sábado, 27 de fevereiro de 2010

Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 18

CAPÍTULO 18
Este capítulo é dedicado a Sophia Books, uma diferente e excitante loja multi-idiomas de Vancouver, cheia do que há de melhor, mais estranho e excitante, em matéria de cultura pop mundial de vários países. Sophia fica numa esquina próximo ao hotel que fiquei quando fui a Vancouver dar uma palestra na Simon Frazer University e o pessoal da Sophia entrou em contato comigo pedindo que autografasse alguns dos meus livros em seu estoque, quando estivesse por perto. Quando fui lá, descobri um tesouro de trabalhos nunca antes vistos em diversas línguas desde graphic novels (quadrinhos) a pesquisas acadêmicas organizada pelo seu pessoal simpático que visivelmente gostava de seu trabalho e que o difundia com qualquer um que estresse por suas portas.
Sophia Books: 450 West Hastings St., Vancouver, BC Canada V6B1L1 +1 604 684 0484

Houve um tempo em que o meu maior divertimento no mundo era colocar uma capa e ir a hotéis, fingindo ser um vampiro invisível pra quem me encarava.

É complicado, mas não tão estranho quanto parece. A cena LARP (ação ao vivo, uma evolução do RPG) combina os melhores aspectos do RPG com clube de teatro e que rola nas convenções de Sci-Fi.
Compreendo que não parece tão atraente para você quando era para mim aos 14 anos.
Os melhores jogos eram aqueles que aconteciam fora da cidade, nos acampamentos para escoteiros: uma centena de adolescentes, meninos e meninas, trocando histórias em meio ao trânsito caótico de sexta, com seus videojogos portáteis, se exibindo por horas.  Então desembarcávamos num gramado frente a um grupo de homens e mulheres durões e mais velhos, vestidos com armaduras caseiras, dentadas e horrendas, como deviam ser nos velhos tempos, não daquelas que vemos nos filmes, mas o uniforme de um soldado depois de um mês no mato.

Estas pessoas eram pagas para comandar os jogos, mas você não consegue um emprego destes se não é o tipo de cara que faria isso mesmo de graça. Eles então nos dividiam em times, baseados nos formulários que preenchemos antes e então somos apresentados às equipes, como numa escolha de times de basebol.
Ai você recebe os pacotes com as instruções. São como as orientações dadas aos espiões do cinema: aqui está sua identidade, sua Missão e os segredos que sabe sobre o grupo.

Dali você vai jantar: comida quase pronta, carne em espeto, tofu grelhado (é o norte da Califórnia e uma opção vegetariana não era opcional) o tipo de comida e bebida que só pode ser classificada como divertida.
Nesta hora os garotos já entraram em seus personagens. Eu fui um mago em meu primeiro jogo. Eu tinha um saco de feijões, que eram os encantos; quando atirava um deles, eu podia gritar o nome do feitiço escolhido, como “bola de fogo”, “míssil mágico” ou “cone de luz” e o outro jogador ou “monstro” tinha que fingir ter recebido o encanto. Ou não - às vezes era preciso chamar um juiz para intermediar, mas na maioria das vezes, todos sabíamos o espírito do jogo. Ninguém gostava de um sujeito que não sabia brincar.

Lá pela hora de dormir, já estávamos totalmente dentro dos personagens. Aos 14 anos eu não tinha tanta certeza de como um mago deveria ser, mas eu tirava as pistas dos filmes e romances. Eu falava devagar, com entonação calculada, mantendo uma expressão mística no rosto e tendo pensamentos místicos.
A Missão era complicada: eu devia recuperar uma relíquia sagrada que tinha sido roubada por um ogro que estava subjugando as pessoas de um povoado. A coisa toda não importava tanto. O que importava era que eu tinha uma Missão particular, capturar um certo tipo de pequeno demônio que seria meu ajudante e eu também tinha um inimigo secreto, outro jogador do time que tinha estado numa batalha onde minha família tinha sido morta quando eu era garoto, um jogador que não sabia que eu tinha voltado atrás de vingança. Em algum lugar, é claro, havia outros jogadores com o mesmo ressentimento contra mim. Então mesmo se eu estivesse gostando da camaradagem do time, teria sempre que manter um olho aberto para facas nas costas e venenos na comida.

