sábado, 13 de junho de 2009

Coin Locker Babies - Ryu Murakami


‘Chuva.O homem da meteorologia disse ontem que a temporada de chuvas tinha acabado, mas ainda está tão úmido que não dá para ficar de janela fechada sem embaçá-las. Minha avó dizia que só havia duas coisas na vida em que você podia acreditar: O homem do tempo da NHK e o dicionário Inglês-Japonês Sanseido. Isso e aquelas placas nas jaulas do Zôo de Ueno... e talvez os árbitros de beisebol do colégio. Minha avó se formou na universidade nos anos 20, quando quase ninguém de onde eu vim ia para a escola... Merda! Olha o imbecil que tentou me cortar... ela era uma garota esperta... malditos vidros embaçados... ih, caramba, me desculpe madame pelos meus modos, mas que faculdade você freqüentou? Aposto que foi de música...’

Anemone o ignorou e o homem continuou falando e xingando os outros motoristas.

Ela tinha feito sinal para o táxi na frente do atacado de carnes, onde todas aquelas enormes peças congeladas de carne eram carregadas para dentro dos caminhões.
Foi azar, ela descobriu ao entrar no interior do taxi, que o motorista era um pouco amigável demais.

‘Sabe como eu sei reconhecer estudantes de música? O jeito deles denuncia: os de ombros fortes são pianistas, pescoços finos são cantores, violinistas tem calosidades no queixo e os celistas tem pernas em arco. Sou bom, não sou? Pode apostar que não sou um motorista qualquer. Sempre tive o dom para perceber coisas, e meus amigos dizem que é uma vergonha eu perder meu tempo neste trabalho.Eles dizem que eu podia ser um escritor ou capitão de barco. Capitão de barco... isso é que é trabalho. Tem que ser bom para controlar sua tripulação ou pode ter problemas... tem que ser bom... Senhorita? Senhorita ? Tá dormindo?’

Pessoas conversam o tempo todo, Anemone pensou. Eles chegam e começam a falar com você no trem, na fila, no cinema, na lanchonete ou no supermercado, e se você responder, ai é que está perdido, não param mais de falar. Imbecis sorridentes, se oferecem para carregar suas malas ou pagar um copo de café, e então vocês se tornam imediatamente ‘melhores amigos’. Parecem perigosos, todos estes faladores patológicos. Anemone tinha lido sobre um caso de um homem que tentou escapar de um e foi esfaqueado nas costas.

‘Cansaço né? Deixa você maluco… droga de garoa. É ruim para os limpadores e pior para os motoristas. Mal dá para enxergar… a gente fica cego, né? É, cego... você é bem calada madame. Para onde quer ir mesmo? Você é tão calada que eu acabei esquecendo totalmente… não é brincadeira não, não lembro mesmo. Vamos lá madame, me dá uma chance.’ pediu olhando para trás, para Anemone. Ele secou as palmas das mãos nas calças e ela abriu a janela um pouco, apenas para entrar ar.

Um cheiro quente de concreto úmido flutuou pelo carro, o cheiro da noite.

‘É sério, precisa me falar... pra onde vamos? Eu não consigo me lembrar.’

O motorista parou o carro bem no meio da pista e ligou o alerta. Buzinas foram ouvidas no trânsito atrás.

‘Daikanyama’ murmurou Anemone. O rosto do homem relaxou.

‘Certo! Daikanyama então, Avenida Yamate. Só fugiu da minha cabeça por um minuto... senhorita, me desculpe por falar, mas você não é como a maioria das moças. Neste tipo de trabalho eu aprendo muito sobre as pessoas. Devo pegar umas cinqüenta todo dia - estou lhe dizendo, você é um pouquinho diferente, no bom sentido é claro. Por exemplo, se pego uma jovem senhora, ela ao menos conversa um pouquinho, diz olá, estas coisas... acho que o que eu quero dizer é que uma jovem comum tem educação; como quando eu disse para você, alguns minutos atrás, que estava chovendo, lembro que o odômetro marcava 70.092 quilômetros e o taxímetro 1.780 ienes... bem, uma garota normalmente diria algo como ‘Sim, certamente’ ou ‘a temporada de chuvas já deveria ter acabado’ ou algo assim. Pessoas sempre falam do tempo para começar uma conversa, são boas maneiras. Sabe, sou um cara fácil de lidar em geral. Tenho lá minhas broncas,mas tenho a mente bem aberta... mas eu preciso dizer que você é a porra da madame mais calada que já encontrei. Merda, este trânsito! Devagar pra caramba e ainda por cima chove. E um passageiro mal humorado e quieto. Isso é o que eu ganho por ser um sujeito legal.’

