sábado, 12 de dezembro de 2009

Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 7



CAPÍTULO 7
Este capítulo é dedicado a Books of Wonder de Nova Iorque, a mais antiga e maior livraria infantil de Manhattan. Fica a poucas quadras do escritório da Tor Books no Flatiron Building e toda vez que vou conversar com o pessoal da Tor, dou uma xeretada no estoque de novidades da Books of Wonder, em seus livros para crianças usados e raros também. Sou um grande colecionador de edições raras de Alice no País das Maravilhas e a Books of Wonder nunca deixou de me excitar com algumas belas edições limitadas de Alice. Eles têm toneladas de eventos para crianças e uma das mais convidativas atmosferas que já experimentei em uma livraria.
Books of Wonder: 18 West 18th St, New York, NY 10011 USA +1 212 989 3270


Me levaram para fora e para a esquina, onde um carro de polícia sem identificação me esperava. Não era como alguém das vizinhanças levando uma dura num carro de polícia, pensei. Somente policiais dirigiam grandes Crown Victorian agora que a gasolina chegava a sete mangos o galão. E mais, só policiais podiam parar em fila dupla no meio da Van Ness sem serem rebocados pelos operadores predatórios de guinchos que circulavam eternamente, prontos para impingir as regulamentações de trânsito incompreensíveis de São Francisco e arranjar um troco por seqüestrar seu carro.

O melequento assoou o nariz. Eu estava sentado no banco de trás com ele. Seu parceiro sentara na frente digitando com um dedo um antigo e frágil laptop que parecia ter pertencido a Fred Flintstone.
Melequento olhou de perto minha identificação de novo. “Só queremos fazer algumas perguntas de rotina.”
“Posso ver seus distintivos?” eu disse. Estes caras eram claramente policiais, mas não faria mal a ninguém deixar que soubessem que eu conhecia meus direitos.

O melequento exibiu seu distintivo rapidamente, rápido demais para poder dar uma boa olhada, mas o espinhoso no banco da frente deixou-me dar uma boa olhada no seu. Memorizei o número da sua divisão e os quatro dígitos de seu distintivo. Fácil, 1337 era como os hackers escreviam ‘leet’ ou ‘elite’.
 Estavam sendo bastante educados e nenhum dos dois tentava me intimidar daquele jeito que o DHS fez quando eu estava sob custodia.
“Estou sendo preso?”
“Você está momentaneamente detido para que possamos assegurar sua segurança e a segurança do publico em geral.” disse o melequento.

Ele passou minha licença de motorista para o espinhento, que a olhou e lentamente a digitou no computador. Eu o vi cometendo um erro e quase o corrigi, mas achei melhor ficar com a boca fechada.
“Tem algo que queira me contar, Marcus? Eles te chamam de Marc?”
“Marcus está bom.” eu disse. Melequento parecia ser um cara legal. A não ser pela parte de me raptar para o seu carro, é claro.
“Marcus. Alguma coisa que queira nos contar?”
“Como o quê? Estou sendo preso?”
“Você não está sendo preso neste momento’ disse o melequento. ‘Você gostaria de ser?”
“Não.” Eu disse.
“Bom. Estamos olhando você desde que saiu da BART. Seu passe rápido diz que você esteve em um monte de lugares estranhos por várias horas.”

Senti algo em meu peito. Não se tratava da Xnet de qualquer maneira, não realmente. Estavam observando meu uso do metrô e querendo saber por que o usara tão tarde. Que estúpido.
“Então vocês seguem todos que saem da estação BART com um histórico de paradas estranhas? Vocês devem ser bem ocupados!”
“Não todo mundo, Marcus. Nós recebemos um alerta quando qualquer um com o perfil de um uso incomum do metrô aparece e isso nos ajuda a avaliar qualquer um que queremos investigar. No seu caso, nos queremos saber por que um garoto aparentemente esperto como você tem um perfil desses?”

