Dos túmulos e sepulturas levantam-se aqueles que não podem morrer. Histórias novas e antigas dos mestres do horror,incluindo Clive Barker, Robert Bloch, Graham Masterston, Ramsey Campbell, Hugh B. Cave e outros.
Clive Barker - Sex, Death and Starshine
Ramsey Campbell - Rising Generation
Manly Wade Wellman - The Song of the Slaves
R. Chetwynd-Hayes - The Ghouls
Edgar Allan Poe - The Facts in the Case of M. Valdemar
Karl Edward Wagner - Sticks
Charles L. Grant - Quietly Now
Basil Copper - The Grey House
M. R. James - A Warning to the Curious
Nicholas Royle - The Crucian Pit
Brian Lumley - The Disapproval of Jeremy Cleave
H. P. Lovecraft - Herbert West - Reanimator
Lisa Tuttle - Treading the Maze
David Riley - Out of Corruption
Graham Masterton - The Taking of Mr Bill
J. Sheridan Le Fanu - Schalken the Painter
David Sutton - Clinically Dead
Les Daniels - They're Coming for You
Hugh B. Cave - Mission to Margal
Michael Marshall Smith - Later
Peter Tremayne - Marbh Bheo
Dennis Etchison - The Blood Kiss
Christopher Fowler - Night After Night of the Living Dead
Robert Bloch - The Dead Don't Die!
Kim Newman - Patricia's Profession
Joe R. Lansdale On the Far Side of the Cadillac Desert with Dead Folks
The Mammoth Book of Zombies - Stephen Jones [ Download ]
quinta-feira, 30 de abril de 2009
The Mammoth Book of Zombies - Stephen Jones
quarta-feira, 29 de abril de 2009
The Mammoth Book Of Vampires - Stephen Jones
Os mestres do macabro ressuscitam em contos nunca antes publicados, histórias de vampiros, em todas suas assustadoras formas. Incluindo a primeira edição de RED REIGN de Kim Newman.
Clive Barker - Human Remains
Brian Lumley - Necros
Brian Stableford - The Man Who Loved the Vampire Lady
F. Marion Crawford - For the Blood is the Life
Ramsey Campbell - The Brood
Robert Bloch - Hungarian Rhapsody
Edgar Allan Poe - Ligcia
Richard Christian Matheson - Vampire
Hugh B. Cave - Stragella
David J. Schow A Week in the Unlife
Frances Garfield - The House at Evening
R. Chetwynd-Hayes - The Labyrinth
Karl Edward Wagner - Beyond Any Measure
Basil Copper - Doctor Porthos
Bram Stoker - Dracula's Guest
Dennis Etchison - It Only Comes Out at Night
Peter Tremayne - Dracula's Chair
Melanie Tern - The Better Half
M. R. James - An Episode of Cathedral History
Manly Wade Wettman - Chastel
Howard Waldrop - Der Untergang Des Abendlandesmenschen
E. F. Benson - The Room In the Tower
Graham Masterton - Laird of Dunain
F. Paul Wilson - Midnight Mass
Nancy Holder - Blood Gothic
Les Daniels - Yellow Fog
Steve Rasnic Tern - Vintage Domestic
Kim Newman - Red Reign
Neil Galman - Vampire Sestina
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terça-feira, 28 de abril de 2009
The Mammoth Book of Monsters - Stephen Jones

The Mammoth Book of Monsters traz o que há de melhor em matéria de histórias sobre Monstros, escritas por nomes consagrados do horror, como Ramsey Campbell, Kim Newman, Harlan Ellison, Joe R. Lansdale e muitos outros.
David J. Schow - Visitation
Ramsey Campbell - Down There
Scott Edelman - The Man He Had Been Before
Dennis Etchison - Calling All Monsters
R. Chetwynd-hayes - The Shadmock
Christopher Fowler - The Spider Kiss
Nancy Holder - Cafe Endless: Spring Rain
Thomas Ligotti - The Medusa
Gemma Files - In The Poor Girl Taken By Surprise
Sydney J. Bounds - Downmarket
Robert E. Howard - The Horror From The Mound
Jay Lake - Fat Man
Brian Lumley - The Thin People
Tanith Lee - The Hill
Joe R. Lansdale - Godzilla's Twelve Step Program
Karl Edward Wagner - .220 Swift
Robert Silverberg - Our Lady Of The Sauropods
Basil Copper - The Flabby Men
Robert Holdstock - The Silvering
Michael Marshall Smith - Someone Else's Problem
Clive Barker - Rawhead Rex
Kim Newman - The Chill Clutch Of The Unseen
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segunda-feira, 27 de abril de 2009
The Mammoth Book Of Best New Horror - Stephen Jones

A nova edição do Mammoth Book dedicado ao horror e dark fantasy, traz algumas das melhores histórias dos mestres do macabro, incluindo Neil Gaiman,Brian Keene, Elizabeth Massie, Glen Hirshberg, Peter Atkins e Tanith Lee.
Michael Marshall Smith - The Things He Said
Simon Kurt Unsworth - The Church On The Island
Christopher Fowler - The Twilight Express
Ramsey Campbell - Peep
Tim Pratt - From Around Here
Gary Mcmahon - Pumpkin Night
Simon Strantzas - The Other Village
Mike O'Driscoll - 13 O'Clock
Joel Lane - Still Water
Joe Hill - Thumbprint
Nicholas Royle - Lancashire
Marc Lecard - The Admiral's House
Tony Richards - Man, You Gotta See This!
David A. Sutton - The Fisherman
Reggie Oliver - The Children of Monte Rosa
Neil Gaiman - The Witch's Headstone
Joel Knight - Calico Black, Calico Blue
Steven Erikson - This Rich Evil Sound
Glen Hirshberg - Miss Ill-Kept Runt
Joe R. Lansdale - Deadman's Road
Mark Samuels - A Gentleman from Mexico
Tom Piccirilli - Loss
Christopher Harman - Behind the Clouds: In Front of the Sun
Caitlin R. Kiernan - The Ape's Wife
Conrad Williams - Tight Wrappers
Kim Newman - Cold Snap
The Mammoth Book Of Best New Horror - Stephen Jones [ Download ]
domingo, 26 de abril de 2009
Charles Stross - entrevista II

'Não escrevo Ficção Científica como um veículo de propaganda para conceitos científicos. Se existe algum conteúdo polêmico no que faço, ele é político e social.'
HardSF: O que inspira você a colocar ciência na sua ficção?
Charles Stross: Não estou certo se o faço. Você vai encontrar nas minhas histórias coisas como viagem mais rápida que a luz, máquinas do tempo, upload de mentes, nanotecnologia. Algumas destas coisas são mais plausíveis do que outras, de maneira que podem ser possíveis, mas não posso dizer que deliberadamente decido por incorporar a ciência na ficção de maneira sistemática.
HardSF: O quanto isso é importante para você, se no fim o leitor acaba aprendendo conceitos científicos através das suas histórias?
CS: Não é. Mais importante para mim é que eles não comecem a achar que certas coisas que são obviamente irreais, possam acontecer algum dia, mas isso não é exatamente o que eu pretendo fazer. Não escrevo Ficção Científica como um veículo de propaganda para conceitos científicos. Se existe algum conteúdo polêmico no que faço, ele é político e social.
HardSF: Você acha que as teorias científicas, por serem abastratas e intangíveis, afetam a sua habilidade em vender literatura baseada em FC Hard*?
CS: O que me afeta, em se tratando de trabalhar com literatura, é que de fato para cada livro vendido de Ficção Científica, são vendidos dois do gênero Fantasia, e para cada livro vendido de Fantasia, são vendidos cinco romances. Sendo assim, se eu escrevesse apenas Ficção Cientifica eu estaria, por vontade própria. reduzindo meu pagamento de royalties. Mais interessante do que isso, eu estou escrevendo para uma audiência que é ínfimamente pequena. 25% da população do planeta fala ou lê em inglês (e menos que isso tem o inglês como primeira língua) e 2% da ficção vendida é de FC. Então antes mesmo de começar, tenho que aceitar que não vou conseguir mover montanhas ou ter multidões me seguindo.
Afinal sou apenas um escritor de ficção, e não algum tipo de pregador vendendo a salvação eterna, não é mesmo?
HardSF: Você pensa que a FC Hard é o único tipo possível de FC? Ou tem espaço para a FC 'Soft'?
CS: Acho que toda esta distinção não faz sentido. Eu escrevo ficção, ponto. Se eu escolho falar sobre algum tipo de ciência dentro dela, tento então fazer da forma certa ou ao menos plausível. Mas a retórica da FC Hard versus FC 'soft' me parece pairar ridiculamente nas origens do gênero, criado por Hugo Gernsback no passado, quando havia toda esta agitação - tipo propaganda política - tipo o braço de um movimento, tecnocracia.
HardSF: Como se pode tornar a FC Hard mais agradável para o grande público?
CS: Acho que a FC Hard foi atropelada pela fantasia, basta ver Guerra nas Estrelas, Jornada nas Estrelas e os filmes com efeitos especiais, quase 30% de tudo que Hollywood vende como FC, e aquilo que você pode razoavelmente classificar como FC Hard é quase nada - dá para contar nos dedos de uma das mãos.
Se levarmos para este público potencial de leitores e espectadores, poderemos fazer com que se interessem. Mas francamente, acho que a onda da FC Hard já passou. A FC Hard surgiu em um contexto bem específico, durante os anos 30 - um tempo em que as pessoas que haviam cruzado as pradarias em carruagens, ainda estavam tentando descobrir como lidar com a eletricidade e máquinas voadoras, e daí os computadores, a energia nuclear e naves espaciais. Foi uma ferramenta educacional bastante útil, expandindo horizontes, mostrando que de certa forma aquilo seria relevante na vida das pessoas. Hoje estamos cercados de gizmos. Provavelmente há mais computadores no meu apartamento hoje, do que em todo este pais (Escócia) nos anos 60. A Ficção Científica implodiu com o presente; mudanças climáticas globais nos afetando diretamente, naves espaciais pousando nas luas de Saturno, transplantes de rosto na França (Ei, esta não era uma história do Fu Manchu, sessenta anos atrás?) e mundos virtuais com PIB maiores do que o da Áustria.
Acredito que o atual crescimento na procura pela Fantasia, comparativamente a FC, é o resultado sintomático deste nosso mundo, como se os leitores gritassem 'PAREM, POR FAVOR' e buscassem conforto em um tempo em que eles sabiam o que diabos estava acontecendo. Alvin Toffler acertou nos anos 70 - chama-se Choque do Futuro.
HardSF: Qual tópico científico você acha que será o mais falado nas próximas décadas?
CS: O de sempre - não há nada de novo na FC hoje. O Aquecimento global continuará sendo de nosso interesse, não importa se você acredita que é antropogênico ou natural - é o elefante na sala de estar, e temos que aprender a viver com isso. Até hoje, apenas Kim Stanley Robinson tem se agarrado a isso nos EUA, ele é um dos escritores de FC Hard mais interessante trabalhando por aí, mesmo estando em conflito ideológico com a velha guarda stalinista da Ficção Científica em geral.
Avanços na tecnologia médica é uma aposta certa, mas não sei se ainda há algo a ser dito e que Bruce Sterling já não o tenha feito em 'Holy Fire', quase dez anos atrás.
Nanotecnologia... cedo ou tarde passaremos deste estágio primitivo, onde nos encontramos presos à quase uma década. E então os prognósticos de Eric Drexler vão parecer tão ultrapassados quanto Jules Verne em 1890. Será como sermos cozidos lentamente, como o provérbio do sapo.
A física parece estar ainda em 1895, com tudo amarradinho, exceto por algumas pontas soltas, como o por que dos elétrons não se neutralizarem a si mesmos ou por que 70% de toda a massa do Cosmos estar oculta. Da primeira crise veio a mecânica quântica e a relatividade, a segunda nos trará... quem sabe? Estou quase certo de que não será a teoria das cordas, mas ainda não posso apostar...
HardSF: Você geralmente escreve sobre o que domina e conhece, ou intencionalmente procura por novos e incertos territórios?
CS: Quase sempre sobre aquilo que conheço, mas sou eclético, aleatório, e um entusiasta por aprender coisas novas (minha formação universitária cobre alguns assuntos úteis para mim; farmacologia, bioquímica, física, ciência computacional)
HardSF: Qual você considera ter sido a sua maior realização; sua contribuição na ciência ou na literatura?
CS: Para a literatura - por que não penso ter feito alguma coisa para a ciência! Poucas pessoas fazem. Mesmo a média das teses de doutorado é um simples pixel em um mosaico do tamanho da Grande Muralha da China. Ao menos na literatura é mais fácil de deixar sua marca.
HardSF: Está trabalhando em algo agora?
CS: Agora mesmo estou trabalhando em um romance de FC mundana*. É um movimento britânico pouco falado, que não se utiliza destas tralhas como alienigenas, viagem mais rápida que a luz, máquinas do tempo e coisas assim. Estou escrevendo uma história de detetive que se passa na Escócia daqui a uns 12-15 anos. É sobre um jogo de computador e a heroína é uma contadora. Parece bem louco pra mim.
(HardSF - 2006-06-28)
*FC Hard é uma modalidade da Ficção Científica que procura dar embasamento científico à história que está sendo contada e portanto exige mais conhecimento do autor. Arthur C.Clarke é um autor famoso de FC Hard.
*FC Mundana (ou terrestre) é um subgênero da Ficção Científica criado em 2002 pelo escritor Geoff Ryman e que se caracteriza por se utilizar de tecnologia atual ou derivada dela, de forma contida e apoiada na ciência. Na FC Mundana, o homem não alcança as estrelas, não existem civilizações de outros planetas, assim como as viagens no tempo, ou mais rápido que a luz e outras dimensões são impossíveis.
Site sobre FC Mundana
Charles Stross

Charles David George Stross (18 de Outubro de 1964) nasceu em Leeds, Inglaterra. Jornalista, formado em ciência computacional, escritor de Ficção Científica, Fantasia e Horror, editor e roteirista, atualmente vivendo na Escócia.
Stross faz parte da nova geração de escritores britânicos de Ficção Científica, especializados em FC hard e Space Opera, contemporâneo de Alastair Reynolds, Ken MacLeod e Liz Williams.
Antes de se tornar um escritor reconhecido, Stross esteve envolvido com RPGs, sendo editor e colaborador de diversas revistas como White Dwarf e Advanced Dungeons & Dragons, bastante populares entre os jogadores.
Seu primeiro conto, The Boys, foi publicado na revista Interzone em 1987 e o primeiro livro, Singularity Sky, foi indicado para receber o prêmio Hugo de 2003. A partir dai, Stross se tornou um nome constante entre os indicados para os prêmios mais importantes da FC de língua inglesa, acabando por ganhar o Hugo de 2005 (Concrete Jungle) e o Locus de 2006 (Accelerando) e 2007 (Missile Gap).
Blog de Charlie Stross
Coleção Charles Stross (A boy and his God, A colder war, Accelerando, Ancient of days, Concrete Jungle, Dechlorinating the moderator, Different flesh, Duat, Elector, Escape, Examination Night, Generation Gap, Glasshouse, Halo, Charlie Stross interviews, Iron Sunrise, Lobsters, Love me, Maxo Signals, Merchant Princes series, Message in a time capsule, Missile Gap, Nightfall, Red, hot and dark, Remade, Rogue Farm, Scratch Monkey, SEAQ and destroy, Singularity Sky, Tarkovisky's cut, The atrocity archives, The boys, The concrete jungle, The midlist bombers, Troubadour, Warcrime, Year Zero, Yellow Snow, Jury Service) - [ Download ]
sábado, 25 de abril de 2009
15 Raças Alienígenas Memoráveis da Literatura de Ficção Científica
Aalaag
Os Aalaag conquistaram o planeta Terra com facilidade no romance WAY OF THE PILGRIM de Gordon R.Dickson de 1987. Dentro de sua própria ética, os Aalaags são senhores justos – tratar mal seu 'rebanho' humano é considerada uma ofensa muito séria. Porém eles exigem obediência e um rígido código de conduta que classifica o espírito humano.
Na verdade o planeta natal dos Aalaags foi conquistado também, por um poderoso inimigo sem nome.
Os Aalaags são essencialmente guerreiros altos e orgulhosos, cada qual com uma coleção pessoal de armas e possuem uma aparência espartana. Cada Aalaag encara seus deveres como sendo a maior virtude, e todos seus esforços são dirigidos para o dia em que recuperarão seus planetas perdidos. As raças dominadas por eles são utilizadas para explorar recursos para conquistar este seu objetivo final.
Nosso herói, Shane Evert, um lingüista, encabeça um grupo de tradutores à serviço do líder alienígena, Primeiro Capitão Lyt Ahn. O titulo do livro se refere ao símbolo universal do Peregrino, como condição humana e que se torna o símbolo do movimento de resistência que começa a surgir.
Cativante, calorosamente humano, o romance é Dickson em seu melhor.
Way of the Pilgrim - Gordon R.Dickson [ Download ]
Psychlos
Esqueça o filme com John Travolta. Esqueça o que quer que você pense sobre L.Ron Hubbard ter fundado a Cientologia. Apenas leia este romance paquidérmico (1066 páginas) de 1982, chamado BATTLEFIELD EARTH. É Space Opera do jeito que devia ser.
Os Psychlos não somente conquistam planetas. Eles não somente conquistam galáxias. Eles conquistam universos. Só eles possuem o segredo do teletransporte instantâneo. E um de seus maiores empreendimentos trata-se da Companhia de Mineração Intergaláctica que leva os nativos de volta ao tempo da idade da pedra e sistematicamente extrai cada minério disponível do planeta, quase até só restar o núcleo.
E os Psychlos acham a crueldade muito divertida. O desonesto – mesmo para os seus padrões - Chefe de Segurança da Terra chamado Terl, tem um esquema para ficar rico treinando alguns nativos humanos para minerar ilegalmente para ele.
Soberba caracterização, tanto de humanos quanto de alienígenas em uma história tão boa que você quase esquece que está lendo. Uma nota de louvor deve ser feita aos Selachees, outro raça alienígena no livro e que tem um papel crucial ao final.
Battlefield Earth - L.Ron Hubbard [ Download ]
Thranx
Alan Dean Foster já escreveu uma série de trabalhos dentro da Comunidade Humanos-Thranx (Humanx), mas a maioria trata de personagens bem conhecidos como Flinx e Pip, com os Tranx de pano de fundo. Um dos romances contudo, explora bem a cultura Thranx e como os humanos se tornaram parceiros deles. NOR CRYSTAL TEARS (1982) é em grande parte escrito pelo ponto de vista dos Thranx. Tudo parece tão bem encaixado neste livro – que ao final você estará torcendo para que o insectoide Thranx forme uma aliança com os humanos.
Foster lida com as raças com perfeição. E eu adoro estes louva-a-deus.
Série Humanx (Surfeit, The Emoman, Midworld, Cachalot, Nor Crystal Tears, Voyage to the city of the dead, Sentenced to Prism, The Howling Stones) - Alan Dean Foster [ Download ]
Marcianos
Estamos falando especialmente dos marcianos do livro MARTIANS GO HOME (1955), de Fredric Brown. Eles são literalmente homenzinhos verdes, mas o que eles são realmente, antes de tudo, são uns chatos! Serem chatos parece ser a seu maior objetivo.
Eles invadem a Terra aos milhões, de uma hora para outra, falando inglês com um sotaque do Brooklyn e perturbando a paz e a ordem. Com resultados desastrosos e as vezes fatais. Eles podem se teleportar para onde quiserem, porém não podem ser tocados. Gostam mais do que tudo de dizer com quem sua esposa está dormindo, entregam segredos de defesa para outros países, fazem comentários sobre as falhas humanas, tudo para poder ser tão chato quanto puderem.
Este livro é considerado um clássico da Ficção Cientifica e não conheço ninguém que o tenha lido e não tenha gostado.
Martians go Home - Fredric Brown [ Download ]
Pequeninos
SPEAKER FOR THE DEAD (1986) é a sequência escrita por Orson Scott Card para seu mundialmente famoso romance ENDER’S GAME (um romance de Ficção Científica obrigatório para pessoas que não lêem Ficção Científica).
Ambos ganharam os prêmios Hugo e Nebula, mas são dois livros bem diferentes entre si.
Muita gente irá discordar de colocar os Pequeninos como uma raça alienígena clássica, mas é a rica descrição desta sociedade que chama a atenção. Especialmente por que, muito do que decepciona no livro, mais uma vez está nas dificuldades das comunicações entre as espécies e na tentativa (em vão) dos humanos para compreender os pequeninos sem prejudicar seu desenvolvimento natural. Tocante em algumas partes, é um livro imperdível para o leitor de Ficção Cientifica interessado em comparar religiões.
O conceito de framling (humanos de outros planetas), ramen (não-humanos com quem se comunicam como se fossem humanos) e varelse (não humanos com quem é impossível se comunicar) será lembrado quando inevitavelmente entrarmos em contato com seres interestelares.
Série Enders (Ender's Game, Investument Counselor, Sppeaker for the Dead, Xenocide, Children of the mind, Ender's Shadow, Shadow of the Hegemon, Shadow Puppets, Shadow of the Giant ) - Orson Scott Card [ Download ]
Overlords
Incluso em todo curso sobre Ficção Científica, o clássico de Arthur C.Clarke CHILDHOOD’S END (1953) nos mostra um outro tipo de conquistador da Terra, um tipo benigno de certa forma. Os Overlords tornam a vida melhor para todos e dão solução para muitos de nossos problemas, tudo isso de suas gigantescas espaçonaves posicionadas sobre as maiores cidades do mundo.
A humanidade se adapta a esta situação, como é de sua natureza, mas os Overlords não irão revelar a si mesmos por cinqüenta anos e a razão pela qual o fazem incorporam conceitos de memória racial (Jung).
Não direi mais nada, além do que muitos professores amam utilizar este livro em seus cursos.
É claro que existe um segredo, do por que os Overlords estarem agindo daquela maneira.
O que acontece quando o segredo é revelado, pode ser descrito como ‘pungente’.
Childhood's End e O Fim da Infância - Arthur C.Clarke [ Download ]
Fithp
Larry Niven não precisa de dinheiro, já Jerry Pournelle sim. Isso realmente não importa, pois são dois autores de Ficção Científica, quer estejam comendo hambúrgueres ou filé mignon. Juntos eles realizaram uma das mais bem sucedidos parcerias já vista neste gênero.
FOOTFALL (1985) é um excelente exemplo disso.
Gente que não costuma ler Ficção Científica lia os romances de Niven/Pournelle nos anos 80, enquanto esperavam pelo próximo Heinlein. De qualquer forma, todo mundo que já leu este livro, pensa nos Fithp como elefantes. Assim como os humanos fazem parte de uma cultura de indivíduos, como formigas de uma colônia, os Fithp são de uma cultura de manada.
Com um excelente tratamento dado a esta premissa básica – e sendo criaturas de manada, eles não compreendem o conceito de acordos diplomáticos... ou você é o dominante ou o submisso.
Em particular, a política interna dentro de uma manada inteligente diante de uma difícil conquista é tratada com admirável habilidade.
Footfall - Larry Niven/Jerry Pournelle [ Download ]
Drac
Ok, o sujeito publica um conto e ganha um prêmio Nebula por isso – poucos meses depois ele ganha o prêmio Hugo também. Em seguida o prêmio John W.Campbell por que, afinal, trata-se de um novato. Ele é o primeiro a ganhar os três prêmios em um ano. Grande coisa?
Então vem Hollywood e um filme subestimado estrelado por Dennis Quaid e Louis Gossett Jr. (Gossett recebeu uma indicação de melhor ator, mesmo o filme não sendo um sucesso).
De uma hora para outra, Barry B.Longyear é o maior nome da Ficção Científica por conta de ENEMY MINE (1979).
Dracs e humanos estão em guerra. Um piloto humano e um piloto alienígena ficam presos em um planeta onde sobreviver é muito difícil, para dizer o mínimo. Eles são forçados a unirem forças para continuarem vivos. O problema é que os Dracs são hermafroditas e Jeriba não precisa de um parceiro para se reproduzir.
Alerta de spoiler para a próxima frase: Devido a morte prematura, o humano se vê forçado a criar a criança alienígena como se fosse sua.
Tanto o livro quanto o filme são essencialmente a história da interação entre homem e alienígena. Não vai ser difícil você chorar.
Enemy Mine - Barry B.Longyear [ Download ]
Fuzzies
H.Beam Piper solidificou sua posição na história da Ficção Científica com a publicação de LITTLE FUZZY (1962).
Os adjetivos mais utilizados pelos críticos deste livro foram ‘delicioso’ e ‘encantador’, e não podemos culpá-los por isso. Os Fuzzies são adoráveis. Mas o romance explora outro importante tema: como definimos a sabedoria? Foram escritas várias sequências, nem sempre pelo mesmo autor – e nenhuma é tão boa quanto o original.
The complete Fuzzie (Little Fuzzie, Fuzzie Sapiens, Fuzzies and other people) - H.Beam Piper
[ Download ]
Groaci
É difícil saber qual dos trabalhos de Keith Laumer é mais conhecido da sua série BOLO, aquela com seu personagem James Bondiano Jame Retief. São várias histórias ao longo de décadas. Independentemente estas histórias de heroicidade e engenhosidade humana em face da incompetência diplomática humana, venderam muito bem por anos. A maioria delas conta com um enredo insidioso por detrás de estranhos alienígenas e principalmente dos Groaci.
Os livros são leves e engraçados e os Groaci são difíceis de se lidar, a não ser quando na coleira. Apesar disso, diversão garantida.
Série Bolo (Honor of the regiment, Bolo Strike, The Triumphant, Old Guard, Cold Steel, Bolo Rising) -Keith Laumer [ Download ]
Ythrians
Poul Anderson é sem dúvida um dos decanos americanos da Ficção Científica – ele possui algo chamado ‘História do futuro’ – um termo associado a Robert A.Heinlein – mas a história futura de Anderson não é tão ordenada. Muitas delas se passam dentro da chamada ‘Liga Polesotechic’ um panorama que abrange 4.000 anos da exploração interestelar humana.
A Liga é levemente baseada no capitalismo dos lordes feudais germânicos (especuladores egoístas e usurpadores) do século 19. Mas e quanto aos Ythri?
THE EARTH BOOK OF STORMGATE (1978) viola um critério. Trata-se de uma coletânea, não de um romance. Mas Hloch, algo como um erudito/historiador, introduz cada história, e cada uma delas está entremeada com as outras, dando ao leitor o sentimento da cultura Ythrian.
A melhor maneira de incluir esta raça na lista é através de EARTH BOOK (os Ythrians contudo aparecem em outros trabalhos de Anderson).
The Earth book of Stormgate - Poul Anderson [ Download ]
Hroshii
É difícil explicar estas criaturas sem revelar coisa alguma sobre o livro, mas tentarei.
Quase que a metade do romance juvenil de Robert A.Heinlein, STAR BEAST (1954) se passa sem que a palavra Hroshii apareça. Mas eles são poderosos e pouco inclinados a negociar com quem quer que seja. Simplesmente não aceitam um ‘não’ como resposta.
Star Beast - Robert A.Heinlein [ Download ]
Forhilnor
Forhilnor são perigosos para os humanos por serem, essencialmente, aranhas gigantes.
O autor canadense Robert J.Sawyer, hoje provavelmente reconhecido por sua FC Hard, nos presenteou com CALCULATING GOD em 2000.
Apesar dos eventos do livro tratarem da chegada dos Forhulnors na Terra e a interação deles com um paleontologista humano, poderíamos dizer que os alienígenas são espectadores...
Sawyer utiliza-se deste encontro para explorar conceitos sobre a Criação, a cosmologia e o por que de existir vida. Ainda assim o leitor irá adorar ter Hollus como convidado para jantar e terá orgulho de tê-lo como amigo.
CALCULATING GOD é um bom livro para se discutir ao redor de uma fogueira.
Calculating God - Robert J.Sawyer [ Download ]
Chtorran
Se você não conhece David Gerrold, provavelmente conhece algo que ele fez – foi Gerrold quem escreveu o famoso episódio ‘The trouble with Tribbles’ da série Star Trek.
Sua produção inclui alguns contos e romances de qualidade variável, mas em 1983 ele publicou o primeiro volume de MATTER FOR MEN, que acabou conhecido como ‘The war against The Chtorr’.
Apesar dos vermes serem a face mais aparente dos Chtorrans, o que temos na verdade é nada mais, nada menos do que a tentativa de toda uma biosfera conquistar a Terra.
Outros livros foram escritos dando sequência a este e para nossa felicidade, alguns são tão bons quanto o primeiro. É preciso ler na ordem certa, acompanhar a infestação Chtorran se multiplicando e a reação dos humanos.
Matter for Men - David Gerrold [ Download ]
Yilane
Outra raça bem conhecida e eu espero que alguém resolva fazer um filme desta obra prima de Harry Harrison, chamada WEST OF EDEN (1984).
Os outros dois títulos que se seguiram a este (com a usual perda de qualidade) compõe um espantoso exemplo da meticulosa criação de alienígenas feita por Harrison
No entanto os Yilane não são alienígenas no sentido da palavra... esta é a história de uma evolução alternativa da Terra. Os humanos estão em um estágio primitivo (caçadores).
Os Yilane por sua vez, são répteis de um metro e meio de altura, eretos e inteligentes, descendentes dos dinossauros. A sociedade é matriarcal e tem sua tecnologia baseada quase que inteiramente na manipulação das ciências biológicas. Eles literalmente plantam e criam animais, que são modificados para exercer diversas funções.
Os Yilanes vivem em zonas tropicais enquanto que os humanos em zonas temperadas, mas independente disso, as duas sociedades vão de encontro uma contra a outra e surge o conflito. Kerrick, o protagonista humano, foi capturado quando jovem pelos Yilanes e cresceu entre eles. A beleza deste livro está em ter permitido ao autor mostrar ao leitor, a incrível riqueza da cultura Yilane. Assim como Kerrick aprende, nós também. E de forma educativa, os leitores acabam conhecendo toda uma cultura alienígena – sem sacrificar a história.
Harrison é errático em relação a qualidade de seus trabalhos – alguns são detestáveis, muitos são obras de um artesão e poucos são realmente maravilhosos – mas sem dúvida ele triunfou com este.
Trilogia Eden (West of Eden, Winter in Eden e Return to Ender) - Harry Harrison [ Download ]
(retirado de http://listverse.com/literature/15-memorable-alien-races-in-science-fiction/)
sexta-feira, 24 de abril de 2009
Constructing a Science Fiction Novel - Roger Zelazny

(...Sylvia Burack asked me for an essay for The Writer, and I did the following piece. A large chunk of it tells of the considerations which went into the composition of my novel Eye of Cat. / don't believe I've ever recorded the things I do and think in writing a book in such detail, before or since. Still, it's a short piece, and for those of you who care about such matters I am including it here.
The late James Blish was once asked where he got his ideas for science fiction stories. He gave one of the usual general answers we all do-from observation, from reading, from the sum total of all his experiences, et cetera. Then someone asked him what he did if no ideas were forthcoming from these. He immediately replied, "I plagiarize myself."...)
Constructing a Science Fiction Novel - Roger Zelazny [ Download ]
Medo e Terror na Literatura Infanto-juvenil brasileira

