quinta-feira, 30 de abril de 2009

The Mammoth Book of Zombies - Stephen Jones

Dos túmulos e sepulturas levantam-se aqueles que não podem morrer. Histórias novas e antigas dos mestres do horror,incluindo Clive Barker, Robert Bloch, Graham Masterston, Ramsey Campbell, Hugh B. Cave e outros.

Clive Barker - Sex, Death and Starshine
Ramsey Campbell - Rising Generation
Manly Wade Wellman - The Song of the Slaves
R. Chetwynd-Hayes - The Ghouls
Edgar Allan Poe - The Facts in the Case of M. Valdemar
Karl Edward Wagner - Sticks
Charles L. Grant - Quietly Now
Basil Copper - The Grey House
M. R. James - A Warning to the Curious
Nicholas Royle - The Crucian Pit
Brian Lumley - The Disapproval of Jeremy Cleave
H. P. Lovecraft - Herbert West - Reanimator
Lisa Tuttle - Treading the Maze
David Riley - Out of Corruption
Graham Masterton - The Taking of Mr Bill
J. Sheridan Le Fanu - Schalken the Painter
David Sutton - Clinically Dead
Les Daniels - They're Coming for You
Hugh B. Cave - Mission to Margal
Michael Marshall Smith - Later
Peter Tremayne - Marbh Bheo
Dennis Etchison - The Blood Kiss
Christopher Fowler - Night After Night of the Living Dead
Robert Bloch - The Dead Don't Die!
Kim Newman - Patricia's Profession
Joe R. Lansdale On the Far Side of the Cadillac Desert with Dead Folks

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quarta-feira, 29 de abril de 2009

The Mammoth Book Of Vampires - Stephen Jones

Os mestres do macabro ressuscitam em contos nunca antes publicados, histórias de vampiros, em todas suas assustadoras formas. Incluindo a primeira edição de RED REIGN de Kim Newman.

Clive Barker - Human Remains
Brian Lumley - Necros
Brian Stableford - The Man Who Loved the Vampire Lady
F. Marion Crawford - For the Blood is the Life
Ramsey Campbell - The Brood
Robert Bloch - Hungarian Rhapsody
Edgar Allan Poe - Ligcia
Richard Christian Matheson - Vampire
Hugh B. Cave - Stragella
David J. Schow A Week in the Unlife
Frances Garfield - The House at Evening
R. Chetwynd-Hayes - The Labyrinth
Karl Edward Wagner - Beyond Any Measure
Basil Copper - Doctor Porthos
Bram Stoker - Dracula's Guest
Dennis Etchison - It Only Comes Out at Night
Peter Tremayne - Dracula's Chair
Melanie Tern - The Better Half
M. R. James - An Episode of Cathedral History
Manly Wade Wettman - Chastel
Howard Waldrop - Der Untergang Des Abendlandesmenschen
E. F. Benson - The Room In the Tower
Graham Masterton - Laird of Dunain
F. Paul Wilson - Midnight Mass
Nancy Holder - Blood Gothic
Les Daniels - Yellow Fog
Steve Rasnic Tern - Vintage Domestic
Kim Newman - Red Reign
Neil Galman - Vampire Sestina

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terça-feira, 28 de abril de 2009

The Mammoth Book of Monsters - Stephen Jones


The Mammoth Book of Monsters traz o que há de melhor em matéria de histórias sobre Monstros, escritas por nomes consagrados do horror, como Ramsey Campbell, Kim Newman, Harlan Ellison, Joe R. Lansdale e muitos outros.

David J. Schow - Visitation
Ramsey Campbell - Down There
Scott Edelman - The Man He Had Been Before
Dennis Etchison - Calling All Monsters
R. Chetwynd-hayes - The Shadmock
Christopher Fowler - The Spider Kiss
Nancy Holder - Cafe Endless: Spring Rain
Thomas Ligotti - The Medusa
Gemma Files - In The Poor Girl Taken By Surprise
Sydney J. Bounds - Downmarket
Robert E. Howard - The Horror From The Mound
Jay Lake - Fat Man
Brian Lumley - The Thin People
Tanith Lee - The Hill
Joe R. Lansdale - Godzilla's Twelve Step Program
Karl Edward Wagner - .220 Swift
Robert Silverberg - Our Lady Of The Sauropods
Basil Copper - The Flabby Men
Robert Holdstock - The Silvering
Michael Marshall Smith - Someone Else's Problem
Clive Barker - Rawhead Rex
Kim Newman - The Chill Clutch Of The Unseen

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segunda-feira, 27 de abril de 2009

The Mammoth Book Of Best New Horror - Stephen Jones


A nova edição do Mammoth Book dedicado ao horror e dark fantasy, traz algumas das melhores histórias dos mestres do macabro, incluindo Neil Gaiman,Brian Keene, Elizabeth Massie, Glen Hirshberg, Peter Atkins e Tanith Lee.

Michael Marshall Smith - The Things He Said
Simon Kurt Unsworth - The Church On The Island
Christopher Fowler - The Twilight Express
Ramsey Campbell - Peep
Tim Pratt - From Around Here
Gary Mcmahon - Pumpkin Night
Simon Strantzas - The Other Village
Mike O'Driscoll - 13 O'Clock
Joel Lane - Still Water
Joe Hill - Thumbprint
Nicholas Royle - Lancashire
Marc Lecard - The Admiral's House
Tony Richards - Man, You Gotta See This!
David A. Sutton - The Fisherman
Reggie Oliver - The Children of Monte Rosa
Neil Gaiman - The Witch's Headstone
Joel Knight - Calico Black, Calico Blue
Steven Erikson - This Rich Evil Sound
Glen Hirshberg - Miss Ill-Kept Runt
Joe R. Lansdale - Deadman's Road
Mark Samuels - A Gentleman from Mexico
Tom Piccirilli - Loss
Christopher Harman - Behind the Clouds: In Front of the Sun
Caitlin R. Kiernan - The Ape's Wife
Conrad Williams - Tight Wrappers
Kim Newman - Cold Snap

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domingo, 26 de abril de 2009

Charles Stross - entrevista II


'Não escrevo Ficção Científica como um veículo de propaganda para conceitos científicos. Se existe algum conteúdo polêmico no que faço, ele é político e social.'

HardSF: O que inspira você a colocar ciência na sua ficção?

Charles Stross: Não estou certo se o faço. Você vai encontrar nas minhas histórias coisas como viagem mais rápida que a luz, máquinas do tempo, upload de mentes, nanotecnologia. Algumas destas coisas são mais plausíveis do que outras, de maneira que podem ser possíveis, mas não posso dizer que deliberadamente decido por incorporar a ciência na ficção de maneira sistemática.

HardSF: O quanto isso é importante para você, se no fim o leitor acaba aprendendo conceitos científicos através das suas histórias?

CS: Não é. Mais importante para mim é que eles não comecem a achar que certas coisas que são obviamente irreais, possam acontecer algum dia, mas isso não é exatamente o que eu pretendo fazer. Não escrevo Ficção Científica como um veículo de propaganda para conceitos científicos. Se existe algum conteúdo polêmico no que faço, ele é político e social.

HardSF: Você acha que as teorias científicas, por serem abastratas e intangíveis, afetam a sua habilidade em vender literatura baseada em FC Hard*?

CS: O que me afeta, em se tratando de trabalhar com literatura, é que de fato para cada livro vendido de Ficção Científica, são vendidos dois do gênero Fantasia, e para cada livro vendido de Fantasia, são vendidos cinco romances. Sendo assim, se eu escrevesse apenas Ficção Cientifica eu estaria, por vontade própria. reduzindo meu pagamento de royalties. Mais interessante do que isso, eu estou escrevendo para uma audiência que é ínfimamente pequena. 25% da população do planeta fala ou lê em inglês (e menos que isso tem o inglês como primeira língua) e 2% da ficção vendida é de FC. Então antes mesmo de começar, tenho que aceitar que não vou conseguir mover montanhas ou ter multidões me seguindo.
Afinal sou apenas um escritor de ficção, e não algum tipo de pregador vendendo a salvação eterna, não é mesmo?

HardSF: Você pensa que a FC Hard é o único tipo possível de FC? Ou tem espaço para a FC 'Soft'?

CS: Acho que toda esta distinção não faz sentido. Eu escrevo ficção, ponto. Se eu escolho falar sobre algum tipo de ciência dentro dela, tento então fazer da forma certa ou ao menos plausível. Mas a retórica da FC Hard versus FC 'soft' me parece pairar ridiculamente nas origens do gênero, criado por Hugo Gernsback no passado, quando havia toda esta agitação - tipo propaganda política - tipo o braço de um movimento, tecnocracia.

HardSF: Como se pode tornar a FC Hard mais agradável para o grande público?

CS: Acho que a FC Hard foi atropelada pela fantasia, basta ver Guerra nas Estrelas, Jornada nas Estrelas e os filmes com efeitos especiais, quase 30% de tudo que Hollywood vende como FC, e aquilo que você pode razoavelmente classificar como FC Hard é quase nada - dá para contar nos dedos de uma das mãos.

Se levarmos para este público potencial de leitores e espectadores, poderemos fazer com que se interessem. Mas francamente, acho que a onda da FC Hard já passou. A FC Hard surgiu em um contexto bem específico, durante os anos 30 - um tempo em que as pessoas que haviam cruzado as pradarias em carruagens, ainda estavam tentando descobrir como lidar com a eletricidade e máquinas voadoras, e daí os computadores, a energia nuclear e naves espaciais. Foi uma ferramenta educacional bastante útil, expandindo horizontes, mostrando que de certa forma aquilo seria relevante na vida das pessoas. Hoje estamos cercados de gizmos. Provavelmente há mais computadores no meu apartamento hoje, do que em todo este pais (Escócia) nos anos 60. A Ficção Científica implodiu com o presente; mudanças climáticas globais nos afetando diretamente, naves espaciais pousando nas luas de Saturno, transplantes de rosto na França (Ei, esta não era uma história do Fu Manchu, sessenta anos atrás?) e mundos virtuais com PIB maiores do que o da Áustria.

Acredito que o atual crescimento na procura pela Fantasia, comparativamente a FC, é o resultado sintomático deste nosso mundo, como se os leitores gritassem 'PAREM, POR FAVOR' e buscassem conforto em um tempo em que eles sabiam o que diabos estava acontecendo. Alvin Toffler acertou nos anos 70 - chama-se Choque do Futuro.

HardSF: Qual tópico científico você acha que será o mais falado nas próximas décadas?

CS: O de sempre - não há nada de novo na FC hoje. O Aquecimento global continuará sendo de nosso interesse, não importa se você acredita que é antropogênico ou natural - é o elefante na sala de estar, e temos que aprender a viver com isso. Até hoje, apenas Kim Stanley Robinson tem se agarrado a isso nos EUA, ele é um dos escritores de FC Hard mais interessante trabalhando por aí, mesmo estando em conflito ideológico com a velha guarda stalinista da Ficção Científica em geral.

