sábado, 6 de junho de 2009

De como Micromil e Cigaciano provocaram a fuga das Nebulosas - Stanislaw Lem


Os astrônomos nos ensinam que tudo quanto existe, as nebulosas, as galáxias, as estrelas, se afastam umas das outras em todas as direções e, como conseqüência desta fuga contínua, o universo cresce sem cessar há milhões e milhões de anos.

Algumas pessoas, assombradas com esta fuga universal, trataram de inverter a ideia e chegaram à hipótese de que, nos tempos mais remotos, o Cosmo inteiro se aglomerava em um ponto, como uma bola estelar, que por uma estranha causa, totalmente desconhecida, explodiu, e que esta explosão continua até os nossos dias.

Pensando desta maneira, sente-se uma enorme curiosidade sobre o que poderia existir antigamente, mas são incapazes de esclarecer o mistério. Na realidade foi isso que aconteceu:

No Universo anterior viviam os construtores, mestres incomparáveis da arte cosmogônica.
Não havia coisa que eles não pudessem fazer, embora se saiba que para construir qualquer coisa é preciso dispor antes de um planejamento daquilo que se pretende construir.

De maneira que estes dois construtores, chamados Micromil e Gigaciano, passavam o tempo discutindo de que maneira seria possível entender o que poderia ser construído por ambos.

-Posso realizar tudo que se passa na cabeça - afirmava Micromil - porém não me lembro de tudo. Isso me limita, e a você também, pois não somos capazes de imaginar tudo que pode ser imaginado; e é muito possível de que exista alguma coisa que não seja exatamente aquilo que estamos imaginando e construindo e que valha a pena ser feita. Não acha?

-Tem toda razão, - disse Giganciano - mas o que podemos fazer?

-Me parece muito simples: Tudo que construímos sai da matéria, disse Micromil, já que nela se encerram todas as possibilidades. Se pensamos numa casa, construímos uma casa, se imaginamos um palácio de cristal, levantamos este palácio. Não importa se falta uma palavra, uma estrela ou uma mente, também conseguimos fabricá-las. Sem dúvida, dentro da matéria existem mais possibilidades do que dentro de nossas cabeças, por isso precisamos dar uma voz à matéria para que ela possa nos dizer o que podemos fazer com ela, diferente daquilo que somente nos ocorre ser possível.

-Sim, claro, uma voz é necessária - disse Gigaciano - mas não basta, já que a voz somente é capaz de expressar o que a mente concebe. Portanto a matéria não precisa só de uma voz, mas também do pensamento, e então seguramente revelará todos os seus segredos.

-É correto- concordou Micromil, vale a pena tentarmos. No meu modo de ver, devemos proceder assim, já que tudo que existe é energia: é necessário construir uma mente começando por sua menor parte, desde o Quantum.... é preciso aprisionar a mente quântica em uma cela feita de átomos pequenos. Quando tivermos cem milhões destes pequenos gênios de bolso, teremos conseguido nosso objetivo: estes cérebros se multiplicarão e então qualquer punhado de areia pensante nos dirá o que fazer e como fazê-lo, muito melhor do que um conselho formado por incontáveis pessoas.

-Não, não, assim não é possível, reclamou Gigaciano. Temos que fazer o inverso, já que tudo que existe é massa. Com a massa do Universo construiremos um cérebro imenso e repleto de ideias. E, quando perguntarmos, ele revelará todos os segredos do Universo. Seus pequenos gênios não serão mais do que um fenômeno desprovido de eficácia, já que cada grão pensante dirá uma coisa diferente e será uma confusão, e você não entenderá coisa alguma.

Seguiram assim discutindo os dois construtores até terminarem por se desentender de tal maneira que não haveria como empreenderem a tarefa juntos. Assim, se separaram e cada qual passou a trabalhar de seu modo.

Micromil começou capturando os quantuns e meteu-os em jaulinhas atômicas, e como os mais diminutos se concentraram em cristais, dotou de uma mente os diamantes, as calcedônias e os rubis; as coisas deram muito certo, principalmente com os rubis, até o extremo de, por tanta energia racional contida neles, lançarem fagulhas. Havia também outros minerais pensantes, tais como esmeraldas, as prudentes safiras e espertos topázios, mas os que se saíram melhor, do ponto de vista de uma mente, foram os rubis vermelhos.

Enquanto Micromil se dedicava à gestação de corpos diminutos, Gigaciano se dedicava a criar um gigante. Escolheu toda a matéria disponível, fundindo-a, mesclando, soldando e martelando, até que criou seu ser cósmico, chamado Cosmoludo, uma criatura enorme que a tudo abarcava, ao ponto de que nada ficasse fora dele, salvo o pequeno reduto onde Micromil estava com suas jóias pensantes.

Quando ambos os construtores terminaram sua sobras já não se tratava de saber qual das duas engenhosidades criadas por eles possuía mais ideias e revelava mais enigmas, mas qual dos dois construtores havia tido razão e escolhido mais acertadamente. Decidiram então competir.

