sábado, 28 de novembro de 2009

Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 5


CAPÍTULO 5
Este capítulo é dedicado ao Secret Headquarters em Los Angeles, minha loja favorita de quadrinhos
É pequena e seletiva quanto ao que vende, e cada vez que eu entro nela, saio com três ou quatro coleções debaixo do braço, sobre as quais nunca tinha antes ouvido falar. É como se seus proprietários, Dave e David, tivessem a espantosa habilidade de predizer com exatidão, aquilo que estou procurando, e já separassem para mim segundos antes de entrar na loja. Três quartos dos meus quadrinhos preferidos eu descobri no SHQ, agarrado por algo interessante, mergulhado em um daquelas poltronas aconchegantes, e sendo transportado para outro mundo. Quando minha segunda coletânea foi lançada, Overclocked, eles fizeram junto com um ilustrador local, Martin Cenreda, uma mini-revista em quadrinhos gratuita baseada em Printcrime , o primeiro conto do livro. Deixei Los Angeles há um ano e de todas as coisas de que sinto falta, Secret Headquarters está no topo da lista.

Secret Headquarters: 3817 W. Sunset Boulevard, Los Angeles, CA 90026 +1 323 666 2228


Mas era Van e ela estava chorando e me abraçando tão forte que não conseguia respirar. Não me importava. Abracei-a, minha cabeça afundando em seus cabelos.
“Você está bem!” ela disse.
“Estou!”
Ela finalmente me largou e outro par de braços me envolveu. Era Jolu! Ambos estavam aqui! Ele sussurrou: “Você está salvo, mano!” em meu ouvido e me apertou mais do que Vanessa tinha apertado.
Quando me soltou, olhei a volta e perguntei: “Cadê Darryl?”
Eles se olharam.”Talvez ainda esteja no caminhão.” disse Jolu.
Nos viramos para olhar o caminhão no fim da rua. Era um 18 rodas branco sem identificação. Alguém já havia guardado a escada. As luzes traseiras acesas em vermelho e o caminhão veio d ré, emitindo um som de alerta ‘beep,eep,eep’.
“Esperem!” Gritei enquanto ele acelerava. “Esperem! Cadê Darryl?” O caminhão manobrou próximo. Eu continuava gritando “Cadê o Darryl?”

Jolu e Vanessa cada qual haviam segurado um dos meus braços e me arrastavam para longe. Eu lutei contra eles, gritando. O caminhão chegou à beirada da rua e voltou, apontando para frente e partiu. Tentei correr atrás dele, mas Van e Jolu não me deixaram.

Sentei na calçada, abracei as pernas com os braços e chorei. Chorei, chorei e chorei, uma choradeira baixa do tipo que eu não tinha desde criança. Sem fim. E eu não parava de tremer.
Vanessa e Jolu me ajudaram a ficar de pé e me levaram pela rua. Havia uma parada de ônibus municipal com banco e sentamos nele. Eles também choravam, e nós ficamos por algum tempo abraçados uns nos outros, e eu sabia que chorávamos por Darryl, a quem nenhum de nós esperava voltar a ver.

 #

Estávamos ao norte de Chinatown, onde começa North Beach, uma vizinhança cheia de clubes de strip-tease e seus neons e o legendário City Lights, uma livraria da contra-cultura, onde o movimento dos poetas beat foi fundado nos anos 50. Eu conhecia bem esta parte da cidade. O restaurante italiano favorito dos meus pais ficava ali e eles gostavam de me trazer para comer grandes pratos de linguini e imensas montanhas de sorvete italiano com figos cristalizados e aqueles pequenos expressos para concluir.
Agora era um lugar diferente, um lugar onde eu experimentei a liberdade pela primeira vez no que parecia ter sido uma eternidade.

Verificamos os bolsos e encontramos dinheiro suficiente para conseguir uma mesa em um daqueles restaurantes italianos, do lado de fora na calçada, sob um toldo. A bela garçonete acendeu um aquecedor a gás com seu isqueiro de acender churrasco, pegou nossos pedidos e sumiu do lado de dentro. A sensação de fazer um pedido, de controlar meu destino, foi a coisa mais maravilhosa que jamais senti.
“Quanto tempo estivemos por lá?” eu perguntei.
“Seis dias.” disse Vanessa.
“Eu acho que foram cinco.” disse Jolu.
“Eu não contei.”
“O que fizeram com você?” perguntou Vanessa. Eu não queria falar sobre isso, mas ambos olhavam para mim. Uma vez que eu começasse não conseguiria parar. Eu contei tudo a eles, mesmo quando fui forçado a urinar em mim mesmo e eles ouviram tudo em silêncio. Parei quando a garçonete entregou nossos refrigerantes e esperamos até ela ficar fora do alcance. Ao fim do relato, eu não conseguia dizer se eu estava enfeitando a verdade ou se eu estava fazendo parecer que não fora tão ruim. Minhas memórias flutuavam como pequenos peixes que eu agarrava e que por vezes fugiam do meu alcance.

