sábado, 30 de janeiro de 2010

Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 14


CAPÍTULO 14
Este capítulo é dedicado à incomparável Mysterious Galaxy em San Diego, Califórnia. O pessoal da  Mysterious Galaxy  me pede para assinar meus livros sempre que estou em San Diego para uma conferência ou para dar aula (O Clarion Writers’Workshop acontece na Universidade do Estado de San Diego, perto de La Jolla, Califórnia) e sempre que apareço eles enchem a casa. É uma loja com seguidores leais e que sabem que eles são sempre capazes de grandes recomendações e idéias. No verão de 2007, levei meus alunos da Clarion lá, para o lançamento à meia-noite do livro final de Harry Potter e eu nunca tinha visto uma festa tão animada e tão terrivelmente divertida em uma loja.
Mysterious Galaxy: 7051 Clairemont Mesa Blvd., Suite #302 San Diego, CA USA 92111 +1 858 268 4747



A Xnet não era lá muito divertida no meio de um dia de aula, quando todos que costumam utilizá-la estão na escola. Eu tinha o pedaço de papel dobrado no bolso de trás da calça jeans e joguei-o na mesa da cozinha assim que entrei em casa. Sentei na sala de estar e liguei a televisão. Eu nunca assistia tevê, mas sabia que meus pais assistiam. A televisão, o rádio e os jornais, eram tudo que tinham para saber sobre o mundo.

As notícias eram terríveis. Havia tantos motivos para ficar apavorado. Soldados Americanos estavam morrendo pelo mundo inteiro. Não apenas soldados. Também o pessoal da guarda nacional que auxilia salvando pessoas de ciclones, baseados no exterior por anos e anos de uma longa e interminável guerra.
Passei o dia saltando de um noticiário para outro, um desfile de autoridades nos dizendo por que devíamos ter medo. Um desfile de fotos de bombas que explodiram ao redor do mundo.

Continuei até dar com uma cara familiar. Era o cara que tinha entrado na traseira do caminhão e falado com a mulher de cabelos curtos quando estava algemado nos fundos. Vestia um uniforme militar. As insígnias o identificavam como Major General Graeme Sutherland, comandante regional da DHS.

“Tenho nas mãos o tipo de literatura distribuída no chamado concerto de Dolores Park na semana passada.” Ele segurava alguns panfletos. Havia muitos por lá, eu me lembrei disso. Em qualquer lugar em São Francisco onde existam pessoas, você achará panfletos.
“Quero que olhem para isso por um instante. Deixe-me ler os títulos para vocês. “SEM O CONSENTIMENTO DOS GOVERNADOS, GUIA DO CIDADÃO PARA DERRUBAR O GOVERNO.” Aqui temos um “SERÁ QUE O 11 DE SETEMBRO REALMENTE ACONTECEU?” E outro, “COMO USAR A SEGURANÇA NACIONAL CONTRA ELA PRÓPRIA.” Esta literatura nos demonstra o verdadeiro propósito desta reunião ilegal de sábado a noite. Não se tratava meramente de milhares de pessoas reunidas sem a apropriada precaução, ou mesmo sem toaletes. Era um comício de recrutamento. Uma tentativa de corromper crianças para abraçar a idéia de que a América não deve se proteger.”

“Veja este slogan, ‘NÃO CONFIE EM NINGUEM COM MAIS DE 25’. Que maneira melhor para se garantir uma falta de equilíbrio, ou discussão madura em uma mensagem terrorista do que se excluindo adultos, limitando o grupo apenas a jovens impressionados?”
“Quando a polícia entrou em cena, encontrou um comício de recrutamento de inimigos da América em progresso. A reunião já havia perturbado a noite de centenas de residentes daquela área, nenhum deles foi consultado no planejamento daquela festa noturna.”
“A polícia ordenou que as pessoas se dispersassem - o que é bastante visível em todos os vídeos - e quando os populares se voltaram contra eles, atiçados pelos músicos no palco, a polícia os subjugou utilizando técnicas não letais para controlar a multidão.”
“As detenções foram de líderes e provocadores que conduziam milhares de jovens impressionáveis para atacar as linhas policiais. 327 deles foram levados sob custódia. Muitos já tinham ocorrências anteriores.