Agora eu sabia que não iria para a cadeia. Comecei a ficar com raiva. Estes caras não tinham nada que me espionar - Cristo, a BART não tinha nada que ajudá-los a me espionar. Por que diabos meu passe de metro tinha que ser usado para me apontar como tendo um “padrão de uso não convencional”.
“Acho que eu gostaria de ser preso.” eu disse.
Melequento encostou e ergueu uma sobrancelha para mim.
“Realmente? Com que acusação?”
“Oh, quer dizer que usar o sistema público de trânsito de uma maneira não convencional não é crime?”
Espinhento fechou os olhos e os esfregou com os polegares.
Ele fez um sinal com o dedo para cima.
“Preste atenção, Marcus, estamos do mesmo lado aqui. Usamos este sistema para pegar caras maus. Para pegar terroristas e vendedores de drogas. Talvez você seja um vendedor de drogas. É a melhor maneira de andar pela cidade, um passe rápido anônimo.”
“O que há de errado com o anonimato? Era bom o bastante para Thomas Jefferson. Estou sendo preso?”
“Vamos levá-lo para casa.” Disse espinhento. “Podemos falar com seus pais.”
“Acho que é uma grande idéia. Estou certo que meus pais estão ansiosos em ouvir como os dólares que pagam em impostos estão sendo gastos.”

Eu tinha longe demais. Melequento que estava quase pegando na maçaneta da porta voltou-se para me encarar, todo HULKficado e com as veias batendo fortes. “Por que não cala a boca agora mesmo, enquanto ainda tem chance? Depois de tudo que aconteceu nestas últimas duas semanas não te mataria cooperar conosco. Sabe o que mais, deveríamos prender você. Poderia passar uma noite ou duas numa cela enquanto seu advogado procura por você. Um monte de coisas pode acontecer neste meio-tempo. Um monte. Você ia gostar disso?”

Eu não disse nada. Estava agindo irrefletidamente, zangado. Agora estava assustado.
“Desculpe.” Eu disse odiando a mim mesmo por dizer isso.
Melequento passou para o banco da frente e Espinhoso colocou o carro em movimento, cruzando a rua 24 e em direção a Potrero Hill. Eles tinham meu endereço da identidade.
Mamãe atendeu a porta depois deles tocarem a campainha, deixou a corrente de segurança. Ela olhou ao redor e me viu e disse “Marcus? Quem são estas pessoas?”
“Polícia” disse o melequento. Mostrou seu distintivo, deixando-a dar uma boa olhada nele - não de relance como tinha feito comigo. “Podemos entrar?”

Mamãe fechou a porta, tirou a corrente e deixou-nos entrar. Mamãe deu para nós três um daqueles seus olhares.
“Do que se trata?”
Melequento apontou para mim. “Nós queríamos fazer algumas perguntas para seu filho sobre seus movimentos, mas ele recusou em responder. Nós achamos melhor trazê-lo aqui.”
“Ele está sendo preso?” O sotaque de mamãe começava a aparecer forte. A velha e boa mamãe.
“A senhora é cidadã Americana, madame?” perguntou Espinhento.
Ela lhe deu um olhar que podia arrancar tinta. “Eu garanto que sou” disse com amplo sotaque sulista. “Eu estou sendo presa?”
Os dois tiras trocaram um olhar.
Espinhento falou primeiro.
 “Parece que começamos com o pé esquerdo. Nós identificamos seu filho como alguém com um padrão de uso de transporte público não convencional, dentro do novo programa de coerção proativa. Quando o comportamento da pessoal não é comum, ou combina com um perfil suspeito nós investigamos.”
“Espere.” disse mamãe. “Como sabem que meu filho usa o Muni?”
“O passe rápido” disse. “Ele rastreia as viagens.”
“Sei.” disse mamãe cruzando os braços. Cruzar os braços era um péssimo sinal. Tão mal quanto não ter lhes oferecido ainda uma xícara de chá - na terra da minha mãe, era praticamente o mesmo que deixá-los falando pelo buraco de cartas da porta - mas uma vez que ela cruzava os braços, a coisa não terminaria bem para eles. Naquele momento, eu queria sair e lhe comprar um grande buquê de flores.
“Marcus se recusou a nos dizer o porquê de seus movimentos serem daquele jeito.”
“Vocês estão dizendo que meu filho é um terrorista por conta de como ele usa o ônibus?”
“Terroristas não são os únicos sujeitos maus que capturamos deste jeito” disse o espinhento. “Traficantes. garotos de gangues. Até ladrões de lojas espertos o bastante para escolher sempre uma vizinhança diferente para cada roubo.”
“Você pensa que meu filho é um vendedor de drogas?”
“Não estamos dizendo isso...” começou a falar Espinhento. Mamãe bateu as mãos fazendo-o calar-se.
“Marcus, por favor, me dê sua mochila.”

