sábado, 6 de novembro de 2010

Solaris - Stanislaw Lem (parte 10)




“THE LITTLE APOCRYPHA”

Tinha a cara e as mãos severamente queimadas.
Lembrei-me que tinha visto uma pomada contra queimaduras quando andara a procura dos comprimidos para dormir para Rheya (não estava com disposição para rir da minha ingenuidade), por isso voltei ao meu quarto.
Abri a porta. O quarto fulgia no crepúsculo vermelho.
Alguém estava sentado na poltrona onde Rheya se ajoelhara.

Durante um ou dois segundos fiquei paralisado de terror, cheio do terrível desejo de voltar as costas e fugir. Depois a figura sentada ergueu a cabeça: era Snow.
As pernas cruzadas, vestindo ainda as calças com manchas de ácido, estudava uns papéis, dos quais tinha uma pilha numa pequena mesa a seu lado.
Pousou os que segurava nas mãos, deixou os óculos escorregar um pouco pelo nariz e ergueu os olhos para mim.

Sem dizer uma palavra, fui até ao lavatório, tirei a pomada do armário dos remédios e passei-a pela testa e pelas bochechas. Felizmente a minha cara não estava demasiado inchada e os olhos, que instintivamente fechara, não pareciam inflamados. Com uma agulha esterilizada lancetei umas bolhas grandes que tinha nas têmporas e nas maçãs do rosto; expeliram um líquido aquoso, que limpei com um anti-séptico.
Depois apliquei gaze.

Snow observou-me durante todas estas minhas operações de primeiros socorros, mas não lhe prestei atenção. Quando finalmente acabei (e as minhas queimaduras doíam mais ainda), sentei-me na outra cadeira.
Tive de primeiro afastar o vestido de Rheya — aquele vestido aparentemente normal, que contudo não tinha fechos.
Snow, as mãos apertadas em volta de um joelho ossudo, continuava a observar-me com ar crítico.

– Bom, está pronto para uma conversa? — perguntou.
Não respondi; estava ocupado a repor no lugar um pedaço de gaze que deslizara por uma das bochechas.
– Teve uma visita, não teve?
– Sim — respondi secamente.
Snow tinha começado a conversa num tom que achei desagradável.
– E já se livrou dela? Bom, bom! Foi bem rápido!

Passou a mão pela testa, que ainda despelava e estava salpicada de manchas róseas de pele recentemente formada.
Fiquei atônito!
Por que não tinha antes compreendido as implicações das “queimaduras de sol” de Snow e Sartorius? Neste lugar ninguém se expunha ao sol!

Sem notar a minha súbita alteração de expressão, continuou:
– Calculo que não tenha tentado métodos extremos de inicio. Que usou primeiro? Drogas, veneno?
– Quer discutir o caso seriamente ou me fazer de tolo? Se não quer ajudar, pode me deixar em paz.
Semicerrou os olhos.
– Por vezes nos fazemos de bobos, mesmo contra a nossa vontade. Tentou a corda, ou o martelo? Ou o tinteiro, como Lutero? Não? — Fez uma careta. — Você é um homem bem rápido! O lavatório está intacto, você não bateu com a cabeça nas paredes, nem sequer virou o quarto todo de pernas para o ar. Um, dois, e para dentro do foguetão, sem mais delongas! — Olhou para o relógio. — Consequentemente, temos duas ou três horas de descanso... Te incomodo? — acrescentou com um sorriso desagradável.
– Sim — disse com secura.
– Verdade? Bom, se lhe contar uma pequena história, será que você me acredita?
Nada respondi.

Ainda com aquele sorriso horrendo, ele continuou.
– A coisa começou com Gibarian. Trancou-se na cabina e recusava-se a falar conosco a não ser através da porta. E pode adivinhar o que pensamos?
Continuei calado.
– Naturalmente, pensamos que enlouquecera. Ele contou um pouco da história, através da porta trancada, mas não tudo. Talvez você se pergunte, por que ele não nos contou que tinha alguém com ele. Oh, a cada um o que é seu! Mas ele era um verdadeiro cientista. Implorou que o deixássemos aproveitar a oportunidade!
– Que oportunidade?
– Obviamente estava a dar o máximo para resolver o problema, para chegar ao fundo do caso. Trabalhava dia e noite. Sabe o que ele fazia? Deve saber.
– Aqueles cálculos, na gaveta da cabina de rádio, eram dele?
– Sim.
– Quanto tempo durou?
– Essa visita? Cerca de uma semana... Pensamos que ele era vitima de alucinações ou de um colapso nervoso. Deixei-lhe um pouco de escopolamina.
– Deu-lhe escopolamina?
– Sim. Ele a aceitou, mas não para si. Experimentou noutra pessoa.
– E que fez você?
– Tínhamos decidido que no terceiro dia, se tudo o mais tivesse falhado, derrubaríamos a porta, ferindo-lhe talvez o amor-próprio, mas podendo, ao menos, tratar dele.
– Ah...
– Sim.
– Então, naquele armário...
– Sim, caro amigo, exatamente. Mas, entretanto, também nós tínhamos recebido visitas. Ficamos ocupadíssimos e não tivemos ocasião de lhe contar o que estava a se passar. Agora... agora tornou-se rotina.