Mais de 100 deles tinham mandados contra eles. Estes ainda estão sob custódia.”
“Senhoras e senhores, a América está lutando uma guerra de muitas frentes, mas nenhuma é mais grave do que esta que se encontra aqui, no nosso lar. Não importa se estamos sendo atacados por terroristas ou por seus simpatizantes.”

Uma repórter ergueu a mão e disse. “General Sutherland, o senhor está claramente dizendo que estas crianças são simpatizantes dos terroristas por irem a uma festa no parque?”
“Claro que não. Mas quando os jovens são colocados sob a influência dos inimigos do nosso país, é fácil para eles entrar em suas cabeças. Terroristas adoram recrutar quinta-colunas para lutar esta guerra caseira por eles. Se estas forem minhas crianças, então eu ficaria gravemente preocupado.”
Outro repórter aderiu à discussão “Estava claro que era só um concerto ao ar livre General? Eles não estavam armados.”

O General pegou várias fotos e passou a mostrá-las. “Estas são fotografias tiradas por infravermelho por oficiais antes de entrarem em ação.” Ele segurou a seguinte junto ao rosto e começou a passar uma por uma. Mostravam pessoas dançando rudemente, alguns se batendo ou pulando. E então algum sexo rolando entre as árvores, uma garota com três caras, dois caras juntos. “Havia crianças de dez anos neste evento. Coquetéis fatais de drogas, propaganda e música resultaram em dezenas de machucados. É incrível que não tenham ocorrido mortes.”

Desliguei a televisão. Eles fizeram parecer que fora uma baderna completa. Se meus pais estivessem ali, eles me colocariam de castigo no quarto por um mês e só me deixariam sair com um colar rastreador.
Falando nisso, eles ficariam furiosos quando descobrissem que fui suspenso.

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Eles não receberam a coisa muito bem. Papai queria me triturar, mas mamãe e eu o convencemos a desistir disso.
“Você sabe que o vice-diretor persegue Marcus há anos.” disse mamãe. “Da última vez que nos o encontramos, depois você o xingou durante quase uma hora. Várias vezes você repetiu a palavra ‘babaca’, se me lembro bem.”

Papai balançou a cabeça. “Perturbar a aula por discutir contra a DHS...”
“Era uma aula de estudos sociais, papai.’ eu disse. Eu estava me arriscando mas senti que se mamãe ia se prejudicar por minha causa e que eu devia ajudá-la. “Nós falávamos sobre a DHS. Um debate que deveria ser saudável, não?”

“Olha, filho...” ele disse. Ele começava a me chamar muito de “filho” e me fazia sentir como se ele estivesse parando de pensar em mim como uma pessoa e passando a pensar em mim como um tipo de larva semi-formada que necessitava ser guiada para fora da adolescência. Eu odiava isso. “Você precisa aprender a lidar com o fato que vivemos em um mundo diferente agora. É claro que você tem o direito de falar o que lhe vem à cabeça, mas tem que estar preparado para as conseqüências disso. Tem que encarar o fato de que existem pessoas feridas, que não vão querer discutir aspectos da Constituição quando suas vidas estiverem em perigo. Estamos num barco salva vidas agora, e uma vez que você está lá, ninguém quer pensar em o quão terrível é o capitão.”

Eu me limitava a olhar para lá e para cá.
“Determinaram que eu teria duas semanas para estudar sozinho, escrevendo um trabalho de cada uma das questões, usando a cidade como pano de fundo - um trabalho de história, de estudos sociais, um de inglês, um de física. Isso é melhor do que ficar em casa assistindo televisão.”
Papai olhou para mim como se suspeitasse de algo, então eu concordei e disse boa noite para eles e subi para meu quarto. Liguei o Xnet e abri o processador de texto e comecei a pensar intensamente em idéias para os trabalhos. Por que não? Era melhor do que ficar pela casa de bobeira.