O táxi mal se movia e à frente o borrão vermelho das luzes do freio pintava o pavimento. Sem mais nada o que fazer, o motorista estudava o perfil de Anemone pelo retrovisor, enquanto as luzes dos carros seu rosto pálido, com sombras manchando olhos e bochechas. Alí a estrada começava a descer para uma parte de Tóquio popularmente chamada de Toxitown (cidade tóxica), uma área contaminada, bem no centro da cidade. Há uns cinco anos atrás, pássaros e pequenos animais começaram a morrer nas vizinhanças. Testes revelaram um nível anormal de cloro no solo, o bastante para causar erupções na pele quando exposta ou danos ao fígado e aos nervos. Mulheres grávidas foram alertadas sobre o risco de aborto ou defeitos congênitos. Mas isso foi só; nenhuma explicação foi dada, de como o cloro chegou ao solo, contudo ocorreram várias especulações. Já que não havia uma fábrica na área, alguns disseram ter sido vazamento de algum caminhão. Houve uma conversa sobre derramamento, práticas ilegais de empresas de construção, ou até mesmo alguma reação química natural e peculiar, disparada pelas altas temperaturas do solo. De qualquer modo, qualquer que fosse a causa, não podia ser resolvida pelos meios habituais; não era solúvel em água e era imune ao calor, e mesmo os microorganismos desenvolvidos especialmente para se alimentar de dejetos eram inúteis. Ao final o Departamento de Saúde Pública obteve subsídios para realocar os habitantes e toda daquela área foi isolada. O chão foi coberto de cimento, o perímetro cercado por arame farpado e guaritas de segurança.

Havia duas teorias que explicavam o nome Toxitown, uma era simplesmente pelo perigo à saúde, a outra porque a área isolada tinha se tornado um reduto do crime, particularmente do trafico de tóxicos. Os criminosos entravam e saiam de Toxitown, apesar dos guardas que patrulhavam o local.Os guardas carregavam lança-chamas para prevenir que qualquer coisa entrasse, principalmente vândalos tentando roubar alguma coisa. Já que as casas abandonadas permaneciam com seus pertences dentro, as autoridades temiam que a área fosse uma tentação para os desabrigados e invasores de propriedades, e anunciaram que os guardas tinham ordens para incinerar não apenas aquilo que estivesse contaminado, mas qualquer um que estivesse de posse de objetos contaminados. O alerta não teve muito efeito no tráfego que entrava e saia de Toxitown, já que o interesse das pessoas pelo novo território era precisamente por ser um lugar em Tóquio onde a policia não possuía jurisdição. E uma vez que a área foi colonizada por gangsteres e gigolôs, outros tipos passaram a freqüentar também, como vagabundos e andarilhos, pessoas mentalmente debilitadas, putas baratas, prostitutos, procurados pela justiça, degenerados e desajustados, que estabeleceram residência em Toxitown, e desta forma um tipo estranho de sociedade começou a formar-se.

Ao fim, até a polícia aparentemente preferia olhar para o outro lado, agradecendo pelo inesperado resultado de tantos marginais em um só lugar: a taxa de criminalidade, particularmente crimes sexuais, caiu tremendamente em outras partes da cidade. Todos de fato, não oficialmente é claro, estavam satisfeitos com a situação, exceto por um pequeno detalhe: a área delimitada por arame farpado ficava adjacente e na sombra dos novos super arranha-céus de West Shinjuku, como se a coroa na linha do horizonte da cidade estivesse colocada sobre o esgoto.

‘É bom senso’ o motorista estava dizendo. ‘Use o seu bom senso, é o que sempre digo. Este pessoal todo que não tem bom senso, você pode levá-los para onde quiser e dar um jeito. Olhe para este engarrafamento por exemplo: é claro que se todos em Tóquio quiserem ir para o mesmo lugar ao mesmo tempo, bem, vai terminar nisso. O que precisamos é que alguém apareça com alternativas, alguma coisa criativa. Deve haver muitos outros meios de se fazer isso, carros voadores ou estradas subterrâneas, ou outra coisa qualquer... e essa maldita chuva que não ajuda também... Perai! Porra, espere ai! Ei … senhoria, é você não é? Sim, sim, é claro que é! Você é aquela do comercial de televisão, aquela que o xampu cai nos olhos, que ficam vermelhos e você vira um coelho. Que merda! Como é que não vi isso antes! Uma modelo!’

A chuva começara a cair mais forte quando Toxitown surgiu à esquerda. Uma luz pálida banhava as guaritas e os carros blindados, iluminando uma placa onde se lia:

‘ÁREA TÓXICA, MANTENHA-SE AFASTADO.’

O cenário brilhava como se grandes tiras de luz dos arranha-céus tivessem se destacado e iluminado a fortaleza de arame farpado. O motorista, que tinha se dado conta de possuir uma celebridade a bordo de seu carro, tornou-se ainda mais falante:

‘Sabe quem você me lembra? Aquelas atrizes de antigamente de Hollywood, naquelas cenas debaixo d’água, onde piscavam para a câmera. Você tem os mesmos belos e enormes olhos…’ E então ‘Caramba! Que dia é hoje? Sexta! Eu devia saber! Semana passada uma vidente leu minha sorte e disse que sexta eu encontraria uma pessoa que mudaria minha vida, alguém que mudaria meu futuro! É você! Hoje! E com certeza você tem cara de quem pode mudar a sorte de um cara. Que rosto! E que olhos! Como os olhos daquela boneca de plástico que minha irmã pequena brincava, que podia beber leite de verdade. Você tem arco-íris em suas pálpebras, você sabe? É bonita mesmo, todas aquelas cores nos seus olhos... uh, desculpe se estou falando loucuras, mas você tem um rosto que faz um cara ficar maluco... mas todo mundo deve dizer isso pra você.’