Jolu balançou a cabeça. “Pegaram pesado com você, camarada.”disse. Ele falou sobre a sua estada lá. Eles tinham perguntado sobre mim e ele continuava dizendo a eles a verdade, preso a um plano de dizer os fatos sobre aquele dia e sobre nossa amizade. Eles o pegaram para repetir de novo e de novo, mas não brincaram de jogos com sua mente da maneira que fizeram comigo. Ele comia suas refeições numa cantina com outras pessoas e passou um tempo numa sala com TV onde passava os maiores sucessos em vídeo do último ano.
A história de Vanessa era levemente diferente. Depois de tê-los deixado bravos por falar comigo, eles tiraram suas roupas e a fizeram vestir aquele conjunto cor de laranja da prisão. Foi deixada na cela por dois dias sem contato, contudo era alimentada com regularidade. Mas no resto fora como Jolu: as mesmas perguntas sobre mim, de novo e de novo.

“Eles realmente te odiavam” disse Jolu. “A coisa realmente era contigo. Por quê?”
Eu não conseguia imaginar porquê. Então eu lembrei.
“Você pode cooperar ou pode se arrepender, muito.”
“Foi por que eu não quis desbloquear meu telefone para eles na primeira noite. Foi por isso que pegaram no meu pé.”

Eu não conseguia acreditar nisso, mas não havia outra explicação. Tinha sido por pura vingança. Minha cabeça revirava com isso. Tinham feito isso como simples punição porque eu desafiei  a sua autoridade.
Eu tinha sentido medo. Agora estava furioso. “Filhos da mãe” eu disse bem devagar. “Eles fizeram isso para que eu falasse.”

Jolu amaldiçoou e então Vanessa xingou em coreano, algo que ela só fazia quando estava realmente muito, mas muito irritada.
“Eles vão ver!” Sussurrei segurando meu refrigerante. “Eles vão ver!”
Jolu sacudiu a cabeça. “Você não pode fazer nada, você sabe. Não dá pra lutar contra isso.”

#

Nenhum de nós queria falar sobre revanche. Ao invés disso, nós falamos sobre o que fazer em seguida. Precisávamos ir para casa. As baterias dos nossos telefones estavam descarregadas e fazia muitos anos que aquela vizinhança não tinha mais telefones de rua. Tínhamos que ir para casa. Até pensei em chamar um táxi, mas não tínhamos dinheiro suficiente para isso.
Então nós fomos a pé. Na esquina usamos nossas moedas de quinze centavos numa máquina do São Francisco Chronicle e paramos para ler as manchetes. Cinco dias se passaram desde a explosão das bombas, mas esta ainda era a matéria de capa.

A mulher de corte de cabelo militar havia falado algo sobre “a ponte” ter sido explodida e eu deduzi que ela falava da ponte Golden Gate, mas eu estava errado. Os terroristas haviam explodido a Bay Bridge.
“Por que eles foram explodir a ponte da baía?” Eu disse. “A Golden Gate está em todos os cartões postais.”

Mesmo se você nunca esteve em São Francisco, provavelmente já viu alguma vez aquela enorme ponte laranja suspensa que vai da antiga base militar chamada Presídio até Sausalito, onde todas estão aquelas encantadoras cidadezinhas produtoras de vinho, suas lojinhas de velas perfumadas e galerias de arte. É tão pitoresco e é praticamente o símbolo do estado da Califórnia. Se você for ao Disneyland California Adventure Park existe uma réplica dela logo após os portões, atravessada por um trem sob monotrilhos.
Então, naturalmente eu pensei que se você vai explodir uma ponte em São Francisco, esta seria a escolhida.
“Eles  provavelmente ficaram com medo das câmeras e tudo aquilo” disse Jolu. “A Guarda Nacional vive examinando os carros nas entradas e saídas e existem todas aquelas cercas contra suicidas e para evitar que se jogue lixo ao longo dela.”
As pessoas pulavam da Golden Gate desde de que ela foi aberta em 1937 -  e pararam de contar após a milésima morte em 1995.

“É! Além disso, a Bay Bridge hoje em dia leva para toda parte.” A ponte da baía liga o centro de São Francisco a Oakland e Berkeley, os distritos do leste, lar de muitas pessoas que vivem e trabalham na cidade. É um dos únicos lugares da área da baía onde uma pessoa normal consegue uma casa boa o bastante, e há a universidade e várias pequenas indústrias por lá. O metrô atravessa a baía por baixo e conecta as duas cidades também, mas É a Bay Bridge quem é responsável pela maior parte do trânsito. A Golden Gate era uma bela ponte se você é um turista ou um rico aposentado vivendo numa destas cidades do vinho, mas é praticamente ornamental. A Bay Bridge é - era - “a ponte” de São Francisco.
Pensei sobre aquilo por um minuto. “Vocês estão certos” disse. “Mas eu não acho que isso é tudo. Nós pensamos que os terroristas atacam estes pontos conhecidos por que os odeiam, terroristas não odeiam pontos turísticos, ou pontes, ou aeroportos. Eles querem ferrar com tudo e assustar o povo. Espalhar o medo. Então é claro que foram atrás da Bay Bridge, pois a Golden Gate tem todas aquelas câmeras - assim como aeroportos tem todos aqueles detectores de metal e aparelhos de raios-x.”

