terça-feira, 31 de março de 2009

A Filha do Fabricante de Fogos de Artifício - Philip Pullman

CAPÍTULO UM

Quinze mil quilômetros atrás, em um país a leste da selva e ao sul das montanhas, viviam um Fabricante de Fogos de Artifício chamado Lalchand e sua filha Lila.

A mulher de Lalchand morrera quando Lila era pequena. A menina era um toquinho de gente mal-humorado, sempre chorando e fazendo birra para comer, até que Lalchand construiu um berço para ela e o pôs num canto da oficina, de onde ela podia ver as fagulhas brincando e ouvir os silvos e os estalidos da pólvora.

Assim que saiu do berço, ela ensaiou seus primeiros passos pela oficina, rindo quando o fogo brilhava e as fagulhas dançavam. Muitas vezes queimava os dedinhos, mas Lalchand borrifava-lhes água e dava um beijinho no dodói, e logo Lila estava brincando de novo.


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Arthur e a guerra dos dois mundos - Luc Besson


M., o Maldito, sempre maquiavélico, aproveitou a abertura do raio da Lua para crescer e passar para o mundo dos humanos. Todos temem o pior, pois essa criatura abominável agora mede mais de dois metros de altura e está decidida a conquistar novas terras.

Diante de uma ameaça tão terrível, Arthur e seus amigos usarão todas as artimanhas, aproveitarão todas as situações mais inesperadas, enfim, farão de tudo para estragar o assustador plano de Maltazard.

Mas será que vale a pena lutar contra um monstro gigantesco quando se mede apenas dois milímetros de altura?



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segunda-feira, 30 de março de 2009

Scroogled - Cory Doctorow



"Quer falar o que aconteceu em junho de 1998?"

Greg olhou para ele e disse. "Como?"

"Você colocou uma mensagem em alt.burningman3 em 17 de junho de 1998, sobre os seus planos para ir a um festival. Você perguntou 'São os alucinógenos assim tão nocivos?'"

O interrogador na sala de controle era um homem mais velho, tão magro que de frente parecia estar de lado. E de lado parecia ter ido embora. As suas perguntas iam muito além da curiosidade de Greg sobre alucinógenos.

"Fale-me sobre seus passatempos. Você gosta de aeromodelismo ou lançamento de réplicas de foguetes em miniatura?"

"O quê?"

"Foguetes em miniatura."

"Não," disse Greg, "Não, não lido com isto." Já imaginando o rumo que a conversa ia tomar.
O homem tomou umas notas e digitou qualquer coisa. "Pergunto isto porque vejo um grande número de anúncios relacionados a combústivel de avião nos resultados de suas pesquisas no Google e também no e-Mail."

Greg sentiu um aperto. "Você está vendo os resultados das pesquisas que fiz? Está acessando meu e-Mail?" Greg não tocava num computador há mais de um mês, mas sabia que o quer que tivesse introduzido naquele campo de pesquisa seria bem mais revelador do que tudo o que já tinha dito ao seu psiquiatra.

"Senhor, tenha calma, por favor. Não estou vendo suas pesquisas e nem acessando seu e-Mail”, disse o homem com seriedade. "Isto seria violação de privacidade e é anticonstitucional. Nós apenas vemos os anúncios que aparecem quando você lê seu e- Mail e faz pesquisas no Google. Tenho aqui um folheto da companhia que explica tudo. Poderá lê-lo quando terminarmos."

“Mas os anúncios não significam nada”, contestou Greg. “Eu recebo anúncios de termas toda vez que recebo por e-Mail notícias de uma amiga em meu celular. Ela fala muito de uma cadela que cuida desde filhote!”

O homem acenou em concordância. "Entendo. E é exatamente por isso que estou falando contigo. Porque acha que estes anúncios sobre combústivel de aviação aparecem tão frequentemente?"

Greg pôs os neurônios para funcionar. "Faça isto. Procure por clube do café". Ele era um membro bastante ativo do clube, ajudando-os a lançar o site e o serviço café-do-mês. A mistura que iam lançar chamava-se Jet Fuel4. "Jet Fuel" e "lançamento" – isso faria com que o Google enchesse a página com anúncios de combústivel para motores a jato e aviação.

Já estavam na reta final da entrevista quando o funcionário encontrou as fotos do Halloween. Estavam na terceira página dos resultados da busca por "Greg Lupinski".

"Era uma festa com o tema Guerra do Golfo," disse ele.

"E você está vestido de...?"

"Homem bomba", respondeu meio constrangido.
Dizer aquelas palavras era bastante comprometedor àquela altura do campeonato.

"Venha comigo, Sr. Lupinski," disse o agente.


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Site Craphound.com

Beautiful Robot Characters Illustration







Naldz Graphics

domingo, 29 de março de 2009

SF and Technology as Mystification - Joanna Russ

Talk about technology, long familiar to science-fiction readers and writers, is getting popular in Academia too.

Particularly interesting to humanists is the connection between technology and whatever their own particular subject happens to be; I've attended three such formal symposia in the last five years, six including SF conventions, and including informal discussions among students, in writing classes, SF classes, and elsewhere, somewhere between fifty and sixty.

Consider, for example, Star Wars. I was dragged to see this film past a bookstore displaying the sword-and-sorcery novel a friend of mine has rather unkindly nicknamed The Sword of Sha Na Na. What is important about coupling these two in one sentence (and one event) is not that the film is as bad as the book, but that both are bad in exactly the same way.

This is not to say that neither is without some interesting or seductive elements.
For no addictive stimulus is simply bad or dull; if it were, nobody would want it at all.
What such artifacts do is follow the formula for physiological addiction in the psychic, cultural realm: they satisfy a need partially, and at the same time they exacerbate it.

Publishers and movie-makers' formulas for a "real hit" are obviously those of an addiction: not just enjoyment or desire but intense craving (lines stretching around the block), not just intense craving but sudden intense craving which must be satisfied at once (opening in sixteen million theatres tomorrow, a theatre near you!), not just sudden intense craving but insatiable craving; thus people see the film many times and — this is a dead-giveaway — a minor industry grows up about the film: buttons, sweatshirts, TV programs about how the film was made, TV programs (possibly) about how the first TV programs about the film were made, and so on.

These are what the trade calls "spin-offs."

Please note that addictive culture is not identical with what we like to call "escapist culture."

Perhaps there is no way of escaping in art from one's society, as any social product will of necessity embody the society's values and pressures, and the less these values or pressures are confronted and examined in the work, the more in force they will be. Thus Star Wars — which is being sold to the public as "fun" — is in fact racist, grossly sexist, not apolitical in the least but authoritarian and morally imbecile, all of this both denied and enforced by the opportunism of camp (which the youngsters in the audience cannot spot, by the way) and spiced up by technical wonders and marvels, some of which are interesting, many of which are old hat to those used to science fiction. Addictive culture, to succeed, can't be all bad. (Perhaps somebody, some time, will cotton to the fact that the most interesting film form for SF is the travelogue — although even travelogues cannot be made without moral and political assumptions.)


SF and Technology as Mystification - Joanna Russ [ Download ]

Joanna Russ


Joanna Russ (22 de Fevereiro de 1937), escritora e feminista, nascida em Nova Iorque (EUA), formada na universidade de Yales (Artes), é autora de inúmeros trabalhos de Ficção Científica (FC), incluindo o aclamado 'Female Man', considerado para muitos, não somente um dos romances mais impactantes da FC mundial, como um marco da literatura feminista. Neste livro, Russ examina e teoriza sobre como diferentes sociedades são capazes de produzir versões diferentes da mesma pessoa.
Joanna Russ começou a ganhar notoriedade no início da década de 70, em uma área predominantemente masculina, tanto de autores quanto leitores, logo chamou a atenção pela sua abordagem dferenciada de temas conhecidos.
Russ também escreveu livros de terror, além de se destacar como ensaísta e por vários anos dedicou-se a dar palestras e divulgar seu trabalho não-ficcional, como a coleção de ensaios
Magic Mommas, Trembling Sisters, Puritans & Perverts e seu estudo sobre o feminismo moderno What Are We Fighting For?
Ganhou os Prêmios Hugo('Souls', 1983), Nebula('When it changed', 72), Locus, James Tiptree Jr e SF Chronicle Award. Até bem pouco tempo atrás, lecionava na faculdade de Washington, em Seattle.

Coleção Joanna Russ (Como Dorothy mantuvo alejada la primavera, Poor Man Beggar Man, Picnic En Paraiso, La muerte del caos, The extraordinary voyages of Amelie Bertrand, Second Inquisituin, Almas(Souls), Female Man) [ Download ]

sábado, 28 de março de 2009

Frases úteis para turistas - Joanna Russ


Locrinia: Península e arredores - Lokrina D.C. - X 437894 = H
Bastante semelhante com a Terra (ver filmes gravados e transliterações).
Para Fisiologia, ecologia, religião e costumes, consultar Wu e Fabricant, Locrinia, Informações úteis para turistas, Praga, 2355, Vol. 2.


NO HOTEL

Esta é minha esposa. Não se trata de uma gorjeta.

Vou chamar o gerente.

Este não pode ser meu quarto, pois não posso respirar amoníaco.

Sentirei-me bem com temperaturas que variam entre 20 e 30 graus.

Garçom! Esta comida está viva!


NUMA REUNIÃO

Isso é você?

Isso é você por inteiro?

O quanto (que quantidade) de você (ou vocês) se encontra aqui?

Prazer em conhecer seu clone.

Você é venenoso?

Você é comestível?

Eu não sou comestível.

Humanos não se regeneram.

Minha esposa não é comestível.

Isto é minha orelha.

Sou venenoso.

É assim que vocês copulam?

Suponho que isso deva ser erótico?

Muito obrigado.

Explique-se, por favor.

Você troca de cor?

Vou embora desta sala.

Não podemos ser apenas amigos?

