sábado, 13 de novembro de 2010

Solaris - Stanislaw Lem (parte 11)



 Fui até a janela, e os meus olhos deslizaram de modo ausente por sobre a luminosidade vermelho-escura do oceano em sombras. Por um momento pensei em fechar-me dentro de uma das cápsulas da base de lançamento, mas era uma idéia que não valia a pena considerar por muito tempo: mais cedo ou mais tarde eu teria de sair.

Sentei-me junto à janela e comecei a folhear o livro que Snow me dera.
O reluzente crepúsculo iluminava o quarto e coloria as páginas.
Era uma coleção de artigos e tratados, publicados por um tal de Otho Ravintzer, PhD. Cada ciência engendra uma pseudociência, inspirando alguns excêntricos a explorar exóticos atalhos; a astronomia tem os seus parodistas na astrologia, a química costumava tê-los na alquimia. Não era de surpreender que a solarística, no seu começo, tivesse dado origem a uma explosão de cogitações marginais.

O livro de Ravintzer estava cheio desta espécie de especulação intelectual, prefaciada, é justo acrescentar, por uma introdução em que o editor se dissociava de alguns dos textos reproduzidos. Considerava, com uma certa justiça, que uma tal coleção poderia fornecer valiosa documentação da época, tanto para um historiador, como para um psicólogo da ciência.

O relatório de Berton, dividido em duas partes e completado com um resumo do seu diário de bordo, ocupava o lugar de honra no livro.

Das 14.00 horas às 16.40, pela hora da expedição, as entradas no diário eram lacônicas e negativas.
Altitude 3000— ou 3500— 2500 pés; nada visível; Oceano vazio.
[As mesmas palavras apareciam repetidas vezes sem conta.]
[Depois, às 16.40 horas:] Surge uma neblina vermelha, Visibilidade 700 metros.
Oceano vazio.
17.00 horas: o nevoeiro adensa-se; visibilidade 400 metros, com boas abertas. Descendo para 600 pés. 17.20 horas: no nevoeiro. Altitude 600. Visibilidade 20-40 metros. Subindo para 1200.
17.45 horas: altitude 1500. Cortina de nevoeiro até ao horizonte. Aberturas em forma de túnel, pelas quais consigo ver a superfície do Oceano. Vou tentar entrar por uma dessas aberturas; algo se move.
17.52: avistei o que parece ser um repuxo de água; lança para o ar uma espuma amarela. Está rodeado por uma muralha de nevoeiro. Altitude 300. Descendo para 60 pés.
O diário de bordo de Berton parava neste ponto.

Seguia-se a história do seu caso ou, para falar com mais exatidão, as declarações ditadas por Berton, interrompidas por perguntas feitas pelos membros da Comissão de Inquérito.
Berton: Quando cheguei aos 100 pés, tornou-se muito difícil manter a altitude devido às violentas rajadas de vento que havia dentro do cone. Tive de dedicar toda a minha atenção aos controles, e durante algum tempo; uns dez ou quinze minutos, não olhei para fora. Só demasiado tarde percebi uma poderosa força contrária que me arrastava de volta para o nevoeiro. Não era um nevoeiro qualquer, era uma densa substância coloidal que se agarrava aos vidros. Tinha imenso trabalho para limpar; aquele nevoeiro, ou antes, aquela cola, era uma porcaria insistente. Devido a essa resistência, a velocidade das pás giratórias reduziu-se em trinta por cento e comecei a perder altura. Estava com medo de capotar nas ondas; mas, mesmo com o motor no máximo, conseguia manter a altitude, mas não aumentá-la. Ainda me restavam quatro jatos de impulso, mas achava que a situação ainda não era suficientemente desesperada para usá-los. A nave foi sacudida por tremendas vibrações, que se tornavam cada vez mais violentas. Lembrando-me de que as pás giratórias deviam estar cheias daquela substância colática, olhei para o indicador da sobrecarga, mas, para minha surpresa, marcava zero. Desde que penetrara no nevoeiro não voltara a ver o Sol — apenas um fulgor encarnado. Continuei a voar, na esperança de ir parar dentro de um dos funis, e, meia hora depois, foi o que aconteceu. Dei comigo num novo “poço”, de forma cilíndrica, com várias centenas de metros de diâmetro. As paredes do cilindro eram formadas por enorme redemoinho de nevoeiro, que subia em espiral. Lutei para me manter no centro, onde o vento era menos violento. Foi então que notei uma alteração na superfície do Oceano. As ondas tinham desaparecido quase por completo e a camada superior do fluido, ou do que quer que seja que compõe o Oceano, estava a ficar transparente, com manchas sombrias aqui e ali, as quais se foram gradualmente dissolvendo, até que ficou completamente nítido. Eu conseguia ver distintamente até vários metros de profundidade. Vi uma espécie de sedimento amarelo que lançava filamentos verticais. Quando esses filamentos emergiam acima da superfície, tinham um brilho vítreo. Depois começaram a espumar, até que a espuma se solidificou; era como um melaço muito espesso. Esses filamentos glutinosos juntavam-se e entrelaçavam-se; na superfície formaram-se grandes bolhas, que lentamente começaram a ganhar forma.
De súbito notei que o meu aparelho estava sendo empurrado em direção à muralha de nevoeiro. Tive que manobrar contra o vento, e quando novamente pude olhar para baixo, vi uma coisa que se parecia com um jardim. Sim, um jardim. Árvores, sebes, caminhos; mas não era um jardim verdadeiro; era todo feito da mesma substância, que tinha endurecido e parecia agora um gesso amarelo. Sob este jardim, o Oceano rebrilhava. Desci o mais baixo que ousei para olhar de mais perto.