Pensei um pouco mais, olhando sem ver os carros passando pela rua, as pessoas que caminhavam pelas calçadas e a cidade à minha volta. “Terroristas não odeiam aeroportos ou pontes. Eles amam o terror.” Isso era tão óbvio que eu não acreditava não ter pensado isso antes. Imaginei que ser tratado como um terrorista por alguns dias foi o bastante para clarear minha mente.

Os outros me olhavam. “Não tô certo? Toda esta porcaria, todos os aparelhos de raio-x e verificação de identidades, tudo não serve pra nada, não é?”
Eles concordaram lentamente.
“Pior do que não servir para nada” disse com a voz alterada. ‘porque no final nós é que acabamos na prisão, e Darryl...” Eu não pensava em Daryl desde que me acalmara e agora isso voltava, meu amigo, perdido, desaparecido. Parei de falar e cerrei os dentes.
“Temos de contar aos nossos pais.” disse Jolu.
“Nós devíamos procurar um advogado.” disse Vanessa.

Pensei em contar minha história. De como o mundo se transformara para mim. Sobre os vídeos que sem dúvida seriam feitos, sobre mim, chorando e reduzido a um animal humilhado.
“Não podemos dizer nada.” eu disse sem pensar.
“O quê?” disse Van.
“Não podemos dizer nada para eles”, repeti. “Você a ouviu. Se falarmos, eles virão atrás de nós. Farão conosco aquilo que fizeram com Darryl.”
“Tá brincando” disse Jolu “Você quer que nós...”
“Vamos dar o troco.” eu disse. “Quero ficar livre para poder fazer isso. Se sairmos falando por aí, eles irão dizer que somos crianças, que estamos inventando coisas. Nós nem sabemos onde estivemos presos. Ninguém vai acreditar nisso. Aí, um dia, eles virão nos pegar.”
“Vou dizer aos meus pais que eu estava do outro lado da baía. Eu fui encontrar vocês lá e ficamos sem ter como voltar e só pudemos voltar hoje. Eles estão dizendo nos jornais que algumas pessoas ainda estão sem ter como voltar para casa.”
“Eu não posso fazer isso.” disse Vanessa. “Depois de tudo que fizeram com você, como pode sequer pensar em fazer isso?”
“Aconteceu comigo, esta é a questão. Isso é entre eu e eles. Vou atrás deles. Vou atrás de Darryl, não vou denunciar esta mentira. Mas uma vez que nossos pais entrem nessa história, isso é conosco. Ninguém vai acreditar na gente e ninguém vai se importar. Se fizermos do meu jeito, as pessoas vão prestar atenção.”
“Qual é o seu jeito?” disse Jolu. “Qual é o seu plano?”
“Ainda não sei.” Admiti. “Esperem até amanhã de manhã, ao menos.” Eu sabia que uma vez que concordassem em manter segredo por um dia, o fariam para sempre. Nossos pais ficariam ainda mais céticos se nós de repente “lembrássemos” que fomos mantidos prisioneiros em uma prisão secreta ao invés de estarmos aos cuidados de um campo de refugiados.
Van e Jolu se olharam.
“Só estou pedindo uma chance. Nós vamos pensar na história no caminho para ficar tudo certo. Me dêem um dia, só um dia.”

Os outros dois concordaram mal humorados e voltamos a caminhar na direção dos nossos lares. Eu morava em Potrero Hill, Vanessa em North Missão e Jolu em Noe Valley - eram vizinhanças bem diferentes a poucos minutos de caminhada umas das outras.

Viramos na rua do Mercado e paramos. A rua tinha barricadas em cada esquina, as pistas foram reduzidas a uma única pista e, estacionados por toda a extensão da rua, estavam aqueles enormes e sem nada escrito, caminhões de 18 rodas, como aquele que nos havia transportado, encapuzados, das docas até Chinatown.
Cada um deles tinha nas traseiras as escadas de metal e os degraus colocados para fora e havia uma atividade frenética por parte de soldados e pessoas vestidas com ternos e policiais saindo e entrando deles.
Nas roupas traziam pequenas insígnias nas lapelas e os soldados as escaneavam assim que entravam e saiam - crachás de autorização sem-fio. Assim que passamos por um deles, dei uma olhada e vi um logotipo familiar. Departamento de Segurança Estadual. O soldado me viu parado olhando e me olhou de volta, fixo e duro.
Entendi a mensagem e voltei a andar. Me separei da gangue na Van Ness. Nos abraçamos, choramos e prometemos nos falar.

