sábado, 21 de novembro de 2009

Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 4



CAPÍTULO 4
Este capítulo é dedicado a Barnes and Noble, uma cadeia de livrarias Americana. Quando as antigas livrarias de controle familiar desapareceram, a Barnes and Noble começou a construir seus gigantescos templos para a leitura por todo o país. Com estoque de dezenas de milhares de títulos (as livrarias em shoppings e mercearias estocam uma pequena fração disso em suas prateleiras) e estando abertas em horários convenientes para famílias, trabalhadores e outros leitores em potencial, as lojas da BN conseguiram salvar a carreira de muitos escritores, estocando títulos que lojas menores não poderiam manter em suas limitadas estantes. BN sempre possuiu fortes programas comunitários e eu fiz algumas das minhas melhores e mais bem organizadas sessões de autógrafos em suas lojas, incluindo ótimos eventos na (infelizmente fechada) BN da Union Square, Nova Iorque, onde houve uma festa de autógrafos após a entrega do Prêmio Nebula (uma das mais conceituadas premiações para o gênero Ficção Científica Americana) e na BN em Chicago, onde ocorreram alguns Prêmios Nebula, anos depois. O melhor é que na BN os compradores realmente conseguem tudo sobre ficção científica, comics (quadrinhos) e mangá (quadrinhos japoneses), games e similares. Eles são entusiasmados e conhecem o assunto, e isso se reflete na excelente seleção exibida em suas lojas. 
Barnes and Noble, por todo os EUA.

Eles recolocaram as minhas algemas e o capuz e me deixaram lá.
Muito tempo depois, o caminhão começou a se mover, descendo e imediatamente eu caí. Minhas pernas estavam adormecidas e pareciam blocos de gelo, com exceção dos joelhos, que estavam inchados devido a estar ajoelhado por horas.
Mas me agarraram pelos ombros e pés e eu fui levado como um saco de batatas. Havia vozes indistintas ao meu redor. Alguém chorava. Alguém praguejava.
Fui carregado por uma curta distância e colocado sentado, novamente algemado a outra barra. Meus joelhos já não me suportavam mais e caí de costas, acabando caído de lado e torcido como um pretzel, sustentado contra as correntes que seguravam meus pulsos.

Movíamo-nos novamente, e desta vez não parecia ser um caminhão. O chão debaixo de mim tremia e vibrava com um motor diesel potente e percebi que estava em um barco. Meu estomago se transformou em gelo. Eu estava sendo levado para fora do país para algum lugar e quem sabe para onde? Eu estava assustado antes, mas aquilo me apavorou, deixou-me paralisado e sem palavras de tanto medo. Percebi que nunca mais veria meus pais de novo e experimentei um pouco de vomito queimando minha garganta. O saco ao redor da minha cabeça fechava minha boca e mal podia respirar.
Mas felizmente não ficamos na água por muito tempo, talvez uma hora, e em quinze minutos estávamos aportando; senti os passos no deque ao meu redor e senti outros prisioneiros estavam sendo libertados das algemas e sendo levados dali. Quando vieram me pegar, tentei ficar de pé, mas não pude, então me carregaram de novo, daquele jeito impessoal e ríspido.
Quando me tiraram o capuz de novo, estava numa cela.
A cela era antiga e parecia ruir e cheirava a maresia. Havia uma janela bem alta com barras. Lá fora estava ainda escuro. Um cobertor no chão e uma pequena privada de metal sem assento, presa a parede. O guarda que me arrancara o capuz riu de mim e fechou a sólida porta de ferro atrás dele.

Gentilmente massageei as pernas, tentando fazer o sangue voltar a circular nelas e nas mãos. Depois de um tempo eu já podia ficar de pé e caminhar. Ouvi outras pessoas falando, chorando e gritando. Também gritei: “Jolu! Darryl! Vanessa!” Outras vozes do bloco de celas começaram a gritar nomes também, inclusive obscenidades. As vozes mais próximas soavam como bêbados zoando na esquina. Talvez eu também soasse daquele jeito.

