sábado, 23 de maio de 2009

Nosso Feynman que está no Céu - Paul Di Filippo


A carreira promissora de Ettore Majorana foi encurtada devido ao seu súbito desaparecimento aos 31 anos de idade, durante uma viagem de barco entre Palermo e Nápoles, na Itália. Seu corpo nunca foi encontrado apesar das investigações e a opinião ficou dividida entre aqueles que achavam que ele teria cometido suicídio, fora raptado ou mudara de identidade para começar uma nova vida. 'Agora, o físico teórico Oleg Zaslavskii sugeriu que a ambigüidade que envolve seu destino é parte de uma elaborada ilusão engendrada pelo próprio Majorana, para demonstrar a superposição quântica... Majorana quisera demonstrar os eventos decorrentes do paradoxo com sua própria vida...’
- ‘O homem que estava vivo e morto ao mesmo tempo’ New Scientist, Agosto de 2006.

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Cobrindo acontecimentos religiosos para um jornal da cidade grande, acreditava ter encontrado cada pequena variação possível da fé popular, e cada pequeno culto imaginável.

Entre as principais religiões, eu tinha entrevistado e simpaticamente escrito sobre Testemunhas de Jeová e Mórmons, de praticantes de meditação transcendental a Wiccans, Budistas Nichiren a Cientologistas, Muçulmanos a Xintoístas.

Uma vez conversei com o cardeal Ratzinger, antes dele se tornar Papa. Estivemos em um jantar de caridade juntos e eu lhe pedi para passar o sal.

Mas ainda assim… Nada me preparou para os Majoranistas.

Meu editor me chamou num dia cheio e bruscamente passou minha nova tarefa.
‘Aparentemente surgiu um novo e estranho tipo de igreja lá na esquina da Hoyle e Wickramasinghe. Por que não vai lá dar uma olhada?’

Armado com um pequeno gravador de voz, um bloco de reserva e meu esfarrapado exemplar do Novo Livro de Cultos, parti para lá. Assim que o taxi me largou na rua, eu já sabia que aquilo seria uma experiência única.

O prédio que abrigava a nova igreja literalmente era de doer a vista.

Eu não conseguia focar sua forma, Salas e extensões aparentemente brotavam e dissolviam-se, indo e vindo. Finalmente obtive a impressão de ser algum tipo de matriz de cubos anexando-se ao mais próximo em ângulos impossíveis.

Baixando olhos, avancei às cegas em direção da entrada e de frente para uma porta, toquei a campainha. Quando senti a porta se abrir, levantei os olhos.

A pessoa que me encarava, tinha atrás de si uma sala de recepção normal, era jovem, de cabelos castanhos de aparência comum, vestindo uma túnica branca. Na frente dela um símbolo largo e negro de um ‘n’ minúsculo.

‘Ola!’ disse o homem agradavelmente. ‘Sou Nick, um nêutron. Bem vindo ao Primeiro Templo Majoranista. Quer entrar por favor?’ Entrei e a porta se fechou.

Apresentei-me à Nick e expliquei-lhe minha missão. Ele reagiu com bastante entusiasmo.

‘Isso é maravilhoso! Nossa religião nunca teve publicidade antes e estamos ansiosos para atrair novos adeptos. Ficarei feliz em responder a qualquer pergunta. ’

‘Bem, primeiro - que tipo de prédio é esse?’

‘É simples. Trata-se de um tesseract da quarta dimensão. Um hipercubo. Já leu “E ele construiu uma casa torta” de Heinlein?‘

‘Não. ’

‘Bem, leia! Vai aprender tudo que precisa saber. Mas é claro que o prédio de nossa igreja é menos interessante que nossa congregação e crenças.’

‘É claro. Vocês se chamam de Majoranistas?’

‘Correto.’ Nick então começou a contar a história sobre a vida de Ettore Majorana, o homem que inspirou seu culto.

‘Então, vocês cultuam este cientista por sua dedicação ao seu campo de estudos... ?’

‘Não de todo. Nós meramente o respeitamos como a um profeta e santo, a rocha sobre a qual nossa igreja foi fundada. O que louvamos é o Modelo Padrão.’

‘Qual modelo padrão?’

Nick fez uma careta exasperada. ‘Só existe um Modelo Padrão e é o paradigma consensual da física moderna.’

‘Você quer dizer, aquela coisa sobre as partículas subatômicas?’

‘Precisamente. Apesar da sua síntese grosseira do tema da nossa fé ser injusto. O Modelo Padrão é, elegantemente falando, a melhor compreensão e síntese e entendimento da humanidade, quanto ao funcionamento da Criação. Você consegue conceber um material melhor para regrar a vida de alguém ou mais apropriado como objeto de adoração?’

‘Não faço julgamentos sobre a crença dos outros, Nick. Por que não continua me explicando as coisas pra mim, de maneira que nossos leitores possam entender?’

‘Muito bem. Farei-lhe uma apresentação dos vários átrios de nossa devoção.’

Tomamos o caminho através da sala de recepção, em direção a uma saída em arco. Quando pisamos além dele, senti ser torcido através de uma dúzia de dimensões diferentes. De repente me encontrava em uma pequena sala na penumbra, que não era previamente visível da sua entrada.

Trios de pessoas, todas de túnicas brancas adornadas com letras gregas e romanas se espalhavam por ali.