Gigaciano aguardava Micromil junto a Cosmoludo, que se estendia por séculos e séculos-luz em comprimento, largura e altura, pois seu corpo era formado de escuras nebulosas estelares, seu sistema respiratório se compunha de múltiplos sóis e as pernas e braços eram galáxias engessadas pela gravidade, a cabeça formada por trilhões de globos metálicos e um chapéu peludo sobre a cabeleira solar. Quando Gigaciano preparava Cosmoludo, tinha que ir da orelha até a boca e cada uma destas viagens durava seis meses. Ao contrario, Micromil chegou ao campo de batalha sozinho, com as mãos vazias; e em seu bolso levava o diminuto rubi que iria enfrentar o gigante.

Gigaciano sorriu ao vê-lo.

-Para que serve esta nulidade? Caçoou. O que ele pode diante deste gigantesco poço de sabedoria galática, o que pode contra sua compreensão feita de nebulosas, cujos pensamentos são transmitidos de um sol para outro, reforçando sua poderosa gravidade, até que as estrelas explodindo conferem o resplendor das ideias, e a escuridão interplanetária agiganta sua reflexão?

-Deixe de se gabar de sua criação e de caçoar de mim e vamos aos fatos! disse Micromil. Sabe o que é melhor? Deixemos para eles a competição! Que meu gênio microscópio se bata com seu ser estelar, neste torneio em que o escudo é a inteligência e a espada a prudente razão.

-Pois que seja! Concordou Giganciano.

Então se separaram e ambas suas criações permaneceram sozinhas no campo de batalha. O diminuto e vermelho rubi começou a dar voltas, girando no escuro vácuo cósmico riscado pelas estrelas por sobre o corpo iluminado de seu incomensurável rival, e então disse, com voz de passarinho.

-Ei, grandão sem fim! És capazes de pensar?

Suas palavras levaram um ano até chegar ao cérebro do colosso, cujos pavilhões harmônicos e artisticamente concebidos começaram a se mover e então o colosso se assombrou com aquelas palavras atrevidas e quis ver quem era o ousado que assim falava.

Começou a girar a cabeça naquela direção, mas antes de terminar a rotação já haviam se passado dois anos. Olhou através da escuridão com seus claros olhos galáticos, mas não viu nada, já que o rubi, já fazia algum tempo, estava em suas costas.

- Estúpido! Ao invés de mover sua cabeça, vê se pode me dizer quanto é dois mais dois, antes que a metade desses seus sóis azuis gigantes ardam em teu cérebro e se consumam de tão velhos!

Furioso por conta das brincadeiras do diminuto rubi, Cosmoludo começou a girar novamente a cabeça o mais rapidamente que pode, mas o rubi já estava falando novamente às suas costas, então tratou de girar mais depressa, e ao redor do eixo de seu corpo rodopiavam vias lácteas e os membros feitos de galáxias, até então definidos, se enroscaram em espirais e as nebulosas estelares giraram vertiginosamente, de modo que tudo se converteu em uma bola e todos os sóis e os planetas se dispararam com tal velocidade que pareciam piões; mas antes que o colosso pudesse enquadrar seu adversário, este já zombava às suas costas.

O atrevido engenho de Micromil escapava cada vez mais depressa, enquanto Cosmoludo não fazia mais do que girar e girar, mas sem poder alcançá-lo, apesar de dar mais voltas que um pião gigantesco e tanto girou, e com tanta velocidade, que se distenderam as cadeias gravitacionais até o ponto de alcançarem o limite de sua resistência, destruindo seus pontos de atração elétrica e, com a terrível potência centrífuga, o gigante imediatamente estourou e seus pedaços saíram disparados pelo espaço, derramando suas ardentes espirais galáticas e assim começando a fuga das nebulosas.

Micromil afirmou que devido àquela catástrofe o triunfo era portanto seu, já que o Cosmoludo de Gigaciano havia volatizado antes sequer de pronunciar uma palavra racional, ao que Giganciano respondeu que o objetivo da competição não consentia em medir forças, e sim a compreensão, ou seja, qual das criações era a mais inteligente e não qual era mais resistente, e já que o que aconteceu nada tinha a ver com o objetivo do desafio, afirmava que Micromil o havia enganado vergonhosamente.

Desde então, Micromil anda procurando seu rubi, que se perdeu durante a catástrofe, porém sem poder encontrá-lo; de vez enquanto enxerga uma luz vermelha e corre até ela, mas encontra uma nebulosa corada de velhice e volta a continuar buscando, mas sempre em vão.

Por sua vez, Gigaciano se dedica, com a ajuda de grandes cordas gravitacionais e de fios de calor, a cozer os fragmentos dispersos de seu Cosmoludo, utilizando como agulha a radiação.
Porém tudo que costura logo se rompe de tão enorme é a força das nebulosas foragidas a correr. Assim, nem um nem outro conseguiram descobrir os mistérios da matéria, apesar de a terem dotado de uma mente e posto uma voz; porém no momento decisivo da conversação, esta resultou tão pobre que se qualificaria de irracional e tola por sua ignorância.

Porém se há um fato concreto, é que o gigante Cosmoludo de Gigaciano se rompeu em uma infinidade de pedaços por culpa do rubi de Micromil e todos os fragmentos seguem voando até hoje em todas as direções. E se alguém não acredita, basta perguntar aos sábios se não é verdade que tudo que existe no cosmos gira incessantemente ao redor de seu eixo como um pião - pois tudo começou com esta vertiginosa rotação.


De Cómo Micromil y Cigaciano Provocaron la Fuga de las Nebulosas - Stanislaw Lem