Pé ante pé
Já há algum tempo, vemo-nos invadidos por um sentimento que ultrapassa muros, vidros e mentes, deixando-nos despreparados para a vida. O medo está presente no nosso cotidiano e estende seus braços por todos os setores de atividades em que nos encontremos. Os perigos do mundo são redimensionados e, por vezes, tornam-se desmesurados, atingidos pelo nosso olhar medroso constante. Jean Delumeau nos revela, em sua História do medo no Ocidente, que, nos primeiros tempos, os medos eram oriundos, fundamentalmente, da Natureza.
Em nossa época, o grande perigo está no próprio homem.
Dentro dessa perspectiva inquietante, por que dar atenção a narrativas que se centralizam no medo? Basta pensar na presença deste sentimento em nossa civilização e, inicialmente, no movimento de fascinação que crianças e jovens têm apresentado, ao longo dos últimos anos, em relação às obras que se fundamentam no susto e no pavor. Nas três últimas décadas, principalmente, multiplicaram-se livros e filmes que provocam sensações de horror e, mais do que isso, fazem do medo o seu tema básico. Disseminam-se pela indústria cultural e provocam sensações certeiras. Um arrepio, um recuo ao toque, uma sensação de náusea, repulsa e pronto: estamos face ao que não desejávamos e é impossível recuar.
O horror, é certo, nos causa ameaça. Em última instância, ameaça o nosso mundo, que já anda para lá de ameaçador. Não é de espantar que as cidades se envolvam em artefatos,amaneiradas cidadelas medievais,para que se afaste o medo, e, é claro, os bárbaros que possam causá-lo Assim, engenhocas são mentadas para que os civilizados se sintam mais seguros, envoltos em redes ou grades, em circuitos fechados. No entanto, por entre possibilidades de balas perdidas e um assalto a cada esquina, podemos nos dar ao luxo de ficarmos assustados com histórias de vampiros, lobisomens, monstros, fantasmas...
Preocupados que estamos (ou somos), nós, profissionais ligados à leitura, procuramos a cada dia novas formas e maneiras de apresentar e escolher textos. Foi assim que surgiu este trabalho - de constatações em sala de aula e perguntas e descobertas ligadas a caminhos de leitura.
Na verdade, une teoria e prática, ao tentar entender alguns dos mecanismos das narrativas embasadas no medo e apresentar alguns textos que levam o leitor a ficar com o coração acelerado, a respiração entrecortada, que lhe causam calafrios e um tremer de pernas.
São muitas as reações físicas a situações de medo que aparecem no cotidiano e se espraiam. Por vezes, transformam-se em narrativas, vindo a se constituir em um circuito de textos que vai sendo acionado oralmente e reafirma as reações de susto. No entanto, o estímulo que deflagra o medo pode ser uma narrativa escrita, capaz de manter o leitor em estado de alerta e lançar adrenalina em seu corpo, abalando suas crenças, pensamentos, representações. Em suma, abalando as relações entre razão e o que não é racional.
Sob o domínio do medo
Que condições provocam essa paixão, o medo? E quais seriam os principais elementos das narrativas de terror? Comecemos por ir no rastro de Howard Phillips Lovecraft. Nascido em 1870 e falecido em 1937, escritor e ensaísta, em seu longo ensaio O horror sobrenatural na literatura (Francisco Alves, 1987), formulou uma estética da história do horror sobrenatural.
O ensaio surgiu encomendado por um amigo, que pretendia publicá-lo em uma revista especializada (1924), e reveste-se de especial importância por apresentar um estudo de um escritor que é também ficcionista - entre as obras de Lovecraft situa-se A tumba, considerada uma obra-prima da literatura de terror.
O discurso de O horror sobrenatural na literatura se constrói ao arrolar obras e mais obras, como se fosse um catálogo, só que fortemente amarrado, numa unidade orgânica. O autor reconta os livros que leu, unindo-os na sua busca principal, que é a da psicologia do medo.
A idéia perseguida ao longo do ensaio é que a emoção mais forte e mais antiga do mundo é o medo, e, dentro dessa emoção, a mais forte seria a do medo do desconhecido. Lovecraft procura mostrar que a atração pelo espectral e pelo macabro exige do leitor uma certa dose de imaginação e capacidade de desligamento da vida cotidiana.
E aponta que relativamente poucos são os que se deixam levar por uma sedução pelo desconhecido.
Nas narrativas de horror, para Lovecraft, o mais importante seria o clima, a atmosfera. Assim, o único teste da literatura verdadeira de horror é saber se suscita no leitor um sentimento de profunda apreensão, uma atitude sutil de escuta ofegante. E esse sentimento se perpetua.
Os textos de terror são muito, muito antigos. O horror cósmico aparece em narrativas do mais remoto folclore; as cerimônias de conjuração de demônios são comuns em rituais antigos; tipos e personagens sombrios de mitos e lendas passaram por séculos, via tradição oral, e tornaram-se parte da herança permanente da humanidade. Por exemplo, a sombra que aparece e reclama o sepultamento de seus ossos, o demônio enamorado que vem raptar a amada, ainda viva, o homem lobo, o mágico imortal, foram narrados em antigas civilizações, passaram e se fortificaram na Idade Média, para continuarem em nosso tempo.
O horror narrado
São muitas as narrativas que causam medo. Contudo, algumas podem ser entrevistas como matrizes, visto que inauguram uma certa linhagem. Provocam influência e continuam, até hoje, vivas, seja pela leitura, seja pelo recontar, seja por sua inserção em outras formas de discursos. Todas surgiram no século XIX: Frankenstein ou O moderno Prometeu (1816) , de Mary Shelley; O médico e o monstro- o estranho caso do Dr. Jeckyll e Mr. Hyde (1885), de Robert Louis Stevenson, e Drácula (1897) de Bram Stocker. Vale a pena recordar que as obras ensejaram mais de cem filmes e, tanto nos desenhos televisivos como nas histórias em quadrinhos, vemos marcas de seu poder. Também nos RPG e jogos de computador podemos encontrá-las.
E não é à toa que comparecem enfeixadas em um único livro publicado pela Ediouro (2002), traduzidas com cuidado por Adriana Lisboa.
Frankenstein apresenta a possibilidade de o ser humano criar vida - em suma, de se acreditar Deus. Fruto da Ciência, a criatura formada pelo Dr. Victor Frankenstein desafia a moral, deixando entrever o questionamento dos limites entre o errado, numa espécie de ética de expansão. A narrativa trata de responsabilidades, entre criadores e criadores, e nada poderia ser mais atual em um época como a nossa,em que a criação de humanos,através da clonagem, tornou-se uma realidade. Drácula aciona a idéia de finitude da humanidade, justamente por apresentar a imortalidade como eixo. O desdobramento obtido a partir do sangue remete ao aspecto sexual, mas o erotismo é velado.
Em O médico e o monstro, o tema da duplicidade comparece e faz com que um médico- perfeito espécime social -acabe por perder seu senso de naturalidade e transforme-se, por meio de uma poção, em um monstro, capaz de crimes brutais. Bem e mal aqui travam uma luta dentro de uma única criatura.
Nos protagonistas das três obras, concentra-se, à maneira romântica, o desejo de descobrir a essência do humano, nelas concretizada a partir de imagens e metáforas. Na verdade, podemos até não querer entrar em contato com essas personagens, mas elas persistem em nossa cultura justamente por mostrarem o desconhecido que nos habita.
Sustos e revelações são artifícios dessas obras, e encontram-se também presentes em lendas do folclore brasileiro, em Não olhe atrás da porta, de Lia Neiva, em Pente de Vênus, de Heloísa Seixas, nas lendas urbanas que circulam na Internet e percorrem as cidades, e em muitos outros textos. Tais narrativas exibem-se, muitas vezes, como rituais e distorções de nossos maiores medos, trabalhados, metaforicamente ou não, no tecido textual.
Entre sapos
A oralidade sempre perseguiu os efeitos de suspense, ao tentar manter a atenção dos ouvintes e suspender o fluxo contínuo do narrar pela quebra de expectativa ou aniquilamento de sensações. Pode, também, utilizar recursos de comicidade para destruir a atmosfera pesada do narrado.
Assim acontece em “O sapo com medo d’água”, narrativa coletada por Câmara Cascudo. Nela, o medo do sapo liga-se à sua esperteza, e, a estratégia do protagonista consiste em acionar o contrário, pelo discurso, da expectativa de seus oponentes. Assim, a cada ameaça, sucede-se a sua desconstrução, (“- Vamos jogar o sapo nos espinhos! -Espinhos não furam o meu couro - dizia o sapo. - Vamos queimar o sapo.- Eu no fogo estou em casa!”: CASCUDO, p. 212), até que se chega ao clímax, onde a água - em que o sapo sente-se à vontade, aparece como elemento ameaçador (“-Me bote no fogo! Me bote no fogo! N’água eu me afogo!” (CASCUDO , p. 213) . Quebra de expectativa, esperteza,um discurso às avessas são elementos que contribuem para a apresentação do ter medo/não ter medo.
São várias as narrativas que se organizam a partir da exibição de situações de medo, que depois são mexidas para que se desconstrua a imagem de temor.
De morte
Afinal, qual o grande medo humano? Da morte, é claro. E, dentre as narrativas que a tematizam, uma é especial.
O escritor Ricardo Azevedo,em sua obra Meu livro de folclore, apresenta o conto “Gaspar, eu caio”, em que o sobrenatural é explorado e denuncia a capacidade de fabular e fantasiar. Os ossos que vão caindo e formando um esqueleto, que irá lutar com o vitorioso viajante, lembram ao leitor a finitude do seu corpo. Aliás, todos os medos se concentram no medo da morte, cultuada e tema recorrente em histórias folclóricas.
Na verdade, o que se deseja é enganá-la, como acontece nos Contos de enganar a morte, também de Ricardo Azevedo. Neles, através da audácia, da perspicácia ou da esperteza, a morte não consegue seu intento. Através das narrativas, a carga simbólica negativa que a morte recebe na tradição ocidental é amenizada por desvio de intenções.
A morte encontra-se também recuperada por Ângela Lago. Como exemplo, a obra De morte!, reescritura do conto folclórico, salpicada de ilustrações de Dürer com interferências. Aqui a Morte também é enganada durante algum tempo, com humor e esperteza. E a escritora prossegue em Sete histórias para sacudir o esqueleto, o que pode correr por sensações de riso ou de pavor por parte do leitor. Afinal,o esqueleto pode ser sacudido pela comicidade ou pela montagem de um contexto que se avizinha e,ao mesmo tempo, distancia-se do conhecimento do leitor, o que cria uma possibilidade de nova percepção de leitura.
Portas e crenças
Tanto em Não olhe atrás da porta como em Histórias de não se crer, a escritora Lia Neiva trabalha com o sólito, o universo corriqueiro, para que sirva de suporte aos elementos que apontam para o estranho. Habilmente mesclados pela autora, em processos de verossimilhança plasmados com eficácia, o usual e o estranho comportam um efeito sobre o leitor.
A via é a do simbólico, e do prosaico cotidiano, do espaço conhecido e ameno irrompe,de chofre,a impressão de estranheza, desequilibrando a ordem aparentemente cristalizada dos seres ficcionais.Tudo é familiar, e, ao mesmo tempo, inquietante.
Dentro desse movimento de sentido, os efeitos inesperados, em alguns contos, levam à revelação e à angústia. A tensão, como efeito do discurso, é a pedra de toque das narrativas. O prazer estético tradicional, que se marca por um sentimento positivo, de belo ou sublime, aqui desvia-se, sugerindo um prazer diferente - o de decifrar,aliado ao empreendimento de penetrar no sentido humano.
No primeiro conto de Histórias de não se crer, ”Um gole de chá”, a ação nos é revelada por intermédio de um bule, em primeira pessoa; que começa por avizinhar-se do estranhamento. “Há muita coisa nesta vida que vai além da nossa compreensão: bruxarias, por exemplo.” (p. 12). Insólito, fantástico, a inquietante estranheza que foi um conceito largamente estudado por Freud - que mostrou que ,em alemão, o estranho, o sinistro se opõe ao que é íntimo, do lar. Da insinuação de que algo está errado advém o grande medo -do desconhecido.
Do mínimo ao máximo; de Heloísa em Heloísa
A literatura de terror, bem como a policial, não encontra grande desenvolvimento no Brasil. Embora tenhamos um imaginário pleno de mitos e lendas calcadas em situações assustadoras, quando se trata de literatura, principalmente a destinada a adultos, são poucos os empreendimentos no gênero.
Torna-se, portanto, de suma importância a presença de duas escritoras no panorama literário atual: Heloísa Prieto e Heloísa Seixas. A primeira, seja através da organização de antologias, seja através da coleta de mitos e lendas, ou de escrita singular, envereda pelos caminhos do sobrenatural e discute a humanidade a partir do que sai dela.
Sua última obra, Rotas fantásticas (FTD, 2003), reúne dez relatos, meticulosamente construídos, tomando por base lendas urbanas que circulam no país. A apresentação gráfica as recobre de mistério e possibilita um reorganizar de sentido pelos leitores, visto que os textos se apresentam como componentes de um fichário, à maneira policial, que deve ser preenchido com indagações. Figuras que povoam o cotidiano dos brasileiros irrompem nos textos. E, nestes novos tempos, a internet dissemina as narrativas, como a ”Loira do banheiro” e paga-lhes o tributo de autenticidade.
A outra Heloísa, a Seixas, recuperou textos de esquecidos escritores de terror e trouxe-os a leitores atuais, entre eles os de Ambrose Bierce e Algernon Blackwood. Paralelamente, cria os seus textos, publicados em livro (Pente de Vênus) ou nas páginas da revista domingo, do Jornal do Brasil. Os textos no espaço do jornal, que se condensam em mínimas palavras, permitem a inserção do inexplicado. O leitor, ao se defrontar com eles, tem outras possibilidades de espreitar o mundo. E em Pente de Vênus, reconhece-se Ann Radcliffe e Edgar Allan Poe. Fundamentalmente, seus contos são recheados de fantasmas, que muitas vezes não são exteriores, mas espectro do próprio viver na dimensão feminina.
Curiosidade e esquiva
O verdadeiro autor de histórias de terror, qualquer que seja a sua dimensão, explora os limites do que as pessoas são capazes de fazer e as fronteiras do que são capazes de experienciar. Assim ele se aventura nos domínios do caos psicológico, desertos emocionais, traumas psíquicos, abismos abertos pela imaginação, histeria e loucura, todos os elementos que ficariam na divisa do bárbaro. As narrativas de terror muitas vezes apresentam imagens e figuras de caos e sofrimento, como se tematizassem várias espécies de “inferno”, tomando a palavra como exemplo de uma condição humana extrema.
Trabalhemos um pouco com as palavras “horror” e “terror”. O horror deriva do latim horrere: fazer o cabelo se arrepiar. Ou seja, horripilar: horrorizar, eriçar os cabelos, arrepiar. Vem do latim eclesiástico horripilare. O que causa o eriçamento dos cabelos.Já terror viria do latim terrorem, do tema de terrere, espaventar, causar grande medo.
Assim, numa abordagem etimológica superficial, poderíamos aventar a hipótese de que o horror é uma reação física, enquanto o terror seria uma reação provocada pelo sobrenatural, pelo desconhecido, a ameaça desconhecida.. De qualquer forma, as narrativas de horror de terror ( ou horror) parecem surgir com a tentativa de encontrar adequados símbolos e descrições para forças, medos e energias primitivas relacionadas à morte, à vida após a morte, punição, mal, violência e destruição.
Convenhamos que, na época em que vivemos, tornou-se difícil encontrar quem não tenha participado de uma experiência de horror. E, caso tenha a sorte de não a ter vivenciado, pelo menos com ela defrontou-se na mídia, haja vista a profusão de imagens violentas que inundam nosso cotidiano via meios de comunicação. Assim ,enquanto sentamos num sofá, cadeira ou poltrona para ver televisão, confortavelmente recostados, entram em nosso lar imagens de guerras, terremotos, assassinatos, em meio a anúncios de máquinas de lavar, iogurtes e carros. Também ao abrirmos os jornais encontramos o mesmo panorama.
Basta lembrar acidentes de carros, em que motoristas quase batem ao tentar olhar o que aconteceu. Podemos ler neste gesto curiosidade ou até mesmo solidariedade humana, mas sabemos que não é bem isto que os move. E nem adianta afirmar que esse é uma reação que visualiza a realidade como ficção. Qualquer que seja o ângulo de abordagem, continua a ser fundamental a idéia de procura pelo desconhecido, e busca pela sensação de susto e repulsa.
E, ainda além, constata-se que as pessoas se sentem fascinadas pelo que lhes causa repulsa.
Olhar o acidente e, ao mesmo tempo, desviar o olhar. Ou, como as crianças, espalmar a mão aberta sobre o rosto e ver entre os dedos, negando e procurando a visão.
Stephen King nos revela, em seu prefácio ao volume Sombras na noite, que o leitor de terror é justamente aquele que não consegue desviar o olhar do acidente. E, ainda, observa que existem narrativas que mostram o próprio acidente, em detalhes (o que pode ser percebido, por certos críticos, como mau gosto) e outras que apenas exibem as ferragens retorcidas, deixando ao leitor a tarefa de imaginar o que aconteceu.
Entre as trevas e o demoníaco, entre rastros e sombras, pulsa o desejo do conhecimento, de desvendar o mistério, de subjugar o mundo, de entender a existência.
E multiplicam-se leitores que as desejam.
MEDO E TERROR NA LITERATURA INFANTO-JUVENIL BRASILEIRA
Rosa Gens (UFRJ)
BIBLIOGRAFIA
AZEVEDO, Ricardo. Contos de enganar a morte. São Paulo: Ática, 2003.
Meu livro de folclore. São Paulo: Ática, 1999.
CASCUDO, Câmara. Contos tradicionais do Brasil. Rio de Janeiro: Ediouro, 1999.
DELUMEAU, Jean. História do medo no Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
KING, Stephen. Sombras da noite. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1984.
LAGO, Ângela.De morte! Belo Horizonte: RHJ, 1992.
Sete histórias para sacudir o esqueleto. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2002.
LOVECRAFT, Howard P. O horror sobrenatural na literatura. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1978.
NEIVA, Lia. Histórias de não se crer. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1987.
Não olhe atrás da porta. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1989.
PRIETO, Heloísa. Rotas Fantásticas. São Paulo: FTD, 2003.
SEIXAS, Heloisa. Contos mínimos .Rio de Janeiro: Record, 2001.
Pente de Vênus. Porto Alegre: Sulina,1995.
quinta-feira, 23 de abril de 2009
Escrevendo Ficção Científica - Vários autores

On the Writing of Speculative Fiction - ROBERT A. HEINLEIN
(...There are at least two principal ways to write speculative fiction--write about people, or write about gadgets. There are other ways; consider Stapledon's Last and First Men, recall S. Fowler Wright's The World Below. But the gadget story and the human-interest story comprise most of the field. Most science fiction stories are a mixture of the two types, but we will speak as if they were distinct--at which point I will chuck the gadget story aside, dust off my hands, and confine myself to the human-interest story, that being the sort of story I myself write. I have nothing against the gadget story--I read it and enjoy it--it's just not my pidgin. I am told that this is a how-to-do-it symposium; I'll stick to what I know how to do...)
Dialog - ISAAC ASIMOV
(Most stories deal with people, and one of the surefire activities of people is that of talking and of making conversation. It follows that in most stories there is dialog. Sometimes stories are largely dialog; my own stories almost always are. For that reason, when I think of the art of writing (which isn't often, I must admit) I tend to think of dialog.
In the Romantic period of literature in the first part of the nineteenth century, the style of dialog tended to be elaborate and adorned. Authors used their full vocabulary and had their characters speak ornately.
I remember when I was very young and first read Charles Dickens's Nicholas Nickleby. How I loved the conversation. The funny passages were very funny to me, though I had trouble with John Browdie's thick Yorkshire accent (something his beloved Matilda, brought up under similar conditions, lacked, for some reason). What I loved even more, though, was the ornamentation-the way everyone "spoke like a book."...)
You and Your Characters - JAMES PATRICK KELLY
(Once I admitted to myself that I had the raging hunger to write, I gobbled up every book on the subject I could find. I still have most of them; I've just gathered fourteen and stacked them beside my computer monitor for inspiration. Each has a chapter on characterization. If you're looking for technical jargon, have I got some used books for you!
It seems that there are all kinds of characters: developing characters, static characters, round characters, fiat characters, cardboard characters (oh, are there cardboard characters!), viewpoint characters, sympathetic characters, unsympathetic characters, stock characters, confidantes, foils, spear carriers, narrators, protagonists, antagonists. But that's not all; characters can play many roles. There are fiat, sympathetic, static confidantes, like the unnamed first-person narrator in H. G. Wells's "The Time Machine." Or developing, fiat, unsympathetic antagonists, like HAL in 2001, A Space Odyssey. Still with me?...)
Seeing Your Way to Better Stories - STANLEY SCHMIDT
(The first time I met Kelly Freas, the renowned science fiction artist, he had lust published a series of posters to promote interest in and support for the space program. The entire series was displayed on walls throughout the house, and Kelly was asking all the guests at a party which posters they thought most effective. He found a fascinating pattern in the results. "Verbally oriented" people always picked the one showing a moon rocket, three ghostly sailing ships, and the phrase, "Suppose Isabella had said no..." "Visually oriented" people always picked the one with no words, just a picture of a rocket "hatching" from an Earthlike egg.
Writers, by the nature of their work, tend to be "verbally oriented." But they would do well to realize that many of their readers are less so. Most readers do not pick up a novel or short story to admire the author's cleverness in turning a phrase, but to experience vicariously something they cannot experience directly. Your job as a writer is to make your reader forget that he or she is reading and give him or her the illusion of being in the story, seeing and hearing and smelling and feeling what's happening to your characters.
Hence the oft-repeated dictum: "Show, don't tell."...)
Turtles All the Way Down - JANE YOLEN
(The famous philosopher Will James had just finished giving a lecture on the solar system in Cambridge, Massachusetts, when he was approached by an elderly admirer. She was shaking her head and her umbrella and looking very stern.
"Mr. James," she admonished him, "I am shocked by your notion that we live on a ball rotating around the sun. That is patently absurd. "Politely, James waited, inclining his head toward her.
"We live on a crust of earth on the back of a giant turtle," the Grande dame announced.
James, ever gentle, asked, "If your.., um... theory is correct, Madame, what does this turtle stand upon?"
"The first turtle stands on the back of a second far larger turtle, of course," the old woman replied. James lifted his hand. "Ah, Madame, but what does this second turtle stand upon?"
The dowager’s eyes were bright. She laughed triumphantly, "It’s no use, Mr. James--it’s turtles all the way down!"
And so it is with writing fantasy--)
Learning to Write Comedy or Why It's Impossible and How to Do It - CONNIE WILLIS
(Writing comedy is a real pain, made more painful by two persistent myths. The first is that writing comedy is a hoot, something people do for fun when they've written too much serious stuff, and that the main problem is to stop laughing so hard you can't type. While reading comedy may be an amusing experience, writing it is the same pain in the neck as any other kind of writing, only more so. It's a lot like ballet--on stage it's all pink tulle and graceful lifts, but in practice it's mostly sweat, corns, and ripped ligaments. Ditto comedy, especially the corn part.
The second myth (which apparently everybody believes) is that comedy can't be analyzed, that looking at it too closely kills it. This ridiculous notion seems to have evolved from the deadly results of attempting to explain a joke, though it does not take into account the fact that the reason the joke had to be explained in the first place was that it wasn't funny.
Wherever these myths came from, they're just not true. The Marx Brothers, those supposedly spontaneous crazies, used to write the scripts for their movies and then take them on the road to try out the humor on an audience, revise and rework the routines, polish up the jokes, and look for dead spots. It didn't kill their comedy, did it?...)
Good Writing Is Not Enough - STANLEY SCHMIDT
(Only a month after it appeared in Analog in mid-December 1985, S. C. Sykes's short story "Rockabye Baby" was well on its way to nomination for a Nebula, one of the two most prestigious awards in science fiction. It also had been picked up for a "Best of the Year" anthology, and was doing quite nicely in Ahalog's own annual reader poll. Another story attracting much favorable comment in that poll (it was our readers' favorite short story of the forty-two we published last year) and elsewhere was Stephen L. Burns's "A Touch Beyond" (January 1985). "A Touch Beyond'' was a first sale; "Rockabye Baby," a second. Editors do buy, and successfully publish, stories from new writers.
Yet, a magazine like Analog receives so many submissions that it has room for only one or two percent of them. Many stories are rejected not because of anything conspicuously wrong with them, but simply because nothing sufficiently special about them makes them stand out from ninety-eight percent of the competition.
What makes stories like "Rockabye Baby" and "A Touch Beyond'' stand out? How can you make your stories do the same? The key words are imagination, discipline--and the first word in "science fiction.")
The Creation of Imaginary Worlds - POUL ANDERSON.
(This is an infinitely marvelous and beautiful universe which we are privileged to inhabit. Look inward to the molecules of life and the heart of the atom, or outward to moon, sun, planets, stars, the Orion Nebula where new suns and worlds are coming into being even as you watch, the Andromeda Nebula which is actually a whole sister galaxy: it is all the same cosmos, and every part of it is part of us. The elements of our flesh, blood, bones, and breath were forged out of hydrogen in stars long vanished. The gold in a wedding ring, the uranium burning behind many a triumphantly ordinary flick of an electric light switch, came out of those gigantic upheavals we call supernovas. It is thought that inertia itself, that most fundamental property of matter, would be meaningless--nonexistent--were there no stellar background to define space, time, and motion. Man is not an accident of chaos; nor is he the sum and only significance of creation. We belong here...)
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Clones, autômatos e utopias

