quarta-feira, 21 de abril de 2010

Como construir um universo que não desmorone dois dias depois - Philip K. Dick (3/5)



Em 1974, meu livro 'Flow my tears, the policeman said' foi publicado pela Doubleday.
Uma tarde, eu estava conversando com meu pastor - eu sou anglicano - e aconteceu de eu falar com ele uma importante cena perto do final do livro em que o personagem Felix Buckman encontra um estranho em um posto de gasolina 24 horas e eles começam a conversar. Como eu descrevi a cena em detalhes , o pastor ficou cada vez mais agitado, até que, no final da minha história, ele disse: "Isso é uma cena do livro de Atos dos Apóstolos*, da Bíblia!" Em Atos, a pessoa que atende o negro na estrada se chama Felipe - o seu nome. Padre Rasch ficou tão chateado pela semelhança que não conseguiu localizar a cena em sua Bíblia. "Leia Atos dos Apóstolos," ele me instruiu. "E você vai concordar. É a mesma coisa até em detalhes específicos." 

Fui para casa e li a cena descrita em Atos dos Apóstolos. Sim, Padre Rasch estava certo: a cena em meu romance foi um remake óbvio da cena bíblica... e eu nunca tinha lido Atos, devo admitir. Mas novamente o quebra-cabeça se tornou mais profundo.

Em Atos, o oficial romano que prende e interroga São Paulo se chama Felix - o mesmo nome do meu personagem. E meu personagem Felix Buckman é da polícia. Há uma conversa, em meu romance, que se assemelha muito a uma conversa entre Felix e São Paulo. 

O personagem principal do meu romance se chama Jason. Olhei a Bíblia para ver se alguém chamado Jason aparece. Eu não conseguia lembrar de nenhum. Bem, um homem chamado Jason aparece apenas uma única vez na Bíblia. É no livro de Atos dos Apóstolos. E, como se a me atormentar ainda mais com as coincidências, no meu romance Jason está fugindo das autoridades e se refugia na casa de uma pessoa - e no livro de Atos dos Apóstolos um homem chamado Jason dá refugio a um fugitivo da lei em sua casa - uma inversão exata do situação em meu romance, como se o Espírito misterioso responsável por tudo isso estivesse rindo da coisa toda. 

Felix, Jason, e a reunião na estrada com o homem negro que é um completo estranho.

No livro de Atos dos Apóstolos, o discípulo Felipe batiza o homem negro, que depois vai embora em regozijo. No meu romance, Felix Buckman recebe ajuda de um estranho. Sua irmã acaba de morrer e ele está desmoronando psicologicamente. O negro ajuda Buckman e ele, embora não vá embora em regozijo, pelo menos, parou de chorar. Buckman vai para casa, lamentando a morte de sua irmã, e teve de chegar a alguém, qualquer um, mesmo um desconhecido total. É um encontro entre dois estranhos na estrada  - e esse encontro muda a vida de um deles - tanto em meu romance e quanto em Atos dos Apóstolos. E um truque final do Espírito misterioso: o nome Felix é a palavra latina para "feliz". Que eu não sabia quando eu escrevi o romance. 

Um estudo cuidadoso do meu romance mostra que, por razões que não consigo nem começar a explicar, eu tinha conseguido recontar vários incidentes de base a partir de um determinado livro da Bíblia, e ainda dado os nomes certos. Como eu poderia explicar isso? Por quatro anos eu tentei encontrar uma teoria e não consegui. Duvido que consiga algum dia. 

Mas o mistério não tinha terminado ali, como eu tinha imaginado. Dois meses atrás eu estava indo até a caixa de correio à para colocar uma carta, e também para apreciar a vista da Igreja de Saint Joseph, que fica em frente do meu prédio. Notei um homem suspeito perto de um carro estacionado. Parecia que ele estava tentando roubar o carro, ou talvez roubar algo de dentro dele; quando voltei o homem se escondeu atrás de uma árvore. Num impulso eu fui até ele e perguntei: "Aconteceu alguma coisa?" 
"Eu estou sem gasolina", disse o homem. "E eu não tenho dinheiro." 

Incrivelmente, porque eu nunca fiz isso antes, peguei a minha carteira, e lhe entreguei todo o dinheiro. Ele então apertou minha mão e perguntou onde eu morava, para que pudesse me pagar mais tarde. Voltei para meu apartamento, e então eu percebi que o dinheiro não lhe adiantaria nada, pois não havia nenhum posto de gasolina por perto. Então voltei, no meu carro. O homem tinha um recipiente no porta-malas do seu carro e fomos juntos, no meu carro a um posto de gasolina 24 horas. Logo estávamos lá, dois estranhos, como a bomba enchendo o recipiente de metal. De repente percebi que esta era a cena em meu romance - o romance escrito oito anos antes. O posto de gasolina 24 horas era exatamente como eu tinha imaginado na minha visão interior, quando eu escrevi a cena - a luz brilhando branco, a bomba- e agora eu percebi algo que eu não tinha notado antes: o estranho que eu estava ajudando era negro. Voltamos para o carro com a gasolina, apertamos as mãos, e depois voltei para o meu prédio. Eu nunca mais o vi. Ele não podia me pagar porque eu não lhe disse meu endereço . Eu estava muito abalado por esta experiência. Eu tinha literalmente vivido uma cena completamente como havia aparecido em meu romance. O que quer dizer, eu tinha vivido uma espécie de réplica da cena descrita em Atos, onde Felipe encontra o homem negro na estrada. 

