sábado, 3 de outubro de 2009

Stalker (A máquina dos desejos) - Parte 4 de 6


QUARTA PARTE


Perambularam por uma estrada secundária coberta de finíssimo pó.
A cada passo o pó se levantava e parava suspenso no ar durante certo tempo, imóvel.

Ao longo do caminho vários postes telegráficos decrépitos. Fazia calor e a colina tremulava longe.
O Professor, que ia na frente naquele momento se deteve, e derrepente virou-se para seus companheiros e falou desconcertado:
- Tem um automóvel ali… e seu motor está ligado.
- Não se importe com isso – falou o Stalker – está ligado há vinte anos. Melhor olhar para o chão e não se afaste do centro da estrada.

Passaram em frente a um caminhão novo em folha, como se tivesse recém-saído da fábrica.
Seu motor funcionava e do escapamento saia uma fumaça azulada. Mas as rodas estavam fundidas com a terra e pela porta entreaberta, via-se ao invés do chão da cabine, o mato crescendo.

Em certa ocasião, provavelmente no mesmo dia da Visita, um enorme caminhão transportava por esta estrada em um reboque especial, um tubo largo, de um metro de diâmetro para o gasoduto. O caminhão colidiu com um poste à esquerda da estrada e o tubo foi lançado do reboque atravessando o caminho. Provavelmente o tubo arrancou alguns postes telegráficos e telefônicos e que estavam agora tombados pela estrada.

Sobre os fios havia crescido um tipo de farrapo avermelhado que caia como cortina, fechando o caminho da estrada.

Junto ao acostamento a boca negra de um túnel. A terra adiante estava carbonizada, como se dela tivessem saído chamas.

- Precisaremos entrar por ali? Perguntou o Escritor sem falar com ninguém especificamente.
- Entraria se eu mandasse, disse friamente o Stalker recolhendo alguns cascalhos nas valas de escoamento da chuva. – Vamos, separem-se! Toma impulso com o braço e atira uma pedra pela boca do túnel.
Ouve-se uma pedra retumbando dentro. O Stalker aguarda um pouco e atira outra. Se repete o mesmo som e depois o silêncio.

- Bem, diz o Stalker sacodindo as mãos vagarosamente – Podemos… - volta-se para o Escritor e diz – Você, vai andando!

O Escritor começa a dizer algo, mas ao fim suspira resignado. Tira do casaco uma garrafinha chata, desenrosca a tampa e toma vários goles e a entrega ao Professor.
O Escritor limpa a boca com a manga do casaco. Não tirava os olhos do Stalker, parecendo esperar alguma coisa. Mas não havia nada que esperar.
- Agora estamos por conta do destino? Pronuncia com um riso forçado.
Dá um passo em direção, mas para diante da terrível goela negra.
Mete as mãos nos bolsos e se volta.
- E por que eu? Pergunta arcando as sobrancelhas – Por quê? Não vou!
O Stalker se aproxima dele e o Escritor recua.
- Vai sim! Rosnou o Stalker entre dentes.
O Escritor faz que não. O Stalker o acerta ao estômago e na cabeça, depois agarra-o e lhe dá algumas bofetadas.
- Claro que vai! Grunhe com ímpeto.

O Professor tenta segurá-lo pelo braço. O Stalker sem ver acerta uma cotovelada no Professor que lhe acerta o nariz, e faz com que seus óculos voem longe.

- Anda!
O Escritor limpa o sangue dos lábios, olha para a palma da mão e olha para o Stalker.
- Meu Deus… - exclama.
Uma profunda repugnância se espelha em seu rosto, e sem dizer uma palavra, cospe em direção dos pés do Stalker, dá meia volta e entra no túnel.
O Stalker de imediato se afasta e faz o mesmo com o Professor.

De dentro chegam chiados e pancadas e uma respiração entrecortada. O Professor ajeita os óculos com as mãos ainda tremendo. Uma das lentes está rachada. Silêncio.

- Me segue! Grita o Stalker e se lança dentro da boca negra.
Os dois saem em um recinto circular. Seguramente em outros tempos havia uma espécie de centro de controle ali. Mesas e cadeiras e sobre as mesas vários telefones (todos desligados) mapas topográficos meio podres, lápis esparramados. Ao chão vê-se caixas de conservas e garrafas. Não se sabe por que, mas há um carrinho de bebê também.