Para chegar a Potrero Hill havia um caminho fácil e um difícil: o último levava você pelas  ladeiras mais escarpadas da cidade, o tipo que você vê em filmes de ação, de perseguição de carros. Eu sempre escolhia o caminho mais difícil. Eram ruas residenciais e velhas casas estilo vitoriano chamadas “madames maquiadas” por serem gritantes com aquele tipo de pintura elaborada e de jardins frontais com flores e grama alta. Os gatos da casa te vigiando das cercas vivas e quase nenhum mendigo por perto.

Eram tão quietas que me faziam desejar ter escolhido o outro caminho, através da Missão, que era... “áspero” é a provavelmente a melhor palavra. Alto e vibrante. Um monte de brutamontes bêbados e brigões e viciados inconscientes e também famílias com carrinhos de criança, velhas fofocando nas varandas, vagabundos com seus carros turbinados fazendo palhaçadas pelas ruas. Todo tipo de moderninhos, os estudantes de arte deprimidos e até alguns punks e roqueiros das antigas, velhos barrigudos com suas camisas dos Dead Kennedys. Também drag queens, garotos de gangs violentas, artistas grafiteiros e alguns burgueses bem de vida estupefatos tentando não ser mortos enquanto protegiam seus investimentos.

Fui até Goat Hill e passei pela Goat Hill Pizza, o que me fez lembrar da cela em que estive preso, e precisei me sentar um pouco na cerca em frente ao restaurante até que meus tremores parassem. Então percebi o caminhão na ladeira a minha frente, um 18 rodas sem qualquer coisa escrita, com aquela escadinha de três degraus saindo da traseira. Comecei a andar. Sentia olhos me observando vindos de todas as direções.
Acelerei pelo resto do caminho. Já não olhava as damas maquiadas, os jardins ou os gatos caseiros. Mantinha os olhos baixos.
Ambos os carros de meus pais estavam na calçada, mesmo sendo já metade do dia. É claro, papai, que trabalhava em East Bay estava em casa enquanto eles davam um jeito na ponte. Mamãe... bem, quem sabe o motivo dela ela estar em casa?
Eles estavam em casa por minha causa.

Antes que acabasse de abrir a porta, ela foi puxada da minha mão e aberta por completo. Lá estavam meus pais, pareciam pálidos e cansados, me olhando com os olhos arregalados. Ficamos paralisados nos olhando por um momento, então ambos se atiraram na minha direção e me puxaram para dentro, quase me partindo em pedaços. Falavam tão alto e rápido que o que eu ouvia era algo incompreensível e me abraçaram e choraram e eu chorei também e ficamos ali no pequeno hall de entrada, chorando e pronunciando quase-palavras até a emoção passar e irmos para a cozinha.

Fiz o que sempre faço quando chego em casa, pego um copo de água do filtro da geladeira e alguns biscoitos do pote de biscoitos que a irmã de minha mãe havia nos mandado da Inglaterra. A normalidade daquele ato fez meu coração parar de martelar, tranqüilizando cabeça e coração e logo estávamos todos sentados à mesa.
‘Onde esteve?’ ambos disseram mais ou menos em uníssono.
Eu já tinha pensado na resposta a caminho de casa. “Fiquei preso em Oakland. Estava lá com meus amigos, trabalhando num projeto, e tivemos que ficar em quarentena.”
“Por cinco dias?”
“Sim. Foi muito ruim.” Eu tinha lido sobre as quarentenas no Chronicle e roubei sem vergonha o que eles publicaram. “Sim. Todos que ficaram expostos à nuvem ficaram em quarentena. Eles achavam que pudéssemos ter sido infectados por algum tipo de super-praga e nos trancaram em containers nas docas, como sardinhas. Era quente e fedorento. Não tinha muita comida também.”
“Cristo!” disse papai, seus punhos socando a mesa. Papai ensinava em Berkeley três dias na semana, trabalhando em um projeto da biblioteca de ciências, com alguns alunos graduados.No resto do tempo prestava consultoria para clientes no centro e na Península, dotcoms de terceira geração que faziam várias coisas com arquivos. Ele era um bibliotecário bem estabelecido por profissão, mas havia sido um militante radical nos anos 60 e lutara um pouco no ginásio. Já tinha visto ele ficar bravo mais de uma vez, eu já o tinha feito ficar bravo mais de uma vez - e ele podia ficar seriamente transtornado quando Hulkficava. Uma vez ele atirara um balanço da Ikea  do outro lado do quintal de meu avô depois dele ter-se partido pela qüinquagésima vez enquanto o montava. “Bárbaros”, minha mãe disse. Ela vivia na América desde a adolescência, mas ainda era britânica quando se tratava de policiais Americanos, seguro saúde, segurança de aeroportos ou  falta de moradia. Então a palavra “bárbaros” vinha carregada de sotaque. Havíamos estado em Londres por duas vezes para visitar a sua família e eu não conseguia dizer se era mais civilizada do que São Francisco, apenas mais inibidos.
“Mas eles nos deixaram ir e pegamos um barco hoje” Eu estava improvisando.
“Você está machucado? Está com fome?” Perguntou mamãe.
“Com sono?”
‘Sim, um pouco de tudo isso. E também Soneca, Mestre, Espirro e Dengoso.” Nós tínhamos uma tradição de piadas com os sete anões. Eles sorriram um pouco, mas seus olhos ainda estavam úmidos. Me senti mal por eles. Eles deveriam ter quase pirado de preocupação. Eu fiquei feliz com a chance de mudar de assunto. “Estou faminto.”
“Vou pedir uma pizza da Goat Hill”, disse papai.
“Não, essa não!” Eu disse. Eles me olharam como se eu tivesse antenas. Eu sempre gostara da Goat Hill Pizza - e podia comê-la como um peixinho dourado come sua comida, devorando até acabar ou eu explodir.

