sábado, 10 de abril de 2010

O Caçador de Andróides - Philip K. Dick (parte 2)




Após um apressado desjejum — perdera tempo devido à discussão com a esposa — subiu, vestido, para aventurar-se pelo exterior, incluindo seu modelo Ajax do Protetor Genital de Chumbo Mountibank, até o pasto coberto do telhado, onde "pastava" sua ovelha elétrica.

Na pastagem o carneiro, peça sofisticada de equipamento que era, continuava a mastigar, em simulado contentamento, enganando os demais locatários do prédio.

Claro, parte dos animais deles consistiam também de falsificações feitas de circuitos eletrônicos. Ele, naturalmente, jamais tentara intrometer o nariz nesses assuntos, não mais do que os vizinhos haviam feito com o funcionamento real de sua ovelha. Coisa alguma poderia ser mais indelicada do que isso. Perguntar "Sua ovelha é autêntica?" seria uma quebra de boas maneiras pior do que perguntar se os dentes, o cabelo ou os órgãos internos de um cidadão eram reais.

O ar matutino, enxameando de corpúsculos radioativos, cinzento, e com o sol encoberto pelas nuvens, arrotou em volta dele, ferindo-lhe as narinas. Involuntariamente, fungou a infecção da morte. Bem, isso era uma descrição forte demais da coisa, pensou, enquanto se dirigia para seu lote particular de grama, que possuía juntamente com o apartamento, grande demais, embaixo.

O legado da Guerra Mundial Terminus perdera algo de sua potência; os que não puderam sobreviver à poeira estavam mortos há muito tempo e ela, mais fraca agora e enfrentando sobreviventes mais fortes, apenas desequilibrava mentes e propriedades genéticas. A despeito de seu protetor de chumbo, a poeira — sem dúvida — infiltrava-se pelo traje e o atingia, e lhe aplicava diariamente, enquanto ele não emigrasse, sua pequena dose da sujeira contaminadora.

Até agora, exames médicos gerais, feitos mensalmente, diziam que ele estava bem: era um homem que podia reproduzir-se dentro das quotas estabelecidas pela lei.

Em qualquer mês, porém, o exame feito pelos médicos do Departamento de Polícia de São Francisco podiam revelar situação diferente. Ininterruptamente nasciam novos especiais, criados, ou melhor, gerados por normais que haviam sido vítimas da poeira onipresente. A advertência correntemente divulgada por cartazes, anúncios na TV e correspondência do governo, que ninguém lia, dizia:
"Emigre ou degenere! A Opção é Sua!"
Pura verdade, pensou Rick, abrindo o portão da pequena pastagem e aproximando-se da ovelha elétrica.
Mas eu não posso emigrar, disse a si mesmo. Por causa de meu emprego.

O proprietário da pastagem vizinha, Bill Barbour, morador do prédio como ele, chamou-o. Ele, como Rick, vestira-se para o trabalho, mas havia também feito uma parada antes, para ver como ia seu animal.
— Minha égua — declarou radiante Barbour — está grávida. — Indicou a grande Percheron, que olhava com expressão vazia para o espaço. — O que é que você diz disso?
— Digo que, logo, você vai ter dois cavalos — respondeu Rick. Chegara à sua ovelha naquele instante. O animal continuava a ruminar, olhos alertas fixos nele, na esperança de que ele houvesse trazido um pouco de aveia trilhada. A suposta ovelha continha um circuito com tropismo para aveia; à vista de tal cereal, levantar-se-ia convincentemente e viria gingando à procura do alimento.
— Quem foi que a engravidou? — perguntou a Barbour. — O vento?
— Comprei um pouco do plasma fertilizante da melhor qualidade existente na Califórnia — esclareceu Barbour. — Graças a uns contatos com gente de dentro, no Departamento Estadual de Produção Animal. Não se lembra que, na semana passada, o inspetor do Departamento esteve aqui, examinando Judy? O pessoal anda louco para ganhar o potrinho dela. Ela é um animal de qualidade fora de série. — Bateu carinhoso no pescoço da égua, que inclinou a cabeça em sua direção.
— Você já pensou em vender sua égua? — perguntou Rick.

Queria mais do que qualquer outra coisa no mundo ter um cavalo, na verdade, qualquer animal. Possuir e sustentar uma fraude era uma maneira de, aos poucos, desmoralizar uma pessoa. Ainda assim, do ponto de vista social, isto tinha que ser feito, dada a ausência do artigo legítimo. Não tinha, por conseguinte, opção senão continuar. Mesmo que fosse o caso de ele não se importar, havia a esposa, e Iran se importava. Muito.
— Seria imoral vender minha égua — respondeu Barbour.
— Venda o potrinho, então. Ter dois animais é mais imoral do que não ter nenhum.
Confuso, Barbour respondeu:
— O que é que você quer dizer com isso? Um bocado de gente tem dois animais, mesmo três, quatro, e no caso de Fred Washborne, que é dono da fábrica de processamento de algas, onde trabalha meu irmão, mesmo cinco. Não leu no Chronicle de ontem aquele artigo sobre o pato que ele tem? Dizem que é o Moscovy maior e mais pesado da Costa Oeste. — Os olhos dele vidraram-se, imaginando só possuir aquilo e, gradualmente, caiu num transe.

