quarta-feira, 25 de novembro de 2009

O Passado do Futuro



O futuro também tem um passado.

Quando vemos um filme de ficção científica de décadas atrás, o ar retrô das roupas, do design dos robôs e naves espaciais e do próprio comportamento dos astronautas salta à vista.

Até as supostas fotos de UFOs ilustram o estilo de sua época. Os discos-voadores dos anos 50 pareciam (ou eram) calotas de Cadillacs e caixas de aspiradores de sua época.
Os mais recentes atestam que os cromados saíram de moda também no espaço interestelar.

No final do século XIX, a ciência e a tecnologia eram representadas por engenhocas pesadas e fumegantes.

As obras mais conhecidas de Júlio Verne estão repletas de máquinas às vezes surpreendentemente proféticas, mas também curiosamente antiquadas. Como em 20.000 Léguas Submarinas: só 80 anos depois os submarinos nucleares reais igualariam a capacidade de submersão e navegação da criação do Capitão Nemo – mas seu recurso militar mais sofisticado era abalroar o inimigo, como as galeras faziam 2.500 anos atrás.

O futuro, para o século XIX, era a ampliação de um presente em que o progresso se media por toneladas de aço e carvão. Verne imaginou navios a vapor de quilômetros de comprimento e um canhão de 270 metros, capaz de disparar uma bala com a qual seus heróis se adiantaram 106 anos ao projeto Apolo.
Na vida real, é claro, teriam sido reduzidos a patê.

Quando Verne vai além das viagens fantásticas para antecipar o futuro da sociedade, como em Paris no século XX, a mistura de profecia e anacronismo é ainda mais deliciosa. Na França de 1960, sob o reinado de Napoleão V, a obsessão com a produtividade, o lucro e a eficiência haviam levado a cultura humanista à extinção. Uma brilhante antecipação em meio a valores e cenários curiosamente vitorianos.

Circulam nas ruas carros a hidrogênio (é verdade que de 1 hp), mas o banco de dados do tio bilionário era mantido num livro-caixa de seis metros de altura. O poético sobrinho morre de fome e frio depois de desistir de escrever para o “Grande Armazém Dramático”, uma antecipação de Hollywood que produzia em série peças banais, tornando a censura desnecessária.

Melhor ainda é O dia de um jornalista americano em 2889. Há mísseis munidos de micróbios da peste e da cólera, aeroônibus cruzam os céus e pessoas se vêem e  falam através de “fonotelefotos”, uma espécie de videofone. Um bilionário norte-americano dá ordens a potentados estrangeiros como o czar da Rússia e o Imperador da China e exige que acabem uma guerra que lhe prejudica os negócios.
A Inglaterra virou colônia dos EUA. Não, Verne não cita Tony Blair.

A ficção científica muda nitidamente de sabor a partir da década de 1930. O cenário social às vezes nos parece muito menos realista do que nas obras de Verne. Não é por acaso: o capitalismo liberal de fins do século XIX foi, sob muitos aspectos, mais parecido com o dos dias de hoje do que as sociedades de meados do século XX, que se debatiam entre o welfare state, o fascismo e o stalinismo, mas sempre tinham em alta conta o planejamento racional e a engenharia social.

O pano de fundo tecnológico foi em grande parte pintado por Nikola Tesla, que nos anos 20 previu inúmeras invenções revolucionárias no campo do eletromagnetismo, incluindo motores antigravitacionais, transmissão de energia elétrica sem fio, campos de força e raios da morte capazes de abater aviões a centenas de quilômetros. Era excêntrico, mas não charlatão. Cientista e inventor respeitado, havia descoberto o campo magnético giratório e com ele inventou, no final do século XIX, os dínamos, os motores e os transformadores de corrente alternada, sem os quais teria sido impossível usar a energia elétrica em grande escala.
Agora acreditava na possibilidade de um campo escalar de “energia cósmica” – uma onda eletromagnética sem freqüência – e, em busca de recursos para pesquisá-lo, procurava desesperadamente chamar a atenção do público falando de vagas intuições como invenções prestes a se concretizar. Desta vez, suas teorias não se comprovaram, mas ainda são levadas a sério por ufologistas, teóricos da conspiração e inventores obstinados.

