segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Temps Mort



Time Out (ou "Temps Mort") é uma web-série apocalíptica franco-canadense de dez episódios.
Um drama silencioso e de "cinematografia gelada".

Em 2013 um cataclisma ocorre. A eletricidade falha e de repente, a neve começa a cair.

Joel deixa Montreal e encontra refúgio no campo, tendo apenas um caderno para desenhar, ele tenta agarrar-se a sua sanidade, e o que sobrou de sua humanidade...


domingo, 29 de novembro de 2009

Entrevista com Gregory Benford




Pergunta: Além de ser um escritor premiado de ficção científica, você é um cientista de considerável distinção, professor de física dos plasmas e astrofísica. Como estas duas vocações e maneiras de olhar o mundo convivem? Será que o escritor de FC em você já tentou substituir o físico no meio de um experimento, ou é o cientista que controla a imaginação do escritor?

Benford: Há uma tensão entre as duas vocações, é claro - o mundo dis fatos versus o imaginário. No entanto a ciência balança entre os dois, como ocorre no  meu livro Cosm, que se passa no meu departamento de física e no presente, eu mesclo os dois mundos de uma forma lúdica. Mas a imaginação é fundamental para a ciência, por que é de onde vem as hipóteses, para que o trabalho duro de laboratório possa então verificar. Frequentemente tenho que escolher entre a plausibilidade científica e as necessidades do enredo, quando estou escrevendo. Geralmente faço com que a ciência, pelo menos, se sobressaia. Este stress inevitável vem de uma fidelidade ao material que, por exemplo, deixa muito a desejar na mídia "sci-fi", na sua integridade e poder. O filme 2001: Uma Odisséia no Espaço foi absolutamente FC Hard em sua maior parte, mas com um clímax transcendente, metafórico. Compare isto com Mission to Mars, tentando imitar essa estratégia, com um plano de missão plausível e provável unido a diversão e um molho de sentimentalismo. O resultado é um filme que parece ter sido feito por crianças com muito dinheiro e tempo para gastar, mas sem idéias.

Pergunta: Seu novo romance, Eater, apresenta uma inteligência extraterrestre alojada dentro do campo magnético de um buraco negro ambulante. No entanto, apesar das suas qualidades divinas, prova ser limitado pelas leis da física, como nós. Você acredita que há limites para o que é possível no universo e na ficção científica?

Benford: Limites nos definem e também a nossa obra. Um soneto com 20 linhas, sem rima, pode não ser ruim, mas não é um soneto. O Eater é a coisa mais próxima que eu poderia imaginar para o Livro de Jô, do Antigo Testamento. É completamente admissível pela física, e por isso mesmo é terrível. A imortalidade também.

Pergunta: Ao final de Eater, me peguei pensando sobre o fenômeno da consciência e o quanto nós realmente entendemos sobre isso.

Benford: Minha definição favorita de consciência é bastante geral, por isso se aplica a qualquer coisa: a capacidade de modelar tanto o mundo externo quanto ao mundo interno, sendo que no conjunto, um sabe do outro. Sendo assim, você pode entender os outros e antecipar seus movimentos e necessidades. Ao longo de Eater, este entendimento é falho, como se encontrássemos uma mente diferente. Mas nem toda ideia é sem sentido.

Pergunta: Seu trabalho é muitas vezes elogiado por oferecer retratos realistas de cientistas, como se os cientistas fossem exóticos, não fossem humanos. Menos comentado, mas igualmente digno de nota, penso, é a humanidade de seus cientistas.

Benford: Eu cubro uma parte da literatura por muito tempo negligenciada, sobre uma classe de pessoas com enorme impacto na sociedade, mas ainda não explorada corretamente. Os cientistas têm uma visão oblíqua do mundo e se comunicam mal com seu público, infelizmente. E eles ainda penalizam aqueles que tentam fazê-lo; como está sendo negada a Carl Sagan a entrada ao National Academy of Sciences, uma estupidez retumbante apoiada sobretudo pelos físicos de alta-energia ... a quem satirizei em Cosm, aliás.

Pergunta: Channing Knowlton, bravamente lutando contra o câncer é uma de suas criações mais consistentes, certamente está entre os personagens mais intensamente femininos que você já escreveu. Você sente por ela uma ligação em especial?

Benford: Eu gostei muito dela, sabendo que ela estava condenada desde o começo. Mas eu senti uma forte ligação com Alicia de Cosm, uma afro-descendente atrevida. E Julia, bióloga em Martian Race, também. Estranho é que eu não tinha notado ter feito personagens femininas tão centrais à minha obra, até bem recentemente.

Pergunta: E por que você acha que o fez?

Benford: Eu sinto que as mulheres são mais interessantes dramaticamente falando, do que os homens, porque elas têm mais escolhas reais a fazer em nosso tempo. Elas devem equilibrar casamento versus profissão, ter filhos ou não, muito mais do que os homens fazem, justamente porque elas podem se mover com fluidez de uma esfera para outra. Os homens sabem que irão trabalhar durante toda sua vida, ponto.

Pergunta: Em seu romance Timescape premiado com um Nebula, você escreveu sobre as tentativas de uma realidade futura de se comunicar com o seu passado, a fim de mudar a história e evitar um desastre ecológico. O tempo foi gentil com as especulações temporais desse romance?

Benford: Mais do que eu esperava, sim. David Deutsch usou da física do livro e criou uma teoria matemática. Ele até escreveu um livro sobre isso, sem ter nunca citado Timescape ... morro de medo destas bobagens da carreira acadêmica. As idéias do romance caminham para o centro do pensamento atual sobre o tempo, e todo mundo já sabe da conversão para a teoria moderna, especialmente na escolha entre as teorias das cordas.

Pergunta: Sua série Galactic Center trata do conflito entre humanos e máquinas inteligências. Como você acha que uma máquina ou a inteligência artificial (IA) irá provavelmente surgir (se é que já não ocorreu em algum lugar no cosmos), e existe alguma razão para supor que seria hostil aos seres humanos?

Benford: Eu só assisti a uma conferência da NASA, de um dia, sobre as implicações de inteligências artificiais alienígenas. Acredito que seria uma boa aposta a longo prazo para o SETI (Programa de busca de inteligência extraterrestre) mantendo uma estratégia por buscar sinais de rádio em um raio de mais de 155 anos-luz (onde existem 1.000 estrelas do tipo do nosso sol). Mas na verdade, algumas IA poderiam ser hostis a formas orgânicas, com medo que consumíssemos os recursos da galáxia, o que realmente uma cultura de vida bem longa, iria querer fazer. Podemos parecer um perigo para eles. Eu escrevi a série Galactic Center explorando estas ideias, em seis romances, por mais de 25 anos.

Pergunta: Em toda sua ficção, o universo está repleto de vida e de inteligência. E na verdade, aqui na Terra estamos descobrindo que encontramos vida sob as condições aparentemente mais inóspitas. Você acredita que há uma força anti-entrópica trabalhando no universo para favorecer o desenvolvimento e a evolução da vida?

Benford: Eu suspeito que sim, e apoio os experimentos para testar esta idéia: Procurar vida debaixo da superfície de Marte e expandir o SETI, como disse. Chega de teorizar! Precisamos de dados concretos. Só então saberemos se as leis do universo favorecem a inteligência, como suspeito.

Pergunta: Talvez seja estranho falar das raízes de um escritor de ficção científica. No entanto, não posso deixar de sentir que a sua herança sulista tem muito a ver com Galactic Center, a luta que dizimou a humanidade em uma gloriosa "causa perdida", contra adversários numericamente e tecnologicamente superiores.

Benford: É uma boa percepção. Eu escrevi recentemente um ensaio, "O Sul na Ficção Científica," e a propósito eu devo publicar no meu site, em  breve, eu espero. A família Bishop da série Galactic Center, vem dos meus primos, os Bishops, e eles falam com sotaque do sul, típico de Birmingham, Alabama, onde eu cresci

Pergunta: Que escritores e cientistas mais o influenciaram?

Benford: Oh Jesus... Hemingway e Heinlein, Faulkner e Forward... muitos. Dyson e Einstein, Minsky e Fermi (o último grande físico a trabalhar tanto na experiência quanto na teoria, como eu mesmo procuro fazer). Muitos.

Pergunta: Entre os seus romances qual é o seu favorito?
Benford: Against Infinity... o mais fácil de escrever também. Uma escolha estranha, eu sei.

Pergunta: O que você pode nos dizer sobre o filme que está sendo feito a partir de Cosm?

Benford: Está parado no Departamento de Desenvolvimento do Inferno da Fox: Jan de Bont será o diretor e estão em acordos para ter Dustin Hoffman e Angela Bassett. Estão á procura de um grande roteirista para fazer um trabalho melhor do que o último fez. Lembre-se que, menos de dez por cento de todos os projetos comprados por Hollywood, são lançados.

Pergunta: Vou resistir à tentação de perguntar sobre a busca de vida inteligente em Hollywood e ao invés disso vou te perguntar sobre este novo século. Será que a nossa espécie sobreviverá às suas maravilhas e seus perigos?

Benford: Claro, com facilidade. Somos maus, estúpidos, feios e aterrorizamos todas as outras espécies no planeta, mas somos difíceis de matar.

Entrevista concedida a Paul Witcover - Science Fiction Weekly

Gregory Benford



Gregory Benford (30 de Janeiro de 1941) nasceu em Mobile, Alabama (EUA) e é atualmente, um dos poucos expoentes da FC hard atual.

Herdeiro do trono de Heinlein, Clarke e Asimov... o que não é surpreendente, considerando que ele também é um físico teórico e experimental. O que pode ser mais surpreendente é que Benford também é um dos melhores escritores em ação de qualquer gênero.

Físico, professor e escritor, Benford trabalha na pesquisa de plasma e experimentos em astrofíica. Como cientista, publicou mais de duzentos trabalhos sobre a fisica de matéria condensada, de particulas e outros estudos biológicos.

Trabalhou como consultor para o Departamento de Energia, para a NASA e para o Conselho de politica espacial da Casa Branca, além de ter sido conselheiro científico para Star Trek: The Next Generation e da televisão japonesa NHK.

Recebeu em 1995 o prêmio Lord Foundation por sua contribuição para a popularização da Ciência.

Em 1989 apresentou e escreveu uma série de seis episódios para televisão chamada A Galactic Odyssey, abordando temas como física moderna e astronomia, pela perspectiva da evolução da galáxia.. 

Como escritor de FC Hard, escreveu mais de vinte e cinco livros, incluindo Jupiter Project, Artifact, Against Infinity, Eater e Timescape. Por duas vezes vencedor do Prêmio Nebula, do John W. Campbell Award e do australiano Ditmar Award, além do prêmio das Nações Unidas de Literatura.