Avanços na tecnologia médica é uma aposta certa, mas não sei se ainda há algo a ser dito e que Bruce Sterling já não o tenha feito em 'Holy Fire', quase dez anos atrás.

Nanotecnologia... cedo ou tarde passaremos deste estágio primitivo, onde nos encontramos presos à quase uma década. E então os prognósticos de Eric Drexler vão parecer tão ultrapassados quanto Jules Verne em 1890. Será como sermos cozidos lentamente, como o provérbio do sapo.

A física parece estar ainda em 1895, com tudo amarradinho, exceto por algumas pontas soltas, como o por que dos elétrons não se neutralizarem a si mesmos ou por que 70% de toda a massa do Cosmos estar oculta. Da primeira crise veio a mecânica quântica e a relatividade, a segunda nos trará... quem sabe? Estou quase certo de que não será a teoria das cordas, mas ainda não posso apostar...

HardSF: Você geralmente escreve sobre o que domina e conhece, ou intencionalmente procura por novos e incertos territórios?

CS: Quase sempre sobre aquilo que conheço, mas sou eclético, aleatório, e um entusiasta por aprender coisas novas (minha formação universitária cobre alguns assuntos úteis para mim; farmacologia, bioquímica, física, ciência computacional)

HardSF: Qual você considera ter sido a sua maior realização; sua contribuição na ciência ou na literatura?

CS: Para a literatura - por que não penso ter feito alguma coisa para a ciência! Poucas pessoas fazem. Mesmo a média das teses de doutorado é um simples pixel em um mosaico do tamanho da Grande Muralha da China. Ao menos na literatura é mais fácil de deixar sua marca.

HardSF: Está trabalhando em algo agora?

CS: Agora mesmo estou trabalhando em um romance de FC mundana*. É um movimento britânico pouco falado, que não se utiliza destas tralhas como alienigenas, viagem mais rápida que a luz, máquinas do tempo e coisas assim. Estou escrevendo uma história de detetive que se passa na Escócia daqui a uns 12-15 anos. É sobre um jogo de computador e a heroína é uma contadora. Parece bem louco pra mim.

(HardSF - 2006-06-28)


*FC Hard é uma modalidade da Ficção Científica que procura dar embasamento científico à história que está sendo contada e portanto exige mais conhecimento do autor. Arthur C.Clarke é um autor famoso de FC Hard.

*FC Mundana (ou terrestre) é um subgênero da Ficção Científica criado em 2002 pelo escritor Geoff Ryman e que se caracteriza por se utilizar de tecnologia atual ou derivada dela, de forma contida e apoiada na ciência. Na FC Mundana, o homem não alcança as estrelas, não existem civilizações de outros planetas, assim como as viagens no tempo, ou mais rápido que a luz e outras dimensões são impossíveis.
Site sobre FC Mundana

Charles Stross


Charles David George Stross (18 de Outubro de 1964) nasceu em Leeds, Inglaterra. Jornalista, formado em ciência computacional, escritor de Ficção Científica, Fantasia e Horror, editor e roteirista, atualmente vivendo na Escócia.

Stross faz parte da nova geração de escritores britânicos de Ficção Científica, especializados em FC hard e Space Opera, contemporâneo de Alastair Reynolds, Ken MacLeod e Liz Williams.

Antes de se tornar um escritor reconhecido, Stross esteve envolvido com RPGs, sendo editor e colaborador de diversas revistas como White Dwarf e Advanced Dungeons & Dragons, bastante populares entre os jogadores.

Seu primeiro conto, The Boys, foi publicado na revista Interzone em 1987 e o primeiro livro, Singularity Sky, foi indicado para receber o prêmio Hugo de 2003. A partir dai, Stross se tornou um nome constante entre os indicados para os prêmios mais importantes da FC de língua inglesa, acabando por ganhar o Hugo de 2005 (Concrete Jungle) e o Locus de 2006 (Accelerando) e 2007 (Missile Gap).


Blog de Charlie Stross


Coleção Charles Stross (A boy and his God, A colder war, Accelerando, Ancient of days, Concrete Jungle, Dechlorinating the moderator, Different flesh, Duat, Elector, Escape, Examination Night, Generation Gap, Glasshouse, Halo, Charlie Stross interviews, Iron Sunrise, Lobsters, Love me, Maxo Signals, Merchant Princes series, Message in a time capsule, Missile Gap, Nightfall, Red, hot and dark, Remade, Rogue Farm, Scratch Monkey, SEAQ and destroy, Singularity Sky, Tarkovisky's cut, The atrocity archives, The boys, The concrete jungle, The midlist bombers, Troubadour, Warcrime, Year Zero, Yellow Snow, Jury Service) - [ Download ]

sábado, 25 de abril de 2009

15 Raças Alienígenas Memoráveis da Literatura de Ficção Científica



Aalaag























Os Aalaag conquistaram o planeta Terra com facilidade no romance WAY OF THE PILGRIM de Gordon R.Dickson de 1987. Dentro de sua própria ética, os Aalaags são senhores justos – tratar mal seu 'rebanho' humano é considerada uma ofensa muito séria. Porém eles exigem obediência e um rígido código de conduta que classifica o espírito humano.
Na verdade o planeta natal dos Aalaags foi conquistado também, por um poderoso inimigo sem nome.
Os Aalaags são essencialmente guerreiros altos e orgulhosos, cada qual com uma coleção pessoal de armas e possuem uma aparência espartana. Cada Aalaag encara seus deveres como sendo a maior virtude, e todos seus esforços são dirigidos para o dia em que recuperarão seus planetas perdidos. As raças dominadas por eles são utilizadas para explorar recursos para conquistar este seu objetivo final.
Nosso herói, Shane Evert, um lingüista, encabeça um grupo de tradutores à serviço do líder alienígena, Primeiro Capitão Lyt Ahn. O titulo do livro se refere ao símbolo universal do Peregrino, como condição humana e que se torna o símbolo do movimento de resistência que começa a surgir.
Cativante, calorosamente humano, o romance é Dickson em seu melhor.
Way of the Pilgrim - Gordon R.Dickson [ Download ]



Psychlos






















Esqueça o filme com John Travolta. Esqueça o que quer que você pense sobre L.Ron Hubbard ter fundado a Cientologia. Apenas leia este romance paquidérmico (1066 páginas) de 1982, chamado BATTLEFIELD EARTH. É Space Opera do jeito que devia ser.
Os Psychlos não somente conquistam planetas. Eles não somente conquistam galáxias. Eles conquistam universos. Só eles possuem o segredo do teletransporte instantâneo. E um de seus maiores empreendimentos trata-se da Companhia de Mineração Intergaláctica que leva os nativos de volta ao tempo da idade da pedra e sistematicamente extrai cada minério disponível do planeta, quase até só restar o núcleo.
E os Psychlos acham a crueldade muito divertida. O desonesto – mesmo para os seus padrões - Chefe de Segurança da Terra chamado Terl, tem um esquema para ficar rico treinando alguns nativos humanos para minerar ilegalmente para ele.
Soberba caracterização, tanto de humanos quanto de alienígenas em uma história tão boa que você quase esquece que está lendo. Uma nota de louvor deve ser feita aos Selachees, outro raça alienígena no livro e que tem um papel crucial ao final.
Battlefield Earth - L.Ron Hubbard [ Download ]



Thranx






















Alan Dean Foster já escreveu uma série de trabalhos dentro da Comunidade Humanos-Thranx (Humanx), mas a maioria trata de personagens bem conhecidos como Flinx e Pip, com os Tranx de pano de fundo. Um dos romances contudo, explora bem a cultura Thranx e como os humanos se tornaram parceiros deles. NOR CRYSTAL TEARS (1982) é em grande parte escrito pelo ponto de vista dos Thranx. Tudo parece tão bem encaixado neste livro – que ao final você estará torcendo para que o insectoide Thranx forme uma aliança com os humanos.
Foster lida com as raças com perfeição. E eu adoro estes louva-a-deus.
Série Humanx (Surfeit, The Emoman, Midworld, Cachalot, Nor Crystal Tears, Voyage to the city of the dead, Sentenced to Prism, The Howling Stones) - Alan Dean Foster [ Download ]



Marcianos






















Estamos falando especialmente dos marcianos do livro MARTIANS GO HOME (1955), de Fredric Brown. Eles são literalmente homenzinhos verdes, mas o que eles são realmente, antes de tudo, são uns chatos! Serem chatos parece ser a seu maior objetivo.
Eles invadem a Terra aos milhões, de uma hora para outra, falando inglês com um sotaque do Brooklyn e perturbando a paz e a ordem. Com resultados desastrosos e as vezes fatais. Eles podem se teleportar para onde quiserem, porém não podem ser tocados. Gostam mais do que tudo de dizer com quem sua esposa está dormindo, entregam segredos de defesa para outros países, fazem comentários sobre as falhas humanas, tudo para poder ser tão chato quanto puderem.
Este livro é considerado um clássico da Ficção Cientifica e não conheço ninguém que o tenha lido e não tenha gostado.
Martians go Home - Fredric Brown [ Download ]



Pequeninos






















SPEAKER FOR THE DEAD (1986) é a sequência escrita por Orson Scott Card para seu mundialmente famoso romance ENDER’S GAME (um romance de Ficção Científica obrigatório para pessoas que não lêem Ficção Científica).
Ambos ganharam os prêmios Hugo e Nebula, mas são dois livros bem diferentes entre si.
Muita gente irá discordar de colocar os Pequeninos como uma raça alienígena clássica, mas é a rica descrição desta sociedade que chama a atenção. Especialmente por que, muito do que decepciona no livro, mais uma vez está nas dificuldades das comunicações entre as espécies e na tentativa (em vão) dos humanos para compreender os pequeninos sem prejudicar seu desenvolvimento natural. Tocante em algumas partes, é um livro imperdível para o leitor de Ficção Cientifica interessado em comparar religiões.
O conceito de framling (humanos de outros planetas), ramen (não-humanos com quem se comunicam como se fossem humanos) e varelse (não humanos com quem é impossível se comunicar) será lembrado quando inevitavelmente entrarmos em contato com seres interestelares.
Série Enders (Ender's Game, Investument Counselor, Sppeaker for the Dead, Xenocide, Children of the mind, Ender's Shadow, Shadow of the Hegemon, Shadow Puppets, Shadow of the Giant ) - Orson Scott Card [ Download ]



Overlords






















Incluso em todo curso sobre Ficção Científica, o clássico de Arthur C.Clarke CHILDHOOD’S END (1953) nos mostra um outro tipo de conquistador da Terra, um tipo benigno de certa forma. Os Overlords tornam a vida melhor para todos e dão solução para muitos de nossos problemas, tudo isso de suas gigantescas espaçonaves posicionadas sobre as maiores cidades do mundo.
A humanidade se adapta a esta situação, como é de sua natureza, mas os Overlords não irão revelar a si mesmos por cinqüenta anos e a razão pela qual o fazem incorporam conceitos de memória racial (Jung).
Não direi mais nada, além do que muitos professores amam utilizar este livro em seus cursos.
É claro que existe um segredo, do por que os Overlords estarem agindo daquela maneira.
O que acontece quando o segredo é revelado, pode ser descrito como ‘pungente’.
Childhood's End e O Fim da Infância - Arthur C.Clarke [ Download ]