Guardas gritaram conosco para que ficássemos quietos e aquilo fez com que todos se calassem.
Depois de algum tempo, todos nós gritávamos com todas nossas forças, chorávamos até a garganta doer. Por que não? O que tínhamos a perder?

#

Na vez seguinte em que fui interrogado, eu estava imundo e cansado, com sede e faminto. A mulher do corte de cabelo militar estava de volta na festa e também três caras grandes que me carregavam como um corte de carne. Um deles era negro, os outros dois brancos e um destes devia ser hispânico. Todos armados. Parecia um cruzamento de um comercial da Benneton com o game Counter-Strike.
Eles me tiraram da cela e acorrentaram meus pulsos e tornozelos juntos. Prestei bastante atenção ao meu redor enquanto andávamos. Ouvi água do lado de fora e pensei que pudéssemos estar em Alcatraz - era uma prisão, afinal, mesmo que  durante gerações tivesse se transformado em atração turística, um lugar onde íamos ver onde a gangue de Al Capone e os gângsteres contemporâneos haviam estado. Eu visitara Alcatraz durante um passeio escolar. Era velha, ruída e medieval.Este lugar lembrava a segunda guerra mundial, não os tempos coloniais.

Cada porta de cada cela tinha um código de barra impresso a laser estampado, e números, mas, além disso, não havia como dizer quem estava por detrás de cada uma.
A sala de interrogatório era moderna, com luzes fluorescentes e cadeiras ergonômicas - mas não para mim, eu tinha que sentar numa cadeira dobrável de jardim - e uma grande mesa de madeira. Uma das paredes era um grande espelho, como aqueles que vemos nos programas de televisão sobre policiais e eu imaginei se havia alguém olhando por detrás. A mulher do corte de cabelo raspado e seus amigos se serviam de café de uma caixa (eu queria arrancar seu pescoço com meus dentes e pegar seu café) e então colocaram um copo de plástico com água perto de mim - sem soltar meus pulsos de modos que não podia segurá-lo. Muito engraçado.

“Olá, Marcus. Como está a sua atitude hoje?” disse a mulher.
Eu não disse nada.

“Não é tão ruim assim” ela disse. “As coisas podem ficar melhores. Desde que nos diga o que queremos saber, mesmo se nos convencer que você estava no lugar errado na hora errada, você está marcado. Nós estaremos vigiando você onde quer que vá e o que quer que faça. Você agiu como se quisesse esconder algo e não gostamos disso.”

Era patético, mas tudo que meu cérebro conseguia pesar era a frase “nos convença que estava no lugar errado na hora errada”. Esta era a pior coisa que já me acontecera. Eu nunca tinha me sentido tão mal ou tão assustado antes. Estas palavras “lugar errado na hora errada”, estas cinco palavras, eram como uma linha salva-vida suspensa diante de mim enquanto eu tentava me manter na superfície.
“Olá... Marcus?” Ela estalou os dedos a minha frente. “Olhe para cá, Marcus” Havia um pequeno sorriso em seu rosto e me odiei por deixar que visse o medo em mim. “Marcus, a coisa pode ainda ficar pior do que já está. Este não é o pior lugar em que podemos te colocar”. Ela se abaixou e trouxe de baixo da mesa uma pasta, que abriu. Dela, retirou meu telefone, meu arphid sniper/cloner, meu buscador de WiFi e alguns cartões de memória. Colocou-os na mesa, um ao lado do outro.
“Aqui está o que queremos de você. Desbloqueie hoje o telefone. Se fizer isso, vai ganhar privilégios especiais, como passear lá fora e usar o banheiro. Vai poder tomar um banho de chuveiro e poderá andar e se exercitar na quadra. Amanhã, trazemos você de volta e você descriptografa os dados dos cartões de memória. Fazendo isso, poderá comer na cantina. No dia seguinte, vamos querer suas senhas de email e você ganhará o privilégio de ir à biblioteca.”
A palavra “Não" estava em meus lábios, como um arroto querendo escapar, mas não sairia. Ao invés dela, “Por quê?’ foi o que saiu.
“Queremos estar certos que você é aquilo que parece ser. Isso é sobre segurança, Marcus. Você diz que é inocente. Você pode ser. Porém, por quê um homem inocente agiria como se tivesse muita coisa a esconder está além da minha compreensão. Mas vamos dizer que você estivesse naquela ponte quando a coisa aconteceu. Seus pais poderiam estar lá. Seus amigos. Não gostaria que pegássemos as pessoas que atacaram seu lar?”