Falara tão baixinho que adivinhei, mais do que ouvi, suas últimas palavras.
– Continuo sem perceber! — exclamei. — Se lhe escutavam à porta, devem ter ouvido duas vozes.
– Não, ouvíamos apenas a voz dele. Havia ruídos estranhos, mas julgávamos que eram também produzidos por ele.
– Apenas a voz dele! Mas, como podem não ter ouvido-a?
– Não sei. Tenho os rudimentos de uma teoria a esse respeito, mas, de momento, deixei-a de lado. Não vale a pena nos prender a pormenores. Mas, e quanto a você? Já deve ter visto algo ontem, ou iria pensar que somos uns lunáticos.
– Pensei que era eu quem tinha enlouquecido.
– Então, não viu ninguém?
– Vi uma pessoa.
– Quem?

Lancei-lhe um longo olhar — já não apresentava nem a intenção de um sorriso — e respondi:
– Uma... uma mulher negra... — Snow estava inclinado para a frente, e, à medida que eu falava, o seu corpo ia relaxando de modo quase imperceptível. — Podia ter-me avisado.
– E avisei.
– Podia ter escolhido uma maneira melhor!
– Era a única possível. Eu não saberia o que você iria ver. Ninguém podia saber, ninguém nunca sabe...
– Ouça, Snow, quero perguntar-lhe uma coisa. Você já teve alguma experiência deste... fenômeno. Ela... a pessoa que me visitou hoje irá...?
– Irá voltar? É isso que quer dizer?
Concordei com a cabeça.

– Sim e não — respondeu.
– Que significa isso?
– Ela... Essa pessoa vai voltar como se nada se tivesse passado, tal como estava no começo da sua primeira visita. Para falar mais concretamente, vai parecer que não percebeu o que você fez para se livrar dela. Se você respeitar as regras, ela não se tornará agressiva.
– Que regras?
– Depende das circunstâncias.
– Snow!
– O quê?
– Não temos tempo a perder com charadas.
– Charadas? Kelvin, penso que você ainda não percebeu. — Seus olhos brilhavam — Então, muito bem! — continuou em tom brutal. — Pode dizer-me quem era a sua visita?
Engoli a saliva e afastei o olhar. Não queria olhar para ele. Preferia tratar com qualquer outra pessoa que não ele, mas não tinha como escolher. Um pedaço de gaze deslocou-se e caiu-me na mão. Tive um sobressalto.
– Uma mulher que... — Parei. — Morreu. Uma injeção...
– Suicídio?
– Sim.
– E é tudo? — Aguardou. Vendo que eu continuava calado, murmurou: – Não, não é tudo...
Ergui rapidamente o olhar; não estava a olhar para mim.
– Como adivinhou? — Nada disse. — É verdade, sim, a história não acaba aí. — Umedeci os lábios. — Brigamos. Eu perdi a cabeça e disse coisas que não sentia. Fiz as malas e fui embora. Ela dera a entender... não com todas as palavras, quando duas pessoas viveram juntas durante anos, isso não é necessário. Eu estava certo de que não era verdade, que ela não ousaria, que teria medo, e disse-lhe isso mesmo. No dia seguinte lembrei-me que tinha deixado aquelas... aquelas ampolas numa gaveta. Ela sabia que estavam lá. Tinha-as trazido do laboratório porque precisava delas e explicara-lhe que uma dose exagerada seria letal. Fiquei um pouco preocupado. Queria voltar lá a buscá-las, mas pensei que isso daria a impressão de que levara os seus comentários a sério. No terceiro dia estava realmente preocupado e resolvi voltar. Quando cheguei, ela estava morta.
– Pobre inocente!

