sábado, 19 de dezembro de 2009

Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 8


CAPÍTULO 8
Este capítulo é dedicado a Borders, a gigantesca vendedora de livros global que você pode encontrar em toda parte do mundo. Eu nunca esquecerei de ter entrado na gigantesca Borders de Orchard Road em Singapura e descobrir uma prateleira cheia com meus livros. Por anos a Borders em Oxford Street em Londres teve noites de leituras mensais de ficção científica, organizadas por Pat Cadigan, onde autores visitantes liam seus trabalhos, conversavam sobre ficção cientifica e encontravam os fãs. Quando estou numa cidade desconhecida (o que acontece muito) e preciso de um bom livro para o vôo seguinte, parece que sempre encontro uma Borders com ótimas seleções - em particular a Borders da Union Square em São Francisco.
Borders ao redor do mundo


Eu não fui o único a me ferrar com os histogramas. Um monte de gente tem padrões anormais de tráfego. Anormal é tão comum que é praticamente normal.
A Xnet estava cheia de histórias assim e agora chegava a vez dos jornais e dos noticiários de TV. Maridos eram flagrados traindo esposas, esposas flagradas traindo maridos, garotos eram pegos com a namorada ou o namorado alheio. Um garoto que não tinha contado aos pais que tinha AIDS foi flagrado indo para a clínica para pegar seus remédios.

Eram pessoas com algo às escondidas - não eram pessoas culpadas, mas pessoas com segredos. E havia ainda mais pessoas sem nada a esconder, mas que  se ressentiam em ser bisbilhotadas e questionaram também. Imagine se alguém te coloca no banco de trás de um carro e peça que você prove que não é um terrorista.

Não era somente o sistema público de trânsito. A maioria dos motoristas na área da baía tinha um passe rápido preso ao para sol dos carros. Era um pequeno passe que se encarregava de pagar o pedágio por sinal de rádio ao atravessar a ponte, evitando assim que você tivesse que ficar numa fila por horas. Atravessar a ponte pagando em dinheiro era o triplo do preço (acho que eles mentiam a respeito disso, dizendo que o passe rápido era mais barato, não que utilizar dinheiro anônimo era mais caro). Ainda assim, uma vez que depois as cabines de espera desapareceram, as pistas para quem pagava em dinheiro foram reduzidas a somente uma por ponte, então as filas de pagantes em dinheiro ficaram ainda maiores.

Se você é de São Francisco ou se você está dirigindo um carro alugado de uma agência local, você tem um passe rápido. Sem contar que os passes rápidos não são somente ‘lidos’ nas pontes. O DHS tinha posto leitores por toda a cidade - quando você passa dirigindo por um deles, eles gravam a hora e o número do passe, construindo assim uma imagem perfeita de quem foi para onde e quando, num banco de dados que era  acrescido das câmeras de velocidade, câmeras nos sinais e todas as câmeras que registravam a placa do carro e que pululavam como cogumelos.

Ninguém tinha dado muita bola para isso na época. E agora o povo começava a prestar atenção, todos começaram a perceber pequenas coisas, como o fato do passe rápido não ter um botão de desliga.
Então quando você dirige um carro, voe pode ser encostado por um carro da polícia de São Francisco querendo saber por que voe está fazendo tantas idas ao Home Depot (loja de produtos para casa) ultimamente e o que você foi fazer à meia noite em Sonoma na semana passada.

Pequenas demonstrações de descontentamento começaram a crescer pela cidade nos finais de semana.
Cinqüenta mil pessoas marcharam pela Market Street depois de uma semana deste monitoramento. Aqueles que tinham ocupado minha cidade não se importavam com o que as pessoas daqui queriam. Eram um exército de ocupação. Eles sabiam como nos sentíamos a respeito.
Uma manhã eu tomava café da manhã a tempo de ouvir meu pai dizer para minha mãe que as duas maiores companhias de táxi locais iriam passar a dar desconto para quem escolhesse pagar a corrida com cartões especiais, o que supostamente serviria para deixar os motoristas mais seguros por causa da quantidade de dinheiro que tinham que carregar. Eu pensava o que aconteceria com a informação sobre quem levou qual táxi para onde.