Era engraçado, mas quando ela estava falando sobre me dar alguns privilégios, me espantou como funciona a submissão. Senti como se tivesse feito algo para vir parar aqui, como se fosse um erro meu, como se pudesse fazer alguma coisa para mudar isso.
Mas assim que ela ligou o modo ‘enrolação’, com toda aquela besteira de “segurança”, minha verve voltou. “Senhora”, eu disse “você está falando sobre atacar minha casa, mas pelo que sei, vocês foram os únicos que me atacaram recentemente. Eu pensava que vivia num país com uma Constituição. Pensei que vivia em um pais onde eu tinha direitos. Você está falando sobre defender minha liberdade enquanto está rasgando a “Declaração de Direitos” (as dez primeiras emendas da Constituição Americana, que garantem os direitos básicos do cidadão).

Um leve aborrecimento passou por seu rosto e então se foi. “Tão melodramático, Marcus. Ninguém lhe atacou. Você foi detido pelo governo do seu país enquanto investigávamos detalhes sobre o pior ataque terrorista já perpetrado em solo nacional. Está dentro de você o poder para nos ajudar a combater esta guerra contra os inimigos da nossa nação. Você quer reservar a Declaração de Direitos? Ajude-nos então a parar as pessoas malvadas que destruíram sua cidade. Agora, você tem exatos 30 segundos para desbloquear este telefone antes que te mande de volta para sua cela. Temos muitas pessoas para entrevistar ainda hoje.”

Ela olhou seu relógio. Eu agitei os pulsos, agitando as correntes que me mantinham fora do alcance do telefone. Sim, eu iria fazê-lo. Ela havia me dito que eu iria ser libertado - que voltaria ao mundo, para meus pais - e isso me dera esperanças. Agora ela me ameaçava tirar a minha liberdade e minha esperança se desfazia e tudo que podia pensar era como ter isso de volta.
Então, quis pegar meu telefone e desbloqueá-lo para ela, e ela apenas me olhou friamente, conferindo o relógio.

“A senha.” eu disse, finalmente entendendo o que ela queria de mim. Queria que eu dissesse, alto, ali, onde podia gravar, onde seus amigos poderiam ouvir. Não queria somente que eu desbloqueasse o telefone. Queria que eu me submetesse a ela. Ficasse sob seu comando. Tornasse conhecido cada segredo meu,  toda minha privacidade. “A senha”, eu disse de novo e então revelei a senha. Deus me ajude, tinha me submetido a sua vontade.

Ela sorriu um sorrisinho hipócrita, o que para aquela rainha gelada o equivalente a uma dancinha de vitória, e os guardas me deixaram. Assim que a porta fechou, eu a vi se inclinar sobre o telefone e digitar a senha.
Quem me dera pudesse ter me antecipado a esta possibilidade e ter criado uma falsa senha que abriria uma parte completamente inócua do meu telefone, mas eu nunca fora tão paranóico (ou esperto) assim.
Você deve estar imaginando a esta altura quais eram estes segredos obscuros. Eu tinha bloqueado mensagens de email na memória de meu telefone. Eu sou só uma criança, afinal.
A verdade era que eu tinha tudo e nada para esconder. Entre meu telefone e a memória, você poderia ter uma boa idéia de quem eram meus amigos, o que eu pensava sobre eles, todas as coisas legais que a gente fizera. Poderia ler a transcrição eletrônica das brigas que tivemos e das reconciliações a que chegamos.
Veja, eu não apago. Por que deveria? Memória é barata, e você nunca sabe quando vai precisar daquelas coisas. Principalmente as coisas mais estúpidas. Sabe quando voe está no metrô sozinho e sem ninguém para conversar e você se lembra então de uma discussão amarga, alguma coisa terrível que você disse? Bem, quase sempre nunca foi tão ruim quanto você se lembra. Sendo capaz de voltar atrás e ler novamente, é uma maneira legal de se lembrar que você não é uma pessoa tão má quanto você pensa que é. Darryl e eu já tivemos mais brigas do que podemos contar.