#

Acabei no IM conversando com Ange quase a noite toda. Ela foi simpática e me disse que iria me ajudar com os trabalhos se eu quisesse me encontrar com ela depois da escola a noite seguinte. Eu sabia onde ela estudava - a mesma escola de Van - no fim de East Bay, que eu não visitava desde as bombas.
Eu estava excitado com a perspectiva de revê-la de novo. Toda noite desde a festa eu ia para a cama pensando em duas coisas: a multidão avançando contra as linhas policiais e a sensação dos seus seios sob a blusa enquanto estávamos encostados ao pilar. Ela era maravilhosa. Nunca tinha ficado com uma garota tão... agressiva como ela antes. Tinha a impressão de que Ange estava tão a fim quanto eu. E era atormentante saber disso.

Dormi profundamente aquela noite, com excitantes sonhos de Ange e eu e o que estaríamos fazendo se nos encontrássemos num lugar reservado em alguma parte.

No dia seguinte comecei os trabalhos. São Francisco é um bom lugar para se escrever sobre História? É claro que sim, ela está lá, desde a Corrida do Ouro aos estaleiros da Segunda Grande Guerra, os campos de concentração para japoneses, a invenção do PC. Física? O Exploratorium tem as exibições mais bacanas do que qualquer museu em que já estive.  Língua Inglesa?  Jack London, os poetas Beatniks, escritores de Ficção Científica como Pat Murphy e Rudy Rucker. Estudos Sociais? O Movimento pela liberdade de expressão, Cesar Chavez, Direitos dos gays, feminismo, o Movimento contrário à guerra...
Sempre amei aprender as coisas por conta própria, apenas para saber mais sobre o mundo à minha volta. Eu podia fazer isso apenas andando pela cidade. Decidi que primeiro iria fazer o trabalho de literatura inglesa sobre os Beats. A livraria City Lights tinha um bom acervo em uma sala no segundo andar, onde Alan Ginsberg e seus camaradas tinham criado suas poesias psicodélicas. Aquela que tínhamos lido em sala de aula se chamava Uivo (Howl) e nunca esqueci do seu início que me fazia tremer:

“Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus, arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca uma dose violenta de qualquer coisa ‘hipster’ com cabeça de anjo ansiando pelo antigo contato celestial com o dínamo estrelado da maquinária da noite...” * (trad. Cláudio Willer)


Gostava da maneira que as palavras todas juntas, “morrendo de fome histéricos”. Eu sabia como era. E “os expoentes da minha geração” me fazia pensar também. Me fazia lembrar do parque e da polícia e do gás descendo. Eles queimaram Ginsberg por obscenidade depois de “Uivo” - tudo por conta de uma linha sobre sexo gay que dificilmente nos provocaria um piscar de olhos sequer hoje em dia. De alguma forma ficava feliz com isso, por saber que nós havíamos feito algum progresso. As coisas eram bem mais difíceis do que são hoje.

Me perdi na livraria, lendo aquelas lindas e antigas edições. Me perdi em “On the Road” de Jack Kerouac, um livro que pretendia ler há muito tempo e um funcionário encontrou para mim uma edição baratinha que me vendeu por seis paus.
Fui para Chinatown e comi din sun e macarrão com molho apimentado que eu já sabia ser bem quente mas que não se comparava ao especial de Ange.

Quando o dia terminava, fui até a BART e peguei um ônibus via ponte San Mateo que me levaria a East Bay. Li meu exemplar de “On the Road” e mergulhei assoviando no cenário que passava. “On the Road” era um romance semi-autobiográfico sobre Jack Kerouac, um escritor viciado e alcoólatra que atravessava a América pegando carona, fazendo bicos, uivando nas ruas à noite, conhecendo pessoas e indo embora. Hipsters, vagabundos tristes, trapaceiros, sujeitos asquerosos e anjos. Não tem um enredo na verdade; Kerouac supostamente o escreveu em três semanas, num rolo de papel, chapado, somente um monte de coisas assombrosas, e as coisas aconteciam uma depois da outra. Ele fez amizade com pessoas auto-destrutivas como Dean Moriarty, que estava envolvido nuns esquemas esquisitos que nunca funcionavam, se é que me entendem.