O Escritor está sentado numa das mesas, segurando uma garrafa.
- É isso! Quem está com medo? Disse animado o Stalker.
É evidente que está ali pela primeira vez e olha tudo com curiosidade, reparando em cada canto. O Escritor, lutando para abrir a garrafa, o observa entre sombrio e irônico.

- Quando digo que pode ir é porque pode – prossegue o Stalker – Me dê isso aqui! Por que tanta demora? –arranca a garrafa das mãos do Escritor e a destampa com habilidade – Onde devo servir? Não temos copos. Beberemos no gargalo, você primeiro, você merece…
Enquanto isso o Professor percorre o local, colocando os fones nos ganchos.

O Escritor dá um longo gole da garrafa e depois a apóia no joelho e lambe os beiços.
- Que foi? Está quente? Pergunta alegre o Stalker - É claro que o Raposa esteve por aqui, provavelmente descansou e se aliviou… mas tú bebe, bebe, vou tomar uma inteira, tem um monte delas.
- Querido Chingachguk (personagem de ficção, um índio moicano) - enfatiza o Escritor - Eu compreendo que seus rodeios não são outra coisa a não ser uma forma de pedir-me desculpas. Eu o perdôo. Você teve uma infância desgraçada, o meio em que foi criado, eu compreendo perfeitamente. Mas não se engane. Me vingarei sem falta!

O Stalker, virando outra garrafa, fala:
- É sério?
- Sim, sim, sou um homem vingativo como todos os escritores e artistas em geral. Agora mesmo não penso em outra coisa a não ser lhe meter uma bala entre as omoplatas… Mas o farei de um jeito mais elegante. Enfiarei uma agulha em teu crânio que vai lhe parecer que o mundo se tornou um inferno. Bem no cérebro, no seu sistema nervoso central…

Nesse mesmo momento, ouve-se um telefone tocar. Todos estremecem, e o Professor logo toma o fone e atende.
- Alô… ele diz.
Uma voz impaciente pergunta irritada:
- É dois-vinte-três- quarenta e quatro doze? Como está a ligação?
- Não sei, responde o Professor.
- Obrigado, só estou testando.
Ele ouve alguns apitos. Desliga. Os três se olham e depois para o telefone.

O Professor pega o aparelho novamente e disca rapidamente um número. Seu rosto possui uma expressão maliciosa.
- Pronto! Responde uma voz de homem.
- Perdoe-se me eu o incomodo, mas, por favor – diz o Professor – estava querendo lhe falar algo. Suponho que sabe quem está falando?
Pausa.
- Quem?
- É do edifício velho, a sala de caldeira, quarto bunker. Acertei?
- Vou chamar a polícia!
- É tarde – pronuncia jubiloso o Professor – estou fora de seu alcance. Sabe onde me encontro? Estou a dois passos do lugar, e você não pode fazer nada! Chame quem você quiser, escreva uma denûncia, pode formar uma comissão de especialistas em medicina, atiça meus funcionários se quiser, ameaça-os, faz o que quiser e quando quiser. Estou te telefonando para te dizer que você é um cretino e que apesar de tudo, estou a dois passos do lugar!
Pausa.
- Está me ouvindo? Pergunta o Professor ao telefone.
- Você compreende que é teu fim como cientista?
- Eu agüentarei. Valerá à pena.
- Compreende que a prisão te aguarda? Trabalhos forçados!
- Chega! Estou a dois passos! Acha que pode me assustar agora?
Pausa.
- Meu Deus – pronuncia o interlocutor invisível – A que ponto chegamos! Já faz tempo que você não pensa mais no trabalho! Tu não é sequer um Heróstrato (o jovem que pôs fogo no templo de Diana, por querer a imortalidade), tu só quer me xingar, você é o menininho que se alegra por ter conseguido colocar insetos na sopa… mas recorda demônio, como tudo começou! Que idéias, que imensidão! E agora só pensa em mim e em você. Onde estão os milhões e milhares de milhões de que falamos, os milhares de milhões de seres que não sabem nada! Meu Deus pense! Conclua tua… infâmia. Apesar de tudo ainda te lembro que és um assassino. Mata a esperança. Centenas de gerações virão depois de nós e cada uma destas milhares de milhões de pessoas te amaldiçoarão e o desprezarão.
O Professor aperta os botões e bate no gancho, mas a voz não se cala.
- Seguramente não está se importando agora com o que estou dizendo. Se sente dono da situação e não compreende nada… não desligue o telefone! Ouve o que tenho a lhe dizer, pois estou falando com você. O cárcere não é o pior que te espera. Você mesmo nunca irá se perdoar. Eu sei, já o vejo enforcado na cela, com os próprios suspensórios.
O Professor desliga o telefone com um golpe e permanece um tempo parado, sem se virar.