E mesmo que não fosse assim. Sei que meu telefone é particular. Sei que minhas memórias são particulares. É para isso que existe a criptografia - embaralhando a mensagem. O objetivo por detrás da criptografia é bom e justo e você e eu temos o acesso à mesma criptografia usada em bancos e na Agência de Segurança Nacional. Só existe um tipo de criptografia que é pública, aberta e pode ser utilizada por qualquer um. É como você sabe que a coisa funciona.
Existe algo realmente liberador em ter um canto da sua vida que é somente seu, ninguém pode ver a não ser você. É como ficar nu ou cagar. Todo mundo fica nu alguma vez. Todo mundo tem que se agachar no banheiro. Não há nada de vergonhoso, depravado ou esquisito em um e outro. Mas o que aconteceria se toda vez que você precisasse “soltar um barro”, tivesse que fazê-lo numa sala de vidro suspensa no meio da Times Square (principal região de NYC), com a bunda de fora?
Mesmo que não tivesse nada de errado ou esquisito com seu corpo - e quantos de nós podem falar isso? - você se sentiria um pouco estranho. Alguns de nós correriam gritando. Alguns de nós prenderiam, até explodir!
Não era sobre fazer algo vergonhoso. Era sobre fazer algo com privacidade. Sobre a sua vida pertencer a você.

Estavam tirando isso de mim, pedaço por pedaço. Quando voltei a minha cela, aquela sensação de merecer isso me voltou. Eu tinha quebrado um monte de regras toda a minha vida e vivia com isso. Talvez isso fosse justiça. Talvez fosse o passado vindo atrás de mim. Afinal, eu estava onde estava por ter fugido da escola.
Eu tinha meu chuveiro. Podia andar pelo pátio. Havia um pedaço de céu acima da minha cabeça e eu sentia os cheiros da área da baía, mas, além disso, não tinha idéia de onde estava sendo mantido preso.
Nenhum dos outros prisioneiros ficava à vista durante meu período de exercício e eu ficava bem aborrecido por andar em círculos. Eu aguçava os ouvidos esperando ouvir algum som que pudesse me ajudar a entender que lugar era esse, mas tudo que conseguia ouvir eram veículos eventuais, alguma conversa distante e um avião pousando perto dali.

Trouxeram-me de volta a cela e me alimentaram, metade de uma pizza de peperoni da Goat Hill Pizza, que eu conhecia bem, lá pros lados de Potrero Hill. A embalagem de papel cartão com os desenhos familiares e o número de telefone para entregas a domicilio era uma lembrança de que apenas um dia atrás eu era um homem livre em um país livre e que agora eu era um prisioneiro. Eu me preocupava constantemente sobre Darryl e aflito com os outros amigos. Talvez eles tivessem sido mais cooperativos e tivessem sido soltos. Talvez tivessem contado aos meus pais, e ele estavam agora por ai, frenéticos, ligando para todo mundo.
Talvez não.

A cela era fantasticamente pequena e vazia como minha alma. Eu fantasiava que a parede oposta ao meu estrado era uma tela e que eu poderia estar hackeando agora mesmo, abrindo a porta da cela. Imaginava que minha bancada e as coisas sobre ela - latas velhas que eu estava trabalhando para criar um som, a fotografia aérea eu estava fazendo de laptop caseiro.
Eu queria sair dali. Queria ir pra casa e encontrar meus amigos, minha escola, meus pais e minha vida de volta. Queria poder ir para onde quisesse e não preso andando de uma parede a outra.