Ele é mais conhecido pela série Galactic Center, uma das sagas mais ambiciosas e fascinantes em todos os tempos da ficção científica. Um épico sobre uma civilização de máquinas inteligentes trabalhando metodicamente para exterminar uma espécie de vermes que chama a si própria de Humanidade. Um filme está sendo produzido pela Fox, a partir da série.

Gregory Benford ( Hitler Victorioso, Alto abismo, Cosmo, Cronopaisaje, El temor de la Fundacion, En carne extranã, La caida del viento oeste, La pulsacion, série Centro Galactico, Sudário de estrellas, Imersion, A hiss of dragon, A Hunger of Infinity, Antartica and Mars, Around the curves of a Cosmos, Against Infinity, A worm in the well, Beyond Infinity, Beyond the fall of night, Biotech and nanodreams, Bow Shock, Brink, Cosm, Deeper than the darkness, Doing alien, Doing Lennon, Eater, Foundations fear, Fourth dimension, Humanity as cancer, If the stars are Gods(com Gordon Eklund), In the ocean of night, Is it smart to be smart, Manassas again, Matter's end, On the brane, Paris conquers all, Send meaning across epochs, Shakers of the Earth, Skylife, Slow symphonies of Mass and Time, Solitude, Teeth of time, Ten thousand years of solitude, The far future, The fire this time, The first of commandment, The long future, The man Who wasn't there, The sunborn, The voice, The worm turns, Tides of light, Timescape, We could do worse, White creatures, Zoomers, What might have been (com Martin H.Greenberg) ) [ Download ]

sábado, 28 de novembro de 2009

Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 5


CAPÍTULO 5
Este capítulo é dedicado ao Secret Headquarters em Los Angeles, minha loja favorita de quadrinhos
É pequena e seletiva quanto ao que vende, e cada vez que eu entro nela, saio com três ou quatro coleções debaixo do braço, sobre as quais nunca tinha antes ouvido falar. É como se seus proprietários, Dave e David, tivessem a espantosa habilidade de predizer com exatidão, aquilo que estou procurando, e já separassem para mim segundos antes de entrar na loja. Três quartos dos meus quadrinhos preferidos eu descobri no SHQ, agarrado por algo interessante, mergulhado em um daquelas poltronas aconchegantes, e sendo transportado para outro mundo. Quando minha segunda coletânea foi lançada, Overclocked, eles fizeram junto com um ilustrador local, Martin Cenreda, uma mini-revista em quadrinhos gratuita baseada em Printcrime , o primeiro conto do livro. Deixei Los Angeles há um ano e de todas as coisas de que sinto falta, Secret Headquarters está no topo da lista.

Secret Headquarters: 3817 W. Sunset Boulevard, Los Angeles, CA 90026 +1 323 666 2228


Mas era Van e ela estava chorando e me abraçando tão forte que não conseguia respirar. Não me importava. Abracei-a, minha cabeça afundando em seus cabelos.
“Você está bem!” ela disse.
“Estou!”
Ela finalmente me largou e outro par de braços me envolveu. Era Jolu! Ambos estavam aqui! Ele sussurrou: “Você está salvo, mano!” em meu ouvido e me apertou mais do que Vanessa tinha apertado.
Quando me soltou, olhei a volta e perguntei: “Cadê Darryl?”
Eles se olharam.”Talvez ainda esteja no caminhão.” disse Jolu.
Nos viramos para olhar o caminhão no fim da rua. Era um 18 rodas branco sem identificação. Alguém já havia guardado a escada. As luzes traseiras acesas em vermelho e o caminhão veio d ré, emitindo um som de alerta ‘beep,eep,eep’.
“Esperem!” Gritei enquanto ele acelerava. “Esperem! Cadê Darryl?” O caminhão manobrou próximo. Eu continuava gritando “Cadê o Darryl?”

Jolu e Vanessa cada qual haviam segurado um dos meus braços e me arrastavam para longe. Eu lutei contra eles, gritando. O caminhão chegou à beirada da rua e voltou, apontando para frente e partiu. Tentei correr atrás dele, mas Van e Jolu não me deixaram.

Sentei na calçada, abracei as pernas com os braços e chorei. Chorei, chorei e chorei, uma choradeira baixa do tipo que eu não tinha desde criança. Sem fim. E eu não parava de tremer.
Vanessa e Jolu me ajudaram a ficar de pé e me levaram pela rua. Havia uma parada de ônibus municipal com banco e sentamos nele. Eles também choravam, e nós ficamos por algum tempo abraçados uns nos outros, e eu sabia que chorávamos por Darryl, a quem nenhum de nós esperava voltar a ver.

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Estávamos ao norte de Chinatown, onde começa North Beach, uma vizinhança cheia de clubes de strip-tease e seus neons e o legendário City Lights, uma livraria da contra-cultura, onde o movimento dos poetas beat foi fundado nos anos 50. Eu conhecia bem esta parte da cidade. O restaurante italiano favorito dos meus pais ficava ali e eles gostavam de me trazer para comer grandes pratos de linguini e imensas montanhas de sorvete italiano com figos cristalizados e aqueles pequenos expressos para concluir.
Agora era um lugar diferente, um lugar onde eu experimentei a liberdade pela primeira vez no que parecia ter sido uma eternidade.

Verificamos os bolsos e encontramos dinheiro suficiente para conseguir uma mesa em um daqueles restaurantes italianos, do lado de fora na calçada, sob um toldo. A bela garçonete acendeu um aquecedor a gás com seu isqueiro de acender churrasco, pegou nossos pedidos e sumiu do lado de dentro. A sensação de fazer um pedido, de controlar meu destino, foi a coisa mais maravilhosa que jamais senti.
“Quanto tempo estivemos por lá?” eu perguntei.
“Seis dias.” disse Vanessa.
“Eu acho que foram cinco.” disse Jolu.
“Eu não contei.”
“O que fizeram com você?” perguntou Vanessa. Eu não queria falar sobre isso, mas ambos olhavam para mim. Uma vez que eu começasse não conseguiria parar. Eu contei tudo a eles, mesmo quando fui forçado a urinar em mim mesmo e eles ouviram tudo em silêncio. Parei quando a garçonete entregou nossos refrigerantes e esperamos até ela ficar fora do alcance. Ao fim do relato, eu não conseguia dizer se eu estava enfeitando a verdade ou se eu estava fazendo parecer que não fora tão ruim. Minhas memórias flutuavam como pequenos peixes que eu agarrava e que por vezes fugiam do meu alcance.

Jolu balançou a cabeça. “Pegaram pesado com você, camarada.”disse. Ele falou sobre a sua estada lá. Eles tinham perguntado sobre mim e ele continuava dizendo a eles a verdade, preso a um plano de dizer os fatos sobre aquele dia e sobre nossa amizade. Eles o pegaram para repetir de novo e de novo, mas não brincaram de jogos com sua mente da maneira que fizeram comigo. Ele comia suas refeições numa cantina com outras pessoas e passou um tempo numa sala com TV onde passava os maiores sucessos em vídeo do último ano.
A história de Vanessa era levemente diferente. Depois de tê-los deixado bravos por falar comigo, eles tiraram suas roupas e a fizeram vestir aquele conjunto cor de laranja da prisão. Foi deixada na cela por dois dias sem contato, contudo era alimentada com regularidade. Mas no resto fora como Jolu: as mesmas perguntas sobre mim, de novo e de novo.

“Eles realmente te odiavam” disse Jolu. “A coisa realmente era contigo. Por quê?”
Eu não conseguia imaginar porquê. Então eu lembrei.
“Você pode cooperar ou pode se arrepender, muito.”
“Foi por que eu não quis desbloquear meu telefone para eles na primeira noite. Foi por isso que pegaram no meu pé.”

Eu não conseguia acreditar nisso, mas não havia outra explicação. Tinha sido por pura vingança. Minha cabeça revirava com isso. Tinham feito isso como simples punição porque eu desafiei  a sua autoridade.
Eu tinha sentido medo. Agora estava furioso. “Filhos da mãe” eu disse bem devagar. “Eles fizeram isso para que eu falasse.”

Jolu amaldiçoou e então Vanessa xingou em coreano, algo que ela só fazia quando estava realmente muito, mas muito irritada.
“Eles vão ver!” Sussurrei segurando meu refrigerante. “Eles vão ver!”
Jolu sacudiu a cabeça. “Você não pode fazer nada, você sabe. Não dá pra lutar contra isso.”

#

Nenhum de nós queria falar sobre revanche. Ao invés disso, nós falamos sobre o que fazer em seguida. Precisávamos ir para casa. As baterias dos nossos telefones estavam descarregadas e fazia muitos anos que aquela vizinhança não tinha mais telefones de rua. Tínhamos que ir para casa. Até pensei em chamar um táxi, mas não tínhamos dinheiro suficiente para isso.
Então nós fomos a pé. Na esquina usamos nossas moedas de quinze centavos numa máquina do São Francisco Chronicle e paramos para ler as manchetes. Cinco dias se passaram desde a explosão das bombas, mas esta ainda era a matéria de capa.

A mulher de corte de cabelo militar havia falado algo sobre “a ponte” ter sido explodida e eu deduzi que ela falava da ponte Golden Gate, mas eu estava errado. Os terroristas haviam explodido a Bay Bridge.
“Por que eles foram explodir a ponte da baía?” Eu disse. “A Golden Gate está em todos os cartões postais.”

Mesmo se você nunca esteve em São Francisco, provavelmente já viu alguma vez aquela enorme ponte laranja suspensa que vai da antiga base militar chamada Presídio até Sausalito, onde todas estão aquelas encantadoras cidadezinhas produtoras de vinho, suas lojinhas de velas perfumadas e galerias de arte. É tão pitoresco e é praticamente o símbolo do estado da Califórnia. Se você for ao Disneyland California Adventure Park existe uma réplica dela logo após os portões, atravessada por um trem sob monotrilhos.
Então, naturalmente eu pensei que se você vai explodir uma ponte em São Francisco, esta seria a escolhida.
“Eles  provavelmente ficaram com medo das câmeras e tudo aquilo” disse Jolu. “A Guarda Nacional vive examinando os carros nas entradas e saídas e existem todas aquelas cercas contra suicidas e para evitar que se jogue lixo ao longo dela.”
As pessoas pulavam da Golden Gate desde de que ela foi aberta em 1937 -  e pararam de contar após a milésima morte em 1995.