Pergunta: As árvores e as plantas que viu tinham folhas?
Berton: Não, as formas eram aproximadas, tal como a maquete de um jardim. É isso exatamente o que parecia: uma maquete, mas em tamanho real. De súbito começou a fender-se; rachou e abriu profundas brechas; delas escorria um espesso líquido branco, que se juntava em poças ou deslizava para longe. O “tremor de terra” tornou-se mais violento, toda aquela coisa entrou em ebulição e ficou enterrada sob a espuma. Ao mesmo tempo, as paredes de nevoeiro começaram a cerrar-se. Ganhei rapidamente altura e alcancei céu aberto a 1000 pés.

Pergunta: Tem certeza absoluta de que aquilo que viu se assemelhava a um jardim; que não havia qualquer outra interpretação possível?
Berton: Sim. Notei vários pormenores. Por exemplo, lembro-me de ter visto um lugar onde estavam várias caixas arrumadas em fila. Mais tarde percebi que eram provavelmente caixas para criação de abelhas.

Pergunta: Percebeu-se mais tarde? Mas não na hora, não na hora em que estava realmente a vê-las?
Berton: Não, porque tudo tinha a aparência de ser feito em gesso. Mas vi uma outra coisa.

Pergunta: Que outra coisa?
Berton: Vi umas coisas que não posso dar o nome exato, porque não tive tempo de  examinar cuidadosamente. Por baixo de uns arbustos, pareciam ferramentas, uns objetos longos com dentes. Podiam ser modelos em gesso de utensílios de jardinagem. Mas não tenho certeza absoluta. Ao passo que estou certo, plenamente certo, de que reconheci um apiário.