Essas e outras fantasias tecnológicas podem ter ajudado a criar o clima de euforia especulativa que explodiu na crise de 1929. Foram divulgadas por jornais sensacionalistas, novelas de rádio, quadrinhos e por Amazing Stories, a primeira revista regular de ficção científica, criada em 1926 pelo escritor e radialista Hugo Gernsback, inventor visionário e fracassado nas horas vagas. Sua influência no imaginário norte-americano e ocidental foi surpreendente. Os discos voadores são um exemplo impressionante. Associados ao seqüestro de humanos por alienígenas, surgiram nas suas capas em 1946 e elevaram a circulação de 25 mil para 250 mil. No ano seguinte, as pessoas começaram a ver discos no céu e nunca mais pararam.

Algumas idéias dessa ficção se realizaram, ainda que bem mais tarde e nem sempre da forma prevista, como a televisão, o computador, os foguetes interplanetários e os raios de calor (lasers). Outras, ainda que possíveis, se mostraram antieconômicas ou pouco práticas, como as calçadas rolantes, os carros voadores, os jatos pessoais, os robôs domésticos e os videofones.

Salta à vista nessa concepção do futuro a obsessão com a velocidade. Não só veículos de ficção e projetos futuristas divulgados nas páginas de Mecânica Popular, como também automóveis de luxo e utilidades domésticas das mais prosaicas pareciam desenhadas para voar a velocidades supersônicas.

As mudanças nos ritmos sociais trazidas pelo rádio e pelo avião eram mecanicamente extrapoladas ad absurdum. Temporão e quase abortado, o supersônico Concorde pode ser considerado um dos últimos filhos desse sonho. Ainda mais característica é a certeza da vitória e da validade eterna dos valores sociais e morais da classe média interiorana dos EUA de meados do século XX.

As roupas do futuro seriam pudicas, simples, funcionais e quase uniformes. Os adolescentes não procurariam nada mais perigoso e excitante que um milk-shake na lanchonete da esquina, suas mães adorariam ser boas donas-de-casa e seus pais continuariam a perseguir o sonho americano com inabalável otimismo.
As minorias e as classes oprimidas estavam ausentes desses cenários. Robôs reluzentes e trabalhadores desempenhariam o papel de escravos sem reclamar nem criar problemas de consciência para seus proprietários. Foi exemplar a Rosie dos Jetsons, variante metálica e idealizada da empregada doméstica negra.

Fora dos EUA, esse futuro elétrico e supersônico, planejado por tecnocratas, foi temperado por pitadas de realismo e ironia, mas até a contracultura acreditava que esse futuro era possível e mesmo inevitável. Ainda que não estivesse igualmente entusiasmada com ele, como mostrou Aldous Huxley em Admirável Mundo Novo.

Na União Soviética, o desaparecimento das classes e a igualdade das raças e dos sexos faziam, naturalmente, parte do futuro oficial. Na prática, porém, a fórmula de Lênin segundo a qual comunismo seria igual a socialismo mais eletricidade deu prioridade cada vez maior à segunda parcela dessa equação simplista, como se a vitória do marxismo sobre o capitalismo pudesse ser definida pela capacidade de colocar Sputniks em órbita ou astronautas na Lua.

Até fins dos anos 60, o sonho de progresso e consumo sem limites não havia sido seriamente abalado. Enquanto Leonid Brezhnev prometia para breve a concretização da sociedade sem classes, o governo norte-americano, assessorado pelo Hudson Institute e seu famoso futurólogo Hermann Kahn, afirmava que no início do século XXI a jornada de trabalho seria de 28 horas semanais e as pessoas poderiam se aposentar com 38 anos de idade, não de serviço!

Quem dera. Assim como as viagens rotineiras à Lua, as viagens tripuladas a Júpiter e as inteligências artificiais previstos por Stanley Kubrick para 2001, essas promessas foram adiadas sine die.

Poucos até então perguntavam como o consumo desenfreado de combustíveis e de energia nuclear, pressupostos nesse modelo de futuro, poderia ser generalizado a todo o mundo sem transformar o planeta numa sarjeta radioativa.

Mas, nos anos 70, o questionamento dos valores norte-americanos pelos movimentos das minorias e pelos protestos contra a guerra do Vietnã vieram se somar a crise da energia, a estagnação do crescimento econômico na maior parte do mundo, a explosão demográfica e o agravamento dos problemas ambientais. Do outro lado do muro de Berlim, o ceticismo e mesmo o cinismo em relação aos velhos ideais bolcheviques também já cresciam.