Clones
O filme A. I. Inteligência Artificial , de Steven Spielberg, é a história de um clone triste. A novela O clone, de Glória Perez, com fantásticas imagens e cenários do diretor Jayme Monjardim, é a história alegre de um clone triste. O Fausto, de Goethe, publicado, originalmente, em dois volumes com um longo intervalo de tempo entre eles (1808, o primeiro e 1833, o segundo) é a história trágica de um clone cômico. O Frankenstein, ou O prometeu moderno, de Mary Shelley, que o publicou anonimamente, em 1818, quando tinha apenas 19 anos, é a história trágica de um clone trágico. De comum, em todas essas obras e histórias de épocas tão diferentes, o mesmo mito do descontentamento com as limitações da existência e da busca de sua superação com a criação de outras vidas, sobre-humanas.
Ovídio, poeta latino que viveu no século I, antes e depois de Cristo, celebrizou em suas Metamorfoses o mito, a lenda e o personagem de Narciso, que tanta importância teria para o desenvolvimento teórico, conceitual e metodológico da psicanálise tanto tempo depois. Narciso repeliu o amor das ninfas, Eco entre elas, que por ele se apaixonaram. Tamanha era sua beleza que ele próprio, ao ver sua imagem refletida nas águas claras de uma fonte, por si mesmo também se apaixonou. Como não conseguia abraçar o objeto evanescente de seu amor, tentou, desesperado, desgarrar-se de si mesmo até dilacerar-se e, sangrando, perecer. Ao buscar seu corpo para colocá-lo na pira fúnebre, suas irmãs, em seu lugar, só encontraram a flor em que ele havia se transformado. Narciso é a história liricamente triste de um clone impossível.
Há outras histórias da mesma família, como aquela que se conta no romance O estranho caso do dr. Jekyll e mr. Hyde, de Robert Louis Stevenson, publicado em 1886, ou esta outra, de H. G. Wells, A ilha do dr. Moreau, de 1896, ou até mesmo aquela bem mais antiga narrada na Bíblia, no Velho Testamento, no livro de Jó, em que Deus permite ao Diabo a “clonagem” do Jó rico e feliz no Jó pobre e infeliz para a dura provação de sua crença e de sua devoção ao Senhor.
A transformação de um em outro e o retorno à identidade original, enriquecida pela viagem do estranhamento de si mesmo e da alteridade, são temas recorrentes nos mitos clássicos da Antigüidade e mesmo nos mitos mais modernos do ciclo de novelas de cavalaria, na Idade Média, ou no do médico-cientista que vende a alma ao diabo, também na Idade Média e na Renascença e que, além da complexa beleza, da versão de Goethe, culmina, no século XX, no vigoroso romance de Thomas Mann, Doutor Fausto.
Por outro lado, a saga de gêmeos no imaginário da cultura, as mais diversas e antigas, acrescenta ao tema da duplicidade elementos que reforçam e aprofundam as indagações metafísicas do homem, através dos tempos, sobre a singularidade de seu destino comum.
O tema do espelho, em particular do retrato que representa o mesmo, sendo, no entanto, o outro, e que tem no conto “O espelho”, de Machado de Assis, um de seus momentos altos, propicia no romance de Oscar Wilde, O retrato de Dorian Gray, de 1891, tanto a definitiva notoriedade do autor como a sua plena realização literária. Trata-se, como se sabe, de uma narrativa filosófica, cujo protagonista é jovem, belo, dedicado ao prazer e ao culto da beleza. Recebe de um amigo pintor o retrato que espelha, luminoso, tudo isso. Angustia-se com a idéia de que um dia perderá tudo e, por um pacto e um voto, consegue transferir para o quadro as marcas do tempo e do envelhecimento, mantendo-se em eterna e fresca juventude. Abandona a angelical Sibyl e acaba assassinando o amigo pintor, que desaprova seu comportamento e recusa sua conduta. Atraído pela própria imagem no retrato, assiste, às vezes, à degradação de si próprio no outro, representado. Numa dessas vezes, contemplando o rosto degenerado de seus vícios, no retrato, dilacera-o com um punhal, tombando morto no instante mesmo em que sua imagem é destruída por ele próprio.
Há semelhanças entre o livro de Oscar Wilde e Dr. Jekyll e mr. Hyde, de Robert Louis Stevenson, publicado poucos anos antes, assim como há também com outras obras românticas e pós-românticas, como é o caso de La nuit de décembre A noite de dezembro , de Alfred de Musset, e, mais especialmente, com La peau de Chagrin A pele do Onagro, de Balzac, este último ainda mais carregado de simbologia dual, ou de dualidade simbólica, por ter sido o último livro lido por Freud antes de sua morte, em 23 de setembro de 1939, conforme nos relata Peter Gay em sua biografia famosa do fundador da psicanálise.
A eterna busca do fogo sagrado da vida nos torna perseverantemente teimosos, do ponto de vista epistemológico, e teimosamente ridículos, do ponto de vista dos malogros a que nos condenam os mitos e suas recriações literárias, em diferentes épocas. Nem por isso deixamos de continuar Prometeus e de transgredir os limites que a ética e as religiões estabelecem para cada época, como condição de harmonia social, de felicidade individual e de sábia ignorância.
O “pecado” da curiosidade do conhecimento levou o homem, no decorrer de sua história moderna, a sofrer alguns abalos fundamentais que chacoalharam a sua vaidade e o empurraram para quedas simbólicas, no sentido bíblico, irrecuperáveis: a primeira, entre elas, o tira, na Terra, do centro do universo, com a revolução copernicana; a segunda, arrebata-o da linhagem divina, com a teoria da evolução das espécies, de Darwin; a terceira, composta de dois trancos, praticamente simultâneos, retira-lhe a condição de sujeito da história, no choque com a teoria marxista, e desaloja-o de seu próprio eu, para revelá-lo estranho e conflituoso consigo mesmo, com a criação, por Freud, da psicanálise, ele próprio arauto dos sucessivos tombos acima enumerados.
Mais recentemente, foi anunciada, como resultado do seqüenciamento dos genes que compõem o genoma humano e daqueles que compõem o genoma do chipanzé, uma diferença quantitativa, muito pequena, de genes entre os dois, o que motivou cientistas a proporem uma revisão da classificação do chipanzé, para incluí-lo entre os representantes da linhagem do gênero Homo, sabido ou ignorante, pouco importa no caso em questão.
O DNA foi, há cinqüenta anos, a última grande e revolucionária descoberta científica da humanidade, abrindo novos caminhos para o desenvolvimento das ciências da vida e para o nascimento de áreas multidisciplinares de estudo e pesquisa, antes desconhecidas. A própria biologia, com o desenvolvimento da genômica e, posteriormente, da proteômica, conheceu transformações que têm mudado o seu paradigma teórico e metodológico, aproximando-a, sob esses aspectos, das chamadas ciências duras, para as quais a materialidade de seu objeto e a quantificação de seu conhecimento são condições constitutivas do rigor dos procedimentos e da verdade dos resultados produzidos pela investigação.
Quando, algum tempo atrás, foi anunciada por cientistas da empresa Advanced Cell Technology (ACT) a clonagem de um embrião humano, o rabino Sobel, de São Paulo, declarou na televisão não ser contra os avanços da ciência nesse campo. O problema, disse ele, é saber como, onde e quando parar. O rabino tem razão, mas, na verdade, o enigma da ciência só se completa quando a esfinge do conhecimento pergunta também: “Por que e para que parar?”.
Jose Cibelli, sempre no esforço de atenuar as críticas às declarações da ACT, disse que o objetivo da empresa era reverter o tempo e, desse modo, retardar o envelhecimento e alongar a vida. Reencontramos aqui o mito da longevidade e da eterna juventude que já havíamos reconhecido em O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, e que aparece também num folhetim gótico de Balzac, O centenário, ou ainda no excelente O perfume: História de um homicida, do alemão Patrick Süskind, de enorme sucesso no mundo todo, desde que foi lançado, em 1985. Tanto em O centenário como em O perfume, vida sobre-humana, ou a sobre-humanidade da essência da vida, alimenta-se do vigor, da juventude e da beleza de outras vidas humanas, numa espécie de vampirismo sem caninos e sanguessugas.
Alguns autores distinguem uma ética da clonagem de uma ética na clonagem, argumentando que a maior parte das discussões éticas que cercam o tema até agora são externas a ele. Mas será a ciência capaz de representar-se a si mesma em fóruns distintos ao dela própria? Pode o conhecimento conhecer-se a si próprio, ou a mente representar-se a si mesma, ou a consciência ser consciência da própria consciência? Não há ciência sem simulação, tampouco conhecimento sem linguagem e representação. Os símbolos fazem a mediação do mundo e do conhecimento do mundo. A unidade e a unicidade do ser humano são os fundamentos de sua humanidade e a vida é sagrada porque morre e renasce em diferenças e dessemelhanças.
O humanismo feroz e a humana ferocidade da literatura de Hemingway ressoam na epígrafe clássica de Por quem os sinos dobram? : “Nenhum homem é uma ilha... Eles dobram por ti”.
A banalização do mistério da vida, posto em gôndolas eletrônicas da internet, banaliza a morte, a violência, o crime e faz terra arrasada da singularidade da existência de cada ser humano em sua infinita provisoriedade. Dessacraliza a vida.
Tudo o que o homem pode fazer ele fará, mesmo que a custo de muitas vidas e muito arrependimento tardio, como foi o caso dos autores da bomba atômica. Cedo ou tarde, o homem clonará o homem e com mais facilidade do que fez a bomba, porque os aparatos tecnológicos e os custos envolvidos são mais simples e instaláveis numa clínica particular. É um risco para o qual a sociedade não está ainda preparada, a não ser pelo medo mítico das representações que conhecemos, e quem sabe pela “sabedoria da repugnância” de que nos fala a bioética de Leon Kass. Será suficiente?
No Olimpo, dizem os deuses que não! Que sim, dizem seus semelhantes na Terra!
Roboamor
A solidão começava a incomodá-lo. Não em si, por si mesma, de modo absoluto, mas por ter de compartilhá-la com estranhos. E mais do que estranhos, estrangeiros no país de sua geografia cotidiana, nos acidentes de suas divagações, no roteiro de sua permanência.
Na casa ampla e abandonada da intenção de qualquer outro abandono senão o seu, livros espalhados, empilhados, dispostos e cruzados em estantes como em um universo.
Era de propósito, como ele costumava cortar qualquer pergunta admirada do estranho-estrangeiro que ocasionalmente freqüentava e invadia sua solidão. E era mesmo, como ele acreditava, dessa forma, reproduzir na escala da casa uma espécie de aleph da biblioteca ilimitada e periódica que a leitura do conto de Borges lhe inspirara.
Outra presença literária e, nesse caso, também cinematográfica, no imaginário de seu quarto, bem na parede acima da cabeceira da cama era a reprodução em pôster do quadro do aventureiro Giacomo Girolamo Casanova com sua amante-autômato sobressaindo num pedestal sobre um fundo do mar de Veneza congelado. A boneca dançarina mecânica representada por Adele Angela Lojodice no filme de Fellini que ele vira na Itália em 1977, no mesmo ano de seu lançamento, sendo a conquista final deste Casanova protagonizado por Donald Sutherland, conquistara-o definitiva e silenciosamente.
Sonhara, várias vezes, com a materialização da boneca e com o aconchego frio de sua presença sem perguntas, sem respostas.
Evitava o quanto podia as visitas de quem quer fosse, no limite das necessidades e das fraquezas insuperáveis.
Tentara algumas vezes compensar o que ele próprio chamava, com ironia e certa dose de desprezo, os dilemas da carne, recorrendo, na internet, a sítios de comércio eletrônico de bonecas infláveis. Adquirira vários modelos por preços que variavam, do mais barato, de vinte dólares, ao mais cara, perto de duzentos dólares. Acompanhava com avidez curiosamente gulosa as novidades, os últimos lançamentos, os atributos, os movimentos, os prazeres anunciados. Todas as iniciativas resultavam, contudo, frustrantes em relação à expectativa de que pudesse ter, senão a dançarina de Fellini, ao menos um simulacro de sua discreta e ausente compreensão. Queria a boneca mecânica. Se Casanova a tivera no século XVIII, com mais razão ele poderia tê-la no século XXI com a revolução tecnológica, os avanços da informática, da mecatrônica, da robótica. Por que não uma lovedoll, uma boneca do amor, uma robolove, uma roboamor? Que soubesse e pudesse não só dançar, mas estar junto, fazer-lhe companhia, acompanhá-lo à mesa, ouvir suas lembranças, lembrar com ele detalhes esquecidos de sua história de vida, ajudá-lo a elegê-los, refiná-los, purificá-los do excesso de peso da realidade, ser amada, amar. Vesti-la, cortejá-la, despi-la à noite devagar e apaixonado, deitar-se com ela sob as cobertas no acalanto efusivo das investidas sem contestação! Tê-la e não ser incomodado. Estar com ela e não se sentir acompanhado. Seria isso possível? Como consegui-lo? Em que loja comprá-la? Em que oferta eletrônica, em que comércio virtual torná-la realidade?
Inútil querer encontrá-la pré-fabricada e pronta para o amor. As que adquirira, todas, mesmo as mais caras com dispositivos eletrônicos de mobilidade e aquecimento nas partes sexuais, embora silenciosas, como queria, eram também idiotamente quietas na sua indiferença. Era preciso construí-la, fazê-la original, singular, exclusiva. Mas como? Percorria as prateleiras da biblioteca caoticamente distribuídas pela casa e lia. Lia com paciência feroz e obstinada. Os clássicos, os modernos, os cultos, os vulgares, os refinados e os banais. Lia em busca da idéia, do conceito, da hipótese fecundante, do método, do manual de procedimentos.
Às vezes afloravam-lhe à pele pruridos, também éticos. Reforçados, quem sabe, pelas infinitas discussões e debates sobre o uso de embriões humanos para as pesquisas com células-tronco e pela certeza e o temor correspondente de que, mais dia, menos dia, tal como ocorreu com a ovelha Dolly, na Escócia, com a bezerra Vitória, no Brasil, e com outros animais em outras partes do mundo, o homem clona o homem, e aí adeus, natureza humana! Mas isso vinha e ia como coceira, até gostosa de coçar.
Do Frankenstein, de Mary Shelley, suas versões para o cinema, aos autômatos vegetais, eletrônicos, escatológicos ou quiméricos biodegradáveis, lia, relia, via, revia, devorava tudo. Lia autores e críticos, conhecia as fases da evolução da ficção científica estabelecidas por mestres como Asimov e estudiosos como Campbell para o gênero e não raras vezes acreditava estar perto de descobrir a palavra mágica, a fórmula, a equação, o truque que fosse, que o aproximaria, enfim, do Graal de sua existência.
Mas o tempo passava e nada de encontrar o artifício de seus sonhos, o estranho e familiar objeto do desejo, ele próprio também passando com o passar do tempo. De tudo o que lia e via, o mais recorrente era que se dedicava a assistir, por vezes seguidas, ao filme de Fellini e a fazer avançar e retroceder, em vídeo ou em DVD, as cenas da boneca mecânica e do amor que a Casanova por ela lhe sobra. Admira a atriz por seu desempenho automatizado e pela perfeição da maquiagem que faz dela uma imitação de estátuas com movimentos descontínuos como num filme cuja seqüência de quadros fosse projetada num ritmo de diapositivos em slides. Tinha certeza de que era ela a verdadeira musa inspiradora de todos os artistas anônimos espalhados pelos passeios das grandes cidades do mundo, imitadores de estátuas que, assim imitadas, imitam o homem que as imita. A vida imita a arte, que imita a vida, que imita...
Ocorreu-lhe que a solução poderia estar onde a via há tanto tempo e não a enxergava. E se suas convidadas ocasionais, ou mesmo uma mais duradoura, quem sabe permanente, pudessem ser preparadas para, estando juntos, estarem como autômatos. Isto é, estar sem estar ou sem parecer estar, ou só parecer, sem estar. Ser simulacro, simulação do ser.
Precisaria ter aprendido com o chefe da equipe de maquiagem, Rino Carboni, do filme de Fellini, a arte da transformação de Adele Angela Lojodice no amado robô de Casanova. Isso não sendo mais possível, dedicou-se, com zelo artístico, disciplina literária e método experimental, a estudar e a treinar a arte da transformação de si próprio para poder depois executar a transformação do outro. Antes de começar a exercer a robotização de suas ou de sua eleita, precisava preparar-se e estar tecnicamente apto para o pleno exercício da maquiagem que o levaria, chagada a hora, à metódica construção de seu robô amoroso, mesmo que sob o disfarce mascarado da ilusão passageira. E em si mesmo treinava. E quanto mais adestrado estava, mais exigente ficava, olhando por horas e horas, diante do grande espelho da sala, que antes os livros ocultavam, a imagem mutante que o ofício de transformar-se impunha à memória de seu dia-a-dia. Corrigia-se. Um detalhe aqui, outro ali, um aperfeiçoamento de linhas de um lado, um endurecimento de traços do outro e, assim, da mesma forma que o autômato nascia, ela também morria e se modificava.
Com os exercícios que lhe tomavam os dias, depois as noites, depois ainda os dias e as noites, foi perdendo a concentração do objetivo e abandonando, por desvio e esquecimento, o objeto de desejo que o trouxera à prática exaustiva da transformação do outro em si mesmo. De vez em quando voltava a assistir ao filme de Fellini. Deixava-o agora, correr, contudo, ao longo de sua comprida duração sem o vai-e-vem obsessivo das seqüências eleitas da boneca bailarina e do conquistador sem triunfo. Tinha também nessas ocasiões um sentimento novo, uma desconfiança talvez de que sempre estivera enganado sobre a verdadeira identidade das personagens que, no filme, por uma trapaça do gênio malicioso do cineasta, dissimulava, no herói apaixonado pelo autômato, a melancolia automática da razão e, na boneca mecânica dançarina, o movimento quebrado do amor constante, sem razão.
Utopias
Ao sair de casa, naquela manhã, deste ano distante do senhor, 2050, não me dei conta, de imediato, de que estava numa terra estranha. Mais estranha ainda porque parecia familiar. A mistura de estranheza e familiaridade, depois, ou melhor dizendo, antes, percebi, dava-se particularmente pelo fato de estar na minha cidade, na minha terra, no meu país e, ao mesmo tempo, não me ver reconhecido nos cumprimentos que trocava, automaticamente, com os transeuntes daquela manhã de esperança e desespero.
Ao sair de casa, naquela manhã, daquele ano distante do senhor, 2050, não se deu conta, de imediato, de que estava numa terra estranha, num futuro próximo, num espaço hostil para onde havia sido teletransportado na noite anterior. Por sua vontade e contra ela. Por sua vontade, porque, na curiosa sofreguidão de seus vinte anos, não via a hora de conhecer o que era proibido para os que, como ele, não portavam desde o nascimento o gene da distinção. Contra a sua vontade, porque, ao ser descoberto em seus anseios, pela leitura digital cotidiana de sua transpiração, como era rotina no alojamento dos assim chamados “despossuídos genéticos”, o guarda de zelosos programou-lhe, como castigo e susto preventivo, a teletransportação ora em curso, para expô-lo aos riscos do inusitado e, desse modo, aplacar-lhe o desejo do inominável.
Frederico Otávio Ribeiro jamais seria o mesmo, nem antes, nem durante, nem depois da viagem de seu alheamento.
Ao sair de casa, na manhã cinzenta deste dia, comum como outros dias, do calendário em curso – ano do senhor, 2050 –, ele não podia deixar de pensar na aventura de ter podido escapar ao controle dos zelosos e ter ido visitar na noite anterior uma colônia de excluídos nas franjas da Colina dos Remitentes.
Passara a noite com eles e embebedara-se com seus rituais e práticas, de que só tivera conhecimento pela leitura clandestina dos diários de seu avô, descobertos enterrados no jardim virtual do sítio de preservação ambiental, no clube freqüentado por sua família.
Caminhava com a sensação de algo travado nas suas relações com os planos de futuro que lhe eram ensinados a cada dia na escola vocacional de líderes, que todos, como ele, distinguidos pela seleção genética dos diretores da vida, freqüentavam na idade da consolidação de suas virtudes sociais.
Alguma coisa como que se rompera.
Um frasco de vinagre, um vinho envelhecido pela coroa de borra branca, um amargo no fundo da língua, perto da garganta, um travo de sensação – sentimento era a palavra nos escritos do avô – de que já não seria possível levar-se no presente com a mesma tranqüilidade aplastada pela certeza confiante de futuros tranqüilizadores.
Era o passado que nesse momento o diferenciava, tornando-o igual, em detalhes e em conceitos, a si mesmo, visto de fora e de dentro, em situações que, não tendo vivido de fato, no entanto, reconhecia, e nelas se reconhecia pela vivência narradora do avô no estilo despretensioso do simples registro da vida.
Essas três breves aberturas de narrativas com foco no futuro, inventadas ao acaso e como exercício para o tema de ciência e ficção, ou seja ficção científica, ou ainda ciência fictícia, têm em comum um traço que considero constitutivo do gênero: a tristeza inerente ao impossível. São tristes os heróis das utopias por duas razões fundamentais. A primeira é que vivem, no futuro narrado, a transgressão sem conseqüências (a não ser para confirmar a sua própria impossibilidade) de um presente ameaçador das histórias do passado. A segunda razão é que, sendo único, mesmo que numa alegoria, o herói vive no limite de querer realizar o que sua consciência cidadã, seu alter ego, se se quiser, diz-lhe para não ousar fazer mesmo que tenha poderes para tanto: mudar o passado, alterando o rumo da história, interferindo na série dos acontecimentos, reordenando-lhes o sentido e mesmo usurpando-os da morte.
Há coisa mais triste do que a cena em que, num dos filmes do Super-Homem, inconformado com a morte da namorada, o homem de aço, torturado pelas suas responsabilidades éticas e civis, não consegue deixar de se levar pelo amor e, fazendo a Terra girar em rotação contrária, transgride a razão por causa da mulher? E a música de Gilberto Gil que também se chama “Super-Homem”, poderia ser mais bonita e mais triste?
Tristes são os heróis das duas mais famosas utopias escritas no século XX: Admirável mundo novo, de Aldous Huxley, e 1984, de George Orwell, a primeira publicada em 1932 e a segunda, em 1949. Num caso e noutro, quer pelo controle genético, quer pelo controle político, as sociedades que nos livros se desenham são altamente controladas e artificialmente felizes. Os heróis, o selvagem, no primeiro, e Winston Smith, um programador da história no Ministério da Verdade, no segundo, vivem, a seu modo, os contrapontos da ruptura subjetiva que a ordem estabelecida provoca em cada um deles pela exposição de suas vidas e experiências ao antigo e ao novo, alternativamente, ao passado e ao presente, à memória e ao sem-memória, ao amor e ao total esquecimento.
A mais famosa utopia de que se tem notícia é a que está contida na obra de Thomas More, que imortalizou a palavra no próprio ato de sua criação. No livro Utopia, publicado pela primeira vez em 1516, a ilha do lugar nenhum, num tempo sem coordenadas, é, ao mesmo tempo, uma crítica à situação econômica da Inglaterra de seu tempo e a idealização de um Estado político que poderia ser alinhado como matriz de idéias que muito tempo depois seriam criticadas por Marx como próprias do socialismo utópico em oposição ao seu, assim chamado, socialismo científico. Sir Thomas More, como se sabe, foi um grande intelectual humanista e político, mas caiu em desgraça por recusar-se a aceitar o divórcio do rei Henrique VIII da rainha Catarina de Aragão para permitir seu casamento com Ana Bolena. Acusado de alta traição, confinado na Torre de Londres, foi executado em 1535, e posteriormente, passados mais de três séculos, em 1886, beatificado e, em seguida, já no século XX, em 1935, sob o papado de Pio XI, a quatro séculos de distância de sua morte, tornado santo pela Igreja Católica Apostólica Romana. Pode haver trajetória de maior reconhecimento e sucesso e a um só tempo de tão reconhecida tristeza e melancolia do que essa?
De maneira geral, as utopias da ficção, científica ou não, têm em comum a idealização de um sistema social sem propriedade, ou, ao menos, sem a sua perpetuidade, de modo que o estado de feliz beatitude dos “utopianos”, através dos tempos, venha, desde A república, de Platão, anunciado sobre a suposição de igualdade entre todos, a menos dos escravos, é claro, e sem os móveis materiais da ganância e das desvirtudes suas aparentadas. Basta lembrar que, na ilha de Thomas More, o ouro e a prata não têm utilidade na sociedade dos felizes, a não ser como material para confeccionar grilhões para os escravos, situação a que, como punição e castigo, são levados os prisioneiros de guerra, os adúlteros e os criminosos.
Nessa linha de desprendimento material de que faz apanágio o desapego da propriedade, a obra de Morelly, Brasiliade, de 1753, influenciada pelo trabalho de Thomas More, não só aponta a propriedade privada como o mal maior da humanidade, como considera que os meios de produção, no caso agrícolas, devem estar sob total controle do Estado, apenas tolerando-se a religião e preservando o papel fundamental da família na estrutura do tecido social.
Nessas e em outras utopias, o controle da sociedade é, como dissemos, ou político ou científico, quando não os dois a um só tempo, e muito mais raramente e mesmo nunca de política científica ou de ciência política, que são, na verdade, invenções mais recentes, uma para tentar dizer socialmente o que deve ser a ciência e outra para tentar explicar como é a política. São, de qualquer forma, menos utópicas do que os estados que projetam ou do que aqueles cujos mecanismos de funcionamento tentam expor à compreensão pública dos cidadãos que neles vivem. Utopia?
Voltando às nossas ficções, o traço de tristeza que lhes é constitutivo tem a ver com a utopia do igualitarismo social que ou apregoam, no caso das utopias clássicas e das que delas derivam, ou que desenham, com feio horror, em tons cinzentos de monótona mesmice, como é o caso de Admirável mundo novo e 1984. Num caso, pinta-se o paraíso perdido a que se quer voltar; no outro se projeta, em negativo, o paraíso que já se perdeu, sem, contudo, a consciência da perda e da própria impossibilidade de sua recuperação.
A impossibilidade de sucesso da aventura traz a tristeza do esforço desgastado da humanidade. E os heróis são tristes, as sagas são tristes, as situações de convivência são tristes porque triste é o peso incomensurável da queda e da perda mítica e definitiva do estado de graça original em que Deus, no Gênesis, pôs a mulher e o homem no Éden, deixando-os, entretanto, à sorte de sua curiosa fascinação e horror pela árvore da vida e pela árvore do conhecimento.
Os paraísos assim idealizados, qualquer que seja o sinal, positivo ou negativo, são, na verdade, infernais, ou porque se está neles ou porque se quer sair deles, ou ambas as coisas, sendo que o movimento para o futuro é quase sempre a afirmação metafórica da idealização do passado e do esforço vão de fazê-lo acontecer novamente, inutilmente.
Mesmo que pela escritura poética de grandes autores como Asimov, Arthur Clarke, Ray Bradbury, só como exemplo, nós nos convençamos e sejamos até mesmo persuadidos de que em algum ponto de cruzamento de nossos passados, individuais e coletivos, alternativas de rotas se apresentaram para outros futuros que não esses que conhecemos na realidade do presente em que vivemos.
Mas essas rotas não foram seguidas, e a escolha feita, por determinação de leis ou pelo acaso de circunstâncias, foi única, na singularidade positiva de sua afirmação e múltipla na afirmativa da negação da escolha, feita também da ausência paradigmática de todas as alternativas negadas.
No fecho do livro As cidades invisíveis, Italo Calvino enumera no atlas do Grande Khan “mapas de terras prometidas visitadas na imaginação mas ainda não descobertas ou fundadas”, e que são, na verdade, utopias desenhadas por diferentes autores, como é o caso de Thomas More, de Tommaso Campanella com sua Cidade do sol, do marquês de Sade com sua Tamoé no livro Aline e Valcourt, e de outros mais. O Grande Khan folheia seu atlas e percorre os mapas de cidades ameaçadoras, aquelas que “surgem nos pesadelos e nas maldições”: Enoch, Babilônia, Yahoo, Butua, Admirável mundo novo. No diálogo final, diz o Grande Khan: “É tudo inútil, se o último porto só pode ser a cidade infernal, que está lá no fundo e que nos suga num vórtice cada vez mais estreito”. E Polo:
O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada, exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o quê, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço.
Para onde aponta, no atlas, o diálogo de Marco Polo e o Grande Khan? E no mapa apontado, para que ilha, continente, cidade, abrigo volta-se a flecha indicativa do caminho a seguir por cada um de nós, pela sociedade, pela humanidade em trânsito? No livro de Italo Calvino, pode-se dizer que contar, narrar o invisível é mostrar, revelar o aparente, de modo que, ao falar do que não existe como geografia real, o autor nos leva a descobrir a realidade geográfica do mapeamento de nossa inserção no mundo como acidente permanente, pelo acontecimento, e como permanência incidental, pelo transcurso do acontecido.
Os futuros por que a literatura nos leva a viajar, nos vôos da ciência e da imaginação, são, no caso das boas obras de ficção científica, muito menos peças enfadonhas de futurologia e mais pousos assentados de reflexão, humor e poesia sobre a saga incontinente do homem em torno do fato, em torno do mundo, em torno do homem, em torno de si mesmo. A obra de ficção científica, ao projetar futuros, fala do presente para entender passados e, assim, apontar alternativas para futuros já irrealizáveis.
Por isso, a impossível tristeza desses futuros, como a da cena final antológica da fuga do par amoroso em Blade Runner no sobrevôo dos campos verdes e fecundos de estéril solidão.
Carlos Vogt
Ensaio com modificações e acréscimos, o resultado da fusão de artigos publicados, nos últimos anos, na revista eletrônica ComCiência.
quarta-feira, 22 de abril de 2009
Zen in the Art of Writing - Ray Bradbury

Sometimes I am stunned at my capacity as a nine-year-old, to understand my entrapment and
escape it.
How is it that the boy I was in October, 1929, could, because of the criticism of his fourth grade schoolmates, tear up his Buck Rogers comic strips and a month later judge all of his friends
idiots and rush back to collecting?
Where did that judgment and strength come from? What sort of process did I experience to enable me to say: I am as good as dead. Who is killing me? What do I suffer from? What's the cure? I was able, obviously, to answer all of the above. I named the sickness: my tearing up the strips. I found the cure: go back to collecting, no matter what. I did. And was made well.
But still. At that age? When we are accustomed to responding to peer pressure?
Where did I find the courage to rebel, change my life, live alone?
I don't want to over-estimate all this, but damn it, I love that nine-year-old, whoever in hell he was. Without him, I could not have survived to introduce these essays.
Part of the answer, of course, is in the fact that I was so madly in love with Buck Rogers, I could not see my love, my hero, my life, destroyed. It is almost that simple. It was like having your best allround greatest-loving-buddy, pal, center-of-life drown or get shotgun killed. Friends, so killed, cannot be saved from funerals. Buck Rogers, I realized, might know a second life, if I gave it to him. So I breathed in his mouth and, lo !, he sat up and talked and said, what?
Yell. Jump. Play. Out-run those sons-of-bitches. They'll never live the way you live. Go do it.
Except I never used the S.O.B. words. They were not allowed.
Heck! was about the size and strength of my outcry. Stay alive!
So I collected comics, fell in love with carnivals and World's Fairs and began to write. And what, you ask, does writing teach us? First and foremost, it reminds us that we are alive and that it is a
gift and a privilege, not a right. We must earn life once it has been awarded us.
Life asks for rewards back because it has favored us with animation.
So while our art cannot, as we wish it could, save us from wars, privation, envy, greed, old age, or death, it can revitalize us amidst it all.
Secondly, writing is survival. Any art, any good work, of course, is that.
Not to write, for many of us, is to die.
We must take arms each and every day, perhaps knowing that the battle cannot be entirely won, but fight we must, if only a gentle bout. The smallest effort to win means, at the end of each
day, a sort of victory. Remember that pianist who said that if he did not practice every day he would know, if he did not practice for two days, the critics would know, after three days, his audiences would know. A variation of this is true for writers. Not that your style, whatever that is, would melt out of shape in those few days.
But what would happen is that the world would catch up with and try to sicken you. If you did not write every day, the poisons would accumulate and you would begin to die, or act crazy, or
both.
You must stay drunk on writing so reality cannot destroy you.
CONTENTS
PREFACE
THE JOY OF WRITING
RUN FAST, STAND STILL, OR, THE THING AT THE TOP OF THE
STAIRS, OR, NEW GHOSTS FROM OLD MINDS
HOW TO KEEP AND FEED A MUSE
DRUNK, AND IN CHARGE OF A BICYCLE
INVESTING DIMES: FAHRENHEIT 451
JUST THIS SIDE OF BYZANTIUM: DANDELION WINE
THE LONG ROAD TO MARS
ON THE SHOULDERS OF GIANTS
THE SECRET MIND
SHOOTING HAIKU IN A BARREL
ZEN IN THE ART OF WRITING
... ON CREATIVITY
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O Fantástico e a Fantasia

“O abismo sonha um grito nos olhos de quem o sente”.
O mundo real deve ser entendido, de um modo geral, como aquele conteúdo da consciência constituído, por um lado, pela imagem do mundo mediada pela percepção (objeto), e do outro, pelo conteúdo dessa imagem mediado pelo sentimento e pensamento inconscientes (“ímago”).
Assim, as duas “realidades” que se apresentam, o mundo da consciência e o mundo do inconsciente, não disputam a supremacia, mas tornam-se mutuamente relativos. Ninguém se oporá com obstinação a idéia de que a realidade do inconsciente seja relativa; mas que a realidade do mundo consciente seja posta em dúvida, eis o que não será tolerado com a mesma facilidade. No entanto, as duas “realidades” são vivências psíquicas.
Não há realidade absoluta, de um ponto de vista crítico. Conhecemos o mundo externo e interno, consciente e inconsciente, através das imagens mentais, como observado pelo psiquiatra suíço, Carl Jung: “Longe, portanto, de ser um mundo material, esta realidade é um mundo psíquico que só nos permite tirar conclusões indiretas e hipotéticas acerca da verdadeira natureza da matéria. Só o psíquico possui uma realidade imediata, que abrange todas as formas, inclusive às idéias e pensamentos “irreais”, que não se referem a nada de exterior”.
Quando se torna ambígua a distinção da origem de uma imagem mental, se essa provém do mundo externo (percepções) ou interno (sensações, imaginação), surge o estado de hesitação e simultaneidade pelo qual se caracteriza, em termos psicológicos, a fantasia. Essa impossibilidade de distinção pode ocorrer em estados alterados de consciência ou então pela projeção: um complexo1 afetivo (libido) associado a um objeto invade a estrutura consciente devido a repressão unilateral (a paixão é um exemplo).
Essa hesitação real é a mesma hesitação representada para o leitor num texto fantástico, hesitação que Todorov explicitou como característica marcante da literatura desse gênero. A oscilação entre uma explicação racional e conhecida (consciente) e a aceitação irracional de um evento estranho às leis da natureza (inconsciente) acaba promovendo a simultaneidade desses aspectos. Além disso, para que exista a hesitação é necessário que o leitor “participe” do texto e ao mesmo tempo perceba seu papel de receptor.
Portanto o leitor não poderia interpretar o texto alegoricamente, o que o colocaria muito distante da narrativa, nem poeticamente, o que impediria o distanciamento necessário.
Essa forma de participação coincide com a maneira ideal de compreensão das fantasias, descrita pela psicologia analítica, nas palavras de seu fundador, Jung: “...porque para ser vivida de um modo completo a fantasia exige, não só a visão passiva, mas a participação ativa do sujeito”.
Só assim a fantasia pode escapar à sina de se tornar um movimento esdrúxulo da imaginação (rejeitado) ou de ser analisada ao pé da letra, concretamente, o que deixaria de lado seu conteúdo simbólico (não se entenda símbolo como alegoria e sim como “representação” de aspectos in/conscientes).
Todorov esclarece que em muitos casos a história fantástica, que nasce da coexistência de dois universos, acaba se dissolvendo em um dos pólos dessa tensão, característica que esse crítico utilizou para sua classificação.
O texto é dito fantástico-estranho quando os acontecimentos insólitos são explicados de forma racional e essa explicação é aceita pelos personagens no mundo ficcional. Se os acontecimentos sobrenaturais afirmam-se como inexplicáveis caracteriza-se o texto como fantástico-maravilhoso.
Para Todorov, a função do texto fantástico é “subtrair o texto à ação da lei e assim transgredi-la”. Com isso seria possível burlar a censura social permitindo a incursão por temas tabus para a coletividade como incesto, amor homossexual, necrofilia, sensualidade excessiva, doenças mentais e vícios.
Já para a narrativa, a emersão de eventos sobrenaturais, movimentos extraordinários, permite a saída de um estado de equilíbrio ou desequilíbrio constantes dinamizando assim a realidade que até o momento se encontrava estabilizada. Verifica-se, aqui também, semelhança com as funções da fantasia: apresenta ao seu receptor-emissor imagens que procuram romper uma fixação consciente (lei) procurando dar fluxo a libido estagnada trazendo assim, aos olhos da consciência, uma outra face da realidade psíquica. Como já mencionado anteriormente, isso apenas é possível, segundo a psicologia analítica, se o emissor-receptor encarar a fantasia sem desprezo (distanciamento) ou entrega (alucinação).
Deve haver a simultaneidade de estados. Posição equivalente a que Todorov defende com relação ao leitor da literatura fantástica.
É interessante notar a evolução dos textos fantásticos, a partir dos textos homéricos e lendas antigas, verificando uma mudança importante que só veio a se cristalizar a partir do século XVIII : a conscientização da situação fantástica pelo próprio narrador, indicando um maior aprofundamento no entendimento da realidade, pelo menos da realidade ficcional, como algo mutável e suscetível.
E já no século XX, a literatura fantástica passa a assumir o fato insólito, típico desse gênero, como um acontecimento normal dentro da narrativa, não sendo necessária a torrente de explicações racionais que o texto fantástico, da época do iluminismo, exigia. Pode-se fazer um paralelo entre o processo de conscientização da ir/realidade do mundo ficcional ao processo de conscientização da ir/realidade do mundo real (psicológico). Referindo-se a esse último, Jung disse: “ Quanto mais limitado for o campo consciente de um individuo, tanto maior será o número de conteúdos psíquicos (“imagos”) que se manifestam exteriormente, quer como espíritos, quer como poderes mágicos projetados sobre vivos (magos, bruxas).
Num estádio superior de desenvolvimento, quando já existem representações da alma, nem todas as imagens continuam projetadas (quando a projeção continua, até mesmo as árvores e as pedras dialogam); nesse novo estádio, um complexo ou outro pode aproximar-se da consciência , a ponto de não ser percebido como algo estranho, mas sim como algo próprio.” - é o que vem acontecendo ao longo do desenvolvimento da literatura fantástica -
“Tal sentimento, no entanto, não chega a absorver o referido complexo como um conteúdo subjetivo da consciência. Ele fica, de certo modo, entre o consciente e o inconsciente, numa zona crepuscular: por um lado, pertence ao sujeito da consciência, mas por outro lhe é estranho, mantendo uma existência autônoma que o opõe ao consciente. De qualquer forma, não obedece necessariamente a intenção subjetiva, mas é superior a esta, podendo constituir um manancial de inspiração, de advertência, ou de informação”.
Verifica-se portanto o espelhamento entre a realidade psíquica e a realidade ficcional, ambas questionando a realidade dos padrões estabelecidos exemplificando que esses mesmos padrões, sejam ficcionais ou “reais”, não podem simplesmente ser encarados como sinais que ocultam algo de geralmente conhecido, mas sim como símbolos verdadeiros: tentativa de elucidar mediante a analogia alguma coisa ainda totalmente desconhecida ou em processo.
A literatura, como as artes, representa esse processo de descoberta e a literatura fantástica representa a própria consciência dessa processo, questionando portanto a própria literatura diante da realidade. Inicialmente apresentando o desconhecido como soturno e demoníaco, vide o “ O Corvo” de Poe, o Fantástico, com o passar do tempo e o fluir da libido inconsciente, vem se tornando natural e presente como em “Cem anos de Solidão”.
Jefferson Vasques Rodrigues
Bibliografia:
POE, Edgard “O Corvo – A Filosofia da Composição”, São Paulo, Editora Expressão, 1986
JUNG, Carl ”A Natureza da Psique”, Rio de Janeiro,Vozes, 1997
JUNG, Carl “O Eu e o Inconsciente”, Rio de Janeiro, Vozes, 1997
MARQUES, Gabriel “Cem Anos de Solidão”
RODRIGUES, Selma “O Fantástico”, São Paulo, ed. Ática, 1988
TODOROV, T. “As Estruturas Narrativas”, São Paulo, ed. Perspectiva, 1979
terça-feira, 21 de abril de 2009
The craft of writing Science Fiction that sells - Ben Bova