Tentei sorrir. “Não estou com vontade de pizza” disse, “Vamos pedir curry, ok?”. Graças a Deus por São Francisco ser um paraíso da comida por telefone. 

Mamãe foi até a prateleira onde ficavam os menus de entrega a domicílio (mais normalidade, como um copo d’água para uma garganta sedenta e seca) e folheou alguns deles. Passamos alguns minutos distraídos pelo menu do restaurante paquistanês de Valencia. Me decidi por um grelhado misto e espinafre com queijo da fazenda, um mango lassi salgado (melhor do que parece ser) e pedaços de massa frita em melado.

Uma vez que pedimos a comida, as perguntas começaram novamente. Eles tinham ouvido das famílias de Van, Jolu e Darryl (é claro) sobre nosso desaparecimento. A polícia pegara nossos nomes, mas havia tantas pessoas desaparecidas de seus lares que eles não iriam abrir inquérito a não ser que continuassem desaparecidas após sete dias.

Enquanto isso, milhões de sites com “você-viu-esta-pessoa” surgiram na rede. Alguns eram clones do MySpace que viram uma oportunidade de faturar e voltar à vida. Além do mais, alguns haviam perdido família na área da baía. Talvez, se eles se recuperassem, o site atrairia novos investidores. Peguei o laptop de papai e passeei por eles. Estavam repletos de comunicados, é claro, fotos de pessoas desaparecidas, a maioria fotos escolares, fotos de casamento e todo tipo de coisa.  Era um pouco detestável.
Encontrei minha foto e vi que havia um link para Van, Jolu e Darryl. Havia um formulariozinho pra se marcar se estas pessoas tivessem sido encontradas e outro para escrever sobre os desaparecidos. Preenchi o meu, de Van e Jolu, deixando o de Darryl em branco.
“Você se esqueceu de Darryl.” disse papai. Ele não gostava muito de Darryl - uma vez ele percebeu que alguns dedos faltavam nas garrafas do armário de bebidas e para minha vergonha eterna, culpei Darryl. A verdade, claro, tínhamos sido nós dois, apenas de brincadeira, misturando coca-cola com vodca, durante uma sessão noturna de games.
“Ele não estava com a gente” eu disse. A mentira amargou na boca.
“Oh, meu Deus!” mamãe disse. Apertou as mãos juntas. “Quando você chegou nós pensamos que estavam todos juntos.”
“Não” disse e a mentira crescia. “Não, ele tinha que nos encontrar mas nunca chegou. Provavelmente ficou preso em Berkeley. Ele ia pegar o metrô.”

Mamãe suspirou. Papai balançou a cabeça e fechou os olhos. “Você não sabe do metrô?” ele perguntou.
Fiz que não com a cabeça. Eu sabia onde isso ia acabar. Sentia o chão ruindo debaixo de mim.
“Eles o explodiram.” disse papai. “Aqueles bastardos o explodiram ao mesmo tempo da ponte.”
Aquilo não estava na capa do Chronicle, o metrô sendo explodido sob a água não era uma imagem nem de perto tão pitoresca quanto os restos da ponte e pedaços espalhados pela baía. O túnel do metrô que ia de Embarcadero, em São Francisco, até a estação de West Oakland ficara submerso.

#

Voltei ao computador de papai para ler as manchetes. Ninguém tinha certeza, mas a contagem de corpos passava de mil. Entre os carros que mergulharam 58 metros para dentro do mar e as pessoas afogadas nos trens, as mortes aumentavam. Um repórter dizia ter investigado um falsificador de identidades que teria ajudado dezenas de pessoas a saírem de suas antigas vidas simplesmente dando a elas novas identidades, após os ataques, com isso escapando de péssimos casamentos, dívidas e de vidas ruins.
Papai tinha lágrimas nos olhos e mamãe não escondia o choro. Eles me abraçaram novamente, me dando
tapinhas com as mãos como se quisessem se assegurar que eu estava realmente ali. Continuaram falando que me amavam e eu respondi que os amava também.

Tivemos um jantar lacrimejante e eles tomaram cada qual um copo de vinho, o que era muito para eles. Eu disse que estava com sono, o que era verdade, e segui para meu quarto. Eu não iria para a cama, contudo, precisava entrar online e procurar por uma coisa. Precisava falar com Jolu e Vanessa. Precisava começar a trabalhar para achar Darryl.

