sábado, 30 de maio de 2009

Pontos de partida - Pat Murphy



A primeira vez que Jan ouviu os lobos uivando nas ruas de Manhattan, foi na noite do blecaute.

Eram duas da manhã, mas Jan estava acordada. Estava deitada na cama assistindo todos o noticiários na televisão a cabo. Pela terceira vez naquela noite, um comentarista bem vestido falava sobre um atirador em um shopping de Miami. Perturbado por um divórcio, o homem abriu fogo com seu rifle, ferindo seis mulheres que faziam compras e uma vendedora antes da policia o prender. O blecaute interrompeu a reportagem bem no meio.

Logo antes das luzes se apagarem, Jan estava chorando.
Um mês antes, Dennis, seu marido, tinha pedido o divórcio e aquele evento inesperado tinha destruído o ritmo de sua vida.

‘Estou partindo’ ele disse. E então disse muitas outras coisas - sobre se encontrar, sobre se sentir preso, sobre estar confuso, sobre amor. Mas na tempestade de palavras, apenas duas tinham ficado gravadas ‘Estou partindo’.

Ao fim, já que o apartamento que repartiam pertencia a ele, ela seria aquela que deveria se mudar, sublocando um apartamento de um amigo que estava de férias na Flórida.
Jan tinha uma mala e os dois gatos do amigo para alimentar, que viam nela apenas uma fonte conveniente de comida e nada mais. Os gatos rondavam ao redor dela e de sua cama e atacavam seus pés quando ela trocava de posição, e a observavam sob a luz vacilante da televisão.

Depois de deixar o marido, Jan se dera conta de que tinha se esquecido de como dormir. Achava-se sentada tarde da noite vendo televisão. Às vezes bebia brandi para se acalmar e apagar. Às vezes o murmúrio da televisão embalava o sono. Mas sempre dormia mal.

Na noite em que as luzes se apagaram, Jan ficou por algum tempo sentada no escuro então saiu da cama e foi até a janela para ver as luzes da rua. Foi então que ouviu os lobos.
Primeiro um som distante de latidos - talvez de algum cachorro perturbado com a escuridão súbita. Então o animal começou a uivar, subindo a nota devagar. Outros se juntaram, como numa onda sonora, em diferentes momentos.

Nenhuma luz nos prédios vizinhos. As luzes da rua apagadas. O luar brilhando nas escadas de incêndio fora da sua janela, refletido nas janelas dos apartamentos do outro lado da rua.

Jan abriu a janela e esperou.
Devia ter sido o vento, pensou. Mas os uivos subiram de novo em coro e nada tinha a ver com o vento.

Lobos nas ruas de Manhattan.

Tremeu e fechou a janela.
Após discar 911, a voz de uma mulher atendeu.
‘Tem lobos na rua’ disse Jan ‘ Posso ouvi-los uivando.’
‘Qual a natureza da sua chamada de emergência?’ perguntou a mulher parecendo entediada.
‘Posso ouvir lobos uivando. Não muito longe’ repetiu Jan.
‘Cachorros barulhentos não constituem uma emergência’. disse a mulher cruamente. ‘Entre em contato com o Controle de Animais, durante o horário normal de atendimento.’
‘Mas eu ouvi...’ Jan estava falando com o sinal de chamada.
Desligou e foi até a janela novamente.
O vento cantava passando pelas estruturas da escada de incêndio e um táxi atravessou a rua lá embaixo.
Ouviu então o uivo, desta vez mais perto.

Ela hesitou e depois ligou para o marido. Imaginou-o procurando o telefone ao lado da cama, na mesinha, os olhos meio fechados, o corpo nu debaixo das cobertas. Imaginou o clique quando ele ligasse o abajur da mesinha, o abajur de latão que havia comprado num antiquário meses atrás. Sentiu-se bem ao ouvir sua voz sonolenta.
Não disse nada. Desde que tinha partido, ela tinha ligado para ele as vezes, uma vez por semana, não mais do que isso. Não queria falar com ele, queria apenas ouvir o som de sua voz. Em cada uma das vezes se prometia não voltar a fazê-lo, mas sempre voltava atrás.