Fithp






















Larry Niven não precisa de dinheiro, já Jerry Pournelle sim. Isso realmente não importa, pois são dois autores de Ficção Científica, quer estejam comendo hambúrgueres ou filé mignon. Juntos eles realizaram uma das mais bem sucedidos parcerias já vista neste gênero.
FOOTFALL (1985) é um excelente exemplo disso.
Gente que não costuma ler Ficção Científica lia os romances de Niven/Pournelle nos anos 80, enquanto esperavam pelo próximo Heinlein. De qualquer forma, todo mundo que já leu este livro, pensa nos Fithp como elefantes. Assim como os humanos fazem parte de uma cultura de indivíduos, como formigas de uma colônia, os Fithp são de uma cultura de manada.
Com um excelente tratamento dado a esta premissa básica – e sendo criaturas de manada, eles não compreendem o conceito de acordos diplomáticos... ou você é o dominante ou o submisso.
Em particular, a política interna dentro de uma manada inteligente diante de uma difícil conquista é tratada com admirável habilidade.
Footfall - Larry Niven/Jerry Pournelle [ Download ]



Drac






















Ok, o sujeito publica um conto e ganha um prêmio Nebula por isso – poucos meses depois ele ganha o prêmio Hugo também. Em seguida o prêmio John W.Campbell por que, afinal, trata-se de um novato. Ele é o primeiro a ganhar os três prêmios em um ano. Grande coisa?
Então vem Hollywood e um filme subestimado estrelado por Dennis Quaid e Louis Gossett Jr. (Gossett recebeu uma indicação de melhor ator, mesmo o filme não sendo um sucesso).
De uma hora para outra, Barry B.Longyear é o maior nome da Ficção Científica por conta de ENEMY MINE (1979).
Dracs e humanos estão em guerra. Um piloto humano e um piloto alienígena ficam presos em um planeta onde sobreviver é muito difícil, para dizer o mínimo. Eles são forçados a unirem forças para continuarem vivos. O problema é que os Dracs são hermafroditas e Jeriba não precisa de um parceiro para se reproduzir.
Alerta de spoiler para a próxima frase: Devido a morte prematura, o humano se vê forçado a criar a criança alienígena como se fosse sua.
Tanto o livro quanto o filme são essencialmente a história da interação entre homem e alienígena. Não vai ser difícil você chorar.
Enemy Mine - Barry B.Longyear [ Download ]



Fuzzies






















H.Beam Piper solidificou sua posição na história da Ficção Científica com a publicação de LITTLE FUZZY (1962).
Os adjetivos mais utilizados pelos críticos deste livro foram ‘delicioso’ e ‘encantador’, e não podemos culpá-los por isso. Os Fuzzies são adoráveis. Mas o romance explora outro importante tema: como definimos a sabedoria? Foram escritas várias sequências, nem sempre pelo mesmo autor – e nenhuma é tão boa quanto o original.
The complete Fuzzie (Little Fuzzie, Fuzzie Sapiens, Fuzzies and other people) - H.Beam Piper
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Groaci






















É difícil saber qual dos trabalhos de Keith Laumer é mais conhecido da sua série BOLO, aquela com seu personagem James Bondiano Jame Retief. São várias histórias ao longo de décadas. Independentemente estas histórias de heroicidade e engenhosidade humana em face da incompetência diplomática humana, venderam muito bem por anos. A maioria delas conta com um enredo insidioso por detrás de estranhos alienígenas e principalmente dos Groaci.
Os livros são leves e engraçados e os Groaci são difíceis de se lidar, a não ser quando na coleira. Apesar disso, diversão garantida.
Série Bolo (Honor of the regiment, Bolo Strike, The Triumphant, Old Guard, Cold Steel, Bolo Rising) -Keith Laumer [ Download ]



Ythrians






















Poul Anderson é sem dúvida um dos decanos americanos da Ficção Científica – ele possui algo chamado ‘História do futuro’ – um termo associado a Robert A.Heinlein – mas a história futura de Anderson não é tão ordenada. Muitas delas se passam dentro da chamada ‘Liga Polesotechic’ um panorama que abrange 4.000 anos da exploração interestelar humana.
A Liga é levemente baseada no capitalismo dos lordes feudais germânicos (especuladores egoístas e usurpadores) do século 19. Mas e quanto aos Ythri?
THE EARTH BOOK OF STORMGATE (1978) viola um critério. Trata-se de uma coletânea, não de um romance. Mas Hloch, algo como um erudito/historiador, introduz cada história, e cada uma delas está entremeada com as outras, dando ao leitor o sentimento da cultura Ythrian.
A melhor maneira de incluir esta raça na lista é através de EARTH BOOK (os Ythrians contudo aparecem em outros trabalhos de Anderson).
The Earth book of Stormgate - Poul Anderson [ Download ]



Hroshii






















É difícil explicar estas criaturas sem revelar coisa alguma sobre o livro, mas tentarei.
Quase que a metade do romance juvenil de Robert A.Heinlein, STAR BEAST (1954) se passa sem que a palavra Hroshii apareça. Mas eles são poderosos e pouco inclinados a negociar com quem quer que seja. Simplesmente não aceitam um ‘não’ como resposta.
Star Beast - Robert A.Heinlein [ Download ]



Forhilnor






















Forhilnor são perigosos para os humanos por serem, essencialmente, aranhas gigantes.
O autor canadense Robert J.Sawyer, hoje provavelmente reconhecido por sua FC Hard, nos presenteou com CALCULATING GOD em 2000.
Apesar dos eventos do livro tratarem da chegada dos Forhulnors na Terra e a interação deles com um paleontologista humano, poderíamos dizer que os alienígenas são espectadores...
Sawyer utiliza-se deste encontro para explorar conceitos sobre a Criação, a cosmologia e o por que de existir vida. Ainda assim o leitor irá adorar ter Hollus como convidado para jantar e terá orgulho de tê-lo como amigo.
CALCULATING GOD é um bom livro para se discutir ao redor de uma fogueira.
Calculating God - Robert J.Sawyer [ Download ]



Chtorran






















Se você não conhece David Gerrold, provavelmente conhece algo que ele fez – foi Gerrold quem escreveu o famoso episódio ‘The trouble with Tribbles’ da série Star Trek.
Sua produção inclui alguns contos e romances de qualidade variável, mas em 1983 ele publicou o primeiro volume de MATTER FOR MEN, que acabou conhecido como ‘The war against The Chtorr’.
Apesar dos vermes serem a face mais aparente dos Chtorrans, o que temos na verdade é nada mais, nada menos do que a tentativa de toda uma biosfera conquistar a Terra.
Outros livros foram escritos dando sequência a este e para nossa felicidade, alguns são tão bons quanto o primeiro. É preciso ler na ordem certa, acompanhar a infestação Chtorran se multiplicando e a reação dos humanos.
Matter for Men - David Gerrold [ Download ]



Yilane






















Outra raça bem conhecida e eu espero que alguém resolva fazer um filme desta obra prima de Harry Harrison, chamada WEST OF EDEN (1984).
Os outros dois títulos que se seguiram a este (com a usual perda de qualidade) compõe um espantoso exemplo da meticulosa criação de alienígenas feita por Harrison
No entanto os Yilane não são alienígenas no sentido da palavra... esta é a história de uma evolução alternativa da Terra. Os humanos estão em um estágio primitivo (caçadores).
Os Yilane por sua vez, são répteis de um metro e meio de altura, eretos e inteligentes, descendentes dos dinossauros. A sociedade é matriarcal e tem sua tecnologia baseada quase que inteiramente na manipulação das ciências biológicas. Eles literalmente plantam e criam animais, que são modificados para exercer diversas funções.
Os Yilanes vivem em zonas tropicais enquanto que os humanos em zonas temperadas, mas independente disso, as duas sociedades vão de encontro uma contra a outra e surge o conflito. Kerrick, o protagonista humano, foi capturado quando jovem pelos Yilanes e cresceu entre eles. A beleza deste livro está em ter permitido ao autor mostrar ao leitor, a incrível riqueza da cultura Yilane. Assim como Kerrick aprende, nós também. E de forma educativa, os leitores acabam conhecendo toda uma cultura alienígena – sem sacrificar a história.
Harrison é errático em relação a qualidade de seus trabalhos – alguns são detestáveis, muitos são obras de um artesão e poucos são realmente maravilhosos – mas sem dúvida ele triunfou com este.
Trilogia Eden (West of Eden, Winter in Eden e Return to Ender) - Harry Harrison [ Download ]


(retirado de http://listverse.com/literature/15-memorable-alien-races-in-science-fiction/)

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Constructing a Science Fiction Novel - Roger Zelazny


(...Sylvia Burack asked me for an essay for The Writer, and I did the following piece. A large chunk of it tells of the considerations which went into the composition of my novel Eye of Cat. / don't believe I've ever recorded the things I do and think in writing a book in such detail, before or since. Still, it's a short piece, and for those of you who care about such matters I am including it here.

The late James Blish was once asked where he got his ideas for science fiction stories. He gave one of the usual general answers we all do-from observation, from reading, from the sum total of all his experiences, et cetera. Then someone asked him what he did if no ideas were forthcoming from these. He immediately replied, "I plagiarize myself."...)

Constructing a Science Fiction Novel - Roger Zelazny [ Download ]

Medo e Terror na Literatura Infanto-juvenil brasileira


Pé ante pé

Já há algum tempo, vemo-nos invadidos por um sentimento que ultrapassa muros, vidros e mentes, deixando-nos despreparados para a vida. O medo está presente no nosso cotidiano e estende seus braços por todos os setores de atividades em que nos encontremos. Os perigos do mundo são redimensionados e, por vezes, tornam-se desmesurados, atingidos pelo nosso olhar medroso constante. Jean Delumeau nos revela, em sua História do medo no Ocidente, que, nos primeiros tempos, os medos eram oriundos, fundamentalmente, da Natureza.

Em nossa época, o grande perigo está no próprio homem.

Dentro dessa perspectiva inquietante, por que dar atenção a narrativas que se centralizam no medo? Basta pensar na presença deste sentimento em nossa civilização e, inicialmente, no movimento de fascinação que crianças e jovens têm apresentado, ao longo dos últimos anos, em relação às obras que se fundamentam no susto e no pavor. Nas três últimas décadas, principalmente, multiplicaram-se livros e filmes que provocam sensações de horror e, mais do que isso, fazem do medo o seu tema básico. Disseminam-se pela indústria cultural e provocam sensações certeiras. Um arrepio, um recuo ao toque, uma sensação de náusea, repulsa e pronto: estamos face ao que não desejávamos e é impossível recuar.