“É! Além disso, a Bay Bridge hoje em dia leva para toda parte.” A ponte da baía liga o centro de São Francisco a Oakland e Berkeley, os distritos do leste, lar de muitas pessoas que vivem e trabalham na cidade. É um dos únicos lugares da área da baía onde uma pessoa normal consegue uma casa boa o bastante, e há a universidade e várias pequenas indústrias por lá. O metrô atravessa a baía por baixo e conecta as duas cidades também, mas É a Bay Bridge quem é responsável pela maior parte do trânsito. A Golden Gate era uma bela ponte se você é um turista ou um rico aposentado vivendo numa destas cidades do vinho, mas é praticamente ornamental. A Bay Bridge é - era - “a ponte” de São Francisco.
Pensei sobre aquilo por um minuto. “Vocês estão certos” disse. “Mas eu não acho que isso é tudo. Nós pensamos que os terroristas atacam estes pontos conhecidos por que os odeiam, terroristas não odeiam pontos turísticos, ou pontes, ou aeroportos. Eles querem ferrar com tudo e assustar o povo. Espalhar o medo. Então é claro que foram atrás da Bay Bridge, pois a Golden Gate tem todas aquelas câmeras - assim como aeroportos tem todos aqueles detectores de metal e aparelhos de raios-x.”

Pensei um pouco mais, olhando sem ver os carros passando pela rua, as pessoas que caminhavam pelas calçadas e a cidade à minha volta. “Terroristas não odeiam aeroportos ou pontes. Eles amam o terror.” Isso era tão óbvio que eu não acreditava não ter pensado isso antes. Imaginei que ser tratado como um terrorista por alguns dias foi o bastante para clarear minha mente.

Os outros me olhavam. “Não tô certo? Toda esta porcaria, todos os aparelhos de raio-x e verificação de identidades, tudo não serve pra nada, não é?”
Eles concordaram lentamente.
“Pior do que não servir para nada” disse com a voz alterada. ‘porque no final nós é que acabamos na prisão, e Darryl...” Eu não pensava em Daryl desde que me acalmara e agora isso voltava, meu amigo, perdido, desaparecido. Parei de falar e cerrei os dentes.
“Temos de contar aos nossos pais.” disse Jolu.
“Nós devíamos procurar um advogado.” disse Vanessa.

Pensei em contar minha história. De como o mundo se transformara para mim. Sobre os vídeos que sem dúvida seriam feitos, sobre mim, chorando e reduzido a um animal humilhado.
“Não podemos dizer nada.” eu disse sem pensar.
“O quê?” disse Van.
“Não podemos dizer nada para eles”, repeti. “Você a ouviu. Se falarmos, eles virão atrás de nós. Farão conosco aquilo que fizeram com Darryl.”
“Tá brincando” disse Jolu “Você quer que nós...”
“Vamos dar o troco.” eu disse. “Quero ficar livre para poder fazer isso. Se sairmos falando por aí, eles irão dizer que somos crianças, que estamos inventando coisas. Nós nem sabemos onde estivemos presos. Ninguém vai acreditar nisso. Aí, um dia, eles virão nos pegar.”
“Vou dizer aos meus pais que eu estava do outro lado da baía. Eu fui encontrar vocês lá e ficamos sem ter como voltar e só pudemos voltar hoje. Eles estão dizendo nos jornais que algumas pessoas ainda estão sem ter como voltar para casa.”
“Eu não posso fazer isso.” disse Vanessa. “Depois de tudo que fizeram com você, como pode sequer pensar em fazer isso?”
“Aconteceu comigo, esta é a questão. Isso é entre eu e eles. Vou atrás deles. Vou atrás de Darryl, não vou denunciar esta mentira. Mas uma vez que nossos pais entrem nessa história, isso é conosco. Ninguém vai acreditar na gente e ninguém vai se importar. Se fizermos do meu jeito, as pessoas vão prestar atenção.”
“Qual é o seu jeito?” disse Jolu. “Qual é o seu plano?”
“Ainda não sei.” Admiti. “Esperem até amanhã de manhã, ao menos.” Eu sabia que uma vez que concordassem em manter segredo por um dia, o fariam para sempre. Nossos pais ficariam ainda mais céticos se nós de repente “lembrássemos” que fomos mantidos prisioneiros em uma prisão secreta ao invés de estarmos aos cuidados de um campo de refugiados.
Van e Jolu se olharam.
“Só estou pedindo uma chance. Nós vamos pensar na história no caminho para ficar tudo certo. Me dêem um dia, só um dia.”

Os outros dois concordaram mal humorados e voltamos a caminhar na direção dos nossos lares. Eu morava em Potrero Hill, Vanessa em North Missão e Jolu em Noe Valley - eram vizinhanças bem diferentes a poucos minutos de caminhada umas das outras.

Viramos na rua do Mercado e paramos. A rua tinha barricadas em cada esquina, as pistas foram reduzidas a uma única pista e, estacionados por toda a extensão da rua, estavam aqueles enormes e sem nada escrito, caminhões de 18 rodas, como aquele que nos havia transportado, encapuzados, das docas até Chinatown.
Cada um deles tinha nas traseiras as escadas de metal e os degraus colocados para fora e havia uma atividade frenética por parte de soldados e pessoas vestidas com ternos e policiais saindo e entrando deles.
Nas roupas traziam pequenas insígnias nas lapelas e os soldados as escaneavam assim que entravam e saiam - crachás de autorização sem-fio. Assim que passamos por um deles, dei uma olhada e vi um logotipo familiar. Departamento de Segurança Estadual. O soldado me viu parado olhando e me olhou de volta, fixo e duro.
Entendi a mensagem e voltei a andar. Me separei da gangue na Van Ness. Nos abraçamos, choramos e prometemos nos falar.

Para chegar a Potrero Hill havia um caminho fácil e um difícil: o último levava você pelas  ladeiras mais escarpadas da cidade, o tipo que você vê em filmes de ação, de perseguição de carros. Eu sempre escolhia o caminho mais difícil. Eram ruas residenciais e velhas casas estilo vitoriano chamadas “madames maquiadas” por serem gritantes com aquele tipo de pintura elaborada e de jardins frontais com flores e grama alta. Os gatos da casa te vigiando das cercas vivas e quase nenhum mendigo por perto.

Eram tão quietas que me faziam desejar ter escolhido o outro caminho, através da Missão, que era... “áspero” é a provavelmente a melhor palavra. Alto e vibrante. Um monte de brutamontes bêbados e brigões e viciados inconscientes e também famílias com carrinhos de criança, velhas fofocando nas varandas, vagabundos com seus carros turbinados fazendo palhaçadas pelas ruas. Todo tipo de moderninhos, os estudantes de arte deprimidos e até alguns punks e roqueiros das antigas, velhos barrigudos com suas camisas dos Dead Kennedys. Também drag queens, garotos de gangs violentas, artistas grafiteiros e alguns burgueses bem de vida estupefatos tentando não ser mortos enquanto protegiam seus investimentos.

Fui até Goat Hill e passei pela Goat Hill Pizza, o que me fez lembrar da cela em que estive preso, e precisei me sentar um pouco na cerca em frente ao restaurante até que meus tremores parassem. Então percebi o caminhão na ladeira a minha frente, um 18 rodas sem qualquer coisa escrita, com aquela escadinha de três degraus saindo da traseira. Comecei a andar. Sentia olhos me observando vindos de todas as direções.
Acelerei pelo resto do caminho. Já não olhava as damas maquiadas, os jardins ou os gatos caseiros. Mantinha os olhos baixos.
Ambos os carros de meus pais estavam na calçada, mesmo sendo já metade do dia. É claro, papai, que trabalhava em East Bay estava em casa enquanto eles davam um jeito na ponte. Mamãe... bem, quem sabe o motivo dela ela estar em casa?
Eles estavam em casa por minha causa.

Antes que acabasse de abrir a porta, ela foi puxada da minha mão e aberta por completo. Lá estavam meus pais, pareciam pálidos e cansados, me olhando com os olhos arregalados. Ficamos paralisados nos olhando por um momento, então ambos se atiraram na minha direção e me puxaram para dentro, quase me partindo em pedaços. Falavam tão alto e rápido que o que eu ouvia era algo incompreensível e me abraçaram e choraram e eu chorei também e ficamos ali no pequeno hall de entrada, chorando e pronunciando quase-palavras até a emoção passar e irmos para a cozinha.

Fiz o que sempre faço quando chego em casa, pego um copo de água do filtro da geladeira e alguns biscoitos do pote de biscoitos que a irmã de minha mãe havia nos mandado da Inglaterra. A normalidade daquele ato fez meu coração parar de martelar, tranqüilizando cabeça e coração e logo estávamos todos sentados à mesa.
‘Onde esteve?’ ambos disseram mais ou menos em uníssono.
Eu já tinha pensado na resposta a caminho de casa. “Fiquei preso em Oakland. Estava lá com meus amigos, trabalhando num projeto, e tivemos que ficar em quarentena.”
“Por cinco dias?”
“Sim. Foi muito ruim.” Eu tinha lido sobre as quarentenas no Chronicle e roubei sem vergonha o que eles publicaram. “Sim. Todos que ficaram expostos à nuvem ficaram em quarentena. Eles achavam que pudéssemos ter sido infectados por algum tipo de super-praga e nos trancaram em containers nas docas, como sardinhas. Era quente e fedorento. Não tinha muita comida também.”
“Cristo!” disse papai, seus punhos socando a mesa. Papai ensinava em Berkeley três dias na semana, trabalhando em um projeto da biblioteca de ciências, com alguns alunos graduados.No resto do tempo prestava consultoria para clientes no centro e na Península, dotcoms de terceira geração que faziam várias coisas com arquivos. Ele era um bibliotecário bem estabelecido por profissão, mas havia sido um militante radical nos anos 60 e lutara um pouco no ginásio. Já tinha visto ele ficar bravo mais de uma vez, eu já o tinha feito ficar bravo mais de uma vez - e ele podia ficar seriamente transtornado quando Hulkficava. Uma vez ele atirara um balanço da Ikea  do outro lado do quintal de meu avô depois dele ter-se partido pela qüinquagésima vez enquanto o montava. “Bárbaros”, minha mãe disse. Ela vivia na América desde a adolescência, mas ainda era britânica quando se tratava de policiais Americanos, seguro saúde, segurança de aeroportos ou  falta de moradia. Então a palavra “bárbaros” vinha carregada de sotaque. Havíamos estado em Londres por duas vezes para visitar a sua família e eu não conseguia dizer se era mais civilizada do que São Francisco, apenas mais inibidos.
“Mas eles nos deixaram ir e pegamos um barco hoje” Eu estava improvisando.
“Você está machucado? Está com fome?” Perguntou mamãe.
“Com sono?”
‘Sim, um pouco de tudo isso. E também Soneca, Mestre, Espirro e Dengoso.” Nós tínhamos uma tradição de piadas com os sete anões. Eles sorriram um pouco, mas seus olhos ainda estavam úmidos. Me senti mal por eles. Eles deveriam ter quase pirado de preocupação. Eu fiquei feliz com a chance de mudar de assunto. “Estou faminto.”
“Vou pedir uma pizza da Goat Hill”, disse papai.
“Não, essa não!” Eu disse. Eles me olharam como se eu tivesse antenas. Eu sempre gostara da Goat Hill Pizza - e podia comê-la como um peixinho dourado come sua comida, devorando até acabar ou eu explodir.