 #

Eles pegaram as senhas dos meus pendrives USBs em seguida. Dentro deles, havia algumas mensagens interessantes que eu baixei de um grupo de discussão online ou outro, algumas conversas transcritas, coisas que outras pessoas haviam me ajudado em obter o conhecimento para fazer coisas que eu precisava fazer. Nada que você não pudesse encontrar no Google, é claro, mas não acho que poderia contar a meu favor.
 Pude exercitar-me de novo naquela tarde, e desta vez haviam outros no pátio quando cheguei lá, quatro sujeitos e duas mulheres, de todas as idades e de todas as raças. Supus que outros também estavam fazendo coisas em troca de ‘privilégios’.
Me deram meia hora e eu tentei conversar com aquele que me pareceu mais normal, um cara negro de cabelo afro curto. Mas quando eu me apresentei e ofereci a mão, ele virou os olhos para as câmeras montadas nos cantos do pátio e continuou andando sem mudar sua expressão facial.
Mas então, pouco antes deles me chamarem de volta ao prédio, a porta abriu e dela saiu Vanessa! Nunca fiquei tão contente em ver uma face amiga. Ela parecia cansada e irritada, mas não ferida e quando me viu, gritou meu nome e correu para mim. Abraçamo-nos com força e eu tremia. Então percebi que ela também.
“Você tá legal?” ela disse segurando os meus braços.
“Tô” respondi. “Eles me disseram que me deixariam ir se eu entregasse minhas senhas.”
“Eles vivem me perguntando sobre você e Darryl.”
Uma voz veio dos alto-falantes gritando para que parássemos de falar, mas nós a ignoramos.
“Responda” eu disse instantaneamente. “Tudo que perguntarem, responda. Se isso for tirar você daqui!”
“Como estão Darryl e Jolu?”
“Não os vi.”

A porta se abriu e quatro guardas grandalhões pularam para fora. Dois me pegaram e dois pegaram Vanessa. Eles forçaram minha cabeça contra o chão e a viraram na direção contrária a Vanessa, mas eu ouvi que ela recebia o mesmo tratamento. Tiras de plástico fecharam-se ao redor dos meus pulsos e fui erguido e arrastado até a minha cela.
Fiquei sem jantar aquela noite. Sem café da manha no dia seguinte. Ninguém veio me levar até a sala de interrogatórios para extrair meus segredos. Não tiraram as algemas de plástico e meus ombros queimavam, então começaram a doer e ficaram dormentes e recomeçaram a queimar. Eu não sentia mais as mãos.
Tinha que urinar. Não podia fazer nas calças. Eu realmente precisava urinar. Muito.
Acabei me urinando.
Eles vieram um pouco depois, quando a urina quente esfriara, fazendo meu jeans já imundo grudar nas pernas. Vieram e me levaram por um corredor longo, com portas, cada porta com seu código de barras, e cada código de barra era um prisioneiro como eu. Ao final do corredor, me deixaram numa sala de interrogatório e era como um planeta diferente, um mundo onde as coisas eram normais, onde tudo não cheirava a urina. Senti-me tão envergonhado e embaraçado e todos estes sentimentos de merecer o que estava tendo voltaram.

A mulher de corte militar já estava lá sentada. Ela era perfeita; cabelo bem cortado e pouca maquiagem. Aquela coisa em seu cabelo cheirava forte. Ela enrugou seu nariz para mim. Senti-me mais envergonhado.
“Bem, você tem sido um garoto bem levado, não? Você é uma coisinha asquerosa, não é?”
Vergonha.  Olhei para baixo da mesa. Não conseguiria olhar para cima. Eu queria contar minha senha de email e ir embora.
“O que foi que você e sua amiga conversaram no pátio?”
Eu segurei a risada. “Eu disse a ela para responder as suas perguntas. Disse para ela cooperar.”
“Então você deu ordens para ela?”
Senti o sangue subir. “Ah, por favor! Nós jogamos este jogo juntos, chama-se Harajuku Fun Madness. Eu sou o líder do time. Não somos terroristas, somos estudantes. Eu não dei ordens para ela. Eu disse para ela que precisávamos ser honestos com vocês de maneira que qualquer suspeita fosse eliminada e que pudéssemos sair daqui.”
Era não disse nada por um tempo.
“Como está Darryl?” eu perguntei.
“Quem?”
“Darryl. Vocês nos pegaram juntos. Meu amigo. Alguém o esfaqueou na estação da Powell Street. Era por este motivo que estávamos lá. Para conseguir ajuda para ele.”
“Tenho certeza de que está bem, eu acho” ela disse.
Meu estômago doeu e eu quase vomitei. “Você não sabe? Vocês não estão com ele aqui?”
“Quem nós temos aqui e quem não temos é algo que não iremos nunca discutir com você. Não é algo que você vai saber. Marcus, você já viu o que acontece quando não coopera conosco. Já viu o que acontece quando desobedece nossas ordens. Você tem sido um pouquinho cooperativo, e está quase no ponto onde poderá ser livre de novo. Se quer transformar esta possibilidade em realidade, deverá responder as minhas perguntas.”
Eu não disse nada.