Nos dois dias seguintes nós jogávamos ao ar livre. Havia partes dos finais de semana que praticávamos uma espécie de esconde-esconde, algumas eram como exercícios de sobrevivência na vida selvagem, outras eram como resolver charadas. Os senhores dos jogos faziam um ótimo trabalho.
E você realmente fazia amizade com outras pessoas na Missão. Darryl fora o alvo de meu primeiro assassinato e eu tive que cumprir minha Missão mesmo ele sendo meu amigo. Um cara legal. Que vergonha ter que matá-lo.  Eu o acertei com uma bola de fogo enquanto ele procurava por um tesouro, depois de nós acabarmos com um bando de orcs, jogando pedra-papel-e-tesoura com cada orc para decidir quem prevaleceria no combate. Isso é bem mais excitante do que parece.
Era mais como um acampamento de verão com teatro para geeks. Conversávamos ate tarde nas tendas, olhávamos estrelas, saltávamos no rio quando fazia calor, matávamos muitos mosquitos. Nos tornávamos melhores amigos ou inimigos eternos.
Eu não sabia o motivo dos pais de Charlie terem mandado ele para um evento assim. Ele não era o tipo de cara que realmente gosta destas coisas. Ele era mais o tipo que gosta de arrancar asas de insetos. Ou não. Mas ele não ficava disfarçado na floresta. Ele passava a maior parte do tempo vagabundeando, atormentando alguém ou tentando nos convencer de que não era tão divertido quanto nós acreditávamos. Você não tem duvidas de que este tipo de pessoa depois será o tipo de pessoa que garante que você vai passar por maus bocados.

Outra coisa sobre Charlie era que ele não entendia o lance das batalhas simuladas. Quando você começa a correr pelo mato, brincando destes elaborados jogos semi-militares, é fácil ficar com a adrenalina a toda ao ponto de estar pronto para estraçalhar a garganta de alguém. Isso não é muito legal quando se carrega uma espada teatral, uma clava ou lança ou outro utensílio. É por isso que ninguém pode acertar outra pessoa, sob nenhuma circunstância, nestes jogos. Quando você está prestes a guerrear com alguém, você faz um rápido pedra-papel-tesoura com alguma modificação, baseada na sua experiência, armamentos ou condições. Os juízes mediam a disputa. É bem civilizado e um pouco estranho. Você sai correndo atrás de alguém na floresta, o captura e então senta-se para jogar pedra-papel-tesoura. Mas funciona e mantém todos seguros e alegres.

Charles não via graça na coisa. Eu que ele era achava perfeitamente capaz de entender que a regra proibia contato, mas ele simplesmente decidia que as regras não importavam e que não iria cooperar. Os juízes o chamavam num canto várias vezes ao longo dos finais de semana e ele prometia que não faria mais besteiras e sempre fazia de novo. Ele já era grande na época, um dos maiores garotos do grupo, e ele acabava sempre acertando você ao final de uma perseguição. Não tem graça ser jogado ao chão pedregoso da floresta.
Eu tinha cercado Darryl numa clareira onde ele estivera procurando por tesouros e estávamos rindo após minha extrema e cuidadosa aproximação. Ele iria ser transformado em monstro - jogadores que eram mortos podiam virar monstros, o que significa que quanto mais se joga, mais monstros surgem te perseguindo, fazendo assim que todos continuem jogando e as batalhas se tornem mais e mais épicas.
Foi aí que Charles saiu do mato pro trás e me empurrou me jogando ao chão com tanta força que fiquem sem respiração por um instante. “Te peguei!”ele gritou. Eu só o tinha visto brevemente antes disso e não tinha me preocupado muito, mas agora eu estava pronto para matá-lo. Eu me levantei bem devagar enquanto ele gritava: “Tá morto! Te peguei de verdade!”
Eu sorri e algo pareceu errado com meu rosto. Toquei minha boca. Sangrava. Meu nariz sangrava e meu lábio tinha sido cortado ao bater numa raiz ao bater com a cara ao chão.
Limpei o sangue e sorri. Fiz parecer que estava divertido com isso. Ri um pouco. Fui na direção dele.
Charles não era fácil de se enganar. Já tinha se afastado, tentando sumir no mato. Darryl tinha se movido para alcançá-lo pelo flanco. De repente ele se virou e correu. O pé de Darryl o acertou no tornozelo e o derrubou. Nós corremos, no mesmo instante que ouvimos o apito dos juízes.
O juiz não tinha visto Charles me atacar, mas tinha visto o que Charles fizera todo o fim de semana. Ele mandou Charles para a sede do acampamento e disse que ele estava fora do jogo. Charles se queixou bastante, mas para nossa satisfação, o juiz não voltou atrás. Charles teria que ir embora, mas também ouvimos um sermão, por conta da nossa retaliação não ser mais justificável do que o ataque de Charles.
Mas foi tudo bem. Naquela noite, quando os jogos acabaram, nós todos fomos tomar banho quente nas tendas dormitórios. Darryl e eu roubamos as roupas e toalhas de Charles. Amarramos tudo com nós e as atiramos dentro da privada. Um monte de outros meninos ficaram felizes em contribuir. Charles era muito entusiasmado com esta coisa de derrubar os outros.
Gostaria de poder ter visto a cara dele, quando ele saiu dos chuveiros e descobriu onde tinha ido parar suas roupas. Será que foi uma decisão difícil ter que escolher entre correr pelado através do acampamento ou pegar suas roupas mijadas e as vesti-las assim mesmo?
Ele escolheu correr nu. Eu provavelmente escolheria o mesmo. Fizemos uma fila dupla dos chuveiros até as cabanas onde ficavam guardadas as coisas e o aplaudimos. Eu estava bem na frente da fila, comandando os aplausos.