Tentei sorrir. “Não estou com vontade de pizza” disse, “Vamos pedir curry, ok?”. Graças a Deus por São Francisco ser um paraíso da comida por telefone. 

Mamãe foi até a prateleira onde ficavam os menus de entrega a domicílio (mais normalidade, como um copo d’água para uma garganta sedenta e seca) e folheou alguns deles. Passamos alguns minutos distraídos pelo menu do restaurante paquistanês de Valencia. Me decidi por um grelhado misto e espinafre com queijo da fazenda, um mango lassi salgado (melhor do que parece ser) e pedaços de massa frita em melado.

Uma vez que pedimos a comida, as perguntas começaram novamente. Eles tinham ouvido das famílias de Van, Jolu e Darryl (é claro) sobre nosso desaparecimento. A polícia pegara nossos nomes, mas havia tantas pessoas desaparecidas de seus lares que eles não iriam abrir inquérito a não ser que continuassem desaparecidas após sete dias.

Enquanto isso, milhões de sites com “você-viu-esta-pessoa” surgiram na rede. Alguns eram clones do MySpace que viram uma oportunidade de faturar e voltar à vida. Além do mais, alguns haviam perdido família na área da baía. Talvez, se eles se recuperassem, o site atrairia novos investidores. Peguei o laptop de papai e passeei por eles. Estavam repletos de comunicados, é claro, fotos de pessoas desaparecidas, a maioria fotos escolares, fotos de casamento e todo tipo de coisa.  Era um pouco detestável.
Encontrei minha foto e vi que havia um link para Van, Jolu e Darryl. Havia um formulariozinho pra se marcar se estas pessoas tivessem sido encontradas e outro para escrever sobre os desaparecidos. Preenchi o meu, de Van e Jolu, deixando o de Darryl em branco.
“Você se esqueceu de Darryl.” disse papai. Ele não gostava muito de Darryl - uma vez ele percebeu que alguns dedos faltavam nas garrafas do armário de bebidas e para minha vergonha eterna, culpei Darryl. A verdade, claro, tínhamos sido nós dois, apenas de brincadeira, misturando coca-cola com vodca, durante uma sessão noturna de games.
“Ele não estava com a gente” eu disse. A mentira amargou na boca.
“Oh, meu Deus!” mamãe disse. Apertou as mãos juntas. “Quando você chegou nós pensamos que estavam todos juntos.”
“Não” disse e a mentira crescia. “Não, ele tinha que nos encontrar mas nunca chegou. Provavelmente ficou preso em Berkeley. Ele ia pegar o metrô.”

Mamãe suspirou. Papai balançou a cabeça e fechou os olhos. “Você não sabe do metrô?” ele perguntou.
Fiz que não com a cabeça. Eu sabia onde isso ia acabar. Sentia o chão ruindo debaixo de mim.
“Eles o explodiram.” disse papai. “Aqueles bastardos o explodiram ao mesmo tempo da ponte.”
Aquilo não estava na capa do Chronicle, o metrô sendo explodido sob a água não era uma imagem nem de perto tão pitoresca quanto os restos da ponte e pedaços espalhados pela baía. O túnel do metrô que ia de Embarcadero, em São Francisco, até a estação de West Oakland ficara submerso.

#

Voltei ao computador de papai para ler as manchetes. Ninguém tinha certeza, mas a contagem de corpos passava de mil. Entre os carros que mergulharam 58 metros para dentro do mar e as pessoas afogadas nos trens, as mortes aumentavam. Um repórter dizia ter investigado um falsificador de identidades que teria ajudado dezenas de pessoas a saírem de suas antigas vidas simplesmente dando a elas novas identidades, após os ataques, com isso escapando de péssimos casamentos, dívidas e de vidas ruins.
Papai tinha lágrimas nos olhos e mamãe não escondia o choro. Eles me abraçaram novamente, me dando
tapinhas com as mãos como se quisessem se assegurar que eu estava realmente ali. Continuaram falando que me amavam e eu respondi que os amava também.

Tivemos um jantar lacrimejante e eles tomaram cada qual um copo de vinho, o que era muito para eles. Eu disse que estava com sono, o que era verdade, e segui para meu quarto. Eu não iria para a cama, contudo, precisava entrar online e procurar por uma coisa. Precisava falar com Jolu e Vanessa. Precisava começar a trabalhar para achar Darryl.

Rastejei até o quarto e abri a porta. Parecia que fazia milhares de anos que não via minha velha cama. Deitei-me nela e esticando até a cabeceira para pegar meu laptop. Eu não o tinha ligado - eu precisava do adaptador - então ele havia lentamente descarregado enquanto estava fora. Pluguei-o e dei um minuto ou dois para a carga aumentar antes de ligá-lo  de novo. Neste tempo, me despi e atirei as roupas no cesto de lixo - não queria vê-las nunca mais - e pus roupas limpas. Roupas vindas da lavanderia, familiares e confortáveis, como um abraço dos pais.

Liguei o laptop e coloquei alguns travesseiros entre eu e cabeceira. Encostei as costas contra eles e o abri e o ajeitei sobre minhas coxas. Enquanto estava inicializando, e, cara, os ícones surgindo na tela pareciam muito bem. Então ele começou a me dar alertas de carga baixa. Chequei o cabo de força de novo e o balancei e ele saiu do lugar. O plug estava realmente frouxo.
De fato, estava tão mal que não conseguia fazer coisa alguma. Toda vez que tirava a mão dele, o contato se perdia e o computador passava a reclamar da bateria. Fui dar uma olhada melhor.
O que acontecia era que o envoltório do computador estava todo desalinhado, um ângulo da fenda ficava uma brecha e então começava estreitar para a traseira.
Às vezes você olha para uma coisa e descobre algo assim e pensa ‘Sempre foi desse jeito?’ Talvez você só nunca tenha reparado.
Mas com o meu laptop isso não era possível. Afinal, eu o montei. Depois que o Comitê Educacional mandara fazer computadores escolares para todos, não tinha como meus pais me comprarem um só para mim, mesmo que, tecnicamente, o computador escolar não me pertencesse e eu não tivesse permissão para instalar nele as modificações ou softwares que quisesse.
Eu tinha algum dinheiro guardado - de trabalhos esquisitos, de Natais e aniversários, de vendas que fiz pelo Ebay. Juntando tudo eu podia comprar uma máquina velha de cinco anos.
Então, ao invés disso, eu e Darryl construímos um. Você pode comprar gabinete para laptop como se compra um para desktop PC. Eu já tinha comprado alguns PCs com Darryl durante anos e arrematado algumas partes de classificados e vendas de garagem e comprado outras bem barato mesmo de vendedores de Taiwan que encontramos na rede. Achava que construir um laptop seria a melhor maneira de ter o que eu queria por um preço em conta.

Para construir seu próprio laptop você começa comprando um ‘barebone’ - uma máquina com pouco hardware e todos os slots. A boa notícia era que, uma vez que eu a fizesse, eu teria uma máquina mais leve do que qualquer Dell onde tivesse colocado os olhos, rápida e custando um terço do que eu pagaria por uma. A má noticia era que fazer um laptop era como um destes barcos feitos dentro de garrafas. É um trabalho meticuloso e delicado, de pinças e óculos de aumento, tentando colocar tudo junto em um pequeno espaço. Diferente de um PC - onde o que mais existe dentro é ar - cada centímetro cúbico de espaço de um laptop tem seu valor. Toda vê que achava ter conseguido colocar tudo nos lugares, tinha que abrir de novo para ver por que não fechava direito e voltava para a mesa de desenhos.

Então eu sabia exatamente como meu laptop deveria parecer quando fechado e não seria daquele jeito. Continuei insistindo com o cabo de força, mas não teve jeito. Não havia jeito de fazer a coisa funcionar. Xinguei e coloquei-o ao lado da cama. De manhã eu daria um jeito.

#

Esta era a teoria. Duas horas depois eu ainda olhava para o teto, com filmes passando na minha cabeça do que eles haviam feito comigo, o que eu devia ter feito, lamentos e esprit d'escalier.
Eu rolava pela cama. Passava de meia-noite e ouvi meus pais irem dormir às onze. Agarrei o laptop e arranjei espaço sobre a mesa e liguei as minúsculos leds dos meus óculos de aumento e abri o estojinho com as ferramentas de precisão. Um minuto depois já havia retirado a tampa e removido o teclado e estava olhando para as entranhas do meu laptop. Peguei um spray de ar comprimido para limpar a poeira que o ventilador jogara para dentro.

Algo não estava certo. Não conseguia saber o quê, mas fazia meses que eu tinha retirado a tampa desta coisa. Por sorte, apenas três vezes  eu o abrira e brigara para fechá-lo de novo; eu tinha ficado esperto e tirado uma foto do interior, com tudo em seu lugar. Mas não totalmente esperto, pois deixara a foto no disco rígido e naturalmente não podia vê-la com o laptop reduzido à suas partes. Então eu imprimi a foto e guardei no meio da confusão dos papéis na gaveta, meu buraco na árvore morta do cemitério, onde guardo as garantias das peças e meus diagramas de pinagem. Remexi a papelada - que parecia mais embaralhada do que eu me lembrava - e achei a foto. Coloquei-a ao lado do computador e fiquei olhando as duas ao mesmo tempo, tentando achar o que estava fora de lugar.

Achei. O cabo chato que conectava o teclado a placa lógica não estava conectado corretamente. Isso era estranho. Não havia nada que pudesse tê-lo deslocado numa utilização normal. Tentei pressioná-lo e descobri que o plug não estava somente mal montado - havia algo entre o teclado e a placa. Coloquei as luzes no local. Havia algo novo no meu teclado. Uma pecinha de hardware, mínima, sem qualquer marca. O teclado estava conectado nela e ela então plugada na placa. Em outras palavras, perfeitamente situada para capturar tudo que eu teclasse na minha máquina.
Era um grampo.

Meu coração disparou nos ouvidos. Estava escuro e quieto na casa, mas não era uma escuridão confortável. Havia olhos do lado de fora, olhos e ouvidos, e eles me observavam. Me vigiavam. A vigilância que eu conhecia da escola havia me seguido para dentro de casa, mas desta vez não se tratava somente do Comitê Estudantil olhando por cima do meu ombro, mas o Departamento de Segurança do Estado que havia se juntado a ele.

