sábado, 30 de outubro de 2010

Solaris - Stanislaw Lem (parte 9)




 – É impossível, amor.

Olhou-me de cima para baixo. Depois agarrou-me subitamente na mão. E a minha mão deixou-se ficar, subiu pelo braço quente e roliço. Contra minha vontade, estava a acariciá-la. O meu corpo reconhecia o seu corpo; o meu corpo desejava-a, o meu corpo estava atraído pelo dela para lá de toda a razão, pensamento ou medo.

Tentando desesperadamente manter-me calmo, repeti:
– Rheya, é impossível. Tem que ficar aqui.
Pelo quarto ecoou uma única palavra:
– Não.
– Porquê?
– Não... não sei.

Olhou em volta, depois mais uma vez ergueu os olhos para mim.
– Não posso — sussurrou.
– Mas porquê?
– Não sei. Não posso. É como se... como se...

Lutou para encontrar a resposta, e, quando a proferiu, esta pareceu ter sobre ela o efeito de uma revelação.
– É como se não pudesse te ter longe da vista.

O tom resoluto da sua voz dificilmente poderia sugerir uma declaração de amor; sugeria algo de absolutamente diferente. Quando cheguei a esta conclusão, o modo como abraçava Rheya sofreu uma alteração abrupta, se bem que não imediatamente perceptível. Segurava-a nos braços e fixava-a nos olhos.
Imperceptivelmente, quase que por instinto, comecei a puxar-lhe as mãos para trás das costas, ao mesmo tempo que estudava o quarto com os olhos: precisava de alguma coisa que servisse para lhe amarrar as mãos.

De repente arremessou os dois cotovelos e deu-me um forte empurrão.
Resisti menos de um segundo.
Atirado para trás e quase levantado do chão, mesmo que fosse um atleta não me poderia ter libertado.
Rheya endireitou-se e deixou cair os braços.
A sua face, iluminada por um sorriso incerto, não tomara parte na luta.
Olhava-me com o mesmo interesse calmo que mostrara quando eu tinha acordado — como se absolutamente desinteressada pela minha tentativa desesperada, como se não tivesse a mínima consciência de que algo acontecera e não tivesse notado o meu súbito pânico. Estava ali em pé à minha frente, à espera, grave, passiva, ligeiramente surpresa.

Abandonando Rheya no meio do quarto, fui até ao lavatório.

Estava prisioneiro, apanhado numa ratoeira absurda de que estava decidido a escapar a todo o custo. Teria sido incapaz de pôr em palavras o significado do que me acontecera ou do que me estava a passar pela cabeça, mas apercebi-me agora de que a minha situação era idêntica à dos outros habitantes da Estação, que tudo o que experimentara, descobrira ou adivinhara fazia parte de um único todo, aterrador e incompreensível.
Entretanto, espremia o cérebro para pensar nalguma artimanha para descobrir qualquer processo de fuga.

Sem me voltar, podia sentir os olhos de Rheya sobre mim.
Sobre o lavatório havia um armário de remédios. Verifiquei rapidamente o seu conteúdo e descobri um frasco com comprimidos para dormir. Tirei quatro — a dose máxima —, meti-os num copo e enchi-o com água quente. Fiz pouco esforço para esconder de Rheya as minhas ações. Porquê? Nem me dei o trabalho de pensar na razão. Quando os comprimidos se dissolveram, voltei para junto de Rheya, que continuava no mesmo lugar.

– Está zangado comigo? — perguntou-me em voz baixa.
– Não. Bebe isto.
Inconscientemente, sempre soubera que ela me obedeceria. Pegou no copo sem uma palavra e bebeu a mistura escaldante de uma só vez. Pousando o copo vazio sobre um banco, fui sentar-me numa cadeira no canto do quarto.
Rheya veio para junto de mim, sentando-se no chão, como era seu costume, com as pernas dobradas sob o corpo e atirando o cabelo para trás.

Eu já não tinha qualquer ilusão: isto não era Rheya; e, contudo, reconhecia todos os seus gestos habituais.

Uma sensação de horror apertou-me a garganta; e o que era mais horrível era que eu tinha de continuar a enganá-la, fingindo tomá-la por Rheya, enquanto ela própria sinceramente acreditava qüe era Rheya — disso eu tinha a certeza, se ainda podia ter a certeza de alguma coisa.

Estava encostada aos meus joelhos, o cabelo roçava-me pela mão.
Assim permanecemos algum tempo. De vez em quando olhava para o relógio.
Meia hora passou; os comprimidos para dormir deviam ter começado a fazer efeito.
Rheya murmurou algo:
– Que disse?
Não houve resposta.

Embora atribuísse seu silêncio ao sono, no fundo duvidava de que os comprimidos fizessem efeito. Mais uma vez não me perguntei por quê. Talvez fosse porque o meu subterfúgio me parecia demasiado simples.
Lentamente a sua cabeça escorregou sobre os meus joelhos, o cabelo negro caído sobre a face. A respiração tornou-se mais profunda e regular: dormia.