Levem-me imediatamente ao Consulado Terrestre.

Sinto-me muito lisonjeado com o convite, porém não posso acompanhá-lo ao campo de
procriação, pois sou vivíparo.

Segundo as regras de amizade interestelar quanto precisarmos ter alguma relação física, devo pedir que não o faça.


NO HOSPITAL

Não.

Meu orifício de alimentação não se encontra no extremo do meu corpo.

Prefiro fazer isso sozinho.

Por favor, não deixe escapar a atmosfera, eu ficaria bastante desconfortável.

Não me alimento de chumbo.

Se colocar o termômetro ai, não vai conseguir minha temperatura.


EM EXCURSÕES

Você não é meu guia. Meu guia é bípede.

Nós da Terra não fazemos isso.

Não posso demonstrar isso.

Isso é impossível.

Isso é ridículo.

Já vi exemplares melhores que este.

Por favor, me leve ao mamífero inteligente mais próximo.

Leve-me imediatamente ao Consulado Terrestre.

Oh, que magnífica piscina (curral de procriação).

A que horas a princesa é atirada no vulcão em erupção?

Podemos participar?



NO TEATRO

Vocês acham isso divertido?

Sinto muito, não queria ofendê-lo.

Você pode se deformar um pouquinho mais?

Estou imaginando isso?

Preciso me preocupar com esta água ao chão?

Onde está a saída?

Socorro!

É uma obra de arte!

Minhas convicções religiosas me impedem de tomar parte no espetáculo.

Não me sinto bem.

Sinto-me muito sujo.

Não me alimento de comida viva.

Vocês acham isso erótico?

Posso levar para casa?

Isso é parte do espetáculo?

Pare de me tocar.

Senhor, ou senhora, isso é meu (extrínseco).

Senhor, ou senhora, isso é meu (intrínseco).

Quero visitar as unidades de recuperação de lixo.

Você terminou?

Posso começar?

Você está no meu caminho.

Sob nenhuma circunstância.

Se não parar de fazer isso chamarei o responsável.

Isso é proibido na minha religião.

Senhor ou senhora, este é um local privado.

Senhor e senhora, este é um lugar privado.

Não foi minha intenção sentar-me em você. Não percebi que este assento estava ocupado.

Meus olhos são sensíveis a luz somente entre 3.000 e 7.000 Angstroms.


CUMPRIMENTOS

Você está maior do que antes.

Seu cabelo é falso.

Se descobrir os pés eu desmaio com certeza.

Não tem lugar.

Asseguro que você estará aqui amanhã.


INSULTOS

Você é sempre o mesmo.

Vocês são cada vez mais.

Você vê seus dedos.

Como você está limpo!

Você é limpo, mas apesar disso é alegre.


GENERALIDADES

Leve-me ao Consulado Terrestre.

Carregue-me ao Consulado Terrestre.

O Consulado Terrestre ficará sabendo disso.

Isso não são modos de tratar um visitante.

Por favor, me indique para onde foi meu hotel.

Meu veiculo não está passando bem.

Estou morrendo.

A que horas aparece a lua?

Vocês têm uma lua?

Essa é a lua cheia?

Leve-me imediatamente ao Consulado Terrestre.

Pode me dar o segundo volume de Wu w Fabricant, chamado Fisiologia, ecologia, religião e costumes dos locrinos?

Pago qualquer preço.


Useful Phrases For The Tourist (1995) - Joanna Russ

sexta-feira, 27 de março de 2009

A literatura de ficção científica questiona a ciência e sua ética


No século XIX, o desenvolvimento material resultante da aplicação de descobertas científicas a diversas instâncias da vida humana trouxe consigo inúm eras novidades e expectativas. O avanço tecnológico fazia com que m uitas previsões futuristas, que se acumulavam desde o renascimento, passassem a fazer parte do quotidiano das grandes cidades. (Booker, 1994). É, portanto, natural que esta época tenha testemunhado o nascimento do gênero literário que ficou mais tarde conhecido como ficção científica (FC). Afinal, como definiu Isaac Asimov, a FC é “ o ramo da literatura que trata das respostas do homem às mudanças ocorridas ao nível da ciência e da tecnologia” (Asimov, 1984, p. 46)

Até bem pouco tempo, a FC era vista freqüentemente como uma literatura de segunda categoria, provedora de diversão barata e escapista. Nos anos 70 surgiram os primeiros estudos que a reabilitavam, como o de Scholes, que defendendo a literatura cujo imaginário se projeta no futuro, afirma que ela é extr emamente relevante não só quando aler ta sobre a conseqüência de ações ainda não realizadas, mas quando “nos faz sentir essas conseqüências, em nossos corações e nossas vísceras” (Scholes, 1975, p.16). O olhar positivo sobre esse gênero literário tem perdurado e, bem mais recentemente, Moylan argumenta que “o famoso ‘escapismo’ atribuído à ficção científica não implica necessariamente numa fuga da realidade que aliena, mas também pode levar a um “escape que fortalece e que faz refletir, a uma maneira muito diferente de pensar o mundo, e possivelmente de se situar no mundo” (Moylan, 2000,p.5). A pausa para pensar um lugar no mundo envolve o questionamento do papel das instituições na sociedade, entre as quais está a ciência, sendo esse um dos temas mais recorrentes na FC.

Neste ponto, gostaríamos de parar para pensar na imbricação entre a ficção, com esse papel de questionamento, e o campo da divulgação científica, que se expandiu extraordinar iamente, assim como esse gênero literár io que aqui tratamos, a partir do início do século XX.

A literatura de ficção científica questiona a ciência e sua ética em A Lição de Prático, de Maurício Luz, e Oryx e Crake, de Margaret Atwood. Lucia de La Rocque & Claudia Kamel [ Download ]

Espectros da ficção científica – a herança sobrenatural do gótico no cyberpunk


O artigo tem como objeto de análise a Ficção Científica e, mais especificamente o cyberpunk, enquanto gênero herdeiro da tradição do romantismo gótico. Através de uma periodização histórica dos seus subgêneros desde a época clássica até chegar ao cyberpunk nos anos 80, algumas características da ficção gótica permanecem na literatura, no cinema e na própria
cultura contemporânea.

A subjetividade, o indivíduo frente às transformações sociais e tecnológicas, o medo e o horror representado através de fantasmas e/ou máquinas, o corpo humano como experimento sujeito à
violência e outros ressurgem em cada época da FC, como temáticas que continuam presentes
no imaginário pulsional da sociedade tecnológica.


Espectros da ficção científica – a herança sobrenatural do gótico no cyberpunk [ Download ]
Adriana Amaral

quinta-feira, 26 de março de 2009

Informação e Tecno-ciência em textos fílmicos de Ficção Científica


(...São analisados 10 filmes de sci-fi, com um instrumento desenvolvido para dar conta dos
elementos da representação da informação técnica e da informação de conteúdo ficcional e de linguagem especificamente cinematográfica. Da articulação dos indicadores de informação, memória e documento salientamos as representação da informação ficcional, a partir da narrativa de sci-fi, e sua relação com as informações que funcionam como estratégias de remetimento ao contexto de época e produção que sustentam a construção de uma memória de futuro baseada na visão técnico-maquínica do presente das narrativas.)

2001 – Uma Odisséia no Espaço (1968) - Stanley Kubrick
Barbarella (1968) – Roger Vadin
Fahrenheit 451 (1966) – François Truffaut
Gattaca (1997) - Andrew Niccol
Máquina do Tempo (2001) – Simon Wells
Metrópolis (1926) - Firtz Lang
Solaris (1972) - Andrei Tarkovski
Vampiros de almas (1956) - Don Siegel
Viagem à Lua (1902) - Georges Méliès
Vingador do Futuro (1990) - Paul Verhoeven



Informação e Tecno-ciência em textos fílmicos de Ficção Científica: construindo o conceito de memória de futuro em bases informacionais utópicas e distópicas [ Download ]
(Leila Beatriz Ribeiro, Valéria Cristina Lopes Wilke, Carmen Irene C. de Oliveira, André Januário da Silva, Wagner Miquéias Félix Damasceno, Eduardo Menezes de Barros)

De olho no futuro - Ficção Científica na sala de aula



Ingressar no silêncio que era a cidade às oito de uma noite enevoada de novembro, por os pés
na calçada irregular de concreto, evitando pisar nas fendas onde crescia o mato e ir em frente,
mãos nos bolsos, através dos silêncios, era o que o senhor Leonard Mead mais gostava de fazer
(Bradbury, 1979, p. 18).


Em 2053 dC, entretanto, esse é um comportamento anormal, pois todos deveriam estar em casa, assistindo suas TVs, segundo nos conta Ray Bradbury no conto O Pedestre. Leonard Mead vê-se
em apuros quando uma viatura de polícia interpela-o durante um desses passeios.

Em poucas páginas, Bradbury nos insere de forma contundente em questionamentos sobre os caminhos da tecnologia e onde ela pode nos levar. É sobre o futuro que esse conto, escrito em
1951, está falando? Não exatamente.

Poderíamos dizer mais precisamente que está trazendo possíveis tendências futuras colocadas pelas questões do momento histórico em que foi escrito. Segundo Jameson (2005, p. 345),

“a ficção científica é entendida geralmente como a tentativa de imaginar futuros inimagináveis. Mas seu assunto mais profundo pode ser de fato nosso próprio presente histórico”.

A idéia de que a ficção científica (FC) pode ter um papel no ensino de ciências data praticamente da origem moderna do gênero, sendo considerada como veículo de divulgação científica e às vezes como possuindo finalidades educacionais explícitas (Fiker,1985, p. 41).

No ensino formal, o uso da ficção científica vem sendo sugerido por diversos autores, como Dubcek (1990, 1993, 1998), que propõe a utilização de filmes para ilustrar ou apresentar conceitos e fenômenos científicos.