‘Alô’ ele disse de novo. Ela ouviu a respiração dele, mas nada disse.
O que poderia dizer? Que a luz se apagara? Que lobos uivavam nas ruas? O que poderia dizer? Ele iria dizer que ela estava deixando a imaginação enganá-la. Diria para não ligar mais. Era melhor ficar calada, imaginando o quarto de dormir que uma vez ela pensava que fosse dela.
‘Diabos, quem é? Maldição, não vai dizer nada?’
Finalmente ele bateu o telefone. O sinal de chamada voltou.
Ela desligou e voltou a janela. Não ouvia mais os lobos.

Acendeu a vela que deixava junto da cama. Na frágil luz enrolou-se no cobertor e deitou-se para prestar atenção no som do vento.
Estava ainda acordada quando a energia retornou as quatro da manhã e a televisão voltou a vida. Um talk show com um psicólogo discutindo sobre stress: ‘perda do sono é um dos sintomas’ ele estava dizendo. Jan adormeceu ouvindo-o continuar a falar.

Dormiu até o alarme tocar na manhã e levantou-se atrasada pelo menos uma hora e meia, grogue de sono. A vela tinha se consumido inteira e na televisão reprisavam ‘I Love Lucy’.
Os gatos miaram para ela e ela derramou comida seca no prato.
Apressadamente vestiu-se e atravessou os quatro quarteirões até o metrô.
Quando andava, sua respiração deixava nuvens de vapor no ar frio.

A temperatura no metrô era tropical, o ar úmido e pesado com odores desagradáveis.
As placas de sinalização nas paredes tinham sido pichadas com cores da selva, grandes talhos verdes brilhantes, vermelhos e azuis, igual a plumagem de aves exóticas.

Enquanto esperava o trem, notou uma mulher velha vagando pela plataforma, ela vestia um casaco masculino e sapatos pretos usados. O cabelo era cinzento e sujo como os retalhos de papel que enchiam seu chapéu de tricô. Em uma das mãos uma sacola rosa de shopping cheia de roupas comprimidas. Quando passou perto de Jan, pode ouvi-la resmungando sozinha consigo mesma. Jan fingiu interesse em um anûncio. Uma mulher fumava, desfigurada pelo grafitagem artística que alterava suas orelhas e sutilmente modificava seu sorriso - com dentes afiados.

‘Eles vêm à noite’ dizia a velha passando entre Jan e o anûncio. ’Saem da escuridão’.
Os olhos da mulher eram marrons cor de borra de café que fica grudada na xícara, e suas mãos se mexiam em um ritmo diferente da sua fala. Parou derrepente olhando o chão. Havia uma nesga de spray vermelho no cimento aos seus pés e olhou-o fixamente: ‘Sangue da besta’ ela disse e então ergueu os olhos e viu Jan sorrindo nervoso.
‘É só tinta.’ disse Jan.
A velha balançou a cabeça.
Ainda que não tivesse pedido dinheiro, Jan vasculhou o interior da bolsa em busca de trocados e largou na mão da velha uma nota amassada de dólar e alguns centavos.
Os olhos da mulher se demoraram no rosto de Jan. ‘Eles vem à noite e ninguém sabe para onde vão’ murmurou sonâmbula. Seu sorriso cresceu, quase um riso impensável. ‘Ninguém sabe’ ela gargalhou como garrafas de vidro se despedaçando na rua.
Jan se afastou da mulher velha e o trem que chegava chacoalhando, afogou a gargalhada.
Jan entrou no vagão. Quando olhou pela janela embaçada, a velha acenou para ela e Jan disfarçou olhando para o lado.

Jan tinha um emprego temporário em um escritório de advocacia, digitando documentos infindáveis em um processador de textos. Seu pequeno cubículo sem janelas ficava nos fundos do escritório. Através da porta aberta ela via homens de terno apressados à caminho de reuniões. Ela teclava deixando que as palavras passassem através dela, sem que a atingirem.
Comia seu almoço sozinha, sentada à janela da lanchonete e tentava não pensar.
Assim passava o dia.

