domingo, 17 de janeiro de 2010

Entrevista com John Varley





Surgido na Ficção Científica americana em meados da década de 1970, quando a New Wave estava morrendo e o gênero buscava uma nova direção, John Varley quase que imediatamente se tornou uma força revolucionária na ficção especulativa. Combinando o estilo e a sensibilidade de Robert A. Heinlein, com o idealismo e o realismo social dos anos 60 da Califórnia, ele produziu uma rápida sucessão de histórias conceitualmente inovadoras. Varley manteve-se como uma força importante da FC americana desde então.


Pergunta: Conhecendo sua história e considerando as tendências sociais constantes nas histórias de seus primeiros trabalhos, seria justo chamá-lo de um autor de FC hippie ?


Varley: Eu prefiro pensar em mim, naqueles dias, como um hippie que escrevia FC. Eu vivia no coração do movimento. Eu incorporei o zeitgeist daqueles tempos em minhas histórias. Era o oceano onde eu nadava. "All you need is love". "Matar os porcos". Eu utilizei de todas essas noções simplistas de uma forma ou de outra. (Bem, eu nunca fui a favor de matarem policiais, mas eu os via como meus inimigos.) Assim, as histórias do universo 'Eight Worlds' (Oito Mundos) nasceram naquele ambiente. Desde então eu aprendi um pouco, eu espero. Pode chamar isso de amadurecer, ou chamar de perder a inocência. Ou chamar de se vender. Não me incomoda.


P: Seu universo dos 'Eight Worlds' está espalhado por três livros e muitos contos, e é um conceito notável: invasores alienígenas, irritados com os maus tratos da humanidade com a Terra. Somos expulsos de nosso planeta, deixando vivos apenas alguns milhares de pessoas na Lua e em outros lugares. Como teve esta ideia? E você hoje vê este 'castigo' como justo?

Varley: Não me lembro de onde se originou a idéia, só que na época eu estava lendo alguns livros de John Lilly, sobre os golfinhos e as baleias, e que tipo de consciência que eles podem ter. Eu percebi que a visão de mundo deles, através de seus sentidos de sonar, seria radicalmente diferente da nossa. O problema central era imaginar as baleias como sendo tão inteligentes assim. Por que elas não evitam ser arpoadas? Seria fácil enganar os barcos, bastaria mergulhar na aproximação de um deles. Mas elas nadam placidamente ao longo dos barcos até que o arpão as acerta, parecem impossibilitadas de se preocupar com as nossas atividades, até que seja tarde demais para evitar a morte. Então, talvez alguma coisa, talvez sua visão da vida seja tão diferente da nossa que não tenham medo da morte. A partir desta ideia, surgiu a de criaturas alienígenas que viveriam na atmosfera de planetas gigantes gasosos, que veriam os cetáceos como inteligentes, e os seres humanos como nada mais do que uma praga capaz de usar de ferramentas poluidoras, e decidiriam que tinham que fazer algo sobre nós, antes que dizimássemos seus parentes.


P: Nas mãos de vários escritores, 'Eight Worlds' poderia ser sobre a resistência humana contra os invasores, mas você sempre escolheu o menos previsível, e mais interessante, caminho, o de delinear os costumes sociais e vidas pessoais das pessoas vivendo no exílio na Lua, Mercúrio, Plutão, etc. Por que essa ênfase na vida cotidiana, em vez de escolher a aventura da batalha?

Varley: A invasão não se tratou de uma batalha, a menos que você considere um formigueiro sendo esmagado sob as esteiras de um tanque como uma batalha. Eu fiz menção em um par de histórias, que houve uma pequena minoria que sonhava em recuperar a Terra, mas não eram levadas a sério por pessoas sãs.

Eu nunca fui muito interessado em escrever sobre as revoluções, a guerra ou qualquer dos grandes convulsões sociais da política e da violência, senão pela visão de uma pessoa comum. Eu não poderia escrever um romance de Tom Clancy, mesmo que eu quisesse. Meu principal interesse são as pessoas, as coisas horríveis e grandiosas que acontecem com elas, e como vão lidar com isso. Então minhas histórias provavelmente são sempre em pequena escala. É como eu gosto.


P: De certa forma, 'Eight Worlds' sugere um tipo de inquietação existencial. O desejo constante de modificar e ampliar características sexuais, a clonagem que multiplica a identidade de um indivíduo, formas de simbiose, como em 'Gotta Sing, Gotta Dance'. Você vê esta vontade de transcendência pessoal como essencial à natureza humana?