Outros, como Nauman e Shaw (1994), vão além da abordagem de conceitos, propondo a leitura de histórias de ficção científica também para abordar questões sociais envolvendo a ciência e a
tecnologia.


De olho no Futuro: Ficção Científica para debater questões sociopolíticas de Ciência e Tecnologia
em sala de aula ( Luís Paulo Piassi - Maurício Pietrocola) [ Download ]

quarta-feira, 25 de março de 2009

A importância da leitura na vocação técnico-científica


Emília combateu a minha convicção, falou-me dos astrônomos, indivíduos que liam no céu, percebiam tudo quanto há no céu. Não no céu onde moram Deus Nosso Senhor e a Virgem Maria. Esse ninguém tinha visto. Mas o outro, o que fica por baixo, o do Sol, da Lua e das estrelas, os astrônomos conheciam perfeitamente.

Ora, se eles enxergavam coisas tão distantes, por que não conseguiria eu adivinhar a página aberta diante dos meus olhos? Não distinguia as letras? Não sabia reuni-las e formar palavras?

Matutei na lembrança de Emília, Eu, os astrônomos, que doidice! ter as coisas do céu, que havia de supor?

E tomei coragem, fui esconder-me no quintal, com os lobos, o homem, a mulher, os pequenos, a tempestade na floresta, a cabana do lenhador. Reli as folhas já percorridas....

Os astrônomos eram formidáveis. "Eu, pobre de mim, não desvendaria os segredos do céu. Preso à terra, sensibilizar-me-ia com histórias tristes, em que há homens perseguidos, mulheres e crianças abandonadas, escuridão e animais ferozes."


Graciliano Ramos, "Os astrônomos", in Infância , São Paulo, Livraria Martins, 1972.


Leitura é um processo de compreensão de uma mensagem codificada em sinais visuais, em geral letras, cifras e símbolos. É o mais importante e eficiente instrumento capaz de permitir o desenvolvimento e fixação dos conhecimentos culturais, sejam eles científicos ou técnicos. A leitura constitui o mais importante meio de aquisição e transmissão de saberes dos mais diversos setores culturais, desde a cultura artística à científica e tecnológica. As próprias expressões matemáticas são, na realidade, uma mensagem codificada que exige uma leitura.

O aprendizado e a difusão desse processo de compreensão – a leitura – é a principal meta de todo o sistema educativo, que se inicia, de início, na vida familiar e, mais tarde, na escola primária, passando por todos os níveis de ensino para atingir a sua mais completa plenitude na sociedade. Com a informática, a leitura atingiu um grau de extrema sofisticação.

O primeiro contato com a leitura deve-se fazer através dos pais, na intimidade do lar, aos quais cumpre dar acesso às formas gráficas mais simples. Às vezes, o ato da leitura de textos associados à cultura científica pelos pais é um fator fundamental à futura formação voltada para a pesquisa. Ela pode despertar a vocação dos jovens. Falo em leitura pelos pais, antes mesmo que se inicie a alfabetização. Num mundo moderno, onde predomina a televisão, uma atividade dessa natureza pelos pais – lendo textos aos filhos – ou dos responsáveis pelo órgão de comunicação lendo livros, durante uma apresentação televisiva, estimula a curiosidade das crianças que descobrem no livro um meio de “navegação” tão instigante quando a internet .

Todos os pioneiros da astronáutica foram estimulados pela leitura de ficção científica, às vezes lida pelos pais, antes que as crianças tenham sido alfabetizadas, como ocorreu com o físico norte-americano George Gamow. Vejamos a importância da leitura de texto de ficção científica.

A conquista do espaço é um velho sonho da humanidade. Logo que se constatou que os astros eram corpos sólidos, o homem começou a pensar em visitá-los. Entretanto, por falta de meios tecnológicos suficientes, seus planos ficaram limitados aos relatos dos escritores que, influenciados pelo desenvolvimento do início do século XIX, deram origem à literatura de ficção científica. De todos os relatos sobre os meios de conquista do espaço, os mais importantes foram os do escritor francês Jules Verne (1828-1905), que publicou em 1865 o imortal livro: De la Terre à la Lune . Neste livro, os fatos científicos são sensivelmente tão exatos, como o permitiam os conhecimentos da época. Embora tenha sido o escritor francês Achille Eyraud quem primeiro imaginou o emprego de foguetes a reação, como está relatado no seu livro Voyage à Venus , publicado em 1863, foram Jules Verne e, mais tarde, o escritor H. G. Wells os grandes divulgadores das idéias que influenciariam os pioneiros da astronáutica.

O primeiro cientista a compreender a utilidade dos foguetes na Astronáutica e a estudar as bases teóricas de sua utilização foi o cientista russo Konstantin Edwardovitch Tsiolkovski (1857-1935) que assim escreveu sobre Jules Verne: "Durante muito tempo pensei no foguete como todo mundo, considerando-o apenas um meio de diversão, com algumas aplicações pouco importantes na vida corrente. Não me lembro exatamente quando me veio a idéia de fazer os cálculos dos seus movimentos. Provavelmente, os primeiros germes dessa idéia foram fornecidos pelo fantástico Jules Verne e, em conseqüência deste grande autor, meu pensamento orientou-se nesta direção, estimulando o desejo que mais tarde impulsionou o espírito do meu trabalho".

Não foi, entretanto, Tsiolkovski o único a sofrer as influências do escritor francês; o engenheiro norte-americano Robert Hutchings Goddard (1882-1945), pai da moderna tecnologia dos foguetes, em um ensaio autobiográfico escrito em 1927 e publicado em 1959 na revista Astronautics, reconheceu a influência das obras de ciência-ficção, tais como os clássicos de De la Terre à la Lune de Jules Verne e The War of the Worlds de H. G. Wells, com as seguintes palavras: "Eles afetaram maravilhosamente a minha imaginação, incitando-me a pensar sobre os caminhos e meios possíveis à realização dessas maravilhas."

Outro pioneiro que teve o seu interesse pela astronáutica estimulado pelos grandes romancistas da ciência-ficção do século XIX, em especial por Jules Verne, foi o terceiro grande responsável pelas idéias fundamentais da ciência espacial, o engenheiro alemão Hermann Oberth (1894-1989). Assim escreveu Oberth em sua autobiografia: "Tinha onze anos quando recebi de presente de minha mão os célebres livros de Jules Verne, que já li ao menos cinco ou seis vezes, até os saber de memória".

O próprio engenheiro Wernher Von Braun (1912-1977), que dirigiu os primeiros lançamentos de satélites e foguetes norte-americanos, confessou inúmeras vezes que os autores de ficção científica, dentre eles Jules Verne, haviam-no entusiasmado profundamente na juventude.

Tal influência, entretanto, não se fez somente junto àqueles que estabeleceram as bases fundamentais da astronáutica, pois a leitura, de Jules Verne na juventude, iria animar também outros homens de ciência, tais como astrônomos, biólogos, físicos, matemáticos etc.

Assim, o grande físico norte-americano George Gamow que, além de ter sido o responsável pela moderna cosmologia, escreveu também inúmeros livros de divulgação científica, traduzidos em quase todos os idiomas, confessou que desde a idade de sete anos fora fascinado pelas histórias de Jules Verne que sua mãe lia em voz alta.

Livros como os de Jules Verne certamente fizeram e ainda fazem muito mais no sentido de inspirar as vocações de futuros cientistas, do que todos os ensinamentos ministrados nas escolas, pois a dedicação desses jovens nas aulas de Ciências foi, sem dúvida, motivada por aquelas leituras.

Como toda sociedade precisa cultivar a leitura dos textos sobre Ciência, pois ela está intimamente associada à evolução de nossa civilização, é fundamental procurar incentivar o interesse dos jovens pelas ciências o mais cedo possível, através de leituras voltadas para as histórias de antecipação científica, como aliás se pode fazer indiretamente por intermédio de filmes ou histórias em quadrinhos, onde ocorrem relatos de conquista espacial. Isto é o que se vem fazendo nos outros países, como nos EUA, onde se procura desenvolver o caráter criativo da criança desde cedo. Assim também ocorreu com as histórias de Jules Verne, que entusiasmou os pioneiros da Astronáutica.

Finalizando, gostaria de fazer um questionamento: Será que o atraso do poder inventivo dos brasileiros não estará associado à ausência da leitura voltada para a ficção científica?


A importância da leitura na vocação técnico-científica:
o caso especial dos pioneiros da astronáutica
Rogério Mourão

Foi realmente Jules Verne o pai da Ficção Científica?


(...Em geral, as obras de Verne estão carregadas de um grande carácter pedagógico e a sua missão principal é criar um espírito científico tanto no leitor, como no protagonista juvenil da época. Neste sentido, muitas das obras que formam a colecção, entram nesta categoria de obras iniciadoras...)


Foi realmente Jules Verne o pai da Ficção Científica? [ Download ]
Mundo Verne - Set/Outubro 2007

terça-feira, 24 de março de 2009

Before and After Cyber


Introdução: Para uma Genealogia da Cibercultura
Ao averiguar sobre as origens da cibercultura – ou, para ser mais concreto, de todo o conjunto de práticas que se convencionou associar a esse termo –, é tão necessário retraçar a ligação ao aglomerado de ciências e engenharias que permitiram criar infra-estruturas como a Internet (os computadores, a possibilidade de ligá-los em rede, as interfaces gráficas, etc.) quanto a todo um imaginário que, extrapolando se não mesmo especulando1 a partir do pouco que havia sido concretizado na viragem para a segunda metade do século XX, criou toda uma apetência para adoptar (e talvez influenciar) as inovações que entretanto se foram sucedendo.

É certo que muitas dessas inovações ultrapassaram ou se desviaram das previsões mais eufóricas – por exemplo, dificilmente se imaginaria, quando foram criadas as primeiras aplicações de correio electrónico, que não só o seu uso seria tão universal como também que serviria para enviar os mais diversos tipos de documentos.

