segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Destino, o vazio - Frank Herbert



PRÓLOGO
Esse era o quinto navio tripulado por clones que saía da Base Lunar dentro do Projeto Conscientiza e, cumprindo com as exigências de seu dever, inclinou-se para o monitor para observá-lo atentamente. Na imagem o via transbordando a órbita de Plutão e nesses momentos, como ele sabia, a tripulação já se teria encontrado com as frustrações programadas de costume, e possivelmente, inclusive com alguns mortos e feridos graves. Mas esse era o plano.
Chamava-se Terrestre Número Cinco.

O navio tinha a forma de um ovo gigantesco, uma de cujas metades se estendia como uma negra sombra recortada na cortina de fundo das estrelas em tanto que a outra metade refletia os brilhos chapeados do longínquo sol.

Uma tosse nervosa ressonou na escuridão detrás dele, mas conseguiu sufocar o reflexo de tossir a sua vez. Outros careciam de seu autocontrole. Para quando se apagaram as tosses a nave já tinha começado a girar. O movimento era impossível…, mas não havia forma de negar o que todos estavam vendo. Deu uma volta de cento e oitenta graus invertendo seu curso e voltando a empreender o atalho que seguia antes.
— Alguma pista sobre como o têm feito? — perguntou.
— Não, senhor. Nenhuma.
— Quero que revise de novo a cápsula de mensagens — disse —. Há algo que nos escapa.
— Sim, senhor — parecia mas bem um suspiro de resignação.
— Preparando-se para o lançamento da cápsula… — disse uma voz na escuridão.
Sim, todos o viram o número suficiente de vezes para predizer a seqüência.

A cápsula era uma agulha chapeada que aparecia da popa da nave e se mantinha aderida a seu ponto cego - pois, quem sabia que tipo de armas era capaz de ter uma nave semelhante? - até que se perdesse entre as estrelas.

Em algum lugar sob seus pés houve um breve brilho chamejante… o relé laser com sua mensagem: destruir. Uma luz purpúrea lambeu o bulboso nariz da nave. manteve-se durante o breve tempo de três pulsados de seu coração e a nave estalou formando uma cegante flor alaranjada.
— Certamente, esse modelo Flattery é digno de toda confiança — disse alguém.

A habitação se encheu de risitas nervosas, mas ele as ignorou, concentrando-se no monitor. Diabos, por que pensavam sempre no modelo Flattery? Podia ser qualquer da tripulação.

A imagem se enfocou sobre a bola de luz com a avassaladora velocidade do lapso temporário, fazendo que o brilho alaranjado da explosão parecesse piscar de um modo antinatural. Finalmente o movimento se fez mais lento, e a imagem mostrou os restos da nave e as breves exploda de luz procurando seu objetivo, a caixa de gravação. Isso e a cápsula de mensagens era o mais importante que perdurava depois de cada fracasso.

Viu como os retractores em forma de garra agarravam a caixa de gravação, fazendo-a desaparecer do campo visual. A luz cristalina seguiu iluminando os restos, procurando: tudo o que vissem podia ser valioso. Mas a luz só revelava metal retorcido, farrapos de plástico e, de vez em quando, os membros destroçados de algum tripulante. Houve uma imagem, breve e particularmente brutal, uma cabeça entrevista fugazmente, com parte do ombro e um braço que tinha sido amputado justo sob o cotovelo. Um halo de glóbulos sanguinolentos rodeava a cabeça, mas ainda era reconhecível.
— Tim! — disse alguém.
— Merda… merda… merda… — começou a repetir uma voz feminina na parte traseira da habitação, até que alguém a fez calar.

A imagem desapareceu e ele se reclinou em seu assento, sentindo a pontada de dor entre os ombros. Teria que identificar a essa mulher e fazer que a transferissem, sabia. Era impossível não reconhecer o matiz de histeria que havia em sua voz. O mais indicado seria alguma forma de catarse, e o mais dura possível. Desconectou o holovisor e acendeu as luzes da habitação. Logo ficou em pé e se voltou para eles, enfrentando-se à repentina e cegadora claridade.
— São clones — disse, mantendo deliberadamente fria sua voz —. Não são seres humanos; são clones, tal e como o indica o que todos levem como segundo nome «Lon». São objetos, propriedades! Quem se esqueça disso sairá da Base Lunar na próxima lançadeira. O pôster que há em minha porta diz «Morgan Hempstead, Diretor». Não haverá mais estalos emocionais nesta habitação enquanto eu siga sendo-o.



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