A noite ela encontrava sua amiga Marsha depois do trabalho.
Jan e Marsha tinham passado pela mesma faculdade no norte de Nova Iorque. Jan tinha ligado para Marsha quando Dennis disse que estava partindo. Depois que Jan se mudou, Marsha insistia em se encontrarem pelo menos uma vez por semana. Marsha tinha se divorciado também e disse que sabia o que Jan estava passando. Marsha exagerava um pouco, mas Jan tolerava-a amavelmente. Ela gostava daquela mulher de cabelos escuros flamboyant.
Encontrou-a num restaurante italiano. Marsha, que estava sempre de dieta, pediu uma massa e então se angustiou com o pedido: ‘Você vai ter que comer metade.’ disse para Jan. 'Você emagreceu cinco quilo desde que deixou Dennis! Você é tão sortuda!’
Marsha via qualquer perda de peso como afortunada, não importava a causa.
‘Não tenho tido fome ultimamente.’ disse Jan.
‘Eu sempre consigo comer’ Marsha reclamou ‘especialmente quando me sinto péssima.’
Jan balançou a cabeça: ‘Só estou sem fome.’
Marsha estudou o rosto de Jan. ‘Você precisa tirá-lo da cabeça. Precisa fazer coisas por ai. Encontrar gente nova.’
‘Não penso muito nele.’ Jan disse e não era de fato uma mentira. Ficava acordada de noite sem pensar em nada.
Jan bebeu vinho tinto demais e ouviu os conselhos afetivos de Marsha.
Depois de algumas mordidas na massa ela sentiu-se nauseada, mas o vinho ajudava com a tensão que socava seu estômago. O vinho tornava a conversa fácil, encolhendo o mundo em um circulo de intimidade que incluía apenas ela, Marsha e o garçom que enchia as taças.
‘Não consigo dormir’ Jan contou para Marsha. ‘Ouço sons da rua.’
‘Que tipo de sons?’
Jan hesitou, mas então disse: ‘Na outra noite eu ouvi lobos uivando.’
‘Um vizinho provavelmente, assistindo filmes de terror na televisão. Foi só isso.’
‘Houve um blecaute. Não podia ser a televisão.
‘Então eram adolescentes debaixo da sua janela. Ou um bando de bêbados, tentando cantar. Você ouve todo tipo de coisas esquisitas em Nova Iorque à noite. Nada com que se preocupar.’
Jan agarrou seu copo. ‘Tenho medo o tempo todo. O tempo todo. No apartamento, no metrô, quando caminho para o trabalho. O tempo todo.’
Marsha se debruçou na mesa para segurar a mão de Jan. ‘É difícil se acostumar a ficar sozinha.’
Jan notou sua mão fechada em soco e fez um esforço para relaxar.
‘As coisas estão fora de controle’ disse calma. ‘Não sei mais como as coisas funcionam mais. Não sei mais quem sou. Quando Dennis estava comigo, eu não me preocupava. Agora me preocupo o tempo todo.’
‘Você fica muito sozinha' recriminou Marsha. ‘Vou te dizer… eu vou numa mostra de arte na quinta de noite. O artista é meu amigo. Ele é doido, mas será divertido. Podemos nos vestir para arrasar na festa. Por que não vem comigo?’
Jan balançou a cabeça negativamente. ‘Não tenho nada para vestir. Deixei a maioria das roupas na outra casa. Sai de lá só com uma mala e minha vida.’ Tentou rir mas soou como se algo estivesse errado.
‘Pode pegar um dos meus vestidos. Tenho um pretinho básico que vai ficar perfeito em você.’
‘Não sei.’
‘Vamos lá. Tá decidido!’
Já era tarde quando pediram a conta. Fora do restaurante nevava… grandes flocos que caiam lentamente e derretiam ao tocar o chão. Marsha fez sinal para um táxi e insistiu que Jan fosse nele mas Jan recusou. ‘Vá você… eu pego outro.’
Marsha aquiesceu ao fim e Jan acenou um adeus para ela.
Ela ainda hesitou um pouco, feliz com o ar frio no rosto. Outro táxi passou mas ela não fez sinal. Ela queria, por razões que não eram claras, pegar o metrô.

Os letreiros de neon ainda acesos e coloridos refletidos no asfalto molhado, faziam borrões coloridos. Gostava da escuridão e do frio e dos reflexos do neon vermelho que parecia pintar de sangue a rua.