Rastejei até o quarto e abri a porta. Parecia que fazia milhares de anos que não via minha velha cama. Deitei-me nela e esticando até a cabeceira para pegar meu laptop. Eu não o tinha ligado - eu precisava do adaptador - então ele havia lentamente descarregado enquanto estava fora. Pluguei-o e dei um minuto ou dois para a carga aumentar antes de ligá-lo  de novo. Neste tempo, me despi e atirei as roupas no cesto de lixo - não queria vê-las nunca mais - e pus roupas limpas. Roupas vindas da lavanderia, familiares e confortáveis, como um abraço dos pais.

Liguei o laptop e coloquei alguns travesseiros entre eu e cabeceira. Encostei as costas contra eles e o abri e o ajeitei sobre minhas coxas. Enquanto estava inicializando, e, cara, os ícones surgindo na tela pareciam muito bem. Então ele começou a me dar alertas de carga baixa. Chequei o cabo de força de novo e o balancei e ele saiu do lugar. O plug estava realmente frouxo.
De fato, estava tão mal que não conseguia fazer coisa alguma. Toda vez que tirava a mão dele, o contato se perdia e o computador passava a reclamar da bateria. Fui dar uma olhada melhor.
O que acontecia era que o envoltório do computador estava todo desalinhado, um ângulo da fenda ficava uma brecha e então começava estreitar para a traseira.
Às vezes você olha para uma coisa e descobre algo assim e pensa ‘Sempre foi desse jeito?’ Talvez você só nunca tenha reparado.
Mas com o meu laptop isso não era possível. Afinal, eu o montei. Depois que o Comitê Educacional mandara fazer computadores escolares para todos, não tinha como meus pais me comprarem um só para mim, mesmo que, tecnicamente, o computador escolar não me pertencesse e eu não tivesse permissão para instalar nele as modificações ou softwares que quisesse.
Eu tinha algum dinheiro guardado - de trabalhos esquisitos, de Natais e aniversários, de vendas que fiz pelo Ebay. Juntando tudo eu podia comprar uma máquina velha de cinco anos.
Então, ao invés disso, eu e Darryl construímos um. Você pode comprar gabinete para laptop como se compra um para desktop PC. Eu já tinha comprado alguns PCs com Darryl durante anos e arrematado algumas partes de classificados e vendas de garagem e comprado outras bem barato mesmo de vendedores de Taiwan que encontramos na rede. Achava que construir um laptop seria a melhor maneira de ter o que eu queria por um preço em conta.

Para construir seu próprio laptop você começa comprando um ‘barebone’ - uma máquina com pouco hardware e todos os slots. A boa notícia era que, uma vez que eu a fizesse, eu teria uma máquina mais leve do que qualquer Dell onde tivesse colocado os olhos, rápida e custando um terço do que eu pagaria por uma. A má noticia era que fazer um laptop era como um destes barcos feitos dentro de garrafas. É um trabalho meticuloso e delicado, de pinças e óculos de aumento, tentando colocar tudo junto em um pequeno espaço. Diferente de um PC - onde o que mais existe dentro é ar - cada centímetro cúbico de espaço de um laptop tem seu valor. Toda vê que achava ter conseguido colocar tudo nos lugares, tinha que abrir de novo para ver por que não fechava direito e voltava para a mesa de desenhos.

Então eu sabia exatamente como meu laptop deveria parecer quando fechado e não seria daquele jeito. Continuei insistindo com o cabo de força, mas não teve jeito. Não havia jeito de fazer a coisa funcionar. Xinguei e coloquei-o ao lado da cama. De manhã eu daria um jeito.

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Esta era a teoria. Duas horas depois eu ainda olhava para o teto, com filmes passando na minha cabeça do que eles haviam feito comigo, o que eu devia ter feito, lamentos e esprit d'escalier.
Eu rolava pela cama. Passava de meia-noite e ouvi meus pais irem dormir às onze. Agarrei o laptop e arranjei espaço sobre a mesa e liguei as minúsculos leds dos meus óculos de aumento e abri o estojinho com as ferramentas de precisão. Um minuto depois já havia retirado a tampa e removido o teclado e estava olhando para as entranhas do meu laptop. Peguei um spray de ar comprimido para limpar a poeira que o ventilador jogara para dentro.

Algo não estava certo. Não conseguia saber o quê, mas fazia meses que eu tinha retirado a tampa desta coisa. Por sorte, apenas três vezes  eu o abrira e brigara para fechá-lo de novo; eu tinha ficado esperto e tirado uma foto do interior, com tudo em seu lugar. Mas não totalmente esperto, pois deixara a foto no disco rígido e naturalmente não podia vê-la com o laptop reduzido à suas partes. Então eu imprimi a foto e guardei no meio da confusão dos papéis na gaveta, meu buraco na árvore morta do cemitério, onde guardo as garantias das peças e meus diagramas de pinagem. Remexi a papelada - que parecia mais embaralhada do que eu me lembrava - e achei a foto. Coloquei-a ao lado do computador e fiquei olhando as duas ao mesmo tempo, tentando achar o que estava fora de lugar.