Havia um ritmo nas palavras, que era estimulante, conseguia ouvi-lo na minha cabeça. Me fazia querer pegar uma carona de caminhão e acordar numa pequena cidade poeirenta em alguma parte do meio do país, a caminho de Los Angeles, um destes lugares com um posto de gasolina e um restaurante, apenas sair por aí pelos campos e encontrar pessoas e ver e fazer coisas.
Foi uma viagem longa e devo ter cochilado um pouco, ter ficado acordado de papo com Ange no IM complicava minha programação de sono, e Mamãe esperava que eu descesse para o café da manhã. Acordei e troquei de ônibus e depois de um tempo estava na escola de Ange.
Ela saiu dos portões em seu uniforme escolar - nunca a tinha visto nele, era até charmosa, de uma maneira estranha e me lembrou de Van de uniforme. Me deu um longo abraço e um beijo no rosto.

“Olá!” ela disse.
“E aí?”
“Tava lendo?”

Eu esperava por isso. Tinha marcado a passagem com um dedo. Ouça: “Eles dançaram pelas ruas como dingle-dodies e eu fui atrás como fiz toda a minha vida, segundo aqueles que me interessa, por que os únicas pessoas para mim eram os doidos, que estavam loucos por viver, loucos por falar, para serem salvos, desejando tudo ao mesmo tempo, aqueles que nunca dizem aquilo que se espera, mas queimam, queimam como fabulosas velas romanas explodindo como aranhas entre as estrelas e no meio você vê aquela luz azul estourando e todos dizem ‘Uau!’”

Ela pegou o livro e leu esta passagem para si mesma: “Uau. Dingle-dodies! Amei! O livro é todo assim?”
Contei sobrei as partes que tinha lido, enquanto caminhávamos pela calçada em direção ao ponto de ônibus. Assim que viramos a esquina, ela colocou o braço ao redor da minha cintura e fez meu braço escorregar ao redor dos seus ombros.  Caminhando pela calçada com uma garota - minha namorada? É, por que não? - falando sobre um livro legal. Aquilo era o máximo. Me fez esquecer dos outros problemas por algum tempo.

“Marcus?”
Me virei. Era Van. No meu subconsciente eu esperava por isso. Sabia disso, porque eu não estava nem remotamente surpreso em vê-la. Não era uma escola tão grande assim, e todos saíam ao mesmo tempo. Fazia semanas que não falava com Van e pareciam meses. Costumávamos nos falar diariamente.
“Oi, Van.” eu disse. Controlei a vontade de tirar o braço dos ombros de Ange. Van parecia surpresa, mas não com raiva, mais abalada. Ela era íntima de nós dois.
“Ângela?”
“Oi, Vanessa” disse Ange.
“O que você está fazendo aqui?”
“Vim pegar Ange” eu disse tentando parecer normal. Mas estava embaraçado por ser visto com uma outra garota.
“Oh.” disse Van “Bem, legal ver vocês.”
“Legal te ver também, Vanessa” disse Ange, nos fazendo virar e seguir para o ponto de ônibus.
“Você a conhece?” perguntou Ange.
“Sim. Desde pequeno.”
“Era sua namorada?”
“O quê? Não! Éramos só amigos.”
“Eram amigos?”

Senti como se Van estivesse bem atrás da gente, nos ouvindo. Resisti à tentação de olhar por sobre o ombro por bastante tempo, mas então eu olhei. Havia várias meninas do colégio ao redor, mas nada de Van.
“Ela estava comigo, Jose-Luis e Darryl quando fomos presos. Costumávamos jogar ARG juntos. Nós quatro éramos, tipo, melhores amigos.”
“E o que aconteceu?”
Eu baixei a voz. “Ela não gostava na Xnet. Achou que estávamos arranjando confusão. Que colocaríamos outros em perigo.”
“E por isso deixaram de ser amigos?”
“‘Só paramos de nos falar.”
“Vocês não eram tipo, apaixonados um pelo outro?”
“Não!” Meu rosto estava quente. Parecia que eu mentia, apesar de estar falando a verdade.
Ange me fez parar e olhou bem para mim.
“Você gostava dela?”
“Não! Sério! Éramos apenas amigos. Darryl e ela - bem, Darryl era gamado nela. Não tinha como...”
“Mas se Darryl não estivesse a fim dela, você a namoraria, huh?”
“Não Ange, não. Por favor, acredite e esqueça isso. Vanessa era uma boa amiga, mas não somos mais amigos e isso me aborrece, mas nunca pensei nela deste jeito, certo?”
Ela ficou séria
“Ok, Ok, me desculpe. Eu também não ando mais com ela. Nem fomos muito próximas, nestes anos todos que nos conhecemos.”
“Tá bom.” pensei. Era como Jolu que a conhecia a muito tempo e nós nunca nos encontramos; ela tinha algo com Van e não a queria por perto.
Me deu um abraço demorado e nos beijamos e um bando de gurias passou por nós zoando da nossa cara e então e seguimos para a parada de ônibus. Na nossa frente estava Van, que tinha passado por nos enquanto nos beijávamos. Me senti um completo idiota.
É claro, ela estava esperando ônibus e depois entrou no ônibus conosco mas não trocamos uma palavra sequer e tentei ficar conversando com Ange o caminho inteiro, mas foi estranho.