Quase arranquei o grampo. Então me dei conta de que aquele que o havia colocado lá saberia que ele foi tirado. Deixei-o. Isso me fazia doente.
Olhei em minha volta, procurando por mais escutas. Não achei nenhuma, mas isso significava que elas não estavam lá? Alguém havia invadido meu quarto e plantado este dispositivo - tinha aberto e depois fechado meu laptop. Havia muitas outras formas de se colocar grampear um computador. Eu nunca conseguiria encontrar todas elas.

Fechei o computador com dedos adormecidos. Desta vez, a tampa fechou direito, o cabo de força ficou dentro. Inicializei o computador e coloquei os dedos no teclado, pensando em executar alguns programas de diagnóstico que diriam o que estava acontecendo.
Mas não consegui.
Inferno, talvez meu quarto estivesse com escutas. Talvez uma câmera me espionasse agora mesmo.
Comecei a ficar paranóico em minha própria casa. Sentia como se estivesse de volta à cela, de volta à sala de interrogatório, preso pelo rabo por entidades que me tinham totalmente em seu poder. Aquilo me fez querer chorar.

Fui ao banheiro e arranquei o rolo de papel higiênico e coloquei um novo em seu lugar. Por sorte estava quase vazio, acabei por desenrolar o resto dele e fucei na caixa de peças até achar um pequeno envelope plástico cheio de leds brancos que eu tinha arrancado do farol para bicicleta quebrado. Usando um estilete fiz os furos no tubo de papelão e enfiei os leds, então arranjei fios e liguei-os em serie prendendo com clipes de metal. Rosqueei os fios nos conectores de uma bateria de nove volts. Agora eu tinha um tubo direcional com ultra-brilhantes leds e podia colocá-lo perto do olho e olhar através dele.
Eu tinha construído um destes no último ano, para um projeto de ciências e jogado fora depois uma vez que demonstrara que existiam câmeras escondidas em metade das salas de aula da Chávez High. Micro-câmeras de vídeo custam menos que uma refeição em um bom restaurante hoje em dia, então elas estavam por toda parte. Balconistas de loja abelhudos as colocam nas cabines de troca de roupa ou salões de bronzeamento e fazem filmes pervertidos de seus clientes - algumas vezes até colocam na rede. Saber como se transforma um rolo de papel higiênico e algumas peças baratas em um detector de câmeras vale muito a pena.
Esta é a maneira mais simples de encontrar uma câmera espiã. Elas possuem lentes pequeninas, mas que refletem a luz pra diabo. Funciona melhor numa sala na penumbra: olhe pelo tubo e lentamente escaneie todas as paredes e outros lugares onde poderiam colocar uma câmera até ver algo cintilante como um reflexo. Se o reflexo permanece enquanto você se move, são lentes.
Não havia uma câmera no meu quarto - não que eu pudesse detectar, de qualquer forma. Mas podia haver escutas, é claro. Ou câmeras melhores. Ou nada disso. Quem pode me criticar por me sentir paranóico?
Eu amava aquele laptop. Eu o chamava de Salmagundi, que significa qualquer coisa feita por diversas partes excedentes.

Uma vez que você dá nome ao seu laptop, fica claro que você terá uma profunda relação com ele. Agora, pensando, sentia que jamais iria querer pegar nele de novo. Queria atirá-lo pela janela. Quem sabe o que fizeram com ele? Quem sabe como ele tinha sido grampeado?
Guardei-o fechado na gaveta e fiquei olhando para o teto.Era tarde e eu devia estar na cama. Não tinha jeito de dormir agora, pensei, eu estava grampeado. Todos deveríamos estar. O mundo tinha mudado para sempre.

“Vou encontrar um jeito de ir à forra.” disse. Era uma promessa, eu sabia o que era, mas nunca tinha feito uma antes. Não poderia dormir depois disso. E além do mais, eu tinha uma idéia.
Em algum lugar do meu armário havia uma embalagem contendo um Xbox Universal, embrulhadinho, ainda intacto. Cada Xbox (console de games da Microsoft) tinha sido vendido abaixo do custo - a Microsoft ganhava mais dinheiro cobrando companhias desenvolvedoras de games pelo direito de colocar seus jogos no Xbox - mas o Universal fora o primeiro Xbox que a Microsoft decidira dar inteiramente de graça.
No último Natal, havia uns coitados em cada esquina, vestidos como combatentes da série Halo, dando sacolas com estes consoles para jogos. Imagino que a coisa funcionou - todo mundo diz que eles venderam jogos pra cacete. Naturalmente, havia contra-medidas que faziam com que somente jogos dessas companhias pudessem ser jogados, companhias que haviam comprado licenças da Microsoft.

Os Hackers acabaram mandando pro espaço estas contra-medidas. O Xbox fora crackeado por um garoto do MIT que escreveu um sucesso de vendas sobre isso e quando os 360 (Xbox 360) foram lançados e então o  Xbox portátil (que chamávamos de ‘transportável’ - pesava apenas 1 quilo)  sucumbiu. O Universal supostamente deveria ser à prova de tudo. Os garotos que o desbloquearam eram hackers brasileiros que moravam numa favela - um tipo de “invasores de imóveis abandonados”. .

Nunca subestime a determinação de um garoto com muito tempo e pouco dinheiro.

Uma vez que os brasileiros publicaram o crack, todos nós ficamos doidos por ele. Logo havia dúzias de sistemas operacionais alternativos para o Xbox Universal. Meu favorito era o ParanoidXbox, um tipo de Paranoid Linux. Paranoid Linux é um sistema operacional que assume que seu operador está sob ataque de um governo (foi intencionalmente criado para uso dos dissidentes chineses e da Síria) e faz todo o possível para manter suas comunicações e documentos em segredo. Ele até dispara um monte de comunicações falsas que supostamente disfarçam o fato de você estar fazendo algo às escondidas. Então, enquanto você está recebendo uma mensagem política, um caractere por vez, o ParanoidLinux finge surfar na Web e preencher questionários e namorar em salas de bate-papo. Enquanto isso, um em cada quinhentos caracteres que você recebe é a sua mensagem verdadeira, uma agulha escondida em um palheiro.
Eu gravei um DVD com ParanoidXbox assim que apareceu, mas nunca tinha aberto o Xbox no meu armário  procurado uma televisão para ligá-lo e por ai vai. Meu quarto era cheio o bastante para deixar o lixo da Microsoft ocupar espaço valioso. 

Hoje à noite eu faria um sacrifício. Levei por volta de vinte minutos para colocar a coisa funcionando. Não ter uma televisão foi a parte mais difícil ,mas acabei lembrando de que tinha uma pequeno projetor LCD que tinha sido de uma TV padrão com conectores  RCA atrás. Conectei-a ao Xbox e instalei o ParanoidLinux.
Agora eu estava ligado e o ParanoidLinux procurava outro Xbox para conversar. Cada Xbox Universal vem com um dispositivo sem-fio interno para jogos multi-jogadores. Você pode se conectar com seus vizinhos por um link sem-fio e a internet, se você tiver conexão sem-fio para internet. Achei três possibilidades nas vizinhanças no meu alcance. Dois deles tinham seus Xbox Universais também conectados à internet. O ParanoidXbox adorava aquela configuração: podia entrar pela conexão à internet de algum vizinho e usá-la para ficar online através da rede de jogos. Os vizinhos não perderiam nada com isso: pagavam por conexões de taxa achatada, e não estavam exatamente surfando pela rede às 2 da manhã.

A melhor parte de tudo isso era como me fazia sentir: no controle. Minha tecnologia trabalhava para mim, me servindo, me protegendo. Não estava me espionando. Era por isso que eu amava a tecnologia: se você a usa direito, ela pode lhe dar poder e privacidade.
Meu cérebro estava ligado. Existem varias razões para se rodar um ParanoidXbox - a melhor é que qualquer pessoa pode criar um jogo para ele. Agora mesmo havia uma porta para MAME, um emulador para múltiplos arcades (jogos) então você podia jogar praticamente qualquer jogo já escrito, desde Pong, passando por games para o Apple ][+  e Colecovision, NES e Dreamcast, e por ai vai.

O que era ainda melhor era que todos os jogos multi-jogadores legais tinham sido feitos para especificamente o ParanoidXbox - de graça, por pessoas que fazem jogos por hobby e que qualquer um podia jogar. Quando você combina tudo isso, você tem um console aberto, cheio de jogos grátis e que lhe dá acesso grátis à internet.

E a melhor parte - de longe a que mais me interessava - era que ParanoidXbox era paranóico. Cada bit que atravessava o ar era embaralhado. Você podia gravar tudo que quisesse, mas nunca conseguiria saber quem estava falando, o que estava falando ou de quem falavam pela web, email e IM (Instant Messager).Tudo que eu precisava!

Tudo que eu precisava fazer agora, era convencer a todos que conhecia, a usá-lo também.

Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 5 [ Download ]

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

A pátria de chuteiras e O Futuro à janela



Pátrias de Chuteiras é uma noveleta sobre futebol.

Como é? Não é história alternativa? Sim, também é. Mas, antes de tudo, é a história de uma partida de futebol. No caso, a final de uma Copa do Mundo.

A proposta era escrever um trabalho de ficção que fundisse o assunto futebol aos te-mas típicos da fantasia, do horror, da ficção científica ou da história alternativa. Caso apro-vado, o trabalho integraria a antologia temática que a Editora Ano-Luz estava organizando no início de 1998, a Outras Copas, Outros Mundos.

Neste sentido, Pátrias de Chuteiras é o trabalho mais fiel ao propósito precípuo da antologia, pois toda a ação da noveleta se passa dentro de um estádio de futebol, No fundo, a noveleta mostra o que acontece durante essa partida, intercalando à trama futebolística em si, o dilema do técnico de uma das seleções, dividido entre dois sentimentos de lealdade antagônicos: o patriotismo que nutre pelo Brasil e a vontade de defender os interesses da raça negra, discriminada no Brasil e discriminadora em Palmares.

Isto posto, é de todo provável que o leitor pouco afeito ao "rude esporte bretão" não se entusiasme muito com Pátrias de Chuteiras. Paciência. Em minha defesa, só posso apresen-tar a alegação de que, assim como a ficção científica não se limita a robôs, naves estelares e pistolas-laser, a história alternativa não se limita aos grandes efeitos de decisões militares, que mudam o curso de batalhas decisivas e, portanto, da história como conhecemos.

Em termos de história alternativa, Pátrias de Chuteiras insere-se na linha histórica dos Três Brasis, em tudo idêntica à nossa até 1647, ano em que Maurício de Nassau decide re-gressar ao nordeste brasileiro para reassumir o governo de Nova Holanda. Nassau estabele-ce uma aliança com a Confederação de Palmares. Juntas, Nova Holanda e Palmares, conse-guem derrotar a Coroa Portuguesa e, como resultado, Palmares torna-se a primeira nação independente da América, cerca de um século antes dos Estados Unidos.
É provável que alguns de vocês já conheçam esta linha histórica alternativa, da leitura das noveletas O Vampiro de Nova Holanda e Assessor Para Assuntos Fúnebres. A maior diferença é que, ao contrário daqueles trabalhos, em Pátrias de Chuteiras o filho-da-noite que atende pela alcunha de Dentes Compridos não dá o ar de sua graça.

