sábado, 23 de outubro de 2010

Solaris - Stanislaw Lem (parte 8)



RHEYA

Enquanto trabalhara com o computador, o desespero e uma espécie de raiva surda tinham-me dado forças. Agora, absolutamente esgotado, nem mesmo conseguia lembrar-me de como se fazia baixar uma cama mecânica. Esquecendo-me de abrir os fechos,  puxei com todo o meu peso e o colchão caiu por cima de mim.

Arranquei as roupas que tinha no corpo e atirei-as para longe, depois mergulhei sobre o travesseiro, sem mesmo me dar ao trabalho de inflá-lo convenientemente.
Caí no sono com as luzes acesas.
Quando voltei a abrir os olhos tive a impressão de ter apenas dormido durante alguns minutos. O quarto estava banhado por uma luz tênue vermelha.
Estava menos calor e senti-me refrescado..
Continuei deitado, as roupas da cama empurradas para trás, completamente nu.
As cortinas estavam meio fechadas, e ali, em frente a mim, junto ao vidro iluminado pelo sol vermelho, alguém estava sentado.
Era Rheya.

Usava um vestido de praia branco, o tecido muito esticado sobre os seios.
Estava sentada de pernas cruzadas; os pés estavam descalços. Imóvel, apoiada nos braços bronzeados pelo sol, fitava-me por entre as negras pestanas: Rheya, com o seu cabelo negro escovado para trás.
Por muito tempo continuei deitado, fitando-a calmamente.

O primeiro pensamento que tive foi tranquilizador: eu estava sonhando e sabia que estava sonhando. Apesar disso, teria preferido que ela não estivesse ali.
Fechei os olhos e tentei acabar com o sonho.
Quando os voltei a abrir, Rheya continuava sentada em frente de mim.

Tinha os lábios ligeiramente contraídos — um hábito seu —, como se fosse assobiar, mas a sua expressão era séria.
Recordei as minhas recentes especulações a respeito de sonhos.
Rheya não mudara desde o dia em que a vira pela última vez; uma moça de dezenove anos. Agora devia ter vinte e nove.
Mas, claro, os mortos não mudam; ficam eternamente jovens.

Continuou a fitar-me com uma expressão de surpresa na face.
Pensei em atirar-lhe com qualquer coisa, mas, mesmo em sonhos, não conseguia convencer-me a atacar uma pessoa morta.
Murmurei: —  Pobrezinha, veio visitar-me?
O som da minha voz assustou-me; o quarto, Rheya, tudo parecia extremamente real. Um sonho tridimensional, colorido em dois tons...
Vi no chão vários objetos em que não reparara quando fora para a cama.
“Quando acordar”, disse para comigo, “hei de verificar se estas coisas ainda lá estão ou se, como Rheya, apenas as vi em sonho.”
– Pensa em ficar muito tempo? — perguntei.
Notei que falava baixinho, como alguém com medo de ser ouvido por terceiros.
Porquê preocupar-me com isso num simples sonho?
O Sol levantava-se no horizonte. Era bom sinal. Deitara-me durante um dia vermelho, a que devia seguir-se um dia azul, depois outro dia vermelho!
Não dormira quinze horas seguidas. Portanto era um sonho!
Tranqüilizado, olhei atentamente para Rheya.
A sua silhueta desenhava-se de encontro ao Sol. Os raios escarlates faziam brilhar a pele macia da sua face esquerda, e as sombras provocadas pelas pestanas caíam-lhe sobre a face.

Como era linda!

Mesmo dormindo, a minha recordação dela era estranhamente precisa.
Observei os movimentos do Sol, à espera de ver aparecer a covinha que tinha num lugar pouco comum, ligeiramente abaixo do canto dos lábios.
Em todo o caso, teria preferido acordar.
Estava na hora de trabalhar um pouco. Fechei as pálpebras com força.

Ouvi um ruído metálico e abri novamente os olhos.
Rheya estava sentada sobre a cama, a meu lado, e continuava a fitar-me gravemente. Sorri-lhe. Teve um sorriso de resposta e inclinou-se para a frente.
Beijámo-nos. Primeiro um beijo tímido, infantil, depois beijos mais prolongados. Durante muito tempo apertei-a contra mim.
Seria possível sentir tanto durante um sonho, perguntava-me.
Não estava a trair a sua memória, pois era com ela que sonhava, apenas ela.
Nunca antes me tinha acontecido...
Seria então que comecei a sentir dúvidas?
Continuei a afirmar a mim próprio que era um sonho, mas o meu coração contraiu-se.
Entesei os músculos, pronto a saltar para fora da cama.
Estava mais ou menos preparado para falhar, porque muitas vezes, em sonhos, o corpo entorpecido recusa-se a responder. Esperava que o esforço me arrancasse ao sono.
Mas não acordei; sentei-me na beira da cama, as pernas pendentes.
Nada haveria a fazer; tinha de suportar este sonho até ao seu amargo fim.
A minha sensação de bem-estar desapareceu.
Estava com medo.