Percebi o quão perto eu estava. A nova indienet tinha colocado sua atualização automática assim que as coisas começaram a ficar pretas e Jolu me contou que 80% do tráfego que passava agora pela Porco Melancólico era agora criptografada. A Xnet estava salva.
Contudo, papai estava me levando à loucura.
“Você está sendo paranóico, Marcus” ele me disse um dia no café da manhã quando eu falei sobre uns caras que os tiras pegaram na BART no dia anterior.
“Pai, isso é ridículo. Eles não estão capturando terroristas, estão? Só estão deixando as pessoas assustadas.”
“Podem não ter capturado nenhum até agora, mas tiraram vários vigaristas das ruas. Olhe, por exemplo, os traficantes - foram tirados dezenas das ruas desde que tudo começou. Lembra quando uns drogados te roubaram? Se a gente não se encarrega dos traficantes a coisa só fica pior.”  Eu havia sido roubado no ano passado. Eles tinham sido bastante civilizados. Um careca fedido me disse que tinha uma arma com ele, o outro me pediu a carteira. Me deixaram tirar a identidade, mas levaram meu cartão de crédito e o passe rápido. Isso me deixou confuso e paranóico e olhando por sobre o ombro durante semanas.
“Mas a maioria das pessoas que eles detêm não está fazendo nada errado, Pai!” Eu disse. Isso me deixava fora de mim. Meu próprio pai! “É loucura! Para cada culpado eles punem milhares de inocentes. Isso não esta certo.”
“Inocentes? Sujeitos que traem as esposas? Vendedores de drogas? Você está defendendo essa gente, mas e quanto aqueles que morreram? Se você não tem nada a esconder...”
“Então você não se importaria de ser detido?” Os histogramas de meu pai deviam ser depressivamente normais.
“Eu consideraria isso meu dever.” Ele disse. “Teria orgulho. Faria com que me sentisse mais seguro.”
Era fácil para ele dizer.

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Vanessa não gostava que eu falasse da coisa, mas ela era esperta o bastante para ficar longe do assunto por tanto tempo. Nós estávamos juntos o tempo todo e ficar falando sobre o tempo ou da escola e coisas assim, de alguma forma, me levaria de volta a este assunto. Vanessa estava bem quando isso aconteceu - ela não se HULKanizou de novo - mas dava para ver que isso a aborrecia.
Ainda.
Ainda.
“Então meu pai falou que considerava um dever. Pode acreditar nisso? Quer dizer, Deus! Eu quase tinha contado sobre ter sido preso, será que ele pensaria que era nosso ‘dever’?”
Estávamos sentados na grama do parque Dolores após a escola, vendo os cães perseguindo frisbees.

Van tinha parado em casa e se trocado, colocado uma camisa velha de sua banda tecno-brega brasileira predileta “Carioca Proibidão” - o cara proibido do Rio. Ela conseguira a camisa em um show que fomos dois anos atrás, procurando por diversão lá no Cow Palace e ela tinha crescido alguns centímetros desde então e a camisa esta apertada e deixava de fora seu pequeno umbigo chato.

Ela olhou para o sol fraco e fechou os olhos por trás das lentes dos óculos escuros, os dedos dos pés se mexendo nas sandálias de dedo. Eu conhecia Van desde sempre, e quando pensava nela eu normalmente me pegava pensando na criança que conheci chacoalhando centenas de braceletes feitos com tampinhas de latas de refrigerante, uma menina que tocava piano e não poderia dançar mesmo para salvar sua vida. Sentado no parque Dolores eu de repente a vi como ela era.
Ela era totalmente h4wt - quer dizer, excitante. Era como olhar para a pintura de um vaso e perceber que tinha também duas faces. Eu podia ver que Van era só Van, mas podia ver também que ela era muito linda, algo que nunca tinha reparado.