‘Todos os postulantes começam como quarks.’ explicou Nick. ‘A mais primitiva de todas as partículas. Estranha e encantadora. Elas procuram moldar suas mentalidades até conseguir empaticamente grokkear* este nível mais baixo da criação.’

(*grokear significa compartilhar a mesma realidade ou linha de pensamento com outra entidade física ou conceitual. Robert A.Heinlein cunhou o termo em seu livro ‘Um estranho numa terra estranha’ (1961). Na visão de Heinlein sobre a teoria quântica, grokkear é a união de duas inteligências que necessariamente afeta, tanto ao observado quanto ao observado.)

‘E por que estão em três?’

‘Porque é como quarks reais se agregam, em grupos inquebráveis de três.’

Espreitando na pouca luz, percebi que cada trio escondia uma quarta pessoa no meio. Perguntei sobre a identidade desta.

‘Oh, aqueles são bósons WZ. Eles são mediadores de forças mais fracas e mantêm os quarks juntos.’

Tudo aquilo parecia muito esquisito para mim e suspeitei que talvez os Majoranistas fossem outro culto sexual, como muitos outros que existiam. Mas se eram orgiásticos, eram por demais fleumáticos e desapaixonados, ficando parados sem qualquer emoção. Fiquei bastante confuso.

Deixando estes para trás, passamos por outra chocante transição, e desta vez estávamos em um salão amplo e claro, bastante arejado. Estava repleto de pessoas movendo-se rápido, para lá e para cá.

‘Nos chamamos esta sala de Câmara de Nuvem. Após a graduação dos quarks, nossos postulantes se tornam férmions e bósons de vários tipos, dependendo de suas qualidades inatas. Elétrons, múons, prótons, léptons. Fótons, gravitons e Bosons de Higgs. Pelo menos nós pensamos que há algum bóson de Higgs presente - embora ninguém nunca tenha visto um. Mas de qualquer forma, eles se misturam em um tipo de sopa cósmica, não diferenciada; parecida com o estado cósmico pouco após o Big Bang. Então gradualmente se resolvem como átomos e moléculas.’

Observei uma cena caótica por um tempo. Lembrou-me o recreio de uma escola Montessoriana. Então perguntei:‘Podemos ver o estágio seguinte, por favor?’

Nick fez um gesto como se não valesse a pena. ‘São muito chatos neste ponto, lamento dizer. Após a mudança de fase é mera química e biologia.’

‘Se importa se eu entrevistar outro Majoranista?’

‘Bem, a maioria dos meus co-religiosos são bem energéticos neste estágio, mas pode tentar se quiser.’

Eu me aproximei de alguns candidatos, mas eles me ignoraram e saíram de perto. Nick riu do meu esforço.

‘Vai precisar de sorte para capturar um neutrino! Eles não interagem com ninguém! Nós nêutrons somos os únicos que somos lentos e sólidos o bastante para permitir uma conversação.’

Tentei outro Majoranista vestindo uma túnica com um ‘n’ minúsculo e confirmei tudo que Nick havia me dito.

O tumulto causado pelos Majoranistas estava me dando dor de cabeça.
Perguntei a Nick se podíamos voltar para a sala anterior e ele concordou.

De volta a ante-sala, sozinho com Nick eu disse ‘Parece que a sua igreja não tem uma hierarquia. Vocês não tem lideres de algum tipo? Homens e mulheres mais sábios que decidem questões de doutrina?’

‘Sim, temos. São chamados de Constantes.’

‘Constantes?’

‘O Modelo Padrão admite várias constantes universais. A velocidade da luz no vácuo, a constante gravitacional de Newton. E outras nomeados após Planck, Dirac, Boltzmann, Bohr, Von Klitzing, Josephson, Fermi, e outros.’

‘Então certos Majoranistas alcançam o status de Constantes?’

O rosto de Nick adquiriu uma expressão reverencial, como um adolescente diante de um ídolo pop e disse: ‘Sim. É o status que todos nos aspiramos. Mas poucos são escolhidos.’

‘Bem, acredito que aprendi o bastante para escrever a matéria sobre sua igreja. Se puder me mostrar a saída agora, por favor...’

‘Certamente.’

Nick conduziu-me ao que parecia ser a mesma porta pela qual eu tinha entrado, na esquina da Hoyle e Wickramsinghe. Mas quando sai por ela, eu estava em Chicago, quase à meio continente de distância. Depois de alguma atribulação eu consegui voltar para casa e comecei a escrever meu texto sobre os Majoranistas. Porém, pesquisando o Modelo Padrão, descobri algumas coisas intrigantes e que me obrigaram a voltar até a igreja.

Nick recebeu-me à porta mais uma vez. Cautelosamente fiquei do lado de fora.

‘Nick… preciso que me responda algumas perguntas. E sobre a teoria da corda? E sobre o loop quântico gravitational? E quanto às várias GUTs? (Teoria da Grande Unificação) ? Todas estas teorias que rivalizam e contradizem o Modelo Padrão?'

Nick tornou-se furioso. Mexia as mãos, como se rabiscasse no ar, algo que descobri depois ser um complexo diagrama de Feynman:

‘Herege! Blasfemador! Vá embora! Você não é mais bem vindo aqui!’

Me afastei. E por nunca ter obtido respostas para minhas perguntas, não escrevi o artigo.
Fiquei grato por não ter entrado quando o templo Majoranista dobrou-se e desapareceu.


Our Feynman Who Art in Heaven - Paul Di Filippo (2007)