— Que... — perguntei. Limpei a garganta. — O que quer?

Tateei o assoalho a meu lado com os pés descalços, à procura de um par de chinelos.
Bati com um dedo contra a aresta aguda e abafei um grito de dor.
Isto vai acordar-me, pensei com satisfação, lembrando-me ao mesmo tempo de que não tinha chinelos.
Mas aquilo continuava.
Rheya afastara-se para trás e estava encostada ao fundo da cama.
O vestido subia e descia ao ritmo da sua respiração. Observava-me com calmo interesse.
Rápido, pensei, um banho de chuveiro!
Mas depois apercebi-me de que, num sonho, um chuveiro não me interromperia o sono.
— De onde vieste?
Agarrou na minha mão e, com um gesto que eu tão bem conhecia, atirou-a ao ar e voltou a apanhá-la. Depois pôs-se a brincar com meus dedos.  
– Não sei — respondeu. — Está zangado?
Era a sua voz, aquela voz familiar, de tom grave, ligeiramente distante, e aquele seu ar de quem não liga ao que está a dizer, de estar já a pensar em qualquer outra coisa.
As pessoas costumavam considerá-la desinteressada, até malcriada, porque a expressão da sua face raramente mostrava outra coisa que não um vago espanto.
– Alguém... alguém te viu?
– Não sei. Cheguei aqui sem problemas. Por quê, Kris, isso é importante?
Continuava a brincar com os meus dedos, mas a sua face estava agora ligeiramente franzida.
– Rheya!
– O quê, querido?
– Como soubeste onde eu estava?
Pensou. Um sorriso aberto revelou os seus dentes.
– Não faço a mínima idéia. Não é engraçado? Quando entrei, você dormia. Não te acordei porque você se zanga com tanta facilidade. Tens mau gênio!
Apertou-me a mão.
– Foi lá abaixo?
– Sim. Estava gelado. Fugi correndo.
Soltou-me a mão e recostou-se para trás. Com o cabelo caindo para o lado, olhou-me com aquele meio sorriso que tanto me irritara antes de me cativar.
– Mas, Rheya... – balbuciei.
Inclinei-me sobre ela e levantei-lhe a manga curta do vestido.
Ali, logo acima da cicatriz da vacina, havia uma pinta encarnada, a marca de uma agulha hipodérmica.

Não fiquei propriamente surpreendido, mas o meu coração deu um salto.
Toquei com um dedo na pinta encarnada. Há anos já que eu sonhava com aquilo, vezes sem conta, acordando sempre com um arrepio e sempre na mesma posição, enrolado entre os lençóis amarfanhados. Tal como a tinha encontrado, já quase fria.

Era como se, durante o sono, tentasse reviver tudo aquilo por que ela tinha passado; como se esperasse poder andar com o relógio para trás e pedir-lhe o seu perdão ou fazer-lhe companhia durante esses minutos finais, enquanto sentia os efeitos da injeção e estava dominada pelo terror.

Ela que tinha medo do mais pequeno arranhão, que odiava a dor ou a visão de sangue, tinha deliberadamente feito aquela coisa horrível, deixando apenas algumas palavras dirigidas a mim.
Guardara o papel na minha carteira.
Agora estava já sujo e enrugado, mas nunca tivera a coragem de jogar fora.

Repetidamente a imaginei escrevendo aquelas palavras e a fazer os seus últimos preparativos. Persuadi-me de que ela tencionara apenas fingir, que tinha querido assustar-me e que só por engano tomara uma dose exagerada.
Todos me diziam que era isso que devia ter acontecido ou então que fora uma decisão súbita, resultado de uma depressão de momento.

Mas as pessoas não sabiam o que lhe tinha dito cinco dias antes; não sabiam que, para mais cruelmente enterrar a faca, eu levara comigo todas as minhas coisas e que, quando eu fechava as malas, ela me dissera muito calmamente: “Suponho que sabe o que isto significa?”
E eu fingira não perceber, embora soubesse muito bem ao que ela se queria referir; considerava-a demasiado covarde e até lhe dissera...

E agora ali estava ela estendida na cama, olhando atentamente para mim, como se não soubesse que tinha sido eu quem a matara.
– E então? — perguntou. Os seus olhos refletiam o sol vermelho. Todo o quarto estava vermelho. Rheya olhou com interesse para o seu braço porque eu o estivera a examinar durante tanto tempo, e, quando recuei, pousou a face macia e fresca na palma da minha mão.
– Rheya — balbuciei —, não é possível...
– Chiu!
Podia sentir o movimento dos seus olhos sob as pálpebras fechadas.
– Onde estamos, Rheya?
– Em casa.
– E onde é isso?
Um olho abriu-se e logo voltou a fechar-se. As longas pestanas faziam-me cócegas na mão.
– Kris.
– O quê?
– Estou feliz.
Erguendo a cabeça, podia ver parte da cama no espelho do lavatório: uma cascata de cabelo macio — o cabelo de Rheya — e os seus joelhos nus.