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Os acampamentos ocorriam apenas três ou quatro vezes por ano, o que deixava Darryl e eu - e um monte de outros jogadores - com uma séria deficiência de LARP em nossas vidas.
Por sorte havia os jogos Wretched Daylight (Infelizes à luz do dia) que aconteciam nos hotéis da cidade.
Wretched Daylight era outro tipo de LARP, clãs de vampiros rivais aos vampiros caçadores e tinha suas próprias e excêntricas regras. Os jogadores tinham cartões que os ajudavam a decidir batalhas, de forma que cada conflito envolvia o conhecimento da estratégia comum de jogos de cartões. Os vampiros podiam se tornar invisíveis ao cruzar os braços sobre o peito e todos os outros jogadores tinham que fingir que não os viam, continuando com suas conversas e planos. O teste verdadeiro de um bom jogador era se você era honesto o bastante para continuar falando sobre seus planos secretos mesmo em frente a um rival sem agir como se soubesse que ele estava presente.

Havia um par de eventos como este a cada mês. Os organizadores tinham um bom relacionamento com os donos dos hotéis da cidade e eles sabiam que teriam que disponibilizar dez quartos sem reservas na sexta à noite e que estariam cheios de jogadores que correriam pelo hotel, brincando pelos corredores, ao redor das piscinas e por ai vai, comendo no restaurante do hotel e usando a internet WiFi paga do hotel. Eles fechavam as reservas na sexta pela tarde, nos mandavam emails e saíamos direto da escola para qualquer hotel que fosse, levando nossas mochilas, dormindo com outras seis ou oito pessoas num quarto por todo o final de semana, vivendo de junk-food e brincando até as três da manha. Era bom, diversão segura que agradava nossos pais.