A noveleta é o que os estudiosos do gênero da história alternativa — ou ficção alterna-tiva, como preferem alguns — costumam designar como "presente alternativo", ou seja, uma história cuja ação se passa nos dias de hoje, ou bem próximo disso. A decisão da Copa do Mundo dos Estados Unidos se dá em 1986, o ano da passagem do cometa de Halley, e também o ano em que os cientistas de Palmares divulgam para o mundo uma descoberta que mudará os rumos da civilização... Contudo, nada disso é importante para a história da partida. O drama do técnico Nascimento dos Santos me foi inspirado pelo jogador e técnico Didi.
Para quem não sabe, esse jogador eminentemente técnico foi um dos heróis da vitória da seleção brasileira no Mundial de 1958 na Suécia. Mais tarde, Didi tornou-se técnico da seleção peruana, conseguindo classificá-la para a Copa do Mundo do México, em 1970. Por ironia do destino, as seleções brasileira e peruana se enfrentaram nas quartas-de-final. Antes da partida, discutiu-se muito no Brasil (e provavelmente, também no Peru), como o técnico brasileiro da seleção peruana se comportaria. Ele cantaria o hino nacional brasileiro? Colo-caria a mão no peito durante sua execução? E durante a partida em si? Torceria pelo Brasil? Ou pelo Peru?

A ficção exagera a realidade. Em Pátrias de Chuteiras, o negro brasileiro Nascimento dos Santos, considerado o maior jogador de futebol de todos os tempos, torna-se técnico da seleção palmarina. Só que Palmares e Brasil são os piores inimigos. Ao longo de suas histó-rias, as duas nações já travaram cerca de uma dezena de guerras e conflitos menores. Con-flitos onde Palmares quase sempre se saiu vitorioso; a ponto do território brasileiro nessa linha histórica alternativa ter se reduzido aos estados das regiões sul, sudeste e metade da centro-oeste. Como se isto não bastasse, além deste antagonismo histórico, ambas as sele-ções já se sagraram campeãs mundiais duas vezes e, pelo regulamento da FIFA, a primeira seleção nacional a se sagrar tricampeã mundial conquistará a posse definitiva da Taça Jules Rimet, um troféu de ouro maciço que, muito mais que seu valor material, trará consigo imenso prestígio político ao país que conseguir levá-lo para casa.

Se mesmo em nossa linha histórica, futebol no Brasil já é coisa séria, na LHA descrita, essa partida se desenrola como autêntica batalha campal - reflexo não só da rivalidade de mais de três séculos entre brasileiros e palmarinos, como do choque entre duas visões de mundo muito diferentes, e de dois ideais de superioridade racial incompatíveis.

Na época em que a antologia Outras Copas, Outros Mundos foi publicada, alguns lei-tores me perguntaram se Nascimento dos Santos seria um "Pelé Alternativo". A resposta é depende. Depende do que se entenda por "Pelé Alternativo". Em termos estritos, não. É inconcebível imaginar a existência do futebolista Edson Arantes do Nascimento numa LHA que já divergiu da história que conhecemos há mais de três séculos. Não obstante, alguns paralelismos histórico-pessoais que, por capricho, decidi introduzir no enredo.
Em termos genéricos, eu diria que sim. Embora não seja o Pelé, o personagem Nascimento dos Santos foi livremente inspirado nessa grande figura da história esportiva, e foi idealizado como uma homenagem ao Pelé de NLH.


Gerson Lodi-Ribeiro, Março de 2002


A pátria de chuteiras  - Gerson Lodi-Riberio [ Download ]




 

Muitos anos me separam agora desta obra.
Quando escrevi as primeiras linhas (de qual dos contos, não tenho mais memória) decorria o ano de 1990, um ano pessoalmente mágico e terrível em iguais proporções, cheio de grandes sucessos e enormes desalentos, marcado por aquela forma peculiar que a juventude confere aos acontecimentos da nossa vida, tornando-se intensos e imensos, transformando o banal em épico, embora só bem mais tarde os recordemos assim.

Nesse ano estava aberto o concurso da Caminho para recepção de originais de ficção científica, cujo vencedor e menções honrosas estariam destinados a publicação nos livros de bolso azuis de uma colecção que alternava com o género policial, na época em que ambas as manifestações de literatura popular tinham no nosso país e junto das editoras uma conotação semelhante e seguiam de mãos dadas nas colecções alternativas e baratas. Recordo-me ainda de receber o regulamento (que já antecipava, uma vez que se tratava de um prémio bienal) das mãos de um colaborador do stand da editora na Feira do Livro, numa quente tarde de Maio, após a faculdade.

Nos dois anos precedentes habituara-me a colaborar esporadicamente com os suplementos literários do Diário Popular (a secção policiária dos sábados) e do Diário de Notícias (o extinto DN Jovem). Este último em particular havia-se tornado num campo de treinos particularmente exigente, mas que finalmente conquistara com a publicação de um texto muito pessoal – sobre um autor de Ficção Cientifica, o Theodore Sturgeon – publicado no mês de Fevereiro desse mesmo ano. A conquista surgiria a tempo de ser incluído na selecção exclusiva da dúzia e meia de autores que constaram da única Antologia DN Jovem em formato livro (e com capa dura), lançada em Setembro desse mesmo ano, onde surgiria precisamente com um conto de Ficção Científica.

Corria-me por isso a confiança nas veias e muita vontade de arriscar. E, graças à publicação regular do suplemento e à minha vontade de contribuir, conseguira um ritmo de escrita, uma rotina de me sentar à máquina de escrever (este livro foi todo escrito antes dos computadores, àparte o presente prefácio), que é imprescindível a qualquer escritor. Tinha textos por recolher, tinha um objectivo em mente. Tinha na memória a qualidade da Espinha Dorsal da Memória, do brasileiro Bráulio Tavares, último galardoado com o prémio (em 1989). Tinha, finalmente, muitas leituras em português e inglês, de histórias de ficção científica, livros de
física e astronomia, e algumas opiniões, então bem vincadas, sobre o que considerava formas correctas e erradas de escrever ou abordar determinados temas. O terreno estava propício à fecundação.

O livro demorou-me o resto do ano a preparar, e pelo meio tive ainda tempo de recolher uma magra antologia de textos dispersos, denominá-la A Arquitectura do Possível, e enviá-la para um concurso do Instituto Português da Juventude (não me lembro bem do que sucedeu posteriormente, àparte ser contactado para o que seria uma proposta de Associação de Jovens Escritores Portugueses, que de logo me desagradou pelo elevado nível de demagogia política envolvida e escândalos públicos que inevitavelmente a acompanharam). Foi um ano de bastante escrita, e não só. Mesmo assim ficaram histórias por escrever ou por acabar, que tinha intenção de incluir. Outras tiveram de ser recuperadas da gaveta, desenvolvidas e acabadas (salvoerro, «A Última Tarde», e talvez «Também Há Natal em Ganímedes») porque o prazo se aproximava e era necessário preencher um mínimo de páginas, diversidade e estrutura.

Se tivesse tido mais tempo ou energia, teria resultado num livro ligeiramente diferente – embora, estou em crer, não muito. Os temas que me preocupavam então eram bastante uniformes, mais do que julgara a início, do que resultou numa colectânea tematicamente mais coesa do que imaginara.

E foi assim que nos últimos dias do ano de 1990, o Natal já ido, preparava as quatro colecções de duzentas e tal fotocópias exigidas pelo regulamento, as enviava para encadernar, e as iria entregar em mãos, no dia 31, à sede da editora (sem antes me ter preocupado em confirmar se a recepção da empresa estaria aberta, e até que horas, tal era a minha inocência dos assuntos empresariais). E assim foi. Uma lenta espera até ao dia 17 de Junho do ano seguinte, em cuja quente tarde tardei a chegar a casa e a receber a notícia que alguém da Caminho me telefonara para casa. Telefonei de volta, de imediato, e falei pela primeira vez com o Belmiro Guimarães, que me anunciou a conquista do primeiro prémio. Agendámos logo uma reunião, uma preparação dos próximos passos. Ao conhecê-lo, perguntou-me se desejava manter a Introdução. Parecia-lhe uma justificação dispensável do livro. Ponderei então, como ainda pondero hoje, e continuo a sentir que o livro sem esta contextualização, sem este entendimento, acontece abruptamente. Está na natureza das antologias e colectâneas serem explicadas, embora não no romance nem na novela individual. O grupo tem de fazer sentido.

Muitas portas se abriram, então, embora, olhando para trás, nem todas viessem a revelar-se a caminhos válidos. Recordo-me de jornalistas me ligarem para casa, em particular o Zé Pedro, com quem continuaria a contactar ao longo dos anos vindouros, que me apontou uma falha importante no livro (corrigida na edição do Círculo de Leitores, na qual esta se baseia), e que colocaria uma das perguntas mais interessantes de todas as entrevistas que concedi: se havia uma intenção consciente na ordenação dos contos (sim, há). Recordo-me da sessão de entrega do prémio na York House, onde conheci o João Barreiros e o José Manuel Morais, que me convidou então a participar na Omnia. Recordo-me do João me telefonar no dia 20 de Dezembro para me dizer que a sua crítica ao livro fora publicada no Público (e eu, fiel atento do suplemento literário-cultural das sextas-feiras, no qual o João costumava participar com artigos extensos e críticas acérbicas, já o conhecia de reputação bem à famosa caneta de aparo de titânio): não tenho mais a totalidade do texto, mas lembro-me que destacava a «Série Convergente», também um dos meus contos preferidos, e a «Criança Entre as Ruínas», cujo ambiente comparava a Stephan Wul (cujos livros eu só viria a encontrar depois das minhas primeiras idas a França).

Recordo-me das menções simpáticas no semanário Independente da Sarah Adamopoulos (que nunca conheci). Recordo-me dos encontros «Palarvas Para Quê?», que tiveram lugar na livraria São Bento 34 – uma das primeiras que misturava prateleiras com livros, espaço para café e um poço verdadeiro (sim, um poço) –, que eram organizados pelo Nuno Artur Silva, o Rui Zink e o Alberto Oliveira Pinto, e cujo propósito era de reunir os jovens autores de então para, durante três sextas-feiras consecutivas, se debater literatura e ler-se excertos das respectivas obras por actores profissionais (no meu caso, foi o António Feio, que escolheu o segmento «Jean-Luc Armand» do «Poetas da Rua»). Recordo-me da leitura na rádio, pelo prestigiado Rui de Carvalho, da secção inicial do «Jogo do Gato e do Rato». Recordo-me da reportagem na revista Ler, e de como desta surgiu ao Círculo de Leitores a ideia de constituir uma colecção temática de obras de jovens autores portugueses, na qual O Futuro à Janela ganharia uma reedição em capa dura, em 1998, sete anos depois da edição original.