O horror, é certo, nos causa ameaça. Em última instância, ameaça o nosso mundo, que já anda para lá de ameaçador. Não é de espantar que as cidades se envolvam em artefatos,amaneiradas cidadelas medievais,para que se afaste o medo, e, é claro, os bárbaros que possam causá-lo Assim, engenhocas são mentadas para que os civilizados se sintam mais seguros, envoltos em redes ou grades, em circuitos fechados. No entanto, por entre possibilidades de balas perdidas e um assalto a cada esquina, podemos nos dar ao luxo de ficarmos assustados com histórias de vampiros, lobisomens, monstros, fantasmas...

Preocupados que estamos (ou somos), nós, profissionais ligados à leitura, procuramos a cada dia novas formas e maneiras de apresentar e escolher textos. Foi assim que surgiu este trabalho - de constatações em sala de aula e perguntas e descobertas ligadas a caminhos de leitura.

Na verdade, une teoria e prática, ao tentar entender alguns dos mecanismos das narrativas embasadas no medo e apresentar alguns textos que levam o leitor a ficar com o coração acelerado, a respiração entrecortada, que lhe causam calafrios e um tremer de pernas.

São muitas as reações físicas a situações de medo que aparecem no cotidiano e se espraiam. Por vezes, transformam-se em narrativas, vindo a se constituir em um circuito de textos que vai sendo acionado oralmente e reafirma as reações de susto. No entanto, o estímulo que deflagra o medo pode ser uma narrativa escrita, capaz de manter o leitor em estado de alerta e lançar adrenalina em seu corpo, abalando suas crenças, pensamentos, representações. Em suma, abalando as relações entre razão e o que não é racional.


Sob o domínio do medo

Que condições provocam essa paixão, o medo? E quais seriam os principais elementos das narrativas de terror? Comecemos por ir no rastro de Howard Phillips Lovecraft. Nascido em 1870 e falecido em 1937, escritor e ensaísta, em seu longo ensaio O horror sobrenatural na literatura (Francisco Alves, 1987), formulou uma estética da história do horror sobrenatural.

O ensaio surgiu encomendado por um amigo, que pretendia publicá-lo em uma revista especializada (1924), e reveste-se de especial importância por apresentar um estudo de um escritor que é também ficcionista - entre as obras de Lovecraft situa-se A tumba, considerada uma obra-prima da literatura de terror.

O discurso de O horror sobrenatural na literatura se constrói ao arrolar obras e mais obras, como se fosse um catálogo, só que fortemente amarrado, numa unidade orgânica. O autor reconta os livros que leu, unindo-os na sua busca principal, que é a da psicologia do medo.
A idéia perseguida ao longo do ensaio é que a emoção mais forte e mais antiga do mundo é o medo, e, dentro dessa emoção, a mais forte seria a do medo do desconhecido. Lovecraft procura mostrar que a atração pelo espectral e pelo macabro exige do leitor uma certa dose de imaginação e capacidade de desligamento da vida cotidiana.
E aponta que relativamente poucos são os que se deixam levar por uma sedução pelo desconhecido.

Nas narrativas de horror, para Lovecraft, o mais importante seria o clima, a atmosfera. Assim, o único teste da literatura verdadeira de horror é saber se suscita no leitor um sentimento de profunda apreensão, uma atitude sutil de escuta ofegante. E esse sentimento se perpetua.
Os textos de terror são muito, muito antigos. O horror cósmico aparece em narrativas do mais remoto folclore; as cerimônias de conjuração de demônios são comuns em rituais antigos; tipos e personagens sombrios de mitos e lendas passaram por séculos, via tradição oral, e tornaram-se parte da herança permanente da humanidade. Por exemplo, a sombra que aparece e reclama o sepultamento de seus ossos, o demônio enamorado que vem raptar a amada, ainda viva, o homem lobo, o mágico imortal, foram narrados em antigas civilizações, passaram e se fortificaram na Idade Média, para continuarem em nosso tempo.


O horror narrado

São muitas as narrativas que causam medo. Contudo, algumas podem ser entrevistas como matrizes, visto que inauguram uma certa linhagem. Provocam influência e continuam, até hoje, vivas, seja pela leitura, seja pelo recontar, seja por sua inserção em outras formas de discursos. Todas surgiram no século XIX: Frankenstein ou O moderno Prometeu (1816) , de Mary Shelley; O médico e o monstro- o estranho caso do Dr. Jeckyll e Mr. Hyde (1885), de Robert Louis Stevenson, e Drácula (1897) de Bram Stocker. Vale a pena recordar que as obras ensejaram mais de cem filmes e, tanto nos desenhos televisivos como nas histórias em quadrinhos, vemos marcas de seu poder. Também nos RPG e jogos de computador podemos encontrá-las.
E não é à toa que comparecem enfeixadas em um único livro publicado pela Ediouro (2002), traduzidas com cuidado por Adriana Lisboa.

Frankenstein apresenta a possibilidade de o ser humano criar vida - em suma, de se acreditar Deus. Fruto da Ciência, a criatura formada pelo Dr. Victor Frankenstein desafia a moral, deixando entrever o questionamento dos limites entre o errado, numa espécie de ética de expansão. A narrativa trata de responsabilidades, entre criadores e criadores, e nada poderia ser mais atual em um época como a nossa,em que a criação de humanos,através da clonagem, tornou-se uma realidade. Drácula aciona a idéia de finitude da humanidade, justamente por apresentar a imortalidade como eixo. O desdobramento obtido a partir do sangue remete ao aspecto sexual, mas o erotismo é velado.
Em O médico e o monstro, o tema da duplicidade comparece e faz com que um médico- perfeito espécime social -acabe por perder seu senso de naturalidade e transforme-se, por meio de uma poção, em um monstro, capaz de crimes brutais. Bem e mal aqui travam uma luta dentro de uma única criatura.
Nos protagonistas das três obras, concentra-se, à maneira romântica, o desejo de descobrir a essência do humano, nelas concretizada a partir de imagens e metáforas. Na verdade, podemos até não querer entrar em contato com essas personagens, mas elas persistem em nossa cultura justamente por mostrarem o desconhecido que nos habita.

Sustos e revelações são artifícios dessas obras, e encontram-se também presentes em lendas do folclore brasileiro, em Não olhe atrás da porta, de Lia Neiva, em Pente de Vênus, de Heloísa Seixas, nas lendas urbanas que circulam na Internet e percorrem as cidades, e em muitos outros textos. Tais narrativas exibem-se, muitas vezes, como rituais e distorções de nossos maiores medos, trabalhados, metaforicamente ou não, no tecido textual.


Entre sapos

A oralidade sempre perseguiu os efeitos de suspense, ao tentar manter a atenção dos ouvintes e suspender o fluxo contínuo do narrar pela quebra de expectativa ou aniquilamento de sensações. Pode, também, utilizar recursos de comicidade para destruir a atmosfera pesada do narrado.

Assim acontece em “O sapo com medo d’água”, narrativa coletada por Câmara Cascudo. Nela, o medo do sapo liga-se à sua esperteza, e, a estratégia do protagonista consiste em acionar o contrário, pelo discurso, da expectativa de seus oponentes. Assim, a cada ameaça, sucede-se a sua desconstrução, (“- Vamos jogar o sapo nos espinhos! -Espinhos não furam o meu couro - dizia o sapo. - Vamos queimar o sapo.- Eu no fogo estou em casa!”: CASCUDO, p. 212), até que se chega ao clímax, onde a água - em que o sapo sente-se à vontade, aparece como elemento ameaçador (“-Me bote no fogo! Me bote no fogo! N’água eu me afogo!” (CASCUDO , p. 213) . Quebra de expectativa, esperteza,um discurso às avessas são elementos que contribuem para a apresentação do ter medo/não ter medo.

São várias as narrativas que se organizam a partir da exibição de situações de medo, que depois são mexidas para que se desconstrua a imagem de temor.

De morte

Afinal, qual o grande medo humano? Da morte, é claro. E, dentre as narrativas que a tematizam, uma é especial.
O escritor Ricardo Azevedo,em sua obra Meu livro de folclore, apresenta o conto “Gaspar, eu caio”, em que o sobrenatural é explorado e denuncia a capacidade de fabular e fantasiar. Os ossos que vão caindo e formando um esqueleto, que irá lutar com o vitorioso viajante, lembram ao leitor a finitude do seu corpo. Aliás, todos os medos se concentram no medo da morte, cultuada e tema recorrente em histórias folclóricas.
Na verdade, o que se deseja é enganá-la, como acontece nos Contos de enganar a morte, também de Ricardo Azevedo. Neles, através da audácia, da perspicácia ou da esperteza, a morte não consegue seu intento. Através das narrativas, a carga simbólica negativa que a morte recebe na tradição ocidental é amenizada por desvio de intenções.

A morte encontra-se também recuperada por Ângela Lago. Como exemplo, a obra De morte!, reescritura do conto folclórico, salpicada de ilustrações de Dürer com interferências. Aqui a Morte também é enganada durante algum tempo, com humor e esperteza. E a escritora prossegue em Sete histórias para sacudir o esqueleto, o que pode correr por sensações de riso ou de pavor por parte do leitor. Afinal,o esqueleto pode ser sacudido pela comicidade ou pela montagem de um contexto que se avizinha e,ao mesmo tempo, distancia-se do conhecimento do leitor, o que cria uma possibilidade de nova percepção de leitura.


Portas e crenças

Tanto em Não olhe atrás da porta como em Histórias de não se crer, a escritora Lia Neiva trabalha com o sólito, o universo corriqueiro, para que sirva de suporte aos elementos que apontam para o estranho. Habilmente mesclados pela autora, em processos de verossimilhança plasmados com eficácia, o usual e o estranho comportam um efeito sobre o leitor.

A via é a do simbólico, e do prosaico cotidiano, do espaço conhecido e ameno irrompe,de chofre,a impressão de estranheza, desequilibrando a ordem aparentemente cristalizada dos seres ficcionais.Tudo é familiar, e, ao mesmo tempo, inquietante.

Dentro desse movimento de sentido, os efeitos inesperados, em alguns contos, levam à revelação e à angústia. A tensão, como efeito do discurso, é a pedra de toque das narrativas. O prazer estético tradicional, que se marca por um sentimento positivo, de belo ou sublime, aqui desvia-se, sugerindo um prazer diferente - o de decifrar,aliado ao empreendimento de penetrar no sentido humano.
No primeiro conto de Histórias de não se crer, ”Um gole de chá”, a ação nos é revelada por intermédio de um bule, em primeira pessoa; que começa por avizinhar-se do estranhamento. “Há muita coisa nesta vida que vai além da nossa compreensão: bruxarias, por exemplo.” (p. 12). Insólito, fantástico, a inquietante estranheza que foi um conceito largamente estudado por Freud - que mostrou que ,em alemão, o estranho, o sinistro se opõe ao que é íntimo, do lar. Da insinuação de que algo está errado advém o grande medo -do desconhecido.