Os organizadores eram de uma conhecida organização de caridade que ensinava crianças a escrever em workshops, de teatro e coisa e tal. Eles organizavam os jogos há dez anos sem nenhum incidente. Era estritamente proibido o uso de bebidas alcoólicas e drogas, o que mantinha os organizadores livres de alguma acusação de corrupção de menores. Éramos de dez a uma centena de jogadores, dependendo do final de semana e o preço era de duas entradas para o cinema para ter dois dias e meio de muita diversão.
Um dia eles tiveram a sorte de conseguir alguns quartos no Monaco, um hotel em Terderloin que atendia a turistas idosos ligados à arte, o tipo de lugar em que cada quarto tem um aquário e onde no lobby se encontram pessoas velhas bem vestidas, exibindo o resultado de suas plásticas.
Normalmente, os mundanos - nossa palavra para não jogadores - nos ignoravam, como se fôssemos garotos sem juízo. Mas naquele fim de semana coincidiu de um editor de uma revista italiana de viagens estar no hotel, e isso tornou as coisas mais interessantes. Ele havia me visto no canto enquanto eu espreitava o lobby, esperando agarrar o master do clã de meus rivais e pular sobre ele para sugar todo seu sangue. Eu estava junto da parede com meus braços cruzando meu peito, invisível, quando ele veio até mim e me perguntou com seu sotaque inglês, o que eu e meus amigos fazíamos naquele hotel no fim de semana?
Tentei afastá-lo dali, mas ele não saía do lugar. Então eu pensei que precisava fazer algo esquisito e ele iria embora.
Não imaginei que ele iria me publicar. Eu realmente não me imaginei aparecendo na Américan Press.
“Estamos aqui por que nosso príncipe morreu e viemos buscar um outro líder.”
“Um príncipe?”
“Sim. Nós somos os Antigos. Viemos para a América no século 16 e temos nossa própria família real pelos campos da Pensilvânia deste então. Vivemos de forma simples na floresta. Não usamos tecnologia moderna. Mas o príncipe era o último de sua linhagem e ele morreu semana passada. Alguma doença terrível o consumiu. Os jovens do meu clã saíram para procurar os descendentes, que haviam partido e se misturado às pessoas modernas na época de meu avô. Nós encontraremos o último de sua estirpe e o levaremos de volta ao lar de direito.”
Eu lia um monte de livros de fantasia. Aquele era o tipo de coisa que eu facilmente diria.
“Achamos uma mulher que conhecia os descendentes. Ela nos disse que um deles estaria neste hotel e viemos procurá-lo. Porém, fomos rastreados por nosso clã rival que quer impedir que encontremos nosso príncipe, para que fiquemos fracos e fáceis de dominar. Por isso é vital ficarmos em segredo. Não falamos com os Novos. Falar com você me causa grande desconforto.”
Ele me olhava interessado. Eu tinha descruzado os braços,  o que significaria dizer que estava visível de novo para os vampiros rivais, e um deles havia se esgueirado sorrateiro atrás de nós. No último instante eu me virei e a vi com os braços erguidos, sibilando para nós, nos vampirizando no maior estilo.
Eu joguei meus braços pro alto e sibilei de volta para ela, e me joguei atrás de um sofá de couro do lobby escondendo-me atrás de um vaso de plantas, obrigando-a a vir atrás de mim. Descobri uma rota de fuga pelas escadas que levavam a academia do hotel e parti para lá.
Não o vi mais naquele final de semana, mas contei minha história para colegas de LARP que acabaram aumentando a historia e contando para outros durante o fim de semana.
A revista italiana tinha um funcionário especializado naquelas comunidades anti-tecnologia, amish, na área rural da Pensilvânia e ela achou que nossa história muito interessante. Baseado em notas e entrevistas gravadas de seu patrão da sua viagem por São Francisco, ela escreveu um fascinante artigo sobre este estranho culto juvenil que atravessava a América em busca de seu príncipe. Caramba, as pessoas publicam qualquer coisa hoje em dia.

Mas o que aconteceu depois foi que as histórias foram copiadas e republicadas. Primeiro por bloggers italianos, depois por bloggers Americanos. Pessoas por todo o pais reportavam ter visto aparições dos “Antigos” ou porque havia algumas pessoas fazendo isso por aí ou porque outros brincavam do mesmo jogo. Não sei.
Isso funcionou bem para a mídia, chegando até o New York Times, que infelizmente tem o apetite pouco sadio de checar os fatos. O repórter que colocaram na história eventualmente chegou ao hotel Monaco que os colocou em contato com os organizadores de LARP, que riram bastante daquela história toda.
Bem, naquele ponto, este tipo de jogo tinha se tornado não muito legal. Ficamos conhecidos por espalhar boatos pela nação, como esquisitos e mentirosos patológicos. A imprensa que havia inadvertidamente disparado a cobertura da historia dos “Antigos” agora estava interessada em se redimir com reportagens sobre como os jogadores de LARP eram incrivelmente esquisitos e foi aí que Charles fez todos na escola saberem que eu e Darryl éramos os maiores jogadores da cidade.
Não foi um bom período. Alguns não se importaram, mas nós sim. A provocação era sem tréguas e Charles a comandava. Achei presas de plástico na minha bolsa e as crianças quando eu passava pelo corredor, começavam a fazer “ble ble” como um vampiro de desenhos animados ou falavam imitando um sotaque transilvânico, quando eu estava por perto.
Logo nós passamos a praticar o ARG. Era mais divertido de certo jeito e bem menos esquisito. Mesmo agora, sinto falta da minha capa e dos fins de semana nos hotéis.