Achei. O cabo chato que conectava o teclado a placa lógica não estava conectado corretamente. Isso era estranho. Não havia nada que pudesse tê-lo deslocado numa utilização normal. Tentei pressioná-lo e descobri que o plug não estava somente mal montado - havia algo entre o teclado e a placa. Coloquei as luzes no local. Havia algo novo no meu teclado. Uma pecinha de hardware, mínima, sem qualquer marca. O teclado estava conectado nela e ela então plugada na placa. Em outras palavras, perfeitamente situada para capturar tudo que eu teclasse na minha máquina.
Era um grampo.

Meu coração disparou nos ouvidos. Estava escuro e quieto na casa, mas não era uma escuridão confortável. Havia olhos do lado de fora, olhos e ouvidos, e eles me observavam. Me vigiavam. A vigilância que eu conhecia da escola havia me seguido para dentro de casa, mas desta vez não se tratava somente do Comitê Estudantil olhando por cima do meu ombro, mas o Departamento de Segurança do Estado que havia se juntado a ele.

Quase arranquei o grampo. Então me dei conta de que aquele que o havia colocado lá saberia que ele foi tirado. Deixei-o. Isso me fazia doente.
Olhei em minha volta, procurando por mais escutas. Não achei nenhuma, mas isso significava que elas não estavam lá? Alguém havia invadido meu quarto e plantado este dispositivo - tinha aberto e depois fechado meu laptop. Havia muitas outras formas de se colocar grampear um computador. Eu nunca conseguiria encontrar todas elas.

Fechei o computador com dedos adormecidos. Desta vez, a tampa fechou direito, o cabo de força ficou dentro. Inicializei o computador e coloquei os dedos no teclado, pensando em executar alguns programas de diagnóstico que diriam o que estava acontecendo.
Mas não consegui.
Inferno, talvez meu quarto estivesse com escutas. Talvez uma câmera me espionasse agora mesmo.
Comecei a ficar paranóico em minha própria casa. Sentia como se estivesse de volta à cela, de volta à sala de interrogatório, preso pelo rabo por entidades que me tinham totalmente em seu poder. Aquilo me fez querer chorar.

Fui ao banheiro e arranquei o rolo de papel higiênico e coloquei um novo em seu lugar. Por sorte estava quase vazio, acabei por desenrolar o resto dele e fucei na caixa de peças até achar um pequeno envelope plástico cheio de leds brancos que eu tinha arrancado do farol para bicicleta quebrado. Usando um estilete fiz os furos no tubo de papelão e enfiei os leds, então arranjei fios e liguei-os em serie prendendo com clipes de metal. Rosqueei os fios nos conectores de uma bateria de nove volts. Agora eu tinha um tubo direcional com ultra-brilhantes leds e podia colocá-lo perto do olho e olhar através dele.
Eu tinha construído um destes no último ano, para um projeto de ciências e jogado fora depois uma vez que demonstrara que existiam câmeras escondidas em metade das salas de aula da Chávez High. Micro-câmeras de vídeo custam menos que uma refeição em um bom restaurante hoje em dia, então elas estavam por toda parte. Balconistas de loja abelhudos as colocam nas cabines de troca de roupa ou salões de bronzeamento e fazem filmes pervertidos de seus clientes - algumas vezes até colocam na rede. Saber como se transforma um rolo de papel higiênico e algumas peças baratas em um detector de câmeras vale muito a pena.
Esta é a maneira mais simples de encontrar uma câmera espiã. Elas possuem lentes pequeninas, mas que refletem a luz pra diabo. Funciona melhor numa sala na penumbra: olhe pelo tubo e lentamente escaneie todas as paredes e outros lugares onde poderiam colocar uma câmera até ver algo cintilante como um reflexo. Se o reflexo permanece enquanto você se move, são lentes.
Não havia uma câmera no meu quarto - não que eu pudesse detectar, de qualquer forma. Mas podia haver escutas, é claro. Ou câmeras melhores. Ou nada disso. Quem pode me criticar por me sentir paranóico?
Eu amava aquele laptop. Eu o chamava de Salmagundi, que significa qualquer coisa feita por diversas partes excedentes.

Uma vez que você dá nome ao seu laptop, fica claro que você terá uma profunda relação com ele. Agora, pensando, sentia que jamais iria querer pegar nele de novo. Queria atirá-lo pela janela. Quem sabe o que fizeram com ele? Quem sabe como ele tinha sido grampeado?
Guardei-o fechado na gaveta e fiquei olhando para o teto.Era tarde e eu devia estar na cama. Não tinha jeito de dormir agora, pensei, eu estava grampeado. Todos deveríamos estar. O mundo tinha mudado para sempre.