Ergui os olhos num sobressalto. Mas Snow não estava gozando de mim. Parecia que eu o estava vendo pela primeira vez. A sua face estava cinzenta e os vincos profundos que tinha entre as bochechas e o nariz eram a prova de indescritível cansaço.
Tinha o ar de um homem doente.

Estranhamente perturbado, perguntei:
– Por que diz isso?
– Porque é uma história trágica. — Vendo que eu estava incomodado, acrescentou apressadamente: — Não, não, você ainda não compreendeu. Claro que é um fardo terrível de suportar e você deve sentir-se como um assassino, mas... há coisas bem piores.
– Oh, verdade?
– Sim, é verdade sim. E quase estou feliz por vê-lo recusar-se a acreditar-me. Certos acontecimentos que efetivamente aconteceram podem ser horríveis, mas o que é ainda mais horrível é aquilo que não aconteceu, aquilo que nunca existiu.
– O que quer dizer? — Perguntei com voz pouco segura.
Abanou a cabeça para um e outro lado.
– Um homem normal — disse. — O que é um homem normal? Um homem que nunca cometeu um ato menos gracioso? Talvez, mas nunca terá tido pensamentos incontroláveis? Talvez não tenha. Mas talvez dentro dele tenha surgido algo, um fantasma, há dez ou trinta anos, algo que ele reprimiu e que completamente esqueceu, algo que não temia, pois sabia que nunca permitiria que se desenvolvesse e que, portanto, nunca poderia originar qualquer ação da sua parte. E agora, de súbito, em plena luz do dia, ele volta a encontrar-se com essa coisa... esse pensamento, agora com corpo, indestrutível. O homem pergunta-se onde está... Você sabe onde ele está?
– Onde?
– Aqui — sussurrou Snow —, em Solaris.
– Mas o que significa isso? Afinal de contas, você e Sartorius não são criminosos...
– E você diz que é psicólogo, Kelvin! Quem, num momento qualquer da vida, não teve um sonho louco, uma obsessão? Imagine... imagine um fetichista que, por exemplo,  apaixona-se por um imundo pedaço de pano e que ameaça, implora, desafia qualquer risco só para adquirir o seu adorado pedaço de trapo. Uma idéia estranha, não é? Um homem que simultaneamente tem vergonha do objeto do seu desejo e o coloca acima de qualquer coisa, um homem que está pronto a sacrificar a vida por esse seu amor, pois o sentimento que sente por essa coisa é talvez tão avassalador como o sentimento de Romeu para com Julieta. Tais casos existem, como você bem sabe. Portanto, há igualmente coisas, situações, que nunca ninguém ousou exteriorizar, mas que a mente produziu acidentalmente num momento de aberração, de loucura, chame como quiser. Na fase seguinte, a idéia transforma-se em carne e sangue. E é tudo.

Estupidificado, com a boca seca, repeti.
– É tudo? — Estava tonto. — E com relação à Estação? Que tem isso a ver com a Estação?
– É quase como se você deliberadamente se recusasse a compreender — resmungou. — Todo este tempo tenho estado a falar a respeito de Solaris, apenas a respeito de Solaris. Se a verdade é difícil de engolir, não é culpa minha. De qualquer modo, depois do que você já passou, deve ser capaz de me ouvir! Nós partimos para o espaço preparados para tudo: solidão, dificuldades, esgotamento, morte. A modéstia impede-nos de confessarmos, mas temos ótima opinião a nosso próprio respeito. E, contudo, se  examinarmos mais de perto, o nosso entusiasmo não passa de enganação. Não queremos conquistar o espaço, queremos simplesmente estender os limites da Terra até as fronteiras do espaço, para nós, tal ou tal planeta é tão árido como o Sara, outro é tão gelado como o Pólo Norte, outro ainda tão luxuriante como a bacia Amazônica. Somos humanitários e cavalheirescos; não queremos escravizar outras raças, queremos apenas transmitir-lhes os nossos valores e, em troca, apoderarmo-nos da sua herança. Consideramo-nos os Cavaleiros do Sagrado Contato. Isto é outra mentira. Nós procuramos apenas o Homem. Não temos necessidade de outros mundos. Um único mundo, o nosso, basta-nos; mas não o podemos aceitar por aquilo que é. Andamos à procura de uma imagem ideal para o nosso próprio mundo: andamos à procura de um planeta com uma civilização superior à nossa, mas que se tenha desenvolvido a partir da base de um protótipo do nosso primitivo passado. Ao mesmo tempo, há dentro de nós algo que não gostamos de encarar de frente, do qual tentamos proteger-nos, mas que sempre permanece, pois não abandonamos a Terra num estado de inocência primária.
Chegamos aqui como somos na realidade, e quando se volta a página e essa realidade nos é revelada, aquela parte da nossa realidade que preferíamos deixar no silêncio, então já não gostamos mais dela.