Estávamos contudo, noutro século, noutro universo. Escrevia-se sem recurso da Internet, apenas das bibliotecas pessoais e públicas. A divulgação era mínima, e a capacidade de intervenção individual muito mais limitada do que o é neste final de primeira década do século XXI. As editoras não tinham ainda descoberto o filão de ouro da fantasia para jovens, e este género, embora tolerado, não era acarinhado como devia. O valor do prémio (300 mil escudos, que representava a totalidade da edição) continua a ser, ainda a esta data, o maior volume financeiro de royalties que recebi por uma obra minha 2 . A edição da Caminho saiu cheia de gralhas e com alguns cortes acidentais no texto que lhe alteravam o sentido, o que obviamente me entristeceu – só na edição do Círculo de Leitores conseguiria finalmente recuperar o sentido original do livro. E por fim, o tratamento dos livreiros face ao género, escondendo literal e envergonhadamente a Ficção Científica nas prateleiras mais recônditas, enquanto que os restantes jovens autores portugueses eram expostos com pompa e glória nas mesas de destaque ao público, o silêncio relativo de fãs (àparte os conhecidos e contactos esporádicos) e críticos, a inexistência de clubes e movimentos associativos, a falta inclusive de outros autores, começou a ensinar-me como escrever neste mercado, nesta língua e nesta época se tratava mais de um custo efectivo do que um benefício.

Isto até ao advento da Internet. Tratando-se de uma ferramenta de verdadeira democracia, talvez a primeira, quase mais importante que o direito ao voto, tem permitido a expressão individual e a divulgação mais ou menos facilitada de autores e obras (e não só) até agora de difícil acesso ou presentes somente nas listas especializadas de alguns entusiastas.

Apenas o futuro dirá se esta forma de estar no mundo virtual irá permanecer ou se não passa de um sintoma de uma tecnologia/sistema cultural ainda não completamente interiorizado e legislado que rapidamente terá os grilhões do controlo autocrático firmemente cravados – não interessa, há que aproveitar. Muitos autores internacionais o têm feito, com alguma polémica envolvida, para se auto-promover mediante iniciativas de divulgação, entre as quais figura a disponibilização gratuita das suas obras.

Eis o enquadramento desta ideia de colocar online O Futuro À Janela, quase vinte anos após a sua concepção. Tanto quanto saiba, é a primeira obra a ficar assim disponível ao grande público deste território virtual que teve uma existência física e um currículo apreciável na área da ficção científica portuguesa. Se me perguntarem sobre perdas eventuais desta iniciativa, creio que me vou limitar a devolver-vos um sorriso simpático – seguramente que ninguém se lembrará mais de um prémio há muito atribuído, em particular de um livro que dificilmente se encontrará nas livrarias ou poderá ser encomendado, e decerto que não corro o risco de não enriquecer com a perda de vendas. Por outro lado, quem sabe se desta forma ganhe um pequeno novo alento e encontre leitores que não teria oportunidade de conhecer?

Fica disponível para vossa leitura, impressão, distribuição, e talvez crítica. Apenas peço que sigam as orientações de direitos reservados indicada no fim do livro.

Façam o favor de abrir a janela. Lá fora, é já amanhã.

Luís Filipe Silva - 25 de Junho de 2007
Email: contacto@TecnoFantasia.com
Website : www.TecnoFantasia.com

O Futuro à janela - Luís Filipe Silva [ Download ]

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Stefan Morrell










 


 





 


 





 


 


 


 

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

O Passado do Futuro



O futuro também tem um passado.

Quando vemos um filme de ficção científica de décadas atrás, o ar retrô das roupas, do design dos robôs e naves espaciais e do próprio comportamento dos astronautas salta à vista.

Até as supostas fotos de UFOs ilustram o estilo de sua época. Os discos-voadores dos anos 50 pareciam (ou eram) calotas de Cadillacs e caixas de aspiradores de sua época.
Os mais recentes atestam que os cromados saíram de moda também no espaço interestelar.

No final do século XIX, a ciência e a tecnologia eram representadas por engenhocas pesadas e fumegantes.

As obras mais conhecidas de Júlio Verne estão repletas de máquinas às vezes surpreendentemente proféticas, mas também curiosamente antiquadas. Como em 20.000 Léguas Submarinas: só 80 anos depois os submarinos nucleares reais igualariam a capacidade de submersão e navegação da criação do Capitão Nemo – mas seu recurso militar mais sofisticado era abalroar o inimigo, como as galeras faziam 2.500 anos atrás.

O futuro, para o século XIX, era a ampliação de um presente em que o progresso se media por toneladas de aço e carvão. Verne imaginou navios a vapor de quilômetros de comprimento e um canhão de 270 metros, capaz de disparar uma bala com a qual seus heróis se adiantaram 106 anos ao projeto Apolo.
Na vida real, é claro, teriam sido reduzidos a patê.

Quando Verne vai além das viagens fantásticas para antecipar o futuro da sociedade, como em Paris no século XX, a mistura de profecia e anacronismo é ainda mais deliciosa. Na França de 1960, sob o reinado de Napoleão V, a obsessão com a produtividade, o lucro e a eficiência haviam levado a cultura humanista à extinção. Uma brilhante antecipação em meio a valores e cenários curiosamente vitorianos.

Circulam nas ruas carros a hidrogênio (é verdade que de 1 hp), mas o banco de dados do tio bilionário era mantido num livro-caixa de seis metros de altura. O poético sobrinho morre de fome e frio depois de desistir de escrever para o “Grande Armazém Dramático”, uma antecipação de Hollywood que produzia em série peças banais, tornando a censura desnecessária.

Melhor ainda é O dia de um jornalista americano em 2889. Há mísseis munidos de micróbios da peste e da cólera, aeroônibus cruzam os céus e pessoas se vêem e  falam através de “fonotelefotos”, uma espécie de videofone. Um bilionário norte-americano dá ordens a potentados estrangeiros como o czar da Rússia e o Imperador da China e exige que acabem uma guerra que lhe prejudica os negócios.
A Inglaterra virou colônia dos EUA. Não, Verne não cita Tony Blair.

A ficção científica muda nitidamente de sabor a partir da década de 1930. O cenário social às vezes nos parece muito menos realista do que nas obras de Verne. Não é por acaso: o capitalismo liberal de fins do século XIX foi, sob muitos aspectos, mais parecido com o dos dias de hoje do que as sociedades de meados do século XX, que se debatiam entre o welfare state, o fascismo e o stalinismo, mas sempre tinham em alta conta o planejamento racional e a engenharia social.

O pano de fundo tecnológico foi em grande parte pintado por Nikola Tesla, que nos anos 20 previu inúmeras invenções revolucionárias no campo do eletromagnetismo, incluindo motores antigravitacionais, transmissão de energia elétrica sem fio, campos de força e raios da morte capazes de abater aviões a centenas de quilômetros. Era excêntrico, mas não charlatão. Cientista e inventor respeitado, havia descoberto o campo magnético giratório e com ele inventou, no final do século XIX, os dínamos, os motores e os transformadores de corrente alternada, sem os quais teria sido impossível usar a energia elétrica em grande escala.
Agora acreditava na possibilidade de um campo escalar de “energia cósmica” – uma onda eletromagnética sem freqüência – e, em busca de recursos para pesquisá-lo, procurava desesperadamente chamar a atenção do público falando de vagas intuições como invenções prestes a se concretizar. Desta vez, suas teorias não se comprovaram, mas ainda são levadas a sério por ufologistas, teóricos da conspiração e inventores obstinados.

Essas e outras fantasias tecnológicas podem ter ajudado a criar o clima de euforia especulativa que explodiu na crise de 1929. Foram divulgadas por jornais sensacionalistas, novelas de rádio, quadrinhos e por Amazing Stories, a primeira revista regular de ficção científica, criada em 1926 pelo escritor e radialista Hugo Gernsback, inventor visionário e fracassado nas horas vagas. Sua influência no imaginário norte-americano e ocidental foi surpreendente. Os discos voadores são um exemplo impressionante. Associados ao seqüestro de humanos por alienígenas, surgiram nas suas capas em 1946 e elevaram a circulação de 25 mil para 250 mil. No ano seguinte, as pessoas começaram a ver discos no céu e nunca mais pararam.

Algumas idéias dessa ficção se realizaram, ainda que bem mais tarde e nem sempre da forma prevista, como a televisão, o computador, os foguetes interplanetários e os raios de calor (lasers). Outras, ainda que possíveis, se mostraram antieconômicas ou pouco práticas, como as calçadas rolantes, os carros voadores, os jatos pessoais, os robôs domésticos e os videofones.

Salta à vista nessa concepção do futuro a obsessão com a velocidade. Não só veículos de ficção e projetos futuristas divulgados nas páginas de Mecânica Popular, como também automóveis de luxo e utilidades domésticas das mais prosaicas pareciam desenhadas para voar a velocidades supersônicas.

As mudanças nos ritmos sociais trazidas pelo rádio e pelo avião eram mecanicamente extrapoladas ad absurdum. Temporão e quase abortado, o supersônico Concorde pode ser considerado um dos últimos filhos desse sonho. Ainda mais característica é a certeza da vitória e da validade eterna dos valores sociais e morais da classe média interiorana dos EUA de meados do século XX.

As roupas do futuro seriam pudicas, simples, funcionais e quase uniformes. Os adolescentes não procurariam nada mais perigoso e excitante que um milk-shake na lanchonete da esquina, suas mães adorariam ser boas donas-de-casa e seus pais continuariam a perseguir o sonho americano com inabalável otimismo.
As minorias e as classes oprimidas estavam ausentes desses cenários. Robôs reluzentes e trabalhadores desempenhariam o papel de escravos sem reclamar nem criar problemas de consciência para seus proprietários. Foi exemplar a Rosie dos Jetsons, variante metálica e idealizada da empregada doméstica negra.

Fora dos EUA, esse futuro elétrico e supersônico, planejado por tecnocratas, foi temperado por pitadas de realismo e ironia, mas até a contracultura acreditava que esse futuro era possível e mesmo inevitável. Ainda que não estivesse igualmente entusiasmada com ele, como mostrou Aldous Huxley em Admirável Mundo Novo.