Procurando nos bolsos do casaco, Rick encontrou seu exemplar amarfanhado e muito estudado do Catálogo Sidney de Animais & Aves, suplemento de janeiro. Olhou no início, procurou potrinhos (cavalos de tamanho regular, filhotes) e logo achou o preço nacional no momento.
— Posso comprar um potro Percheron da Sidney's por cinco mil dólares — disse em voz alta.
— Não, não pode — contestou-o Barbour. — Olhe para a listagem novamente. Está em itálico. Isso significa que não têm o animal em estoque, mas que esse seria o preço, se tivessem.
— Que tal — propôs Rick — eu lhe pagar quinhentos dólares por mês, durante dez meses. O preço completo do catálogo.
Com ar de pena, Barbour respondeu:
— Deckard, você não entende de cavalos. Há uma razão por que a Sidney's não tem nenhum potro Percheron em estoque. Esses potros simplesmente não mudam de mão — nem mesmo a preço de catálogo. São escassos demais, mesmo os relativamente inferiores. — Inclinou-se sobre a cerca comum aos lotes de ambos, gesticulando. — Tenho Judy há três anos e, neste tempo todo, não vi ainda uma égua Percheron da qualidade dela. A fim de adquiri-la, tive que voar até o Canadá e eu mesmo a trouxe pessoalmente, para ter certeza de que não seria roubada. Traga um animal desses por qualquer lugar no Colorado ou Wyoming e matam-no para ficar com ele. Quer saber por quê? Porque antes da G.M.T. havia literalmente centenas deles...
— Mas — interrompeu-o Rick — você vai ter dois cavalos e eu não terei nenhum. Isto viola toda a estrutura teológica e moral do mercerismo.
— Você tem sua ovelha. Diabo, você pode seguir a Ascensão em sua vida individual e, quando agarra os dois cabos da empatia, você se aproxima, honradamente. Bem, se você não tivesse aí essa velha ovelha, eu veria alguma lógica em sua situação. Certo, se eu tivesse dois animais e você não tivesse nenhum, eu estaria ajudando a privá-lo de sua verdadeira fusão com Mercer. Mas todas as famílias neste prédio, da forma que calculo a coisa, vejamos, uma para cada três apartamentos, todas têm um animal de algum tipo. Graveson é dono daquela galinha ali. — Fez um gesto na direção norte. — Oakes e a esposa têm aquele grande cão vermelho que ladra à noite. — Pensou um pouco. — Acho que Ed Smith tem um gato lá no seu apartamento. Pelo menos é o que ele diz, embora ninguém jamais o tenha visto. Provavelmente, ele está apenas fingindo.
Aproximando-se da ovelha, Rick curvou-se, procurando no grosso manto branco — o velocino pelo menos era autêntico — até encontrar o que queria: o painel de controle, oculto, do mecanismo. Enquanto Barbour observava, ele abriu com um estalo o painel que o cobria, revelando tudo.
— Está vendo? — disse a Barbour. — Compreende agora por que é que eu quero tanto seu potrinho?
Depois de um intervalo, Barbour disse:
— Seu pobre-diabo! Sempre foi assim?
— Não — respondeu Rick, mais uma vez fechando o painel da ovelha elétrica. Espigou-se, virou-se e olhou para o vizinho. — Uma vez, eu tive uma ovelha de verdade. O pai de minha esposa deu-a a nós, sem reservas, quando emigrou. Em seguida, mais ou menos há um ano... Lembra-se daquela vez em que a levei ao veterinário? Você estava aqui em cima naquela manhã quando vim aqui e a encontrei deitada de lado, sem poder levantar-se.
— Você conseguiu que ela se levantasse — confirmou Barbour, lembrando-se e inclinando a cabeça. — Isso mesmo, você conseguiu levantá-la, mas depois de um minuto ou dois andando em volta, ela caiu outra vez.
— Ovelhas pegam doenças muito estranhas — disse Rick. — Ou, em outras palavras, elas pegam um bocado de doenças, mas os sintomas são sempre os mesmos. A ovelha não pode levantar-se, não há jeito de a gente saber qual é a gravidade de seu estado, se é uma torção na perna ou se o animal está morrendo de tétano. Foi disso que morreu a minha: tétano.
— Aqui em cima? — perguntou Barbour. — No telhado?
— O feno — explicou Rick. — Aquela foi a única vez em que eu não tirei todo o arame em volta do fardo. Deixei um pedaço e Groucho — era assim que eu a chamava — arranhou-se e, desse modo, contraiu tétano. Levei-a ao veterinário, ela morreu, pensei nisso e, finalmente, fui a uma dessas oficinas que fabricam animais artificiais, mostrei-lhes uma foto de Groucho. Eles fizeram isto. — Indicou o sucedâneo que, reclinado, continuava a ruminar atento, observando-o ainda alerta, à espera de qualquer indicação da presença de aveia. — É um trabalho de primeira classe. Tenho gasto tanto tempo e atenção cuidando dele como fazia quando possuía o animal legítimo. Mas... — Encolheu os ombros.
— Não é a mesma coisa — terminou Barbour a frase para ele.
— Mas é quase. A pessoa se sente a mesma fazendo isso. A gente tem que se manter de olho no animal, exatamente como fazia quando ele estava realmente vivo. Porque eles enguiçam, e, neste caso, todo mundo no prédio saberia, tive que mandá-lo seis vezes para a oficina, na maioria das vezes por pequenos defeitos, mas se alguém os visse — por exemplo, uma vez o teipe da voz quebrou ou alguma coisa enguiçou e a ovelha não parava de balir — e então os moradores saberiam que o que houve foi um enguiço mecânico. — E acrescentou: — Claro, o caminhão de reparos está marcado "Hospital Veterinário Alguma Coisa." E o motorista se veste exatamente igual a um veterinário, todo de branco. — Lançou um rápido olhar ao relógio, lembrando-se do tempo. — Vou ter que trabalhar — disse a Barbour. — Até a noite.

