sábado, 24 de abril de 2010

O Caçador de Andróides - Philip K. Dick (parte 4)



A CAMINHO do trabalho, Rick Deckard, e só Deus sabia quantos outros mais, parou por um momento para olhar, disfarçadamente, em frente a uma das maiores lojas de bichos de estimação de São Francisco, no espaço destinado aos animais.

No centro da vitrina, que ocupava um quarteirão inteiro, uma avestruz em uma jaula aquecida de plástico, retribuiu-lhe o olhar. A ave, segundo a placa de informação presa à gaiola, acabara de chegar de um zoológico de Cleveland. Era a única avestruz da Costa Oeste.

Depois de fitá-la, Rick passou mais alguns minutos olhando fixamente para a etiqueta do preço. Prosseguiu em seguida, na direção do Palácio da Justiça, na Lombard Street, e descobriu que estava atrasado um quarto de hora para o trabalho.

No momento em que abria o gabinete, seu superior, o Inspetor de Polícia Harry Bryant, ruivo, orelhas de abano, relaxadamente vestido, mas de olhos vivos, consciente de tudo que tinha importância, gritou para ele:
— Encontre-me às nove e trinta no gabinete de Dave Holden. — Enquanto falava, o Inspetor Bryant folheava rapidamente uma prancha, onde estavam presas folhas de papel de seda datilografadas. — Holden — continuou, afastando-se — está no Hospital Monte Sion, com uma queimadura de laser na espinha, Vai passar lá pelo menos um mês. Até que uma dessas novas seções plásticas de espinha vertebral cole devidamente.
— O que foi que aconteceu? — perguntou Rick, com um calafrio.
O principal caçador a prêmio do departamento estivera bem até a véspera. Ao fim do dia, como sempre, ele partira em seu hovercar a caminho de seu apartamento, na congestionada área de alto prestígio de Nob Hill, na cidade.
Por cima do ombro, Bryant murmurou alguma coisa sobre nove e trinta no escritório de Dave, e deixou Rick sozinho.

Ao entrar no seu gabinete, ouviu às suas costas a voz da sua secretária, Ann Marsten:
— Sr. Deckard, sabe o que aconteceu com o Sr. Holden? Foi atingido.
Seguiu-o até o escritório fechado o abafado e pôs em funcionamento a unidade de filtragem do ar.
— Sim — respondeu ele distraído.
— Deve ter sido um desses novos andros, ultra-sabidos, que a Rosen Association está fabricando — opinou a Srta. Marsten. — Leu a brochura da companhia e as folhas de especificação? A unidade cerebral Nexus-6 que estão usando agora é capaz de selecionar num campo de dois trilhões de constituintes, ou dez milhões de trilhas neurais separadas. — Baixou a voz. — O senhor perdeu a chamada no videofone esta manhã. Quem me contou foi a Sra. Wild. A chamada chegou pela mesa exatamente às nove.
— Uma chamada para aqui? — perguntou Rick.
— Uma chamada do Sr. Bryant para o WOP... na Rússia. Perguntando se eles queriam apresentar uma queixa oficial ao representante da Rosen Association no Leste.
— Harry ainda quer que a unidade cerebral Nexus-6 seja retirada do mercado?
Não se sentia surpreso. Desde que foram anunciadas as especificações e relatórios de desempenho em agosto de 1991, a maioria das forças policiais que tratava de andros fujões andava protestando.
— A política soviética não pode fazer mais do que nós — disse. Legalmente os fabricantes da unidade cerebral Nexus-6 operavam de acordo com disposições de lei colonial, tendo sua fábrica automática localizada em Marte. — O melhor que faríamos mesmo era simplesmente aceitar a nova unidade, como um desses fatos inescapáveis da vida — opinou. — Sempre foi assim, no caso de todas as unidades cerebrais aperfeiçoadas que surgiram.

Lembro-me dos uivos de dor quando a Sudermann apresentou seu velho T-14 em '89. Todas as forças policiais no Hemisfério Ocidental alegaram que teste algum lhes revelaria a presença, em caso de entrada ilegal aqui.

Para dizer a verdade, durante algum tempo eles tiveram razão. Mais de cinqüenta andróides T-14, segundo lembrava, haviam de uma maneira ou de outra, conseguido chegar à Terra e passaram despercebidos em alguns casos, um ano inteiro. Mas logo depois foi criado o Teste de Empatia Voigt, pelo Instituto Pavlov, na União Soviética. E nenhum andróide T-14, pelo menos tanto quanto se sabia, conseguira passar nesse teste.
— Quer saber o que foi que a Polícia russa disse? — perguntou a Srta. Marsten. — Eu também sei isso — continuou, animando-se seu rosto amarelado e pintalgado de sardas.
— Eu descubro com Harry Bryant — respondeu Rick. Sentia-se irritado.
As bisbilhotices de escritório sempre o aborreciam porque, no fim, eram nada mais que a verdade. Sentando-se à escrivaninha, começou intencionalmente a procurar alguma coisa na gaveta até que a Srta. Marsten, percebendo a deixa, foi embora.
Da gaveta tirou um antigo e enrugado envelope de papel pardo.
Recostando-se na sua cadeira tipo executivo, mexeu no conteúdo até encontrar o que queria: os dados reunidos existentes sobre o Nexus-6.