Com o pé puxei para junto de mim um dos objetos deformados que encontrara na caixa e apanhei-o com a mão que tinha livre. Era uma rosca sem fim, e uma das suas extremidades derretera e parecia o bico de uma agulha.
Segurei essa ponta de encontro à minha pele e enterrei-a, logo acima de uma pequena cicatriz rósea. A dor percorreu-me todo o corpo. Fiquei a ver o sangue escorrer-me pelo interior da coxa e pingar, sem ruído, no chão.

Para quê? Assaltavam-me pensamentos aterradores, pensamentos que começavam a tomar forma definida. Já não dizia para comigo: “É um sonho.”
Deixara de acreditar nisso.
Agora pensava: “Preciso de estar preparado para me defender.”

Examinei os seus ombros, a anca sob o vestido justo, os pés pendentes e descalços. Inclinando-me para frente, apanhei um dos seus tornozelos e passei os dedos pela sola do pé. A pele era macia, como a de um recém-nascido.

Soube então que não era Rheya, mas estava quase certo de que ela própria não sabia.
O pé nu contorceu-se e os lábios de Rheya abriram-se num riso silencioso.
– Pára com isso — murmurou.
Retirei cuidadosamente a mão de sob a sua face e levantei-me.
Vesti-me rapidamente. Ela continuava sentada a observar-me.
– Onde estão as tuas coisas? — perguntei-lhe. Imediatamente me arrependi da pergunta.
– As minhas coisas?
– Não tens mais nada além desse vestido?

Daqui em diante ia jogar com os olhos abertos. Tentei parecer despreocupado, indiferente, como se apenas nos tivéssemos separado na véspera, como se nunca nos tivéssemos separado.

Rheya levantou-se. Com um gesto familiar, puxou a saia para desfazer as rugas.
As minhas palavras tinham-na preocupado, mas nada disse.
Pela primeira vez examinou o quarto com um olhar inquiridor e curioso. Depois, confusa, respondeu:
– Não sei. — Abriu a porta do armário. — Aqui, talvez?
– Não, aí há apenas trajes de trabalho.

Encontrei uma tomada elétrica junto ao lavatório e comecei a fazer a barba, tendo o cuidado de não afastar os olhos dela. Andava de um lado para o outro, rebuscando por todo o lado.
Finalmente veio até junto de mim e disse:
– Kris, tenho a impressão de que aconteceu alguma coisa...
Interrompeu-se. Desliguei a máquina da barba e esperei.
– Tenho a sensação de que me esqueci de alguma coisa — continuou —, que me esqueci de imensas coisas. Só a ti consigo lembrar. Não... não consigo lembrar mais nada.

Ouvi-a, forçando-me a parecer despreocupado.
– Estive... estive doente? — perguntou.
– Sim... de certo modo. Sim, esteve ligeiramente doente.
– Então é isso. Isso já explica os meus lapsos de memória.
Ficara novamente bem disposta. Nunca serei capaz de descrever como se sentia nesse momento. Enquanto a observava a movimentar-se pelo quarto, ora sorrindo ora séria, conversadora um momento, silenciosa noutro, sentando-se e voltando a levantar-se, o meu terror foi gradualmente dominado pela convicção de que era a verdadeira Rheya quem estava ali no quarto comigo, embora a minha razão me dissesse que ela parecia um tanto estilizada, reduzida a certas expressões, gestos e movimentos característicos.
De repente agarrou-se a mim.
– O que está acontecendo Kris? — Enterrava os punhos no meu peito. — Está tudo em ordem? Há algum problema?
– Não podia estar melhor.
Sorriu um sorriso pálido.
– Quando você responde assim quer dizer que as coisas dificilmente poderiam estar piores.
– Que absurdo! — disse apressadamente. — Rheya, querida, tenho que te deixar. Espere aqui por mim. — E porque estava com fome, acrescentei: — Quer comer alguma coisa?
– Comer? — Abanou a cabeça. — Não. Vou ter de esperar muito tempo?
– Só uma hora.
– Vou contigo.
– Não podes vir comigo. Tenho trabalho a fazer.
– Vou contigo.

Ela mudara.

Esta não era a Rheya; a verdadeira Rheya não seria capaz de me impor a sua presença pela força.



Solaris - Stanislaw Lem (parte 8) [ Download ]