Na União Soviética, o desaparecimento das classes e a igualdade das raças e dos sexos faziam, naturalmente, parte do futuro oficial. Na prática, porém, a fórmula de Lênin segundo a qual comunismo seria igual a socialismo mais eletricidade deu prioridade cada vez maior à segunda parcela dessa equação simplista, como se a vitória do marxismo sobre o capitalismo pudesse ser definida pela capacidade de colocar Sputniks em órbita ou astronautas na Lua.

Até fins dos anos 60, o sonho de progresso e consumo sem limites não havia sido seriamente abalado. Enquanto Leonid Brezhnev prometia para breve a concretização da sociedade sem classes, o governo norte-americano, assessorado pelo Hudson Institute e seu famoso futurólogo Hermann Kahn, afirmava que no início do século XXI a jornada de trabalho seria de 28 horas semanais e as pessoas poderiam se aposentar com 38 anos de idade, não de serviço!

Quem dera. Assim como as viagens rotineiras à Lua, as viagens tripuladas a Júpiter e as inteligências artificiais previstos por Stanley Kubrick para 2001, essas promessas foram adiadas sine die.

Poucos até então perguntavam como o consumo desenfreado de combustíveis e de energia nuclear, pressupostos nesse modelo de futuro, poderia ser generalizado a todo o mundo sem transformar o planeta numa sarjeta radioativa.

Mas, nos anos 70, o questionamento dos valores norte-americanos pelos movimentos das minorias e pelos protestos contra a guerra do Vietnã vieram se somar a crise da energia, a estagnação do crescimento econômico na maior parte do mundo, a explosão demográfica e o agravamento dos problemas ambientais. Do outro lado do muro de Berlim, o ceticismo e mesmo o cinismo em relação aos velhos ideais bolcheviques também já cresciam.

O modelo do futuro passou a ser mesmo a tal sarjeta radioativa, parcialmente contrabalançada a partir dos anos 80 pela mitologia do computador pessoal. Na imaginação de alguns pioneiros, as maquininhas da Apple tornariam o Estado e o capitalismo tão obsoletos quanto os grandes computadores da IBM.
A possibilidade de personalizar e programar seu próprio computador tornaria o trabalho flexível e divertido e acabaria com a necessidade de patrões e de outros intermediários. O surgimento de redes horizontais de comunicação como as BBS acabaria com as hierarquias e democratizaria o conhecimento, a informação e a propriedade. O embrionário ciberespaço abriria uma nova fronteira ao individualismo e à liberdade.

A ficção científica passou a retratar um futuro horripilante, mas que ao menos tinha algum estilo. O hacker tomou o lugar do astronauta e os adereços punk substituiram os alegres uniformes de Jornadas nas Estrelas. Convencionou-se chamar de cyberpunk esse novo gênero, prenunciado em Laranja Mecânica e Robocop e desenvolvido em Blade Runner, Max Headroom e Matrix.

Se alguns entusiastas confundiram a ficção com a realidade, o mesmo pode-se dizer do Estado. Em março de 1990, agentes do Serviço Secreto dos EUA invadiram a editora SJ Games para apreender material destinado a um roleplaying game que simulava esse imaginário. Para eles, era um “manual de crime de computador”, embora não contivesse uma só linha de programação real. Algo como pensar que alguém poderia aprender artes marciais ao jogar Street Fighter.

O capitalismo e as bolsas de valores também não souberam fazer essa distinção. Se no final do século XIX acreditava-se que a força do vapor era capaz de tudo e nos anos 20 se esperava da eletricidade e do magnetismo todo tipo de milagres, nos anos 90 supunha-se que a realidade virtual e a Internet aboliriam as leis da economia, libertariam o crescimento econômico das limitações da vil matéria, acabariam com as crises e abririam as portas do Paraíso.

Desde, é claro, que os empresários da nova economia estivessem livres de sindicatos, de regulamentos, de impostos e de auditorias. Bill Gates parecia acreditar que era possível e muitos pensavam que alguém tão rico não podia estar errado.

Antes que o colapso da Nasdaq, em março de 2000, relegasse também esse estranho futuro para o arquivo das ilusões perdidas, os aspectos mais divertidos do imaginário cyberpunk já haviam adquirido um tom retrô.

Através de suas redes internas, as empresas retomaram o controle dos métodos e dos ritmos de trabalho, numa forma ainda mais rígida e totalitária que antes da introdução do computador pessoal. Mesmo dentro de casa, a padronização dos computadores e dos sistemas operacionais pelo monopólio Intel-Microsoft acabou com as veleidades de independência e criatividade dos usuários de computador.

Rapidamente dominada pela lógica do comércio e do copyright, a Internet, antes imaginada como um novo faroeste, como um espaço infinito aberto ao arrojo dos cibernautas, ou como a ágora de uma democracia direta e instantânea, tornou-se um imensamente prosaico shopping center. Na opinião de Thomaz Wood, um vasto penico digital.

Seja qual for a metáfora mais adequada, a Web se tornou um espaço cada vez mais apropriado por monopólios como a AOL-Time-Warner, vigiado por empresas ansiosas para descobrir nossos hábitos de consumo e policiado por agências de Washington preparadas para detectar e registrar e-mails, consultas e compras que possam despertar suspeitas de conexões com o terrorismo.

Não faltam sonhos comparáveis às fantasias mais ousados de Tesla. A ficção científica ainda se alimenta de especulações sobre modificações do corpo humano por dispositivos cibernéticos e engenharia genética, bem como a criação inteligências artificiais superiores à humana e de robôs microscópicos capazes de fazer e desfazer quase tudo.

Algumas são mais ou menos plausíveis e talvez venham a se concretizar de alguma forma.
Provavelmente, como de hábito, num contexto bem diferente daquele que seus autores imaginaram.

Luiz M.C. Costa

terça-feira, 24 de novembro de 2009

As duas primeiras obras brasileiras de Ficção Científica

As duas primeiras obras de ficção científica escritas por brasileiros foram publicadas como folhetins.





A primeira, inacabada, intitula-se Páginas da História do Brasil Escrita no Ano de 2000.

Mais conhecida como As Páginas do Ano de 2000 (1868-72),, teve como autor o historiador, romancista e senador Joaquim Felício dos Santos (1828-1895), responsável pela divulgação da história e pela consolidação do mito de Chica da Silva, em seu livro Memórias do Distrito Diamantino (1868).

Nesse mesmo ano saiu o primeiro capítulo das Páginas no jornal Jequitinhonha, da cidade mineira de Diamantina. Publicação republicana de propriedade do próprio Joaquim Felício dos Santos, abrigou o folhetim de forma descontínua, até 1872.

Mais do que fazer literatura, Joaquim Felício visava criticar o imperador D. Pedro II com os lances surpreendentes de sua história. Segundo um artigo de Braulio Tavares publicado no jornal O Estado de São Paulo de 29 de julho de 2000, a trama centrava-se na viagem do imperador para o futuro.
O médium Tsherepanoff, baseando-se em estudos da “neuripnologia”, consegue transportar D. Pedro II para o dia 1º de janeiro de 2000. Algumas surpresas reservadas ao (ex-)imperador:

A capital do Brasil é a cidade mineira de Guaicuí, com 2 milhões de habitantes.
A ex-capital, o Rio de Janeiro, conta com apenas 12 mil habitantes.
O Brasil é um país republicano, com 122 Estados e 142 milhões de habitantes.
As principais monarquias da época de Pedro II (China, Inglaterra e Rússia) também se tornaram repúblicas. A China, justamente no dia da chegada do imperador ao futuro. O folhetim foi descoberto por Alexandre Eulálio, que o publicou na Revista do Livro da Biblioteca Nacional, no número 6, de junho de 1957 (pp. 103-175).





O Doutor Benignus(1875), de Zaluar, a segunda obra de ficção científica brasileira foi também o primeiro romance científico brasileiro e saiu no formato de livro em 1875, em dois volumes, três anos depois do final da publicação de As Páginas do Ano 2000. Seu autor é Augusto Emilio Zaluar, jornalista e escritor português (1826) naturalizado brasileiro (1856). O Doutor Benignus foi publicado inicialmente em capítulos no jornal Globo.

A história relata uma fictícia expedição científica pelo interior do Brasil, motivada por uma misteriosa mensagem indígena que sugere haver habitantes no Sol. O Doutor Benignus, médico formado e
cientista amador, apaixonado especialmente pela ciências naturais (os pés na terra) e pela Astronomia (a cabeça nas estrelas), parte então com mais de 20 acompanhantes, à procura da solução do mistério e também em busca de um inglês capturado por indígenas, pai de um dos companheiros de jornada.


As duas primeiras obras brasileiras de Ficção Científica
Conteúdo
1. As Páginas do Ano de 2000 (1868-72), de Felício dos Santos.
Lenda da cayaca
2. O Doutor Benignus, de Zaluar (1875) – apresentação
3. O Doutor Benignus: Resumo da obra
Capítulo I – Resolução Singular
Capítulo II – Banquete Egipcíaco
Capítulo III – Carta do Dr. Benignus ao Sr. Camilo Flammarion
Capítulo IV – Um Verdadeiro Filósofo
Capítulo V – Dentro da Mata Virgem
Capítulo VI – As Cidades do Povo Tanajura
Capítulo VII – A Pora
Capítulo VIII – Preparativos de Viagem 
Capítulo IX – Mãe e Filhos Capítulo X – Consórcios com as Estrelas
Capítulo XI – A Caminho
Capítulo XII – O Primeiro Pouso
Capítulo XIII – Os Campos de Minas Gerais
Capítulo XIV – O Ouro e o Ferro 
Capítulo XV – O Dr. Lund
Capítulo XVI – Estrelas Cadentes
Capítulo XVII – Tempestade em uma Floresta
Capítulo XVIII – Deus! Capítulo XIX – Em Uberaba 
Capítulo XX – Quarenta Léguas 
Capítulo XXI – Santa Rita de Paranaíba
Capítulo XXII – O Tigre Preto
Capítulo XXIII – Enterro na Caverna
Capítulo XXIV – Primeiras observações 
Capítulo XXV – Heroísmo de Jaime River
Capítulo XXVI – Teorias Fisiológicas de Katini
Capítulo XXVII – As Manchas do Sol 
Capítulo XXVIII – Goiás
Capítulo XXIX – Jurupensém  Capítulo XXX – A Queda de um Aerólito
Capítulo XXXI – Habitante Imaginário dos Espaços Interplanetários
Capítulo XXXII – Embarque em Leopoldina
Capítulo XXXIII – Na Foz do Tapirapé
Capítulo XXXIV – O Chefe Koinaman
Capítulo XXXV – Viagem Aérea
Capítulo XXXVI – Condições de Resgate
Capítulo XXXVII – Conclusão Referência

As duas primeiras obras brasileiras de Ficção Científica
Apresentação e resumo das obras de Joaquim Felício dos Santos e Augusto Emilio Zaluar de Sérgio Barcellos Ximenes. (Ler ) [ Download ]