É certo também que outras aspirações ficaram – até ver – aquém de expectativas então consideradas modestas: a ilustração talvez mais flagrante é o facto de terem passado mais de cinquenta anos sobre as primeiras promessas de inteligência artificial e elas continuarem por cumprir apesar do brutal aumento nas capacidades de computação.

Um outro é o do aproveitamento comercial (e consequente «democratização») da exploração espacial, como no sonho por vezes referido da criação de hotéis em estações espaciais. Mas em todo o caso, não pode ser ignorada a importância desse universo, paralelo ao da realidade concreta mas aparentado das reflexões ensaísticas de autores-cientistas como Alan Turing, Norbert Wiener, Wernher von Braun ou Arthur C. Clarke, que é o da ficção.

Before and After Cyber - Jorge Martins Rosa [ Download ]
Texto realizado no âmbito do Projecto «Tendências da Cultura das Redes em Portugal»

Estética Cyberpunk e semioses subversivas: Prováveis virtualidades reais


A cultura cyberpunk origina-se da ficção científica, tendo como principais autores George Orwell, com “1984”, William Gibson e seu “Neuromancer”, Isaac Azimov com “Eu, robô”, dentre vários outros títulos, Aldous Huxley com “Admirável mundo novo” e Anthony Burgess com “Laranja mecânica”.

Enraizada na literatura, a cultura cyberpunk apresenta atualmente diversos exemplos cinematográficos, dentre os quais pode-se citar os filmes Blade Runner, Terminator, Matrix, Nirvana, Resident Evil, Robocop, Absolon, Aeon Flux, Ghost in the Shell e Serial Experiments Lain.

Também são vários os games relacionados ao Movimento: Splinter Cell, Tron, Resident Evil, Neuromancer, Computer Underground, System Shock, Deux Ex-machina, Blade Runner.

Surgida no contexto tecnourbano da década de 80, a cultura cyberpunk, desdobramento da contracultura norte-americana, tem como mote principal a contestação do sistema capitalista e a apropriação social da tecnologia. A atitude cyberpunk é definida por ideais libertários, pelo uso e domínio das tecnologias digitais e pelo desafio às normas estéticas e culturais.

Os cyberpunks combatem o panopticum eletrônico da tecnocracia e disseminam o lema punk “do it yourself” por meio do compartilhamento de informações, dos softwares de código aberto, como o sistema operacional Linux e de diversas formas de crítica em relação à privatização do ciberespaço. Seus anti-heróis são outsiders que fazem uso das tecnologias digitais para minar a estabilidade de valores que consideram equivocados.

São hackers, crackers, phreakers, cypherpunks, ravers, zippies e otakus, uma diversificada gama de usuários de tecnologias digitais que herdaram da literatura de ficção científica um imaginário composto por ambientes urbanos, caóticos, distópicos, palmilhados por anti-heróis que adentram submundos tecnológicos, uma espécie de marginália digital embebida em ideais punks de contestação ao capitalismo e à sociedade de consumo.

No universo dos cyberpunks, a dissolução de limites é imperativa. Mescla-se o virtual e o real, o orgânico e o inorgânico, e a percepção é marcada pela abertura dos sentidos, exemplificada pela metáfora das drogas alucinógenas e pela experimentação do fantástico, do pensamento mágico e do misticismo como facetas perfeitamente cabíveis ao universo da vida cotidiana.


Estética Cyberpunk e semioses subversivas: Prováveis virtualidades reais [ Download ]
Deborah Lopes Pennachin
Mestre em Comunicação e Sociabilidade Contemporânea pela UFMG e Bacharel em
Jornalismo pela mesma instituição.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Saudades do futuro: o cinema de ficção científica como expressão do imaginário social sobre o devir



A metáfora saudades do futuro apresenta a questão central desta tese: o cinema de ficção científica como expressão do imaginário social sobre o devir, formulado pelos habitantes das grandes metrópoles ocidentais contemporâneas.

As preocupações relativas ao futuro, que acompanham a humanidade desde os seus primórdios, ganharam visibilidade apenas no século XX por meio da linguagem cinematográfica, nos filmes de ficção científica, como resultado dos entrecruzamentos entre desenvolvimento científico e tecnológico, espírito inventivo, ilusionismo e arte.

As metáforas científico-ficcionais das narrativas fílmicas são vistas como testemunhos dos contextos sociais e históricos nos quais são produzidas, e sua análise parte dos elementos internos da narrativa, buscando estabelecer relações com os ambientes nos quais estão
inscritas. O conceito de imaginário social aqui é entendido como a base na qual cada sociedade elabora a imagem de si mesma e do universo em que vive.

A idéia de “passado”, “presente” e “futuro” referencia a experiência da construção social humana na noção de tempo, e o futuro, ou, os futuros, projetam as inquietações que habitam
o imaginário de homens e mulheres quanto às transformações do corpus social do qual fazem parte.

As cidades são personagens centrais nos filmes de ficção científica, porquanto habitadas por massas humanas, devastadas por guerras, cenários de heróis, palcos de lutas e degradação do meio ambiente. A ameaça de instalação de sociedades totalitárias atravessou décadas, tomando a forma de questionamentos quanto às possibilidades de controle do comportamento social por meio da comunicação de massa, do desenvolvimento tecnológico, e do desenvolvimento da ciência biogenética.

Sobre as cidades científicoficcionais pairam sempre as ameaças trazidas pela presença do outro,
seres alienígenas, de origem e natureza estranhos, estrangeiros, predadores, macacos quase humanos violentos e autoritários, máquinas inteligentes que suplantam a humanidade, viajantes no tempo.

O discurso ideológico, que orienta as narrativas científicoficcionais, apropria-se de elementos do universo do imaginário, para justificar seus projetos. No entanto, o imaginário social, situado além
das manipulações ideológicas, preside a produção do “amálgama” das instituições sociais.
Mais que isso, os mecanismos que dão expressão ao imaginário cumprem papel histórico na popularização de questões científicas e tecnológicas.

Nas histórias de ficção científica prevalece o desejo primevo de voltar ao princípio, ao anel de moebius do tempo, ao elo mítico onde o passado remoto e o futuro longínquo se entrelaçam e se
confundem para dar sentido à grande viagem da saga humana.
Por isso: saudades do futuro...


Saudades do futuro: o cinema de ficção científica como expressão do imaginário social sobre
o devir - Alice Fátima Martins (Doutorado em Sociologia - resumo de tese - UnB/2004)

Ficção Científica e Memória da Futuro


(...O texto fílmico necessita ser entendido dentro de um contexto que envolve a produção cinematográfica, seus códigos, e a própria delimitação do que vem a ser um texto...)

(...Nosso campo é constituído por filmes de ficção-científica que nos propiciam narrativas que entendemos como projetivas: lançam questões em outros tempos e espaços. Ou seja, tais questões sustentam a possibilidade de uma memória que se constrói nas expectativas presentes, mas projeta-se para o futuro como uma visão concretizável ou não. A esta memória, denominamos memória de futuro.)


Ficção Científica e Memória da Futuro - representações imagéticas do presente [ Download ]
(Leila Beatriz Ribeiro - Valéria Cristina Lopes Wilke - Carmen Irene C. de Oliveira)

domingo, 22 de março de 2009

Watchmen e Alan Moore


Nas artes sempre encontramos uma série de obras que são representativas de cada área, que transcendem gostos pessoais ou escolhas artísticas. Exemplos como a Gioconda na pintura, a 9°sinfonia na música, Don Quixote na literatura. O cinema tem seu 'Cidadão Kane', porém até bem pouco tempo faltava para os quadrinhos, uma obra que estabelecesse um ponto de referência e de real significância.

Mesmo existindo um punhado de obras fantásticas, como 'Aventuras de Tintin', Little Nemo' ou 'Akira', nunca a crítica mundial teve uma postura unânime sobre um trabalho, que não deixasse dúvidas de sua universalidade e permanência.
Até surgir WATCHMEN, escrito por Alan Moore e desenhos de Dave Gibbons, em 1986, publicado pela editora DC Comics.



A versão dos quadrinhos que chegou finalmente em 2009 aos cinemas, 'corajosamente' pelas mãos do diretor Zack Snyder (responsável por '300'), já foi renegada pelo seu autor. Alan Moore declarou que não gostou, mesmo sem ter visto, e que Watchmen não se presta para o cinema. Seu nome não está nos créditos do filme, mas sim o de Dave Gibbons.
Entrevista com Zack Snyder sobre o filme.



A história:
Em plena Grande Depressão, surgem os primeiros vingadores mascarados, que se intitulam como sendo os 'Minutemen' e durante a década de 30 e 40, se dedicam a perseguir criminosos.

Na década de 50, inicia-se o ocaso dos mascarados, quando o crime se organiza. Os mafiosos usam gravata e se torna um pouco ridículo perseguí-los de capa e máscara.

Em 1959 outro golpe: O nascimento do Doutor Manhattan, primeiro e único super-herói com super-poderes. Os mascarados que se tornaram antiquados, como punhos diante de um panzer, assistem nos anos 60 a crise se instalar.

Uma reunião, presidida pelo Capitão Metrópolis, trata de reconstruir um grupo semelhante ao Minutemen, a fim de combater as novas formas de crime: drogas, motins raciais, subversão estudantil, promiscuidade sexual, etc. Porém tal iniciativa fracassa diante do cinismo do Comediante (único Minutemen ainda ativo). Esta reunião, um dos pontos chave da história, é narrada por diferentes pontos de vista, em diferentes momentos.

No início dos anos 70, a América ganha a guerra do Vietnam graças a decisiva ajuda do Doutor Manhattan. Isto assegura a reeleição de Nixon e ainda um terceiro mandato.