A entrada do metrô era visível devido aos postes antigos de luz esverdeada sobre ela.
Uma mulher vestindo um uniforme azul e apertado do Exército da Salvação distribuía panfletos nos degraus. Sem pensar, Jan aceitou um e desceu rápido os degraus gelados metendo-se pelo corredor que fedia a urina.

Poucos esperavam na plataforma.
Um adolescente de jaqueta jeans encostado na pilastra. Uma catadora de lixo deitada ao banco de madeira, usando uma sacola cheia de roupas velhas como travesseiro. Um velho sentado na beira do banco, descansando o rosto entre as mãos.

Uma das lâmpadas fluorescentes sobre a plataforma estava quebrada, cacos de vidro brilhavam junto aos restos empurrados contra a parede mais próxima.
Outra lâmpada tinha se queimado, enchendo a plataforma de sombras.

Jan recostou-se contra uma pilastra frente aos trilhos, olhando a escuridão da qual o trem deveria emergir. O vinho fazia sua cabeça zunir sem parar. Apesar de sempre esperar ali, todos os dias, pelo trem para casa depois do trabalho, a estação lhe pareceu diferente.

Deu-se conta de estar olhando para as pichações nas paredes, tentando descobrir o significado daquelas palavras ilegíveis. De uma maneira que ela não queria entender, sentiu que as letras eram uma mensagem para ela. A pichação mudava e movia-se diante de sues olhos.
Na pouca luz, seus sentidos estavam excepcionalmente alertas. Ouviu o barulho da sacola da catadora de lixo, ouviu o adolescente acendendo um cigarro e o suspiro do velho.
Pensou estar ouvindo-o dizer algo, mas só entendia algumas palavras.
‘…à salvo nos túneis’ ele murmurava. ‘…quente e escuro…’
Jan olhou para ele, mas ele não estava falando com ninguém. Sua cabeça pousada nas mãos e os olhos fixos nos trilhos.
Ela se virou, ainda com as costas na pilastra.
‘…não vai nos encontrar aqui.’ Disse outra voz. Jan se virou e viu a mendiga no banco.
Outra voz macia juntou-se aos resmungos da mendiga. ‘Nós saímos à noite’ disse o adolescente.
Jan pressionou as costas contra a pilastra. Não queria olhar.
A estação se enchera de vozes sussurrantes, como o vento nas árvores.
Ela apenas pegava fragmentos de frases…ou imaginava estar ouvindo as palavras.
‘…lugar para se esconder.’ Disse a mendiga.
‘…saímos à noite’. Sussurrou o velho.
Jan ouviu o trem se aproximar sacolejando e encarou a escuridão, esperando pelo brilho do seu farol.
‘…boa caçada’ murmurou o adolescente.
O trem parou na estação e Jan foi em direção a um vagão vazio.
Uma luz dura iluminava os assentos de plástico moldado e pichações decoravam as paredes; havia um cheiro de guimbas de cigarro e urina também.
Através do vidro sujo da janela, Jan olhou para a plataforma.
O adolescente sorriu quando o trem começou a se mover.

Sentada em seu assento Jan via a escuridão passando pelas janelas.
Uma voz ininteligível anunciou a estação seguinte.
Sentiu o freio do trem e já entravam em outra estação. As portas se abriram e fecharam.
O trem já partia quando viu um pôster na parede da estação onde estava escrito ‘A Marca do Lobo’, mas as palavras passaram num flash rápido e se foram antes que pudesse ter certeza.

Encostou o rosto contra o vidro, mas viu apenas o breu.
Atrás do vidro não havia pensou, um mundo de verdade. Apenas a escuridão.
Ela poderia imaginar qualquer mundo que quisesse. Qualquer um. Fechou os olhos e pensou no mundo que queria criar. Na escuridão de sua mente, lobos corriam pela escuridão dos túneis, mantendo distância do trem.
Abriu os olhos e o trem vagarosamente chegava na outra estação. Luzes surgiram do lado de fora, criando um mundo de anúncios luminosos e avisos. Não viu nenhum que dissesse ‘A Marca do Lobo’, mas saiu e pegou outro, que a levaria até a estação anterior.
Contudo não encontrou lá o pôster que procurava, andando para lá e para cá na plataforma deserta.