O plano era parar para um café e então ir para a casa de Ange para descansar e “estudar”, quer dizer, ligar seu Xbox e navegar pela Xnet. A mãe de Ange chegava tarde às terças, era sua noite de yoga e jantar com amigas e a irmã de Ange estava fora, com o namorado, então teríamos o lugar só para nós. Eu tinha pensamentos pervertidos sobre isso desde que combinamos de nos ver.

Fomos direto para seu quarto e fechamos a porta. Seu quarto era um desastre, coberto por camadas de roupas e notebooks e peças de computador nas quais pisávamos como armadilhas. Sua mesa de estudos era pior que o chão, pilhas de livros e revistas, acabamos sentando na cama, o que tava bom pra mim.
A estranheza de ter encontrado Van tinha passado e estávamos com a Xnet rodando agora. Estava no centro das conexões, ela tinha colocado um tipo de antena na janela que ajudava a capturar as linhas sem-fio da vizinhança. Ela tinha duas telas de antigos laptops transformadas em monitores com o interior exposto.

Ficavam nas mesinhas, uma de cada lado da cama, eram ótimas para assistir filmes ou fazer IM da cama, ela podia virar os monitores e deitar e não importava de que lado ela deitava.
Ambos sabíamos o porquê de realmente estarmos ali, sentados um ao lado do outro. Eu estava um pouco nervoso e super consciente do calor da sua perna e seu ombro contra mim, mas eu precisava me conectar na Xnet e ver se havia algum email para mim e o que estava rolando.
Havia um email de um garoto que mandava hilários vídeos via celular do DHS ficando louco - o último mostrava um carrinho de bebê sendo desmontado após o cão farejador de bombas mostrar interesse nele, abrindo-o com chaves de fenda bem no meio de uma rua na Marina enquanto todos aqueles ricaços passavam olhando bestificados.

O vídeo estava sendo baixado pra caramba. Estava hospedado no internet Archive Alexandria, um mirror no Egito, que hospedava qualquer coisa de graça desde que você colocasse sob licença da Creative Commons, que permitia que qualquer um remixasse e o compartilhasse. O Arquivo Americano, que ficava perto dali em Presídio, tinha sido forçado a deletar todos estes vídeos por conta da Segurança nacional, mas o arquivo Alexandria estava hospedando qualquer coisa considerada embaraçosa nos EUA.

O garoto, o apelido era Kameraspie, já tinha me mandado um vídeo melhor ainda. Da porta da Prefeitura no centro cívico. O DHS tinha cercado o lugar, estabelecendo um perímetro de segurança ao redor do prédio e o vídeo de Kameraspie mostrava a imagem de um cara vestido com uniforme se aproximando da cancela e mostrando sua identificação e colocando sua valise no detector de raios-x. Estava tudo bem até que alguém do DHS viu alguma coisa no raio-x e que não gostou. Ele perguntou algo ao general, que disse algo inaudível (o vídeo fora feito do outro lado da rua, aparentemente graças a um zoom caseiro então o áudio era na maioria de pessoas andando e sons do trânsito.)