“Você está aprendendo, isso é bom. Agora, as senhas dos seus e-mails, por favor.”
Eu estava pronto para isso. Dei a eles tudo, endereço do servidor, chave e senha. Isso não importava. Eu não guardava emails no servidor. Eu baixava tudo e mantinha no laptop de casa, que baixava e apagava os emails do servidor a cada sessenta segundos. Não pegariam nada nos meus emails - tinham sido limpos do servidor e salvos no meu laptop de casa.
De volta à cela, eles libertaram as minhas mãos e me deixaram tomar um chuveiro e me deram um par de roupas laranja-cadeia para vestir. Eram grandes demais para mim e ficavam caindo da cintura, como um garoto de uma gangue da Missão. Era de onde vinham estas calças tipo baggy que deixavam o rabo de fora. Da prisão. Vou te dizer, não tem nenhuma graça quando não é apenas mais uma moda.
Eles levaram meus jeans e passei o dia na cela. As paredes eram de cimento injetado em malha de aço. Você podia perceber isso por que o aço estava enferrujando devido à brisa marinha e a malha metálica  brilhava por baixo da tinta verde em vermelho-alaranjado. Meus pais estavam além daquela janela, em algum lugar.

Eles voltaram a me buscar, no dia seguinte.
‘Estivemos lendo seus emails. Nós mudamos sua senha para que seu computador de casa não possa baixá-las.’
Bem, era claro que sim. Eu faria o mesmo, agora que pensei nisso.
“Temos o bastante sobre você para mantê-lo preso por um longo tempo Marcus. A posse destas coisas” --  ela gesticulou para os meus brinquedinhos --  “e os dados que recuperamos de seu telefone e das memórias, assim como o material subversivo que ,eu não tenho dúvidas, encontraríamos se vasculhássemos sua casa e pegássemos seu computador. É o bastante para deixá-lo fora da ativa até que você fique velho. Entende isso?”

Não acreditei nem por um segundo. Não tinha como um juiz dizer que todas as minhas coisas constituíam um crime de verdade. Era liberdade de expressão, era papo eletrônico. Isso não era crime.
Mas quem disse que estas pessoas me levariam a frente de um juiz?
“Sabemos onde mora, sabemos quem são seus amigos. Sabemos como opera e como pensa.”
Eu me toquei com essa! Iriam me libertar. A sala parecia mais brilhante. Ouvia minha respiração, respiração curta.
“Só queremos saber uma coisa: Que mecanismo foi usado para as bombas na ponte?”
Parei de respirar. A sala escureceu de novo.
“O quê?”
  “Havia dez cargas na ponte, ao longo do comprimento. Não foram carros bomba. Estavam colocadas nela. Quem as colocou lá e como chegaram lá?”
“O quê?” eu disse de novo.
“Esta é sua última chance, Marcus.” Ela disse. Parecia triste. “Você estava indo tão bem até agora. Nos diga isso e você poderá ir para casa. Poderá ter um advogado e se defender num tribunal. Existem circunstâncias atenuantes que poderá usar para explicar suas ações. Só precisa nos dizer isso e você poderá ir.”
“Eu não sei do que você está falando!” Eu chorava, mas não me importava. Chorando e fungando. “Eu não tenho idéia do que você está falando!”
Ela balançou a cabeça. “Marcus, por favor. Deixe-nos te ajudar. Você sabe que sempre conseguimos aquilo que queremos.”