Uma rápida leitura confirmou as informações da Srta. Marsten: o Nexus-6 possuía, de fato, dois trilhões de constituintes, além de uma capacidade de escolha na faixa de dez milhões de possíveis combinações de atividade cerebral. Em 4,5 décimos de segundo um andróide equipado com essa estrutura cerebral podia assumir qualquer uma de quatorze reações-posturas básicas. Bem, nenhum teste de inteligência podia encurralar um andro desses. Mas também os testes de inteligência não haviam encurralado andro algum em anos. Não, desde as primeiras e cruas variedades da década de 70.

Os tipos andróides Nexus-6, refletiu Rick, superavam todas as classes de humanos especiais em termos de inteligência. Em outras palavras, os andróides equipados com a nova unidade cerebral Nexus-6 haviam, a partir de um ponto de vista grosseiro, pragmático, prático, evoluído além de um grande — embora inferior — segmento da humanidade. Com todas as boas ou más conseqüências. Em alguns casos, o criado tornara-se mais hábil do que seu senhor. Novas escalas de realização, contudo, como por exemplo o Teste de Empatia Voigt-Kampff, surgiram como critérios para julgá-los. Um andróide, por mais dotado que fosse de pura capacidade intelectual, não podia entender a fusão que, rotineiramente, ocorria entre os seguidores do mercerismo — uma experiência que ele, e virtualmente todo mundo, incluindo debilóides subnormais, conseguiam realizar sem dificuldade.

Perguntara-se, como, aliás, fizera a maioria das pessoas uma vez ou outra, precisamente por que um andróide saltava impotente, de um lado para outro, quando submetido a um teste de medição de empatia.
Empatia, evidentemente, existia apenas na comunidade humana, ao passo que inteligência em algum grau podia ser encontrada em todas as filas e ordens, incluindo os aracnídeos. Pelo menos a faculdade de empatia provavelmente requeria um instinto grupal intacto; um organismo solitário como uma aranha, não teria utilidade para ela; na verdade, tenderia a abortar a capacidade da aranha de sobreviver. Torná-la-ia consciente do desejo de viver de sua presa. Daí, se a possuíssem, todos os predadores, mesmo os mamíferos altamente desenvolvidos como os gatos, morreriam de fome.

A empatia, chegara ele certa vez à conclusão, forçosamente devia limitar-se a herbívoros ou, de qualquer maneira, a onívoros que podiam abster-se de uma dieta de carne. Isto porque, em última análise, o dom da empatia tornava indistintas as fronteiras entre caçador e vítima, entre os bem-sucedidos e os derrotados.

Como no caso da fusão com Mercer, os dois subiam juntos ou, quando o ciclo acabava, caíam juntos na fossa do túmulo do mundo. Estranho, a coisa lembrava uma espécie de seguro biológico, embora de gume duplo. Enquanto alguma criatura experimentava alegria, então a condição para todas as demais criaturas incluía um pouco de alegria. Contudo, se algum ser vivo sofria, no caso do restante a sombra não podia ser inteiramente descartada.

Um animal gregário como o homem adquiriria com isso um fator de sobrevivência mais alto, mas uma coruja ou uma cobra seriam destruídas.
Evidentemente o robô humanóide constituía um predador solitário.
Rick gostava de considerá-los dessa maneira. Isto tornava suportável seu emprego.
Ao aposentar, isto é, matar um andro, não violava a regra de vida estabelecida por Mercer. Matarás apenas os matadores, dissera-lhes Mercer no ano em que as caixas de empatia apareceram pela primeira vez na Terra.

No mercerismo, à medida que evoluía e se transformava numa teologia plena, o conceito de Os Matadores crescera insidiosamente.

No mercerismo, um mal absoluto puxava o manto esfiapado do velho trôpego que subia, mas jamais era claro quem ou o quê era essa maligna presença. Um mercerita sentia o mal sem compreendê-lo. Ou, em outras palavras, um mercerita tinha liberdade para localizar a presença nebulosa dos Matadores onde quer que julgasse conveniente.

Para Rick Deckard, um robô humanóide fujão, que matara seu senhor, fora equipado com uma inteligência mais aguda do que muitos seres humanos, que nenhuma consideração sentia por animais, que não possuía capacidade de sentir alegria empática pelo sucesso de outra forma de vida, ou sofrer com sua derrota — isto, para ele, sintetizava Os Matadores.