Eu dei.
Mamãe abriu o zíper e olhou dentro, virando-se de costas para nós primeiro.
“Oficiais, eu posso afirmar agora que não há narcóticos,explosivos ou  bugigangas roubadas na mochila do meu filho. Acho que terminamos aqui. Gostaria do número de seus distintivos antes de saírem, por favor.”
Melequento em tom de zombaria respondeu: “Senhora, a ACLU está processando trezentos policiais da polícia de São Francisco, você vai ter que entrar na fila.”

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Mamãe me fez um copo de chá e então me fez salivar pelo jantar quando soube que ela estava fazendo falafel. Papai chegou e nós ainda estávamos na mesa e mamãe então virou-se para contar a história. Ele balançou a cabeça.

“Lilian, eles estão apenas fazendo o trabalho deles.” Ele vestia ainda o blazer azul e cáqui que vestia nos dias que fazia consultoria no Vale do Silício. “O mundo não é mais o mesmo desde a semana passada.”
Mamãe baixou a xícara. “Drew, você está sendo ridículo. Seu filho não é um terrorista. Seu uso do sistema de transporte público não é causa para uma investigação policial.”

Papai tirou o blazer. “Nós fazemos isso o tempo todo no trabalho. É como os computadores podem ser usados para encontrar todo tipo de erros, anomalias e resultados. Você pode ao computador para criar um perfil de um registro na média de um banco de dados e pede para que encontre quais registros estão longe da margem. É algo chamado análise Bayesiana e existe há séculos. Sem isso não poderíamos ter filtros de spam...”
“Então você está dizendo que você pensa que a polícia pode agir tão rígida quanto meu filtro de spam?” eu perguntei.

Papai nunca ficaria bravo comigo por fazer uma pergunta dessas, mas naquela noite eu pude ver que ele estava ficando irritado. Ainda assim, eu não conseguia resistir. Meu próprio pai, ficando do lado da polícia!
“Estou dizendo que é perfeitamente razoável para a polícia conduzir suas investigações começando por data-mining (processo de vasculha de informações escondidas em um banco de dados) e então seguir adiante com trabalho de campo onde um ser humano intervêm para ver o porquê daquela anomalia. Eu não acho que um computador pode dizer para a polícia quem prender, mas ajudá-los a procurar pela agulha no palheiro.”
“Mas eles tirando estes dados do sistema de trânsito eles estão criando o palheiro. É uma gigantesca montanha de dados e quase nada que valha a pena ser visto do ponto de vista da polícia. É uma perda de tempo.” eu disse.
“Eu entendo que você não goste de que este sistema lhe cause alguns inconvenientes, Marcus. Mas você, entre todas as pessoas, deveria entender a gravidade da situação. Ninguém foi ferido, foi? Eles até te deram uma carona para casa.”

Eles me ameaçaram me jogar na cadeia, pensei, mas vi que não havia motivo de contar sobre isso.
“Além do mais, você ainda não nos falou o que diabos você estava fazendo para criar tal padrão não usual de trânsito.”
Isso me trouxe rápido de volta à realidade.
‘Achei que confiava em mim. Você quer mesmo que eu conte cada viagem que fiz?”

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Agarrei meu Xbox assim que cheguei no quarto. Tinha preso o projetor no teto, de maneira que podia projetar na parede sobre minha cama. (Eu havia arrancado meu fantástico mural com adesivos de punk rock que descolara de postes telefônicos e colado em grandes folhas de papel branco.)

Liguei o Xbox e aguardei o surgimento da tela. Eu ia mandar um email para Van e Jolu para contar-lhes sobre o lance com os tiras, mas assim que pus os dedos ao teclado, parei.
Uma sensação de medo me envolveu, não como aquele que tive quando percebi que haviam transformado o pobre e velho Salmagund num traidor. Desta vez, foi a sensação de que minha amada Xnet poderia estar entregando a localização de cada um de seus usuários para a DHS.

Foi o que meu pai havia dito: Você pede para o computador criar um perfil de um registro médio de um banco de dados e então pede a ele que encontre registros no banco de dados que fogem desta média.