Quando se dirigia para o carro, Barbour gritou apressado para ele:
— Hum, eu não vou dizer a pessoa alguma, aqui no prédio.
Parando por um momento, Rick começou a agradecer. Mas, nesse momento, algo do desespero em que Iran estivera falando deu-lhe uma palmadinha no ombro e ele respondeu:
— Não sei. Talvez não faça mesmo qualquer diferença.
— Mas o pessoal vai olhar para você com desprezo. Nem todos, mas alguns. Você sabe como as pessoas são sobre esse negócio de não ter um animal para cuidar. Consideram isso imoral e antiempático. Quero dizer, tecnicamente não é um crime, como logo depois da Guerra Mundial Terminus, mas o sentimento continua a existir.
— Meu Deus — disse inutilmente Rick, e fez um gesto com a mão vazia. — Eu quero ter um animal. Vivo tentando comprar um deles. Mas o meu salário, com o que se ganha num emprego da municipalidade... — Se eu tivesse sorte outra vez no trabalho, pensou. Como há dois anos, quando consegui pegar dois andros em um único mês. Se eu tivesse sabido naquela ocasião que Groucho ia morrer... Mas aquilo fora antes do tétano. Antes do pedaço quebrado de seis centímetros, fino como uma agulha de injeção, do arame do fardo de ração.
— Você poderia comprar um gato — sugeriu Barbour. — Gatos são baratos. Veja no seu Sidney's.
— Não quero um bichinho de estimação — retrucou calmo Rick. — Quero o que eu tinha antes, um animal grande. Uma ovelha ou, se eu conseguir o dinheiro, uma vaca ou um novilho, ou mesmo o que você tem: um cavalo.

O prêmio em dinheiro pela eliminação de cinco andros, compreendeu, daria para isso. Mil dólares por um deles, além de meu salário. Neste caso, em algum lugar, na mão de alguém, eu encontraria o que quero. Mesmo que a lista da Sidney's Animal & Fow! esteja em itálico. Cinco mil dólares! Mas, pensou, em primeiro lugar, os cinco andros têm que chegar à Terra, vindo de um dos planetas-colônias. Isto eu não posso controlar. Não posso obrigar cinco deles a virem para cá, e mesmo que pudesse, há outros caçadores de cabeças nas forças policiais de todo o mundo.
Especificamente, os andros teriam que fixar residência na Califórnia do Norte, e o principal caçador de prêmios dessa área, Dave Holden, teria que morrer ou aposentar-se.

— Compre um grilo — sugeriu Barbour, fazendo piada. — Ou um camundongo. Hei, por vinte e cinco dólares você pode comprar um rato adulto.
— Sua égua pode morrer, como Groucho morreu, quando você menos esperar — disse Rick. — Quando voltar para casa esta noite, pode encontrá-la deitada de costas, com as patas no ar, como se fosse um inseto. Como você disse, um grilo.
Dirigiu-se para o carro em passos largos, a chave na mão.
— Desculpe se o ofendi — disse nervoso Barbour.
Em silêncio, Rick abriu a porta do hovercar. Nada mais tinha a dizer ao vizinho, a mente já concentrada no trabalho, no dia à frente.



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