quarta-feira, 7 de abril de 2010

O Vingador do Futuro - Philip K. Dick



ELE ACORDOU - e desejou Marte. Os vales, pensou. Qual seria a sensação de caminhar penosamente por entre eles? Maior, cada vez maior, o sonho crescia à medida que ia ficando plenamente consciente, o sonho e também o desejo. Ele quase podia sentir a presença envolvente do outro mundo, que apenas agentes do governo e altos oficiais já tinham visto. Um empregado como ele? Improvável.

- Você vai levantar ou não? - perguntou sonolenta sua esposa Kirsten, com o mau humor de sempre. - se vai, aperte o botão de café quente nessa porcaria de fogão.

- Certo - disse Douglas Quail, e seguiu descalço do quarto de seu conapt até a cozinha. Lá, depois de obedientemente apertar o botão do café quente, sentou-se à mesa da cozinha e sacou uma latinha amarela de fino rapé Dean Swift. Inalou energicamente, e a mistura Beau Nash aguilhoou-lhe o nariz, queimou-lhe o céu da boca. Mas ele inalou mais uma vez: aquilo o despertava e fazia com que seus sonhos, seus desejos noturnos e eventuais impulsos se condensassem em uma fachada de racionalidade.

Eu irei, disse ele a si mesmo. Antes de morrer eu verei Marte.

Isso era impossível, claro, e ele sabia disso mesmo sonhando. Mas, à luz do dia, os gestos cotidianos de sua esposa - agora escovando os cabelos diante do espelho do quarto -tudo conspirava para lembrar-lhe o que era. Um mísero empregadinho assalariado, ele disse a si mesmo com amargura. Kirsten lembrava-o disso pelo menos uma vez por dia, e ele não a culpava: era dever da esposa trazer o marido de volta à Terra. De volta à Terra, ele pensou, e riu. Aqui, a figura de linguagem era literalmente adequada.

- Do que é que você está rindo? - perguntou a esposa entrando majestosa na cozinha, seu longo robe rosa-buliçoso balançando atrás dela. - Um sonho, aposto. Você está sempre cheio deles.

- Sim - disse ele, e olhou pela janela para os hovercars e túneis de trânsito, e para todas aquelas pequenas e enérgicas pessoas correndo para o trabalho. Daqui a pouquinho estaria entre elas. Como sempre.

- Aposto que tem a ver com alguma mulher - disse Kirsten, devastadora.

- Não - disse ele. - Foi com um deus. O deus da guerra. Ele em maravilhosas crateras com todo o tipo de vida vegetal crescendo no fundo delas.

- Escute. - Kirsten agachou-se ao lado dele e falou francamente, seu ríspido tom de vez momentaneamente esquecido. - O fundo do oceano, nosso oceano é muito, uma infinidade de vezes, mais bonito. Você sabe disso, todo mundo sabe. Alugue umas roupas de guelras artificiais para nós dois, tire uma semana de licença no trabalho, e poderemos descer e viver lá embaixo em uma dessas estâncias aquáticas que funcionam o ano inteiro. E além disso... - Ela interrompeu-se. - Você não está escutando. Deveria estar. Eis aqui algo muito melhor do que aquela compulsão, aquela obsessão que você tem por Marte, e você nem sequer escuta! - A voz dela se elevou, estridente. - Deus do céu, você está condenado, Doug! O que vai ser de você?

- Eu vou trabalhar - disse ele levantando-se, o desjejum completamente esquecido. - E isto o que vai ser de mim.

Ela encarou-o.

- Você está ficando pior. Mais fanático a cada dia. Onde é que isto vai parar?

- Em Marte - disse ele, abriu a porta do armário para pegar uma camisa limpa.




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