O Xnet era seguro por que os usuários não estavam diretamente conectados a internet. Eles pulam de um Xbox para outro, até encontrarem um que esteja conectado a internet, então ele injeta seu material indecifrável de dados criptografados. Ninguém consegue dizer qual dos dados que viajam pela Internet são de um Xnet e quais são de um simples acesso a banco, ou comércio eletrônico ou outro dado criptografado qualquer. Não dá pra descobrir quem está utilizando a Xnet.

Mas e quanto às “estatísticas Bayesianas” de papai? Eu já tinha brincado com matemática bayesiana antes. Darryl e eu já tínhamos tentado escrever nosso próprio e aperfeiçoado filtro contra spam e quando você filtra spam, você precisa de matemática bayesiana. Thomas Bayes tinha sido um matemático inglês do século 18 sobre o qual ninguém ouvira falar, até uns duzentos anos depois de sua morte, quando os cientistas da computação se deram conta que suas técnicas para analisar estatisticamente montanhas de dados eram super úteis para o moderno mundo de info-himalaias.

É assim que a estatística bayesiana funciona. Digamos que você tem um monte de spam. Você pega cada palavra que existe no spam e conta quantas vezes ela aparece. Isso se chama “histograma de freqüência de palavra” e diz qual q probabilidade de qualquer grupo de palavras ser como um spam. Agora, pegue uma tonelada de emails que não são spam - no meio, eles chamam isso de ‘ham’(presunto) - e faça a mesma coisa.

Espere até um novo email chegar e conte as palavras que aparecem nele. Então use o ‘histograma de freqüência de palavra’ naquela mensagem para calcular a probabilidade de pertencer a pilha de spam ou a pilha de ‘ham’ . Se apontar ser um spam, você ajusta o histograma de spam de acordo. Existem várias maneiras de refinar a técnica... olhando por palavras em pares, descartando dados antigos... mas no grosso é como a coisa funciona. É uma destas grandes e simples idéias que parecem obvias depois que você a ouve.

E tem um monte de aplicações - você pode pedir ao computador para contar as linhas de uma imagem e ver se é mais como a linha de freqüência do histograma de um cachorro ou a linha de freqüência do histograma de um gato. Se quiser, pode procurar pornô, fraude bancária, e insultos. Muito útil.
E isso era péssimo para a Xnet. Digamos que você tem toda a internet grampeada - o que era claro que a DHS tinha. Você não pode dizer quem está passando dados Xnet apenas olhando o conteúdo, graças a cripto.

O que você pode descobrir é quem está mandando mais dados criptografados do que os outros. Para alguém usando a Internet normalmente, uma sessão online é provavelmente 95% de texto aberto e 5% de texto cifrado. Se alguém está mandando 95% de texto cifrado, talvez você possa enviar a este computador algo equivalente ao Melequento ou ao Espinhento para perguntar se ele é um terrorista vendedor de drogas usuário de Xnet.

Isso acontece o tempo todo na China. Algum dissidente esperto resolve burlar a Grande Muralha de fogo (trocadilho com Firewall) da China, que é usada para censurar toda conexão com a internet do país, usando de uma conexão criptografada por um computador de outro país. Agora, o Partido lá que não pode dizer o que o dissidente está fazendo, pode ser pornô, instruções para fazer uma bomba, uma carta maliciosa para sua namorada nas Filipinas, material político ou notícias sobre a Cientologia. Eles não têm como saber. Tudo que sabem é que este cara demanda mais tráfego criptografado do que seus vizinhos. Então, eles o mandam para um campo de trabalhos forçados para servir de exemplo para que todos vejam o que acontece com espertinhos.

Até agora, eu estava disposto a apostar que a Xnet estava fora do radar da DHS, mas poderia não ser o caso. Após aquela noite, eu não estava mais certo de estar em melhor situação do que um dissidente chinês. Estava colocando todos os usuários da Xnet em perigo. A lei não quer saber se você está realmente fazendo algo errado, eles te botam debaixo do microscópio apenas por ser estatisticamente fora do normal. E eu nem sequer conseguiria parar com isso - uma vez que a Xnet estava sendo executada por aí, com vida própria.
Eu tinha que dar um jeito nisso.