É claro que Darryl já tinha reparado isso faz tempo, e não pense que não fiquei incomodado com isso.
“Você não pode contar para o seu pai, você sabe. Você nos colocaria em risco.” Seus olhos estavam fechados e seu peito subia e descia com sua respiração, o que me distraiu da forma mais embaraçosa.
“Sim.” Eu, disse mal humorado. “Mas o problema é que eu sei que ele está cheio disso tudo. Se você levar meu pai ao ponto dele ter que provar que não é um molestador de crianças ou um traficante, ele ficará furioso. Totalmente fora dos trilhos. Ele odeia ser colocado em espera quando ele liga para alguém sobre a conta de seu cartão de crédito. Ser trancado no banco de trás de um carro e questionado por uma hora faria com que ele tivesse um aneurisma.”
“Ele somente está agindo assim por que as pessoas normais se sentem superiores àquelas anormais. Se todo mundo for detido, será um desastre. Ninguém vai mais sair para parte alguma, esperando que todos sejam questionados pelos tiras. Vai parar tudo.”
UAU!
“Van, você é genial!” eu disse.
“Me diga porquê.” ela disse com um sorriso malandro e me deu um olhar com os olhos semi-fechados, quase romântico.
“Sério. Nós podemos fazer isso. Podemos facilmente bagunçar com os perfis.”
Ela se sentou, tirou o cabelo do rosto e olhou para mim. Senti algo em meu estômago, ao pensar que ela era estivesse realmente interessada em mim.
“Arphids clonados!” falei. “São fáceis de fazer. Basta gravar o firmware num leitor/gravador de dez dólares da Radio Shack e pronto. O que precisamos fazer é sair por aí prendendo aleatoriamente estas etiquetas nas pessoas, sobrecarregando os leitores de passes com o código de outras pessoas. Isso fará com que todo mundo se torne anormal e pareça culpado. Uma parada geral!”

Van apertou os lábios e baixou os óculos escuros; vi que estava brava, tão brava que não conseguia falar.
“Adeus, Marcus.” Ela disse, ficando de pé. E antes que eu me desse conta, ela já ia longe, tão rápido que praticamente corria.
“Van!” gritei, ficando de pé e indo atrás dela. “Van! Espere!”
Ela apressou o passo me fazendo ter que correr para alcançá-la.
“Van, que diabo!” Segurei seu braço. Ela se desvencilhou tão violentamente que acertei meu rosto.
“Você é um psicopata, Marcus. Você vai colocar todos seus amiguinhos de Xnet em perigo e para completar vai colocar a todos como suspeitos de terrorismo. Não pode parar antes de machucar estas pessoas?”
Eu abri e fechei a boca algumas vezes. “Van, eu não sou o problema, eles sim. Não estou prendendo gente, colocando-as em celas, fazendo-as desaparecer. O DHS é que está fazendo isso. Eu estou lutando para que eles parem.”
“Como, fazendo algo ainda pior?”
“Talvez tenha que piorar antes de melhorar, Van. Não é isso que está dizendo? Se todo mundo for detido...”
“Não é o que eu quis dizer. Não significa que todos precisam ser presos. Se quer protestar, junte-se ao movimento de protesto. Faça algo positivo. Não aprendeu nada com Darryl? Nada?”
“Você está certa pra cacete!” falei, perdendo o humor. “Eu aprendi que não posso confiar neles. Que se você não está os combatendo, então está ajudando. Que eles transformarão o país numa prisão se você deixar. O que você aprendeu, Van? A sentir medo o tempo todo, a sentar e ficar de cabeça baixa e esperar não ser notada? Acha que as coisas vão melhorar? Se não fizermos nada, mereceremos o que temos. Só vai ficar pior e pior a partir de agora. Quer ajudar Darryl? Me ajude então a acabar com eles!”

Meu juramento. Não libertar Darryl, mas derrotar a DHS inteira. Isso era loucura, eu sabia. Mas era o que eu planejei fazer. Sem questionar.
Van me empurrou com as duas mãos. Ela ficara forte de tanta atividade atlética na escola - esgrima, lacrasse, hockey de campo, todos os esportes de garotas - e eu terminei com o traseiro na repulsiva calçada de São Francisco. Ela se foi e eu não a segui.

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>A coisa mais importante sobre sistemas de segurança não é como eles funcionam, mas como eles falham.
Esta foi a primeira frase de meu primeiro blog postado no Revolta Aberta, meu site da Xnet. Escrevia como M1k3y e estava pronto para a guerra.
>Talvez toda esta classificação automática supostamente possa agarrar terroristas. Talvez consiga um, cedo ou tarde. O problema é sermos detidos também, mesmo se não fizermos nada de errado.
 > Quanto mais pessoas, mais sensível isso fica. Se isso capturar pessoas demais então vai acabar.
>Pegou a idéia?