Varley: Algumas coisas interessantes aconteceram quando eu comecei a escrever estas histórias. Por um lado, o sistema solar estava sendo explorado; estávamos recebendo uma imagem diferente daquela que eu recebi enquanto crescia. Mercúrio não era da maneira que nós pensávamos que era. Vênus não estava coberta por pântanos. Marte não tinha canais. Eu explorei algumas dessas idéias em minhas histórias. A revolução biológica estava apenas começando. Na época eu não tinha idéia de como era rápido, fácil, funcional e possível, a mudança de sexo, então eu brinquei com o DNA, aqui e ali. Eu não tinha idéia se tais coisas jamais seriam possíveis ou não, e não me importava. Eu estou sempre menos preocupado com a ciência em si, do que com os efeitos da nova ciência tem sobre a vida das pessoas. Agora, com o genoma humano mapeado e as células-tronco, e a nanotecnologia, podemos começar a ver as vias possíveis para o tipo de engenharia humana que eu descrevi. Mas muitas das mudanças sociológicas já começaram, como os direitos dos gays e novas formas de famílias. E um monte de que não é tão bonita assim. Eu realmente nunca considerei tropeçar com fanáticos religiosos, como George W. Bush, e que poderiam se colocar no caminho do progresso. A religião é uma fraqueza minha. Eu sempre subestimei os malditos religiosos.

Transcendência? Eu não sei o que é necessário para a raça humana. Tenho muita dificuldade para descobrir o que é essencial para mim. Conforme envelheço, enfrento a questão da consciência cada vez mais a cada dia. O que acontecerá comigo quando eu morrer? Eu não espero encontrar a resposta, e pode não haver uma resposta, no sentido de que, se a minha consciência simplesmente desaparece, nunca houve uma questão a ser respondida. Mas o meu lado espiritual, reconhecidamente anêmico, tem crescido ao longo dos anos, e eu não acho que a ciência possa fornecer todas as respostas, como eu costumava achar. A natureza da ciência é fazer a pergunta seguinte, o que implica que não importa o quanto você sabe, sempre haverá uma próxima pergunta. Parece que estamos batendo a cabeça em alguns dos limites do conhecimento hoje em dia, como a teoria das supercordas e da mecânica quântica, mas as pessoas diziam isso sobre os limites antes e estavam erradas.
E pode não haver outra vida. Frustrante, mas é a vida.


P: O povo em 'Eight Worlds' construiu vários novos lares para si, mas a maioria são bastante claustrofóbicos: cidades subterrâneas, túneis e similares, como Luna. Em alguns aspectos, as sociedades resultantes parecem utópicas, mas em outros, parecem completamente estéreis. Em que medida foi uma tentativa consciente sua, de criar uma utopia? E quanto tempo pode tal sociedade durar, dadas as suas limitações e perigos externos?

Varley: Eu não acredito em utopias. Quando eu pensei em tudo isto (e eu procuro evitar pensar muito sobre isso, prefiro deixar que minhas histórias se desenvolvem em um nível inconsciente), pensei que estava construindo um mundo que era melhor que o nosso em alguns aspectos. Certamente é melhor em padrão de vida, tecnologicamente, ninguém tem que trabalhar para viver, não há pessoas morrendo de fome. Quanto à cultura, eu trabalhei o aspecto nostálgico, em parte para ser capaz de usar referências familiares para um leitor moderno. Algumas pessoas reclamaram sobre isso, e eu sei que é um atalho fácil, mas funciona para mim. Não haveria nova arte, bem, eu não sei como seria possível. E quanto a serem estéreis... Eu não sei se isso é bom ou ruim. Sequer tentamos. Uma entidade verdadeiramente inteligente, como o computador central, poderia ser uma melhoria para o que temos tentado até hoje. Dificilmente poderia ser pior do que George W. Bush.


P: Além de das histórias de 'Eigth Worlds', você escreveu várias sobre a policial Anna-Louise Bach, da base Luna. O futuro que Bach habita, lembra que aquele na seqüência de 'Eight Worlds', cidades em túneis na Lua, etc, mas difere enormemente, pois não existem invasores; a Terra continua a ser de domínio humano. Por que então o futuro de Bach consegue ser pior do que o de 'Eight Worlds'?

Varley: Anna-Louise surgiu mais tarde, conforme amadureci um pouco e tinha menos fé em encontrar boas respostas para alguns dos principais problemas humanos. Comparado ao universo de Bach, 'Eight Worlds' seria uma utopia. Eu a criei para lidar com idéias terríveis demais para explorar em 'Eight Worlds'. Ela é uma policial, e sempre vamos precisar de policiais, creio eu. Ela lida com coisas nojentas. Ela vive em um universo que é uma extrapolação do nosso, sem a intervenção de um evento apocalíptico como a invasão que, por necessidade, nos aproximou, fez nossas diferenças parecerem triviais. Seu universo é o nosso, apenas com mais tecnologia.