Desejei poder falar com Darryl sobre isso. Ele tinha trabalhado em um provedor de internet chamado Porco Melancólico que o contratara quando tinha doze anos; ele conhecia mais sobre rede do que eu. Se alguém sabia como livrar nossos traseiros da cadeia, este seria ele.
Por sorte, Van, Jolu e eu planejamos nos encontrar para um café na noite seguinte, após a aula, em nosso local favorito na Missão. Oficialmente, era o ponto de reunião semanal do time de Harajuku Fun Madness, mas com o jogo cancelado e Daryl desaparecido, era mais como um lugar na semana para chorarmos nossas mágoas, suplementando umas seis ligações por dia e alguns IMs. Seria bom ter mais alguém com quem falar a respeito.

#

"Você tá louco!" disse Vanessa. “Você está realmente, totalmente, absurdamente fora de si ou o que?”
Ela tinha vindo em seu uniforme escolar feminino porque não estava a fim de ir até sua casa, lá na ponte San Marteo e voltar para a cidade no serviço de ônibus que sua escola operava. Ela odiava ser vista em publico com aquelas ‘roupitas’, total Sailor Moon - uma saia de pregas, camisa de manga curta e meias até o joelho.
Ela estava de mau humor desde que chegara ao café, que estava cheio de velhos, maneiros, ‘emos’, estudantes de arte deprimidos, debruçados em seus café-expressos com creme.
“O que você quer que eu faça, Van?” Eu disse. Eu estava ficando exasperado. A escola estava se tornando insuportável agora que o jogo estava fora do ar, agora que Darryl tinha sumido. Durante o dia, na sala de aula, eu me consolava em pensar em encontrar minha gangue, fora dali. Agora nós brigávamos.
“Quero que pare de se colocar em risco, M1k3y.” Os cabelinhos na minha nuca se arrepiaram todos. É claro que a gente sempre usou nossos apelidos nos encontros do time, mas agora ele estava associado ao meu uso da Xnet, me apavorava ouvi-lo ser dito em publico em alto e bom som.
“Não use este nome em público, nunca mais!” eu a repreendi.

Van balançou a cabeça. “É justamente isso que estou dizendo. Você vai acabar na cadeia por isso, Marcus, e não apenas você. Um monte de gente vai junto com você. Depois do que aconteceu com Darryl...”
“Eu estou fazendo isso por Darryl!”
Os estudantes de artes nos olharam e eu baixei minha voz.
“Estou fazendo isso por que a alternativa é deixá-los levar tudo isso embora.”
“Você acha que vai detê-los? Está fora de juízo. Eles são o Governo!”
“Ainda é o nosso país. Nós ainda temos o direito de fazer isso.” Eu disse.

Van parecia que ia chorar. Tomou ar e disse: “Não posso fazer isso. Desculpe. Não posso ver você fazendo isso. É como ver uma batida de carro em câmera lenta. Você vai se destruir e eu te amo muito para ficar vendo acontecer.”

Ela se inclinou e me deu um abraço apertado e um beijo seco na bochecha, pegando o canto dos meus lábios. “Se cuida, Marcus.” Minha boca queimava onde seus lábios tinham tocado. Ela deu a Jolu o mesmo tratamento, mas bem no meio da sua bochecha. E saiu.
Jolu e eu nos olhamos depois que ela se foi.
Jolu bateu nas minhas costas e pediu outro café. “Vai ficar tudo bem.” ele disse.
“Eu pensava que Van, mais do que qualquer pessoa, fosse compreender.” Metade da família de Van vivia na Coréia do Norte. Seus pais nunca a deixaram esquecer que haviam todas aquelas pessoas vivendo sob as ordens de um ditador maluco sem poder fugir para a América, como seus pais fizeram.
Jolu sorriu: “Talvez ela esteja tão perturbada assim por saber como isso pode ser perigoso.”
Eu sabia sobre o que ele estava falando. Dois tios de Van tinham desaparecido na cadeia.
“É.” Eu disse.
“Então, como você não entrou na Xnet noite passada?”