“Vou encontrar um jeito de ir à forra.” disse. Era uma promessa, eu sabia o que era, mas nunca tinha feito uma antes. Não poderia dormir depois disso. E além do mais, eu tinha uma idéia.
Em algum lugar do meu armário havia uma embalagem contendo um Xbox Universal, embrulhadinho, ainda intacto. Cada Xbox (console de games da Microsoft) tinha sido vendido abaixo do custo - a Microsoft ganhava mais dinheiro cobrando companhias desenvolvedoras de games pelo direito de colocar seus jogos no Xbox - mas o Universal fora o primeiro Xbox que a Microsoft decidira dar inteiramente de graça.
No último Natal, havia uns coitados em cada esquina, vestidos como combatentes da série Halo, dando sacolas com estes consoles para jogos. Imagino que a coisa funcionou - todo mundo diz que eles venderam jogos pra cacete. Naturalmente, havia contra-medidas que faziam com que somente jogos dessas companhias pudessem ser jogados, companhias que haviam comprado licenças da Microsoft.

Os Hackers acabaram mandando pro espaço estas contra-medidas. O Xbox fora crackeado por um garoto do MIT que escreveu um sucesso de vendas sobre isso e quando os 360 (Xbox 360) foram lançados e então o  Xbox portátil (que chamávamos de ‘transportável’ - pesava apenas 1 quilo)  sucumbiu. O Universal supostamente deveria ser à prova de tudo. Os garotos que o desbloquearam eram hackers brasileiros que moravam numa favela - um tipo de “invasores de imóveis abandonados”. .

Nunca subestime a determinação de um garoto com muito tempo e pouco dinheiro.

Uma vez que os brasileiros publicaram o crack, todos nós ficamos doidos por ele. Logo havia dúzias de sistemas operacionais alternativos para o Xbox Universal. Meu favorito era o ParanoidXbox, um tipo de Paranoid Linux. Paranoid Linux é um sistema operacional que assume que seu operador está sob ataque de um governo (foi intencionalmente criado para uso dos dissidentes chineses e da Síria) e faz todo o possível para manter suas comunicações e documentos em segredo. Ele até dispara um monte de comunicações falsas que supostamente disfarçam o fato de você estar fazendo algo às escondidas. Então, enquanto você está recebendo uma mensagem política, um caractere por vez, o ParanoidLinux finge surfar na Web e preencher questionários e namorar em salas de bate-papo. Enquanto isso, um em cada quinhentos caracteres que você recebe é a sua mensagem verdadeira, uma agulha escondida em um palheiro.
Eu gravei um DVD com ParanoidXbox assim que apareceu, mas nunca tinha aberto o Xbox no meu armário  procurado uma televisão para ligá-lo e por ai vai. Meu quarto era cheio o bastante para deixar o lixo da Microsoft ocupar espaço valioso. 

Hoje à noite eu faria um sacrifício. Levei por volta de vinte minutos para colocar a coisa funcionando. Não ter uma televisão foi a parte mais difícil ,mas acabei lembrando de que tinha uma pequeno projetor LCD que tinha sido de uma TV padrão com conectores  RCA atrás. Conectei-a ao Xbox e instalei o ParanoidLinux.
Agora eu estava ligado e o ParanoidLinux procurava outro Xbox para conversar. Cada Xbox Universal vem com um dispositivo sem-fio interno para jogos multi-jogadores. Você pode se conectar com seus vizinhos por um link sem-fio e a internet, se você tiver conexão sem-fio para internet. Achei três possibilidades nas vizinhanças no meu alcance. Dois deles tinham seus Xbox Universais também conectados à internet. O ParanoidXbox adorava aquela configuração: podia entrar pela conexão à internet de algum vizinho e usá-la para ficar online através da rede de jogos. Os vizinhos não perderiam nada com isso: pagavam por conexões de taxa achatada, e não estavam exatamente surfando pela rede às 2 da manhã.

A melhor parte de tudo isso era como me fazia sentir: no controle. Minha tecnologia trabalhava para mim, me servindo, me protegendo. Não estava me espionando. Era por isso que eu amava a tecnologia: se você a usa direito, ela pode lhe dar poder e privacidade.
Meu cérebro estava ligado. Existem varias razões para se rodar um ParanoidXbox - a melhor é que qualquer pessoa pode criar um jogo para ele. Agora mesmo havia uma porta para MAME, um emulador para múltiplos arcades (jogos) então você podia jogar praticamente qualquer jogo já escrito, desde Pong, passando por games para o Apple ][+  e Colecovision, NES e Dreamcast, e por ai vai.

O que era ainda melhor era que todos os jogos multi-jogadores legais tinham sido feitos para especificamente o ParanoidXbox - de graça, por pessoas que fazem jogos por hobby e que qualquer um podia jogar. Quando você combina tudo isso, você tem um console aberto, cheio de jogos grátis e que lhe dá acesso grátis à internet.

E a melhor parte - de longe a que mais me interessava - era que ParanoidXbox era paranóico. Cada bit que atravessava o ar era embaralhado. Você podia gravar tudo que quisesse, mas nunca conseguiria saber quem estava falando, o que estava falando ou de quem falavam pela web, email e IM (Instant Messager).Tudo que eu precisava!

Tudo que eu precisava fazer agora, era convencer a todos que conhecia, a usá-lo também.

Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 5 [ Download ]