Depois que o trem partiu, o único som ali era o de seus passos.
O túnel mergulhava na escuridão. Qualquer coisa poderia se esconder lá.
Sentiu seu coração disparar, mas não sabia se de medo ou excitação. Quando fechava os olhos, podia sentir o ar ao seu redor, quente e cheio de aromas indefinidos. Avançou entre as sombras até o final da plataforma, olhando para o túnel e respirando seu cheiro. Encontrava-se alerta, prestando atenção a qualquer som que seus ouvidos pudessem captar. Não sabia exatamente o que esperava ouvir. Da direção da entrada da estação ouviu passos e voltou rápido para a parte iluminada da plataforma.

As cores haviam sumido dos anúncios, dos bancos, das pichações. Tudo estava pintado de preto e branco e sombras cinzentas. Piscou, imaginando se tratar de um efeito de luz.
‘Ei, dona!’ disse um policial. Ele estava sob a luz, os pés separados, sua cabeça inclinada agressivamente. ‘O que está fazendo ai?’
‘Esperando’ disse sem sair das sombras.
‘Não durma na plataforma’ ele disse. ‘Nenhum deles está aqui.’
Ela o encarou. O rosto suado dele e dava para sentir o cheiro do medo nele.
‘Quem sai à noite?’ ela perguntou.
‘O que?’
‘Quem sai à noite?’
Ele não disse nada. O trem veio e ela partiu nele.
Olhou para a escuridão e imaginou um novo mundo, construído a partir das trevas da noite.

Sentia-se impaciente naquela noite. O apartamento emprestado não era sua casa Suas roupas tinham ficado ainda dentro da mala, nunca a tinha desfeito. O armário e as gavetas estavam cheias das roupas do seu amigo. Jan era uma temporária, uma convidada que vem e vai sem deixar traço de sua passagem. Ela não pertencia a aquele lugar.

No bolso do seu casaco achou o papel que a mulher do Exército da Salvação tinha lhe dado. Uma impressão ruim e barata e as letras saiam nos dedos sujando-os. O texto, cheio de exclamações, gritava exortações religiosas

“O FIM ESTÁ PRÓXIMO!’ Preste atenção! Cuidado! Fique alerta! O domínio de Satã é exuberante! Você deve escolher entre a luz e a escuridão. Não entre na escuridão sem Jesus em seu coração. Deixe que Jesus seja a luz que ilumina seu caminho. SOMOS HOMENS OU ANIMAIS? Aceite o Senhor em seu coração e renuncie ao caminho da besta.”

Sim, ela pensou, eles moram na escuridão. Os túneis são escuros e bastante privados.
Eram três da manhã quando ligou para Dennis. Estava à janela, podia ver seu reflexo nela. Seus olhos estavam enormes, de pupilas dilatadas. Lá fora nevava. O telefone tocou vinte vezes antes dele finalmente atender. Ela não disse nada, apenas ouviu-o xingar. Sua voz não a acalmou como antes. Soou abafada e distante.

Desligou e prestou atenção nos lobos uivando na rua, um coro de vozes em serenata para a lua de cera.Abriu a janela para deixar que o som entrasse pelo apartamento.
Os gatos nervosos. O uivo cantava em seu sangue, em doce agonia subindo e descendo ao vento. Ela atravessou o pequeno apartamento e os gatos a acompanharam com o olhar. O maior deles a seguiu, miou e enfiou-se entre seus pés. Ao final ela o pegou, cansada com sua persistência, fechou suas mãos ao redor de sua garganta macia e então aplicou pressão. Pareceu, naquele instante, a coisa certa a fazer. O animal sufocando lutou, mas ela não o soltou. Depois largou seu corpo ainda quente na lixeira da cozinha. O outro gato escondeu-se sob a cama, sem fazer qualquer ruído.

Naquela noite tirou o som da televisão. Deitou-se desperta e ouvindo, com os olhos abertos. Queria correr pelas ruas, apostar corrida na noite atrás de algum objetivo desconhecido. Na escuridão do quarto que não era dela, sorriu, pensando nos túneis subterrâneos onde criaturas viviam secretamente.