Havia um som atrás dentro da minha cabeça. Eles eram loucos. Tentei me recompor e parar de chorar. “Ouça senhora, isso é doideira. Vocês têm as minhas coisas, vocês viram tudo. Sou um estudante de dezessete anos da escola secundária, não um terrorista. Vocês não podem pensar seriamente que...”
“Marcus, você ainda não percebeu a seriedade da coisa ainda?” Ela balançou a cabeça. “Você é mais esperto que isso.” Ela fez um gesto e os guardas me levantaram pelas axilas.
De volta à cela, uma centena de discursos me ocorreu. Os franceses chamavam isso de "esprit d'escalier" (espírito da escada), aquelas respostas brilhantes que só lhe vem quando você já saiu do quarto e está nas escadas. Na minha cabeça, eu dizia a ela que eu era um cidadão que amava minha liberdade, o que me fazia um patriota e dela uma traidora. Na minha cabeça, eu a condenava por transformar meu país em um campo de concentração. Na minha cabeça eu era eloqüente e brilhante e a reduzia a lágrimas. Mas sabe o quê? Nenhuma destas belas palavras me vieram quando eles me pegaram no dia seguinte. Tudo que conseguia pensar era em liberdade. E meus pais.
“Olá, Marcus” ela disse. “Como está se sentindo?”

Olhava para baixo da mesa. Ela tinha na frente dela uma pilha perfeita de documentos, e seu  sempre presente copo para viagem da Starbucks. De alguma forma achei isso reconfortante, a lembrança de que havia um mundo de verdade fora dali, atrás das grades.
“Nós acabamos de investigar você, por agora.” Ela disse e deu uma pausa. Talvez quisesse dizer que ela estava me deixando ir. Talvez quisesse dizer que ela me jogaria em um buraco e esqueceria que eu existo.
“E?” Eu perguntei ao fim de um tempo.
“E eu quero deixar claro para você de novo que somos muito sérios a respeito disso. Nosso país experimentou o pior ataque já cometido em nosso solo. Quantos Onze de Setembro teremos que sofrer antes de você aceitar cooperar? Os detalhes de nossa investigação são secretos. Não vamos interromper nossos esforços enquanto não trouxermos os perpetradores destes crimes odiosos à justiça. Você entende isso?”
“Sim.” murmurei.
“Vamos mandar você para casa hoje, mas você é um homem marcado. O que achamos não livra você da suspeita - só estamos te libertando por que terminamos com as perguntas por enquanto. Mas a partir de agora, você nos pertence. Estaremos te observando. Estaremos esperando que cometa um deslize. Entende que nós podemos observar você de perto, o tempo todo?”
“Sim.” murmurei.
“Ótimo. Você nunca falará para ninguém o que aconteceu com você aqui, nunca. É uma questão de segurança nacional. Você sabe que a pena de morte ainda está vigorando em tempos de guerra?”
“Sim.” murmurei.
“Bom garoto.” ela disse baixo. “Temos alguns papeis para você assinar.” Ela me empurrou a pilha de papéis atravessando a mesa até mim. Pequenos post-its onde se lia, “Assine aqui” tinham sido colocados neles. Um guarda retirou minhas algemas.

