domingo, 20 de dezembro de 2009

Diário de Charles Stross - A vida de um escritor





Ser um escritor autônomo não é um estilo de vida para qualquer pessoa. 


Na verdade há uma série de equívocos sobre o que o trabalho exige. Eu estive fazendo isso em tempo integral por mais de seis anos, então posso não ser ainda um especialista no assunto, mas ao menos posso dar minha perspectiva pessoal sobre isso.

Em primeiro lugar, esqueça aquela história de estilo de vida dos escritores e da beleza estética de ter uma vocação que convida você para criar arte superior e coisa e tal. É tudo conversa.

Qualquer representação da maneira de viver e trabalhar dos escritores que você vê na mídia está errada.

É uma armadilha.

Aqui está a verdade:

Você é um empresário autônomo. Ocasionalmente você pode até trabalhar em parceria - Conheço muitas equipes tipo marido-e-mulher - mas em geral os escritores são criaturas solitárias. Você trabalha em uma indústria de serviços, seu produto é proporcional às horas de trabalho gasto por pessoa, e onde é muito difícil de subcontratar outros para fazer seu serviço, a menos que você seja rico, famoso, e tiver trinta anos de carreira, e já tiver construído uma relação de fidelidade com seus clientes.

Então você come ou passa fome, dependendo de sua capacidade de colocar o rabo na cadeira e escrever.

É BIC ou morra, esta é a primeira regra. 

Questões de estilo de vida vem num distante segundo lugar.

Você é um prestador de serviço. Você apresenta uma proposta e, se eles gostarem, vão te dar um adiantamento. Muitas vezes você vai descobrir nas pequenas linhas do contrato, que se você não entregar os resultados a tempo, aquele adiantamento que você está usando para pagar suas contas, terá que ser reembolsado em sua totalidade.

Se você acha que NÃO pode fazer o trabalho, NÃO deve pegar o dinheiro.

Os editores são geralmente razoáveis sobre percalços do lado da produção, especialmente se você lhes dá avisos prévios, e se você é normalmente confiável, mas eles não precisam ser assim.
Se você pisar na bola, eles não vão te apoiar.
É um mundo pequeno, e as pessoas falam umas com as outras.
Vacile com um ou dois e as pessoas vão começar a resmungar.

Agir como uma prima donna não é um recurso para sua sobrevivência. (Ser profissional e amigável... bem, isso é outro assunto.)

Você quase sempre será mal pago. Um primeiro livro típico de Ficção Científica ou Fantasy, recebe um adiantamento em média de apenas 5 mil dólares no mercado americano. Se você já tem alguma visibilidade e está no negócio, e a carreira está indo bem, pode receber de 15 a 20 mil dólares. E se as vendas são boas e você vende os direitos para o estrangeiro, este número pode dobrar. Mas você não pode fazer um planejamento de longo prazo, achando que irá vender feito água no Japão. Muitas vezes sua carreira irá estagnar devido a circunstâncias fora de seu controle, e você pode se ver descendo a ladeira.

Ouvi dizer que cerca de 2000 escritores no Reino Unido ganham em média 4.500 libras por ano. O que é ainda pior quando você lembra que neste mercado tem gente que puxa pro alto, como Terry Pratchett e JK Rowling.

(Não se desespere ainda. Há um monte de gente que escreve semi profissionalmente, um romance a cada 2-3 anos, enquanto mantém um outro trabalho. Eles tendem a arrastar esta média para baixo, e não estão passando fome porque têm outro ganha-pão. Mas escrever não é um caminho fácil para a fama e a fortuna, e se você quer ganhar muito dinheiro, você deve estudar contabilidade ou medicina).

Seu estilo de vida será este, cedo ou tarde (geralmente tarde) você acorda, faz o habitual quando se acorda, em seguida anda três metros até seu escritório, onde você senta-se por várias horas concentrado, esperando que o telefone não toque porque vai quebrar sua concentração, isso se tiver sorte.

Em meio a estas horas todas você espera conseguir escrever algo.
A menos que você seja um escritor classe A, que recebe adiantamentos de 50 mil dólares, é melhor que consiga botar no papel uma média de 1.000 palavras por dia útil, ou procure outro emprego.