Na manhã seguinte achou pegadas na neve da rua, bem debaixo da sua janela. A neve já tinha se derretido na maioria, mas havia ainda um pouco. Um primeiro grupo de pegadas de animais se juntava a outra e então uma terceira. Seguiu-as por um quarteirão, então ficavam escondidas sob marcas de sapatos dos passageiros saídos do metrô e ela decidiu então descer os degraus do metrô sozinha.

Na lateral do trem que a levava para o trabalho alguém tinha pintado um lobo correndo. Cinza e negro, com chamas vermelhas nos olhos. Entrou no vagão e estarrecida pensou nele, todo o caminho até o trabalho. Se o olhasse bem, pensou, podia quase ler, não as letras, mas entender seu sentido.Alguma coisa sobre escuridão e silêncio.
Sobre liberdade e dor.

Marsha andava pelo apartamento-estúdio preparando café e falando sobre a mostra de arte.
Jan sentada no sofá olhava a neve cair lá fora. O lugar cheirava a maquiagem e perfume.
‘Você precisa se dar uma chance. Precisa explorar, experimentar. Permitir-se ser realmente selvagem.’
Jan estudou o café na caneca. O creme formava desenhos brancos, como tornados vistos do espaço. ‘Estou pensando em ir embora’ disse para Marsha.
Sua amiga estava dentro do closet, procurando o tal vestido que Jan deveria usar.
‘Ir para onde?’
Jan deu de ombros: ‘Por ai.’
‘Eu poderia tirar umas ferias’ disse Marsha. ‘Quem sabe Bermudas? Ah, aqui está!’
Puxou um vestido negro do armário. ‘Comprei numa liquidação. Estava tentando fazer dieta para caber nele, mas não consegui.’
Graças a insistência de Marsha, Jan o vestiu.
Marsha arrumou seu cabelo e aplicou delineador nos olhos de Jan e sombra.
‘Não olhe até eu terminar. Oh, você está linda!’
Jan via seu reflexo no espelho. ‘Seus olhos pintados lhe davam um ar carnívoro. Os lábios vermelhos, o batom escolhido por Marsha.
Pegaram um táxi até a galeria de arte. No reflexo do vidro Jan via seu rosto: Lábios vermelhos, olhos escuros. Ouvia os sons dos pneus contra o asfalto molhado. Sentia frio... a estola de pele que Marsha lhe emprestara era para ser exibida, não para aquecer, mas o frio era uma sensação distante, quase irreal. Gostou de sentir a pele contra seus ombros.

A galeria estava lotada e quente. Bebeu uma taça de vinho branco... e outra. Perdeu Marsha de vista na multidão e vagou pela galeria parando em frente de cada pintura. As imagens eram sombrias e violentas: um homem tatuado com a cabeça de cão, uns punks no metrô, os olhos brilhando na penumbra, uma mulher nua correndo pela rua escura, o corpo prateado de luar, sua sombra torcida e deformada. Jan tremeu ao ver este, mas o estudou por um longo tempo enquanto as pessoas passavam por ela, falando sobre a técnica do artista e seu uso de temas míticos.