Pensando em animais, lembrou-se da avestruz que vira na loja. Temporariamente pôs de lado as especificações da unidade cerebral Nexus-6, tomou uma pitada de rape Mrs. Siddon's N.° 3 & 4, e pensou. Em seguida, olhou para o relógio e viu que dispunha de tempo. Levantou o videofone da escrivaninha e disse à Srta. Marsten:
— Ligue-me com a Happy Dog Pet Shop, na Sutter Street.
— Sim, senhor — respondeu a Srta. Marsten, abrindo sua caderneta de telefones.
Eles não podem, realmente, pedir aquilo tudo por uma avestruz, disse Rick a si mesmo. Esperam que a pessoa pechinche como nos velhos dias.
— Happy Dog Pet Shop — declarou uma voz de homem, na videotela de Rick apareceu uma pequena e contente face. Ele podia ouvir, no fundo, o barulho feito por animais.
— É a respeito daquela avestruz que os senhores têm na vitrina — explicou Rick, enquanto brincava com um cinzeiro de cerâmica à sua frente. — Qual é a entrada que preciso pagar para comprá-la?
— Vamos ver... — disse o vendedor, apanhando uma caneta e um bloco. — De entrada, um terço do preço. — Fez os cálculos. — Posso saber senhor, se vai dar algo usado como inicial?
Reservado, Rick respondeu:
— Eu ... eu ainda não resolvi.
— Vamos supor que para comprar a avestruz o senhor escolha um plano de trinta meses — disse o vendedor. — A uma taxa de juros baixa, bem baixa, de seis por cento ao mês, isto equivaleria a uma amortização mensal, depois de uma razoável entrada...
— O senhor vai ter que baixar esse preço — disse Rick. — Tire dois mil e não dou nenhum outro artigo como inicial. Pago em dinheiro vivo.
Dave Holden, pensou, estava fora de circulação. Isto poderia significar um bocado de coisas... dependendo de quantas missões surgissem no mês seguinte.
— Senhor — disse o vendedor — nosso preço de venda já está mil dólares abaixo do catálogo. Verifique no seu Sidney's. Eu espero. Quero que o senhor mesmo veja que nosso preço é justo.
Cristo, pensou Rick, Não estão arredando pé. Contudo, apenas por fazer, tirou do bolso do casaco o amarrotado Sidney's, procurou avestruz, macho-fêmea, velha-jovem, doente-sadia, nova-usada, e verificou os preços.
— Nova, macho, jovem, sadia — informou o vendedor. — Trinta mil dólares. — Ele, também, estivera consultando seu Sidney's. — Estamos cobrando exatamente mil dólares menos que o preço de catálogo. Agora, quanto à sua entrada...
— Vou pensar um pouco — disse Rick — e depois telefono para o senhor. — Fez o movimento de desligar.
— Seu nome, senhor? — perguntou alerta o vendedor.
— Frank Merriwell — respondeu Rick.
— Seu endereço, Sr. Merriwell? Para o caso de eu não estar aqui quando o senhor telefonar de volta.
Rick inventou um endereço e pôs o videofone de volta no gancho. Esse dinheiro todo, pensou. Ainda assim, pessoas compram-nas; algumas pessoas têm tanto dinheiro assim. Levantando novamente o telefone, disse áspero:
— Consiga-me uma linha, Srta. Marsten. E não fique escutando. Trata-se de uma chamada confidencial. — Olhou-a zangado.
— Sim, senhor — respondeu a Srta. Marsten. Desligou-se do circuito e deixou-o sozinho para enfrentar o mundo externo.

Discou, de memória, o número da loja de falsos animais, onde conseguira seu sucedâneo de ovelha. Na pequena videotela apareceu um homem vestido como veterinário.
— Dr. McRae — declarou ele.
— Fala aqui Deckard. Quanto custa uma avestruz elétrica?
— Oh, acho que poderíamos lhe cobrar menos de oitocentos dólares. Em quanto tempo quer a entrega? Vamos ter que fabricá-la exclusivamente para o senhor. Não há muita procura de...
— Falo com o senhor depois — interrompeu. Lançou um olhar ao relógio e viu que marcava nove e meia. — Adeus.

Levantou-se rápido da cadeira e, pouco depois, chegou à porta do escritório do Inspetor Bryant. Passou pela recepcionista de Bryant, atraente, com cabelo prateado pela cintura, amarrado em tranças e, em seguida, pela secretária do inspetor, um monstro primevo de algum pântano jurássico, imóvel e ardilosa, como alguma aparição arcaica fixada na sepultura do mundo.
Nenhuma das mulheres falou com ele, nem ele com elas.

Abrindo a porta interna, inclinou a cabeça na direção de seu superior, que nesse momento falava ativamente ao telefone.
Sentou-se, puxou do envelope as especificações do Nexus-6 que trouxera consigo e leu-as mais uma vez enquanto o Inspetor Bryant continuava a falar.

Sentia-se deprimido. Ainda assim, logicamente, devido ao súbito desaparecimento de Dave da cena de trabalho, devia sentir-se pelo menos moderadamente satisfeito.




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