Pergunta: Não lhe ocorreu que poderia tratar-se de uma alucinação?
Berton: Não. Pensei que fosse uma miragem. Em nenhum momento me ocorreu que fosse uma alucinação porque me sentia perfeitamente bem e nunca antes vira uma coisa como aquela. Quando cheguei a 1000 pés e olhei de novo para o nevoeiro, este apresentava uns buracos mais irregulares, muito semelhantes a um queijo. Alguns destes buracos estavam completamente ocos e deixavam ver as ondas do Oceano; outros formavam como que umas taças pouco fundas, de onde algo borbulhava. Desci por outro poço e vi; o altímetro marcava 120 pés, vi uma parede abaixo da superfície do Oceano. Não era muito profunda e a vi claramente sob as vagas. Parecia a parede de um gigantesco edifício, com aberturas retangulares, como janelas. Até me pareceu ver algo mover-se por trás dessas janelas, mas disso não pude ter absoluta certeza. A parede veio lentamente à superfície, e um líquido mucoso e borbulhante escorreu pelos lados. Depois subitamente partiu-se ao meio e desapareceu nas profundezas. Recuperei a altitude e continuei a voar acima do nevoeiro, o aparelho quase tocando-o, até que descobri outra abertura, muito maior do que a anterior. Enquanto ainda estava a alguma distância, notei um objeto pálido, quase branco, flutuando na superfície. A minha primeira idéia foi de que se tratava do traje de voo de Fechner, especialmente porque tinha forma vagamente humana. Fiz o aparelho bruscamente dar meia volta, com medo de me desviar e não ser capaz de encontrar de novo o mesmo ponto. A tal forma, o corpo, movia-se; por vezes parecia manter-se de pé sobre a crista das ondas. Acelerei e desci tão lentamente que o aparelho balançava suavemente. Devo ter batido na crista de uma gigantesca vaga que sobrevoei. O corpo; sim, era um corpo humano, não um traje atmosférico, o corpo mexia-se.

Pergunta: Viu seu rosto?
Berton: Sim.

Pergunta: Quem era?
Berton: Uma criança.

Pergunta: Que criança? Reconheceu-a?
Berton: Não. Ou, pelo menos, não me lembro de tê-la visto antes. Além disso, quando me aproximei mais; quando estava a quarenta metros de distância, ou menos, percebi que não era uma criança comum.

Pergunta: Que quer dizer com isso?
Berton: Explico. A princípio não consegui perceber o que me preocupava na criança; só passados um ou dois minutos é que percebi: aquela criança era extraordinariamente grande. De fato, era enorme. Estendida horizontalmente, o corpo subia doze pés acima da superfície do Oceano, juro. Recordei que, quando bati na vaga, a sua face estava um pouco mais acima do que a minha, apesar do meu cockpit dever estar pelo menos dez pés acima do Oceano.

Pergunta: Se era assim tão grande, que o faz dizer que era uma criança?
Berton: Porque era uma criancinha pequena.

Pergunta: Você percebe, Berton, que sua resposta não faz sentido?
Berton: Pelo contrário. Eu podia ver sua face, e era a de uma criança muito pequena. Além disso, as suas proporções correspondiam exatamente às proporções de um corpo de criança. Era um... bebê de colo. Não, estou exagerando. Teria provavelmente dois ou três anos. Tinha cabelo negro e olhos azuis — uns olhos azuis enormes! E nua, completamente nua, como um recém-nascido. Estava molhado, reluzente; a pele era lustrosa. Fiquei perturbado. Já não pensava que fosse uma miragem. Via a criança muito distintamente. Subia e descia com as ondas; mas, além deste movimento geral, fazia outros movimentos, e estes eram horríveis!

Pergunta: Porquê? Que fazia ela?
Berton: Parecia uma boneca de museu, só que uma boneca viva. Abria e fechava a boca e fazia vários gestos, gestos horríveis.

Pergunta: Que quer dizer com isso?
Berton: Eu estava observando a cerca de vinte metros de distância, acho que não me aproximei mais. Mas, como já lhe disse, a criança era enorme. Eu estava vendo-a com grande nitidez. Seus olhos brilhavam, e uma pessoa seria realmente levada a pensar que era uma criança viva, se não fossem os movimentos, os gestos, como se alguém estivesse tentando... Era como outra pessoa fosse responsável pelos gestos...

Pergunta: Tente ser mais explícito.
Berton: É difícil. Falo de uma impressão, mais até, uma intuição. Não analisei essa impressão, mas sabia dentro de mim que aqueles gestos não eram naturais.

Pergunta: Quer dizer, por exemplo, que as mãos não se moviam como mãos humanas, porque as articulações não eram suficientemente flexíveis?
Berton: Não, de modo nenhum. Mas... aqueles movimentos não faziam sentido. Cada um dos nossos movimentos significa algo, serve para um propósito...