Do mínimo ao máximo; de Heloísa em Heloísa

A literatura de terror, bem como a policial, não encontra grande desenvolvimento no Brasil. Embora tenhamos um imaginário pleno de mitos e lendas calcadas em situações assustadoras, quando se trata de literatura, principalmente a destinada a adultos, são poucos os empreendimentos no gênero.

Torna-se, portanto, de suma importância a presença de duas escritoras no panorama literário atual: Heloísa Prieto e Heloísa Seixas. A primeira, seja através da organização de antologias, seja através da coleta de mitos e lendas, ou de escrita singular, envereda pelos caminhos do sobrenatural e discute a humanidade a partir do que sai dela.

Sua última obra, Rotas fantásticas (FTD, 2003), reúne dez relatos, meticulosamente construídos, tomando por base lendas urbanas que circulam no país. A apresentação gráfica as recobre de mistério e possibilita um reorganizar de sentido pelos leitores, visto que os textos se apresentam como componentes de um fichário, à maneira policial, que deve ser preenchido com indagações. Figuras que povoam o cotidiano dos brasileiros irrompem nos textos. E, nestes novos tempos, a internet dissemina as narrativas, como a ”Loira do banheiro” e paga-lhes o tributo de autenticidade.

A outra Heloísa, a Seixas, recuperou textos de esquecidos escritores de terror e trouxe-os a leitores atuais, entre eles os de Ambrose Bierce e Algernon Blackwood. Paralelamente, cria os seus textos, publicados em livro (Pente de Vênus) ou nas páginas da revista domingo, do Jornal do Brasil. Os textos no espaço do jornal, que se condensam em mínimas palavras, permitem a inserção do inexplicado. O leitor, ao se defrontar com eles, tem outras possibilidades de espreitar o mundo. E em Pente de Vênus, reconhece-se Ann Radcliffe e Edgar Allan Poe. Fundamentalmente, seus contos são recheados de fantasmas, que muitas vezes não são exteriores, mas espectro do próprio viver na dimensão feminina.


Curiosidade e esquiva

O verdadeiro autor de histórias de terror, qualquer que seja a sua dimensão, explora os limites do que as pessoas são capazes de fazer e as fronteiras do que são capazes de experienciar. Assim ele se aventura nos domínios do caos psicológico, desertos emocionais, traumas psíquicos, abismos abertos pela imaginação, histeria e loucura, todos os elementos que ficariam na divisa do bárbaro. As narrativas de terror muitas vezes apresentam imagens e figuras de caos e sofrimento, como se tematizassem várias espécies de “inferno”, tomando a palavra como exemplo de uma condição humana extrema.

Trabalhemos um pouco com as palavras “horror” e “terror”. O horror deriva do latim horrere: fazer o cabelo se arrepiar. Ou seja, horripilar: horrorizar, eriçar os cabelos, arrepiar. Vem do latim eclesiástico horripilare. O que causa o eriçamento dos cabelos.Já terror viria do latim terrorem, do tema de terrere, espaventar, causar grande medo.

Assim, numa abordagem etimológica superficial, poderíamos aventar a hipótese de que o horror é uma reação física, enquanto o terror seria uma reação provocada pelo sobrenatural, pelo desconhecido, a ameaça desconhecida.. De qualquer forma, as narrativas de horror de terror ( ou horror) parecem surgir com a tentativa de encontrar adequados símbolos e descrições para forças, medos e energias primitivas relacionadas à morte, à vida após a morte, punição, mal, violência e destruição.

Convenhamos que, na época em que vivemos, tornou-se difícil encontrar quem não tenha participado de uma experiência de horror. E, caso tenha a sorte de não a ter vivenciado, pelo menos com ela defrontou-se na mídia, haja vista a profusão de imagens violentas que inundam nosso cotidiano via meios de comunicação. Assim ,enquanto sentamos num sofá, cadeira ou poltrona para ver televisão, confortavelmente recostados, entram em nosso lar imagens de guerras, terremotos, assassinatos, em meio a anúncios de máquinas de lavar, iogurtes e carros. Também ao abrirmos os jornais encontramos o mesmo panorama.

Basta lembrar acidentes de carros, em que motoristas quase batem ao tentar olhar o que aconteceu. Podemos ler neste gesto curiosidade ou até mesmo solidariedade humana, mas sabemos que não é bem isto que os move. E nem adianta afirmar que esse é uma reação que visualiza a realidade como ficção. Qualquer que seja o ângulo de abordagem, continua a ser fundamental a idéia de procura pelo desconhecido, e busca pela sensação de susto e repulsa.
E, ainda além, constata-se que as pessoas se sentem fascinadas pelo que lhes causa repulsa.

Olhar o acidente e, ao mesmo tempo, desviar o olhar. Ou, como as crianças, espalmar a mão aberta sobre o rosto e ver entre os dedos, negando e procurando a visão.

Stephen King nos revela, em seu prefácio ao volume Sombras na noite, que o leitor de terror é justamente aquele que não consegue desviar o olhar do acidente. E, ainda, observa que existem narrativas que mostram o próprio acidente, em detalhes (o que pode ser percebido, por certos críticos, como mau gosto) e outras que apenas exibem as ferragens retorcidas, deixando ao leitor a tarefa de imaginar o que aconteceu.

Entre as trevas e o demoníaco, entre rastros e sombras, pulsa o desejo do conhecimento, de desvendar o mistério, de subjugar o mundo, de entender a existência.

E multiplicam-se leitores que as desejam.



MEDO E TERROR NA LITERATURA INFANTO-JUVENIL BRASILEIRA
Rosa Gens (UFRJ)

BIBLIOGRAFIA
AZEVEDO, Ricardo. Contos de enganar a morte. São Paulo: Ática, 2003.
Meu livro de folclore. São Paulo: Ática, 1999.
CASCUDO, Câmara. Contos tradicionais do Brasil. Rio de Janeiro: Ediouro, 1999.
DELUMEAU, Jean. História do medo no Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
KING, Stephen. Sombras da noite. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1984.
LAGO, Ângela.De morte! Belo Horizonte: RHJ, 1992.
Sete histórias para sacudir o esqueleto. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2002.
LOVECRAFT, Howard P. O horror sobrenatural na literatura. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1978.
NEIVA, Lia. Histórias de não se crer. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1987.
Não olhe atrás da porta. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1989.
PRIETO, Heloísa. Rotas Fantásticas. São Paulo: FTD, 2003.
SEIXAS, Heloisa. Contos mínimos .Rio de Janeiro: Record, 2001.
Pente de Vênus. Porto Alegre: Sulina,1995.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Escrevendo Ficção Científica - Vários autores


On the Writing of Speculative Fiction - ROBERT A. HEINLEIN

(...There are at least two principal ways to write speculative fiction--write about people, or write about gadgets. There are other ways; consider Stapledon's Last and First Men, recall S. Fowler Wright's The World Below. But the gadget story and the human-interest story comprise most of the field. Most science fiction stories are a mixture of the two types, but we will speak as if they were distinct--at which point I will chuck the gadget story aside, dust off my hands, and confine myself to the human-interest story, that being the sort of story I myself write. I have nothing against the gadget story--I read it and enjoy it--it's just not my pidgin. I am told that this is a how-to-do-it symposium; I'll stick to what I know how to do...)


Dialog - ISAAC ASIMOV

(Most stories deal with people, and one of the surefire activities of people is that of talking and of making conversation. It follows that in most stories there is dialog. Sometimes stories are largely dialog; my own stories almost always are. For that reason, when I think of the art of writing (which isn't often, I must admit) I tend to think of dialog.
In the Romantic period of literature in the first part of the nineteenth century, the style of dialog tended to be elaborate and adorned. Authors used their full vocabulary and had their characters speak ornately.
I remember when I was very young and first read Charles Dickens's Nicholas Nickleby. How I loved the conversation. The funny passages were very funny to me, though I had trouble with John Browdie's thick Yorkshire accent (something his beloved Matilda, brought up under similar conditions, lacked, for some reason). What I loved even more, though, was the ornamentation-the way everyone "spoke like a book."...)


You and Your Characters - JAMES PATRICK KELLY

(Once I admitted to myself that I had the raging hunger to write, I gobbled up every book on the subject I could find. I still have most of them; I've just gathered fourteen and stacked them beside my computer monitor for inspiration. Each has a chapter on characterization. If you're looking for technical jargon, have I got some used books for you!
It seems that there are all kinds of characters: developing characters, static characters, round characters, fiat characters, cardboard characters (oh, are there cardboard characters!), viewpoint characters, sympathetic characters, unsympathetic characters, stock characters, confidantes, foils, spear carriers, narrators, protagonists, antagonists. But that's not all; characters can play many roles. There are fiat, sympathetic, static confidantes, like the unnamed first-person narrator in H. G. Wells's "The Time Machine." Or developing, fiat, unsympathetic antagonists, like HAL in 2001, A Space Odyssey. Still with me?...)


Seeing Your Way to Better Stories - STANLEY SCHMIDT

(The first time I met Kelly Freas, the renowned science fiction artist, he had lust published a series of posters to promote interest in and support for the space program. The entire series was displayed on walls throughout the house, and Kelly was asking all the guests at a party which posters they thought most effective. He found a fascinating pattern in the results. "Verbally oriented" people always picked the one showing a moon rocket, three ghostly sailing ships, and the phrase, "Suppose Isabella had said no..." "Visually oriented" people always picked the one with no words, just a picture of a rocket "hatching" from an Earthlike egg.

Writers, by the nature of their work, tend to be "verbally oriented." But they would do well to realize that many of their readers are less so. Most readers do not pick up a novel or short story to admire the author's cleverness in turning a phrase, but to experience vicariously something they cannot experience directly. Your job as a writer is to make your reader forget that he or she is reading and give him or her the illusion of being in the story, seeing and hearing and smelling and feeling what's happening to your characters.
Hence the oft-repeated dictum: "Show, don't tell."...)


Turtles All the Way Down - JANE YOLEN

(The famous philosopher Will James had just finished giving a lecture on the solar system in Cambridge, Massachusetts, when he was approached by an elderly admirer. She was shaking her head and her umbrella and looking very stern.
"Mr. James," she admonished him, "I am shocked by your notion that we live on a ball rotating around the sun. That is patently absurd. "Politely, James waited, inclining his head toward her.
"We live on a crust of earth on the back of a giant turtle," the Grande dame announced.
James, ever gentle, asked, "If your.., um... theory is correct, Madame, what does this turtle stand upon?"
"The first turtle stands on the back of a second far larger turtle, of course," the old woman replied. James lifted his hand. "Ah, Madame, but what does this second turtle stand upon?"
The dowager’s eyes were bright. She laughed triumphantly, "It’s no use, Mr. James--it’s turtles all the way down!"
And so it is with writing fantasy--)


Learning to Write Comedy or Why It's Impossible and How to Do It - CONNIE WILLIS

(Writing comedy is a real pain, made more painful by two persistent myths. The first is that writing comedy is a hoot, something people do for fun when they've written too much serious stuff, and that the main problem is to stop laughing so hard you can't type. While reading comedy may be an amusing experience, writing it is the same pain in the neck as any other kind of writing, only more so. It's a lot like ballet--on stage it's all pink tulle and graceful lifts, but in practice it's mostly sweat, corns, and ripped ligaments. Ditto comedy, especially the corn part.