P: Ainda sobre 'Eight Worlds', você escreveu três livros neste universo. O primeiro, 'Ophiuchi hotline', indica que a raça humana em breve terá que desocupar totalmente o sistema solar, rumo a um exílio no espaço profundo, mas o seguinte 'Steel Beach' e 'Golden Globe', significa um passo pra trás na narrativa, sobre uma empresa de passeios de lazer dos 'Eight Worlds'. 'Steel Beach' e 'Golden Globe', no entanto, nos conduzem ao exílio, assim como 'The Hotline Ophiuchi', com a partida da nave Robert A. Heinlein.

Varley: A principal coisa que você deve saber sobre mim é que eu não sou um planejador. Eu nunca fiz um cronograma para 'Eight Worlds'. Eu não leio 'Ophiuchi Hotline' há 20 anos ou mais. Confio na minha memória, às vezes falha, para manter as coisas razoavelmente consistentes. Não é o futuro escrito por Heinlein ou por Larry Niven. Quando eu termino uma história, e estou muito satisfeito com ela, uma vez que ela for publicada, não volto a ler novamente. Se isso ofende alguns leitores, me desculpem, mas sinceramente, eu não tenho tido muitas queixas. Tenho a certeza de que há leitores lá fora que poderiam definir os tempos e lugares de 'Eight Worlds' melhores do que eu.

Houve um abismo entre o primeiro livro e as primeiras histórias, eu senti que seria um handicap desnecessário voltar, e tentar fazer tudo funcionar, quando comecei com 'Steel Beach'. Meus interesses e minha visão mudaram neste tempo, entretanto, e eu só o defini, e a 'Golden Globe', neste universo, porque eu me sentia confortável nele. O que eu queria fazer, no entanto, foi o que eu costumo fazer, que é explorar um personagem.

Dito isto, o terceiro desta 'não-trilogia', que chamarei de 'Metal Set,Irontown Blues', irá lidar com seres humanos abandonando o sistema solar.


P: 'Steel Beach' e 'Golden Globe' são longos e absorventes romances biográficos do futuro, um é a história de um repórter de notícias, e o outro sobre um ator itinerante. Ambos os livros, mesmo que no futuro razoavelmente distante, também recordam o passado americano pré-Segunda Guerra Mundial, e a Idade de Ouro de Hollywood, e assim por diante. Por que essa simultaneidade, prospecção e retrospecção?

Varley: Porque eu gosto de filmes antigos. 'The Metal set' fala de pessoas que têm trabalhos que eu considero interessantes: um jornalista, um ator e o policial que virou investigador particular. Assim, a identificação com os filmes de Hollywood foi deliberada. Eu queria introduzir uma atmosfera de 'The Big Sleep' ou 'Chinatown' neste último.


P: O que você vê como principais obstáculos para a adaptação bem sucedida da FC para o cinema? E como você avalia o estado atual do cinema de FC em geral?

Varley: A Ficção Científica foi o gênero dominante nos cinemas desde 'Star Wars', que eu amava. Desde então, a maior parte foi porcaria. Por outro lado, de vez em quando surge uma jóia, como 'Eternal Sunshine of the Spotless Mind'. Os principais obstáculos para fazer bons filmes de FC são os mesmos obstáculos que enfrentam qualquer bom filme. Eles são geralmente o resultado de interesses conflitantes, de um grande número de pessoas trabalhando juntas, nem sempre para o mesmo objetivo. Se você já viu o processo de regravações infinitas, e mudanças de última hora, você sabe que é um milagre que qualquer bom filme seja feito. Tudo se resume a poder, e visão, e determinação, em partes iguais. Charlie Kaufman teve a visão, e depois de uma seqüência de abalos econômicos e financeiros, alguns de poder, conseguiu que um filme como 'Eternal Sunshine' fosse feito da maneira que ele queria. Jim Carrey tem o poder de tomar decisões finais sobre o script, e se ele compartilha a visão de Kaufman, então a coisa funciona. A última parte é a determinação, e você não acredita o quanto disso é necessário, por parte de todos os envolvidos, em um projeto que pode se estender ao longo de três, ou quatro, ou cinco, ou mesmo 10 anos. É fácil ficar frustrado e se juntar aos contadores do estúdio.


P: Á pouco eu mencionei Robert Heinlein. Muito do seu trabalho é uma homenagem ao seu estilo, sensibilidade e técnica. O que de Heinlein faz dele uma inspiração central para você e para a FC em geral? Vocês mesmo difere totalmente de Heinlein, no que diz respeita principalmente à ideologia, e o seu liberalismo, certo?