Há aproximadamente 250 dias úteis do ano (estou supondo que você passa um par de dias por semana fora, e tem férias e licença médica), de modo que 250 mil palavras são dois romances de tamanho normal e alguns contos. Alguns escritores fazer muito mais do que 1.000 palavras por dia, alguns fazem menos. Se você fizer menos e não estiver no Olimpo dos escritores, você não será capaz de ganhar a vida nesta carreira.
Muitos escritores escrevem 250 mil palavras por ano e ainda assim não conseguem levar uma vida escrevendo somente. Eles geralmente tem empregos de meio período, para cobrir as despesas, ou um emprego em tempo integral e escrevem à noite e nos fins de semana.
É uma tarefa monótona e árdua.

Além de escrever você irá:
# Trabalhar os manuscritos editados, corrigindo-os
# Escrever
# Rastejar sobre provas para impressão, à procura de erros de digitação
# Escrever
# Manter o controle de seus gastos e as 1001 coisas que qualquer autônomo precisa fazer, como não deixar o Imposto de Renda te pegar
# Escrever
# Lidar com entusiasmo com a imprensa e os entrevistadores, não importando quão pequeno ou obscuro seja o resultado - publicidade é sempre uma prioridade, a não ser que você seja importante o suficiente para contratar um gerente de RP
# Escrever
# Lidar com a correspondência de seu(s) editor(es) e agente, de uma maneira rápida e profissional, porque se você começar a criar uma reputação de ser difícil de trabalhar, então ferrou... (felizmente editores e agentes sabem que só loucos e excêntricos querem ser escritores em tempo integral, de maneira que farão o possível para preservá-lo do assédio de outros)
# Escrever
# Convencer o banco a aceitar cheques em moedas que nunca ninguém ouviu falar
# Escrever
# Saber mais do que você sempre quis saber sobre tratados internacionais de dupla tributação e os formulários de isenção associados
# Escrever
# Responder e-mails de fãs (se você tiver a sorte de ter fãs)
# Eu disse "escrever" o suficiente? Eu quis dizer "escrever, mesmo quando você está doente pra caramba, quando o projeto atual é um arrastar interminável, quando você não conseguir se lembrar por que você nunca concordou em escrever este livro estúpido, quando suas mãos doem de LER (Lesão por Esforço Repetitivo) e seu gato esquecer quem é você, e seu cônjuge está pedindo divórcio alegando negligência.

E isso é só o começo.

O mais útil conselho para preservação de sua sanidade que recebi, veio de outro escritor (não sei quem, mas acho que pode ter sido Maria Gentil), que anos atrás me explicou que se você trabalhar em tempo integral como um autor, você aprende a manter sua vida social em primeiro lugar e agendar sua vida profissional ao redor dela.

Isto pode inicialmente parecer uma contradição do que eu dizia antes sobre a BIC (BIC ou morra), mas é importante ter isso em mente: nós, seres humanos somos animais sociais. O escritor trabalha dentro de si mesmo, fechado em uma cela em algum lugar, com tão pouco contato humano. Dai resulta que eventualmente você precisa fazer este contato humano. E você vai receber um choque desagradável se você insistir em escrever à noite e nos fins de semana: quando for procurar alguém, a maioria de seus amigos estará indisponível. Todos eles têm empregos diários e tem pouco tempo livre. Se o seu tempo livre não coincide com o tempo livre deles, você não irá vê-los. Assim, apesar de ser livre para trabalhar quando quiser, este é um argumento bastante forte para o autor que valoriza sua sanidade, manter noites e fins de semana livres.

Não esquecendo daqueles que tem filhos pequenos e tem de lidar com as exigências das escolas, creches, e às mil e uma outras instituições, que parecem assumir que os pais estão disponíveis das 6 da manhã às 9 da noite.

Então quais são as vantagens?

Bem, se você for bem sucedido, as pessoas vão querer vê-lo e falar com você. As pessoas que leram seus livros. Às vezes vão te parar para apertar sua mão, quando você estiver em público. Muitas vezes os leitores assumem que te conhecem porque leram seu trabalho, então a abordagem é fraternal, como se eles já te conhecessem. Isto pode ser realmente desconcertante, para não dizer constrangedor, se você tem uma má memória para rostos e nomes (como eu): Essa pessoa é um completo estranho ou um amigo que não vejo faz tempo?