The second myth (which apparently everybody believes) is that comedy can't be analyzed, that looking at it too closely kills it. This ridiculous notion seems to have evolved from the deadly results of attempting to explain a joke, though it does not take into account the fact that the reason the joke had to be explained in the first place was that it wasn't funny.

Wherever these myths came from, they're just not true. The Marx Brothers, those supposedly spontaneous crazies, used to write the scripts for their movies and then take them on the road to try out the humor on an audience, revise and rework the routines, polish up the jokes, and look for dead spots. It didn't kill their comedy, did it?...)


Good Writing Is Not Enough - STANLEY SCHMIDT

(Only a month after it appeared in Analog in mid-December 1985, S. C. Sykes's short story "Rockabye Baby" was well on its way to nomination for a Nebula, one of the two most prestigious awards in science fiction. It also had been picked up for a "Best of the Year" anthology, and was doing quite nicely in Ahalog's own annual reader poll. Another story attracting much favorable comment in that poll (it was our readers' favorite short story of the forty-two we published last year) and elsewhere was Stephen L. Burns's "A Touch Beyond" (January 1985). "A Touch Beyond'' was a first sale; "Rockabye Baby," a second. Editors do buy, and successfully publish, stories from new writers.
Yet, a magazine like Analog receives so many submissions that it has room for only one or two percent of them. Many stories are rejected not because of anything conspicuously wrong with them, but simply because nothing sufficiently special about them makes them stand out from ninety-eight percent of the competition.
What makes stories like "Rockabye Baby" and "A Touch Beyond'' stand out? How can you make your stories do the same? The key words are imagination, discipline--and the first word in "science fiction.")


The Creation of Imaginary Worlds - POUL ANDERSON.

(This is an infinitely marvelous and beautiful universe which we are privileged to inhabit. Look inward to the molecules of life and the heart of the atom, or outward to moon, sun, planets, stars, the Orion Nebula where new suns and worlds are coming into being even as you watch, the Andromeda Nebula which is actually a whole sister galaxy: it is all the same cosmos, and every part of it is part of us. The elements of our flesh, blood, bones, and breath were forged out of hydrogen in stars long vanished. The gold in a wedding ring, the uranium burning behind many a triumphantly ordinary flick of an electric light switch, came out of those gigantic upheavals we call supernovas. It is thought that inertia itself, that most fundamental property of matter, would be meaningless--nonexistent--were there no stellar background to define space, time, and motion. Man is not an accident of chaos; nor is he the sum and only significance of creation. We belong here...)

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Clones, autômatos e utopias


Clones

O filme A. I. Inteligência Artificial , de Steven Spielberg, é a história de um clone triste. A novela O clone, de Glória Perez, com fantásticas imagens e cenários do diretor Jayme Monjardim, é a história alegre de um clone triste. O Fausto, de Goethe, publicado, originalmente, em dois volumes com um longo intervalo de tempo entre eles (1808, o primeiro e 1833, o segundo) é a história trágica de um clone cômico. O Frankenstein, ou O prometeu moderno, de Mary Shelley, que o publicou anonimamente, em 1818, quando tinha apenas 19 anos, é a história trágica de um clone trágico. De comum, em todas essas obras e histórias de épocas tão diferentes, o mesmo mito do descontentamento com as limitações da existência e da busca de sua superação com a criação de outras vidas, sobre-humanas.

Ovídio, poeta latino que viveu no século I, antes e depois de Cristo, celebrizou em suas Metamorfoses o mito, a lenda e o personagem de Narciso, que tanta importância teria para o desenvolvimento teórico, conceitual e metodológico da psicanálise tanto tempo depois. Narciso repeliu o amor das ninfas, Eco entre elas, que por ele se apaixonaram. Tamanha era sua beleza que ele próprio, ao ver sua imagem refletida nas águas claras de uma fonte, por si mesmo também se apaixonou. Como não conseguia abraçar o objeto evanescente de seu amor, tentou, desesperado, desgarrar-se de si mesmo até dilacerar-se e, sangrando, perecer. Ao buscar seu corpo para colocá-lo na pira fúnebre, suas irmãs, em seu lugar, só encontraram a flor em que ele havia se transformado. Narciso é a história liricamente triste de um clone impossível.

Há outras histórias da mesma família, como aquela que se conta no romance O estranho caso do dr. Jekyll e mr. Hyde, de Robert Louis Stevenson, publicado em 1886, ou esta outra, de H. G. Wells, A ilha do dr. Moreau, de 1896, ou até mesmo aquela bem mais antiga narrada na Bíblia, no Velho Testamento, no livro de Jó, em que Deus permite ao Diabo a “clonagem” do Jó rico e feliz no Jó pobre e infeliz para a dura provação de sua crença e de sua devoção ao Senhor.

A transformação de um em outro e o retorno à identidade original, enriquecida pela viagem do estranhamento de si mesmo e da alteridade, são temas recorrentes nos mitos clássicos da Antigüidade e mesmo nos mitos mais modernos do ciclo de novelas de cavalaria, na Idade Média, ou no do médico-cientista que vende a alma ao diabo, também na Idade Média e na Renascença e que, além da complexa beleza, da versão de Goethe, culmina, no século XX, no vigoroso romance de Thomas Mann, Doutor Fausto.

Por outro lado, a saga de gêmeos no imaginário da cultura, as mais diversas e antigas, acrescenta ao tema da duplicidade elementos que reforçam e aprofundam as indagações metafísicas do homem, através dos tempos, sobre a singularidade de seu destino comum.

O tema do espelho, em particular do retrato que representa o mesmo, sendo, no entanto, o outro, e que tem no conto “O espelho”, de Machado de Assis, um de seus momentos altos, propicia no romance de Oscar Wilde, O retrato de Dorian Gray, de 1891, tanto a definitiva notoriedade do autor como a sua plena realização literária. Trata-se, como se sabe, de uma narrativa filosófica, cujo protagonista é jovem, belo, dedicado ao prazer e ao culto da beleza. Recebe de um amigo pintor o retrato que espelha, luminoso, tudo isso. Angustia-se com a idéia de que um dia perderá tudo e, por um pacto e um voto, consegue transferir para o quadro as marcas do tempo e do envelhecimento, mantendo-se em eterna e fresca juventude. Abandona a angelical Sibyl e acaba assassinando o amigo pintor, que desaprova seu comportamento e recusa sua conduta. Atraído pela própria imagem no retrato, assiste, às vezes, à degradação de si próprio no outro, representado. Numa dessas vezes, contemplando o rosto degenerado de seus vícios, no retrato, dilacera-o com um punhal, tombando morto no instante mesmo em que sua imagem é destruída por ele próprio.

Há semelhanças entre o livro de Oscar Wilde e Dr. Jekyll e mr. Hyde, de Robert Louis Stevenson, publicado poucos anos antes, assim como há também com outras obras românticas e pós-românticas, como é o caso de La nuit de décembre A noite de dezembro , de Alfred de Musset, e, mais especialmente, com La peau de Chagrin A pele do Onagro, de Balzac, este último ainda mais carregado de simbologia dual, ou de dualidade simbólica, por ter sido o último livro lido por Freud antes de sua morte, em 23 de setembro de 1939, conforme nos relata Peter Gay em sua biografia famosa do fundador da psicanálise.

A eterna busca do fogo sagrado da vida nos torna perseverantemente teimosos, do ponto de vista epistemológico, e teimosamente ridículos, do ponto de vista dos malogros a que nos condenam os mitos e suas recriações literárias, em diferentes épocas. Nem por isso deixamos de continuar Prometeus e de transgredir os limites que a ética e as religiões estabelecem para cada época, como condição de harmonia social, de felicidade individual e de sábia ignorância.

O “pecado” da curiosidade do conhecimento levou o homem, no decorrer de sua história moderna, a sofrer alguns abalos fundamentais que chacoalharam a sua vaidade e o empurraram para quedas simbólicas, no sentido bíblico, irrecuperáveis: a primeira, entre elas, o tira, na Terra, do centro do universo, com a revolução copernicana; a segunda, arrebata-o da linhagem divina, com a teoria da evolução das espécies, de Darwin; a terceira, composta de dois trancos, praticamente simultâneos, retira-lhe a condição de sujeito da história, no choque com a teoria marxista, e desaloja-o de seu próprio eu, para revelá-lo estranho e conflituoso consigo mesmo, com a criação, por Freud, da psicanálise, ele próprio arauto dos sucessivos tombos acima enumerados.

Mais recentemente, foi anunciada, como resultado do seqüenciamento dos genes que compõem o genoma humano e daqueles que compõem o genoma do chipanzé, uma diferença quantitativa, muito pequena, de genes entre os dois, o que motivou cientistas a proporem uma revisão da classificação do chipanzé, para incluí-lo entre os representantes da linhagem do gênero Homo, sabido ou ignorante, pouco importa no caso em questão.

O DNA foi, há cinqüenta anos, a última grande e revolucionária descoberta científica da humanidade, abrindo novos caminhos para o desenvolvimento das ciências da vida e para o nascimento de áreas multidisciplinares de estudo e pesquisa, antes desconhecidas. A própria biologia, com o desenvolvimento da genômica e, posteriormente, da proteômica, conheceu transformações que têm mudado o seu paradigma teórico e metodológico, aproximando-a, sob esses aspectos, das chamadas ciências duras, para as quais a materialidade de seu objeto e a quantificação de seu conhecimento são condições constitutivas do rigor dos procedimentos e da verdade dos resultados produzidos pela investigação.

Quando, algum tempo atrás, foi anunciada por cientistas da empresa Advanced Cell Technology (ACT) a clonagem de um embrião humano, o rabino Sobel, de São Paulo, declarou na televisão não ser contra os avanços da ciência nesse campo. O problema, disse ele, é saber como, onde e quando parar. O rabino tem razão, mas, na verdade, o enigma da ciência só se completa quando a esfinge do conhecimento pergunta também: “Por que e para que parar?”.

Jose Cibelli, sempre no esforço de atenuar as críticas às declarações da ACT, disse que o objetivo da empresa era reverter o tempo e, desse modo, retardar o envelhecimento e alongar a vida. Reencontramos aqui o mito da longevidade e da eterna juventude que já havíamos reconhecido em O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, e que aparece também num folhetim gótico de Balzac, O centenário, ou ainda no excelente O perfume: História de um homicida, do alemão Patrick Süskind, de enorme sucesso no mundo todo, desde que foi lançado, em 1985. Tanto em O centenário como em O perfume, vida sobre-humana, ou a sobre-humanidade da essência da vida, alimenta-se do vigor, da juventude e da beleza de outras vidas humanas, numa espécie de vampirismo sem caninos e sanguessugas.