Ouvira-o pacientemente.
– Mas de que raio está falando?
– Estou falando daquilo que todos nós queríamos: contato com outra civilização. Agora conseguimos! E podemos observar, como se através de um microscópio, a nossa própria monstruosa feiúra, nossa loucura, a nossa vergonha! — A voz tremia-lhe de raiva. – Então... o que pensa que o Oceano é? Que o Oceano é responsável por tudo? Mas por quê? Não pergunto como, pergunto apenas por quê? Pensa sinceramente que ele quer brincar conosco ou castigar-nos, uma espécie de demonomania elementar? Um planeta dominado por um enorme diabo, que satisfaz as exigências do seu humor satânico enviando súcubos que assombram os membros de uma expedição científica...? Snow, você não pode acreditar em semelhante absurdo!
Resmungou por entre os dentes.
– Este diabo não é assim tão tolo...
Olhei-o, espantado. Talvez o que acontecera, partindo do princípio que o experimentamos em plena posse das nossas faculdades, tivesse acabado por fazê-lo perder a razão. Uma psicose de reação?

Ele ria para consigo próprio.
– Está fazendo o seu diagnóstico? Não se precipite! Você só passou por uma prova... e uma que foi razoavelmente suave.
– Oh, então o diabo teve pena de mim!
Começava a cansar-me desta conversa.
– Que deseja exatamente? — continuou Snow. — Quer que lhe diga o que esta massa de plasma metamórfico, x bilhões de toneladas de plasma metamórfico, planeja contra nós? Talvez nada.
– Que quer dizer com nada?
Snow sorriu.
– Você deve saber que a ciência se ocupa mais com os fenômenos do que com as suas causas. Os fenômenos aqui começaram a manifestar-se oito ou nove dias depois da tal experiência com raios X. Talvez o Oceano tenha reagido à irradiação com uma contra-irradiação, talvez tenha penetrado nos nossos cérebros e descoberto uma espécie de tumor psíquico.

Agucei os ouvidos.
– Tumor?
– Sim, processos psíquicos isolados, fechados sobre si mesmos, abafados, conquistados, em estado latente sob as cinzas da memória. O Oceano decifrou-os e utilizou-os, tal como se aproveita uma receita, ou uma fotocópia. Sabe certamente que as estruturas cristalinas de um cromossoma são semelhantes às de uma molécula de DNA, um dos constituendos dos cerebrócitos que formam o substrato dos processos de memória. Esta substância genética é um plasma que “recorda”. O Oceano “leu-nos” por meio desse processo, registrando os mínimos detalhes, do que resultou... bom, você conhece o resultado. Mas, com que propósito? Bah! Em todo o caso, não com o propósito de nos destruir. Poderia ter-nos aniquilado com muito mais facilidade. Tanto quanto podemos saber, dados os seus recursos tecnológicos, poderia ter feito tudo o que desejasse... confrontar-me com o seu duplo e a si com o meu, por exemplo.
—Foi então por isso que, naquela primeira noite, você ficou tão alarmado quando cheguei!
– Sim. De fato, como sabe se não aconteceu? Como pode saber se sou realmente o mesmo velho Cara de Rato que aqui se enterrou há dois anos?

Continuou a rir silenciosamente, gozando o meu mal-estar, depois resmungou:
— Não, não, basta de brincadeiras! Somos dois felizes mortais; eu poderia matá-lo, e você poderia matar-me.
– E os outros, não podemos matá-los?
– Não o aconselho a tentar, é um espetáculo pavoroso!
– Não há qualquer meio de matá-los?
– Não sei. Certamente não com veneno, ou uma arma, nem com uma injeção...
– E uma pistola de raios gama?
– Arriscaria isso?
– Como sabemos que não são humanos...
– Em certo sentido subjetivo, eles são humanos. Não sabem absolutamente nada a respeito da sua própria origem. Notou isso, não?
– Sim. Mas então, como explica...?
– Eles... toda a coisa é regenerada com uma extraordinária rapidez, numa velocidade incrível... em um piscar de olhos. Depois começam a comportar-se novamente como...
– Como?
– Como os recordamos, como estão gravados na nossa memória, depois do que...
– Gibarian sabia disso? — interrompi.
– Tanto quanto nós sabemos, é o que quer dizer?
– Sim.
– Muito provavelmente.
– Disse-lhe a si alguma coisa?
– Não. Encontrei um livro no quarto dele...