- A conversa foi divertida – comenta o Stalker e bebe um trago da garrafa.
- Não liguem para isso – diz o Professor – Foi simplesmente uma conversa com um colega.

Senta-se na mesa e toma a garrafa das mãos do Stalker. Examina o rótulo.
–Vamos meus amigos, bebam e descansem – diz o Stalker – bebam, pois nos falta um último trecho apenas. Se vira para o Escritor. – Bem, e tu? Por que se calou? O que queria me dizer?
- Não estou mais desgostoso. Por incrível que pareça – responde o Escritor. Ouça, é verdade que estamos a dois passos do lugar?
- Não exatamente dois passos de verdade, diria que estamos perto.
Um longo silêncio. Depois o Escritor diz:
- Sabem de uma coisa? Fizemos mal em vir até aqui. Que diabo! Não pensei que fosse assim. Não seguirei adiante.
- Como não seguirá? Pergunta o Stalker.
- Não irei. Vocês vão e eu os espero aqui. Os receberei quando voltarem felizes e contentes…
- Não camarada, isso não!
- Por quê? Tem outro túnel? Pergunta o Escritor com malícia. - Deixe que o Professor o prove. Ele se importa.
- Que? Que besteira está falando?
- Não importa a besteira de que falo. O que importa é que não seguirei em frente. Se dependesse de mim, vocês também não… como os qualificou o Professor? Benfeitores? Tampouco lhes deixaria ir.
- Que está dizendo? Ficou louco? Faltam só dois passos…
- O importante não é o que falta, mas sim o que percorremos! Está quase gritando – Nos divertimos bastante! E chegamos aqui!
- Aonde você chegou? Pergunta o Stalker com a voz rouca de ódio.
- Eu? Me diga você por que o Raposa se enforcou?
- Por que ele não foi ao lugar pela riqueza, mas pelo irmão menor.
- Por seu irmão?
- Foi. Ele o havia levado consigo para a Zona e em algum momento, ele trocou de lugar com ele. Muito tempo depois, quando velho, ficou com dor na consciência, voltou ao lugar de novo para restaurar a vida do irmão. Mas quando chegou ao lugar, de novo cedeu à cobiça e em vez do irmão quis mais dinheiro. Entende?
- Magnífico – disse o Escritor – Era o que eu pensava. Mas me explique o seguinte, por que ele se pendurou? Por que não voltou ao lugar denovo e desta vez pelo irmão? Ein?
- Isso eu também não sei, disse o Stalker sombrio.
- Pois eu sei. E eu também sei por que se enforcou. Ao Raposa o que é do Raposa e só do Raposa e de ninguém mais. Você mesmo me disse que neste lugar se realizam os desejos mais secretos. E o que ele gritou? Quero recuperar meu único irmão, quero a felicidade para todos os seres humanos, me dê inspiração! Neste lugar se realizam aqueles desejos que são da tua natureza, o essencial para você. Desejos que você sequer tem idéia, que te dominam e te guiam pela vida. Foi isso que aconteceu com o Raposa. Tu, meu anjo, não entendeu nada. Não foi a cobiça que o venceu. Ele ficou de joelhos naquele lugar e suplicou pela sua alma, como lhe parecia ser o certo a fazer, com toda sua consciência enferma, pediu que lhe devolvessem o irmão, mas recebeu um monte de dinheiro e não podia receber nada mais do que isso, por que ao Raposa o que é do Raposa. Por que a consciência, a tortura da sua alma são uma ficção, uma invenção da mente. Quando ele entendeu isso, se enforcou.


FIM DA QUARTA PARTE