Alguns autores distinguem uma ética da clonagem de uma ética na clonagem, argumentando que a maior parte das discussões éticas que cercam o tema até agora são externas a ele. Mas será a ciência capaz de representar-se a si mesma em fóruns distintos ao dela própria? Pode o conhecimento conhecer-se a si próprio, ou a mente representar-se a si mesma, ou a consciência ser consciência da própria consciência? Não há ciência sem simulação, tampouco conhecimento sem linguagem e representação. Os símbolos fazem a mediação do mundo e do conhecimento do mundo. A unidade e a unicidade do ser humano são os fundamentos de sua humanidade e a vida é sagrada porque morre e renasce em diferenças e dessemelhanças.

O humanismo feroz e a humana ferocidade da literatura de Hemingway ressoam na epígrafe clássica de Por quem os sinos dobram? : “Nenhum homem é uma ilha... Eles dobram por ti”.

A banalização do mistério da vida, posto em gôndolas eletrônicas da internet, banaliza a morte, a violência, o crime e faz terra arrasada da singularidade da existência de cada ser humano em sua infinita provisoriedade. Dessacraliza a vida.

Tudo o que o homem pode fazer ele fará, mesmo que a custo de muitas vidas e muito arrependimento tardio, como foi o caso dos autores da bomba atômica. Cedo ou tarde, o homem clonará o homem e com mais facilidade do que fez a bomba, porque os aparatos tecnológicos e os custos envolvidos são mais simples e instaláveis numa clínica particular. É um risco para o qual a sociedade não está ainda preparada, a não ser pelo medo mítico das representações que conhecemos, e quem sabe pela “sabedoria da repugnância” de que nos fala a bioética de Leon Kass. Será suficiente?

No Olimpo, dizem os deuses que não! Que sim, dizem seus semelhantes na Terra!



Roboamor

A solidão começava a incomodá-lo. Não em si, por si mesma, de modo absoluto, mas por ter de compartilhá-la com estranhos. E mais do que estranhos, estrangeiros no país de sua geografia cotidiana, nos acidentes de suas divagações, no roteiro de sua permanência.

Na casa ampla e abandonada da intenção de qualquer outro abandono senão o seu, livros espalhados, empilhados, dispostos e cruzados em estantes como em um universo.

Era de propósito, como ele costumava cortar qualquer pergunta admirada do estranho-estrangeiro que ocasionalmente freqüentava e invadia sua solidão. E era mesmo, como ele acreditava, dessa forma, reproduzir na escala da casa uma espécie de aleph da biblioteca ilimitada e periódica que a leitura do conto de Borges lhe inspirara.

Outra presença literária e, nesse caso, também cinematográfica, no imaginário de seu quarto, bem na parede acima da cabeceira da cama era a reprodução em pôster do quadro do aventureiro Giacomo Girolamo Casanova com sua amante-autômato sobressaindo num pedestal sobre um fundo do mar de Veneza congelado. A boneca dançarina mecânica representada por Adele Angela Lojodice no filme de Fellini que ele vira na Itália em 1977, no mesmo ano de seu lançamento, sendo a conquista final deste Casanova protagonizado por Donald Sutherland, conquistara-o definitiva e silenciosamente.

Sonhara, várias vezes, com a materialização da boneca e com o aconchego frio de sua presença sem perguntas, sem respostas.

Evitava o quanto podia as visitas de quem quer fosse, no limite das necessidades e das fraquezas insuperáveis.

Tentara algumas vezes compensar o que ele próprio chamava, com ironia e certa dose de desprezo, os dilemas da carne, recorrendo, na internet, a sítios de comércio eletrônico de bonecas infláveis. Adquirira vários modelos por preços que variavam, do mais barato, de vinte dólares, ao mais cara, perto de duzentos dólares. Acompanhava com avidez curiosamente gulosa as novidades, os últimos lançamentos, os atributos, os movimentos, os prazeres anunciados. Todas as iniciativas resultavam, contudo, frustrantes em relação à expectativa de que pudesse ter, senão a dançarina de Fellini, ao menos um simulacro de sua discreta e ausente compreensão. Queria a boneca mecânica. Se Casanova a tivera no século XVIII, com mais razão ele poderia tê-la no século XXI com a revolução tecnológica, os avanços da informática, da mecatrônica, da robótica. Por que não uma lovedoll, uma boneca do amor, uma robolove, uma roboamor? Que soubesse e pudesse não só dançar, mas estar junto, fazer-lhe companhia, acompanhá-lo à mesa, ouvir suas lembranças, lembrar com ele detalhes esquecidos de sua história de vida, ajudá-lo a elegê-los, refiná-los, purificá-los do excesso de peso da realidade, ser amada, amar. Vesti-la, cortejá-la, despi-la à noite devagar e apaixonado, deitar-se com ela sob as cobertas no acalanto efusivo das investidas sem contestação! Tê-la e não ser incomodado. Estar com ela e não se sentir acompanhado. Seria isso possível? Como consegui-lo? Em que loja comprá-la? Em que oferta eletrônica, em que comércio virtual torná-la realidade?

Inútil querer encontrá-la pré-fabricada e pronta para o amor. As que adquirira, todas, mesmo as mais caras com dispositivos eletrônicos de mobilidade e aquecimento nas partes sexuais, embora silenciosas, como queria, eram também idiotamente quietas na sua indiferença. Era preciso construí-la, fazê-la original, singular, exclusiva. Mas como? Percorria as prateleiras da biblioteca caoticamente distribuídas pela casa e lia. Lia com paciência feroz e obstinada. Os clássicos, os modernos, os cultos, os vulgares, os refinados e os banais. Lia em busca da idéia, do conceito, da hipótese fecundante, do método, do manual de procedimentos.

Às vezes afloravam-lhe à pele pruridos, também éticos. Reforçados, quem sabe, pelas infinitas discussões e debates sobre o uso de embriões humanos para as pesquisas com células-tronco e pela certeza e o temor correspondente de que, mais dia, menos dia, tal como ocorreu com a ovelha Dolly, na Escócia, com a bezerra Vitória, no Brasil, e com outros animais em outras partes do mundo, o homem clona o homem, e aí adeus, natureza humana! Mas isso vinha e ia como coceira, até gostosa de coçar.

Do Frankenstein, de Mary Shelley, suas versões para o cinema, aos autômatos vegetais, eletrônicos, escatológicos ou quiméricos biodegradáveis, lia, relia, via, revia, devorava tudo. Lia autores e críticos, conhecia as fases da evolução da ficção científica estabelecidas por mestres como Asimov e estudiosos como Campbell para o gênero e não raras vezes acreditava estar perto de descobrir a palavra mágica, a fórmula, a equação, o truque que fosse, que o aproximaria, enfim, do Graal de sua existência.

Mas o tempo passava e nada de encontrar o artifício de seus sonhos, o estranho e familiar objeto do desejo, ele próprio também passando com o passar do tempo. De tudo o que lia e via, o mais recorrente era que se dedicava a assistir, por vezes seguidas, ao filme de Fellini e a fazer avançar e retroceder, em vídeo ou em DVD, as cenas da boneca mecânica e do amor que a Casanova por ela lhe sobra. Admira a atriz por seu desempenho automatizado e pela perfeição da maquiagem que faz dela uma imitação de estátuas com movimentos descontínuos como num filme cuja seqüência de quadros fosse projetada num ritmo de diapositivos em slides. Tinha certeza de que era ela a verdadeira musa inspiradora de todos os artistas anônimos espalhados pelos passeios das grandes cidades do mundo, imitadores de estátuas que, assim imitadas, imitam o homem que as imita. A vida imita a arte, que imita a vida, que imita...

Ocorreu-lhe que a solução poderia estar onde a via há tanto tempo e não a enxergava. E se suas convidadas ocasionais, ou mesmo uma mais duradoura, quem sabe permanente, pudessem ser preparadas para, estando juntos, estarem como autômatos. Isto é, estar sem estar ou sem parecer estar, ou só parecer, sem estar. Ser simulacro, simulação do ser.

Precisaria ter aprendido com o chefe da equipe de maquiagem, Rino Carboni, do filme de Fellini, a arte da transformação de Adele Angela Lojodice no amado robô de Casanova. Isso não sendo mais possível, dedicou-se, com zelo artístico, disciplina literária e método experimental, a estudar e a treinar a arte da transformação de si próprio para poder depois executar a transformação do outro. Antes de começar a exercer a robotização de suas ou de sua eleita, precisava preparar-se e estar tecnicamente apto para o pleno exercício da maquiagem que o levaria, chagada a hora, à metódica construção de seu robô amoroso, mesmo que sob o disfarce mascarado da ilusão passageira. E em si mesmo treinava. E quanto mais adestrado estava, mais exigente ficava, olhando por horas e horas, diante do grande espelho da sala, que antes os livros ocultavam, a imagem mutante que o ofício de transformar-se impunha à memória de seu dia-a-dia. Corrigia-se. Um detalhe aqui, outro ali, um aperfeiçoamento de linhas de um lado, um endurecimento de traços do outro e, assim, da mesma forma que o autômato nascia, ela também morria e se modificava.

Com os exercícios que lhe tomavam os dias, depois as noites, depois ainda os dias e as noites, foi perdendo a concentração do objetivo e abandonando, por desvio e esquecimento, o objeto de desejo que o trouxera à prática exaustiva da transformação do outro em si mesmo. De vez em quando voltava a assistir ao filme de Fellini. Deixava-o agora, correr, contudo, ao longo de sua comprida duração sem o vai-e-vem obsessivo das seqüências eleitas da boneca bailarina e do conquistador sem triunfo. Tinha também nessas ocasiões um sentimento novo, uma desconfiança talvez de que sempre estivera enganado sobre a verdadeira identidade das personagens que, no filme, por uma trapaça do gênio malicioso do cineasta, dissimulava, no herói apaixonado pelo autômato, a melancolia automática da razão e, na boneca mecânica dançarina, o movimento quebrado do amor constante, sem razão.



Utopias

Ao sair de casa, naquela manhã, deste ano distante do senhor, 2050, não me dei conta, de imediato, de que estava numa terra estranha. Mais estranha ainda porque parecia familiar. A mistura de estranheza e familiaridade, depois, ou melhor dizendo, antes, percebi, dava-se particularmente pelo fato de estar na minha cidade, na minha terra, no meu país e, ao mesmo tempo, não me ver reconhecido nos cumprimentos que trocava, automaticamente, com os transeuntes daquela manhã de esperança e desespero.

Ao sair de casa, naquela manhã, daquele ano distante do senhor, 2050, não se deu conta, de imediato, de que estava numa terra estranha, num futuro próximo, num espaço hostil para onde havia sido teletransportado na noite anterior. Por sua vontade e contra ela. Por sua vontade, porque, na curiosa sofreguidão de seus vinte anos, não via a hora de conhecer o que era proibido para os que, como ele, não portavam desde o nascimento o gene da distinção. Contra a sua vontade, porque, ao ser descoberto em seus anseios, pela leitura digital cotidiana de sua transpiração, como era rotina no alojamento dos assim chamados “despossuídos genéticos”, o guarda de zelosos programou-lhe, como castigo e susto preventivo, a teletransportação ora em curso, para expô-lo aos riscos do inusitado e, desse modo, aplacar-lhe o desejo do inominável.