Pus-me em pé num pulo.
– The Little Apocrypha!
– Sim. — Olhou-me, pleno de suspeitas. — Quem lhe pode ter falado nisso?
Abanei a cabeça.
– Não se preocupe; pode bem ver que queimei a pele e que esta não está exatamente a renovar-se. Gibarian deixou na cabina uma carta para mim.
– Uma carta? Que dizia?
– Pouca coisa. Era mais uma nota que uma carta, com referências bibliográficas, alusões ao suplemento do Anal e à Apocrypha. O que é essa Apocrypha?
– Uma antigüidade que parece ter alguma relação com a nossa situação. Aqui está! — Tirou do bolso um pequeno volume encadernado em couro, esmurrado nos cantos, e entregou-me. Agarrei o pequeno livro.
– E que há com Sartorius?
– Oh, esse! Cada um tem o seu próprio sistema de enfrentar as situações. Sartorius está tentando continuar normal, isto é, conservar a sua respeitabilidade como emissário numa missão oficial.
— Você está brincando!
– Não. Falo sério. Estivemos juntos noutra ocasião. Não vou aborrecê-lo com os pormenores, mas éramos oito, e tínhamos às últimas 1000 libras de oxigênio. Um após outro fomos desistindo das nossas tarefas, e, no final, todos tínhamos barbas, exceto Sartorius. Era o único que fazia a barba e engraxava os sapatos. Ele é assim mesmo. Desta vez, claro, pode apenas fingir, representar um papel ou cometer um crime.
– Um crime?
– Talvez não seja essa a palavra exata. “Divórcio por expulsão!” Soa melhor?
– Muito engraçado.
– Se não gosta, sugira outra coisa.
– Oh, deixe-me em paz!
– Não, vamos discutir a coisa seriamente. Nesta altura, você já sabe praticamente tanto como eu. Tem algum plano?
– Não, nenhum. Não tenho a mínima idéia do que farei quando... quando ela voltar. E ela vai voltar, se é que o entendi direito.
– Está nas cartas.
– Como entram? A Estação está hermeticamente selada. Talvez na camada do casco exterior...
Abanou a cabeça.
– O casco exterior está em perfeitas condições. Não sei por onde entram. Geralmente aparecem quando acordamos, e, mais cedo ou mais tarde, sempre temos de dormir!
– Uma pessoa não pode construir uma barricada com segurança dentro da cabina?
– As barricadas não sobreviveriam por muito tempo. Há apenas uma solução, e pode bem adivinhar qual seja...
Ambos nos levantamos.
– Só mais um minuto, Snow! Você está sugerindo que acabemos com a Estação, e espera que eu tome a iniciativa e que aceite a responsabilidade?
– Não é assim tão simples. É evidente que podíamos sair daqui, ir até o satélite, e mandar de lá um S. O. S. Claro que seríamos considerados loucos. Seríamos trancados em um manicômio na Terra, a menos que tenhamos o bom senso de nos retratar. Um planeta distante, isolamento, perturbação mental coletiva, o nosso caso não parecerá nada incomum. Mas, ao menos estaríamos melhor em um manicômio do que aqui; um jardim calmo, pequenas celas brancas, enfermeiras, passeios acompanhados...

As mãos nos bolsos, o olhar fixo num canto do quarto, falava com a máxima seriedade.
O sol vermelho desaparecera para lá do horizonte, e o Oceano era um deserto sombrio, salpicado de fulgores moribundos, os últimos raios pairando por sobre as longas tranças formadas pelas vagas. O céu estava incandescente. Nuvens orladas de púrpura deslizavam por este mundo sinistro, encarnado e negro.

– Então, quer sair daqui ou não quer? Ou ainda não?
– Sempre lutador! Se soubesse todas as implicações daquilo que pergunta, não seria tão insistente. Não se trata do que eu quero, trata-se aqui do que será possível.
– Como, por exemplo?
– É aí que está o problema; não sei.
– Então, ficamos aqui? Pensa que conseguiremos descobrir um modo...?

Magro, de aspecto doentio, a face queimada profundamente vincada, voltou-se para mim:
– Talvez valesse a pena ficar. É pouco provável que aprendamos algo a respeito deles, mas a nosso próprio respeito...

Voltou-se, apanhou os seus papéis e saiu.
Abri a boca para fazê-lo parar, mas dos meus lábios não saiu qualquer som.

Agora nada mais podia fazer além de esperar.


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