Coloquei meu COMOFAZER sobre como construir um clone de arphid e algumas dicas o bastante para as pessoas lerem e aprenderem como fazer suas etiquetas. Eu pus o meu clonador dentro do bolso da minha jaqueta para motocross, de couro e fui para a escola. De casa até a Chávez eu iria clonar pelo menos seis etiquetas.
Se era guerra que eles queriam, era guerra que iriam ter.

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Se algum dia você se decidir a fazer algo tão estúpido quanto construir um detector automático de terroristas, aqui vai uma aula de matemática que você precisa ter antes. É chamada “o paradoxo do falso positivo” e é bizarro!
Digamos que voe tenha uma nova doença, chamada super-aids. Apenas um em um milhão a tem. Você desenvolve um teste para a super-aids que tem precisão de 33%. Ou seja, 99% das vezes ela dá o resultado correto - verdadeiro se infectado e falso se saudável. Você aplica o teste em um milhão de pessoas. Um em um milhão tem a super-aids. Um em uma centena testada irá gerar um ‘falso positivo’ - o teste dirá que tem a doença mesmo que não a tenha. Porque o teste tem 99% de precisão, ou seja, 1% de erro.
Quanto é um 1% de 1 milhão?
1.000.000 / 100 = 10.000
Um em um milhão tem a doença. Se você testar aleatoriamente, você vai encontrar apenas um caso de super-aids verdadeira. Mas seu teste não identificará esta pessoa, ele identificará 10.000 pessoas.
Seu teste de 99% de precisão irá gerar 99,99% de imprecisão.
Este é o paradoxo do falso positivo. Quando você tenta encontrar algo realmente raro, a precisão de seu teste deve bater com a raridade do que está procurando. Se você tentar apontar um único pixel da sua TV, usando a ponta fina de um lápis, a ponta é bem menor (mais precisa) do que um pixel. Mas o lápis não é bom o bastante para apontar um único átomo da tela. Para isso, você precisa de um indicador - do tamanho de um átomo ou menor.
Este é o paradoxo do falso positivo, e assim é que o aplicamos ao terrorismo.
Terroristas são raros. Numa cidade de 20 milhões de pessoas como Nova Iorque, talvez existam um ou dois. Quem sabe dez deles.
10 / 20.000.000 = 0.00005%
Isso é bem raro mesmo. Agora, digamos que com um programa você possa filtrar através de todos os registros bancários ou registros de pedágio ou registros do trânsito público ou chamadas telefônicas da cidade e encontrar terroristas 99% das vezes.

Em 20 milhões de pessoas, uma precisão de 99% irá identificar duzentos mil como terroristas. Mas apenas 10 serão terroristas de verdade. Para pegar 10 caras do mal, você terá que deter e investigar 200 mil pessoas inocentes.
Advinha? Testes para identificar terroristas não chegam sequer perto de 99% de precisão. Mais ou menos uns 60%, até 40% algumas vezes.
Isso tudo significa que o DHS vai errar feio. Estão tentando indicar eventos raros - que uma pessoa é um terrorista - com um sistema impreciso.
É de se admirar que possamos fazer tal bagunça?

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Sai de casa assoviando numa manhã de terça feira, uma semana após colocar em prática a Operação Falso Positivo. Eu estava ouvindo algumas músicas novas que tinha baixado da Xnet na noite anterior - muita gente tinha enviado para M1k3y pequenos presentinhos digitais para agradecer por lhes dar esperança.

Virei na rua 23 e cuidadosamente peguei o caminho estreito de degraus de pedra que subia a colina. Quando descia, passei por Mr.Salsicha. Não conhecia o nome verdadeiro de Mr.Salsicha , mas eu o via todos os dias andando com seus três daschound, das escadas até o pequeno estacionamento. Era difícil passar por eles devido à estreiteza e eu sempre acabava levando a pior.