Em algum lugar atrás deles uma buzina soou por longo tempo como se disparasse, e muitos motoristas estavam tentando ver o que acontecera. Alguém gritava: ‘Quieto seu babaca’, e que ecoou através da chuva. Então outras buzinas se juntaram e motores aceleraram.

Dentro do táxi a excitação do motorista tinha embaçado todas as janelas, enquanto que algumas pessoas ao longo da estrada, perturbadas pelo barulho - ou apenas aborrecidas - começaram a jogar pedras nos carros. Quando uma delas ricocheteou no teto do táxi, Anemone começou a sentir-se desconfortável.

A superfície lisa da estrada refletia as luzes da cidade em seu rosto. O motorista baixou o vidro e gritou ‘Fiquem quietos, porra’ onze vezes seguidas, pelas contas de Anemone.

‘Que merda, que grande porcaria’ ele murmurou balançando a cabeça. ‘Ouça moça, o trânsito está louco e vai acabar me matando se eu não sair daqui. É isso! Que tal se sairmos juntos? O que me diz? A companhia tem um pequeno bangalô na praia, lá pra leste de Chiba: podíamos ir até lá juntos. Assim fugiríamos desse trânsito. Que tal? Exceto que… custa dinheiro dar uma escapulida, especialmente com uma garota como você. Aposto que nunca saiu com um cara sem grana. Não deve ter nada a não ser cerveja nesta casa de praia, e uma garota como você deve beber apenas vinhos finos. E provavelmente a roupa de cama deve ser vagabunda; e precisaremos de lençóis novos. É isso, tem que ter dinheiro pra essas coisas... Espera ai! Estamos na Avenida Yamate? Espere um maldito minuto! Conheço um cara que faz apostas e que tem um escritório logo ali. Tem me enrolado há anos, mas eu dou um jeito nele e conserto a situação. Se não se importar em ficar sentada aqui um pouquinho! Vou lá e pego algum dinheiro, e enquanto estiver por lá... há! Não vou me importar de enfiar uma faca naquele porco! Não demoro nem um minuto’ e saiu.

O motorista tinha parado o carro em uma das pistas; Anemone que mal ouvira o que ele tinha dito, pensou que ele tinha ido comprar cigarros ou algo assim. Ela começava a se preocupar com seu embrulho de carne de cavalo e cabeças de galinha, que iria estragar se não colocasse logo na geladeira; e ignorou os insultos gritados pelos outros motoristas dos carros que precisavam se desviar do táxi que bloqueava a pista. Como o motorista não voltou em cinco minutos, Anemone ficou furiosa. Esfregando um círculo na janela embaçada, achou o soldado armado, bem ao lado do carro. O jovem vestia uma capa transparente plástica e seus pés se moviam no ritmo da música que chegava aos seus ouvidos por um pequeno fone de ouvidos.

‘Descuuuuulpa!’ disse o motorista deslizando para dentro.

Anemone olhou para ele e tentou gritar, mas nada saiu de sua boca.
Seu rosto e sua camisa estavam cobertas de sangue.

‘Que decepção! Que sujeito mais mole! Bem, ao menos consegui a grana. Vamos nós!’ A voz do motorista tremia um pouco, mas sua habilidade era incontestável. Subiu no meio fio com o carro e fez a volta, seguindo na direção contrária.

Anemone não sabia o que fazer: sabia que devia gritar, mas não conseguia. Um arrepio tomara todo seu corpo e sua cabeça estava quente. Agora mesmo era que a carne iria estragar, pensou. Começava a ficar com raiva de verdade.

Enquanto isso a sorte do motorista chegou ao fim e o táxi bateu, pior, amassou o outro carro. O homem do outro carro saiu e veio até a janela do táxi, pressionando seu rosto contra o vidro e gritando ‘abra’, mas o motorista estava acovardado demais para fazer qualquer coisa.

Sem ter resposta, o outro motorista começou a chutar a porta, ajudado por outro homem que arrebentou o pára-brisa com um taco de beisebol de alumínio.

Anemone atirou-se ao chão enquanto que o motorista, recobrando-se um pouco, empurrou a marcha à ré e subiu pela calçada. Achou um lugar onde um dos postes que deveria manter a cerca de arame farpado tinha tombado, e apertando o acelerador, foi de encontro à cerca, abrindo um buraco nela; e então o motor morreu.

Neste instante um holofote entrou em ação e um facho de luz potente caiu sobre o carro.
Uma sirene disparou e o soldado com fones de ouvido pulou de seu posto e veio correndo com a arma apontada.

Assim que outros dois guardas em uniformes brancos saíram do carro blindado, o motorista conseguiu fazer o motor pegar e engatou uma marcha. Os guardas como advertência, mostraram seus lança-chamas, mas antes que pudessem abrir fogo, o táxi atravessou a cerca e desapareceu em Toxitown.


Trecho de "Coin Lockers Babies"(1997) de Ryu Murakami.