Frederico Otávio Ribeiro jamais seria o mesmo, nem antes, nem durante, nem depois da viagem de seu alheamento.

Ao sair de casa, na manhã cinzenta deste dia, comum como outros dias, do calendário em curso – ano do senhor, 2050 –, ele não podia deixar de pensar na aventura de ter podido escapar ao controle dos zelosos e ter ido visitar na noite anterior uma colônia de excluídos nas franjas da Colina dos Remitentes.

Passara a noite com eles e embebedara-se com seus rituais e práticas, de que só tivera conhecimento pela leitura clandestina dos diários de seu avô, descobertos enterrados no jardim virtual do sítio de preservação ambiental, no clube freqüentado por sua família.

Caminhava com a sensação de algo travado nas suas relações com os planos de futuro que lhe eram ensinados a cada dia na escola vocacional de líderes, que todos, como ele, distinguidos pela seleção genética dos diretores da vida, freqüentavam na idade da consolidação de suas virtudes sociais.

Alguma coisa como que se rompera.

Um frasco de vinagre, um vinho envelhecido pela coroa de borra branca, um amargo no fundo da língua, perto da garganta, um travo de sensação – sentimento era a palavra nos escritos do avô – de que já não seria possível levar-se no presente com a mesma tranqüilidade aplastada pela certeza confiante de futuros tranqüilizadores.

Era o passado que nesse momento o diferenciava, tornando-o igual, em detalhes e em conceitos, a si mesmo, visto de fora e de dentro, em situações que, não tendo vivido de fato, no entanto, reconhecia, e nelas se reconhecia pela vivência narradora do avô no estilo despretensioso do simples registro da vida.

Essas três breves aberturas de narrativas com foco no futuro, inventadas ao acaso e como exercício para o tema de ciência e ficção, ou seja ficção científica, ou ainda ciência fictícia, têm em comum um traço que considero constitutivo do gênero: a tristeza inerente ao impossível. São tristes os heróis das utopias por duas razões fundamentais. A primeira é que vivem, no futuro narrado, a transgressão sem conseqüências (a não ser para confirmar a sua própria impossibilidade) de um presente ameaçador das histórias do passado. A segunda razão é que, sendo único, mesmo que numa alegoria, o herói vive no limite de querer realizar o que sua consciência cidadã, seu alter ego, se se quiser, diz-lhe para não ousar fazer mesmo que tenha poderes para tanto: mudar o passado, alterando o rumo da história, interferindo na série dos acontecimentos, reordenando-lhes o sentido e mesmo usurpando-os da morte.

Há coisa mais triste do que a cena em que, num dos filmes do Super-Homem, inconformado com a morte da namorada, o homem de aço, torturado pelas suas responsabilidades éticas e civis, não consegue deixar de se levar pelo amor e, fazendo a Terra girar em rotação contrária, transgride a razão por causa da mulher? E a música de Gilberto Gil que também se chama “Super-Homem”, poderia ser mais bonita e mais triste?

Tristes são os heróis das duas mais famosas utopias escritas no século XX: Admirável mundo novo, de Aldous Huxley, e 1984, de George Orwell, a primeira publicada em 1932 e a segunda, em 1949. Num caso e noutro, quer pelo controle genético, quer pelo controle político, as sociedades que nos livros se desenham são altamente controladas e artificialmente felizes. Os heróis, o selvagem, no primeiro, e Winston Smith, um programador da história no Ministério da Verdade, no segundo, vivem, a seu modo, os contrapontos da ruptura subjetiva que a ordem estabelecida provoca em cada um deles pela exposição de suas vidas e experiências ao antigo e ao novo, alternativamente, ao passado e ao presente, à memória e ao sem-memória, ao amor e ao total esquecimento.

A mais famosa utopia de que se tem notícia é a que está contida na obra de Thomas More, que imortalizou a palavra no próprio ato de sua criação. No livro Utopia, publicado pela primeira vez em 1516, a ilha do lugar nenhum, num tempo sem coordenadas, é, ao mesmo tempo, uma crítica à situação econômica da Inglaterra de seu tempo e a idealização de um Estado político que poderia ser alinhado como matriz de idéias que muito tempo depois seriam criticadas por Marx como próprias do socialismo utópico em oposição ao seu, assim chamado, socialismo científico. Sir Thomas More, como se sabe, foi um grande intelectual humanista e político, mas caiu em desgraça por recusar-se a aceitar o divórcio do rei Henrique VIII da rainha Catarina de Aragão para permitir seu casamento com Ana Bolena. Acusado de alta traição, confinado na Torre de Londres, foi executado em 1535, e posteriormente, passados mais de três séculos, em 1886, beatificado e, em seguida, já no século XX, em 1935, sob o papado de Pio XI, a quatro séculos de distância de sua morte, tornado santo pela Igreja Católica Apostólica Romana. Pode haver trajetória de maior reconhecimento e sucesso e a um só tempo de tão reconhecida tristeza e melancolia do que essa?

De maneira geral, as utopias da ficção, científica ou não, têm em comum a idealização de um sistema social sem propriedade, ou, ao menos, sem a sua perpetuidade, de modo que o estado de feliz beatitude dos “utopianos”, através dos tempos, venha, desde A república, de Platão, anunciado sobre a suposição de igualdade entre todos, a menos dos escravos, é claro, e sem os móveis materiais da ganância e das desvirtudes suas aparentadas. Basta lembrar que, na ilha de Thomas More, o ouro e a prata não têm utilidade na sociedade dos felizes, a não ser como material para confeccionar grilhões para os escravos, situação a que, como punição e castigo, são levados os prisioneiros de guerra, os adúlteros e os criminosos.

Nessa linha de desprendimento material de que faz apanágio o desapego da propriedade, a obra de Morelly, Brasiliade, de 1753, influenciada pelo trabalho de Thomas More, não só aponta a propriedade privada como o mal maior da humanidade, como considera que os meios de produção, no caso agrícolas, devem estar sob total controle do Estado, apenas tolerando-se a religião e preservando o papel fundamental da família na estrutura do tecido social.

Nessas e em outras utopias, o controle da sociedade é, como dissemos, ou político ou científico, quando não os dois a um só tempo, e muito mais raramente e mesmo nunca de política científica ou de ciência política, que são, na verdade, invenções mais recentes, uma para tentar dizer socialmente o que deve ser a ciência e outra para tentar explicar como é a política. São, de qualquer forma, menos utópicas do que os estados que projetam ou do que aqueles cujos mecanismos de funcionamento tentam expor à compreensão pública dos cidadãos que neles vivem. Utopia?

Voltando às nossas ficções, o traço de tristeza que lhes é constitutivo tem a ver com a utopia do igualitarismo social que ou apregoam, no caso das utopias clássicas e das que delas derivam, ou que desenham, com feio horror, em tons cinzentos de monótona mesmice, como é o caso de Admirável mundo novo e 1984. Num caso, pinta-se o paraíso perdido a que se quer voltar; no outro se projeta, em negativo, o paraíso que já se perdeu, sem, contudo, a consciência da perda e da própria impossibilidade de sua recuperação.

A impossibilidade de sucesso da aventura traz a tristeza do esforço desgastado da humanidade. E os heróis são tristes, as sagas são tristes, as situações de convivência são tristes porque triste é o peso incomensurável da queda e da perda mítica e definitiva do estado de graça original em que Deus, no Gênesis, pôs a mulher e o homem no Éden, deixando-os, entretanto, à sorte de sua curiosa fascinação e horror pela árvore da vida e pela árvore do conhecimento.

Os paraísos assim idealizados, qualquer que seja o sinal, positivo ou negativo, são, na verdade, infernais, ou porque se está neles ou porque se quer sair deles, ou ambas as coisas, sendo que o movimento para o futuro é quase sempre a afirmação metafórica da idealização do passado e do esforço vão de fazê-lo acontecer novamente, inutilmente.

Mesmo que pela escritura poética de grandes autores como Asimov, Arthur Clarke, Ray Bradbury, só como exemplo, nós nos convençamos e sejamos até mesmo persuadidos de que em algum ponto de cruzamento de nossos passados, individuais e coletivos, alternativas de rotas se apresentaram para outros futuros que não esses que conhecemos na realidade do presente em que vivemos.

Mas essas rotas não foram seguidas, e a escolha feita, por determinação de leis ou pelo acaso de circunstâncias, foi única, na singularidade positiva de sua afirmação e múltipla na afirmativa da negação da escolha, feita também da ausência paradigmática de todas as alternativas negadas.

No fecho do livro As cidades invisíveis, Italo Calvino enumera no atlas do Grande Khan “mapas de terras prometidas visitadas na imaginação mas ainda não descobertas ou fundadas”, e que são, na verdade, utopias desenhadas por diferentes autores, como é o caso de Thomas More, de Tommaso Campanella com sua Cidade do sol, do marquês de Sade com sua Tamoé no livro Aline e Valcourt, e de outros mais. O Grande Khan folheia seu atlas e percorre os mapas de cidades ameaçadoras, aquelas que “surgem nos pesadelos e nas maldições”: Enoch, Babilônia, Yahoo, Butua, Admirável mundo novo. No diálogo final, diz o Grande Khan: “É tudo inútil, se o último porto só pode ser a cidade infernal, que está lá no fundo e que nos suga num vórtice cada vez mais estreito”. E Polo:

O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada, exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o quê, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço.

Para onde aponta, no atlas, o diálogo de Marco Polo e o Grande Khan? E no mapa apontado, para que ilha, continente, cidade, abrigo volta-se a flecha indicativa do caminho a seguir por cada um de nós, pela sociedade, pela humanidade em trânsito? No livro de Italo Calvino, pode-se dizer que contar, narrar o invisível é mostrar, revelar o aparente, de modo que, ao falar do que não existe como geografia real, o autor nos leva a descobrir a realidade geográfica do mapeamento de nossa inserção no mundo como acidente permanente, pelo acontecimento, e como permanência incidental, pelo transcurso do acontecido.

Os futuros por que a literatura nos leva a viajar, nos vôos da ciência e da imaginação, são, no caso das boas obras de ficção científica, muito menos peças enfadonhas de futurologia e mais pousos assentados de reflexão, humor e poesia sobre a saga incontinente do homem em torno do fato, em torno do mundo, em torno do homem, em torno de si mesmo. A obra de ficção científica, ao projetar futuros, fala do presente para entender passados e, assim, apontar alternativas para futuros já irrealizáveis.

Por isso, a impossível tristeza desses futuros, como a da cena final antológica da fuga do par amoroso em Blade Runner no sobrevôo dos campos verdes e fecundos de estéril solidão.


Carlos Vogt
Ensaio com modificações e acréscimos, o resultado da fusão de artigos publicados, nos últimos anos, na revista eletrônica ComCiência.