O general e os caras do DHS estavam num impasse e por mais que argumentassem, mais caras do DHS apareciam ao redor dele. Finalmente o general balançou a cabeça com raiva e apontou o dedo para o peito do cara do DHS e pegou sua maleta e começou a afastar-se. Os caras do DHS gritavam, mas ele não parou. Sua linguagem corporal dizia algo como “Estou completamente furioso.”
Então aconteceu. Os caras correram atrás do general. Kameraspie diminuiu a velocidade do vídeo, então podíamos ver, frame a frame, meio que virado e sua face dizia “Vocês não vão me deter” então mudando para o horror quando três guardas gigantescos do DHS o derrubaram, como fazem no futebol Americano. O general, um sujeito de meia idade, de cabelos grisalhos, rosto serio e cheio de dignidade, caiu como um saco de batatas, de cara na calçada e com sangue espirrando do seu nariz.

O DHS algemou o general pelos pulsos e tornozelos. O general gritava, gritava pra caramba, sua face estava púrpura debaixo do sangue que escorria do nariz. Os pedestres passavam olhando para o cara ao chão, de uniforme, e dava para ver pela sua expressão que aquela era a pior parte, a do ritual de humilhação, onde toda dignidade se esvaía. O clipe terminava assim.
“Santo Buda” eu disse olhando para a televisão ficando escura e o vídeo iniciando novamente.
Puxei Ange e mostrei-lhe o clipe. Ela ficou sem palavras, de queixo caído.
“Coloca isso agora num post!”
Coloquei. Escrevi uma leve descrição e adicionei uma nota pedindo pra que se alguém conhecesse e pudesse identificar o militar no vídeo ou se sabia algo sobre isso.
Assistimos ao vídeo, de novo e de novo.
Uma mensagem chegou para mim.

>Claro que conheço o cara, pode ver a biografia dele na Wiki. É o General Claude Geist. Ele é o comandante da junta de paz da ONU no Haiti.

Chequei a biografia. Tinha uma foto dele numa conferência de imprensa e algumas notas sobre sua Missão difícil no Haiti. Era o mesmo cara.
Atualizei meu post.

Teoricamente esta era a minha chance de Ange e eu transarmos, mas não foi o que acabou acontecendo. Reviramos os blogs da Xnet, procurando por mais ações da DHS, detendo gente, invadindo. Era uma tarefa costumeira, a mesma que eu fizera com o material do que ocorreu no Parque. Tinha criado uma categoria nova no meu blog para isso: “Abuso de Autoridade.” Ange tentava novos termos de pesquisa para mim e quando sua mãe chegou em casa, minha nova categoria tinha 70 postagens, começando com a queda do general Geist na prefeitura.

#

Trabalhei no meu projeto escolar todo o dia seguinte em casa, lendo Keuroac e surfando na Xnet. Planejava encontrar Ange na escola, mas estava temeroso de encontrar Van de novo então usei a desculpa de estar fazendo o trabalho.
Todo tipo de ótimas sugestões chegavam pelo “Abuso de Autoridade”; centenas de grandes e pequenas fotos e vídeos e áudio. O meme estava se alastrando.
E se alastrou. Na manhã seguinte havia mais.
Alguém começara um novo blog chamado AbusosdeAutoridade que juntava mais e mais. A coisa crescia. Encontramos as histórias mais interessantes e as fotos mais loucas.

O combinado com meus pais era que eu tinha que tomar o café da manhã com eles e falar sobre como estava meu projeto. Eles gostaram de saber que eu estava lendo Kerouac. Tinha sido o livro favorito deles dois e tinha um exemplar na estante do quarto deles. Meu pai o pegou e o mostrou para mim. Havia passagens marcadas a caneta, páginas com orelhas dobradas, notas nas margens. Meu pai realmente amava aquele livro.

Isso me fez lembrar dos bons tempos em que ele e eu podíamos conversar por mais de cinco minutos sem gritar um com o outro sobre terrorismo e tivemos um ótimo café da manhã conversando sobre o jeito que o romance foi escrito e todas as loucas aventuras nele.
Mas na manhã do dia seguinte ambos estavam grudados ao radio.

"‘Abusosdeautoridade’ é a última loucura da notória rede Xnet de São Francisco e capturou a atenção mundial. Chamado de A-oh-A, o movimento é composto de ‘Pequenos Irmãos’, que observam as medidas anti-terrorismo do DHS, documentando as falhas e excessos. O videoclipe mais popular e viral é o do General Geist, um general três estrelas aposentado, sendo atacado pelos homens do DHS na calçada em frente da Prefeitura. Geist não comentou sobre o incidente, mas os comentários dos jovens irritados com a maneira que estão sendo tratados foram rápidos e furiosos.”