O golpe final contra os mascarados ocorre em 1977, quando é criada a Lei Keene, que os converte em criminosos. Excetuando claro, aqueles que trabalham para o Governo: o Doutor Manhattan, a super-arma definitiva e o Comediante, uma mistura de Oliver North e Rambo, envolvido com todos os golpes na América do Sul, salvador dos refens de Teerã, 'silenciador' de Watergate e provável assassino de Kennedy.

O ano de 1985 começa com a ameaça de guerra no Afeganistão...
E o assassinato do Comediante.




Watchmen (em português) - 12 volumes [ Download ]
Who Watches the Watchmen, David Hughes [ Download ]
Roteiro para Watchmen [ Download ]
Extras de Watchmen (várias capas e desenhos não utilizados, storyboard original, sketchs, relatos dos criadores, etc) [ Download ]
DC Heroes RPG - Who Watches the Watchmen [ Download ]
DC Heroes RPG - Watchmen - Taking Out The Trash [ Download ]
Cubeecraft Watchmen - Rorschach [ Download ]
Cubeecraft Watchmen - Dr. Manhattan [ Download ]
World Of The Watchmen - Alan Moore [ Download ]

Alan Moore


Alan Moore (18 de Novembro de 1953) nasceu em Northampton, Inglaterra. Cartunista e escritor, foi como roteirista de histórias em quadrinhos, que Alan Moore ganhou respeito e admiração.

Moore teve uma infância e adolescência difícil, devido a pobreza de sua família e ao seu temperamento arredio, sendo expulso de várias escolas.
Apesar disso, desde cedo demonstrava talento em artes e se interessava por desenho e pintura.

Na década de 70, trabalhou em diversas revistas, principalmente como ilustrador, atividade que ele assumiria tempos depois, não ser seu forte.

A partir de 1980, a vida de Moore deu uma guinada completa. Escolhido como Melhor Escritor de quadrinhos de 1982 e 83, por 'Miracleman' e 'V de Vingança' respectivamente, Moore demonstrava talento e aptidão, levando o que era considerado uma arte menor, ao seu mais alto patamar.

Na DC Comics, Alan Moore encabeçou a reconstrução do universo dos Super-heróis, criando o que é considerado até hoje, a melhor história em quadrinhos de todos os tempos, Watchmen.
Apesar do sucesso, Alan Moore (que não detinha os direitos de sua obra) dá outra guinada em sua carreira ao abandonar a DC e se dedicar a projetos para editoras independentes, afastando-se de qualquer pretensão comercial, como seria de se esperar.

Recluso em sua cidade natal, continua trabalhando em projetos pessoais enquanto estuda para se tornar um mago. De um desses projetos, nasceu o elogiado livro 'Voice of the fire', várias histórias que contam a vida de pessoas que viveram na mesma região da Inglaterra (a sua Northampton) durante 5 mil anos. Sombrio e intenso, o livro trata de sua visão do que seria o lado pouco conhecido da história da humanidade. Tal qual Borges e Kipling, Moore inventa novos vocábulos, misturando com maestria ficção e fatos reais, medo e desejo.

Apesar de avesso a entrevistas, continua surpreendendo seus fãs e o público em geral, ganhando prêmios e aumentando a aura mística que envolve seu nome e obra.

Como escrever histórias em quadrinhos [ Download ]
A voz do fogo [ Download ]

Alan Moore, o Senhor do Caos

sábado, 21 de março de 2009

Os nove bilhões de nomes de Deus - Arthur C. Clarke



–- Este é um pedido um tanto estranho –- disse o doutor Wagner, com o que esperava poderia ser um comentário plausível. –- Que eu me lembre, é a primeira vez que alguém pede um computador de seqüência automática para um monastério tibetano. Eu não gostaria de me mostrar inquisitivo, mas me custa pensar que em seu... hum... estabelecimento, existam aplicações para semelhante máquina. Poderia me explicar o que tentam fazer com ela?

–- Com muito prazer –- respondeu o lama, arrumando a túnica de seda e deixando cuidadosamente a um lado a régua de cálculo que tinha usado para efetuar a equivalência entre as moedas. –- Seu ordenador Mark V pode efetuar qualquer operação matemática rotineira que inclua até dez cifras. Entretanto, para nosso trabalho estamos interessados em letras, não em números. Quando tiverem sido modificados os circuitos de produção, a máquina imprimirá palavras, não colunas de cifras.

–- Não compreendo...

–- É um projeto em que estivemos trabalhando durante os últimos três séculos; de fato, desde que se fundou o lamaísmo. É algo estranho para seu modo de pensar; assim espero que me escute com a mente aberta, enquanto explico.

–- Naturalmente.

–- Na realidade, é muito singelo. Estivemos recolhendo uma lista que conterá todos os possíveis nomes de Deus.

–- O que quer dizer?

–- Temos motivos para acreditar –- continuou o lama, imperturbável –- que todos esses nomes se podem escrever com não mais de nove letras em um alfabeto que idealizamos.

–- E estiveram fazendo isto durante três séculos?

–- Sim; achávamos que nos custaria ao redor de quinze mil anos completar o trabalho.

–- Oh! –- exclamou o doutor Wagner, com expressão um tanto aturdida. –- Agora compreendo por que quiseram alugar uma de nossas maquinas. Mas qual é exatamente a finalidade deste projeto?

O lama vacilou durante uma fração de segundo e Wagner se perguntou se o tinha ofendido.
Em todo caso, não houve rastro alguma de zanga na resposta.

–- Chame-o de ritual, se quiser, mas é uma parte fundamental de nossas crenças. Os numerosos nomes do Ser Supremo que existem: Deus, Jehová, Alá, etcétera, só são etiquetas feitas pelos homens. Isto encerra um problema filosófico de certa dificuldade, que não me proponho discutir, mas em algum lugar entre todas as possíveis combinações de letras que se podem fazer estão os que se poderiam chamar de verdadeiros nomes de Deus. Mediante uma permutação sistemática das letras, tentamos elaborar uma lista com todos esses possíveis nomes.

–- Compreendo. começaram com o AAAAAAA... e continuaram até o ZZZZZZZ...

–- Exatamente, embora nós utilizemos um alfabeto especial próprio. Modificando os tipos eletromagnéticos das letras, arruma-se tudo; e isto é muito fácil de fazer. Um problema bastante mais interessante é o de desenhar circuitos para eliminar combinações ridículas. Por exemplo, nenhuma letra deve figurar mais de três vezes consecutivas.

–- Três? Certamente você quer dizer dois.

–- Três é o correto. Temo que me ocuparia muito tempo explicar o por que, mesmo que você entendesse nossa língua.

–- Estou seguro disso –- disse Wagner, apressadamente –- Continue.

–- Por sorte, será fácil adaptar seu computador de seqüência automática a esse trabalho, posto que, uma vez sendo programado adequadamente, permutará cada letra por turno e imprimirá o resultado. O que iria demor quinze mil anos se poderá fazer em cem dias.

O doutor Wagner ouvia os débeis ruídos das ruas de Manhattan, muito abaixo. Estava em um mundo diferente, um mundo de montanhas naturais, não construídas pelo homem. Nas remotas alturas de seu longínquo país, aqueles monges tinham trabalhado com paciência, geração após geração, enchendo suas listas de palavras sem significado. Havia algum limite às loucuras da humanidade? Não obstante, não devia insinuar seus pensamentos.
O cliente sempre tinha razão...

–- Não há dúvida –- replicou o doutor –- de que podemos modificar o Mark V para que imprima listas deste tipo. Mas o problema da instalação e a manutenção já me preocupa mais. Chegar ao Tibet nos tempos atuais não vai ser fácil.

–- Nos encarregaremos disso. Os componentes são bastante pequenos para podermos transportar de avião. Este é um dos motivos de ter eleito sua máquina. Se você pode fazer chegar à Índia, nós proporcionaremos o transporte dali em diante.

–- E querem contratar dois de nossos engenheiros?

–- Sim, para os três meses que se supõe que dure o projeto.

–- Não duvido de que nossa seção de pessoal lhes proporcionará as pessoas idôneas. –- O doutor Wagner fez uma anotação na caderneta que tinha sobre a mesa –- há outras duas questões –- antes de que pudesse terminar a frase, o lama tirou uma pequena folha de papel.

–- Isto é o saldo de minha conta do Banco Asiático.

–- Obrigado. Parece ser... hum... adequado. A segunda questão é tão corriqueira que vacilo em mencioná-la... mas é surpreendente a freqüência com que o que consideramos óbvio acaba nos atrapalhando. Que fonte de energia elétrica vocês tem?

–- Um gerador diesel que proporciona cinqüenta kilowatts a cento e dez volts. Foi instalado faz uns cinco anos e funciona muito bem. Faz a vida no monastério muito mais cômoda, mas, certamente, na realidade foi instalado para proporcionar energia aos alto-falantes que emitem as preces.

–- Certamente –- admitiu o doutor Wagner. –- Devia ter imaginado.

A vista do parapeito era vertiginosa, mas com o tempo se acostuma a tudo.

Depois de três meses, George Hanley não se impressionava pelos dois mil pés de profundidade do abismo, nem pela visão remota dos campos do vale semelhantes a quadrados de um tabuleiro de xadrez. Estava apoiado contra as pedras polidas pelo vento e contemplava com displicência as distintas montanhas, cujos nomes nunca se preocupou de averiguar.
Aquilo, pensava George, era a coisa mais louca que lhe tinha ocorrido jamais.

O “Projeto Shangri-Lá”, como alguém o tinha batizado nos longínquos laboratórios.
Por semanas o Mark V estava produzindo quilômetros de folhas de papel cobertas de galimatias.
Pacientemente, inexoravelmente, o computador ia dispondo letras em todas suas possíveis combinações, esgotando cada classe antes de começar com a seguinte.
Quando as folhas saíam das máquinas de escrever electromáticas, os monges as recortavam cuidadosamente e as pregavam a uns livros enormes. Uma semana mais e, com a ajuda dos céus, teriam terminado. George não sabia que obscuros cálculos tinham convencido aos monges de que não precisavam preocupar-se com as palavras de dez, vinte ou cem letras.