Se você conseguir ganhar a vida escrevendo, vai ganhar dinheiro suficiente para comer fora de vez em quando, de repente você vai descobrir que possui um bônus maravilhoso, que ninguém com um trabalho normal tem - você pode ficar de bobeira sempre que você quiser!

Eventualmente, a novidade acaba (não há nada pior que lidar com o jet lag em um aeroporto estranho, uma hora após o último ônibus para a cidade ter partido, quando se está fora em uma viagem), mas se você tem um iene para visitar lugares estranhos você pode satisfazê-la. (Inferno, se você escrever sobre isso você deveria poder até mesmo torná-lo um gasto dedutível - pelo menos na medida em que seu contador ou o senso comum, diz que você pode justificar tal gasto para uma auditoria.)

Se você é um escritor de Ficção Científica, pode encontrar admiradores nas convenções, que vão querer te pagar bebidas e jantares em prol da sua companhia. Por outro lado, se (como eu) você não consegue trabalhar enquanto viaja, isso pode colocar um pouco de um freio na sua volta ao mundo.

O que você não vai ter: excursões de divulgação, limusines, recepções com champanhe. Não a menos que seu livro venda muito: estas coisas custam dinheiro para sua editora, e eles não vão gastar, a menos que você esteja se dando muito bem.

Se você acha que eu estou sendo um pouco pessimista, considere o que implica uma turnê de autógrafos: você, o autor, precisa reservar espaço de pelo menos duas livrarias em um dia - de preferência mais - e provavelmente, duas cidades por dia, em geralmente, de cinco a dez dias. Isto envolve custos de transporte elevados, para não mencionar de cinco a dez pernoites em hotéis diferentes. Seu editor provavelmente colocará alguém na gestão de sua turnê, em tempo integral, de modo que terá que cobrir a acomodação e as despesas de viagens de duas pessoas. Nos EUA isso custaria 5 mil dólares por pessoa, para uma excursão de 10 dias (provavelmente o dobro, fácil) para que a sua presença na turnê impulsione as vendas em torno de 15 mil, por baixo. A probabilidade é que você vai assinar seu nome mais de 150 vezes por dia para atingir essa meta. E quando você estiver fazendo isso, você não estará escrevendo seu próximo livro, que eles esperam que faça ainda mais dinheiro.

Não, a sério: turnês de divulgação não fazem sentido, e não vão acontecer, a menos que você faça grande sucesso. Esqueça a champanhe. A cada vez que for encontrar seu editor (uma vez por ano ou quase), seu editor (se tiver sorte) irá levá-lo para almoçar ou jantar por conta da editora, mas isso é para poucos.

Assim, para resumir: você é mal remunerado, as horas de trabalho são estranhas, o ambiente do escritório pode ser claustrofóbico, você não encontra seus amigos, você está vendendo seus produtos para grandes corporações que podem tirar seu sono e esmagá-lo, se você não fizer bonito, ninguém vai lhe dar uma recepção com champanhe, uma limusine ou turnês de divulgação, e há muitos aspectos administrativos, de negócios, com que terá que lidar, e ainda tem de levar uma vida social normal para não ficar louco .

Por outro lado você está fazendo exatamente o que você sempre quis fazer (ou se sentiria frustrado e iria procurar outra coisa para fazer).

E o que poderia ser melhor do que isso?

- x -

Charles Stross nasceu em 1964 em Leeds, Inglaterra, e atualmente mora em Edimburgo na Escócia, onde escreve em tempo integral. Graduou-se em Ciência da computação e trabalhou em uma variedade de empregos (que às vezes ele descreve como "tráfico de drogas e hacking"). 

Embora esteja escrevendo e publicando contos desde meados da década de 1980, ele só começou a escrever em tempo integral quando se viu desempregado, devido ao estouro das dot.com em 2000 - o que ironicamente, foi responsável por sua carreira deslanchar.

Stross definiu-se assim: "Além de escrever, sou só um cara meio chato, apenas outro geek escritor obsessivo, com um fetiche por gadgets, dois gatos e uma barriga de cerveja".