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O oposto ao esprit d’escaler é o jeito que os embaraços da vida voltam a nos assombrar mesmo apos muito tempo decorrido. Eu conseguia lembrar de cada coisa estúpida que eu tinha feito ou dito, conseguia ver o quadro perfeitamente claro. Sempre que me sentia mal, eu naturalmente começava a me lembrar de outros tempos em que me senti daquele jeito, um hit-parade de humilhações vinha um atrás de outro na minha cabeça.

Enquanto tentava me concentrar em Masha e meu fim iminente, o incidente com os “Antigos” ficou voltando para me assombrar. Tinha sido bem parecido, e doentio, o sentimento de que tudo estava perdido, quanto mais e mais a imprensa publicava a historia, assim como a verossimilhança de alguém que descobrisse que tinha sido eu que espalhara a historia para o estúpido editor italiano com seus jeans feito sob medida, a camisa engomada sem colarinho e aqueles óculos de metal imensos.
Existia uma alternativa a insistir em nossos erros. Você pode aprender com eles.
É uma boa teoria. Talvez a razão do nosso subconsciente escavar atrás destes fantasmas miseráveis  é que ele precisa trazê-los à vista antes de que possam descansar em paz da humilhação no pós-vida.  Meu subconsciente costumava me visitar com fantasmas na esperança de que eu os deixasse descansar em paz.
Por todo o caminho para casa, fiquei com isso na memória, com a idéia de que eu deveria fazer sobre Masha no caso dela estar mentindo para mim. Eu precisava de alguma garantia.
Ao chegar em casa - para ser melancolicamente abraçado por minha mãe e meu pai, eu já sabia o que fazer.

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O truque era fazer a coisa tão rápido que não desse tempo a DHS de se preparar, mas o bastante para que a Xnet tivesse tempo para se revigorar.
O truque era ter tanta gente presente que seria impossível prender a todos e num lugar onde toda imprensa pudesse ver e os adultos, assim o DHS não poderia usar mais o gás.
O truque era fazer a coisa de forma a ser amigável para a mídia, como a levitação do Pentágono. O truque era preparar algo onde pudéssemos nos reunir ao redor, como 3 mil estudantes de Berkeley se recusando a deixar um dos seus ser colocado numa viatura policial.
O truque era colocar a imprensa lá, pronta para mostrar o que a polícia fez, do jeito que fizeram em 1968 em Chicago.
Seria um truque e tanto.
Sai da escola uma hora antes no dia seguinte, usando minhas técnicas costumeiras de escapar da escola, sem me importar se isso não dispararia algum tipo novo de dispositivo do DHS e que poderia resultar que meus pais recebessem um aviso.
De um jeito ou de outro o último problema de meus pais depois de amanhã seria se eu estive metido com alguma confusão na escola.
Encontrei com Ange em sua casa. Ela tinha saído ainda mais cedo da escola, ela tinha fingido estar sofrendo de cólicas e a mandaram logo para casa. 
Começamos a espalhar a ordem pela Xnet. Nós mandamos em email para amigos de confiança e para nossos camaradas nas listas de IM. Espalhamos pelos deques e cidades de Clockwork Plunder e contamos para nossos colegas de jogo. Dar às pessoas informação o bastante de maneira que eles pudessem fazer a coisa acontecer, mas não o bastante para que a DHS percebesse ser um truque.

>VAMPMOB AMANHÃ
> Se você é um gótico, vista-se para arrasar. Se não é, procure um e peça emprestadas algumas roupas. Pense como um vampiro.
> O jogo começa as 8:00 da manhã em ponto. Em ponto. Esteja lá e pronto para a divisão das equipes. O jogo vai durar 30 minutos, então você terá tempo o bastante para ir a escola depois.
> A localização será revelada amanhã. Mande sua chave publica por email para m1k3y@littlebrother.pirateparty.org.se e cheque suas mensagens às 7 da manhã. Se for cedo demais para você, fique acordado a noite toda. É o que nós faremos!
>Será a coisa mais divertida deste ano inteiro, garantido.
> Acredite.
> M1k3y.