Estava agradecido por mudarmos de assunto. Expliquei tudo para ele, a coisa Bayesiana e do meu temor que não pudéssemos continuar a usar a Xnet e como poderíamos ser pegos. Ele ouviu pensativo.
“Entendo o que você diz. O problema é se ocorrer muita cripto na conexão de alguém, vão achar aquilo anormal. Mas se você não usar a cripto, vai tornar fácil para os caras do mal te grampearem.”
“É isso mesmo. Pensei nisso o dia todo. Talvez a gente possa a conexão mais lenta, distribuir por mais pessoas...”
“Não funciona.” Ele disse. “Se tornarmos lento o bastante para desaparecer no ruído, vamos praticamente inutilizar a rede, o que não é uma opção.”
“Você está certo. Mas o que mais podemos fazer?”
“E se nós mudássemos a definição do que é normal?”

E este era o motivo de Jolu ter sido contratado para trabalhar no Porco Melancólico quando tinha 12 anos. Dê para ele um problema com duas soluções ruins e ele encontrava uma terceira totalmente diferente baseada em desprezar todas as suposições. Concordei com veemência.
“Como faremos?”
“O que aconteceria se o usuário médio da internet de São Francisco tivesse mais cripto na sua media diária na internet? Se conseguíssemos dividir algo como meio a meio, entre texto aberto e cifrado, então os usuários de Xnet iriam parecer normais.”
“Mas como fazemos isso? As pessoas não se importam muito com privacidade para surfar pela rede com um link criptografado. Eles não percebem a importância se alguém bisbilhota o que ele está gogglando.”
“Sim, mas páginas da web são bem pequenas dentro do tráfico. E se tivéssemos pessoas baixando rotineiramente arquivos criptografados gigantescos todos os dias? Isso iria criar mais texto cifrado do que milhares de paginas web.”
“Você está falando de indienet.” Eu disse.
“Você sacou.”
“indienet” - em letras minúsculas, sempre - era o que tinha feito o Porco Melancólico, um dos provedores independentes de maior sucesso no mundo. No passado, quando as grandes empresas de disco começaram a processar os fãs por baixarem suas músicas, um monte de selos independentes e seus artistas foram contra. Como você ganha dinheiro processando seus consumidores?
O fundador do Porco Melancólico tinha a solução: ele fez um acordo com aqueles que queriam trabalhar com seus fãs, ao invés de brigar contra eles,.dando ao Porco Melancólico uma licença para distribuir suas músicas aos seus consumidores e eles lhe pagavam por quão popular sua música era. Para um artista independente (indie) o grande problema não é a pirataria, mas a obscuridade - quando ninguém sequer se importa com você o bastante para baixar suas musicas.
E funcionou. Centenas de independentes e produtoras assinaram com a Porco Melancólico e quando mais música eles disponibilizavam, mais fãs trocavam seus provedores par ao serviço da Porco Melancólico e mais dinheiro ia para o artista.  Em um ano, ela tinha cem mil novos consumidores e agora tem um milhão - mais da metade das conexões da cidade.
“Uma revisão do código da indienet esteve comigo por meses.” Disse Jolu, “Os programas originais foram escritos rapidamente, com sujeira, e eles podiam ser mais eficientes com um pouco de trabalho. Mas eu nunca tive tempo para isso. Um dos itens prioritários da minha lista de coisas por fazer era criptografar as conexões, por que Trudy queria assim.” Trudy Doo era o fundador da Porco Melancólico. Ela era uma lenda do punk na São Francisco dos velhos tempos, cantora e líder de uma banda anarco-feminista chamada Putas Velozes e era maníaca por privacidade. Eu posso acreditar que ela vai querer seu serviço de musica criptografado.”
“E será difícil? Quero dizer, quanto tempo vai levar?”
 “Bem, são toneladas de código criptografado no online gratuito, é claro.” disse Jolu. Ele estava fazendo o que sempre faz quando está  remexendo num código cabeludo – ficou  com seu olhar distante, batendo a palma das mãos na mesa, fazendo o café transbordar no pires. Eu queria rir - tudo poderia ser destruído e virar lixo e coisa e tal, mas Jolu escreveria o código.
“Posso ajudar?”
Ele olhou para mim. “O quê, tá achando que eu posso fazer isso?”
“O quê?”
“Quer dizer, você fez todo este negocio da Xnet sem falar comigo. pensei que não precisasse de mim.”
“O quê?” Eu disse de novo.  Jolu estava me olhando realmente contrariado. Ficou claro que já estava  magoado com isso há muito tempo. “Jolu...”
Ele me encarou e pude ver que estava furioso. Como eu não tinha percebido? Deus, que idiota eu sou às vezes. “Olha, camarada, isso não é grande coisa...” dizendo isso ele queria dizer na verdade o contrário. “...sabe como é, você nunca me chamou. Eu odeio o DHS. Darryl era meu amigo também. Eu podia ter te ajudado.”