All my life I have been a writer.
Well, almost. As far back as I can remember I was writing stories or telling them to friends and
family When I was in junior high school I created a comic strip― strictly for myself; I had no
thought of trying to publish it. And I enjoyed reading, enjoyed it immensely. Back in those days,
when I was borrowing all the books I was allowed to from the South Philadelphia branch of the
Free Library of Philadelphia, I had no way of knowing that every career in writing begin with a
love of reading.
It was in South Philadelphia High School for Boys (back in those sexually segregated days)
that I encountered Mr. George Paravicini, the tenth-grade English teacher and faculty advisor for the school newspaper, The Southron. Under his patient guidance, I worked on the paper and
began to write fiction, as well.
Upon graduation from high school in 1949, the group of us who had produced the school
paper for three years and published a spiffy yearbook for our graduating class decided that we
would go into the magazine business. We created the nation s first magazine for teenagers,
Campus Town. It was a huge success and a total failure. We published three issues, they were all
immediate sellouts, yet somehow we went broke. That convinced us that we probably needed to
know more than we did, and we went our separate ways to college.
While I was a staff editor of Campus Town I had my first fiction published. I wrote a short story
for each of those three issues. I also had a story accepted by another Philadelphia magazine, for
the princely payment of five dollars, but the magazine went bankrupt before they could publish it. I worked my way through Temple University, getting a degree in journalism in 1954, then took a reporter’s job on a suburban Philadelphia weekly newspaper, The Upper Darby News.
I was still writing fiction, but without much success. Like most fledgling writers, I had to work
at a nine-to-five job to buy groceries and pay the rent.
I moved from newspapers to aerospace and actually worked on the first U.S. space project, Vanguard, two years before the creation of NASA. Eventually, I became manager of marketing for a high-powered research lab in Massachusetts, the Avco Everett Research Laboratory. In that role I set up the first top-secret meeting in the Pentagon to inform the Department of Defense that we had invented high-power lasers.
That was in 1966, and it was the beginning of what is now called the Strategic Defense Initiative, or Star Wars.
My first novel was published in 1959, and I began to have some success as a writer, although
still not enough success to leave Avco and become a full-time writer. By then I had a wife and
two children.
I became an editor by accident. John W. Campbell, the most powerful and influential editor in
the science fiction field, died unexpectedly. I was asked to take his place as editor of Analog
Science Fiction-Science Fact magazine, at that time (1971) the top magazine in the SF field.
I spent the next eleven years in New York City, as editor of Analog and, later, Omni magazine.
In 1982 I left magazine editing. I have been a full-time writer and occasional lecturer ever
since. I have written more than eighty fiction and nonfiction books, a hatful of short stories, and
hundreds of articles, reviews and opinion pieces.
THE SLUSHPILE
When I was an editor of fiction, every week I received some fifty to a hundred story manuscripts
from men and women who had never submitted a piece of fiction before.
The manuscripts stacked up on my desk daily and formed what is known in the publishing business as “the slushpile.” Every new writer starts in the slushpile. Most writers never get out of it. They simply get tired of receiving rejections and eventually quit writing.
At both Analog and Omni I personally read all the incoming manuscripts. There were no first
readers, no assistant readers. The editor read everything. It made for some very long days.
And nights. Long― and frustrating. Because in story after story I saw the same basic mistakes being made, the same fundamentals of storytelling being ignored. Stories that began with good ideas or that had stretches of good writing in them would fall apart and become unpublishable simply because the writer had overlooked―or never knew―the basic principles of storytelling.
There are good ways and poor ways to build a story, just as there are good ways and poor ways
to build a house. If the writer does not use good techniques, the story will collapse, just as when a
builder uses poor techniques his building collapses.
Every writer must bring three major factors to each story that he writes. They are ideas, artistry and craftsmanship.
Ideas will be discussed later in this book; suffice it to say for now that they are nowhere as
difficult to find and develop as most new writers fear.
Artistry depends on the individual writer’s talent and commitment to writing. No one can teach
artistry to a writer, although many have tried. Artistry depends almost entirely on what is inside
the writer: innate talent, heart, guts and drive.
Craftsmanship can be taught, and it is the one area where new writers consistently fall short. In
most cases it is simple lack of craftsmanship that prevents a writer from leaving the slushpile.
Like a carpenter who has never learned to drive nails straight, writers who have not learned
craftsmanship will get nothing but pain for their efforts. That is why I have written this book: to
help new writers learn a few things about the craftsmanship that goes into successful stories.
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Conselhos para escrever Ficção Científica - Bruce Sterling

De certo que nada posso ensinar sobre escrever Ficção Cientifica(FC), ainda que muitas vezes tentamos.
Escrever ficção é uma atividade acumulativa, pelo hábito de escrever se vai dominando as técnicas narrativas e se obtêm melhores resultados.
Existem aqueles especialmente dotados que de forma natural e espontânea são capazes de escrever muito bem desde o primeiro instante. São pouquíssimos, a maioria dos escritores passam por muitas dificuldades até conseguir resolver os diversos problemas que abrangem o oficio de escrever e entreter os leitores.
Apesar disso, recentemente temos visto surgir um grande número de livros, cursos e artigos que se prepõe a ensinar, e que na realidade podem evitar que a pessoa perca tempo em suas primeiras tentativas.
Trata-se, no entanto de dar ao escritor iniciante, a possibilidade de conhecer alguns dos métodos utilizados por escritores de maior experiência. Mas não se tratam de receitas seguras.
É necessário escrever e se por a prova, mais uma vez tentar e ainda voltar a fazê-lo.
Porém, esta é uma daquelas vezes em que dar conselhos resulta num risco e agora que me pretendo a tal coisa, me recordo da famosa frase atribuída a Napoleão:
"Não me dêem conselhos, pois já sou capaz de me equivocar sozinho".
Outra advertência antes de começar. Pretendo falar sobre narrativa tradicional.
Na FC existem outras formas, como a experimental, porém não a recomendo para um escritor no inicio de carreira.
Um editor de FC italiano, me disse alguns anos atrás que a maioria dos jovens autores italianos que o procuravam, definiam suas primeiras histórias como sendo 'a novela definitiva de sua vida', aquela que haviam sido bem sucedidas em incorporar toda a mensagem temática e estilística que foi pretendida.
Não é este o ponto de vista que pretendo discutir.
Meu enfoque aqui tem mais relação com a narração bem entendida como um ofício e não como arte.
Os ofícios podem ser aprendidos enquanto que para a arte são imprescindíveis outras qualidades especiais e não somente a habilidade.Por isto, creio não ser possível ensinar-las.
Na literatura existem obras que são de arte e outras não. Se seu objetivo é escrever obras de arte, nada posso ensinar, apenas você pode ter êxito em expressar o que lhe passa internamente.
Então aqueles com pretensão artística não devem continuar lendo. Mas se o que pretende é entreter e interessar aos leitores (o que não é pouca coisa) talvez possa seguir lendo o que tenho a dizer.
Na realidade ainda que tentemos generalizar e fazer piada, escrever best-sellers é uma habilidade que se pode aprender, ainda que um fator importante é que quase sempre precisamos de um editor que aceite fazer de sua obra um best-seller... ainda que ele só o aceitará fazê-lo, se esta satisfizer alguns requisitos mínimos.
Mas comecemos.
É imprescindível saber captar e manter a atenção do leitor.
Se você é uma daquelas pessoas que sabem contar uma piada ou que quando falam sobre um filme aos amigos é capaz de fazer com que estes sintam estar vendo as imagens, então tudo está bem para você. Se é assim com você, significa que você é capaz de explicar a história e é do que se trata escrever narrativas, como no caso da FC que tratamos aqui.
Se você não é um 'narrador natural', existem quatro ou cinco coisas que pode aprender e é isto que eu vou tentar lhe mostrar a partir de agora.
A primeira coisa que deve ter em conta, ainda mais nos tempos modernos, é que apesar de você querer ser um escritor, vai encontrar pela frente pessoas que não vão estar interessadas no que você escreve. Devemos lembrar sempre que o leitor está cercado de outras atividades recreativas, como a televisão, o cinema, os jogos, esportes, artes, etc.
Se o leitor for utilizar seu precioso tempo para ler sua história, deve ser algo que vai ser recompensador, afinal trocar seu tempo pela leitura.
Os elementos narrativos.
Se pode interessar ao leitor descrevendo um ambiente novo e surpreendente, uma nova sociedade, uma tecnologia diferente, alguns seres fascinantes, roupas estranhas, etc.
Na Ficção Científica este é um elemento com muitas e ricas possibilidades, e na realidade o chamado 'sense of wonder' que se aponta como característico do gênero, reside nesta 'ambientação' que os americanos chamam de 'background' (pano de fundo).
Também se pode captar o interesse do leitor com a idéia central da história.
As vezes a idéia reside precisamente nesta ambientação, em que transcorre a narrativa, e se a FC é realmente uma literatura de idéias, como dizem alguns, muitas vezes tudo começa a partir de uma idéia.
Vejamos um exemplo famoso: O que ocorreria se o sexo de uma pessoa não fosse estável, se durante a vida de uma pessoa, ela pudesse ser tanto homem quanto mulher? Uma resposta a isso podemos encontrar em 'The left hand of darkness' ('A mão esquerda da Escuridão') de Ursula K. Le Guin, uma história clássica de Ficção Cientifica.
Na Ficção Cientifica, a principio (ainda que não sempre) é a idéia o motor principal da narrativa, ou em todo caso, da vontade do escritor em contar a história.
Outra possibilidade de atrair o leitor é através dos personagens.
Podem ser tanto atrativos quanto repulsivos, mas em qualquer um dos casos, não devem deixar o leitor indiferente. Por exemplo, os vilões: JR de Dallas era suficientemente malvado para interessar aos espectadores, como também por outras razões, são os heróis. Os leitores vão se identificar com o personagem e este é o meio mais antigo e mais seguro de atrair o interesse do leitor.
Para tal, os personagens devem reagir como faria um ser humano, com seu conhecimento, seu caráter, como o escritor imagina que ele deve ser.
E o mais importante de tudo, o personagem principal ou protagonista, deve mudar em conseqüência daquilo que ocorre. Todos sabemos que a vida nos faz mudar, as vezes pouco ou muito, e não seria verossímil que este personagem importante passasse por desventuras sem 'evoluir'.
Na prática, muitas histórias de FC tem pouco ou quase nenhum prestigio literário ou narrativo devido a personagens que são caricatos e não reagem como se pode esperar logicamente como conseqüência do que lhes ocorre. Pense por exemplo nos personagens de Han Solo de Star Wars ou James T Kirk de Star Trek ou ainda com Harrison Ford, o aventureiro arqueólogo Indiana Jones. Para eles, a aventura não significa nada, pois são sempre os mesmos. Procure evitá-los.
Mesmo assim, as vezes criamos personagens que não evoluem, com toda certeza por que a trama da história resulta em ser tão interessante que é o bastante pata prender a atenção do leitor/espectador. As aventuras de Indiana Jones ou de James Kirk são por si só eficientes para manter o espectador preso a ela.
Aqui vai então outro conselho: Nunca conte tudo.
Deixe que o leitor fique intrigado por algo que o motive a virar uma página após a outra. Qual os vilões tradicionais, que vão amarrando aos poucos seus argumentos. Ainda que torne a trama mais complexa, devemos ser capazes de juntar todas as pontas de forma que o leitor não se sinta enganado ao fim. Nunca duvide do poder de um mistério, ele é praticamente imprescindível.
Imagine a pobreza temática de uma saga como Star Wars sem a 'força'!
Para mantermos uma trama eficiente, precisamos de conflitos.
Os personagens devem passar por problemas, e a narrativa deve explorar como eles fizeram para solucioná-los ou como fracassaram.
Os problemas ou conflitos, devem ser grandes (o centro da história) e pequenos (que dão vida e mantêm a ação em movimento). É conveniente que haja um grande clímax que solucione a história, mas devem também ocorrer outros pequenos climaxes que resolvam os conflitos menores e preparem o caminho para o final.
É claro que tudo isto depende do tamanho da história e como disse, não existem receitas únicas.
Em todo caso, é conveniente destacar aqui que personagens distintos devem resolver de forma diferente os mesmos problemas, ou melhor, para personagens diferentes, o mesmo fato deve gerar conflitos distintos.
Um breve resumo.
Já temos cinco elementos que podem manter o leitor interessado em nossa história.
Há outros além destes, mas estes são os principais na maior parte das vezes.
É lógico que em cada narrativa, um pode se sobressair em relação ao outro.
Nas histórias de aventura, são os conflitos, a trama e os perigos que enfrentam os personagens são o aspecto dominante. Em contos curtos, a idéia é tudo.
Nas narrativas mais longas é possível se organizar histórias centrais, cercada por outras menores, que a complementam, cuidando sempre para que estas não sejam gratuitas e tenham fácil e compreensível relacionamento com o eixo principal.
Para sintetizar, poderia dizer que:
A trama é o que se sucede, o conflito é a razão final do que se sucede, o motor da trama, o pano de fundo é a circunstância ou o lugar onde ocorre a trama e os personagens são aqueles aos quais as coisas acontecem e que desejam solucionar os problemas e que acabam mudando em conseqüência disso.
A idéia, se existe explicita como elemento central, é o que move o escritor, porém, isto é muito importante, deve ser mostrada de forma indireta por meio dos elementos discutidos anteriormente.
Convém lembrar que é imprescindível ter a atenção do leitor enquanto este está lendo e também depois de terminar a leitura. O leitor deve poder pensar que o tempo gasto na leitura foi bem usado. Deve pensar que se tratou de um bom entretenimento e inconscientemente também propor uma reflexão a partir da idéia apresentada e da sua especulação. Deve sentir-se maravilhado e satisfeito pelo que encontrou ao ler, para que possivelmente o personagem principal, por algum tempo permaneça em sua memória.
Inventando histórias.
Parece que o principal problema para os jovens escritores é encontrar uma boa história.
Muitos autores de livros e palestrantes em cursos se vêem constantemente diante da pergunta:
'De onde os escritores tiram suas histórias?'
Novamente não há uma receita fácil nem única.
Graham Greene fala sobre a necessidade um bom narrador ser também um bom observador e creio que isto também vale para escritores de FC.
Exagerar alguma característica social, tecnológica ou econômica observável, colocar um personagem em um ambiente exótico, ou em uma situação imprevista, inventar o que ocorreria se...etc.
Os caminhos para se encontrar uma história são os mais variados e sempre podemos encontrar novos caminhos.
De fato, devido a anos e anos de Ficção Cientifica, a maior parte das histórias que se podem inventar, muito provavelmente já foram exploradas.
Orson Scott Card, aconselha que não devemos nos preocupar com isso. É difícil ter idéias verdadeiramente novas e que não tenham sido exploradas. Porém, mesmo que repita uma história (é óbvio, evitando sempre o plágio) pode se dar um enfoque diferente, um ponto de vista novo.
Pensemos no exemplo de 'AVISO' de Cristobal Garcia, que ganhou um prêmio UPCF em 1993.
A história que nos narra Cristobal, possivelmente não é nova, porém a escolha da forma narrativa se tornou interessante. As vezes quando se carece de novas idéias, podemos praticar sobre um conto velho, ou algo que foi lido algum tempo atrás e que nos recordamos.
Sem o reler, tão somente através da nossa lembrança, podemos escrever uma nova versão e depois disso, comparar ao conto original, e reparar nas diferenças.
É um bom exercício!
Como a memória é sempre seletiva, pode ocorrer de o novo conto resultar em algo totalmente diferente do original e bastante razoável para utilizarmos.
Robert A. Heinlen, um dos escritores mais admirados nos EUA, costuma chamar atenção de três temas centrais nas histórias.
Homem encontra mulher, uma história de amor ou de uma busca e do seu fracasso.As variações são infinitas. O mocinho valente ou o contrário. O personagem que evolui, aprende. A história de alguém que pensa de uma maneira ao iniciar a narração e por conseqüência dos conflitos, muda sua forma de pensar.
É claro que são muitas as variáveis, mas se Heinlein conseguiu construir uma carreira de êxito com isso, talvez você também possa. Lembre que Heinlein foi o primeiro que conseguiu viver de sua profissão, como escritor de Ficção Cientifica. Em nosso país, por enquanto isto não é possível, mas talvez quem sabe no futuro?
Alguém deveria começar a tentar.
Um caminho para construir histórias.
Para concluir uma compilação de conselhos, da minha maneira resumida, a partir das dicas passadas pelos editores da revista Asimov Science Fiction, e que me parece bastante razoável.
Comece com uma idéia.
Leve esta idéia para a vida, através de um conflito. Utilize o personagem que possa melhor 'dramatizá-la', e faça com que este seja afetado pelos eventos que vão se suceder.
Estabeleça uma seqüência de fatos, uma trama, que pode mostrar os passos principais através dos quais os seus personagens detectam o problema ou os problemas, buscam as soluções possíveis e procuram levar a pratica estas soluções.
Prepare uma ambientação para envolver tudo que vai se suceder na história. Faça que seja razoável, Não é necessário que a explique detalhadamente mas também, como um futuro escritor, deve ter tudo muito claro em sua imaginação.
Se for possível, inicie a história da metade, já apresentando o conflito, de modo a atrair o leitor.
Na maioria dos casos, o escritor deve ter domínio sobre a estrutura geral da trama, inicio , meio e fim, segundo estabelece a tradição clássica, mas nada o obriga a manter uma narrativa linear.
Busque um bom ponto de vista para explicar a história (convêm dizer que esta é uma tarefa bastante complexa, e que merecia um tratamento a parte para o qual não é possível no momento.)
Mas, vamos deixar de teorias...escreva!
Advertência Final. Tudo isto deve resultar evidentemente insuficiente para se escrever profissionalmente, mas não para se começar!
Talvez fosse interessante estudar alguns contos, analise-os como foram feitos e encare como exercício, reconhecer nele os elementos que discutimos, identificar os conflitos (principais e secundários), analisar a trama, localizar o ponto de vista sob o qual está sendo narrado, veja como os personagens sofrem mudanças, estude a harmonia do ambiente criado e identifique a idéia central.
A maioria dos cursos de literatura nos faz realizar estas abordagens, as vezes com mais ou menos teoria.
A prática é em definitivo, a única que encerra a verdade.
Comece analisando como se faz porém pratique você também.
O caminho não é curto, mas vale a pena.
Conselhos para escrever FC - Bruce Sterling (da versão de Miguel Carqueija)
segunda-feira, 20 de abril de 2009
Marte Vermelho, Marte Verde e Marte Azul - Kim Stanley Robinson

("Mars was empty before we came.
That’s not to say that nothing had ever happened. The planet had accreted, melted, roiled and cooled, leaving a surface scarred by enormous geological features: craters, canyons, volcanoes. But all of that happened in mineral unconsciousness, and unobserved. There were no witnesses—except for us, looking from the planet next door, and that only in the last moment of its
long history. We are all the consciousness that Mars has ever had.
Now everybody knows the history of Mars in the human mind: how for all the generations of prehistory it was one of the chief lights in the sky, because of its redness and fluctuating intensity, and the way it stalled in its wandering course through the stars, and sometimes even reversed direction. It seemed to be saying something with all that. So perhaps it is not surprising that all the oldest names for Mars have a peculiar weight on the tongue—Nirgal, Mangala, Auqakuh, Harmakhis— they sound as if they were even older than the ancient languages we find them in, as if they were fossil words from the Ice Age or before. Yes, for thou sands of years Mars was a sacred power in human affairs; and its color made it a dangerous power, representing blood, anger, war and the heart.
...
And Mars has never ceased to be what it was to us from our very beginning—a great sign, a great symbol, a great power.
And so we came here. It had been a power; now it became a place.)
Red Mars - Kim Stanley Robinson [ Download ]
The point is not to make another Earth. Not another Alaska or Tibet, not a Vermont nor a Venice, not even an Antarctica. The point is to make something new and strange, somethingMartian.
In a sense our intentions don’t even matter. Even if we try to make another Siberia or Sahara, it won’t work. Evolution won’t allow it, and at its heart this is an evolutionary process, an endeavor driven at a level below intention, as when life made its first miracle leap out of matter, or when it crawled out of sea onto land.
Again we struggle in the matrix of a new world, this time truly alien. Despite the great long glaciers left by the giant floods of 2061, it is a very arid world; despite the beginnings of atmosphere creation, the air is still very thin; despite all the applications of heat, the average temperature is still well below freezing. All these conditions makesurvivalfor living things difficult in the extreme. But life is tough and adaptable, it is the green force viriditas, pushing into the universe. In the decade following the catastrophes of 2061, people struggled in the cracked domes and torn tents, patching things up and getting by; and in our hidden refuges, the work of building a new society went on. And out on the cold surface new plants spread over the flanks of the glaciers, and down into the warm low basins, in a slow inexorable surge.
Of course all the genetic templates for our new biota are Terran; the minds designing them are Terran; but the terrain is Martian. And terrain is a powerful genetic engineer, determining what flourishes and what doesn’t, pushing along progressive differentiation, and thus the evolution of new species. And as the generations pass, all the members of a biosphere evolve together, adapting to their terrain in a complex communal response, a creative self-designing ability. This process, no matter how much we intervene in it, is essentially out of our control. Genes mutate, creatures evolve: a new biosphere emerges, and with it a new noosphere. And eventually the designers’ minds, along with everything else, have been forever changed.
This is the process of areoformation.
Green Mars - Kim Stanley Robinson [ Download ]
Mars is free now. We’re on our own. No one tells us what to do.
Ann stood at the front of the train as she said this.
But it’s so easy to backslide into old patterns of behavior. Break one hierarchy and another springs up to take its place. We will have to be on guard for that, because there will always be people trying to make another Earth. The areophany will have to be ceaseless, an eternal struggle. We will have to think harder than ever before what it means to be Martian.
Her listeners sat slumped in chairs, looking out the windows at the terrain flowing by. They were tired, their eyes were scoured. Red-eyed Reds. In the harsh dawn light everything looked new, the windswept land outside bare except for a khaki scree of lichen and scrub. They had kicked all Earthly power off Mars, it had been a long campaign, capped by a burst of furious action following the great flood on Terra; and they were tired.
We came from Earth to Mars, and in that passage there was a certain purification. Things were easier to see, there was a freedom of action that we had not had before. A chance to express the best part of ourselves. So we acted. We are making a better way to live.
Blue Mars - Kim Stanley Robinson [ Download ]
Marte na imaginação dos escritores de Ficção Científica e a Terraformação de Marte

Marte é o astro que mais impressionou as mentes primitivas em virtude de sua coloração avermelhada, que fez com que fosse associado às divindades guerreiras em quase todas as mitologias.
Houve um momento na História da Astronomia em que a imaginação e a criação do cientista muito se aproximaram da do escritor de ficção científica.
Nessa época, fins do século XIX e início deste, as interpretações das observações realizadas pelos astrônomos constituíram o elemento principal das motivações para as histórias de marcianos. Tudo começou durante a posição periélica de 1877, em três países: Brasil, Estados Unidos e Itália. De fato, quase que simultaneamente os estímulos surgiram, inclusive no Brasil, talvez para espanto daqueles que pouco conhecem a memória nacional. Em nosso país, enquanto o astrônomo brasileiro de origem belga Louis Cruls (1848-1908) observava e determinava o período de rotação do planeta Marte, o seu colega francês, Emmanuel Liais (1826-1900), na época diretor do Imperial Observatório do Rio de Janeiro, emitia a hipótese de que as variações de coloração das manchas escuras da superfície marciana estavam associadas às mudanças climáticas (períodos de seca e umidade) reinante na atmosfera do planeta ao longo das quatro diferentes estações do ano marciano. Na Itália, o astrônomo milanês Giovanni Schiaparelli (1835-1910), no Observatório de Milão, desenhava uma rede de canais na superfície do planeta vermelho, que os astrônomos logo em seguida iriam, com entusiasmo, supor serem canais artificiais de irrigação num planeta árido. Por outro lado, nos EUA, o astrônomo norte-americano Asaph Hall (1829-1907), ao lado de sua esposa Angelina, no Observatório Naval, em Washington, descobriu os satélites Fobos e Deimos. A descoberta desses satélites, previstos anteriormente por Kepler em carta a Galileu, pelo escritor inglês Jonathan Swift (1667-1745) e, pelo filósofo e escritor Voltaire (1694-1778), serviu de grande estímulo para os que desconheciam as razões científicas destas previsões, não só entre o povo, mas também entre os escritores de ficção-científica.
Assim, constituía-se a primeira cena que os anos seguintes iriam teatralizar na forma de um planeta com uma civilização ultra-avançada e povoado por marcianos belicosos, talvez em razão de Marte, desde a Antigüidade, estar associado à guerra.
As observações de Marte passaram a ser cada vez mais ricas em detalhes sobre os canais de Schiaparelli e as vegetações de Liais. Elas evidenciaram, de modo eloqüente para a época, que os marcianos existiam de fato. Lá estariam os canais artificiais de irrigação, capazes de levar a água proveniente do degelo das calotas polares ao equador, provocando as alterações cromáticas da vegetação. Para confirmar, era suficiente ler os livros dos mais importantes astrônomos da época, dentre eles os norte-americanos Percival Lowell (1855-1916) e William Pickering (1858-1938).
Começaram a surgir os livros de ficção científica com os marcianos em ação.
Ao lê-los, era possível sentir como foi forte e decisiva a influência dos astrônomos.
O primeiro escritor a dedicar um livro a Marte e seus habitantes foi o historiador e poeta inglês Percy Gregg (1836-1889), em Across the Zodiac (Através do Zodíaco, 1880)[ Download ].
Uma década depois surge o relato de Hugh Mae Coil, em Mr. Stranger´s Sealed Packet (1889), com um herói que defende a paz contra o ataque de uma raça mais agressiva. Logo em seguida, duas histórias de amor (love story) interplanetário; a primeira foi A Plunge in to Space (1890), de Robert Cromie, e, a segunda, A Journey to Mars (1894), de W. Pope, com maiores detalhes sobre o planeta vermelho. Três anos mais tarde surge a antecipação romanceada do escritor alemão Kurd Lasswitz (1848-1910), com a obra Auf Zwei Planeten (O segundo planeta, 1887) e a breve visão de Marte em The Cristal Egg (1897), daquele que seria sem dúvida o escritor a utilizar o planeta Marte com o máximo impacto na ficção científica - o escritor inglês H.G . Wells. De fato, no ano seguinte, apareceu o mais notável romance sobre os marcianos - A Guerra dos Mundos (1898).
A arte também sofreu tal influência, em particular os artistas que se dedicaram à antecipação científica, como é o caso do brasileiro Henrique Alvim Corrêa (1876-1910), um dos mais notáveis ilustradores da obra de Wells e, sem dúvida, um dos mais importantes desenhistas da difícil arte que é a ilustração científica de antecipação. Confirmando esta nossa ilação da ação pragmática dos astrônomos, é suficiente verificar que Wells citou em sua obra diversos astrônomos, Schiaparelli e o francês Henri Perrotin (1845-1904), do Observatório de Nice, como se quisesse dar maior base científica ao seu relato. Apresentando-os como personagens, vivas caricaturas de alguns astrônomos contemporâneos, podemos melhor compreender o clima que imperou no mundo durante os primeiros decênios do século XX.
No começo do século, o escritor francês Gustave le Rouge (1867-1938) publicou Les naufragés de l'espace (Os náufragos do espaço, 1908). A bem da verdade, a obra tem uma continuação. L´Astre d'épouvante (O astro do terror, 1909). Conta-se a história do cientista Robert Darvel, que é enviado a Marte por energia mental. Lá encontra uma civilização antropomorfa, mas não primata, isto é, outros mamíferos e moluscos é que assumiram o aspecto humanóide. Em Marte, Darvel encontrou a explicação para os canais schiaparellianos que sulcam a superfície do planeta de forma tão retilínea. Seu construtor é uma espécie de herbívoro fossador, no gênero da toupeira terrestre, mas que atingiu dimensões gigantescas. Depois de várias peripécias, arriscando a vida muitas vezes, Darvel é mandado de volta à Terra, também por energia mental.
Mais, tarde, em 1917, o escritor norte-americano Edgar Rice Burroughs (1875-1950) transporta para o espaço a Primeira Guerra Mundial em sua obra A Princess of Mars (Uma princesa de Marte)[ Download ], onde marcianos vermelhos e verdes viajaram em veículos de forma de banheiras propulsionadas por raios e atirando balas de rádio com fuzis equipados por radar.
De todas as obras de ficção escritas sobre Marte, a que maior sucesso obteve foi A Guerra dos Mundos, de H. G. Wells, sem dúvida o romance que mais contribuiu para popularizar os marcianos, transmitindo ao leigo a concepção de que Marte possuía a mais avançada civilização, o que conseguiu divulgar todas as notícias sobre as descobertas acerca do planeta. Baseado na obra de Wells, o norte-americano George Pal (1908- ) produziu um dos melhores filmes de ficção-científica desde século. Analogamente, uma radiofonização da Guerra dos Mundos, por Orson Welles, em 1938, provocou terror e pânico em cidades dos EUA. Apesar das explorações das sondas espaciais e das conclusões dos astrônomos sobre a não-existência dos marcianos, a sua existência na ficção é real, como determinados mitos que povoam a mente primitiva do homem.
É conveniente lembrar que os escritores de ficção-científica criaram um mundo marciano que existia em sua mente... E, no entanto, os astrônomos viram os canais artificiais que os marcianos "construíram".
(...)
A terraformação de Marte na ficção científica
A idéia da terraformação do planeta vermelho em um astro habitável encontra-se no filme de ficção científica, Vingador do Futuro (Total Recall , EUA, 1990) de Paul Verhoeven, uma adaptação do romance de Philip K. Dick, no qual o planeta não ocupa um papel muito importante. Ao contrário, no filme ele é apenas o cenário central da trama que envolve Douglas Quaid, seu herói principal, representado pelo ator Arnold Schwarzenegger que, na cena final, deveria morrer na superfície desolada de Marte, quando é salvo pela brutal erupção de uma atmosfera respirável: Marte se torna habitável em alguns segundos. Na realidade, séculos e milhares de anos seriam necessários. Mas, na imaginação da ficção-científica tudo é possível.
Mais cautelosos são os três livros de ficção-científica escritos por Kim Stanley Robinson: Marte vermelho, Marte verde e Marte azul; todos eles inspirados nas idéias de Robert Zubrin. Com efeito, os seus títulos exprimem as diferentes etapas da terraformação de Marte e do seu povoamento de Marte pelo homem.
Outro notável filme a utilizar as idéias de Robert Zubrin é o Red Planet, de Anthony Hoffman (EUA, 2000), no qual uma equipe de astronautas é enviada ao planeta vermelho para investigar o que não deu certo no projeto de terraformação de Marte, descobrindo que existia uma atmosfera respirável e um tipo de inseto vivo gerado pelas algas lançadas no programa de terraformação do planeta. Tais insetos, além de terem destruído a base lançada anteriormente, constituíam uma ameaça aos astronautas.
Na atualidade, um dos grandes defensores dos ciclos ecológicos fechados e da exploração dos recursos extraterrestres é o engenheiro norte-americano Robert Zubrin, principal líder do movimento espacial norte-americano, depois do desaparecimento de Gerard O'Neill, e um dos fundadores da Mars Society, criada com objetivo de promover uma conquista rápida de Marte. Para Robert Zubrin, será possível enviar astronautas para o planeta Marte nos próximos dez anos, com um custo de 50 bilhões de dólares, despesa inferior à da Estação Espacial Internacional.
Zubrin planejou uma reduzida expedição a Marte com um modesto veículo espacial que utilizasse quase somente recursos recicláveis. Uma das propostas mais avançadas é a exploração das fontes marcianas capazes de produzir os combustíveis necessários às naves de regresso à superfície terrestre.
Imagina-se que esta técnica poderá ser rapidamente desenvolvida, podendo servir, desde os primeiros anos do século XXI, para as próximas missões automáticas de reconhecimento da superfície do planeta vermelho.
Zubrin não é um mero visionário: as suas exposições vêm sendo confirmadas por experiências realizadas em seu laboratório do Colorado, onde testou um aparelho capaz de fabricar propergóis a partir dos gases existentes na atmosfera marciana. Tal sistema poderá ser colocado na superfície do planeta Marte e, deste modo, reabastecer as sondas que deverão trazer as amostras para a Terra nos próximos anos. Uma versão maior deverá ser utilizada mais tarde pelos veículos que transportarão os primeiros exploradores humanos do solo de Marte à superfície terrestre. Para reduzir os gastos durante essas viagens, será possível também fazer uma escala de ida-e-volta a Fobos - um dos dois pequenos satélites de Marte - de onde serão extraídas água e matérias orgânicas, importantes para a vida dos eventuais astronautas assim como para a produção dos combustíveis no próprio local.
Hoje, quando alguém descobre que está ao lado de um astrônomo, invariavelmente pergunta se ele acredita ou não em discos voadores. Tal pergunta surgiu após os anos 1960, pois antes, em particular desde 1880, a indagação normal aos astrônomos era sobre os marcianos: Há ou não habitantes no planeta Marte? A resposta variava muito, na realidade dependia da inclinação pessoal do astrônomo. Assim, até os anos 1920, a maior parte dos astrônomos afirmaria que alguns dos seus colegas acreditavam na existência dos marcianos; uma civilização muito avançada tecnologicamente em relação à nossa. Entre 1920 e 1935, a resposta predominante seria que existe uma dúvida muito grande com referência aos marcianos inteligentes. Depois de 1935, começou a se reduzir o número de defensores da idéia de ser Marte habitado por uma civilização muito avançada. As dúvidas eram cada vez maiores. Todavia as novelas de ficção tendo como personagem os marcianos e como cenário a superfície marciana continuaram a surgir no mundo, independentemente da verdade científica e, em muitos casos, com visível verossimilhança e grande beleza poética.
(Do original 'Marte - da exploração à colonização' - Por Ronaldo Rogério de Freitas Mourão.)
Ronaldo Rogério de Freitas Mourão - Doutor pela Universidade de Paris (Sorbonne), é membro titular do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB); astrônomo e pesquisador titular do Museu de Astronomia e Ciências Afins do Rio de Janeiro, do qual foi o criador e primeiro diretor. Primeiro Prêmio José Reis do CNPq (1979) é autor de mais de 70 livros, dentre eles o Dicionário Enciclopédico de Astronomia e Astronáutica - 2ª edição revista e ampliada -, o único dessa especialidade no mundo com mais de 30.000 verbetes.
domingo, 19 de abril de 2009
Ursula K. Le Guin