Conheceu o artista quando estava pegando seu terceiro drinque. Ele era alto, cabeludo e falava num tom baixo, sobre arte e vida.
‘Existem pessoas que vivem na superfície da vida, nunca vêem além das ilusões da existência diurna. E existem aqueles que enxergam além das aparências. Estes são aqueles que enxergam a verdade contida em meu trabalho.’
Ele se aproximou enquanto falava e deixou que sua mão tocasse como se acidentalmente o ombro nu dela.
Ele parecia estar dizendo exatamente aquilo que ela tentara dizer para Marsha.
Ela estava pensando em falar com ele sobre os lobos, quando Dennis a interrompeu:
‘Jan?’ Eu não esperava vê-la aqui. Quase não te reconheci.’
Ela o observou por um instante. Seus olhos pareciam turvos e a camisa precisava ser passada. Sua voz era muito baixa e ela imaginou que o copo de vinho na sua mão não devia ser o primeiro. Ela sorriu sem entusiasmo e o apresentou ao artista como seu ex-marido.
O artista não tirou a mão de seu ombro.
‘Estive tentando falar contigo’ disse Dennis. ‘Parece que nunca está em casa.’
Ela deu de ombros. Não disse para ele que estava sempre em casa e que na última semana resolvera não mais atender ao telefone. Preferia deixá-lo tocando enquanto ficava à janela extasiada olhando a noite.
‘Dennis!’ a voz de Marsha cortou o ‘blábláblá’ da conversa. Ela surgiu tentando resgatar Jan de uma situação constrangedora. ‘Desde quando você se interessa em arte?’
Jan os ouvia conversar do mesmo modo que tinha visto a neve cair. Estava separada deles como se por uma vidraça. Marsha balançava a mão na qual pulseiras de mármores chacoalhavam e Jan ouvia o ruído de uma grande distância.
No táxi de volta para casa, Marsha comentou: ‘Oh, ele estava comendo você viva. Estava sim. Quer apostar que você vai acabar voltando com ele?’


‘Jan?’ disse a voz de Dennis. Ele tinha aparecido no seu trabalho. ‘Eu estava pensando que talvez… foi tão bom vê-la na noite passada. Quer sair para jantar comigo? Eu gostaria de falar com você.’
‘Falar?’ Sua voz saiu ríspida e estranha. Não tinha dormido e naquela manhã enquanto se vestia para trabalhar, suas roupas lhe pareceram estranhas contra sua pele.
Dennis dizia algo: ‘…sabe, você deve pensar que sou um idiota, mas senti sua falta. Não sei. Quando te vi na noite passada eu acho que percebi…’
Ele veio na sua direção e ela encarou a parede branca de seu cubículo sem janelas, sem pensar em coisa alguma.
‘Que tal esta noite? Eu poderia encontrá-la depois do trabalho.’
‘Tudo bem. Hoje a noite.’

‘Eu mudei desde que você me deixou’ ela disse para ele no jantar. Mas ele não pareceu entender.
Ele parecia mais desajeitado do que ela se lembrava, deselegante.
Uma coisa acaba levando a outra: jantar a bebida, a bebida até seu apartamento emprestado.
Ele subiu para a saidera. Ela esperava que ele não olhasse no lixo da cozinha onde o corpo do gato ainda estava, enroscado como se dormisse.
A cama rangia sob o peso deles enquanto faziam amor. Ela percebeu, assim que a beijou, que não gostava do seu cheiro. Seu cabelo e pele cheiravam a sabonete e loção, um cheiro de limpeza que achou repulsivo. Sua pele era muito macia, muito limpa.
Dennis dormia quando a lua surgiu, mas Jan estava acordada. Sabia que a lua aparecera, mesmo antes dos uivos começarem. Seu marido dormia ao lado, sua respiração firme e tranqüila.
O ar no apartamento era asfixiante, quente e fedendo a gatos. Os uivos distantes a tocaram.
Escorregou da cama silenciosamente e abriu a cortina para deixar a luz entrar.
‘Estou partindo’ disse calmamente, mas a respiração de Dennis não se alterou.

Abriu a janela e pisou do lado de fora, na escada de incêndio. Estava nua. Seu pé descalço afundou na neve da plataforma de metal. O metal era frio em contato com seu pé, e o ar gelado na sua pele, mas quase não sentia dor, como se tivesse acontecido há muito tempo atrás.
Dentro dela, sentia a mudança…uma mudança de fidelidade, da luz pela escuridão.
Disso ela estava certa, que era o que estava esperando por tanto tempo.

Os lobos vieram das sombras e o luar tornou prata sua pele. Eles se sentaram em um círculo, observando-a com expectativa.
Ela sabia que eles esperavam que ela se juntasse a eles.
No ultimo piso da escada ela hesitou, de súbito notou a aliança de ouro. Ela tirou e a deixou sobre o corrimão de metal.
Quieta, sem pressa, desceu até a rua.
A neve que caia preenchia as pegadas deixadas pelo seu pé descalço.



Points of Departure (1990) - Pat Murphy
Points of Departure faz parte da coletânea de mesmo nome, vencedora do Prêmio Philip K.Dick de 1991.