Eu folheei alguns papéis e meu olhos se encheram de lágrimas. Não conseguia entende-los. Eu tentava decifrar o legalês. Parecia que eu estava assinando uma declaração de que fora voluntariamente detido e submetido voluntariamente a questionamento, por minha própria vontade.
“O que acontece se eu não assinar?” perguntei.
Ela puxou os papéis e fez aquele gesto de novo. Os guardas me levantaram de pé.
“Espere” gritei. “Por favor! Eu vou assiná-los!” Eles me levaram pela porta. Tudo que podia ver era a porta, e tudo que podia pensar era nela se fechando atrás de mim.
Perdi. Chorei. Implorei que me deixassem assinar os papéis. Estar tão perto da liberdade e terem tirado ela de mim me fazia pronto para fazer qualquer coisa. E não podia contar o número de vezes que eu tinha ouvido alguém dizer: “Eu prefiro morrer o que isso ou aquilo” - eu mesmo tinha dito isso várias vezes. Mas agora eu entendia o que queria dizer realmente. Eu preferia morrer a voltar para minha cela.
Eu suplicava enquanto eles me carregavam pelo corredor. Dizia para eles que assinaria qualquer coisa.
Ela então chamou os guardas e eles pararam. Me trouxeram de volta e me sentaram lá. Um deles colocou uma caneta na minha mão.
É claro que eu assinei, assinei e assinei.

#

Meus jeans e minha camisa estavam de volta na cela, lavados e passados. Cheiravam a sabão em pó. Eu os vesti e lavei minha cara e sentei no beliche e olhei fixamente para a parede. Tinham tirado tudo de mim. Primeiro minha privacidade, então minha dignidade. Eu estava pronto para assinar qualquer coisa. Eu teria assinado uma confissão dizendo ter assassinado Abraham Lincoln.
Tentei chorar sem conseguir, como se estivesse sem lágrimas.
 Eles me pegaram de novo. Um guarda veio com um capuz, como aquele que me colocaram quando me raptaram, ou o que quer que fosse, dias atrás, semanas atrás.

O capuz envolveu minha cabeça e fechou em um aperto na garganta. Estava em escuridão total e o ar era pouco e fedia. Fui colocado de pé e caminhei por corredores, escadas e sobre cascalho. Depois para cima, uma rampa. Para o deque de um barco. Minhas mãos foram amarradas nas costas numa barra. Eu ajoelhei no deque e ouvi o barulho do motor a diesel.
O barco se movia. Um pouco do ar salgado atravessou o capuz.
Chuviscava e minhas roupas ficaram pesadas de água da chuva. Estava do lado de fora, mesmo com a cabeça num saco. Eu estava do lado de fora, no mundo, saboreando a minha liberdade.
Eles vieram e me tiraram do barco deixando-me em solo desconhecido. Subimos escadas de metal e meus pulsos foram soltos. Meu capuz foi removido.
Eu estava de volta ao caminhão. A mulher de cabelo de corte militar estava lá, sentada na mesinha como antes. Tinha um saco fechado a vácuo com ela, e dentro, meu telefone e os outros aparelhos, minha carteira e o dinheiro que estava nos bolsos
Ela os passou para mim, sem falar nada.
Enchi meus bolsos. Me senti tão estranho por ter as coisas de volta em seus lugares familiares, estar vestindo de novo minhas roupas de sempre. Fora do caminhão, pela porta aberta dos fundos, ouvia sons conhecidos da minha cidade.

Um guarda me deu minha mochila. A mulher esticou a mão para mim. Olhei para ela. Ela baixou a mão com um sorriso irônico. Então seus lábios selaram e apontou para mim a porta dos fundos.
Era dia lá fora, cinzento e chuvoso. Olhei em direção da rua e carros, caminhões e motos cruzavam a rua. Parei transfixado no degrau do caminhão, olhando para a liberdade.
Meus joelhos tremeram. Sabia que estavam brincando comigo de novo. Em um instante os guardas iriam me agarrar e jogar-me para dentro, um saco cobriria minha cabeça novamente e eu seria levado para um barco e daí para a prisão novamente, para intermináveis e irrespondíveis perguntas. Eu dificilmente me seguraria e acabaria falando alguma besteira.
 Então me forcei a descer um degrau. Outro degrau. E então o último degrau.
Meus tênis fizeram um barulho ao pisar o lixo da rua, vidro partido, uma agulha, cascalho. Dei um passo. Outro. Cheguei ao final da rua e subi na calçada.
Ninguém me agarrou.

Eu estava livre.
Então braços fortes se lançaram ao meu redor. Eu quase chorei.


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