Ursula Kroeber Le Guin (21 Outubro de 1929) nasceu em Berkeley, California (EUA). Autora de romances, poesia, livros infantis, ensaios, mais conhecida por seus livros e séries de Ficção Científica e Fantasia e por seu estilo preciso e didático, abrangendo temas como taoísmo, anarquia, psicologia feminista e temas sociológicos.
Seu primeiro livro (de poesias) foi publicado em 1960 (quando lecionava francês) e atualmente é considerada como uma das melhores autoras de Ficção Científica moderna, tendo recebido 5 prêmios Hugo e 6 prêmios Nebula, além dos títulos de Mestre em Fantasia (Gandalf Grand Master em 1979) e Ficção Científica (Science Fiction and Fantasy Writers of America Grand Master Award em 2003).
Seu pai, Alfred Kroeber, um imigrante alemão, fundou o departamento de antropologia da faculdade de Berkeley. Sua mãe, Theodora, dividia sua fascinação pela vida nos americanos nativos, e escreveu 'Ishi in two worlds' (1961), um encontro dos indios Yahi com a civilização. 'Nos tinhamos uma casa cheia de folclore', diz Le Guin que vê a fronteira entre a civilização e a barbárie como os 'confins de uma mente solitária'.
Durante os verões no rancho da familia em Napa Valley, seus 'tios' nativo americanos lhe apresentaram ao rico mundo de sua cultura oral e o fanatismo que enfrentavam. Eles e o vale inspiraram 'Always comimg home' (1985), sobre um holocausto californiano, pós-nuclear.
'O homem branco não é pra mim o equivalente ao ser humano, como na maioria da fantasia que li', ela diz, 'Fiz uma escolha consciente para fazer a maior parte de meus personagens, pessoas de cor.'
Na saga 'Earthsea', Ged é moreno, cor de cobre avermelhado e seu amigo Vetch é negro.
'Estive em batalhas intermináveis com o departamento responsável pelas capas. Gradualmente as pessoas nos livros vão 'escurecendo'. Os primeiros livros deixaram de ser adaptados para a televisão no formato de mini-series para o canal Sci-fi no passado, mas isto já foi motivo de confusão e merece ser deixado em paz', diz Le Guin.
Seu roteiro para a tv foi esquecido ('eles disseram que não era o momento para 'fantasia' em Hollywood').
'De JRR Tolkien eu aprendi o truque de construir um ambiente com muito pouco, de modo que você se sente no mundo real, não em uma fantasia. '
Mas ela encontraria pela frente muito de C.S. Lewis 'simples apologia cristã, cheia de ódio e condenação àqueles que não se submetiam.'
'A divisão entre bem e mal era algo diferente em Tolkien, onde os seres maus eram apenas uma metáfora do mal em nossas vidas; ele nunca lançou a maldade como sendo algo externo, como C S Lewis gostava de fazer'.
Fantasia é quase sempre confundida com escapismo, para Le Guin, ela é a linguagem natural da jornada espiritual e da luta entre o bem e o mal na alma humana. E se assemelha ao sonho, 'os símbolos parecem ser universais e acessíveis para todos. São os mesmos através das épocas. Lemos sobre o épico de Gilgamesh e lá está. A linguagem simbolica é básica, mas não primitiva, nem infantil, é uma profunda gramática da compreensão'.
Ela preenche uma linhagem da fantasia, de Frankenstein a PKD, abarcando Borges, Calvino, Saramago e Gabriel Garcia Marquez. mas também se inspirou em outras tradições, de Dickens e Tolstoy.
'Você tem que mirar tão alto quanto você possa!'.
Le Guin abandonou o 'hardware e soldados' da Ficção Científica da sua adolescência.
'Eram concepções conservadoras, homem branco vai e conquista o universo. Como filha de um antropologista você começa a olhar pelo lado do conquistado. Eu costumava assistir Jornada nas Estrelas (Star Trek), até que o programa saiu dos trilhos com a Voyager. Não há muito para se ver na televisão americana, a não ser que você esteja viciado em violência e risadas enlatadas. Você sabia que a maioria das risadas destes programas são tão antigas que as pessoas que você ouve rindo do sitcom já estão mortos?'
Nos anos 60 ela tornou-se parte de uma geração 'não interessada na conquista do espaço, mas em usar a forma como uma caixa para metáforas, com que você pode brincar sem limites, como o músico faz com uma sonata.
Seus planetas alternativos relatados pelos emissários, como antropologistas da era espacial, são experimentos do pensar, assinalando o tempo presente e não predizendo ou extrapolando com o futuro. O romance retira o essencial da natureza humana, do mutável.
'Mudar é a palavra chave', você está abrindo a porta para a imaginação e para a possibilidade das coisas serem outras, diferentes do que são.
Ela também alimenta um interesse em gênero e sexualidade.
'É um tremendo playground, e não há prejuizo para a cabeça das pessoas quando as fazemos pensar. Faço o meu pensar de forma narrativa'.
No princípio de 'A mão esquerda da escuridão', era uma sociedade que nunca conheceu uma guerra. Mas todos são andróginos e o Rei está grávido.
'Eu eliminei o gênero para ver o que sobrava. Algumas feministas não aprovaram.'
'Enquanto que com a FC eu destrui o gênero, minha imaginação para a fantasia foi mais tradicional. '
Site de Ursula K.Le Guin
Ursula K.Le Guin ( Buffalo Gals, Day before the revolution, Dia del perdon, El nombre del mundo es bosque, El poder de los nombres, Abril em Paris, The Dispossessed, Seleção Amazing Stories, Hainish séries, Terramar séries, City of ilusion, The Telling, Darkrose and diamonds, Dragonfly, El mundo del Rocannon, Exile, Ways to forgiveness, Solitude, The flyers of Gy an interplanetary tale, The visionary, The word for world is forest, Unlocking the air, 10 books and short stories )
[ Download ]
sábado, 18 de abril de 2009
Top 10 da Ficção Científica escrita por mulheres

1. The Left Hand of Darkness -Ursula K. Le Guin [ Download ]
Uma aventura politicamente sofisticada sobre sexo e sociedade, na qual os nativos (que podem escolher em seu período fértil, serem do sexo masculino ou feminino) são moralmente complexos. Algumas das passagens do livro, como a travessia através do gelo de Gobrin e a impossível amizade entre o humano Genly Ai e Estraven, são memoráveis.
2. Where Late the Sweet Birds Sang - Kate Wilhelm [ Download ]
Quando a primeira brisa pós-apocalipse chega ao vale de Shenandoah, encontra os Sumners prontos. Isolados em sua cidadela, a família e seus descendentes têm tudo aquilo que precisam para sobreviver, graças à avançada tecnologia. Contudo a família é vítima de uma praga que os torna estéreis e a clonagem se torna a única solução. E os últimos representantes da antiga civilização perdem aquilo que os tornavam humanos, seu espírito.
Considerada a melhor história já escrita sobre clonagem.
3. Love is the Plan, the Plan is Death - James Tiptree Jr [ Download ]
James Tiptree Jr (ou Alice Sheldon) era famosa pelo estilo inteligente, áspero e ousado de suas histórias psicosexuais, como Love is the Plan, the Plan is Death, saudado como 'irresistivelmente masculino", antes de ser desmascarada. Outra de suas características mais notáveis está na sua habilidade incomum de criar personagens alienígenas não-humanoídes inesquecíveis.
4. The Female Man - Joanna Russ [ Download ]
Considerado até hoje como um divisor de águas na FC, uma revelação na época de sua publicação, The Female Man é genuinamente experimental, inteligente, divertido, violento e profético. Fonte também para ideias de uma eco-utopia tecnológica.
5. Cyteen - C.J. Cherryh [ Download ]
C.J. Cherryh é uma das maiores autoras dentro da chamada Space Opera. Impressionante pelo realismo com que elabora suas gigantescas espaçonaves e complexos universos, além de criar personagens tecnologicamente modificados. Cyteen é uma série sobre a fragmentação de impérios, humanos em sua origem, diferentes em seus métodos, mas semelhantes na sua volúpia por poder. Dominação e escravidão, um espelho sombrio da guerra fria e uma assustadora obra de FC.
6. Grass - Sheri Tepper [ Download ]
Os romances de Sheri Tepper fazem grande sucesso junto ao público, o que poderia ser a princípio preocupante, mas Grass é diferente de tudo. A história se passa em um espantoso mundo de campos verdes. A dura realidade da destrutiva e agressiva cultura de expansão colonial do homem dá o tom moral, mas no centro do livro está o personagem de Marjorie Westriding, e sua descoberta do sublime. Fabuloso!
7. Lunatic Bridge - Pat Cadigan [ Download ]
Batizada pelo jornal Guardian como a Rainha do Ciberpunk, Pat leva o casamento entre mente e tecnologia, para onde ninguém se atreve a ir. Apesar de ignorada pelos críticos e desconhecida pelos leitores em geral, ela é essencial para se entender o que é ciberpunk.
8. Praxis - Karen Joy Fowler [ Download ]
Seus livros são sempre recheados de temas pouco plausíveis e quase surreais, porém contados através de personagens cativantes. A história de Praxis se passa em um mundo no futuro, repleto de intrigas, tendo 'cibernéticos' como escravos e uma peça de Shakespeare que termina em assassinato. Ou não. Karen brinca com o mistério e a realidade de uma forma que lembra o melhor de Philip K.Dick.
9. Nanotech - Queen City Jazz - Kathleen Ann Goonan [ Download ]
De certa maneira, Nanotech é uma série pós-apocalíptica, onde os personagens se deparam com um mundo transformado por uma bizarra praga cósmica. Mais do que isso, trata-se de uma tour pelas consequências do pensamento evolutivo radical. É como enxergar a nós mesmos, livres da escravidão darwiniana. O que aconteceria se nossos organismos se transformassem em dados nas redes de DNA-informação, tão penetrante ao mundo real que nos tornássemos parte do software?
10. Natural History, Mappa Mundi e Silver Screen - Justina Robson [ Download ]
Houve um tempo, não muito distante, quando haviam poucas escritoras britânicas de Ficção Científica. Tal qual Mary Shelley foi avis rara na sua época, Justina Robson era uma destas veteranas, com várias indicações para o prêmio Arthur C.Clarke (por Silver Screen e Mappa Mundi.)
Natural History mergulha em direção ao espaço profundo, permeado por ciência esotérica e conduzida com humor e pontadas políticas. Foi considerado um dos melhores livros de Ficção Científica do Reino Unido na época de seu lançamento.
Mappa Mundi é FC hard, explora a essência da identidade tanto herdada quanto construída tecnologicamente. Em um futuro próximo, quando a nano-medicina torna capaz criar-se um modelo mapeado de um cérebro humano vivo, a psicóloga Natalie Armstrong vê seu trabalho se tornar crucial para o aprimoramento de um projeto militar de controle da mente.
Em seu primeiro e supreendente livro, Justina oferece ao leitor um envolvente cenário, povoado por amistosas Inteligências artificiais (IA) no ciberespaço. A insegura e um pouco-acima-do-peso-ideal heroína da história, Anjuli O'Connell, se vê em apuros devido a sua memória fotográfica, e seu melhor amigo, além disso, é uma IA chamada 901, que parece estar envolvido na morte de um humano que realizou um upload de sua mente para o ciberespaço. O livro trata com dinamismo e de forma envolvente, o velho dilema comum na FC: "Onde termina a vida e onde começa a máquina."
(adaptado a partir de "Gwyneth Jones: top 10 science fiction by women writers")
sexta-feira, 17 de abril de 2009
Ficção Científica, Ciências Ocultas e Mitos Nazistas

Não é minha intenção fazer pouco do nacional-socialismo interpretando-o em termos de fantasias pitorescas. Todavia, negligenciar e ver como inofensivos os elementos totalmente irracionais do nazismo, evidentes desde sua primeira origem, têm ao menos ajudado parcialmente à conjurar uma aparentemente "natureza incompreensível" das ações nazistas.
No nacional-socialismo, as contradições e irracionalidades de um sistema sócio-econômico clássico capitalista e suas estruturas de poder, foram transmutadas em uma ideologia e apologia aparentemente "naturais".
O poder explorador e limitador de classes tornou-se racismo, com uma raça de senhores e sua liderança mística; ciclos de crise econômica e outros direcionamentos tornaram-se a lei cósmica de ciclos recorrentes; o caráter alienante da ciência e tecnologia usados indevidamente como meios para dominação, tornaram-se os conceitos centrais de cultos secretos pseudo-religiosos; o atraso da economia e tecnologia assim como as prevalecentes condições sociais tornaram-se uma obscura mistura de industrialismo enfurecido com uma teoria de "Sangue e Solo".
O continuísmo das classes governantes obsoletas era salvaguardada por mitos de "conspirações", enquanto às massas oprimidas eram oferecidos bodes expiatórios como um escoadouro para agressões reprimidas.
Qualquer um que se negue à identificar as justificativas para a irracionalidade na filosofia "séria" (de Schopenhauer e Nietzsche à Spangler ou Jung) como conduzindo ao obscurantismo, naturalmente ficará impressionado em ver que tais fantasias são subitamente e de fato, tomadas muito seriamente quando o fascismo chega ao poder.
Em 1919, a burguesia alemã precisava experimentar quaisquer meios que justificassem a defesa do seu poder. Nesta época, mitos e mágica mudaram-se das salas de visita e cafeterias para lutar contra razão e revolução. A enchente de panfletos e dissertações pseudo-científicas tornou-se devastadora.
A Ficção Científica lida pelas classes sociais que não eram atingidas pelos panfletos pseudo-científicos e filosóficos, também sucumbiu à esta irracionalidade. A idéia de que o tempo estava maduro para uma "reorientação espiritual" também na literatura, era persistentemente sugerido por tais autores. Eles clamavam por sensações e fantasias imaginativas que ajudariam a conquistar o "materialismo" bruto e sua contraparte, o realismo.
Uma articulação aparentemente não-política destas tendências, estendia-se como se segue:
Existem muitos indícios de que o materialismo mecanicista - derivado das ciências exatas que imprimiram sua marca na última década, está finalmente agonizando, devido à recente revolução espiritual. Obviamente, as saudades transcendentais da maioria da humanidade não podem ser suprimidas à longo prazo... Em primeiro lugar, chegamos novamente ao ponto de vista do "assombro" - isto é, nós não mais desprezamos como tolices todas as coisas que não são explicáveis em termos das leis conhecidas da física.
Misteriosas conexões entre os seres humanos, independentes de separação espacial e temporal, espectros, a aparição de fantasmas, estão todos novamente no reino do possível.(1)
(...A crença na Atlântida e na Cosmogonia Glacial também inspiraram os cerca de 600 membros da "Sociedade para o Vôo Espacial"(15), que desejavam escapar da miséria alemã por meio de espaçonaves.
Eles queriam descobrir "novos mundos, como conquistadores modernos"(16); eles planejavam aumentar a grandeza da Alemanha construindo uma estação espacial cujo "valor estratégico", entre outras coisas, consistia, como Willy Ley escreveu, em "criar tornados e tempestades, destruindo exércitos em marcha e suas linhas de suprimentos, e queimando cidades inteiras" (17).
Graças à ativa propaganda desta sociedade, a idéia da viagem espacial tornou-se tão popular que foguetes lunares tornaram-se um item regular em desfiles carnavalescos, e Fritz Lang foi estimulado a fazer o filme A Mulher na Lua (1928), para o qual ele recorreu à consultoria especializada da Sociedade..." )
Ficção Científica, Ciências Ocultas e Mitos Nazistas - Manfred Nagl [Download ]
NOVA Fantasia (tradução de Alexis Lemos)
Nazi UFOS -Hitler's Flying Saucers - A Guide to German Flying Discs of the Second World War
Science Fiction Awards Watch
Quer ficar atualizado sobre as premiações mais importantes da Ficção Científica/Fantasia mundial?
Science Fiction Awards Watch
quinta-feira, 16 de abril de 2009
Novel, Novella, Novelette, Short Story ? Uma explicação.
Quem vê a divulgação de prêmios literários como o Hugo, Nebula, Locus, etc, fica quase sempre sem entender a diferença entre 'novel' (novela) e 'novella' (romance), entre 'novelette' (romance curto) e 'short story' (conto).
A SFWA (Science Fiction Writers of America) se utiliza do seguinte critério:
Novel: obras com 40.000 palavras ou mais.
Novella: obras entre 17.500 e 40.000 palavras.
Novelette: entre 7.500 e 17.500 palavras.
Short story: menos de 7.500 palavras.
Se levarmos em consideração que uma página (utilizando tamanho de fonte 12pt e espaço duplo) tem aproximadamente 300 palavras, faz com que:
Uma 'novel' tenha mais de 133 páginas, aproximadamente, a 'novella' entre 60 e 130 páginas, 'novelette' entre 25 e 60 páginas e 'short story' menos de 25.
2009 World Science Fiction Convention e Prêmio Hugo

A Convenção Mundial de Ficção Científica de 2009 ocorrerá de 06 a 10 de Agosto em Quebec, Montreal, atraindo milhares de fãs de todo o mundo, como todos os anos.
A programação completa, no site oficial.
Os candidatos para 2009:Best Novel
Anathem by Neal Stephenson (Morrow; Atlantic UK)
The Graveyard Book by Neil Gaiman (HarperCollins; Bloomsbury UK)
Little Brother by Cory Doctorow (Tor Teen; HarperVoyager UK)
Saturn’s Children by Charles Stross (Ace; Orbit UK)
Zoe’s Tale by John Scalzi (Tor)
Best Novella
The Erdmann Nexus by Nancy Kress (Asimov’s Oct/Nov 2008)
The Political Prisoner by Charles Coleman Finlay (F&SF Aug 2008)
The Tear by Ian McDonald (Galactic Empires)
True Names by Benjamin Rosenbaum & Cory Doctorow (Fast Forward 2)
Truth by Robert Reed (Asimov’s Oct/Nov 2008)
Best Novelette
Alastair Baffle’s Emporium of Wonders by Mike Resnick (Asimov’s Jan 2008)
The Gambler by Paolo Bacigalupi (Fast Forward 2)
Pride and Prometheus by John Kessel (F&SF Jan 2008)
The Ray-Gun: A Love Story by James Alan Gardner (Asimov’s Feb 2008)
Shoggoths in Bloom by Elizabeth Bear (Asimov’s Mar 2008)
Best Short Story
26 Monkeys, Also the Abyss by Kij Johnson (Asimov’s Jul 2008)
Article of Faith by Mike Resnick (Baen’s Universe Oct 2008)
Evil Robot Monkey by Mary Robinette Kowal (The Solaris Book of New Science Fiction, Vol.2)
Exhalation by Ted Chiang (Eclipse Two)
From Babel’s Fall’n Glory We Fled by Michael Swanwick (Asimov’s Feb 2008)
A lista completa dos indicados no site Hugo Awards
Existe vida inteligente... na Ficção Científica?

Os romances de Ficção Científica(FC) são provavelmente a segunda maior causa de urticária em intelectuais e acadêmicos, só perdendo, por muito pouco, para os livros de auto-ajuda.
À simples menção do termo ou da sigla “FC” seguem-se, invariavelmente, discretos acenos de cabeça, resmungos e uma sensação de desconforto. Dores de barriga, crises de enxaqueca e “calores”, seguidos das necessárias seções de descontaminação por exposição aos programas eleitorais gratuitos, são recomendadas para todos aqueles que se sintam ofendidos com a perspectiva de... sonhar livremente.
Olhar só para trás é reducionista e perigoso. De onde será que vem a idéia de que um romance só é confiável, bom e recomendável se for situado no presente ou no passado? Por que o passado é mais confiável? Por que o presente é mais criticável? Por que o futuro é inaceitável?
Medo. O ser humano tem um receio atávico do que não conhece, do que não domina e do que não consegue prever. Se um evento está, fisicamente, “virando a esquina”, isto já constitui um problema. E se, então, está longe o suficiente para ser classificado como algo que está relacionado ao “amanhã”, então é melhor chamar o médico da família. E que ele traga os nossos sais!
Crescemos ouvindo o ditado: o futuro a Deus pertence. Concordo. Mas quem tenta descrever o que Deus planejou para a humanidade, são os autores de ficção científica. Estes artistas da possibilidade mostraram que muitas vezes seus exercícios intelectuais podem mudar de categoria: se transformam em probabilidades. Cinturões de satélites para comunicação, veículos espaciais reutilizáveis, cirurgias oculares à laser, estações orbitais, pousos em outros planetas, clonagem, vôos supersônicos, computadores pessoais, dispositivos portáteis de comunicação interpessoal... perdão, eu quis me referir aos nossos pequenos e eficientes telefones celulares.
Não importa se o nome dado a um objeto há 60 anos atrás por um escritor, não é o mesmo que o departamento de marketing de uma indústria atual resolveu adotar como o melhor. Existiu a necessidade de um determinado equipamento (lentes de contato, ar condicionado, agenda eletrônica ou descascador de batatas), esta necessidade foi detectada pela indústria e ela foi atendida. O interessante é que este tipo de necessidade foi previsto com antecedência e o respectivo equipamento foi descrito, muitas vezes com anos de antecedência, por autores de FC.
Não quero aqui fazer uma apologia aos poderes sobrenaturais de presciência deste gênero de escritor, só quero deixar claro que existe mérito, inclusive mérito social, neste tipo de obra. Pensar uma sociedade diferente, criar equipamentos para resolver problemas, imaginar para as pessoas o desenvolvimento de novas habilidades, ou novas dificuldades, tentar criar realidades paralelas, melhores, piores, intercaladas, intermitentes ou, meramente diferentes, é o tipo de exercício a que este tipo de autor se entrega. De corpo e alma. Existem grandes autores neste gênero e existem obras que já deveriam fazer parte daquelas relações de livros que todos nós fazemos e cujo título é: tenho que ler. A propósito, se você não tem uma lista assim, já está na hora de fazer.
Definições
Mas o que pode ser considerado ficção científica? Muitos acadêmicos e intelectuais vêm tentando definir este gênero literário, mas só produziram complicações que tendem, quase como uma regra, a ser pejorativas. Exemplo: “FC é a vulgarização e antecipação de grandes descobertas científicas ou então conjecturas sobre o relacionamento entre o homem e a tecnociência”.
Até agora, quem melhor conseguiu definir FC, são seus próprios autores. Com definições que variam do cômico ao ofensivo, passando pelo razoável e o consciente, encontramos coisas assim: uma charmosa união entre fatos científicos e visão profética (anônimo); gênero literário que induz à voluntária suspensão da realidade em seus leitores utilizando uma atmosfera de credibilidade científica para suas especulações (anônimo); história sobre seres humanos, com problemas humanos e soluções humanas em torno de especulações científicas (Theodore Sturgeon); o ramo da literatura que aborda o impacto dos avanços científicos na vida das pessoas (Isaac Asimov); FC administra possibilidades improváveis fantasiando impossibilidades plausíveis (Miriam deFord); FC é difícil de definir pois é um gênero literário que aborda a evolução e que evolui enquanto se tenta defini-la (Tom Shippey); e a mais simplista de todas, a minha: uma história de ficção científica é aquela que faz o leitor viajar, no tempo e no espaço, sem medo, sem perigo mas o tempo inteiro com um friozinho na barriga.
Mas se a FC é tão rica, tão gostosa, tão criativa e variada, por que é vista como a prima pobre, inculta, burra, infantil e rampeira da literatura de proposta? Os únicos culpados são os próprios autores. Para demonstrar uma sociedade diferente, uma tecnologia avançada, um tempo futuro, não é necessário ter um complexo equipamento na parede do banheiro do personagem principal que receba o sugestivo nome de “pente mecânico”. Ao longo da história da humanidade muitos artefatos tiveram suas formas determinadas pela sua função original e, dificilmente podem ser melhoradas. Desde os tempos das cavernas os homens usam seus dedos para desfazer os nós de seus cabelos e um pente é uma evolução perfeita. Não se mexe em time que está ganhando. Ou existe uma forma melhor de prender papéis do que um clipe? Quando autores assim perdem a noção do ridículo, fazem um desserviço ao gênero literário que produzem.
A ficção científica de qualidade está muito além da cor verde (ou cinza, como querem alguns) dos seres alienígenas, dos cativantes olhos azuis do ET de Steven Spielberg ou de canudinhos para tomar refrigerantes que esguicham a bebida na boca de uma mulher com pele de onça, três seios enormes, uma cauda preênsil e saltos altos. Escrever algo com um pé na realidade e outro na ciência é o verdadeiro desafio, é a diferença entre boa e a má ficção. É o pé na realidade que confere credibilidade ao texto. É a verossimilhança que arrebanha leitores e adeptos. Não existem super-velocidades, as leis da física e da química continuam vigentes, até prova em contrário a gravidade existe e não é a “cor” do Sol que vai permitir que qualquer um de nos vista um pijama azul, uma capa e botas vermelhas e saia por aí voando e combatendo o crime.
Mas o leitor desavisado não pode se deixar abater com expressões como “conselho de planetas” ou “a base da guarda espacial”. Às vezes expressões assim são necessárias para dar um contexto social e até mesmo político para a obra. “The Moon is a Harsh Mistress” de Robert Heinlein (não encontrei tradução em português) não pode nem deve ser lido simplesmente como a história de uma cidade na Lua. Existe aqui uma profunda análise dos problemas psicológicos, biológicos, políticos, sociais e tecnológicos que envolveriam uma empreitada assim. Este romance especificamente, é uma impressionante luta pela liberdade de decisão e expressão, uma revolta grupal contra a opressão, a dominação cultural e o poderio militar de outro grupo social. Dito assim fica parecendo muito mais sério não é? O que ocorre é que, como em qualquer outro gênero literário existem autores excelentes e aqueles que deveriam voltar aos seus empregos anteriores. E mesmo quando se analisa a obra completa de um autor, encontramos obras melhores e piores.
Se nos ativermos por exemplo à obra de três autores consagrados que andaram flertando com a ficção científica, o realismo fantástico e o horror, sendo eles Jorge Luiz Borges (O Aleph), José Saramago (Ensaio sobre a Cegueira) ou Henry James (A Volta do Parafuso), percebe-se que eles, como qualquer outro autor, não foram brilhantes o tempo inteiro. E o mesmo acontece com todos os autores de qualquer outro gênero. A diferença é que os escritores de FC são sempre mais visados pois se expõe a riscos maiores.
Fantasia, horror e FC
Um erro comum é confundir ficção científica com dois outros gêneros próximos, o horror e a fantasia. O horror, como diz Freud em um de seus ensaios,é aquela “estranheza inquietante”. São conhecimentos biológicos ou antropológicos em torno dos padrões de “normalidade humana” e o que se afasta desta normalidade.
Apesar de existirem muitos autores excepcionais e romances consagrados como por exemplo “Frankenstein” (Mary Shelley), “Dracula” (Bram Stoker), "O Exorcista" (William Peter Blatty), “O Bebê de Rosemary” (Ira Levin), “O Iluminado” (Stephen King), provavelmente os dois autores de romances de horror que mantiveram uma consistência em termos de qualidade ao longo de toda sua obra, foram Edgar Allan Poe e H.P. Lovecraft.
O gênero fantasia, provavelmente o ramo principal do qual a ficção científica e o horror derivaram, tornou-se mundialmente popular depois da publicação da obra suprema de J. R. R. Tolkien “O Senhor dos Anéis” no final dos anos 60. Usualmente todos os romances que se referiam ou contenham animais falantes, mundos mágicos, “capa e espada”, feiticeiras, magos, unicórnios e outros seres mitológicos, estaremos transitando pelo mundo da fantasia que, também, é o mais amplo dos três gêneros pela sua variedade de temas. São mundos onde normalmente a ordem e as leis que mantêm esta ordem, não se aplicam ou são diferentes das que regem nosso próprio universo.
Mas independente de qualificações, e até como uma forma de afirmar sua rebeldia, inúmeros autores transitam de um gênero para outro, sem perder qualidade em sua obra. Cita-se como exemplo “O Homem Demolido”, de Alfred Bester, que é um policial ambientado no futuro, ou ainda “O Talismã” de Stephen King que é uma gigantesca história de fantasia.
Mas, como sempre, especialmente em um campo que envolve muita criatividade como a literatura, existem reações. E, sem se importar com urticárias, calores ou enxaquecas, a Universidade de Liverpool na Inglaterra, desde 1994, vem oferecendo um curso de Mestrado em Estudos de Ficção Científica, que abrange assuntos tão variados quanto utopias, FC e guerra fria, FC e sexo, bem como disciplinas dedicadas ao estudo de autores específicos, como Philip Dick, Isaac Asimov, Arthur Clarke e outros.
Já não era sem tempo. É necessário parar de encarar a FC como um gênero menor, descartável, especialmente se forem consideradas sua influência criativa em outras áreas como a televisão, o cinema e a própria ciência. Existe qualidade, profundidade e seriedade na FC. É preciso prender os cães de guarda lá na casinha no fundo do quintal, colocar a prataria e a melhor porcelana na mesa da sala se jantar e deixar a Ficção Científica (com letras maiúsculas) entrar na nossa casa e na nossa vida. Existe, sim, vida inteligente na FC. Basta saber onde procurar.
(Fábio Marchioro .2004)
Parágrafo - Manual de Sobrevivência do Novo Escritor
quarta-feira, 15 de abril de 2009
O Futuro da Ficção Científica - Norman Spinrad (1980)