Curvei-me para levantá-la e pôr na cama. Quando o fiz, os seus olhos abriram-se; lançou-me os braços em volta do pescoço e rebentou às gargalhadas.
Fiquei aturdido.

Rheya mal podia conter a hilaridade. Com uma expressão que era simultaneamente ingênua e astuciosa, observava-me por entre as pálpebras semi-cerradas.
Sentei-me de novo, tenso, estupidificado, desamparado.
Com uma risada final, enovelou-se contra as minhas pernas.
Em voz sem expressão, perguntei:
– Por que está rindo?
De novo um olhar de ansiedade e surpresa apareceu-lhe na face. Era visível que me queria dar uma explicação honesta. Deu um suspiro profundo e coçou o nariz como uma criança.
– Não sei — disse, por fim, com genuíno espanto. — Estou me comportando como uma idiota, não estou? Mas você também... está com um ar idiota, todo rígido e pomposo como... como Pelvis.

Quase não podia acreditar nos meus ouvidos.

– Como quem?
– Como Pelvis. Sabes bem a quem me refiro, aquele homem gordo...
Rheya nunca poderia ter conhecido Pelvis ou até ter-me ouvido mencionar o seu nome, pela simples razão de ter ele regressado de uma expedição três anos depois da morte dela. Não o tinha conhecido anteriormente, e por isso desconhecia o seu hábito inveterado de deixar as sessões arrastarem-se indefinidamente sempre que presidia a reuniões do Instituto. E mais, o seu nome era Pelle Willis, e até ao seu regresso eu não sabia que lhe tinham posto a alcunha de Pelvis.

Rheya apoiou os cotovelos nos meus joelhos e fixou-me nos olhos.
Estendi a mão e acariciei-lhe os braços, os ombros e a base do pescoço nu, que senti pulsar sob os meus dedos. Embora parecesse que a estava a acariciar (e, a julgar pela sua expressão, era assim que ela interpretava o toque das minhas mãos), na realidade estava a verificar mais uma vez que o seu corpo era quente ao tato, um corpo humano vulgar, com músculos, ossos, articulações.

Fitando-a calmamente nos olhos, senti o horrível desejo de apertar seu pescoço.
Recordei de súbito as mãos manchadas de sangue de Snow e larguei-a.
– Que estranho olhar — disse Rheya placidamente.

O meu coração batia com tanta fúria que me sentia incapaz de falar.
Fechei os olhos. Nesse mesmo instante surgiu-me na mente um plano de ação, completo em todos os detalhes. Não havia um segundo a perder. Levantei-me.

– Tenho de sair, Rheya. Se insiste terminantemente em vir, te levo comigo.
– Ótimo.
Pôs-se de pé de um salto.
Abri o armário e escolhi um traje para cada um de nós. Depois perguntei:
– Por que estás descalça?
Respondeu de modo hesitante.
– Não sei... Devo ter deixado os sapatos em qualquer lado.
Não insisti no assunto.
– Tem que despir o vestido e enfiar isto.
– Traje de vôo? Para quê?
Quando tentou tirar o vestido, ficou patente um fato extraordinário: não tinha qualquer fecho ou botão; os botões encarnados que se viam na frente eram apenas decorativos. Rheya sorriu, embaraçada.

Como se fosse o modo mais banal de proceder, apanhei do chão uma espécie de abridor de cartas e fendi-lhe o vestido nas costas, do pescoço até à cintura, para que o pudesse tirar pela cabeça.
Quando acabou de vestir o traje (que era um pouco grande para ela) e estávamos prontos para sair, perguntou:
– Vamos fazer um voo?
Apenas acenei que sim. Estava com medo de me cruzar com Snow. Mas o átrio estava vazio e a porta que dava para a cabina de rádio encontrava-se fechada.
No piso de aterragem pairava ainda um silêncio de morte.
Rheya seguia atentamente os meus movimentos.

Abri um cubículo e examinei o veículo para curtas distâncias que estava dentro. Verifiquei, um após outro, o micro-reator, os controles e os difusores.
Depois, tendo retirado a cápsula vazia da sua base, conduzi a carreta elétrica em direção à rampa inclinada.
Tinha escolhido uma nave pequena, usada para transportar material entre a Estação e o satélite, uma que normalmente não transportava pessoal porque não abria do lado de dentro. A escolha fora cuidadosamente calculada de acordo com o meu plano.
Claro que não tinha qualquer intenção de lançá-la, mas simulei os preparativos para uma verdadeira partida.
Rheya, que muitas vezes me acompanhara em voos espaciais, conhecia bem a rotina preliminar. Dentro da cabine, verifiquei que os sistemas de climatização e de abastecimento de oxigênio estavam a funcionar. Liguei o circuito principal e os indicadores do painel dos instrumentos acenderam-se.
Saí novamente, e disse a Rheya, que esperava no fundo das escadas:
– Entra.
– E você?
– Vou depois. Tenho de fechar a escotilha.