Pergunta: Acha que sim? Os movimentos de um bebê não têm grande significado!
Berton: Eu sei. Mas os movimentos de um bebê são confusos, ao acaso, sem coordenação. Os movimentos que vi eram... hum... sim, é isso mesmo, eram movimentos metódicos. Eram executados um após o outro, como numa série de exercícios; como se alguém estivesse querendo estudar o que aquela criança era capaz de fazer com as mãos, o tronco e a boca. A face era ainda mais horripilante do que o resto, porque a face humana tem uma expressão, e aquela face...não consigo descrevê-la. Era viva, é certo, mas não era humana. Ou antes, as feições, no seu conjunto, os olhos, a tez, eram... mas a expressão, os movimentos da face, não eram, certamente.

Pergunta: Caretas? Conhece o que acontece à cara de uma pessoa durante um ataque de epilepsia?
Berton: Sim. Já assisti a um ataque de epilepsia. Sei o do que se refere. Não, era algo de inteiramente diferente. A epilepsia provoca espasmos, convulsões. Os movimentos de que falo eram fluidos, contínuos, graciosos... melodiosos, se é que se pode aplicar tal termo a um movimento. É a definição mais próxima que me vem à cabeça. Mas aquela face... uma face não pode dividir-se em duas,  uma meio alegre, a outra triste, uma meio amuada e a outra amável, uma semi-assustada, e a outra triunfante. Mas era isso que se passava com a face daquela criança. E, além disso, todos os movimentos e alterações de expressão sucediam-se uns aos outros com incrível rapidez. Permaneci ali em baixo muito pouco tempo: uns dez segundos, talvez menos.

Pergunta: E afirma ter visto tudo isso em tão pouco tempo? Além disso, como sabe quanto tempo lá esteve? Verificou pelo cronômetro?
Berton: Não, mas já voo há dezessete anos, e no meu trabalho aprendemos a calcular instintivamente, até ao segundo exato, a duração daquilo a que se chama um instante de tempo. É uma faculdade que se adquire e que é essencial para uma boa navegação. Um piloto que não seja capaz de saber, seja sob que circunstâncias for, se determinado fenômeno durou cinco ou dez segundos, não vale nem o ar que respira. E o mesmo se passa no que refere à capacidade de observação. Ao longo dos anos, habituamo-nos a apreender tudo num relance.

Pergunta: E foi isso tudo o que viu?
Berton: Não, mas não me lembro do resto com tanta precisão. Suponho que já tinha visto demais; a minha atenção começou a falhar. O nevoeiro começou a cerrar-se e tive que subir. Subi e, pela primeira vez na vida, quase capotei. Minhas mãos tremiam tanto que tive dificuldade em operar os controles. Penso que gritei, chamei a base, embora soubesse que não estávamos em contato pela rádio.

Pergunta: Tentou então regressar?
Berton: Não. No final, depois de ter ganho altura, pensei comigo que Fechner provavelmente estaria no fundo de um daqueles poços. Sei que parece loucura, mas foi o que pensei. Pensei que tudo era possível e que também me seria possível encontrar Fechner. Decidi investigar todas as aberturas com que me deparasse pelo caminho. Na  terceira tentativa desisti. Depois de recuperar a altura, reconheci que seria inútil insistir depois do que acabava de ver nessa ocasião, a terceira. Era-me impossível continuar. Devo acrescentar, como já sabem, que estava a ser vítima de ataques de náusea e que vomitei no cockpit. Não podia compreender aquilo; nunca na vida tinha enjoado.
Comentário: Era sintoma de envenenamento.
Berton: Talvez. Não sei. Mas o que vi nessa terceira ocasião não foi imaginado. Não era o efeito de um envenenamento.

Pergunta: Como assim?
Berton: Não era uma alucinação. Uma alucinação é criada pelo nosso próprio cérebro, concorda?
Comentário: Sim.
Berton: Bom, e o meu cérebro nunca poderia ter criado o que eu vi. É coisa que nunca poderei acreditar. O meu cérebro não teria sido capaz.
Comentário: Continue a descrever o que foi!
Berton: Antes de descrever gostaria de saber como vão ser interpretadas as declarações que já fiz.

Pergunta: Que importância tem isso?
Berton: Para mim tem extrema importância. Disse que vi coisas que nunca esquecerei. Se a Comissão reconhece, ainda que com certas reservas, que o meu testemunho é digno de crédito e que se deve proceder a um estudo do Oceano, quero dizer, a um estudo orientado pelas informações a partir das minhas declarações, então contarei tudo. Mas se a Comissão considera que são tudo ilusões, recuso-me a dizer qualquer coisa mais.

