terça-feira, 6 de abril de 2010

Minority Report - Philip K. Dick



O PRIMEIRO PENSAMENTO que ocorreu a Anderton quando viu o rapaz foi: estou ficando careca. Careca, gordo e velho. Mas não disse isso em voz alta. Pelo contrário, afastou a cadeira, pôs-se de pé, e deu a volta na mesa, com a mão direita firmemente estendida.
Sorrindo com uma amabilidade forçada, apertou as mãos do rapaz.
Witwer? — perguntou, conseguindo soar simpático.
Isso mesmo — respondeu o rapaz. — Mas Ed para você, é claro. Quer dizer, se partilhar da minha aversão pela formalidade desnecessária. — A expressão em seu rosto louro, francamente confiante, mostrava que considerava o assunto encerrado. Seriam Ed e John: tudo seria
agradavelmente cooperativo desde o começo.
— Teve dificuldades em encontrar os edifícios ? — perguntou Anderton reservadamente, ignorando a apresentação excessivamente amigável. Cristo, ele tinha de se segurar em alguma coisa.
O medo abalou-o, e começou a transpirar. Witwer andava pelo escritório como se já fosse o seu dono — como se estivesse medindo o seu tamanho. Será que não podia esperar alguns dias, um intervalo decentes.
— Nenhuma — respondeu Witwer com júbilo, as mãos nos bolsos. Com ansiedade, examinou os arquivos volumosos que ocupavam a parede. — Não estou vindo no escuro à sua agência, você sabe. Tenho algumas idéias pessoais sobre como a Precrime é dirigida.
Nervoso, Anderton acendeu seu cachimbo.
Como é dirigida? Eu gostaria de saber.
Nada mal — disse Witwer. — Na verdade, muito bem.
Anderton olhou-o fixamente.
Para a sua opinião particular? Ou simplesmente um jargão?
Witwer encarou-o francamente.
— Particular e pública. O Senado está satisfeito com o seu trabalho. De fato, estão entusiasmados — acrescentou ele. — Tão entusiasmados quanto homens muito velhos podem ficar.
Anderton estremeceu, mas, externamente, permaneceu impassível No entanto, custou-lhe um esforço. Perguntou a si mesmo o que Witwer realmente achava. O que se passava, de fato, naquela cabeça com o cabelo à escovinha. Os olhos do rapaz eram azuis, brilhantes — e perturbadoramente
inteligentes. Witwer não era nenhum bobo. E, obviamente, tinha um bocado de ambição.
Pelo que entendi — disse Anderton com cautela —, você será o meu assistente até eu me aposentar.
Foi o que eu entendi também — replicou o outro sem hesitar nem por um instante.
O que pode acontecer este ano ou no próximo. Ou daqui a dez anos. — O cachimbo na mão de Anderton tremia. — Não estou sendo pressionado a me aposentar.
Fundei a Precrime e vou permanecer aqui o tempo que quiser.
É uma decisão minha, exclusivamente.
Witwer anuiu com a cabeça, a expressão ainda franca.
— É claro.
Com esforço, Anderton acalmou-se um pouco.
Só quis deixar as coisas claras.
Desde o começo — concordou Witwer. — Você é o chefe.
Você manda. – Demonstrando sinceridade, perguntou: — Importa-se de me mostrar a organização? Gostaria de me familiarizar com a rotina o quanto antes.
Ao passarem pelas salas cheias e sobrecarregadas de trabalho, com a sua iluminação amarelada, Anderton disse:
Você está a par da teoria da prevenção do crime, é claro.
Suponho que isto seja ponto pacífico.
A informação que tenho é a que está disponível publicamente — replicou Witwer. — Com a ajuda de seus mutantes precognitivos, você conseguiu, audaciosamente,abolir o sistema punitivo pós-crime de cadeias e multas.
Como todos sabemos, a punição nunca foi um grande impedimento, e provavelmente nunca ofereceu conforto à vítima já morta.
Tinham chegado ao elevador. Enquanto este os levava rapidamente para baixo, Anderton disse:
— Deve ter percebido o inconveniente legal básico da metodologia pré-crime. Prendemos indivíduos que nunca infringiram a lei.
Mas que certamente infringirão— afirmou Witwer com convicção.
Felizmente, não. Nós os pegamos primeiro, antes que cometam qualquer ato de violência. Desse modo a comissão do crime, em si mesma, é uma metafísica absoluta.
Alegamos que são culpados. Eles, por sua vez, afirmam eternamente ser inocentes.
E, de certa maneira, são inocentes.
O elevador parou e, mais uma vez, eles atravessaram, com passos regulares, um corredor amarelo.
— Em nossa sociedade, não há crimes maiores — prosseguiu Anderton —, mas temos um campo de detenção cheio de supostos criminosos.
Portas abriram-se e fecharam-se, e eles se encontraram na ala analítica. A frente, erguia-se uma série impressionante de equipamentos — receptares de dados e mecanismos de computação que examinavam e reestruturavam o material que chegava. Além da maquinaria, os três
precognitivos, quase indistintos no labirinto da fiação elétrica.
Lá estão eles — disse Anderton, com uma certa ironia.
— O que acha?
Na semi-obscuridade, os três idiotas tagarelavam. Todo pronunciamento incoerente, toda sílaba casual eram analisados, comparados, reagrupada na forma de símbolos visuais, transcritos sobre cartões perfurados e ejetados em diversas ranhuras codificadas. Os idiotas tagarelavam o dia
inteiro, aprisionados em suas cadeiras especiais, de espaldar alto, mantidos em uma posição rígida por ligaduras de metal e vários fios, e grampos. Suas necessidades físicas eram assistidas automaticamente. Não tinham necessidades espirituais. Semelhantes a vegetais, murmuravam, cochilavam e existiam. Suas mentes eram obtusas, confusas, perdidas nas sombras.
