente singular.

Usavam de um aparato altamente preciso de raios-x com o qual tiravam o que chamavam de perfil atômico, que era um diagrama exato, mostrando cada molécula de proteína e seu elo químico, do qual seus corpos eram feitos. Então, quando chegava a hora de entrar para passar a noite, os Whds atravessavam por uma pequena porta que possuía dentro um mecanismo que os reduzia individualmente a átomos. Desta forma ocupavam pouco espaço e assim passavam a noite, então de manhã, um alarme ligava o mecanismo que seguindo os perfis atômicos, colocava de volta as moléculas na ordem e sequência apropriadas, a porta se abria e os Whds voltavam à vida, bocejavam e iam trabalhar.

Os Whds me falavam sobre as vantagens deste modo de vida, observando que deste jeito nunca tinham insônia, pesadelos, noites mal dormidas, já que a máquina os reduzia a átomos privando-os de vida e consciência. Eles utilizavam tal expediente em outras situações, como por exemplo nas salas de espera de médicos e escritórios do governo, que ao invés de cadeiras tinham pequenas caixas, pintadas de rosa e azul, com aquelas máquinas dentro e em certos encontros e conferências – quando um homem ficava por demais enfadado e sem nenhuma utilidade, simplesmente ocupando espaço pelo fato de sua existência.

Desta mesma forma os Whds estavam habituados a viajar. Se queriam ir a algum lugar, escreviam o endereço em um cartão e o colavam num cilindro pequeno que era colocado então sob a máquina, e então eram atomizados para dentro do cilindro. Havia uma instituição especial, semelhante ao nosso serviço de correios que enviava o cilindro para o respectivo endereço.

Se alguém estivesse com pressa, seu perfil atômico podia ser transmitido por telégrafo ao local designado e lá eles o recriavam através da máquina. O Whd original, enquanto pulverizado, ficaria nos arquivos. Este modo de viagem telegráfica era simples e rápida, consideravelmente atraente, apesar de conter certos riscos. Pouco depois da minha chegada, os jornais noticiaram um desagradável acidente. Parecia que um jovem Whd de nome Thermopheles, deveria supostamente ir até uma cidade situada no outro hemisfério do planeta, para se casar. Estando apaixonado, era naturalmente impaciente e desejando estar junto de seu par o mais rápido possível, foi até um posto e telegrafou a si mesmo. Naquele mesmo momento, o operador do telégrafo foi chamado por conta de um assunto urgente e seu substituto, sem saber que Thermopheles já fora enviado, submeteu seu perfil novamente, e eis que diante da ansiosa quase-noiva estavam dois Thermopheles, como duas ervilhas em uma vagem. Difícil imaginar o choque, a confusão, e a angústia da pobre garota, sem falar dos convidados da festa. Tentou-se então convencer a um dos Thermopheles a se submeter a atomização e então assim acabar com tal desagradável incidente, mas a tentativa falhou por completo, pois cada qual acreditava ser o verdadeiro e único Thermopheles.
O caso foi levado ao tribunal e passou por muitas apelações. Foi só após a minha partida que se deu o veredito, contudo não posso dizer como o caso foi resolvido.
(Nota do editor: O veredito obrigou ambos os noivos a serem atomizados e a subseqüente reconstrução de apenas um, o que foi verdadeiramente salomônico.)

Os Whds queriam a todo custo que eu experimentasse seus métodos de viagem, garantindo que erros como aquele eram extremamente raros e que o processo em si de nada tinha de misterioso ou sobrenatural. Como todo mundo sabe, organismos vivos são feitos da mesma matéria que tudo ao nosso redor, planetas e estrelas inclusive, a única diferença estava na interconexão e arranjo das partes que os constituem. Estes argumentos eu compreendia perfeitamente, mas me recusei terminantemente a entrar na máquina.

Certa tarde uma coisa muito curiosa me aconteceu. Fui me encontrar com um Whd que conhecia, sem ter antes telefonado para ele. Ninguém estava em casa quando cheguei. Procurando por ele, abri várias portas, uma por uma (os quartos eram extremamente apertados) até que finalmente depois de abrir uma porta que era menor do que as outras, vi que seu interior parecia com o de um refrigerador, completamente vazio com exceção de uma prateleira na qual havia uma caixa cheia de um pó cinzento. Sem pensar, peguei um pouco daquele pó, então ouvi o barulho de uma porta se abrindo e larguei o pó ao chão.

‘O que você está fazendo, honorável alienígena?’ disse o filho do Whd que eu procurava. ’Preste atenção, você está derramando o meu pai!’
Ao ouvir estas palavras, fiquei aterrorizado em pavor, mas o jovem disse:
‘Não foi nada, não se preocupe!’