Varley: Robert Heinlein é o Shakespeare da Ficção Científica Hard. Qualquer ideia que você tenha, logo vai descobrir que Heinlein teve antes de você. Durante os anos 40 e 50, ele escreveu tudo sobre exploração planetária e viagens estelares. O único método que não me lembro dele usando, foi o elevador espacial, mas estou certo de que ele teria escrito um bom romance sobre isso, se tivesse a chance.

Tenho divergências políticas com Heinlein. Ele era de formação militar, com a qual não me relaciono bem, e às vezes era uma espécie de simplório anticomunista. Minha sensação é de que o verdadeiro comunismo nunca foi praticado, e muito menos nos regimes comunistas. Eu não sou comunista, mas eu sinto que o melhor modelo para o governo é um equilíbrio entre o capitalismo e o socialismo. Heinlein foi também um pouco darwinista social.

Mas a raiz de sua política era o ideal libertário, do governo deixando-nos em paz, exceto quando há uma necessidade imperiosa. Nós concordamos completamente nisso.


P: Seu livro 'Red Thunder', entre outras coisas, é uma homenagem a Heinlein, reconta espetacularmente o cenário básico de Heinlein para Rocketship Galileo (1947). Este famoso épico juvenil de Heinlein, ainda consegue inspirá-lo? Será que as viagens espaciais tripuladas, mesmo em seu moribundo estado, exige uma nova inspiração, uma sacudida Heinleiniana?

Varley: Você teria que perguntar a um adolescente se Heinlein ainda pode inspirá-lo. Os livros estão certamente datados, e isso pode fazer a diferença. É difícil ter em mente que a década de 1950 é tão remota para esta geração atual, como 1900 é para mim, e eu não li muitos livros escritos em 1900. No entanto, eles ainda são tão bons como sempre foram, e eu sei que há crianças lá fora, que ainda leem ficção de qualidade, ou JK Rowling não seria bilionária. Então eu espero que eles ainda estejam sendo lidos.

Espero que a viagem espacial tripulada já tenha recebido o que necessita, sob a forma de Burt Rutan (engenheiro aeroespacial que projetou a Spaceship One, a primeira nave sub-orbital particular). Combinada com a grana de Paul Allen, e o sentido do negócio e o carisma de Richard Branson, eu acho que eles são o equivalente a Delos Harriman, em 'The Man Who Sold the Moon' de Heinlein (1950). Eu estava lá em Mojave no dia que a Spaceship One reivindicou o prêmio Ansari, e para mim foi tão emocionante como o vôo de John Glenn.

Minha receita para o vôo espacial tripulado? Em primeiro lugar, a desativação da NASA. Isso mesmo. A NASA foi o 'Nós-podemos-fazer' de gente que era parte do governo americano dos anos 60, mas agora é apenas o governo, apenas a burocracia. Gostaria de substituí-la por uma agência que analisasse as propostas das empresas privadas e fornecesse o financiamento federal para aqueles promissores. Deixe a coisa da espionagem para a Força Aérea, deixe os satélites de comunicações para a indústria, que está fazendo um bom trabalho, deixe a construção para a Boeing e a Lockheed e outros. Para vôos espaciais tripulados, incentive pessoas com um sonho, como Rutan. Acho que o maior estímulo para o homem no espaço será... o turismo! Olha quantos já se inscreveram para o vôo de Rutan/Branson, mesmo com esses preços ultrajantes. O que precisamos é de alguém para desenvolver a tecnologia de combustão supersônica, terra-órbita e de volta, não jogando nada fora. Eles testaram um há algumas semanas, e alcançou Mach 11 ou algo parecido.


P: Você está escrevendo uma seqüência de 'Red Thunder'. Como vai se chamar?

Varley: Talvez 'Red Lightning'. Sim, eu sei que o raio supostamente vem antes do trovão, mas eu não estava pensando em uma seqüência quando eu a escrevi. Agora eu quero dar uma continuidade (pode haver um terceiro). Se eu chamasse de 'Green Thunder' ou 'Yellow Thunder', as pessoas diriam que eu estaria imitando a série sobre Marte de Kim Stanley Robinson. Assim, parece que estou preso nisso. E de qualquer maneira, é melhor do que 'Red Low Pressure Area' (área de baixa pressão vermelha).


P: Seu romance Mammoth (2005) trata sobre o renascimento de uma espécie pré-histórica. Ao explorar esse tema, você concorre com os filmes 'Jurassic Park', ou a sua visão é diferente, mais complexa?

Varley: Meus mamutes não são clonados. Na verdade não me lembro muito sobre 'Jurassic Park', exceto o T.Rex mastigando o SUV. Isso foi legal. Ah, sim, e o advogado sendo tirado da 'casinha' e engolido inteiro. Isso foi melhor ainda!




Entrevista cedida a Nick Gevers (Science Fiction Weekly - dezembro de 2004).