O que poderia explicar tudo isso?  

A resposta a que cheguei pode não ser correta, mas é a única resposta que eu tenho.

Tem a ver com o tempo. Minha teoria é a seguinte: em certo sentido, o tempo não é real. Ou talvez seja real, mas não sentimos que seja ou imaginamos que seja. Eu tinha a certeza esmagadora (e ainda tenho) de que, apesar de todas as mudanças que vemos, existe um panorama específico e permanente subjacente ao mundo em mudança, e que este é o da Bíblia;  especificamente, é o período imediatamente após a morte e ressurreição de Cristo. Ou, em outras palavras, é o período do Livro de Atos dos Apóstolos. 

Parmênides estaria orgulhoso de mim.

Ele olhava para um mundo em constante mudança e declarou que por baixo dele está o eterno, o imutável, o absolutamente real. Mas como foi que isso aconteceu? Se o tempo real é por volta de S0 DC, então porque vemos 1978 DC? E se estamos realmente vivendo no Império Romano, em algum lugar na Síria, por que vemos os Estados Unidos?
 
Durante a Idade Média, surgiu uma teoria curiosa. É a teoria de que o Mal Supremo - Satã - é o "macaco de Deus". Que ele cria falsas imitações da criação, de criação autêntica de Deus, e, em seguida, interpolá-los com a criação autêntica. Será que esta estranha teoria ajuda a explicar a minha experiência? Será que devemos acreditar que estamos sendo enganados, que não é 1978 mas 50 DC e Satanás criou uma realidade falsa para definhar a nossa fé no retorno de Cristo? 

Posso me imaginar sendo examinado por um psiquiatra. O psiquiatra diz: "Em que ano você está?" E eu respondo 50 DC. O psiquiatra pisca os olhos e em seguida, pergunta: "E onde você está?" Eu respondo, "na Judéia." "Onde diabos é isso?" pergunta o psiquiatra. "É parte do Império Romano", eu teria de responder. "Você sabe quem é o presidente?" o psiquiatra poderia perguntar, e eu respondia: "Felix". "Você está certo disso?" o psiquiatra poderia perguntar, entretanto, daria um sinal secreto para dois assistentes grandalhões. "Sim", eu respondo. "A menos que Felix tenha sido substituído por Festus. Você sabe, São Paulo foi preso por Felix... - "Quem lhe disse isso?" “o psiquiatra iria me interromper irritado, e eu responderia: "O Espírito Santo" . E depois eu estaria na sala branca, olhando para fora e sabendo exatamente como fui parar ali.

Tudo na conversa seria verdade, em certo sentido, embora não seja palpável ou verdadeiro em outro.

Sei perfeitamente que a data é 1978, e que Jimmy Carter é o presidente e que eu vivo em Santa Ana, Califórnia, nos Estados Unidos. Eu até sei como ir do meu apartamento para a Disneylândia, um fato que eu não consigo esquecer. E certamente não existia Disneylândia no tempo de São Paulo. 

Então, se eu me obrigar a ser muito racional e razoável, e todas as outras coisas boas, devo admitir que a existência de Disneylândia (que eu sei que é real) prova que não estamos vivendo na Judéia em 50 DC. A idéia de São Paulo girando nas xícaras gigantes enquanto escrevia a Primeira Carta aos Coríntios, como um documentário para a TV Paris sob uma lente teleobjetiva - simplesmente não pode existir.

São Paulo nunca chegaria perto da Disneylândia. Apenas as crianças, turistas e visitantes e altos funcionários soviéticos vão para a Disneylândia.
Santos não. 

Mas de alguma forma o material bíblico infiltrou-se no meu inconsciente e penetrou em meu romance, e igualmente verdadeiro, por algum motivo, em 1978, reviveu uma cena que descrevi nos idos de 1970.

O que estou dizendo é o seguinte: Não há provas internas em pelo menos um dos meus romances que uma outra realidade imutável, exatamente como Parmênides e Platão suspeitavam, subjaz ao mundo dos fenômenos, visível das mudanças, e de alguma forma, de alguma maneira, talvez para nossa surpresa, nós podemos atravessá-la. Ou melhor, um espírito misterioso pode colocar-nos em contato com ela, se quiser.

O tempo passa, milhares de anos passam, mas no mesmo instante em que vemos este mundo contemporâneo, o mundo antigo, o mundo da Bíblia, se esconde sob ele, está lá e ainda é real.

Eternamente assim. 


* Atos dos Apóstolos, cap 8, versículos 26-40