Saiu e voltou pouco depois carregando uma quantidade considerável de carvão, um saco de açúcar, uma pitada de enxofre e um punhado de areia comum. Ouvi algo parecido com um profundo suspiro e um engolir, a porta se abriu e lá estava meu amigo Whd, rindo da minha cara, são e salvo. Perguntei para ele depois, durante nossa conversa, se eu não havia lhe causado algum mal, por ter pego parte de seu material corpóreo, e também como seu filho fora capaz de consertar meu desastrado ato.

‘Ora vamos, nem pense nisso! Você não me causou mal algum, que besteira! Certamente está ciente, meu querido amigo alienígena, das descobertas da moderna fisiologia, que diz que todos os átomos do nosso corpo são constantemente repostos por novos, alguns elos se partem, outros se formam, a perda é recuperada pela assimilação de alimentos e líquidos, e graças também ao processo respiratório – tudo isso junto é o que chamamos de metabolismo. Sendo assim, os átomos que compõe seu corpo, um ano atrás, agora estão vagando distantes, apenas a estrutura geral do organismo permanece inalterada, um sistema inter-relacionado constituído por partes materiais. Não há nada de estranho naquilo que meu filho fez, ele apenas repôs o suprimento de material necessário para minha recriação; afinal somos feitos de carbono, enxofre, hidrogênio, oxigênio, nitrogênio e traços de metais, e estas substâncias que ele trouxe, possuem todos os elementos necessários. Por favor, entre e experimente por você mesmo, verá como o processo não causa qualquer dor…’

Declinei graciosamente da oferta de meu anfitrião e por algum tempo fiquei relutante frente a convites semelhantes, porém ao fim, depois de uma longa reflexão, me convenci a fazê-lo.

Fui a um escritório de raios-x e eles registraram meu perfil atômico, então fui ver meu amigo. Espremer-me dentro daquela coisa não foi fácil, contudo meu anfitrião me auxiliou; a pequena porta só podia ser fechada depois que todos estivessem do lado de dentro.

A porta fechou com um clique e tudo ficou escuro. O que aconteceu então eu não me lembro.
Só senti que estava pouco confortável e que o topo da prateleira apertava minha orelha e antes que pudesse tentar mudar de posição a pequena porta se abriu e eu sai de dentro.

Minha primeira pergunta foi do motivo deles terem cancelado o experimento, mas meu anfitrião me informou, com um sorriso de prazer, que eu estava enganado. E para completar, uma rápida olhada no relógio da parede confirmava que vinte horas haviam se passado sem que eu tivesse a menor sensação disso. O único inconveniente estava que meu relógio de bolso indicava a hora em que eu entrara no mecanismo, a hora precisa em que eu fora reduzido a átomos, junto com ele.

Os Whds - com quem cada vez mais sentia se fortalecerem os laços de amizade - me disseram que ainda haviam outras aplicações para este método; eles tinham desenvolvido o costume de ao se verem diante de um problema sem solução, permanecerem dentro da máquina por décadas e então renasciam – voltando para o mundo perguntavam se o problema havia sido solucionado – se não, submetiam-se mais uma vez a atomização até que a solução viesse.

Após esta experiência bem sucedida tomei gosto pela coisa, por aquele jeito novo de descansar, de modo que não passava mais apenas as noites, mas cada minuto livre no estado atomizado, no parque, na rua, onde houvesse uma destas máquinas, que pareciam caixas postais com pequenas portas. Tudo que era preciso era lembrar-se de colocar o alarme para a hora certa; uma pessoa esquecida poderia passar a eternidade dentro da máquina, mas felizmente haviam os inspetores que a cada mês checavam os mecanismos.

Próximo do fim da minha estada naquele planeta, me tornei um entusiasta dos costumes dos Wdhs e o fazia como disse, sempre que podia.

Por esta temeridade eu iria pagar caro.

Aconteceu certa vez, que o mecanismo onde eu estava ter emperrado um pouco e naquela manhã, quando o alarme foi disparado, a coisa me reconstruiu não na minha forma habitual, mas como Napoleão Bonaparte em seu uniforme imperial, usando da faixa tricolor da legião de honra, o sabre ao lado, o chapéu com detalhes dourados na cabeça, e um orbe e um cedro em cada mão – e foi assim que eu apareci na frente de meu espantado anfitrião Whd.

Me aconselharam de imediato a procurar um mecanismo que não estivesse danificado, para me refazer, enquanto que meu perfil atômico verdadeiro estivesse gravado e disponível; assim mesmo não quis ouvi-los e contentei-me em trocar o chapéu por um boné com abas, o sabre por alguns talheres e o orbe e o cedro por um guarda-chuva.

Quando já sentado nos controles do meu foguete e com o planeta desaparecendo longe, atrás de mim, na escuridão da noite eterna, derrepente me dei conta de ter sido muito precipitado ao me desfazer daquelas provas tangíveis, que poderiam dar crédito à minha história.

Mas agora era tarde demais.

The Twenty-Third Voyage, The Star Diaries (1976) - trad.Michael Kandel