Mr.Salsicha era claramente alguém importante. Tinha um relógio caro e sempre se vestia bem. Eu achava que ele devia trabalhar lá no distrito financeiro.
Desta vez quando passei me espremendo por eles, eu disparei meu clonador de arphids e que já estava pronto no bolso da jaqueta de couro. O clonador puxou os números de seus cartões de crédito, das chaves de seu carro, do passaporte e os cem dólares em sua carteira.
Enquanto ia fazendo aquilo, ia também gravando novos números para eles, tirados de outras pessoas de quem me aproximei antes. Era como trocar as placas de vários carros, mas de forma invisível e instantânea. Sorri como se me desculpasse para Mr.Salsicha e continuei descendo as escadas. Parei junto de uns carros, o bastante para puxar as etiquetas de passe rápido com números identificadores tirados de outros carros do dia anterior.

Você pode pensar que eu estava sendo um pouco sacana, mas era conservador se comparado com muitos dos Xneters. Algumas garotas do programa de engenharia química da universidade de Berkeley tinham bolado um jeito de fazer uma substância inofensiva a partir de produtos de cozinha que faria disparar qualquer detector de explosivos. Elas tinham se divertido espalhando este liquido nas pastas e nos casacos dos professores, e se escondiam e para observar estes professores tentando entrar em auditórios e bibliotecas do campus e serem apanhados pelos novos esquadrões de segurança que brotavam por toda parte.

Outros queriam saber como fazer envelopes que dariam positivo em testes de anthrax, mas todo mundo achou que estavam ficando loucos. Felizmente, parece que não foram capazes de saber como.

Passei pelo hospital Geral de São Francisco e fiquei satisfeito ao ver as enormes filas nas portas da frente. Eles tinham um posto de checagem policial também, é claro, e havia muitos Xnetters trabalhando como internos e na cafeteria do hospital e por que não confundir e bagunçar os crachás eletrônicos? Eu tinha lido que as checagens de segurança levavam uma hora do dia de trabalho de todos e os sindicalistas estavam ameaçando ir embora a menos que o hospital fizesse algo a respeito.

Alguns quarteirões depois, vi uma fila ainda maior no BART. Tiras andavam para cima e para baixo da fila apontando para pessoas e os retirando dela para verificar bolsas e pastas. Eles continuavam a ser processados por este procedimento, mas não parecia que isso os faria desistir.
Cheguei à escola um pouco antes do horário e decidi descer a rua 22 e pegar um café - passei por um posto de checagem da polícia onde eles estavam mandando carros encostarem para inspeção secundária.

Na escola as coisas não estavam menos confusas - guardas da segurança estavam passando detectores de metal em nossas identificações escolares e parando estudantes com movimentos suspeitos para averiguação. Não é preciso dizer que todos nós tínhamos movimentos bem esquisitos. Não é necessário dizer que as aulas estavam começando com uma hora de atraso ou mais.
As turmas estavam enlouquecidas. Acho que ninguém conseguia se concentrar. Ouvi por alto dois professores falando sobre quanto demoraram para chegar em casa do trabalho o dia anterior e planejavam sair mais cedo naquele dia.

Tudo que eu fazia era rir. O paradoxo do falso positivo atacava de novo!
É claro que deixavam a gente sair mais cedo e eu segui para casa pelo caminho mais longo, pela Missão, para ver o caos. Longas filas de carros. As estações BART com filas dobrando as esquinas. Pessoas amaldiçoando os caixas eletrônicos porque não conseguiam sacar seu dinheiro: suas contas estavam congeladas por atividade suspeita (este é o perigo de deixar que os pagamentos dos passes livres fossem realizados direto nas contas bancárias.)

Fui para casa e fiz um sanduíche e me loguei à Xnet. Tinha sido um bom dia. Pessoas de todas as partes da cidade estavam comemorando seus sucessos. Tínhamos paralisado a cidade de São Francisco. Os noticiários confirmavam isso - diziam que a DHS tinha perdido o controle, punindo indiscriminadamente a todos com uma segurança de merda que supostamente deveria estar nos protegendo do terrorismo. A seção de negócios do São Francisco Chronicle dera na primeira página o custo econômico estimado, devido à segurança da DHS, por conta das horas perdidas de trabalho, reuniões, e por aí vai. De acordo com o economista do Chronicles, uma semana de confusão como aquela, custara à cidade mais do que a explosão da Bay Bridge.
Uha-há-há.
A melhor parte foi que papai só chegou em casa bem tarde. Tarde mesmo, umas três horas de atraso. Por quê? Por que ele foi parado e vasculhado e averiguado. Por duas vezes.
Duas!


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