Então mandei um email para Masha.
> Amanhã. M1k3y.
Um minuto depois a resposta dela.
> Eu imaginava. VampMob né? Você trabalha rápido. Use um chapéu vermelho. Não leve muita coisa.

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O que você leva com você quando vai fugir? Eu já havia carregado muitas mochilas pesadas em acampamentos de escoteiros para saber que cada quilo que você carrega vai ferir seus ombros com toda a força da gravidade a cada passo seu - e não parecerá só um quilo depois de um milhão de passos, mas uma tonelada.
“Certo.” disse Ange. “Muito esperto. E nunca se leva mais do que uma muda de roupa para três dias. Você pode lavar coisas na pia. melhor ter uma mancha na camisa do que numa mala grande e pesada demais para se colocar sob o assento do avião.”
Ela pegou uma bolsa de entregas de nylon balístico que vestia pelo peito, entre os seios - o que me fez suar um pouco - e amarrava na diagonal nas costas. Era bem espaçosa dentro. Tirou-a, deixou sobre a cama e agora começou a empilhar roupas ao lado dela.
“Acho que três camisas, um par de calças, um par de shorts, três mudas de roupas intimas, três pares de meias e um suéter bastam.”
Tirou de sua sacola de ginástica seus apetrechos de toalete. “Tenho que me lembrar de guardar minha escova de dentes amanha de manhã antes de irmos até o Centro Cívico.”
Vê-la fazer a mala foi impressionante. Ela era direta. Também era meio assustador - me fez perceber que no dia seguinte eu estaria partindo. Talvez por muito tempo. Talvez para sempre.
“Levo meu Xbox? Tenho uma tonelada de coisas no disco rígido, mensagens e rascunhos e email. Não gostaria que caísse nas mãos erradas.” Ela perguntou.
“Está tudo criptografado.” eu disse. “Isso é algo que não precisa se preocupar com o ParanoidXbox. Pode deixar aqui, deve ter um monte deles em L.A. Basta criar uma conta no Pirate Party e mandar por email uma imagem do seu disco rígido para você mesma. Vou fazer o mesmo quando chegar em casa.”
Ela fez e mandou por email. Levaria algumas horas para que todos os dados subissem pela rede WiFi de seu vizinho e chegar a Suécia.
Então ela fechou a mala e amarrou a tiras com força. Ficou do tamanho de uma bola de voleibol nas suas costas, e eu continuava admirado com ela. Ela podia sair por aí com aquilo e ninguém a olharia uma segunda vez. Parecia estar a caminho da escola.
“Mais uma coisa.” ela disse, e foi até a lateral da sua cama e pegou os preservativos. Arranjou um lugar na bolsa para eles e então me deu um tapinha na bunda.
“E agora?” perguntei.
“Agora vamos até a sua casa e você arruma suas coisas. Já é hora de eu conhecer seus pais, não é?”
Ela deixou a bolsa no chão entre as pilhas de roupa e todo lixo espalhado. Ela estava pronta para dar as costas a tudo isso, simplesmente ir embora, apenas para ficar comigo. Apenas para apoiar a causa. Isso fez com que também me sentisse corajoso.