Muitos anos atrás, Michel Butor sugeriu seriamente que os escritores de FC deveriam se unir e decidir como será nosso futuro, guiando-nos e através de seus romances e contos, construiriam esta utopia coletiva.
Era uma idéia boba, mas hoje parece até razoável, se pararmos para pensar.
Vivemos ainda hoje do grande boom da Ficção Científica dos anos 70. O número de títulos de FC publicados a cada ano está subindo. Além disso, algo como 25% de toda a ficção publicada na forma de livro nos Estados Unidos é hoje de Ficção Científica (FC).
Títulos de FC fazem parte das listas de best-sellers nacionais.
A revista Isaac Asimov Science Fiction Magazine, em sua breve existência, chegou ao topo da circulação de 100 mil exemplares; a OMNI, com uma existência menor ainda, alcançou um milhão.
A ficção científica tem sido a grande esperança de Hollywood. Charles Brown, da Locus, estima que algo em torno de 75% de todos os romances de FC publicados até hoje estão, ainda, disponíveis. O que acontecerá? Isso vai continuar ou o colapso da bolha, como aconteceu em 1950, nos trará de volta a Terra, quando cada palavra pagava 50 cents e os adiantamentos eram de dois mil dólares?
A comunidade FC nunca viveu sem suas Cassandras e muitos, nesta área, cresceram na dificuldade, com pouco dinheiro e até com um pouco de auto-satisfação de viver sendo grotescamente sub-pago e sabendo disto, olhavam por sobre seus ombros, esperando o machado cair mais uma vez.
O boom dos anos 70 foi principalmente um produto da moda, impulsionado por grandes filmes, como 'Guerra nas Estrelas' e 'Contatos Imediatos', acrescido do instinto de alguns editores de FC que se encontrava em guerra pelas licitações. Quando Hollywood agarrar-se ao próximo modismo e deixar de lado os romances de FC, o ar se tornará pesado para os que estavam nesta bolha, cabeças rolarão e todos nós voltaremos ao nosso belo e pequeno recanto literário.
Bem, talvez, mas eu não penso assim.
O fenômeno comercial do atual boom da FC tem suas raízes históricas, culturais e até espirituais mais profundas do que campanhas de filmes de milhões de dólares ou adiantamentos de cem mil dólares para novos livros.
Estamos vivendo um momento crítico na evolução de nossa espécie e a Ficção Científica encabeça a cultura popular como uma parte forte de nossa cultura e está além de nosso controle.
Qualquer que seja a moda, ela não pode efetivamente, ser duradoura ou preencher por muito tempo um vácuo psicológico. A moda efetivamente envolve manipulação, deslocamento do imaginário, estruturas míticas e forças históricas e psicológicas que prevalecem na consciência da massa, que é o seu alvo. Talvez se possa vender gelo para esquimós, mas não se pode esperar que todos comprem. Então, enquanto o aspecto comercial do boom da FC da década de 70 estiver super valorizado pela moda em torno de 'Guerra nas Estrelas', 'Contatos Imediatos', 'Super Homem', 'Jornada nas Estrelas', 'Galáctica' e companhia, esta moda não pode ser tão bem sucedida, sem que a chave não fossem forças poderosas já existentes na psique coletiva.
Consideremos o - muito medíocre para ser caridoso - aspecto artístico desses filmes comerciais, que encheram o balão da FC. Assumindo que o povo não é composto de tolos - vamos admitir (é uma questão passível de debate em certos círculos) - que os épicos hollywoodianos de FC não são um sucesso por serem obras de arte do cinema, mas por serem ficção científica.
A verdade é que esta moda criou um novo público para a FC. Verdade também que a maioria dos beneficiários deste modismo não possuía a mesma fama e relevância artística comparável ao trabalho produzido pelos membros da SFWA ou de escritores premiados por seus livros.
Mas isso seria para sempre?
Quando o povo desenvolver um novo apetite, não haverá em curto prazo, aqueles que produzirão o próximo fast-food na área de FC? Isso é eterno, é parte da natureza da interface comercial.
Nada de novo, então. O que é novo é que esta fome permitirá que produtos medíocres faturem milhões através dos franchises da fast-food literária. Será que a natureza deste apetite mudará o futuro da FC e este relacionamento será recíproco? O que todo modismo faz é expor uma grande e nova platéia a algo semelhante à FC, poderíamos dizer, como se um pequeno restaurante de tacos pudesse expor ao paladar de seus inocentes fregueses, algo como a verdadeira comida mexicana e então aprimorar o seu gosto.
A questão principal é por quê.
Obviamente, a Ficção Científica de repente começou a alimentar uma fome que não estava satisfeita por nenhuma outra 'cozinha ficcional'. A viagem até o pato de Pequim começa pelo rolinho primavera.
A coisa mais importante sobre tudo é que o modismo não ficará sendo somente, a venda de junk food para a mente, mas também irá expor muitas pessoas a uma Ficção Científica que jamais puderam experimentar antes.
Na realidade estaremos expondo a Ficção Científica para pessoas que nunca a leram, inclusive, mas que desenvolveram uma fome por experiências psicológicas a partir disto.
Por quê? O que desejamos encontrar ao alimentar, nesta conjuntura, a evolução da cultura popular? Vamos pensar em alguns fenômenos colaterais.
O boom da FC nos anos 70 foi precedido por uma proliferação de novos cultos religiosos.
É um fato comum que a nossa corrida atrás da ciência e da tecnologia tem diminuído a credibilidade das religiões tradicionais.
É fato também que a visão de um mundo científico deveria prover uma nova fonte de nutrição espiritual que tomasse o lugar daquela desacreditada.
É fato que o espírito humano tem a necessidade de experimentar o transcendental. Todas as vezes que a ciência e a tecnologia tomaram conta da nossa cultura, presenciamos o renascimento de um misticismo atávico e da procura pelo espiritual, e o nascimento desses novos tipos de cultos religiosos, ou mais precisamente, a totalidade deste novo tipo de fenômeno tomava o nicho psicológico deixado vago pela religião tradicional.
Organizações como a Cientologia, a ARICA, Silva Mind Control, etc, etc, são tentativas de unir a experiência mística do oriente com os métodos científicos do mundo moderno segundo a visão ocidental.
Tipicamente um guru ou mestre perfeito, como o pináculo de uma hierarquia bem estruturada, um método ou um caminho que será seguido pelos seus crentes e uma visão de uma Nova Jerusalém ao final do arco-íris. Porém, mais do que uma moral teológica ou um livro de receitas de como chegar ao paraíso, esses grupos oferecem aos seus seguidores uma ciência ou um método quase científico de transcender a consciência aqui e agora.
É claro que o budismo e o hinduísmo em sua pureza teórica fazem a mesma coisa, porém o que é novo nisto tudo é um tipo de culto religioso que atende à psique moderna, que se adaptou não ao culto de imagens de deuses e demônios, mas à metodologia e às armadilhas da pseudo-ciência.
Eles estão tentando reintroduzir experiências místicas transcendentais na cultura moderna através da ciência, não ao invés da ciência, mas transcender os parâmetros espirituais sob a ótica de um mundo científico, não o negando, mas se apropriando de sua metodologia com fins transcendentais.
Vinte anos atrás ou mais, os fãs da Ficção Científica já diziam que estavam tentando recapturar o 'sense of wonder'. Esta fome de experiências atrás de flashes de uma consciência transcendental e que não rivalize com o avanço da ciência e da tecnologia, sempre foi um ponto comum àquelas pessoas que liam FC. Aliás, a preocupação predominante da FC com viagens no espaço, outros mundos, alienígenas e criaturas superpoderosas sempre disse diretamente ao transcendentalismo científico.
O espaço, por si só, é uma experiência de um outro plano existencial; outros planetas são novos mundos desconhecidos, criaturas alienígenas são seres não humanos, sencientes como deuses e demônios e mutantes são homens que transcenderam os parâmetros de nossas atuais definições de humanidade, não através do mito, mas à verossimilhança plausível, possível cientificamente.
O que aconteceu nos anos 70 é que a história, o modismo e a perda da credibilidade lógica na perda das fontes tradicionais combinada com a experiência transcendental fornecida pela Ficção Científica (com a sua estética do 'sense of wonder'), agiu como um novo e moderno culto a preencher o vácuo psicológico de então.
A fome de parte desta platéia pelo que a Ficção Científica poderia fornecer era uma condição já preexistente. A moda meramente focalizou o público para isso.
E se você duvida, olhe para o tipo de Ficção Científica que construiu este grande boom, não somente em termos de mérito literário, mas em termos de conteúdo. 'Jornada nas Estrelas' se passava inteiramente no espaço, em outros mundos, e apresentava a figura mefistofélica e benevolente do Sr. Spock. A space opera 'Guerra nas Estrelas' tinha em seu centro a metafísica, a Força. Os adoráveis e benignos alienígenas de 'Contatos Imediatos do Terceiro Grau' eram como deuses bondosos. As figuras messiânicas como Michael Valentine de 'O Estranho Numa Terra Estranha' e Paul Atreides de 'Duna'. Os super-heróis da Marvel. A fantasia metafísica de Tolkien.
Finalmente, emergindo ao mesmo tempo da grande bolha, nós tínhamos os fenômenos na FC do movimento L5 (Grupo não-governamental formado por cientistas para a criação de uma cidade no espaço) . O conceito, a construção de uma cidade auto-suficiente e permanente no espaço era algo totalmente novo, mas que nascera nos escritos de Gerard O Neill.
Nós todos sabemos que isso foi o tema comum da ficção científica por décadas.
E este é o ponto.
De fato, o movimento L5 não cresceu fora do fandom FC ou dos tradicionais leitores de Ficção Científica. Ele se desenvolveu colateralmente ao boom da FC, mas de forma independente em seu campo, aparentemente ignorante da maior parte do que concerne à Ficção Científica, porém com a força evolucionária que produziu o boom da FC.
Sem duvida, a visão de uma nova Jerusalém cientifica e tecnológica, no espaço, está no processo para gerar um movimento popular de massa. A NASA está se esforçando para isso também.
As primeiras raízes desta organização estão começando agora.
Finalmente este movimento acabará por invadir a FC, fazendo um circulo completo e que nos leva ao tema do ensaio, o Futuro da FC. Vai haver uma enxurrada de histórias usando a estação espacial da L5, talvez pela primeira vez na história, o gênero poderá se nutrir da vida real, a L5 vai finalmente unir escritores e leitores como aliados,
E o que tudo isso significa para o futuro da FC?
Significa que a FC está chegando ao centro da consciência popular ou melhor, o povo está indo para onde a FC sempre esteve, e por razões que transcendem o sucesso de alguns filmes, e é por isso que eu acho que a bolha não vai estourar desta vez.
É claro que não vai ser um caminho fácil , haverá escorregadelas e tropeços, a FC ainda alimentará novos e antigos escritores por mais duas décadas, que irão colaborar para tornar ainda mais rico este gênero, um amplo e mais preparado publico está por vir, talvez possamos dizer que a FC possa se tornar o principal gênero na America do Norte dominando a ficção.
Hoje a FC já é um grande negócio, tem importância em nossa cultura e junto à ciência, estaremos juntos com os grandes literatos, com certeza, em breve.
Somos os candidatos a gurus do que ainda está por ser feito e isto também é perigoso.
Assim como os combustíveis fosseis irão um dia acabar, as pessoas terão que perceber que o futuro será diferente dos dias atuais, nossas visões, nossa ficção, será parte de nossos desejos, estará nos programas de televisão, nos esforços para a colonização do espaço, não mais como apenas ficção, mas como prática e realidade.
Muitos anos atrás, Michel Butor sugeriu seriamente que os escritores de FC deveriam se unir e decidir como será nosso futuro, guiando-nos e através de seus romances e contos, construiriam esta utopia coletiva.
Era uma ideia boba, mas hoje parece até razoável, se pararmos para pensar.
terça-feira, 14 de abril de 2009
A Maga

Trinta anos antes de Harry Potter, Ursula K. LeGuin escrevia romances sobre uma escola para magos. Assim como seus romances tratavam do bem e do mal, também falavam sobre raça e gênero.
Ursula K.Le Guin encontra inspiração para criar seus mundos fantásticos, tanto na literatura quanto na paisagem. Sua casa nas colinas a oeste de Portland, acima do rio Willamette, tem uma vista espetacular para o Monte Helena, que entrou em erupção vinte e cinco anos atrás, mas agora repousa tranquilo. Neste paraíso privilegiado, sua casa por quase meio século, Le Guin escreveu os livros que a fizeram ganhar reconhecimento como 'Grand Master', tanto da Ficção Científica quanto da Fantasia.
Trinta anos antes de Harry Potter, em 'A Wizard of Earthsea' (1968), ela mandou Ged, também conhecido como Sparrowhawk, para uma escola de magos, em um arquipélago pre-industrial, repleto de dragões e feiticeiros, governado pela magia e pela morte. Le Guin também escreve ficção 'realística', poesia, ensaios e livros para crianças.
'Não tenho paciência com esta ideia de rotular o gênero como um sinônimo de falta de qualidade. Talvez se tivéssemos uma crítica menos ignorante, poderíamos fazer algo mais interessante'.
Ela credita a JK Rowlings ter dado à fantasia 'um grande empurrão' com certo remorso.
'Não penso que ela me plagiou, como alguns dizem, porém ela poderia ter sido mais gentil com seus predecessores. Minha incredulidade se limita aos criticos que acharam o primeiro livro dela maravilhosamente original.
Ela tem muitas virtudes, mas originalidade não é uma delas. Isto me revolta.'
Para Margareth Atwood, Le Guin representa a quintessência do escritor americano, de uma inquestionável qualidade literária, 'para aqueles que se perguntam para onde estamos indo'.
Seus mundos, diz Le Guin, não são inventados, mas sim descobertos.
'Eu paro para observar algo, uma pessoa numa paisagem, e tenho que descobrir o que é aquilo'.
Mas mesmo viajando por mundos internos ou externos, seus olhos permanecem no aqui e agora. Aos 76 anos, Le Guin fala sobre sua filiação aos movimentos pela paz e pelas mulheres ('Tenho o prazer perverso de chamar a mim mesma de feminista') e sobre o Taoismo ('profundo e subversivo').
Seus últimos romances, como 'Gifts', agora pela Editora Orion, começa uma nova série para 'jovens adultos', 'The annals of Western Shore'. O segundo, 'Voices', será publicado em Março.
'Escrever fantasia não é escrever para crianças, mas apaga as distinções, é inerentemente um gênero crossover.
Muito do escrever fantasia, é sobre o poder, veja Tolkien, por exemplo. Significa observar o que o poder faz com a pessoa que o tem e aos outros. Acredito, como Shelley, que "o grande instrumento da boa moral é a imaginação", se você não é capaz ou não imagina o resultado suas ações, não há como você agir moralmente ou com responsabilidade.'
'Crianças pequenas não conseguem fazê-lo, bebês são moralmente monstros - completamente ávidos. Sua imaginação tem que ser treinada para a observação e a empatia.'
Não é uma tarefa fácil, como uma vez ela escreveu:
'Claro, é simples, escrever para crianças é tão simples quanto tê-las.'
segunda-feira, 13 de abril de 2009
Entrevista com Michael Swanwick

Ismo Santala: Você disse que quando decidiu ser um escritor, suas ambições literárias estavam entre ser um segundo JRR Tolkien ou James Joyce Júnior. Quando esta bifurcação teve lugar e como resolveu este dilema?
Michael Swanwick: Ah, isso foi nos tempos de colégio e da universidade, eu passava meu tempo escrevendo péssimas histórias de fantasia e coisas ainda piores. Tolkien e Joyce pareciam cada qual no topo de suas montanhas e era lá que eu queria estar, no topo. Minha lealdade a um ou outro mudava de tempos em tempos, dependendo do que minha caneta quisesse.
Para resumir... eu poderia ser um adulador e dizer que decidi por ser o próximo Vladimir Nabokov, pois todos meus primeiros heróis da literatura tendiam a ser grandiosos - mas a verdade foi que eu parei de tentar pular carniças nestes dez anos de crescimento literário e comecei a escrever narrativas simples que eu pudesse aprender com elas. Isso se deu aproximadamente no inicio dos 70 quando vim para Filadélfia e encontrei Gardner Dozois e Jack Dann e outros autores de FC e pude ver como autores de verdade trabalhavam. Escrever parece muito com arquitetura, pois existe muito deste trabalho pouco romântico, pouco glamoroso e que tem que ser feito antes de se obter grandes efeitos. Levantar uma parede requer trabalho braçal, o personagem precisa de uma motivação muito forte. Meus primeiros onze anos como escritor, eu escrevia constantemente e ainda assim não conseguia terminar as histórias. Quando aprendi o básico da coisa, eu consegui.
E é claro que a primeira boa história que você escreve é como vento nas velas, ela te leva à frente e dá seu curso. Você passa a querer escrever melhor.
Você vislumbra o horizonte.
Um inesperado benefício do meu começo foi que quando publiquei pela primeira vez, sabia mais sobre ficção do que a maioria dos autores iniciantes, então as minhas duas primeiras histórias a serem publicadas ('Gunungagap' e 'The feast of Saint Janis') apareceram relacionadas para concorrer ao Nébula. Isso chamou a atenção para mim. Mas não aconselho aqueles que querem se tornar escritores que se espelhem no meu início de carreira. É terrível chegar perto dos trinta anos sem ter escrito nada ainda e sem conhecer sobre sua habilidade para seguir esta carreira.
Quais são seus escritores prediletos? Novos, antigos, conhecidos ou emergentes?
Puxa! Poderíamos ficar uma semana falando deles. Estabelecidos eu diria: Gabriel García Márquez, Ursula K. Le Guin, Gene Wolfe, Djuna Barnes, A. S. Byatt, Jorge Luis Borges, Joanna Russ, John Barth em seu inicio (particularmente The Sot-Weed Factor e Chimera), Julio Cortázar, Italo Calvino, John Fowles, Samuel R. Delany, Donald Barthelme, Muriel Spark, William S. Burroughs, e inevitavelmente Thomas Pynchon.
Esses são apenas aqueles que me vem mais rapidamente à cabeça. Mas existem estes escritores como Kafka e Salinger e Twain que me são tão familiares e que acabo por esquecer de citá-los.
Novos e emergentes: Greer Gilman, autor de um livro e dois contos de fantasia. China Mieville, que tem recebido muita atenção hoje em dia, e merece. Ellen Kushner e Delia Sherman autoras de The Fall of the Kings. Andy Duncan, chamado de Howard Waldrop da sua geração. Sherman Alexie ainda é novo? Ele é sensacional ainda assim.
Charlie Stross e seu livro Accelerando que me inspira com cada linha dele. Ian R. MacLeod. Geoff Ryman. Paul Park. Gwynneth Jones. Ken MacLeod. Michael Chabon, é claro. Kelly Link. Ted Chiang que consegue ser original e novo a cada história. Mas é claro, estou falando apenas de lembrança, o que vem à cabeça.
Estive em Helsinque recentemente onde fui entrevistado por um fanzine finlandês e meu entrevistador me perguntou se eu não pensava que este era uma época extraordinária para o gênero, comparável a New Wave, porêm maior, pois há tantos escritores fazendo trabalhos fantásticos, tanto na FC quanto na fantasia. E eu pensei: Sim! Com certeza! Foi um tipo de choque, um deja vu. Tive que viajar até a Finlândia para que alguém me apontasse o óbvio, mas a verdade. Existe um enorme número de ainda-não-conhecidos autores surgindo para a literatura, o que é totalmente sem precedentes, neste exato momento. Se eu me atrevesse a fazer uma lista dos melhores escritores atualmente escrevendo, você ficaria de saco cheio antes mesmo de eu terminar.
Deixei de fora todos da minha geração, contudo suas obras estão particularmente próximas do meu coração, porque sou amigo da maioria deles. Mas é uma competição. São os caras com quem eu tento conviver.
Um dos apelos da FC é que o gênero oferece um universo de conceitos que o escritor pode acentuar ou perverter, de acordo com seus desejos. Seria certo dizer que você estaria interessado também no lugar comum literário dos clichês pela mesma razão?
Como qualquer outra coisa, a caixa de ferramentas da FC prestasse como um bom criado para um pobre mestre. Minha série de histórias curtíssimas, The Periodic Table of Science Fiction, invoca fortemente aquele material preexistente na FC, algumas vezes tratado seriamente, outras vezes como brincadeira. Mas tem um lado ruim também. Muitos escritores procuram trabalhar na mudança de algumas alegorias existentes, como um mágico de palco irá superficialmente modernizar um dos números do Houdini, enquanto mantém a mecânica intacta.
Você encontra naves espaciais baseadas em navios da marinha mercante da Segunda Guerra Mundial e que fazem prospecção de minérios em asteróides igual à corrida pelo urânio dos anos 50, é uma ficção que nenhuma pessoa sã pode acreditar que algum dia poderá acontecer. Em casos extremos você encontra astronautas com armas laser, estes autores não percebem que eles há muito não escrevem Ficção Científica mas meramente ficção inexata dos dias atuais.
O verdadeiro desafio, o jogo de verdade, é desenvolver idéias originalmente genuínas. O escritor que inventou a máquina do tempo ou a nave das gerações, ou o ciberespaço, pensavam grande. Aquele que for fazer uma versão engraçadinha de uma destas coisas irá ser publicado e esquecido. São as regras do jogo. Se não pode aparecer com algo novo, se tudo que você tem é a força da sua prosa, então você deveria tentar escrever outra coisa qualquer.
Escrever coisas mais simples não basta. Você tem que trazer algo de novo, uma razão para alguém querer ler seu trabalho ao invés de usar este mesmo tempo para reler Proust.
Como você descreve a diferença entre seus contos e seus romances? Por exemplo, alguma idéia destes contos acaba se tornando um romance ou você sabe até onde a idéia pode ir?
Uma história curta é um objeto mental que pode ficar na mente por completo. Um romance é grande demais para isso. Parece mais como uma viagem. Você pode saber do inicio e do fim e ter o sentimento, mas os incidentes surgem separadamente. Um conto é como uma alucinação viva, mas um romance é imenso, algo que você pode se mudar para dentro e viver por uma temporada.
Quando tenho uma idéia, não sei se ela irá crescer o bastante para se tornar uma ficção, muito menos de que tipo. Mas vou brincar com ela e pensar sobre ela e fazer algumas anotações e eventualmente, se não for robusta o bastante, vai ficar claro para mim. Com a ocasional exceção da loucura, eu não começo nada até que eu tenha a linha inicial escrita e uma visão clara de como irá se desenvolver até o seu fim. O ultimo parágrafo essencialmente, o momento emocional onde tudo que foi escrito até então contribuiu para que ele existisse. Quando tenho isso, posso começar escrever e conduzir o enredo (não tenho idéia de onde vai parar, somente o que está estabelecido para que a história faça sentido) tão simples e certo em direção ao fim. Quando o leitor chega lá, saberá que é inevitável por que o trabalho todo foi dedicado a justificá-lo. Mas também pode ser surpreendente, por que sabendo do que se aproxima, posso acrescentar algumas distrações e desorientações, que manterá o leitor longe do que está por vir.
Nunca tive um conto que chegou a se tornar um romance. Seria violar o formato e o sentimento da idéia, como um oleiro sentar-se para fazer um pote e terminar com um camelo de cerâmica. Mas certa vez comecei um trabalho que era para ser um romance e terminei com um conto curto de 425 palavras. Cortei a história em tiras pequenas, colei sobre uma máscara com o rosto da minha esposa, feita de gaze cirúrgica, e pendurei na parede da sala de jantar.
A freqüência com que ocorrem colaborações literárias é um dos aspectos notáveis da FC/Fantasia. Você trabalhou com outros escritores em inúmeras ocasiões; como se compara com trabalhar sozinho? (e seu próximo trabalho em colaboração com Gene Wolfe.)
Cada colaboração é única. As histórias que escrevi com Jack Dann e Gardner Dozois, foram como parcerias de escola. Gardner e Jack sabiam tudo sobre como escrever e eu era um principiante. Foi uma oportunidade incrível para aprender. 'Green Fire' com Eileen Gunn, Pat Murphy e Andy Duncan era a criança dos olhos de Eileen desde o inicio. Ela possui um talento enorme e estranho e lamentavelmente pouco prolífico, então foi um privilégio trabalhar com ela e ver como sua mente funcionava. As duas histórias que fiz com Avram Davidson foram póstumas, pois trabalhei em histórias que ele deixou inacabadas. 'Apenas sobre seu corpo morto' eu disse para as pessoas 'era o único jeito dele deixar isso acontecer.'
'Dogfight' minha colaboração com William Gibson, eu vejo como um completo sucesso mas não acho que ele gostou. Possivelmente Bill não quisesse colaborar, pois sua visão era tão específica que as palavras de outra pessoa em sua ficção, mesmo boas, nunca iriam satisfazê-lo. Gene Wolfe é para mim, o maior escritor na língua inglesa vivo atualmente. Um editor que conheço pensa que ele irá ser um segundo Saul Bellow mas eu li Ravelstein e não vejo diferença.
Em seus dois maiores ensaios, 'In the tradition...' (Fantasia) e 'A user's guide to the Postmoderns' (FC) você mapeia certas tendências de cada gênero. O que pensa sobre o status acadêmico da Ficção Científica e da Fantasia?
Se você for procurar por ensaios criticas sobre a FC e a Fantasia você será soterrado com trabalhos sobre Stanislaw Lem, Ursula K. Le Guin, Philip K. Dick e (sem brincadeira) Jane Austen. Por que infelizmente a maioria das pessoas no estudo destes gêneros são acadêmicos que não acreditam em seus gostos e julgamentos próprios. Eles não escrevem sobre Clifford Simak ou Leigh Brackett ou Jack Vance por que estes autores - cuja as obras são tremendamente importantes - não foram sancionados pelo consenso critico e podem parecer que não possuem literalidade afinal.
Existem exceções é lógico, e por que elas existem, eu devo dizer que meus próprios ensaios não possuem o rigor intelectual de trabalhos de crítica acadêmica. Foram escritos como propaganda. Eu queria promover alguns trabalhos que eu pensava não estar recebendo a devida atenção, e provocar as pessoas para argumentar sobre seus méritos.
A única coisa que eu já escrevi e que pode ser encarado como um resenha de um olhar rigoroso é 'Hope-in-the-mist', um ensaio biográfico de Hope Mirrlees (escritora de fantasia, cujo maior sucesso foi Lud in the mist de 1926) que apareceu em Foundation, um jornal britânico sobre estudo dos gêneros.
Por fim, para fechar como esperado, no que você está trabalhando atualmente?
Nunca tenho certeza absoluta. Dois livros, ou quase. Estou escrevendo uma fantasia que começa com um estilo meio guerra do Vietnam no reino das Fadas. O protagonista, Will, começa como um relutante criado de um dragão mecânico e em decorrência disso é levado de sua vila para um mundo maior e mais estranho, vitima de um destino inesperado que espera a maioria dos heróis das histórias de fadas. Pode ser que se passe, ou não, no mesmo universo de The Iron Dragon's Daughter. Certamente os dragões serão os mesmos. Mas num continente inteiramente diferente e abordando um reino diferente.
O outro - no qual ainda estou nos estágios iniciais de pesquisa - será sobre ficção cientifica pura, uma viagem de descobrimento em uma das luas do sistema solar, com Lizzie O'brien, o protagonista de 'Slow Life', indicado para o Prêmio Hugo. A graça desta história está em reimaginar que no futuro próximo, a exploração espacial será uma realidade, Por exemplo, no conto - que pretendo que não se torne um livro - o astronauta tem que passar muito do seu tempo dando resposta engraçadinhas para perguntas idiotas na internet. É óbvio que as primeiras pessoas a irem para Marte irão inevitavelmente ter que se render a isso. Mas eu espero tratar de coisas mais sérias também.
Também estou trabalhando em muitas, muitas histórias curtas. Tenho quarenta delas parcialmente escritas no meu computador e notas e idéias mais, e que não consigo dar conta. Algumas jamais serão finalizadas, outras serão, e não tem jeito de saber qual é qual até que aconteça. Ah, e alguns projetos estranhos, tanto de ficção quanto não, dos quais não posso falar porque se eu o fizer, jamais irei sentar para escrever sobre eles.
E a minha muito esperada primeira coleção de contos curtíssimos, Cigar-box Faust and Other Miniatures, está finalmente chegando este outono pela Tachyon, em tempo para a Convenção Mundial de Fantasia que se aproxima.
Então continuo ocupado. As idéias hoje chegam cada vez mais rápidas, mas escrever ainda é demorado como sempre foi, infelizmente.
(Ismo Santala - 2003)
domingo, 12 de abril de 2009
Atomic Rockets










Sua imaginação foi capturada pelo estrondo dos foguetes de SPACE CADET de Heinlein ou pelo Polaris de TOM CORBETT? Mas serão estes foguetes possíveis ?
Este site foi feito principalmente para autores de ficção científica que querem um pouco de precisão nas informações científicas.
Atomic Rockets
Michael Swanwick

Michael Swanwick (18 de November, 1950), escritor de Ficção Científica(FC) e Fantasia. nascido em Schenectady, NY(EUA), começou a ter seus livros publicados nos anos 80.
Seus primeiros livros, In the Drift (1985), Vacuum Flowers (1987), Stations of the Tide (1991) e The Iron Dragon's Daughter (1993) chamaram a atenção da crítica por seu estilo recheado de imaginação e ironia, fugindo um pouco da FC convencional de então. Em The Iron Dragon's Daughter, um conto com elementos de fantasia, Swanwick veste elfos com ternos Armani e dragões são caças a jato; Jack Faust (1997), reconta a lenda de Fausto a partir da tecnologia moderna e Bones of the Earth (2002), trata-se de uma viagem temporal envolvendo dinossauros, só que de uma maneira bem diferente...
Seus contos também aparecem em diversas revistas e coletâneas, como Gravity's Angels (1991), Moon Dogs (2000) e Tales of Old Earth (2000), entre outras. Além disso, tem diversos trabalhos fruto de colaborações com outros escritores, como Gardner Dozois ("Ancestral Voices", "City of God" e "Snow Job") e William Gibson ("Dogfight").
Ao longo de quase trinta anos, acumulou diversos prêmios, como 5 Hugos, 1 Nebula, 1 World Fantasy, 1 Sturgeon, 3 Locus, 4 prêmios Asimov pela escolha do público e 2 SF Chronicle.
Swanwick também se dedica a escrever sobre a profissão que escolheu. Publicou dois ensaios, sobre FC (The User's Guide to the Postmoderns, 1986) e Fantasia ("In the Tradition...", 1994), em que, de maneira controversa, categoriza os novos escritores de FC em dois grupos: 'ciberpunk' e 'humanistas'.
Nas palavras de Swanwick:
"Quando escrevi User's Guide to the Postmoderns, eu implicitamente me coloquei no meio do caminho entre o que chamei de escritores de ciberpunk e escritores humanistas. Ambos mostram tendências que vejo no meu trabalho, então eu os defino por estarem um pouco a direita, ou um pouco à esquerda. Se pudesse sintetizar todos estes autores em um só, provavelmente o escritor resultante disso, seria eu.
Michael Swanwick online
52 títulos de Michael Swanwick (Periodic table of Science Fiction, The Iron Dragon's Daughter, Ancestral voices, Hello, said the Stick, A Midwinters tale, A small room in Koboldtown, After Science Fiction died, Ancient engines, Bones of the Earth, Cold Iron, Congratulations from the future, Dogfight, Dragons of Babel, Girls and boys come out to play, Griffin 's egg, Hunting the great white, Legions in time, Lord Weary's Empire, Minor planets Phoebe, Moondogs, Mother Grasshoper, Radiant doors, Radio Waves, Riding the Gigantosaur, Scherzo with Tyrannosaur, Slow life, Stations of the tide, Teller, The changeling's tale, The dead, The dog said Bow-Wow, The Dragon Line, The edge of the world, The feast of Saint Janis, The madness of Gordon van Gelder, The Raggle Taggle Gypsy, The Scarecrow's boy, The sleep of reason, The very pulse of the machine, The wireless folly, The Wisdom of Old Earth, The wreck of the River of Stars, Tin Marsh, Triceratops Summer, Trojan Horse, Urdumheim, Vacumn Flowers, Walking out, Wild minds, Shed that guilt ) [ Download ]
sábado, 11 de abril de 2009
Antigas máquinas - Michael Swanwick