Um de seus habituais quebra-cabeças era que se produzisse alguma mudança de plano e que o grande lama (a quem eles chamavam Sam Jaffe, embora não lhe parecesse absolutamente) anunciasse de repente que o projeto se estenderia aproximadamente até o ano 2060 da Era Cristã. Eram capazes de uma coisa assim.

George ouviu que a pesada porta de madeira se fechava de repente com o vento ao tempo que Chuck entrava no parapeito e parava ao seu lado. Como de costume, Chuck ia fumando um dos charutos puros que lhe tinham feito tão popular entre os monges que, parece, estavam completamente dispostos a adotar todos os menores e grande parte dos maiores prazeres da vida. Isto era uma coisa a seu favor: podiam estar loucos, mas não eram tolos.
Aquelas freqüentes excursões que realizavam à aldeia abaixo, por exemplo...

–- Escuta, George –- disse Chuck, com urgência. –- Soube algo que pode significar um desgosto.

–- O que aconteceu? A máquina não funciona bem? –- Esta era a pior contingência que George podia imaginar. Era algo que poderia atrasar a volta e não havia nada mais horrível. Tal como se sentia ele agora, a simples visão de um anúncio de televisão lhe pareceria um maná caído do céu. Pelo menos, representaria um vínculo com sua terra.

–- Não, não é nada disso. –- Chuck se instalou no parapeito, o que não era habitual nele, porque normalmente lhe dava medo o abismo. –- Acabo de descobrir qual é o motivo de tudo isto.

–- O que quer dizer? Eu pensava que sabíamos.

–- Certo, sabíamos o que os monges estão tentando fazer. Mas não sabíamos por que. É a coisa mais louca...

–- Isso eu imagino –- grunhiu George.

–- ...mas o velho me acaba de falar claramente. Sabe que ele aparece a cada tarde para ver como vão saindo as folhas. Pois bem, desta vez parecia bastante excitado ou, pelo menos, mais do que está acostumado a estar normalmente. Quando lhe disse que estávamos no ultimo ciclo, me perguntou, nesse sotaque inglês tão fino que tem, se eu tinha pensado alguma vez no que tentavam fazer. Eu disse que eu gostaria de sabê-lo... e então me explicou.

–- Continua; estou entendendo.

–- O caso é que eles acreditam que quando tiverem feito a lista de todos os nomes, e admitem que há uns nove trilhões, Deus terá alcançado seu objetivo. A raça humana terá acabado aquilo para o qual foi criada e não terá sentido algum continuar. Certamente, a idéia é algo assim como uma blasfêmia.

–- Então que esperam que façamos? Suicidarmo-nos?

–- Não há nenhuma necessidade disto. Quando a lista estiver completa, Deus entra em ação, acaba com todas as coisas!

–- Oh, já compreendo! Quando terminarmos nosso trabalho, será o fim do mundo.

Chuck deixou escapar uma risadinha nervosa.
–- Isto é exatamente o que disse ao Sam. E sabe o que ocorreu? Olhou-me de um modo muito estranho, como se eu tivesse cometido alguma estupidez e disse: “Não se trata de nada tão corriqueiro como isso”.

George pensou durante um momento.
–- Isto é o que eu chamo de uma visão ampla do assunto –- disse depois. –- Mas o que supõe que deveríamos fazer a respeito? Não vejo que isso faça a mínima diferença para nós. Afinal já sabíamos que estavam loucos.

–- Sim... mas não percebe o que se pode acontecer? Quando a lista estiver acabada e o plano final não der certo, ou não ocorrer o que eles esperam, seja o que for, podem-nos culpar do fracasso. É nossa máquina que estiveram usando. Esta situação eu não gosto nem um pouco.

–- Compreendo –- disse George, lentamente. –- Há nisso um certo interesse. Mas esse tipo de coisas ocorreu outras vezes. Quando eu era um menino, lá em Louisiana, tínhamos um pregador louco que uma vez disse que o fim do mundo chegaria no domingo seguinte. Centenas de pessoas acreditaram e algumas até venderam suas casas. Entretanto, quando nada aconteceu, não ficaram furiosos, como se pode esperar. Simplesmente, decidiram que o pregador tinha cometido um engano em seus cálculos e seguiram acreditando. Parece-me que alguns deles acreditam ainda.

–- Bom, mas isto não é Louisiana, se por acaso ainda não deu conta. Nós não somos mais que dois e monges há a centenas aqui. Eu tenho consideração por eles e sentirei pena pelo velho Sam quando vir seu grande fracasso. Mas de todo modo, eu gostaria de estar em outro lugar.

–- Isso eu estive desejando durante semanas. Mas não podemos fazer nada até que o contrato tenha terminado e cheguem os transportes aéreos para nos levar. Claro que –- disse Chuck, pensativamente –- sempre poderíamos tentar uma ligeira sabotagem.

–- E isso só pioraria as coisas.

–- O que eu quis dizer não foi isso. Olha -- Funcionando as vinte e quatro horas do dia, tal como está fazendo, a máquina terminará seu trabalho dentro de quatro dias a partir de hoje. O transporte chegará dentro de uma semana. Pois bem, tudo o que precisamos fazer é encontrar algo que tenha que ser reparado, quando fizermos uma revisão; algo que interrompa o trabalho durante um par de dias. Nós consertaremos, certamente, mas não com muita pressa. Se calcularmos bem o tempo, poderemos estar no aeródromo quando o último nome ficar impresso no registro. Então já não nos poderão agarrar.

–- Não gosto da idéia –- disse George. –- Seria a primeira vez que abandonei um trabalho. Além disso, faria-lhes suspeitar. Não; vamos ficar e aceitar o que vier.

–- Ainda não gosto dessa disso –- disse ele, sete dias mais tarde, enquanto os pequenos mas resistentes cavalinhos de montanha os levavam para baixo, serpenteando pela estrada. –- E não pense que fujo porque tenho medo. O que passa é que sinto pena desses infelizes e não quero estar junto deles quando perceberem quão tolos foram. Pergunto-me como vai ser com Sam.

–- É curioso –- replicou Chuck –- mas quando lhe disse adeus, tive a sensação de que ele sabia que nós partíamos e que não lhe importava, porque sabia também que a máquina funcionava bem e que o trabalho ficaria muito em breve acabado. depois disso... claro que, para ele, já não há nenhum depois...

George se voltou na cadeira e olhou para trás, atalho acima.
Era o último sítio de onde se podia contemplar com claridade o monastério. A silhueta dos achaparrados e angulares edifícios se recortava contra o céu crepuscular: aqui e alí se viam luzes que resplandeciam como as janelas do flanco de um transatlântico. Luzes elétricas, certamente, compartilhando o mesmo circuito que o Mark V. Quanto tempo seguiriam compartilhando?, perguntou-se George. Destroçariam os monges o computador, levados pelo furor e o desespero? Ou se limitariam a ficar tranqüilos e começariam de novo todos seus cálculos?

Sabia exatamente o que estava passando no alto da montanha naquele mesmo momento.
O grande lama e seus ajudantes estariam sentados, vestidos com suas túnicas de seda e inspecionando as folhas de papel, enquanto os monges principiantes as tiravam das máquinas de escrever e as pregavam aos grandes volumes.
Ninguém diria uma palavra.
O único ruído seria o incessante golpear das letras sobre o papel, porque o Mark V era por si completamente silencioso, enquanto efetuava seus milhares de cálculos por segundo.
Três meses assim, pensou George, era para subir pelas paredes.

–- Ali está! –- gritou Chuck, assinalando abaixo para o vale. –- Não é belo!?
Certamente era, pensou George. O velho DC3 estava no final da pista, como uma pequena cruz de prata. Dentro de duas horas os estaria levando para a liberdade e a sensatez.
Era algo assim como saborear um licor de qualidade. George deixou que o pensamento lhe enchesse a mente, enquanto o cavalinho avançava pacientemente para baixo.

A rápida chegada da noite nas alturas do Himalaia quase lhes caia em cima. Felizmente, o caminho era muito bom, como a maioria dos da região e eles foram equipados com lanternas.
Não havia o mais ligeiro perigo: só certo desconforto causado pelo intenso frio. O céu estava perfeitamente iluminado pelas familiares e amistosas estrelas. Pelo menos, pensou George, não haveria risco de que o piloto não pudesse decolar por conta das condições do tempo.
Esta tinha sido sua ultima preocupação.

Ficou a cantar, mas deixou disso logo. O vasto cenário das montanhas, brilhando por toda parte como fantasmas brancos e encapuzados, não o animava a cantar.
De repente, George consultou seu relógio.
–- Estaremos lá dentro de uma hora –- disse voltando-se para Chuck. Depois, pensando em outra coisa, acrescentou: –- Pergunto-me se o ordenador terá terminado seu trabalho. Estava calculado para esta hora.

Chuck não respondeu; assim George se voltou completamente para si. Pôde ver a cara do Chuck; era um oval branco voltado para o céu.

–- Olhe –- sussurrou Chuck; George elevou a vista para o espaço.

Sempre há uma última vez para tudo.
Viram sem nenhuma comoção... as estrelas estavam apagando-se.