“Mais notável é a atenção global que o movimento está recebendo. Fotos do vídeo de Geist apareceram nas páginas dos jornais da Coréia, da Grã Bretanha, Alemanha, Egito e Japão, e as redes de notícias ao redor do mundo passaram o clipe em seus telejornais em horário nobre. A matéria alcançou seu ponto alto quando na última noite, o jornal da noite da BBC em edição nacional exibiu uma reportagem sobre o fato de que nenhuma rede americana de notícias tinha coberto a história. Comenta-se que o web site da BBC em sua versão Americana também não fala sobre o caso.”

A seguir uma série de entrevistas foi mostrada: Os cães de guarda da mídia britânica, um garoto do Pirate Party sueco que fez comentários zombando da imprensa corrupta Americana, um jornalista Americano aposentado vivendo em Tókio - e então exibiram um clipe curto do Al-Jazeera, comparando a imprensa Americana com a da Síria.

Senti que meus pais me encaravam, como se soubessem o que eu estava fazendo. Mas quando acabei de comer e fui lavar meu prato, percebi que estavam olhando um para o outro.
Papai segurava a xícara de café com tanta força que suas mãos tremiam. Mamãe olhava para mim.
“Estão tentando nos desacreditar!” ele disse, finalmente. “Tentam sabotar os esforços para a nossa segurança.”

Abri minha boca, mas mamãe me olhou e balançou negativamente a cabeça. Ao invés disso eu subi para o quarto e trabalhei no meu ensaio sobre Keuroac. Depois que ouvi a porta de casa bater duas vezes, liguei meu Xbox e me conectei.

>Olá M1k3y. Sou Colin Brown. Sou produtor do novo programa da CBC (Canadian Broadcasting Corporation) chamado The National. Estamos fazendo uma matéria sobre a Xnet e mandamos um repórter para São Francisco, para fazer a cobertura daí. Você estaria interessado em participar de uma entrevista para discutir sobre seu grupo e suas ações?
Fiquei olhando para a tela. Jesus Cristo, queriam me entrevistar sobre o “meu grupo”.
>Não obrigado. É uma questão de privacidade. E não é o “meu grupo”. Mas obrigado por fazerem a história.
Um minuto depois, outra mensagem.
>Podemos mascará-lo e garantir seu anonimato. Você sabe que o DHS ficará feliz em providenciar seu próprio representante. Estou interessado em ouvir também o seu lado.
Arquivei sua mensagem. Ele estava certo, mas era loucura fazer isso. Para mim ele era da DHS.
Li mais sobre Keuroac. Outros emails chegaram. O mesmo pedido, mas de agências de notícias diferentes. A KQED queria que eu fosse a uma entrevista no rádio. Uma estação no Brasil. A rede de notícias da Austrália. Deutsche Welle. O dia inteiro foi assim. E eu educadamente respondia que não.
Não consegui avançar com a leitura do Keuroac naquele dia.

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“Convoque uma coletiva para a imprensa.” foi o que Ange disse quando estávamos no café perto de sua casa naquela noite. Eu não iria nunca mais ao seu colégio, com medo de ficar preso num ônibus com Van.
“O quê? Ficou maluca?”
“Você pode fazer isso pela Clockwork Plunder. Escolha uma área onde não tenha PvP habilitado e marque uma hora. Você pode se logar daqui.”

PvP é combate Player-versus-Player (Jogador contra Jogador). Havia partes do Clockwork Plunder onde teoricamente se podia falar, sem a interferência dos outros jogadores.
“Eu não sei nada sobre conferências de imprensa.”
“Ah, faça uma pesquisa no Google. Tenho certeza que alguém escreveu um artigo sobre a maneira de se fazer uma com sucesso. Quero dizer, se o Presidente consegue, tenho certeza que você pode também. E ele mal consegue amarrar os sapatos sem ajuda.”
Pedimos mais café.
“Você é uma mulher muito esperta.” eu disse.
“E bonita.” Ela completou.
“Isso também.”



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