‘Planejando viver para sempre, Tiktok?’
As palavras interromperam a conversa de bar e trouxe silêncio com elas.
Um silêncio quase infinito e então ‘Acredito que está falando comigo?’ disse o mecanizado.
O bêbado riu. ’Tem mais alguém aqui enfiando agulhas na cara?’
O velho viu tudo. De leve tocou na mão da jovem sentada ao lado dele e disse: ’Observe isso.’
Cuidadosamente o mecânico baixou sua seringa junto de uma garrafa de colágeno liquido sobre um pedaço de tecido aveludado.
Desconectou-se do recarregador, deixando o plugue ao lado da seringa.
Quando ergueu o rosto novamente, sua face era calma e rígida. Parecia com um jovem leão.
O bêbado riu-se desdenhoso.
O bar ficava bem no canto distante da entrada. Um refúgio à prova da irritação das ruas, todo de latão e espelhos e painéis de madeira, aconchegante como o interior de uma noz. Uma luz suave espalhava-se preguiçosa pela sala, criando uma variação de detalhes como nuvens cobrindo um dia de verão, mas longe de obscurecê-la.
O bar, as garrafas por detrás do bar, e as prateleiras sob as garrafas por detrás do bar, era tudo bastante real. Se havia algo virtual, estava longe dali, onde não poderia ser tocado.
‘Se isso foi um desafio’ disse o mecanizado ‘ficarei mais do que contente em encontrá-lo lá fora’.
‘Ah, não’ respondeu o bêbado, sua expressão revelava a mentira em suas palavras ‘eu só vi você injetando esta meleca na cara, oh, tão delicado, parecia uma velha se enchendo de antioxidantes. Então pensei... ’ ele colocou uma mão sobre a mesa para se segurar ‘...pensei que você esperasse viver para sempre.’
A garota olhou para o velho como se fosse perguntar algo. Ele colocou um dedo sobre os lábios.
‘Bem, você está certo. Você tem... o que? Uns cinquenta anos? Mal começou a envelhecer e tornar-se decadente. Logo, logo seus dentes estarão podres e vão cair e seu cabelo vai desaparecer, sua face vai se encher com milhões de rugas. Sua audição e sua visão irão embora e não será capaz de lembrar-se de quando as possuía. Terá sorte se não precisar usar fraldas antes do fim. Enquanto eu... ’ ele espirrou um filete do fluido de sua seringa e deu um tapinha na garrafa e bolhas subiram à superfície... 'tudo que puder falhar eu irei simplesmente repor. Então, sim, eu planejo viver para sempre, enquanto você, bem, suponho que esteja planejando morrer. Logo, eu espero. ’
O rosto do bêbado torceu-se e com um incoerente rugido de raiva atacou o mecanizado.
Rápido demais para poder ser visto, o mecanizado afastou-se, agarrou o bêbado e o ergueu por sobre sua cabeça. Uma de suas mãos pressionava a garganta do homem de modo que não podia falar. A outra mão juntava seus punhos presos por trás dos joelhos, e o bêbado não tinha como escapar.
‘Poderia quebrar sua espinha fácil’ disse sem emoção ‘se quisesse poderia romper cada órgão interno de seu corpo. Sou dois ponto oito vezes mais forte do que um homem jovem e três ponto cinco vezes mais rápido. Meus reflexos só estão abaixo da velocidade da luz e acabei de ser regulado. Você não poderia ter escolhido uma pessoa pior para começar uma briga.’
Então o bêbado foi solto e colocado de pé, tossindo procurando ar.
‘Mas também sou um homem misericordioso, e pedirei gentilmente que vá embora.’
O mecanizado empurrou o bêbado na direção da porta. O homem saiu correndo por ela.
Todos no local – e não eram muitos – estavam observando. Então se lembraram de seus drinques e a conversa voltou a encher o bar novamente. O barman guardou algo debaixo do balcão e voltou ao serviço.
Deixando sua recarga incompleta, o mecanizado guardou o kit de lubrificação em um bolso. Pagou e estava saindo, quando o homem velho se aproximou e disse: ‘Ouvi dizer que espera viver para sempre, é verdade?’
‘Quem não espera?’ respondeu curto e grosso.
‘Então sente-se. Gaste alguns poucos minutos dos abundantes minutos que os séculos à sua frente lhe reservam e divirta um homem velho. O que é tão urgente para que você não possa gastar algum tempo?’
O mecanizado hesitou. Então, quando a jovem sorriu para ele, ele se sentou.
‘Obrigado. Meu nome é...’
‘Eu sei quem é você, Mister Brandt.' Disse o mecanizado interrompendo-o. 'Não há nada de errado com minha eidética (faculdade de evocar visualmente eventos passados.)
Brandt sorriu: ‘É por isso que gosto tanto de vocês. Não preciso ficar lembrando-os das coisas.’ Fez um gesto em direção da jovem.
‘Esta é minha neta.’ A luz se intensificara onde ela estava sentada, fazendo seu cabelo ruivo brilhar. Ela sorriu graciosa.
‘Sou Jack.’ O jovem puxou uma cadeira. ‘Navegador-Fuego Quimera, modelo número...’
‘Por favor... Eu fundei a Quimera. Acha que não reconheço uma das minhas crianças?’
Jack ficou vermelho. ‘Sobre o que quer falar comigo Mister Brandt?’ sua voz era bem menos hostil agora, contra-hormônios sintéticos agiam para refrear suas emoções.
‘Imortalidade. Achei sua ambição bastante intrigante.’
‘O que posso dizer? Eu me cuido, invisto cuidadosamente, compro meus upgrades. Não vejo razão pela qual não deveria viver para sempre.’ E desafiadoramente continuou: ‘Espero que isso não o ofenda.’
‘Não, não, é claro que não. Porque deveria? Alguns homens procuram a imortalidade através do seu trabalho e outros através de seus filhos. Como eu poderia ser mais feliz do que ter a ambos? Mas me diga, realmente espera viver para sempre?’
O mecanizado nada disse.
‘Lembro de um incidente que ocorreu com meu falecido sogro, William Porter. Era um grande sujeito, Bill, e quem se lembra dele? Apenas eu. Mas ele era um pouco sem noção, um dia ele estava em uma excursão num museu de ciência que incluía uma antiga e magnífica locomotiva a vapor. Isso foi no século passado. Bem, ele estava ouvindo admirado a guia falar sobre as virtudes desta antiga máquina, quando ela mencionou sua data de fabricação e ele percebeu que era mais velho que ela. Neste ponto o velho Bill deu uma risada. Mas não havia nada para rir, certo?’
‘Não.’
A neta estava sentada quieta prestando atenção e comendo aperitivos de uma vasilha.
‘Quantos anos você tem Jack?’
‘Sete anos.’
‘Eu tenho oitenta e três. Quantas máquinas você conhece tão velhas quanto eu? Oitenta e três anos e ainda funcionando?’
‘Eu vi um carro outro dia’ disse a neta ‘Um Dusenberg. Vermelho.’
‘Maravilhoso. Mas ele não é mais usado para transporte, não é mesmo? Temos calçadas rolantes agora. Eu ganhei um prêmio certa vez, feito da válvula de um Univac. Ele foi o primeiro e verdadeiro computador. Apesar de toda a fama e importância histórica não passava de ferro velho.’
‘O Univac’ disse o jovem ‘não podia agir por conta própria. Se pudesse talvez estivesse vivo hoje.’
‘Peças se quebram.’
‘Peças novas podem ser compradas.’
‘Sim, enquanto existe mercado para elas. Mas existem tão poucas pessoas mecânicas do seu modelo. E muitos de vocês estão em profissões de risco. Acidentes acontecem e a cada acidente, o mercado de consumo diminui.’
‘Pode-se comprar peças antigas. E pode pedir que alguém as fabrique.’
‘Sim, se puder pagar por isso. Mas e se não puder?’
O jovem ficou calado.
‘Filho, você não irá viver para sempre. Precisamos estabelecer isso. Então, quando admitir que morrerá algum dia, você deve admitir tsmbém que será mais cedo do que tarde. As pessoas mecânicas estão em sua infância. E ninguém pode transformar um modelo T numa esteira rolante, concorda?’
Jack fez que sim.
‘Você já sabia disso.’
‘Sim.’
‘É por causa disso que você agia daquele jeito.’
‘Sim.’
‘Vou ser direto aqui Jack – você provavelmente não vai viver oitenta e três anos. Você não tem as vantagens que tenho.’
‘E quais são elas?’
‘Bons genes. Eu escolhi meus ancestrais muito bem.’
‘Bons genes’ disse Jack amargamente. ‘Você recebeu bons genes e o que o que diabos eu recebi no lugar disso?’
‘Juntas de molibdênio e aço inoxidável. Chips de rubi de zircônio – ora, fizemos tudo de melhor para vocês garotos.’
‘Mas não o bastante!’
‘Não. Não é. Apenas o melhor que podíamos.’
‘Qual a solução então?’ perguntou a neta sorrindo.
‘Eu os aconselharia a tomar o caminho mais longo. Foi o que eu fiz.’
‘Tolices!’ disse o mecanizado.’ Você foi do movimento extensionista quando jovem. Eu baixei a sua biografia. Me parece que queria a imortalidade tanto quanto eu.’
‘Ah sim, fui um membro do movimento pela extensão da vida. Não pode imaginar as porcarias que colocávamos em nossos corpos. Mas um dia eu desisti. O problema é que a informação se deteriora com o tempo, na medida em que a célula humana se reproduz. A morte é inerente para pessoas de carne. Parece ter sido escrita em nosso programa básico, um meio talvez de manter o universo livre de velhos.’
‘E idéias velhas’ disse a neta maliciosamente.
‘Touché! Percebi que estender a vida era um erro. Então decidi que meus meninos poderiam ter sucesso onde eu fracassei. Que vocês iriam... ’
‘Você falhou.’
‘Mas não parei de tentar.’ O velho socou a mesa ao mesmo tempo em que disse a frase. ‘Vamos pensar no que eu deveria ter feito. Como seria um verdadeiro imortal? Que instruções eu deveria ter dado ao meu time de desenhistas? Vamos fazer um homem mecânico que irá viver para sempre!’
Com cuidado o mecanizado disse: ‘Era o jeito óbvio de começar. Ele deveria ser capaz de poder comprar partes novas quando estivessem disponíveis. Deveriam haver adaptadores para tornar fácil ajustar-se tecnologicamente. Deveria poder viver sob condições de extremo calor, frio ou umidade e... ’ fez um gesto com a mão sobre o rosto ‘...não deveria ser tão feio.’
‘Acho você bonito’ disse a neta.
‘Tá, mas isso aqui deveria se passar por carne.’
‘Então seu hipoteticamente imortal deveria... um, poder receber upgrades infinitos, dois, capacidade de se adaptar a um vasto espectro de condições e três, ser discreto. Algo mais?’
‘Acho que ela deveria ser charmosa’ disse a neta.
‘Ela?’ perguntou o mecanizado.
‘Por que não?’
‘Não seria ruim ‘ disse o velho. ‘O organismo que sobrevive às forças evolucionárias é aquele melhor adaptado do nicho ambiental. O nicho ambiental em que vivem as pessoas é feito pelo homem. Qual o traço mais útil para um sobrevivente do que provavelmente a habilidade de se relacionar bem com os homens. O que seria melhor que uma mulher?’
‘Oh, ele não gosta de mulheres. Posso ver pela sua expressão corporal’ disse a neta.
O jovem ficou corado.
‘Não se ofenda’ disse o velho. ‘Você nunca deveria se ofender com a verdade. E quanto a você...’ virou se para a jovem – ‘se não passar a tratar as pessoas melhor, não a levarei mais a lugares assim.’
Ela abaixou a cabeça e pediu desculpas.
‘Desculpas aceitas. Mas podemos voltar ao assunto? Nosso hipotético imortal pareceria com uma mulher, de várias maneiras. Poderia se auto-regenerar. Fazer crescer partes de reposição sozinha. Poderia usar quase tudo como combustível. Um pouco de carbono, água... ’
‘Álcool seria uma excelente idéia’ disse a neta.
‘Seria capaz de mimetizar efeitos superficiais de envelhecimento’ disse o mecanizado. A vida biológica evolui através das gerações. Quero que ela possa ser capaz de se desenvolver ao longo dos upgrades.’
‘É justo. O que eu faria seria acabar com os upgrades inteiramente, e daria a ela controle consciente de seu corpo todo. Assim ela poderia mudar e evoluir à vontade. Ela precisaria disso para sobreviver ao colapso da humanidade.’
‘O colapso da humanidade? Acho que vai acontecer?’
‘Em um longo tempo? É claro. Se for olhar para o futuro parece inevitável. Tudo parece inevitável. Para sempre é um longo tempo, lembre-se. Tempo suficiente para absolutamente tudo poder acontecer.’
Por um momento ninguém falou.
Então o velho bateu as palmas das mãos uma contra a outra. ‘Bem, criamos nossa Nova Eva. Vamos então soltá-la ao vento e ver até onde ela poderá ir. Ela poderá viver quanto tempo?’
‘Para sempre’ disse o mecanizado.
‘Para sempre é muito tempo. Vamos partir em unidades menores. No ano 2500 ela estará fazendo o que?’
‘Trabalhando em um emprego’ disse a neta. ‘Design de moléculas artísticas, talvez, ou escrevendo alucinações recreativas. Estará intensamente envolvida com a cultura. Terá muitos amigos dos quais cuidará com carinho e talvez um marido ou uma esposa ou duas.’
‘’Que envelhecerão’ disse o mecanizado ‘e morrerão.’
‘Ela irá lamentar-se por eles e seguir vivendo.’
‘No ano 3500. O Colapso da civilização.’ Anunciou o velho com prazer. ‘Então o que ela fará?’
‘Ela irá se preparar, é claro, se houver radiação ou toxinas no meio-ambiente, irá tornar seu sistema imune contra os efeitos. E se tornará útil para os sobreviventes. Como mais velha poderá ensinar as artes de cura. Irá aos poucos ensinando-os isso ou aquilo. Ela terá uma base de dados contendo tudo que eles perderam. Aos poucos, elas os guiará de volta a civilização. Mas para uma civilização pacífica desta vez. Uma que não irá querer se destruir.
‘Ano um milhão. A humanidade evolui para um estado que não podemos hoje imaginar. Como ela responde a isso?’
‘Ela acompanha a evolução – Não. Ela dá forma à evolução da humanidade. Ela vai optar por um método livre de riscos para alcançar as estrelas, então ela irá encorajar um tipo de ser que desejará fortemente tal coisa. Ela não estará entre os primeiros a fazê-lo, penso. Esperará algumas centenas de gerações para experimentar.’
O mecanizado que tinha estado ouvindo fascinado em silêncio agora disse: ‘Suponha que nunca aconteça? O vôo estelar será sempre difícil e perigoso? Então o que acontece?’
‘Antigamente diziam que o homem nunca voaria. Muita coisa que parece impossível se torna simples se você puder esperar por ela.’
‘Quatro bilhões de anos. O sol queima todo seu hidrogênio, a atmosfera entra em colapso, fusões de hélio se iniciam e o sol se torna uma gigante vermelha. A Terra é vaporizada.’
‘Ela estará em alguma parte então. Fácil.’
‘Cinco bilhões de anos. A Via Láctea colide com a galáxia de Andrômeda e toda vizinhança de torna altamente radioativa e as estrelas explodem.’
‘Esta é mais interessante. Ela já tinha previsto e estará a alguns milhões de anos luz distante em uma galáxia amigável. Ela terá tempo bastante para se preparar. Tenho fé que provará estar preparada para tal.’
‘Um trilhão de anos. A última estrela se apaga. Restarão apenas buracos negros.’
‘Buracos negros são uma fonte espetacular de energia. Nenhum problema.’
‘1,06 googol anos.’
‘Googol?’
‘É dez elevado a centésima potência – um, seguido de cem zeros. A morte do universo. Como ela poderia sobreviver a isso?’
‘Ela já teria percebido que isso se aproximava’ disse o mecanizado.
‘Quando o último buraco negro desaparecer, não haverá mais energia disponível. Talvez ela precise reescrever sua personalidade pelas constantes físicas do universo moribundo
‘Seria possível?’
‘Oh, talvez. Mas eu realmente penso que a vida do universo é algo longa o bastante para qualquer um.’ Disse a neta. ‘Ela não seria gananciosa.’
‘Talvez sim’ disse pensativo o velho. ‘Talvez não’ e então disse ao mecanizado: ‘Então ai está, uma espiadela no futuro e uma breve biografia do primeiro imortal, que termina, aliaís, com sua morte. Agora me diga, sabendo que contribuiu com algo, mesmo que pequeno, para esta realização – isso não seria o bastante?’
‘Não’ disse Jack. ‘Não seria.’
Brandt fez uma careta. ‘Bem, você é jovem. Deixe-me perguntar isso: Tem sido uma boa vida?’
‘Não tão boa. Não boa o bastante.’
Por um longo tempo o velho ficou em silêncio, então disse: ‘Obrigado. Apreciei nossa conversa. ‘
O interesse se fora de seus olhos e ele desviou sua atenção.
Sem saber o que fazer Jack olhava para a neta, que sorriu e deu de ombros: ‘Ele é assim mesmo. Ele é velho. Seu entusiasmo varia de acordo com seu equilíbrio químico. Espero que não se importe.’
‘Entendo’ disse o jovem ficando de pé e depois seguiu para a porta.
Chegando à porta, olhou para trás e viu a neta rasgando o guardanapo de linho em pequenas tiras e comendo os retalhos delicadamente com a ajuda de pequenos goles de vinho.
Ancient Engines (1999) - Michael Swanwick
Indicado a melhor conto de FC de 2000, para os prêmios Nebula, Locus, Hugo e vencedor do prêmio de melhor conto de FC de 2000 na escolha dos leitores da Asimov SF.
sexta-feira, 10 de abril de 2009
How to write Science Fiction and Fantasy - Orson Scott Card

How to Write Science Fiction and Fantasy was published in 1990 by Orson Scott Card. Card is an American sci-fi and fantasy author probably best known for his story Ender's Game.
The advice in the book is based on his own experiences and he clearly knows something because he's written numerous novels and been very successful as a writer.
This book is an excellent guide for those who wish to write stories in the science fiction and fantasy genres. The book is intended for those writing speculative fiction (a different term for 'science fiction and fantasy'). While it includes some general information for writers, it mostly focuses on things that are an issue only in these genres, such as world building, coming up with plausible alien cultures and working out rules for magic. There are a lot of good books out there for writing fiction in general, so Card recommends a few for things like plotting and perspective, which any writer has to deal with.
The writing style is entertaining and easy. Card uses examples from his own experience and other works of fiction. He also raises the point, which I've seen in other books, that every writer is different. There is one point where he does give rules to be followed, but the final rule is to be prepared to break them. I think the advice given in this book should be seen as a guideline, from which a writer can develop his or her own style and techniques.
About the Author
No one had ever won both the Hugo and the Nebula Award for best science fiction novel two years in a rowuntil 1987, when Speaker for the Dead won the same awards given to Ender's Game. But Orson Scott Card's experience is not limited to one genre or form of storytelling. A dozen of his plays have been produced in regional theatre; his historical novel, Saints (alias Women of Destiny) has been an underground hit for several years; and Card has written hundreds of audio plays and a dozen scripts for animated videoplays for the family market.
He has also edited books, magazines, and anthologies; he writes a regular review column for The Magazine of Fantasy and Science Fiction; he publishes Short Form, a journal of short-fiction criticism; he even reviews computer games for Compute! Along the way, Card earned a master's degree in literature and has an abiding love for Chaucer, Shakespeare, Boccaccio, and the Medieval Romance.
He has taught writing courses at several universities and at such workshops as Antioch, Clarion, Clarion West, and the Cape Cod Writers Workshop. It is fair to say that Orson Scott Card has examined storytelling from every angle.
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quinta-feira, 9 de abril de 2009
Querem escrever horror? - Tim Waggoner

Querem escrever horror?
Muitas pessoas querem.
A grande indústria editorial pode ter momentaneamente virado as costas ao gênero, mas o mercado das pequenas editoras está a prosperar nos EUA, já para não mencionar o número crescente de fanzines de horror na Internet.
Infelizmente, muitas das histórias publicadas nestes mercados não são muito inspiradoras (para o dizer de uma forma amável) e são simplesmente más (para o dizer de forma honesta).
Querem que o seu trabalho sobressaia do resto da alcateia licantrópica?
Querem começar a vender obras para mercados maiores e mais prestigiosos?
Querem que as suas histórias de horror sejam tão boas que as pessoas corram sem fôlego ao longo da prosa, e mal sejam capazes de sussurrar um exausto, "Caramba!" quando terminam leitura?
Não é fácil. Mas eu tenho três dicas para oferecer que aumentarão as suas hipóteses de se juntar ao panteão de escritores de horror de sucesso:
1. Cuidado com os clichés.
Leiam amplamente, tanto dentro como fora do gênero de horror, para que possam reconhecer enredos já usados até à exaustão (e para além dela). Ficarão sabendo como fazer melhor do que escrever histórias que terminam em "E era tudo um sonho," ou "E então ela apercebeu-se, enquanto o seu amante enterrava as presas no pescoço dela, de que ele... era... um...VAMPIRO!"
Quando eu era adolescente, escrevi uma história de horror com o título embaraçoso de "Natal
Assustador". Nela, um jovem delinquente atormenta e mata um homem idoso cujo fantasma volta, buscando uma vingança Natalícia. Pelo menos tive o bom senso de nunca enviar este pedaço de porcaria a ninguém.
Histórias de vingança são um dos maiores clichés da ficção de horror e, além disso, não existe tensão nelas. Os leitores sabem sempre exatamente como elas vão terminar.
Mesmo assim, podem usar os clichés para vosso proveito.
Na minha história, "Blackwater Dreams", publicada na antologia Bruce Coville's Book of Nightmares 2, voltei a tentar criar outra história de vingança fantasmagórica. Só que, desta vez, agarrei no cliché e retorci-o. O personagem principal, um jovem rapaz que se culpa pelo afogamento de um amigo, é visitado nos seus sonhos pelo fantasma do afogado. O rapaz teme que
o espírito tenha vindo em busca de vingança, mas o amigo não está zangado - ele está só.
No final da história, o meu protagonista tem que fazer uma escolha terrível: deixar o amigo entregue à sua solidão, ou o unir-se a ele, na sua úmida vida após a morte.
Na minha história "Alacrity's Spectatorium", voltei a trocar as voltas a outro cliché. Usei a noção de que vampiros não têm um reflexo e criei um espelho escuro que só mostra os reflexos de vampiros. Que preço pagariam os vampiros por um breve vislumbre seu nesse espelho sem igual? Mais, o que significaria para eles um tal vislumbre?
Em vez de terminar com um cliché, por que não começar com um?
Comecem com "Foi tudo um sonho," e construam a vossa história a partir daí. Por que não começar com um homem que descobre que a amante dele é uma vampira e descrever o que acontece depois disso? Ou então dêem a volta ao cliché. E se um vampiro descobrisse que o amante dele não era outro nosferatu mas sim (tremor!) um humano? E tentem evitar
o mais usado enredo na história da ficção de horror, que o autor o Gary A. Braunbeck (Time Was, Things Left Behind) descreve como uma história na qual o personagem principal só existe "para ser devorado pelo monstro". Histórias nas quais os personagens são apenas adereços serem comidos, sugados, estripados, rasgados, trucidados e transformados em geleía pelo seu monstro devorador, seja ele um vampiro, um lobisomem ou o omnipresente assassino-em-série.
Estas histórias não são apenas enfadonhas; elas são insultuosas para leitores que merecem melhor.
Provavelmente, o melhor modo de se evitarem clichés é aderir a um dos mais antigos: escrevam sobre aquilo que sabem. Busquem na vossa experiência ideias para histórias, escrevam sobre as coisas que os excitam e perturbam, as pessoas, os lugares e os eventos que tecem o tecido singular da vossa existência, que tornam a a vida diferente de qualquer outra vivida antes.
Se fizerem isto, não poderão evitar serem originais.
2. Há uma diferença entre perturbar os leitores e simplesmente os enojar.
Demasiados novatos pensam que escrever horror é escrever descrições detalhadas de estripamentos e de fluidos corporais a esguichar. Eles confundem o uso de tais elementos com audácia artística e escrita de vanguarda. A verdade é que, em vez disso, tais escritores são o equivalente literário da criança que enfia o dedo dentro do nariz e tira cá para fora um grande
macaco para poder acenar com ele em frente aos rostos dos amigos.
O bom horror - como toda a ficção que verdadeiramente importa - pretende afetar os leitores
emocionalmente. Claro, a repulsa é uma reação emocional, mas é uma bastante simplista, com um efeito limitado nos leitores. Eles terminam a história sobre um preservativo mastigador de pénis, e pensam, 'Puxa, isto é nojento', e imediatamente se esquecem de tudo.
Vocês falharam no objetivo de os tocar, de mexer com eles, exceto no menos profundo dos
níveis. Não estou a dizer que devem evitar escrever sobre o escuro e o perturbador.
É disso que trata o horror, da silenciosa sutileza de uma sombra semi-vislumbrada num dia que de outro modo seria de sol, até à revulsão "na-cara-do-leitor" do sangue a pingar do metal reluzente de uma lâmina de barbear.
Mas se optarem por irem atrás do "gross-out", como o Stephen King diz, ele tem que surgir naturalmente da própria história, ser uma parte tão integrante ao conto que estão a contar que não pode ser removido sem que a história sofra com isso.
No romance de Gary A. Braunbeck "Some Touch Of Pity" (mais um excelente exemplo de um escritor que pega num cliché - a história do lobisomem - e lhe dá uma forma original),
há um flashback que descreve a violação de uma das personagens. Não só o aspecto físico do acontecimento, mas também as emoções que o personagem sente enquanto a violação ocorre.
A cena é absolutamente brutal, mas também é completamente necessária à história.
Se a cena fosse menos marcante, ou pior, removida, a história seria muito menos potente em termos emocionais.
Na minha história, "Keeping It Together", publicada na primeira antologia da SFF Net, intitulada Between The Darkness And The Fire, escrevo sobre um homem gay que leva um estilo de vida heterossexual numa casa e com uma família que ele próprio criou a partir do seu desejo desesperado de ser aquilo que ele acha que é "ser normal".
Mas é uma ilusão que não pode ser sustentada, e à medida que a história progride, a casa, a esposa, a sua filha jovem, tudo se começa a deteriorar em seu redor. Numa cena, o personagem faz amor com a sua esposa por causa de um sentido de dever conjugal e, uma vez que a dissolução dela já se encontra adiantada nesta altura, o ato sexual. . .danifica-a.
Criei esta cena não somente para fazer os leitores dizerem "Ooooh, que nojo!" mas para
dramatizar ainda mais o impacto de uma negação tão profunda tanto no meu personagem principal como nos que o rodeiam.
Lembrem-se que elementos extremos, como qualquer outra coisa em ficção, são só ferramentas para vos ajudarem a contar vossas histórias da melhor maneira que vocês conseguem. Mas, como qualquer ferramenta poderosa, eles devem ser usados espaçada e cautelosamente, e sempre com uma boa razão.
3. Dêem-nos personagens com quem nos preocupemos.
Deixem-me dizer, antes de mais, que este conselho não significa que tenhamos de gostar dos seus personagens. Significa que os personagens devem ser tão desenvolvidos e interessantes que nos façam querer ler para descobrir o que lhes acontece.
Há personagens - Capitão Ahab, Sherlock Holmes, Hannibal Lector - que nem sempre são agradáveis (e que às vezes são completamente desprezíveis) mas que são tão singulares, tão completamente realizados, que não podem deixar de nos fascinar. É de personagens
carismáticos que a ficção memorável trata em todo o lado, qualquer que seja o meio onde o autor é publicado.
Na minha história, "Seeker", que apareceu na antologia da White Wolf Dark Tyrants, escrevo sobre um cruzado desiludido que perdeu a sua fé em Deus e foi procurar um ninho de vampiros para provar a si mesmo que há algum tipo de faceta espiritual na existência, mesmo se essa faceta é malévola. O enredo ocorre em dois planos distintos. O primeiro é a narrativa do cruzado
que penetra na floresta onde os vampiros vivem, sendo atacado por eles, e lidando finalmente com o seu líder (que eu tornei não apenas um vampiro mas um vampiro que se fundiu com o próprio bosque). O segundo plano é detalhado em vários flashbacks, sendo constituído
pelos eventos que causaram a perda da fé do cruzado e o deixaram tão desesperado por encontrar um sinal - qualquer sinal - de que há Algo Mais na vida.
Se eu tiver feito o meu trabalho bem, não só os leitores se interessarão pela ação da história, mas também pelo próprio cruzado, de forma a que, quando história atinge o seu clímax e a busca do personagem é satisfeita de um modo que ele - e, esperançosamente, os leitores - nunca imaginara (não, ele não se torna um vampiro também; lembrem-se do que eu disse antes,
sobre evitar clichés? Tento fazer o que eu mesmo digo), não só existe uma recompensa emocional, como também os leitores, espera-se, deixarão a história pensando um pouco na sua própria espiritualidade.
Há muito mais para dizer sobre escrever bom horror, mas se pensarem nos três conselhos que lhes dei e os seguirem à risca, criarão histórias que não só serão algo mais do que os contos genéricos que por aí há de zumbis mastigadores de carne e assassinos-em-série sedentos de sangue, vocês criarão ficção que vale a pena ler - que vale a pena recordar.
site de Tim Waggoner
(Tradução Ricardo Madeira)
quarta-feira, 8 de abril de 2009
Gêneros de ficção científica, fantástico, terror e policial perdem a função profilática (John Clute - 1999)

Nos últimos 20 anos, o Ocidente voltou-se para a leitura de gêneros que privilegiam a angústia e tudo indica que essa febre ganhará nova intensidade com a aproximação do fim do século.
Embora o número de anos de um século seja algo bem definido, entendendo-se por ano o tempo gasto por um planeta em sua órbita em torno do Sol , o clímax chamado Milênio, que construímos com base nesse acúmulo de órbitas, foi quase inteiramente urdido em sonhos e na numerologia. Milênio é o que acontece quando uma espécie com dez dedos decide usá-los.
É claro que a história não termina por aí.
O Milênio no qual estamos prestes a entrar não é simplesmente o desfecho arbitrário de um acidente biológico. Ele se tornou um símbolo poderoso de um momento o qual receamos que se tenha tornado grande demais, um abismo negro de futuridade no qual estamos nos lançando com rapidez para que possamos compreendê-lo.
Os símbolos, naturalmente, não são reais, porém, modelam as mentes que os criam. O Milênio é um símbolo ativo, poderoso, criado por uma espécie que conquistou o poder de fazer com que seus símbolos trabalhem para ela.
Somos uma espécie cujo nome é Frankenstein.
Essa febre de fim de século, portanto, tem substância.
Ela molda nossa imaginação e nossa imaginação forja o mundo. É, portanto, uma febre com pedigree. Por baixo do atual modismo febricitante acerca do Milênio, estendem-se dois séculos de obsessão com o tempo no mundo ocidental, uma obsessão de múltiplas raízes
(embora a Revolução Francesa assinale, talvez, seu primeiro momento histórico significativo) e cujas manifestações são praticamente infinitas.
Vamos nos deter aqui nas histórias que contamos para nós mesmos para nossa diversão e instrução, histórias que nos desviam das trevas que nos aguardam.
Foi pouco antes do ano de 1800 a primeira virada de século no Ocidente a ganhar atenção generalizada que o relógio do Manifesto do Tempo começou a bater, e o motor da história passou a funcionar de modo visível.
Os cidadãos do mundo ocidental começaram a duvidar das Escrituras quando diziam que não havia nada de novo sob o sol, que a humanidade não tinha outra alternativa a não ser repetir as grandes histórias que o Senhor idealizara para nós.
Novo ritmo - Começamos a sentir que o chão do mundo se movia, como se respondesse a um novo ritmo imposto por Deus. O tempo decorrido parecia imensuravelmente profundo.
O tempo presente era totalmente reescrito (pelos ideólogos da Revolução Francesa que, apagando o passado, recomeçaram a história do mundo com um calendário novo em folha). E o futuro era inventado: começávamos a crer que as coisas mudariam. À luz do dia, chamamos essa mudança de Progresso; mas não quando caem as sombras.
À noite, por volta do ano de 1800 em diante, os cidadãos do Ocidente começaram a ter pesadelos com uma existência vertiginosa. Nossos mestres e senhores responsáveis pelo script de nossas atividades diurnas, de nossos casamentos e trabalhos, guerras e os esporádicos momentos de paz não foram capazes de admitir a existência desses sonhos. (Até hoje, insistem ainda em não admitir que as pessoas do opulento mundo ocidental, a despeito dos milagres do Progresso, continuam a se comportar como se o mundo estivesse se desintegrando.) À noite, deixamos de crer nos mestres.
Mudança - Não é de espantar, portanto, que, por volta do ano de 1800, a literatura ocidental tenha começado a mudar. Foi aproximadamente nessa época, talvez uma década a mais ou a menos, que aquilo a que se pode chamar de gêneros de angústia surgiram. Esses gêneros
são geralmente conhecidos hoje como ficção científica, fantástico, terror e policial.
Eis aqui o instante para onde tudo converge: estamos no início de um romance. Uma estranha e assustadora figura mecânica é vista no momento em que se arrasta pela hediondez sublime do deserto ártico, oprimida por mais do que angústias humanas. Ele é uma criação. Seu mestre, o dr. Frankenstein, fê-lo com partes de corpos humanos.
O romance onde ele aparece, Frankenstein ou O Prometeu Moderno (1818), de Mary Shelley, é, portanto, um romance de ficção científica e, possivelmente, o primeiro. Mas a criação de Frankenstein é também um monstro, um espectro mecânico saído dos piores pesadelos do doutor (e do mundo), em que o inanimado se torna animado e rouba de nós nossa substância (e
nossas esposas), como nas histórias contemporâneas de E.T.A. Hoffmann.
Ele é uma visão precoce engendrada pela literatura de terror, um gênero assombrado por gêmeos perversos que brotam na consciência, oriundos das fissuras de um mundo que se tornou repentinamente mórbido. Ele é também uma criação mitológica, um embusteiro
deformado que traz um estranho fogo de presente dos novos mundos da futuridade; e, nesse sentido, Frankenstein é também um dos primeiros romances fantásticos escritos.
Ele cometeu crimes, está sendo perseguido; ele prefigura todos os vagabundos fantasmagóricos dos séculos 19 e 20, de Melmoth a Marlowe (personagens de Conrad e Chandler).
Narrativa perfeita - Frankenstein é um texto que transpira angústia em relação ao passado, presente e futuro. É a narrativa perfeita para marcar o início dos textos de angústia que nos têm encantado, tranqüilizado e desviado do temor da mudança, um temor que é natural à espécie, como todas as espécies da Terra que precisam aceitar o mundo à sua volta para que possam sobreviver.
A ficção científica normaliza o mundo em mutação, quando afirma que é possível fazer com que as coisas funcionem, que existem meios de consertar o que está arruinado, que se mantivermos o equilíbrio e esperarmos pelo amanhã, sobreviveremos. Para os autores e leitores da ficção científica tradicional, a história dos dois últimos séculos é a história de como tomar posse da mudança.
Para eles, o Milênio desponta como o marco de julgamento do nosso sucesso ou fracasso na grande empresa humana da conquista. Para os autores de ficção científica de mente mais fecunda, dentre os quais figuram Kim Stanley Robinson, Neal Stephenson, Bruce Sterling e Gene Wolf, os obstáculos tecnológicos que a ficção científica apresenta parecem, na melhor das
hipóteses, dúbias; e, na pior das hipóteses, fatais à vida no planeta.
Esses autores, entretanto, parecem estar transcendendo o gênero no qual se formaram. O terror pacifica nossas angústias ao situá-las em histórias cujo propósito principal parece ser o de dar comichões na nossa nuca. Creio ser essa apenas uma pequena parte da empresa literária de terror. Os grandes romancistas de terror, como Shelley, Bram Stoker, Stephen King e Peter
Straub, lidam, meio secretamente, com algo mais profundo.
Caldeirão da história - Acho que estão tentando nos dizer que os gêmeos perversos vão nos assustar, que os segredos do passado, que sempre ameaçam nos aterrorizar e nos expor a violações eternas, nada mais são do que visões domesticadas saídas do caldeirão da história; que a verdade atrás das portas do ano 2000 (ou atrás de outras portas que possamos discernir) é
muito mais terrível do que qualquer coisa que o passado possa evocar.
O horror secreto que esses romancistas transmitem é a suspeita de que o gêmeo perverso não está atrás de nós, e sim na nossa frente. Que o mundo depois do Milênio talvez seja um mundo estilhaçado, uma casca de ovo que talvez não suporte nossa pisada aterradora.
O fantástico é mais franco que o terror. Escritores fantásticos como J.R.R. Tolkien, cujo O Senhor dos Anéis (1954-1955) é muito provavelmente a ficção de maior influência em língua inglesa do século 20, ou Steven Donaldson, John Crowley ou Robert Holdstockall deixam bastante claro que, em sua opinião, existe algo de muito errado no mundo.
Para os autores fantásticos, as mudanças desordenadas dos anos que se seguiram a 1800 são tão aflitivas quanto as visões apocalípticas que ganharam vida graças à nossa presente obsessão com o Ano 2000. Para eles, o século 20 está errado desde o início. Os maiores romances fantásticos pacificam nossas angústias pela criação de outros mundos que contradizem frontalmente as histórias oficiais que nossos mestres nos contam sobre o Progresso, a Velocidade e a Uniformidade.
Tecido do mundo - É fácil acreditar que o romance policial atinge seu apogeu nas comédias clássicas de detetives, de escritores como Arthur Conan Doyle, Agatha Christie ou Rex Stout. Nos milhares de histórias contadas por esses autores e seus colegas, o detetive é chamado a solucionar um crime que transtornou o mundo que pôs a nu o caos que subjaz às atividades da sociedade à luz do dia e que, quando esclarecido, recompõe o tecido do mundo.
Mas a verdadeira história do romance policial tem outros autores. Shelley, Edgar Allan Poe, Dostoievski, Kafka, Chandler, Ross MacDonald e suas melhores histórias chegam perigosamente perto da revelação do segredo. Macdonald, James Lee Burke ou um outro autor inglês menos conhecido (mas imensamente sombrio), o falecido Derek Raymond, quase nos dizem explicitamente que há, no fim das contas, algo de errado com o próprio sabor do mundo que tentamos identificar; que há algo de errado no modo como tentamos lidar com ele.
Os romances policiais nos dizem que as pegadas que deixamos na casca de ovo do nosso frágil mundo são as marcas do pecado. Praticamente tudo o que foi publicado em 1999, em qualquer um dos quatro gêneros de angústia é, naturalmente, lixo retrô.
Na verdade, qualquer obra em qualquer um dos quatro gêneros ao longo dos últimos 200 anos tem, é claro, em certa medida, um efeito narcótico. A ficção científica, o terror, o fantástico e as histórias policiais surgiram, no fim das contas, para lidar com nosso temor da mudança dos tempos e para nos tranqüilizar.
Os tempos estão mudando de fato. Estamos entrando em um mundo que simbolizamos pelo Milênio de tamanha mutabilidade e tensão que talvez venhamos a precisar de novos narcóticos para que possamos sobreviver às estranhas noites do amanhã. Pode ser que os gêneros em
si mesmos, que tanto fizeram para aliviar-nos a fronte, tenham chegado ao fim de sua utilidade.
Existem algumas indicações de que é isso o que se passa. A mania do retrô em todos os quatro gêneros é um sinal quase certo de morte. A fusão de gêneros destrói muito da função profilática do gênero. Talvez isso seja inevitável; na verdade, é mesmo.
Dois séculos é muito tempo.
Surgem perguntas para as quais não há respostas.
Que faremos quando nossas histórias estiverem mortas?
O que vamos contar a nós mesmos amanhã?
(The Washington Post - tradução de Antivan Guimarães Mendes)
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Tag: artigos, Fantástico, Ficção Científica, Horror, Mistério/Policial
terça-feira, 7 de abril de 2009
Sookie Stackhouse (Vampiro Sulino) - Charlaine Harris