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Mamãe já estava em casa quando cheguei. Estava com o laptop aberto na mesa da cozinha e respondia um email enquanto falava por um headset conectado a ele, ajudando algum pobre filho de York e sua família a se aclimatar a vida na Louisiana.
Entrei e Ange me seguiu, sorrindo feito louca, mas segurando minha mão tão firme que eu sentia os ossos sendo esmagados. Eu não sabia por que estava tão preocupada. Não era como se tivesse que passar muito tempo com meus pais, mesmo se fosse péssimo.
Mamãe acabara a ligação quando chegamos.
“Oi, Marcus.” ela disse me dando um beijo no rosto. “E quem é ela?”
“Mãe, esta é Ange. Ange, está é minha mãe, Lillian.” Mamãe deu um abraço em Ange.
“É muito bom te conhecer, senhora Yallow.” ela disse. Parecia muito confiante. Muito melhor do que eu ao conhecer sua mãe.
“É Lilian, meu amor. Você vai ficar para jantar?”
“Eu adoraria.”
“Você come carne?” Mamãe estava bem acostumada à vida na Califórnia.
“Como qualquer coisa que não me coma antes.” ela disse.
“Ela é adepta dos molhos apimentados.” eu disse. “Pode servir pneus velhos e ela vai comê-los se puder mergulhar em molho.”
Ange socou-me gentilmente no ombro.
“Vou pedir comida tailandesa.” disse mamãe. “E vou acrescentar um par daqueles pratos tipo cinco-chili.”
Ange agradeceu educadamente e mamãe foi pegar copos de suco e um prato de biscoito para a gente, e perguntou por três vezes se queríamos chá.  Fiquei um pouco constrangido com isso.
“Obrigado, mãe.Vamos subir para o quarto um pouco.”
Os olhos de minha mãe se apertaram um segundo e ela sorriu de novo: “É claro, seu pai vai estar em casa daqui a uma hora e então jantaremos com ele.”
Eu tinha guardado minhas coisas de vampiro nos fundos do armário. Deixei Ange separando as coisas enquanto fui arrumar as roupas. Eu estava indo para Los Angeles. Eles tinham lojas por lá, toda roupa que eu pudesse precisar. Precisava levar poucas coisas, um par de jeans, um desodorante, fio dental.
“Dinheiro!” eu disse.
“Sim. Vou limpar minha conta de banco, no caminho de casa tem um caixa eletrônico. Acho que tenho guardados uns quinhentos dólares.”
“Sério?”
“No que eu iria gastar? Desde que entrei na Xnet eu sequer pago internet.”
“Acho que tenho uns trezentos.”
“Bem. Pode pegar no caminho do Centro Cívico pela manhã.”
Eu tinha uma mochila das grandes que eu usava para carregar meus aparelhos pela cidade. Era menos suspeita que minha mochila de acampamento.
Quando terminei e coloquei-a sob a cama, nos sentamos.
“Temos que acordar realmente cedo amanhã.” ela disse.
“É, vai ser um dia cheio.”
O plano era mandar várias mensagens falsas dizendo onde o VampMob aconteceria, mandando as pessoas para vários pontos que ficassem a poucos minutos de caminhada do Centro Cívico. Cortamos um papel como estêncil para usar com tinta em spray com os dizeres “VAMPMOB CENTRO CÍVICO ->” e teríamos que pintá-los nesses lugares por volta das 5 da manhã. Isso evitaria que o DHS fechasse o centro Cívico antes de chegarmos lá. Eu já tinha uma mensagem pronta para ser enviada às 7 da manhã, era só deixar o Xbox ligado quando eu saísse de casa.
“Quanto tempo…” ela começou a dizer.
“Eu também estava pensando nisso. Poderá ser por muito tempo, eu acho. Mas quem sabe? Com o artigo de Barbara sendo publicado…” Eu enviaria um email para ela também no dia seguinte. “E quem sabe nós nos tornemos heróis em duas semanas.”
“Talvez.” ela disse e sorriu.
Coloquei meu braço ao redor de seus ombros. Ela tremia.
“Estou assustado prá caramba. Seria loucura se não estivesse.”
“É sim.”
Mamãe nos chamou para jantar. Papai apertou a mão de Ange. Ele estava sem se barbear e parecia preocupado, do mesmo jeito que estava desde que vimos Barbara, mas, ao encontrar Ange, um pouco do meu velho pai reapareceu. Beijou Ange na bochecha e insistiu que o chamasse de Drew.
O jantar foi muito bom. O gelo se quebrou quando Ange tirou seu molho de pimenta particular e caprichou em seu prato e explicou sobre a escala Scoville. Papai experimentou uma garfada e teve que correr para a cozinha e beber um galão de leite. Acredite ou não, mamãe também provou depois disso e adorou. Mamãe era um prodígio não descoberto na área das comidas apimentadas, com um dom natural.
Antes de ir embora, Ange deu seu molho especial para Mamãe. “Eu tenho uma reserva em casa. Você me parece o tipo de mulher que deveria ter um destes.”

 
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