O modelo do futuro passou a ser mesmo a tal sarjeta radioativa, parcialmente contrabalançada a partir dos anos 80 pela mitologia do computador pessoal. Na imaginação de alguns pioneiros, as maquininhas da Apple tornariam o Estado e o capitalismo tão obsoletos quanto os grandes computadores da IBM.
A possibilidade de personalizar e programar seu próprio computador tornaria o trabalho flexível e divertido e acabaria com a necessidade de patrões e de outros intermediários. O surgimento de redes horizontais de comunicação como as BBS acabaria com as hierarquias e democratizaria o conhecimento, a informação e a propriedade. O embrionário ciberespaço abriria uma nova fronteira ao individualismo e à liberdade.

A ficção científica passou a retratar um futuro horripilante, mas que ao menos tinha algum estilo. O hacker tomou o lugar do astronauta e os adereços punk substituiram os alegres uniformes de Jornadas nas Estrelas. Convencionou-se chamar de cyberpunk esse novo gênero, prenunciado em Laranja Mecânica e Robocop e desenvolvido em Blade Runner, Max Headroom e Matrix.

Se alguns entusiastas confundiram a ficção com a realidade, o mesmo pode-se dizer do Estado. Em março de 1990, agentes do Serviço Secreto dos EUA invadiram a editora SJ Games para apreender material destinado a um roleplaying game que simulava esse imaginário. Para eles, era um “manual de crime de computador”, embora não contivesse uma só linha de programação real. Algo como pensar que alguém poderia aprender artes marciais ao jogar Street Fighter.

O capitalismo e as bolsas de valores também não souberam fazer essa distinção. Se no final do século XIX acreditava-se que a força do vapor era capaz de tudo e nos anos 20 se esperava da eletricidade e do magnetismo todo tipo de milagres, nos anos 90 supunha-se que a realidade virtual e a Internet aboliriam as leis da economia, libertariam o crescimento econômico das limitações da vil matéria, acabariam com as crises e abririam as portas do Paraíso.

Desde, é claro, que os empresários da nova economia estivessem livres de sindicatos, de regulamentos, de impostos e de auditorias. Bill Gates parecia acreditar que era possível e muitos pensavam que alguém tão rico não podia estar errado.

Antes que o colapso da Nasdaq, em março de 2000, relegasse também esse estranho futuro para o arquivo das ilusões perdidas, os aspectos mais divertidos do imaginário cyberpunk já haviam adquirido um tom retrô.

Através de suas redes internas, as empresas retomaram o controle dos métodos e dos ritmos de trabalho, numa forma ainda mais rígida e totalitária que antes da introdução do computador pessoal. Mesmo dentro de casa, a padronização dos computadores e dos sistemas operacionais pelo monopólio Intel-Microsoft acabou com as veleidades de independência e criatividade dos usuários de computador.

Rapidamente dominada pela lógica do comércio e do copyright, a Internet, antes imaginada como um novo faroeste, como um espaço infinito aberto ao arrojo dos cibernautas, ou como a ágora de uma democracia direta e instantânea, tornou-se um imensamente prosaico shopping center. Na opinião de Thomaz Wood, um vasto penico digital.

Seja qual for a metáfora mais adequada, a Web se tornou um espaço cada vez mais apropriado por monopólios como a AOL-Time-Warner, vigiado por empresas ansiosas para descobrir nossos hábitos de consumo e policiado por agências de Washington preparadas para detectar e registrar e-mails, consultas e compras que possam despertar suspeitas de conexões com o terrorismo.

Não faltam sonhos comparáveis às fantasias mais ousados de Tesla. A ficção científica ainda se alimenta de especulações sobre modificações do corpo humano por dispositivos cibernéticos e engenharia genética, bem como a criação inteligências artificiais superiores à humana e de robôs microscópicos capazes de fazer e desfazer quase tudo.

Algumas são mais ou menos plausíveis e talvez venham a se concretizar de alguma forma.
Provavelmente, como de hábito, num contexto bem diferente daquele que seus autores imaginaram.

Luiz M.C. Costa