Não deu sinal de suspeitar de qualquer partida.
Quando desapareceu no interior, enfiei a cabeça pela abertura e perguntei:
– Está confortável?
Ouvi um “sim” abafado vindo do interior da cabine. Tirei a cabeça e fechei a escotilha com toda a força. Fiz deslizar os ferrolhos e apertei os cinco parafusos de segurança com a chave especial que trouxera comigo.
O esguio charuto de metal ali ficou, apontando para o alto, como se realmente estivesse pronto para partir para o espaço.

A prisioneira dentro dele não corria qualquer perigo: os tanques de oxigênio estavam cheios e havia alimento na cabine.
De qualquer modo, não pretendia mantê-la infinitamente presa.
Precisava desesperadamente de duas horas de liberdade para poder concentrar-me nas decisões que tinham de ser tomadas e para, juntamente com Snow, estudar um plano.
Quando apertava o penúltimo parafuso, senti uma vibração no gancho de três braços que segurava a base da nave. Pensei que, ao manejar precipitadamente a pesada chave, devia ter desapertado um pouco o suporte, mas, quando recuei para verificar, fui recebido por um espetáculo, que espero nunca mais ver.

Todo o veículo abanava, como se sacudido do interior por uma força sobre-humana. Nem mesmo um robô de aço poderia ter provocado tal tremor convulsivo numa massa de oito toneladas, e contudo, a cabina continha apenas uma frágil moça de cabelo negro.
Os reflexos das luzes tremiam sobre os lados reluzentes da nave.
Não ouvia pancadas; do interior não vinha o menor som. Mas os esteios vibravam como cabos muito esticados. A violência das ondas de choque era tal que temi que toda a armação acabasse por cair.

Apertei o último parafuso com a mão a tremer, atirei fora a chave e saltei da escada.
Enquanto recuava lentamente, notei que os amortecedores, desenhados para resistir a uma pressão contínua, vibravam furiosamente.
Parecia-me que a camada exterior da nave estava a enrugar-se.

Freneticamente, precipitei-me sobre o painel de controle e, com ambas as mãos, levantei a alavanca de partida. Assim que o fiz, o inter-comunicador ligado ao interior da nave lançou um som penetrante — não um grito, mas um som que não tinha a mínima semelhança com a voz humana, no qual pude, contudo, perceber o meu nome, continuamente repetido:

— Kris! Kris! Kris!

Tinha pressionado os controles de tal modo, atrapalhando-me com a pressa, que os meus dedos tinham ficado feridos e a sangrar.
Um fulgor azulado, como o de uma madrugada fantasmagórica, iluminou as paredes.

Nuvens rodopiantes de uma poeira etérea redemoinharam em volta da base de lançamento; a poeira transformou-se numa coluna de violentos relâmpagos, e os ecos de um trovejar apagaram todos os outros barulhos.
Três chamas, juntando-se instantaneamente num único pilar de fogo, fizeram subir a nave, que se elevou através da escotilha aberta na cúpula, deixando atrás de si um rastro reluzente, que ondeava enquanto gradualmente se desvanecia.
Escudos correram sobre a escotilha e os ventiladores automáticos começaram a sugar a fumaça acre que se amontoava na sala.

Só mais tarde me lembrei de todos estes detalhes; na altura mal sabia o que estava a ver. Agarrado ao painel de controle, o calor terrível a queimar-me a cara e chamuscando-me o cabelo, inalava o ar acre, que cheirava a uma mistura de carburante em combustão e de ozônio, produzido pela ionização.

No momento da partida fechara instintivamente os olhos, mas o clarão atravessara-me as pálpebras. Durante algum tempo podia ver somente espirais pretas, encarnadas e douradas, que lentamente se apagaram. Os ventiladores continuavam a zunir; a fumaça e a poeira desapareciam gradualmente.
A luz verde da tela de radar chamou-me a atenção. Minhas mãos voaram sobre os  controles quando comecei a procurar a nave. Quando finalmente a localizei, voava já acima da atmosfera. Nunca lançara um veículo tão às cegas e sem pensar, sem velocidade ou direção pré-estabelecidas. Nem mesmo conhecia o seu raio de ação, e temia causar qualquer desastre imprevisível. Calculei que a coisa mais fácil a fazer seria pô-la numa órbita estacionária em volta de Solaris e desligar os motores.
Verifiquei nas tabelas que a altura necessária eram 725 milhas.
Não tinha qualquer garantia, claro, mas não via outra saída.

Não tive coragem para ligar o inter-comunicador, que fora desligado no momento da largada. Não suportava a idéia de novamente me expor ao som daquela voz aterradora, que não era nem remotamente humana.
Pensei que se justificava pensar que vencera o “simulacro” e que, por trás da ilusão, contrariamente a tudo o que se poderia esperar, encontrara novamente a verdadeira Rheya — a Rheya das minhas recordações, a qual teria sido destruída pela hipótese de loucura da minha parte.

À uma hora saí da zona de lançamento.


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