FIM

- x -

Esta história foi escrita, na falta de algo melhor para fazer num final de semana chuvoso no Hotel Roosevelt. J. B. S. Haldane (famoso geneticista e biólogo britânico) disse sobre ela: "Você é uma das poucas pessoas vivas que escreveu algo original sobre Deus. Se você se propusesse a escrever uma hipótese teológica, você poderia ser um sério problema público."
Estou satisfeito em permanecer um profeta, com 'p' minúsculo,
Todavia, parece que criei um mito duradouro: não faz muito tempo, um programa de rádio da BBC, se referiu a primeira parte desta história como um fato atual. Computadores da IBM estariam entrando no campo dos estudos bíblicos, talvez este tema esteja se aproximado um pouquinho da realidade.
The Nine Billion Names of God (1953) - Arthur C. Clarke

Este livro foi digitalizado e distribuído GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a intenção de facilitar o acesso ao conhecimento a quem não pode pagar e também proporcionar aos Deficientes Visuais a oportunidade de conhecerem novas obras. Se quiser outros títulos nos procure Viciados em Livros, será um prazer recebê-lo em nosso grupo.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Essas estrelas são nossas - Poul Anderson


Invasão! Os seres que vêm do espaço cósmico já conquistaram, saquearam, escravizaram as civilizações de inúmeras galáxias no seu avanço arrasador. Agora chegou a vez do sistema solar!
Só Flandry, a tripulação humanóide de sua espaçonave, além de Kit, a espiã loura do planeta condenado, podem salvar o mundo dos humanos!
Mas como derrubar o líder dos invasores que é um gênio telepata?

Essas estrelas são nossas - Poul Anderson [ Download ]

A mágoa de Odin - Poul Anderson


Ao crepúsculo, o vento soprava quando a porta se abriu.

Os fogos que ardiam ao longo do salão cintilaram nos seus sulcos; as chamas ondularam efluíram dos candeeiros de pedra; o fumo acre rolava dos orifícios no tecto por onde deveria ter saído.

Esta repentina luminosidade refletia-se nas pontas das lanças, dos machados, nas bainhas das espadas, nos ornamentos dos escudos, nas ara-mas guardadas perto da entrada.

Os homens que enchiam aquela grande sala, ficaram imóveis e atentos, tal como as mulheres que distribuíam os chifres de cerveja.

Eram os deuses esculpidos nos pilares que pareciam mover-se por entre as sombras inquietas. O pai Tiwaz, o maneta, Donar do Machado e os Cavaleiros Gêmeos - eles e as bestas e os heróis e os
ramos entretecidos gravados no lambril. Uuuu... gemia o vento, um ruído gélido como ele próprio.

Hathawulf e Solbem entraram. A mãe, Ulrica, estava no meio deles e a expressão da sua cara era não menos terrível que a expressão dos seus filhos. Os três pararam por um breve momento, mas demasiado longo para aqueles que aguardavam as suas palavras.
Então, Solbern fechou a porta enquanto Hathawulf dava uns passos em frente e levantava o seu
braço direito. O silêncio abateu--se sobre o salão, a não ser pelo estalar dos fogos e os bafos agitados.

No entanto, foi Alawin quem falou primeiro. Levantando-se do seu banco, a figura frágil, tremendo, gritou:
-Então, iremos vingar-nos! - a voz falhou-lhe; tinha apenas quinze-Invernos.

A mágoa de Odin (O Patrulheiro do Tempo) -Poul Anderson [ Download ]

quinta-feira, 19 de março de 2009

A fazenda blackwood - Anne Rice


Bem-vindos à Fazenda Blackwood.

Imensas colunas brancas, salas de estar espaçosas, jardins banhados pelo sol e uma faixa escura do fechado pântano de Sugar Devil.

Este é o mundo de Quinn Blackwood, um jovem assombrado desde o nascimento por um misterioso duplo, seu alter ego, um espírito conhecido como Goblin, entidade de um mundo onírico do qual Quinn não consegue escapar, e que o impede de integrar-se ao que quer que seja.

Ao tornar-se vampiro, Quinn perde tudo que era seu por direito e ganha uma imortalidade indesejada e seu duplo se torna mais vampiresco e aterrador do que o próprio Quinn.

Enquanto a história avança e recua no tempo, desde a infância de Quinn na Fazenda Blackwood até os dias de hoje em Nova Orleans, da antiga Pompéia a Nápoles do século XIX, Quinn sai em busca do lendário vampiro Lestat, na esperança de livrar-se do espectro que o atrai inexoravelmente de volta ao pântano de Sugar Devil e ao explosivo segredo que oculta.

Tal como A hora das bruxas, A Fazenda Blackwood é a saga de uma família, seus dramas e segredos, seus sonhos de juventude e promessas.

Uma história da perda e da procura do amor, dos mistérios e do destino, em que Anne Rice supera-se em descrições de cenários macabros, casarões sinistros e a lascívia que motiva seus sugadores de sangue e impulsiona suas narrativas fantasmagóricas.

E Anne Rice na plenitude de seu estilo.


A fazenda blackwood - Anne Rice [ Download ]

Sombras da noite - Stephen King


A máquina de passar roupa - The Mangler [movie adaptation]
A mulher no quarto - The Woman in the Room
A saideira - One for the Road
As crianças do milharal - Children of the Corn [movie adaptation]
Caminhões - Trucks [movie adaptation "Trucks", "Maximum Overdrive"]
Campo de batalha - Battleground
Espuma noturna - Night Surf
Eu sou o umbral da porta - I Am the Doorway
Ex-fumantes ltda - Quitters, Inc. [movie adaptation "Cat's Eye"]
Jerusalem's Lot - Jerusalem's Lot
Matéria cinzenta - Gray Matter
O fantasma - The Boogeyman
O homem que adorava flores - The Man Who Loved Flowers
O homen do cortador de gramas - The Lawnmower Man
O ressalto - The Ledge [movie adaptation "Cat's Eye"]
O último degrau da escada - The Last Rung on the Ladder
Primavera vermemelha - Strawberry Spring
Sei o que você precisa - I Know What You Need
Turno do cemitério - Graveyard Shift [movie adaptation]
Às vezes eles voltam - Sometimes They Come Back [movie adaptation]

Sombras da noite - Night Shift (1978) - Stephen King [ Download ]

quarta-feira, 18 de março de 2009

Espadas de Marte - Edgar Rice Burroughs


Prólogo

A lua tinha aparecido por cima do bordo do canhão próximo às fontes do Pequeno Avermelhado. Banhava com uma luz tênue os leitos que bordeaban a ribeira da pequena corrente da montanha e os álamos, sob os quais se encontrava a pequena cabana onde eu levava várias semanas acampado nas Montanhas Brancas do Arizona.

Encontrava-me no alpendre da pequena cabana, desfrutando da suave beleza da noite do Arizona e, ao contemplar a paz e serenidade da cena, me parecia impossível que só uns poucos anos atrás o feroz e temível Jerónimo tivesse estado neste mesmo lugar, diante desta mesma cabana, ou que, gerações atrás, uma raça agora extinta tivesse povoado aquele canhão aparentemente deserto.

Tinha procurado em suas cidades em ruínas o segredo de sua origem e o ainda mais estranho secreto de sua extinção. Como eu gostaria que aqueles desmoronados escarpados de lava pudessem falar e me contar tudo o que tinham presenciado desde que brotaram como arroios incandescentes dos frios e silenciosas crateras que salpicavam a meseta que se elevava mais à frente do canhão!

Meus pensamentos voltaram de novo para o Jerónimo e a seus ferozes guerreiros, e estas erráticas reflexões me fizeram recordar ao capitão John Carter da Virginia, cujo corpo inerte tinha descansado durante dez largos anos em uma cova esquecida de umas montanhas situadas não muito longe daqui, para o sul..., a cova onde escondeu-se de seus perseguidores índios apaches.

Seguindo o caminho de meus pensamentos, esquadrinhei os céus com o olhar até descobrir o olho encarnado de Marte brilhando no vazio negro azulado; assim pois, Marte estava presente em meus pensamentos quando voltei para minha cabana a me preparar para uma boa noite de descanso sob as susurrantes folhas dos álamos, cuja suave e hipnótica canção de ninar se misturava com o gorgoteante murmúrio das águas do Pequeno Avermelhado.

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Tarzan no Centro da Terra - Edgar Rice Burroughs

Prefácio

Pellucidar, como é do conhecimento de todos os estudantes, significa, antes de mais nada, um mundo dentro do outro, localizado, como de fato está, no interior da superfície externa da esfera oca que é o nosso planeta, a Terra.

E esse mundo foi descoberto ocasionalmente por David Innes e Abner Perry, quando empreenderam uma viagem experimental a bordo de uma aeronave, idealizada por Perry, com o objetivo de descobrir novas jazidas de antracito (tipo de carvão fóssil). Devido à inabilidade dos exploradores em desviar o bico da nave, depois de começarem a descida em direção à crosta terrestre, percorreram oitocentos quilômetros na vertical, até que, no terceiro dia de viagem, quando Perry já se encontrava inconsciente pela falta de oxigênio, devido ao consumo de toda a reserva que levava, e quando David Innes já começava, também, a perder a lucidez, chegaram à face interna da Terra e a cabina de comando foi imediatamente invadida pelo ar fresco que trouxe pronta recuperação aos tripulantes.

Nos anos que se seguiram, estranhas e inconcebíveis aventuras sobrevieram aos dois exploradores. Perry nunca retornou à crosta externa do nosso planeta, e David voltou apenas uma vez, utilizando-se da mesma aeronave, numa viagem difícil e perigosa, a fim de trazer ao império que fundara, no mundo interior, meios de progresso e desenvolvimento de seus primitivos súditos, criaturas humanas que ainda estavam em plena Idade da Pedra, em relação ao adiantamento do mundo civilizado do século XX.

No entanto, devido às constantes lutas contra as feras e os répteis pré-históricos, bem como contra certas tribos de homens ainda mais primitivos do que os acima mencionados, o avanço do império de Pellucidar, no sentido da civilização, foi muito pequeno. E considerando a vastidão da área que compreendia o mundo interno, mais os milhares de anos que separavam seus habitantes dos de nosso mundo civilizado, David Innes e Abner Perry, por mais que fizessem, no sentido de fazer o povo progredir e se adiantar, representavam uma gota d’água num oceano.
Se atentarmos para o fato de que as áreas de terra e as áreas de água, na superfície de Pellucidar, estão situadas em oposição às mesmas áreas do mundo exterior em que vivemos, poderemos ter uma vaga idéia da extensão desse mundo dentro do nosso.