Eu queria enfiar minha cabeça num buraco. “Ouça Jolu, isso foi realmente estupidez minha. Eu pensei nisso às duas da manha. Eu estava ficando maluco quando isso me veio. Eu...” não dava para explicar de fato. Ele estava certo e este era o problema. Eram duas das manha mas eu podia ter ligado para Jolu e falado a respeito no dia seguinte. Eu não fiz isso por que sabia o que ele iria dizer... que era uma ação ruim, que eu precisava pensar melhor. Jolu sempre conseguia transformar minhas idéias das 2 da manhã em código real, mas aquela coisa era um pouco diferente do que eu estava acostumado. Eu queria o projeto para mim. Era coisa do M1k3y.
“Desculpa!” eu disse ao final. “Me desculpa mesmo! Você está totalmente certo. Eu pirei e fiz besteira. Eu preciso muito da sua ajuda. Não posso fazer isso sozinho.”
“Você tem certeza?”
“É claro que sim. Você é o melhor codificador que conheço. Você é um gênio filho da mãe, Jolu. Eu ficaria honrado se você me ajudasse.”

Ele bateu os dedos na mesa mais uma vez. “É só... você sabe. Você é o líder. Van é a esperta e Darryl era... seu braço direito, o cara que organizava tudo, que via os detalhes. Ser o programador, essa era a minha especialidade. Eu senti como se você estivesse dizendo que não precisava de mim.”
“Que isso cara, eu sou mesmo um idiota, Jolu, você é a pessoa mais qualificada que eu conheço para fazer isso. Eu peço perdão, realmente...”
“Tudo bem, tudo bem. Pare. Tá legal! Eu acredito em você. Nós já nos entendemos. E sim, é claro que vou te ajudar. Nós podemos até te pagar... eu tenho um orçamento pra contratar programadores.”
“Sério? Ninguém nunca me pagou para escrever código.”
“Sério. Você é bom o bastante para isso.” Ele riu e me acertou no ombro. Jolu era um cara fácil de se lidar a maioria do tempo.

Paguei pelos cafés e saímos dali.  Liguei para meus pais para que soubessem o que estava fazendo. A mãe de Jolu insistiu em nos fazer sanduíches. Nos fechamos em seu quarto com seu computador e o código da indienet e embarcamos numa maratona  de programação. Quando sua família foi se deitar as 23:30h, pudemos seqüestrar a maquina de café para seu quarto e mandamos ver no nosso suprimento de grãos mágicos de café.

Se você nunca programou um computador, você deveria. Não há nada como isso em todo o mundo. Quando você está programando um computador, ele faz exatamente aquilo que você disse que ele devia fazer. É como projetar uma máquina - qualquer máquina, um carro, uma torneira, uma dobradiça pneumática para portas - usando matemática e instruções. É maravilhoso no sentido mais verdadeiro: pode te levar às alturas.

Um computador é a máquina mais complexa que você irá usar. Ela é feita de bilhões de transistores micro-miniaturizados que pode ser configurado para executar qualquer programa que você  imaginar. Mas quando você se senta em frente ao teclado e escreve uma linha de código, estes transistores vão fazer aquilo que você disser para fazer.

A maioria de nós nunca construiu um carro. Nem criou um sistema de aviação. Desenhou um prédio. Governou uma cidade.  Essas coisas são complicadas, estão além dos limites de pessoas como eu ou você.
Mas um computador é tipo, dez vezes mais complexo que tudo isso, e ele irá dançar conforme a música que você tocar. Você aprende a escrever um código simples em uma tarde. Comece com uma linguagem como Python, que foi feita para que não-programadores possam com facilidade fazer a máquina dançar conforme sua música. Mesmo se for codificar por apenas um dia, uma tarde, você deve fazê-lo. Os computadores podem te controlar ou tornar o seu trabalho mais simples - se você quiser estar no controle de suas máquinas, deve aprender a codificar.

Escrevemos um monte de código naquela noite.



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