Sookie Stackhouse (Livro 1 -Morto até o anoitecer, 2 - Vivendo morto em Dallas, 3 - Clube dos Mortos, 4 - Morto para o mundo, 5 - Absolutamente morto) [ Download ]
Site sobre a série de tv True Blood
segunda-feira, 6 de abril de 2009
Themepunks - Cory Doctorow

"We will explore the problem-space of capitalism in the twenty-first century. Our business plan is simple: we will hire the smartest people we can find and put them in small teams. They will go into the field with funding and communications infrastructure -- all that stuff we have left over from the era of batteries and film -- behind them, capitalized to find a place to live and work, and a job to do. A business to start. Our company isn't a project that we pull together on, it's a network of like-minded, cooperating autonomous teams, all of which are empowered to do whatever they want, provided that it returns something to our coffers. We will explore and exhaust the realm of commercial opportunities, and seek constantly to refine our tactics to mine those opportunities, and the krill will strain through our mighty maw and fill our hungry belly. This company isn't a company anymore: this company is a network, an approach, a sensibility."
Themepunks - Cory Doctorow
domingo, 5 de abril de 2009
E de Espaço - Ray Bradbury

Indice
Introdução
Crisálida
Pilar de Fogo
Hora Zero
O Homem
Fuga no Tempo
O Pedestre
Saudações e Adeus
O menino invisível
Venha ao meu porão
O piquenique de um milhão de anos
A mulher gritando
O sorriso
Eles eram morenos e de olhos dourados
O Bonde
A máquina voadora
Ícaro Montgolfier Wright
E de Espaço - Ray Bradbury [ Download ]
Sobre a Digitalização desta Obra:
Esta obra foi digitalizada para proporcionar de maneira totalmente gratuita o benefício de sua leitura àqueles que não podem comprá-la ou àqueles que necessitam de meios eletrônicos para ler. Dessa forma, a venda
deste e-livro ou mesmo a sua troca por qualquer contraprestação é totalmente condenável em qualquer circunstância. A generosidade é a marca da distribuição, portanto:
Distribua este livro livremente! Se você tirar algum proveito dessa obra considere seriamente a possibilidade
de adquirir o original: Incentive a publicação de novas obras e novos autores!
Boa Leitura!
Coletivo Adoramos Ler
Ray Bradbury

Ray Douglas Bradbury (22 de Agosto de 1920) nasceu na pequena cidade de Waukegan, USA, foi inúmeras vezes identificado como o poeta da Ficção Científica, graças a sua românticas descrições de ambientes e ricas e apaixonadas construções de personagens.
Junto com Arthur C. Clarke, Asimov, compõe a Santíssma Trindade da Ficção Científica, os três (assim como Robert Heinlein), foram os primeiros a receber o título de Grande Mestre, pela SFWA.
Bradbury preocupava-se mais com o lado humano e visionário de seus personagens do que com a descrição científica e tecnológica, o que era uma inovação para a época.
O seu estilo se tornou bastante peculiar, sendo dotado de um romantismo nostálgico.
Bradbury muitas vezes retrata o homem como refém de sua época.
Seres perplexos ante as maravilhosas mudanças que vão ocorrendo ao seu redor.
Seu livro The Illustrated Man (1951) está entre os 100 maiores livros da ficção de todos os tempos, sem esquecer de outros tantos já clássicos trabalhos, como The Martian Chronicles (1950), The Golden Apples of the Sun (1953), Fahrenheit 451 (1953) e Something Wicked This Way Comes (1962).
Ninguem melhor do que Ray Bradbury, para falar sibre ele mesmo:
Júlio Verne foi meu pai. H. G. Wells foi meu sábio tio.
Edgar Allan Poe foi o primo com asas de morcego que guardávamos lá em cima, na sala do sótão.
Flash Gordon e Buck Rogers foram meus irmãos e amigos.
Aí têm minha ascendência. Acrescentando, claro, o fato de que muito provavelmente Mary Wollstonecraft Shelley, autora de Frankenstein, foi minha mãe.
Com uma família dessas, eu não poderia deixar de ser outra coisa: um escritor de fantasia e de curiosíssimas histórias de ficção científica.
Vivi nas árvores com Tarzã uma boa parte de minha vida, com meu herói, Edgar Rice Burroughs. Quando desci da folhagem, pedi uma pequena máquina de escrever quando tinha doze anos, para o Natal. E matraqueando na máquina , escrevi meu primeiro seriado de imitação, John Carter, Condestável de Marte, e de cor, bati episódios inteiros de Chandu, o Mágico.
Mandei tampas de caixas pelo correio, e acho que juntei-me a todas as sociedades secretas do rádio que existiam. Guardei histórias em quadrinhos, a maioria das quais ainda tenho, em grandes caixas, no porão da minha casa, na Califórnia. Ia às matinês do cinema.
Devorava as obras de H. Rider Haggard e Robert Louis Stevenson.
Em meio aos verões de minha juventude, pulei alto e mergulhei bem fundo no vasto oceano do
Espaço, muito, muito tempo antes que a Era Espacial propriamente dita fosse mais do que um pontinho no telescópio de duzentas polegadas, de Monte Palomar.
Em outras palavras, eu me apaixonei por tudo o que fazia.
Meu coração não batia, explodia. Eu não me aquecia com um assunto; eu fervia.
Sempre corri e gritei quando se trata de uma lista de coisas grandes e mágicas que eu sabia que simplesmente não poderia viver sem elas.
Eu era um menino-mágico imberbe que puxava coelhos irritadiços de cartolas de "papier-mâché". Tornei-me um homem-mágico barbado que puxa foguetes de sua máquina de escrever e dos Ermos do Espaço, que se estendem tão longes quanto o olho e a mente podem ver
e imaginar.
Meu entusiasmo sustentou-me bem, através de anos.
Nunca me cansei dos foguetes e das estrelas.
Nunca cessei de gostar de me apavorar com algumas de minhas histórias mais exóticas e tenebrosas. Assim, aqui, nesta nova coleção de histórias, você encontrará não só E de Espaço, mas uma série de subtítulos que muito poderiam ser: T de Trevas, A de apavorar ou D de
deliciar. Aqui você vai encontrar quase todas as faces de minha natureza e minha vida que possa querer descobrir.
Minha capacidade de rir-me alto com a simples descoberta de que estou vivo num estranho,
selvagem, e estimulante mundo. Minha capacidade igualmente grande de pular e ir plantar groselhas quando sinto o cheiro de estranhos cogumelos crescendo em meu porão, à meia-noite, ou ouvir uma aranha cantarolando enquanto tece sua tapeçaria, no armário embutido, pouco antes do nascer do sol.
Você que está lendo, e eu, que escrevo, somos bastante iguais.
A pessoa jovem dentro de mim atreveu-se a escrever estas histórias para entretê-lo. Encontramo-nos no território comum de uma Era incomum, e compartilhamos nossos dons de sombra e luz, sonhos bons e maus, alegrias simples, e mágoas não tão simples.
O menino mágico fala de um outro ano. Fico de lado e deixo-o dizer o que mais precisa dizer. Escuto, e divirto-me. Espero que você, também.
RAY BRADBURY
Los Angeles, Califórnia -1o de Dezembro, 1965.
site oficial de Ray Bradbury
Livros de Ray Bradbury (Al Abismo de Chicago, Caleidoscopio, Cuento de navidad, Dandelion wine, Death is a lonely bussiness, El dragon, El flautista, El ordenador encantado y el papa androide, El pueblo donde nada baja, El robo sublime, En el expresso al norte, Encontro nocturno, End of the beginning, Eran morenos y de ojos dorados, Fabulas fantasticas, Fahrenheit 451, Fenix Brilhante, The foghorn, Icaro Montgolfier Wright, La tercera expediction, Las doradas manzanas del sol, Medicine for Melancholy, The october game, The pendulum, Quicker than the eye, Somethimh wicked this way comes, The sound of thunder, The illustrated man, The martian chronicles, The veldt, Tres x infinito, Unterderseaboat Doktor, When elephants last in the dooryard bloomed) [ Download ]
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sábado, 4 de abril de 2009
Pobre povo cruel - Arkady and Boris Strugatsky

O Rei sentou-se nu.
Tal como um tolo pedinte de rua, sentou-se com as costas contra a parede fria.
Tremia de olhos fechados e tentava ouvir, mas tudo era silêncio.
Acordara à meia-noite de um pesadelo e imediatamente entendera que estava acabado.
Sons ofegantes detrás da porta da suíte real, passos, bater de metais e resmungos bêbados de Sua Alteza, o Tio Buht: 'DEIXEM-ME PASSAR! SAIAM DO MEU CAMINHO, PRO INFERNO COM ISSO...'
Molhado de gélido suor, rolara para fora da cama, seguindo por um estreito corredor secundário e então pela passagem subterrânea até o templo.
Algo gemera sob seus pés descalços, pisara em ratazanas, mas na hora não se importou, somente agora, sentado contra a parede, lembrou-se de tudo; da escuridão, das paredes escorregadias e a dor de ter batido a cabeça contra as portas do templo, e de seu próprio insuportável urro de dor.
Eles não poderiam entrar ali, pensou. Ninguém poderia entrar no templo. Somente por ordem do Rei. Mas o Rei não mais ordenava. Riu-se histérico. Oh não, o Rei não ordena mais!
Vagarosamente abriu os olhos e viu suas pernas azuis e lisas com os joelhos feridos.
Ainda estava vivo, pensou. Viverei, por que ninguém pode entrar aqui.
Tudo no templo era azulado devido a luz fria das lanternas, longos tubos brilhantes espalhados sob o teto. No centro do templo, Deus em seu trono gigantesco e pesado, com olhos vazios.
O Rei o olhava pelo canto do olho.
Escória, pensou, que verme miserável, pegar o mestiço e os cães, para me assolar... deu-se conta de não lembrar-se muito bem do maldito.Tão mirrado e imprestável... mas tudo bem, eles iriam pagar por isso. Por tudo, Sua Grandeza Tio Buht.
Durante o reino de seu pai, você se sentou quieto, bebendo calado, com medo de ser notado, pois sabia que o Rei Prostyaga não esqueceria sua desprezível traição...
Grande era meu pai, o Rei pensou com habitual inveja.
Você seria grande também se seus conselheiros fossem anjos em carne e osso.
Todos sabiam, todos tinham visto, seus rostos medonhos e brancos como leite, seus trajes feitos de tal forma que ninguém sabia se estavam nus ou não. E suas flechas ardentes como raios do céu, que fizeram com que os inimigos fugissem, ainda que disparassem por sobre suas cabeças, metade da horda correu com medo daquelas flechas.
Sua Alteza, Tio Buht, sussurrou certa vez, bêbado, que tais flechas poderiam ser usadas por qualquer um, as tais armas dos anjos, seria bom se tirássemos deles.
E ele disse então - bêbado - que se era bom, por que então não obtê-las, por que não... mais tarde após aquela conversa à mesa, um anjo tombou dentro do canal, provavelmente por acidente. Junto dele acharam o corpo de um dos guardas pessoais do Tio. Foi um feito maléfico, terrível, e era conveniente que o povo não se importasse muito com os anjos, eles os temiam, mas este temor também não era total, já que os anjos eram alegres e cordiais.
Apenas seus olhos eram assustadores. Pequenos e brilhantes e não paravam de se mover irrequietos, não eram humanos. Sendo assim o povo os evitava, o Rei Prostyaga dava liberdade a eles, o que era vergonhoso de se lembrar...contudo antes do Golpe o pai, diziam, era um apaziguador.
Dito isso, com minhas próprias mãos, sequei as lágrimas dos olhos.
Lembro que ele costumava se sentar à noite na torre de cristal e eu podia me abrigar ao seu lado, era quente e confortável...os anjos cantavam dos quartos, tão tranqüilo e em harmonia, o pai começava a acompanhá-los - ele conhecia a língua dos anjos - e tudo era vasto e amplo, sem ninguém por perto... não como hoje, com guardas em cada canto, pois não havia motivo para isso.
O Rei lamentou. Sim, ele fora um bom pai e que não devia ter morrido. Não devia morrer enquanto seu filho estava vivo...o filho agora é Rei também,...mas Prostyaga não durou muito.
Tenho mais de cinqüenta anos e ele ainda era mais novo do que eu... parecia que os anjos tinham pedido a Deus por suas vidas. Disseram que os confinaram no quarto do Rei, eles tinham armas, mas não se defenderam.
Antes de morrer, disseram, os anjos jogaram as armas pela janela e elas se queimaram com uma chama azul e nem cinza sobrou. E Prostyaga, disseram, chorou e ficou bêbado pela primeira vez em seu reinado, e olhou para mim, disseram, com amor, e eu acreditei...
O Rei secou as lágrimas do rosto e abraçou as pernas.
E daí? Temos que saber os limites e abdicar, como acontece o tempo todo por ai.
Apenas por uma vez conversei com meu Tio.
‘Sua Alteza.Prostyaga - ele disse - não envelhecerá'.
'Sim - eu disse a ele - mas o que podemos fazer, os anjos pedem por suas vidas.'
O Tio então zombou e disse: 'Anjos - disse - não mais cantarão suas canções por aqui.'
E eu retruquei: 'É verdade, agora podemos negociar com eles, não somente como humanos.'
O Tio então olhou para mim sóbrio e imediatamente se foi.. e eu realmente não tinha dito nada demais...apenas palavras vazias sem significado.
Uma semana depois Prostyaga morreu de um ataque do coração.E dai? Era sua vez.
Ele parecia jovem, mas tinha na realidade mais de cem anos. Todos morremos um dia.
O Rei se assustou e cobriu-se sem jeito. O Santo Padre Agar entrara no templo.
Os Irmãos de fé vinham na sua frente, trazendo-o pelas mãos. Ele não olhou para o Rei, foi direto na direção de Deus e ajoelhou-se diante de seu posto. Alto e corcunda, com longos cabelos brancos e sujos.
O Rei o olhou fixo e disse divertido: 'É o seu fim! Você procurou por isso, e não sou como Prostyaga, você vai se sufocar em seus intestinos, porco bêbado...'
Agar, com a voz profunda falou:
-Deus! O Rei deseja falar contigo! Perdoa-o e ouça-o.
O silêncio caiu na sala, ninguém ousava respirar.
O Rei ponderou: Quando a grande enchente veio e a terra se abriu, Prostyaga pediu a Deus por socorro, e Deus veio dos céus numa bola de fogo no mesmo dia e naquela noite a terra acalmou-se e a enchente se foi.
Isso significava que poderia acontecer hoje novamente.
Você está perdido Tio, você não se cuidou direito. Agora ninguém vai te ajudar...
Agar se endireitou. Os irmãos que o amparavam pularam, virando de costas para Deus e cobrindo suas cabeças com os braços.
O Rei viu como Agar estendeu as mãos e as colocou no peito de Deus.
Os olhos de Deus se abriram.
O Rei ficou boquiaberto de medo pois os olhos de Deus eram grandes e diferentes, um era verde e o outro branco brilhante e luminoso.
Podia ouvir agora a respiração de Deus, pesada e estalante, como se doente.
Agar recuou. - Fale - sussurrou Agar.
O Rei ficou de quatro e começou a engatinhar até o altar.
Ele não sabia o que dizer ou como. E não sabia como começar e sequer se deveria contar toda a verdade.
Deus respirava pesadamente ofegante e o Rei passou a choramingar com medo.
- Sou o filho de Prostyaga - disse o Rei em desespero, amassando o rosto contra a pedra fria - Prostyaga morreu. Peço sua proteção contra os conspiradores. Prostyaga cometeu erros. Ele não sabia o que estava fazendo. Eu consertei tudo; acalmei o povo, me tornei poderoso e inatingível como você, e montei um exército...o traidor Buht está atrapalhando meus planos para conquistar o mundo. Ele quer me matar! Me ajude!
E baixou a cabeça até o chão.
Deus, sem piscar, estava olhando para ele em verde e branco. Deus estava silencioso.
- Ajude-me - repetiu o Rei - Ajude-me, ajude-me!
Derrepente ele pensou se estava fazendo algo errado, pois Deus estava indiferente e inoportunamente lembrou-se que eles tinham dito que seu pai, Prostyaga não morrera de um ataque do coração, mas fora morto ali, no templo, quando os assassinos entraram sem pedir permissão.
-Ajude-me! ele gritou desesperado. Tenho medo de morrer! Ajude-me! Ajude-me!
Ele deitou-se sobre as pedras do chão, mordendo as mãos com terror insuportável.
O Deus de Olhos Diferentes falou com a voz rouca.
-Seu verme velhaco - disse Tolya.
Ernst estava calado observando.
Na tela, através da estática, era possível ver uma forma humana escura que jazia deitada ao chão.
- Quando eu penso - disse Tolya de novo - que se não fosse por ele, Alan e Derek estariam vivos, tenho vontade de fazer alguma coisa.
Ernst balançou os ombros e foi até a mesa.
- Eu sempre penso - continuou Tolya - por que Derek não atirou ? Ele podia ter liquidado todos...
- Ele não podia, disse Ernst.
- Por que não?
- Já tentou atirar em um ser humano?
Tolya fez uma careta, mas não disse nada.
- Pois então - disse Ernst - Tente imaginar. É quase repugnante.
Um uivo triste era ouvido saindo pelos alto-falantes.
'Ajude-me, ajude-me, tenho medo, ajude-me', o mecanismo-tradutor continuava a transmitir.
- Pobre povo cruel...' lamentou Tolya.
Poor cruel folk (1998) -Arkady and Boris Strugatsky
sexta-feira, 3 de abril de 2009
Meia-noite - Dean R. Koontz
Mesmo antes da Mudança, Denny era um fanático por computador, um desses garotos que se autodenominavam hackers, para quem os computadores eram não só instrumentos, não só jogos e diversão, mas um modo de vida. Depois da conversão, sua inteligência e capacidade foram colocadas a serviço da New Wave.
Forneceram-lhe um terminal mais potente em casa e um modem ligado ao supercomputador no escritório central da New Wave — um mastodonte que, segundo a descrição de Denny, incorporava 6.500 quilômetros de fios e 33 mil unidades de processamento de alta velocidade — que, por razões que Loman não compreendia, eles chamavam de Sol, embora talvez este fosse seu nome porque todas as pesquisas na New Wave faziam uso intenso da máquina e, portanto, giravam ao seu redor.
Enquanto Loman continuava parado ao lado do filho, um enorme volume de dados passava pela tela do terminal. Palavras, números, gráficos e tabelas apareciam e desapareciam em tal velocidade que só alguém da Nova Gente, com sentidos de certa forma mais aguçados e concentração poderosamente mais intensa, poderia extrair significado deles.
Na verdade, Loman não podia lê-los porque não passara pelo treinamento que Denny recebera da New Wave. Além disso, não tinha nem tempo nem necessidade de aprender a exercer completamente seus novos poderes de concentração.
Mas Denny absorvia as contínuas ondas de dados, olhando fixamente, o olhar vazio, para a tela, sem nenhuma ruga de concentração na testa, o rosto relaxado. Desde que fora convertido, o garoto era tanto uma entidade eletrônica sólida quanto carne e sangue e esta nova parte de si mesmo relacionava-se com o computador com uma intimidade que ultrapassava qualquer relacionamento homem-máquina que qualquer pessoa da Antiga Gente experimentara.
Meia-noite - Dean R. Koontz [ Download ]
Tensão no Gelo - Dean R. Koontz

A missão transcorre normalmente. Mais alguns minutos e a última das 60 cargas explosivas estará instalada. Numa experiência pioneira, um iceberg de meia milha quadrada será arrancado da calota polar do Ártico, transportado para o sul e derretido para irrigar terras americanas castigadas pela seca. Mas uma série de fortes abalos sísmicos acelera o processo, fazendo com que um bloco de gelo ainda maior seja deslocado.
Um grupo de cientistas fica então à deriva, numa área em que um resgate por barco é impossível. A única esperança de salvamento é um submarino russo, desde que seja rápido: as bombas estão preparadas para explodir em menos de 12 horas. As frias águas do Norte servem de ambiente para Tensão no gelo, um dos mais quentes thrillers de Dean R. Koontz.
Desta vez, o autor não usa personagens ou situações sobrenaturais, como fizera magistralmente em Sr. Assassino, A casa do mal e Esconderijo. Nem precisa. Até a última página, Tensão no gelo é suspense puro, penetrante como o frio do Ártico.
NOTA AO LEITOR
Recebo anualmente mais de dez mil cartas de leitores, dentre os quais um número significativo me exorta a reeditar alguns de meus primeiros livros já esgotados há algum tempo.
Muitos fazem mais do que me exortar. Fazem referências ameaçadoras a maldições do vodu e acordos com sujeitos mal-encarados. Sugerem que seria uma boa idéia reeditar tais livros antes que meu rosto adquira nova forma - embora certa transformação me pudesse ser útil, principalmente se significasse um pouco mais de cabelo.
Eles ameaçam me raptar e me forçar a assistir a resprises de A família Dó-Ré-Mi vinte e quatro horas por dia até que eu enlouqueça completamente.
Fico encantado que os leitores gostem tanto dos meus livros que queiram ler todos.
Já dei permissão para que alguns já esgotados voltem a circular, incluindo Shadowfires, The Servants of Twilight e The Voice of the Night, todos publicados inicialmente sob pseudônimos.
Tensão no gelo foi originalmente intitulado Prison oflce (Prisão de gelo), sob o pseudônimo "David Axton", numa forma bem mais tosca. Eu o revisei e atualizei as referências tecnológicas e culturais, tentando não me empolgar demais e alterar toda a trama e o tom da história.
Este livro teve a intenção de homenagear Alistair MacLean, o mestre do romance de aventura/suspense, autor de Os canhões de Navarone, Desafio das águias e Estação Polar Zebra, entre outros.
Como leitor, adorei esses livros, e escrevi a versão original de Tensão no gelo para ver se conseguia produzir um do gênero.
Numa aventura de suspense desse tipo, os elementos que contam acima de todos os outros são tensão, ritmo e trama - de preferência uma trama com uma série de surpresas e desafios físicos para os personagens, num ritmo progressivo. Os personagens, em geral, precisam ser lineares e certamente menos complexos do que aqueles que aparecem na maioria de meus livros.
Como sempre, tento obter os detalhes de fundo e técnicos corretos - embora, quando escrevo sobre submarinos, por exemplo, não seja minha intenção mergulhar nos detalhes tecnológicos tão profunda e brilhantemente quanto Tom Clancy. Na aventura ao estilo MacLean, uma certa autenticidade deve ser sacrificada à velocidade.
Espero que você tenha gostado de Tensão no gelo, embora também espere que prefira os livros mais recentes. Afinal, esse é o único livro que escrevi nessa linha e, se os leitores quisessem outro, eu nada teria a oferecer para me proteger de ser submetido às reprises de A família Dó-Ré-Mi.
- Dean Koontz, maio de 1994
Tensão no Gelo - Dean R. Koontz [ Download ]
quinta-feira, 2 de abril de 2009
O Regresso de Tarzan - Edgar Rice Burroughs
Tarzan, que quer dizer macaco branco, criado por E. R. B. num dos seus sonhos - ele não transportou para a sua literatura a sua experiência de vida, que era vasta e profunda - procurava apenas ser uma coisa diferente, como coisas diferentes seriam as aventuras que ERB escreveu com John Carter sobre Marte. ERB trazia no espírito as leituras de Júlio Verne, o insólito prendia-o e fascinava-o. Por isso Tarzan foi um herói refeito diversas vezes.
O seu primeiro romance fechava o ciclo da vida: ali começava e acabava. Mas o êxito fê-lo regressar à escrita. E então ERB procurou dar-lhe uma formação inglesa, tentando enquadrá-lo dentro do absurdo homem selvagem, aristocrata inglês -, o mesmo é dizer, de um pólo ao outro da civilização.
Mas logo se cansou disso, e nos romances seguintes, a partir do quarto, ele encontraria de novo o Tarzan das primeiras páginas e, quase libertando-o da mulher e do filho - Jane é esquecida na maioria dos seus livros -, faz dele o homem que rompe barreiras com a civilização padrão para se consagrar à vida natural, àquela que se lhe dá pouco quanto a conforto, dá-lhe muito quanto a soluções de personalidade e luta, que é aqui onde o homem tem de encontrar-se.
Por isso mesmo Tarzan é um herói que encontrou justificativa sobretudo em duas épocas: em 1929 quando da depressão econômica da América do Norte - foi em 1929 que ele surgiu pela primeira vez em banda desenhada pela mão de Hal Foster e agora, nesta segunda metade do século em que vivemos, onde o tecnicismo impera já a níveis de invadir o espírito humano, e sujeitá-lo à máquina.
Resultado? Num período de tão grande avanço técnico, onde a nossa atual civilização quase se engalfinha em proporcionar ao ser humano conforto sobre todos os pontos de vista, distrações nunca sonhadas (e cômodas), requintes a todos os níveis que ele faz na sua grande maioria?
Pois bem, consultem-se as estatísticas, e se verificará que nunca como agora se praticou tanto campismo nem tanto caravanismo, nem se desfrutou de tantos fins-de-semana.
Isto sem contar com as legiões que se limitam a refugiar, por impossibilidade do tempo, um dia que seja no pinhal ou no campo!
Porquê? A técnica, em que todos vivemos, dentro de casa, cá fora, no emprego, e mais tarde que vimos na televisão, no cinema e nos jornais, provoca uma espécie de intoxicação que leva o
homem tentando reencontrar-se na verdade pura da sua essência.
Então, perante tanta máquina que o envolve e o controla, passar o tempo em contacto com a natureza é como o sinônimo da libertação, que ele sente que o dignifica.
Aqui volta a surgir Tarzan, como símbolo, pois ele é o homem que tendo sido criado na selva, conhece um dia a civilização e, por a conhecer, compreende que só voltando à vida natural pode encontrar aquela felicidade a que se julga com direito.
Tarzan aparece, desta maneira, como resposta a todos aqueles que, encafuados nas cidades, aproveitam todos os momentos de se livrarem dela. E retoma o êxito que alcançou em 1929 quando a depressão trouxera aos homens consciência de que viver bem não é viver opulentamente, mas viver de acordo consigo próprio. - Nota de R. P.
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quarta-feira, 1 de abril de 2009
As canções da Terra Distante - Arthur C.Clarke

Nota do Autor
Este romance baseia-se numa idéia que desenvolvi há quase trinta anos num conto do mesmo nome (agora incluído na coletânea O outro lado do céu). Entretanto, a presente versão foi direta — e negativamente — inspirada pelo recente surto de space-operas nas telas de televisão e do cinema. (Pergunta: qual é o oposto de inspiração — expiração?)
Por favor, não me interpretem mal: apreciei enormemente o melhor da série Jornada nas estrelas e dos épicos de Spielberg/Lucas, para mencionar apenas os exemplos mais famosos do gênero. Entretanto, estes são trabalhos de fantasia, não de ficção científica no sentido estrito do termo.
Atualmente, é quase certo que no universo real nunca venhamos a ultrapassar a velocidade da luz. Assim, mesmo os sistemas estelares mais próximos estarão sempre a décadas ou séculos de distância. Nenhuma Dobra Fator Seis poderá levar-nos de um episódio a outro a tempo do capítulo da próxima semana.
O grande Produtor no céu não estruturou a sua programação desse modo.
Na última década aconteceu também uma mudança significativa e um tanto surpreendente na atitude dos cientistas com relação ao problema da Inteligência Extraterrestre. O assunto só se tornou sério (exceto entre personagens duvidosos como autores de ficção científica) a partir da década de 60: a publicação de A vida inteligente no universo de Shklovskiy e Sagan (1966) foi um marco.
Mas agora houve um recuo: o fracasso da tentativa de encontrar algum vestígio de vida neste Sistema Solar, ou de captar os sinais de rádio interestelares que nossas grandes antenas deveriam detectar facilmente, levou alguns cientistas a argumentarem que "talvez estejamos sozinhos no Universo..."
O Dr. Frank Tipler, o mais conhecido defensor desse ponto de vista, irritou (propositadamente, sem dúvida) os saganitas, dando a um de seus trabalhos o título provocador de "Não existem extraterrestres inteligentes". Carl Sagan e outros (e eu concordo com eles) argumentam, por seu lado, que ainda é muito cedo para se chegar a conclusões tão amplas.
Enquanto isso a controvérsia se intensifica, costuma-se dizer que qualquer uma das respostas será espantosa. A questão só pode ser decidida com provas concretas e não pela lógica, por mais plausível que seja.
Eu preferiria ver esse debate tolerantemente esquecido por uma década ou duas, enquanto os radioastrônomos, como garimpeiros bateando na beira de um riacho, peneiram com calma as torrentes de ruído que se derramam do céu.
Este romance é, entre outras coisas, minha tentativa de criar uma obra de ficção inteiramente realista sobre o tema interestelar. Exatamente como em Prelúdio para o espaço (1951), eu usava a tecnologia conhecida ou previsível para descrever a primeira viagem da humanidade além da Terra.
Não há nada neste livro que desafie ou negue os princípios conhecidos, a única extrapolação realmente extravagante é a "propulsão quântica" e mesmo esta tem uma origem bastante respeitável (ver "Agradecimentos").
Se ela se revelar uma idéia impraticável, existem várias alternativas possíveis. E se nós, os primitivos do século XX podemos imaginar isso, então a ciência do futuro descobrirá, sem dúvida, alguma coisa muito melhor.
Arthur C. Clarke Colombo, Sri Lanka, 3 de julho de 1985
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O Avatar - Poul Anderson
Num passado que se perdia na bruma dos tempos, uma raça misteriosa, a que se chamava simplesmente “Os Outros”, deixara à humanidade um legado precioso que era simultaneamente um grande desafio; uma passagem assinalada para alcançar as estrelas inexploradas.
E a humanidade utilizou essa passagem para colonizar o sistema da estrela Phoebus, mas deixou inexplorado tudo o que restava da galáxia...
Num ambiente político conturbado, a grande nave Emissário utiliza a passagem pára uma viagem de exploração. Mas, quando regressa, os governantes da União mandam aprisionar a nave e deter a tripulação, ao mesmo tempo que proíbem qualquer futura exploração do espaço...
Apenas um homem, um colono de Deméter, consegue aperceber-se da situação e empreende uma ação desesperada para salvar o presente e acautelar o futuro...
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