A área de terra da crosta externa do nosso planeta compreende cinqüenta e três milhões de milhas quadradas... (137.270.000 km2), ou seja, um quarto da área total da superfície da Terra. No entanto, em Pellucidar, três quartos de sua superfície são constituídos de terras, daí as florestas, as selvas, as montanhas e as planícies se estenderam interminavelmente por mais de 124.110.000 milhas quadradas...(321.444.900 km2), sendo que os oceanos ocupam apenas 41.370.000 milhas quadradas (107.148.300 km2).

Se considerarmos apenas as áreas de terra, encontraremos uma estranha anomalia de um mundo maior dentro de um mundo menor. Mas Pellucidar é um mundo à parte, um mundo de exceção, uma espécie de desvio do que nós, da face exterior da Terra, acabamos por aceitar como inalteráveis leis da Natureza.

Exatamente no centro daquele mundo interno, ergue-se o sol de Pellucidar, uma pequena esfera comparada com o nosso sol, mas o suficiente para iluminar Pellucidar e infiltrar seus raios através das frondosas e milenares árvores que povoam suas selvas e suas florestas. E aquele sol eternamente a pino não permite que haja noite em Pellucidar, e sim um meio-dia infindável.
Não havendo estrelas e nenhum movimento aparente do sol, Pellucidar não tem bússola. Não tem horizonte, uma vez que a sua superfície é em curva para cima, em todas as direções, esteja onde estiver o observador. Assim sendo, acima da linha dos olhos, as planícies, ou os mares, ou as cordilheiras de montanhas são em ascensão, desaparecendo na distância. E num mundo onde não existe movimento de sol, onde não existem estrelas nem lua, o tempo também não existe, dentro dos moldes do mundo civilizado da crosta externa. E num mundo onde o tempo não conta, não há estes constantes apelos e lembretes da face exterior do nosso planeta: “Tempo é dinheiro!” — “O Tempo é a alma do mundo!” — “O Tempo é a essência dos contratos!” — etc.

No passado, por três vezes, nós, do mundo civilizado, recebemos comunicações de Pellucidar. Sabemos que o primeiro presente de civilização foi dado aos pellucidarianos por Abner Perry, sob a forma da pólvora. Depois foram as espingardas de repetição, pequenos navios de guerra, sobre os quais eram montados canhões de pequeno calibre, e finalmente soubemos que ele chegara a montar um rádio.

Sendo Perry mais intuitivo do que propriamente um técnico, não nos surpreendeu o fato de que seu rádio não pudesse ser sintonizado em qualquer onda conhecida ou em ondas longas do mundo exterior, e ficou para Jason Gridley de Tarzana o privilégio de captar a primeira mensagem de Pellucidar, através da Onda Gridley, uma descoberta sua.

E as últimas palavras de Abner Perry, antes que suas mensagens deixassem de ser captadas, foram em relação a David Innes, primeiro Imperador de Pellucidar, que se encontrava preso numa masmorra, nas terras dos Korsars, muito distante, por mar ou por terra, de sua amada terra de Sari, situada sobre imenso platô, na região próxima ao oceano de Lural Az.

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terça-feira, 17 de março de 2009

Espaçonave Orion - 5 livros

Livro 1
A esse tempo, a Terra já dominava uma vasta área no universo, onde muitas culturas proliferavam. O major McLane era o comandante do cruzador Orion VII e, juntamente com sua equipe, já conseguira inúmeras vitórias para Terra. No entanto, ao se aproximarem de MZ-4, a estação retransmissora, a Orion percebe os estranhos sinais por ela emitidos; e aí se inicia mais uma dura prova para a tripulação da Orion VII.



Livro 2
A nave Orion VII, sob o comando do major Cliff, passaria por uma terrível prova de fogo... Desta vez, a missão era destruir o planeta teleguiado que se chocaria com a Terra. As dificuldades se tornam gigantescas pois, por trás dos acontecimentos, estão os poderosos seres extraterranos.




Livro 3
A mina da colônia Alpha Vinte e Um não estava mais produzindo o importante minério... Desobedecendo a uma ordem, Cliff tenta solucionar este mistério. Porém, ao pousar, surgem as complicações: os robôs estavam amotinados!



Livro 4
Ao descobrir que impulsos hipnóticos transformavam os comandantes das naves em perfeitas marionetes, McLane teria pela frente um enigma... E, em pleno hiperespaço, a Orion travaria uma batalha contra o sugestor desconhecido!



Livro 5
No ano de 1955, um cientista de nome Baade descobriu que uma pequena estrela, designada por Ross 614A, possuía um satélite. Esse sol, um anão vermelho, distava do sol terrano treze anos-luz, enquanto seu satélite orbitava em torno dele a uma distância de cerca de 600 milhões de quilômetros, o que correspondia à distância entre o sol terrano e o planeta Júpiter.
O satélite recebeu o nome de Ross 614B.
A massa total desse satélite equivalia a oito centésimos da massa solar, e sua capacidade luminosa era 63 mil vezes mais fraca que a do sol de Terra. As reações termonucleares no interior de Ross 614B eram responsáveis pela elevada temperatura na sua superfície, que era de 985 graus centígrados. O sol e seu satélite cintilante foram catalogados, e constituíram o tema de vários trabalhos na literatura especializada, uma vez que representavam um exemplo raro das relações entre sol e planeta. Foram incluídos no manual, recebendo um longo número de catálogo, seguido das suas coordenadas hiperespaciais.
Obtiveram uma certa notoriedade durante a 2.a guerra interestelar quando, nas imediações dessa estrela, se realizou um combate entre quatro naves de Terra e cinco unidades da Federação. Duas naves inimigas, fortemente atingidas, fugiram para o espaço livre e foram dadas como desaparecidas.
Depois desse incidente, Ross 614A e Ross 614B caíram no mais completo esquecimento.
Treze anos-luz... a posição situava-se inequivocamente dentro da primeira zona de distância de 45 parsec. Coordenadas: Um/sul 019.
Ninguém mais se lembrava do anão vermelho e seu satélite escaldante. E ninguém fazia a menor idéia da sorte daquelas grandes naves, que tinham fugido após o combate. Não havia quem se dirigisse voluntariamente àquela região.
Mais tarde, porém, tudo isso voltaria à lembrança, causando a maior consternação.



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segunda-feira, 16 de março de 2009

Os Meninos do Brasil - Ira Levin


Na noite de sexta-feira, 31 de janeiro, Mengele usava o nome Mengele.
Voara com os seus guarda-costas para Florianópolis, na ilha de Santa Catarina, mais ou menos a meio caminho entre São Paulo e Porto Alegre, onde, no salão de festas do Hotel Novo Hamburgo, decorado para a ocasião com suásticas e flâmulas vermelhas e negras, os Filhos do Nacional-
Socialismo davam um jantar-dançante a cem cruzeiros por cabeça.

Que emoção quando Mengele apareceu! Os nazistas importantes, os que haviam desempenhado papéis de grande importância no Terceiro Reich e eram conhecidos no mundo todo, costumavam mostrar-se esnobes com relação aos Filhos, recusando os seus convites sob pretexto de doença e fazendo comentários irritadiços a respeito do seu líder, Hans Stroop (que, até mesmo os Filhos reconheciam, às vezes excedia-se na sua imitação de Hitler).

Mas ali estava o próprio Herr Doktor Mengele, em pessoa e de dinner jacket branco, apertando mãos, beijando rostos, sorrindo, rindo, repetindo novos nomes.
Que gentileza a sua de vir!
E como parecia saudável e feliz!

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O Bebê de Rosemary - Ira Levin


Aquelas velas pretas que Minnie tinha trazido na noite da falta de energia elétrica tinham chamado de tal maneira a atenção de Hutch, que passara a se interessar e fazer indagações sobre o casal. Será que desconfiava de Roman e Minnie fossem, como dizia o livro, bruxos? Minnie com suas ervas e seu talismã de tannis? Roman com seu olhar perfurante? Mas que bobagem!

Bruxarias não existiam mais. Ou existiriam?

Lembrou-se então do resto do recado de Hutch: “O nome é um anagrama”. Tentou várias combinações com o nome do livro. Era difícil, pois as letras eram tantas que criavam a maior confusão. Precisaria de lápis e papel, ou melhor, do jogo de palavras cruzadas.
Foi buscar a caixa do jogo, tornou a sentar-se ao lado da janela e separou as pedrinhas com as letras que formavam o título do livro. O bebê já vai nascer jogando cruzadas, pensou Rosemary.
— Fique quietinho aí dentro.

Tentou várias combinações; primeiro com o nome do livro. Como nenhuma fazia sentido, pegou novas peças, agora para formar o nome do autor.

O nenê deu um pontapé vigoroso.
Começou a fazer um anagrama com o nome do autor, só conseguindo de J. R. Hanslet formar Jan Shrelt ou J. H. Snartle. Coitado de Hutch! Devia estar bem ruinzinho...

Pegou novamente a caixa do jogo e guardou as pedrinhas. Pegou o livro, que continuava a seu lado e abrira-se a esmo. Abrira-se na página que mostrava a foto de Adrian Marcato e sua família. Talvez Hutch tivesse forçado a encadernação, quando sublinhou o nome Steven.
O nenê estava agora completamente imóvel.

Rosemary tirou da caixa do jogo as letras que formavam o nome Steven Marcato.
Arrumou-as na ordem e depois, sem hesitação, mudou a posição das pedrinhas e olhou o resultado: Roman Castevet.

Fez nova transposição: Steven Marcato.
A partir daí, novamente Roman Castevet.

O nenê moveu-se ligeiramente.


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