Mas não as sombras de hoje. As três criaturas tagarelas, desajeitadas, com suas cabeças alargadas e corpos raquíticos, contemplavam o futuro. A maquinaria analítica registrava profecias e, enquanto os três precognitivos falavam, a maquinaria escutava atentamente.
Pela primeira vez, Witwer perdeu sua confiança jovial.
Uma expressão desgostosa, consternada, insinuou-se em seus olhos, uma mistura de dó e choque moral.
— Não é nada... agradável — murmurou ele. — Não fazia idéia de que fossem... – Procurou a palavra certa, gesticulando.
— Tão deformados.
— Deformados e retardados — concordou Anderton instantaneamente. – Especialmente aquela garota ali. Donna tem quarenta e cinco anos. Mas parece ter dez. O talento absorve tudo; o lóbulo especial atrofia o equilíbrio da área frontal. Mas o que importa? Temos as suas profecias. Eles transmitem o que precisamos. Não entendem nada disso, mas nós entendemos.
Subjugado, Witwer atravessou a sala até a maquinaria.
De uma ranhura, pegou um maço de cartões.
São os nomes que aparecem? — perguntou ele.
É óbvio que — com o cenho franzido, Anderton pegou o maço — não tive oportunidade de examiná-los — explicou, ocultando, com impaciência, o seu aborrecimento.
Fascinado, Witwer observou a maquinaria ejetar um novo cartão na ranhura vazia. Foi seguido por um segundo — e um terceiro. Dos discos, que rangiam regular e constantemente, surgia um cartão atrás do outro.
Os precognitivos devem ver longe no futuro — exclamou Witwer.
Vêem um espaço de tempo limitado — informou-lhe Anderton. — Uma ou duas semanas adiante, no máximo.
Grande parte dos dados não tem valor para nós.
Simplesmente não são relevantes para o nosso ramo de atividade. Nós os passamos para as agências apropriadas.
E elas, por sua vez, permutam dados conosco. Cada birô importante tem seu porão de macacos entesourados.
Macacos? — Witwer olhou-o intrigado. — Ah, sim, entendo, nada ver, nada falar, e etc. Muito divertido.
Muito conveniente. — Automaticamente, Anderton coletou os novos cartões que haviam sido virados pela
maquinaria giratória. — Alguns desses nomes serão totalmente descartados. A maior parte do restante registra crimes triviais: furtos, sonegação de imposto de renda, assalto, extorsão. Estou certo que sabe que a Precrime reduziu os delitos graves em noventa e nove pontos oito por cento. Raramente temos um assassinato ou traição de verdade.
Afinal, o acusado sabe que o confinaremos no campo de detenção uma semana antes de ele ter chance de cometer o crime.
Quando foi a última vez que um assassinato de verdade foi cometido? – perguntou Witwer.
Cinco anos atrás — respondeu Anderton, seu tom de voz denotando orgulho.
Como aconteceu?
O criminoso escapou das nossas equipes. Tínhamos o seu nome. De fato, tínhamos todos os detalhes do crime, inclusive o nome da vítima. Sabíamos o momento exato, a locação do ato de violência planejado. Mas, apesar disso, ele conseguiu executá-lo.
Anderton deu de ombros. — Enfim, não podemos pegar todos eles. — Embaralhou os cartões. — Mas realmente pegamos a maioria.
Um assassinato em cinco anos. — A confiança de Witwer estava voltando. — Um registro impressionante... algo de que se orgulhar.
Anderton disse tranqüilamente: — Eu me orgulho. Há trinta anos elaborei a teoria. No tempo em que aqueles que só agiam em vantagem própria
estavam pensando em ataques surpresa à Bolsa. Eu vi algo legítimo num futuro próximo, algo de um tremendo valor social.
Jogou o maço de cartões para Wally Page, seu subordinado encarregado do bloco dos macacos.
Veja quais nos interessam — disse. — Faça o seu próprio julgamento. Quando Page desapareceu com os cartões, Witwer disse circunspecto:
É uma grande responsabilidade.
— Sim, é — concordou Anderton. — Se deixarmos um criminoso escapar, como deixamos há cinco anos, teremos uma morte na consciência. Somos os únicos responsáveis.
Se falhamos, alguém morre. — Com amargura, puxou mais três cartões da ranhura. — É uma responsabilidade pública.
Já se sentiu tentado a — Witwer hesitou. — Quer dizer, alguns dos homens que você pegou devem ter-lhe oferecido muito.
Não iria adiantar. Uma duplicata do arquivo de cartões é ejetada no Quartel General do Exército. Têm o total controle sobre nós. Podem nos vigiar constantemente, o quanto quiserem.
Anderton relanceou os olhos para o cartão de cima. —
Portanto mesmo que quiséssemos aceitar uma...Interrompeu-se, apertou os lábios.
— O que foi ? — perguntou Witwer, curioso.
Com cuidado, Anderton dobrou o cartão e o pôs no bolso.
Nada — murmurou ele. — Não foi nada. A rispidez em sua voz fez Witwer corar.
Você realmente não gosta de mim — observou ele.
— É verdade — admitiu Anderton. — Não gosto. Mas...
Não acreditava que desgostasse tanto assim do rapaz. Não parecia possível: não era possível. Alguma coisa estava errada.
Atordoado, tentou acalmar a sua mente agitada.
No cartão estava o seu nome. Linha um — já acusado futuro assassino! Segundo as perfurações no cartão, o comissário da Precrime John A. Anderton ia matar um homem — e na próxima semana.
Com total convicção, uma convicção inabalável, ele não acreditou.


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