Pergunta: Por quê?
Berton: Porque o conteúdo das minhas alucinações pertence a mim, e não sou obrigado a fazer relatório delas, ao passo que sou obrigado a fazer um relatório sobre o que vi em Solaris.

Pergunta: E isso significa que se recusa a responder a qualquer outra pergunta até que as autoridades da expedição tenham declarado a sua opinião? Compreende, é claro, que a Comissão não tem poderes para tomar uma decisão imediata?

Berton: Sim.
A primeira minuta acabava aqui.
Seguia-se um fragmento da segunda minuta, lavrada onze dias mais tarde.

Presidente: ...depois de considerar devidamente o caso, a Comissão, composta por três médicos, três biólogos, um físico, um engenheiro mecânico e um chefe delegado da expedição, chegou à conclusão de que o relatório de Berton é sintomático de alucinações causadas por envenenamento cerebral e são conseqüência da inflamação da zona associativa do córtex cerebral e também de que o relatório de Berton não tem qualquer relação com a realidade ou, pelo menos, qualquer relação apreciável.

Berton: Perdão, que significa “qualquer relação apreciável” ? Em que medida é a realidade apreciável ou não?
Presidente: Ainda não acabei. Independentemente destas conclusões, a Comissão registrou devidamente o voto de discordância do Dr. Archibald Messenger, que considera os fenômenos descritos por Berton como objetivamente possíveis, e se declara a favor de uma escrupulosa investigação.
Berton: Repito a minha pergunta.

Presidente: A resposta é simples. “Qualquer relação apreciável com a realidade” significa que a base das suas alucinações pode ter sido formada por fenômenos efetivamente observados. No decurso de um passeio noturno, um homem perfeitamente são de espírito pode imaginar que vê uma criatura viva num arbusto sacudido pelo vento. Tais ilusões podem, com muito mais facilidade, afetar um explorador perdido num planeta estranho e a respirar numa atmosfera envenenada. Este veredicto não é, em nenhum aspecto, prejudicial para si, Berton. Quer agora fazer-nos o favor de nos dar conhecimento da sua decisão?
Berton: Antes de mais, gostaria de saber as possíveis conseqüências do voto de discordância do Dr. Messenger.

Presidente: Praticamente nulas. Prosseguiremos com o nosso trabalho, de acordo com as linhas originalmente estabelecidas.
Berton: A nossa entrevista está sendo gravada?

Presidente: Sim.
Berton: Nesse caso, gostaria de dizer que, embora a decisão da Comissão possa não ser prejudicial para mim pessoalmente, ela é prejudicial ao espírito da expedição propriamente dita. Em conseqüência disso, como já declarei, recuso responder a qualquer outra pergunta.

Presidente: E é tudo?
Berton: Sim. Exceto que gostaria de me encontrar com o Dr. Messenger. Será possível?
Presidente: Claro.

E acabava a segunda minuta.
No fundo da página, em minúscula letra escrita à mão, havia uma nota dizendo que, no dia seguinte, o Dr. Messenger conversara com Berton durante quase três horas. Como resultado desta conversa, Messenger mais uma vez rogara ao Conselho da expedição que procedesse profundas investigações, com o fim de verificar as declarações do piloto. Berton fizera-lhe novas e extremamente convincentes revelações, que Messenger não estava autorizado a divulgar, a menos que o Conselho alterasse a sua decisão negativa.
O Conselho —Shannahan, Timolis e Trahier— rejeitou a moção e o caso foi encerrado.
O livro reproduzia ainda a fotocópia da última página de uma carta, ou antes do rascunho de uma carta encontrado depois da morte de Messenger pelos seus executores testamentários. Ravintzer, apesar de todas as pesquisas que fez, foi incapaz de descobrir se a carta chegara alguma vez a ser enviada.

... espíritos obtusos, uma pirâmide de estupidez. [Começava o texto.] Na ânsia de preservar a sua autoridade, o Conselho — mais precisamente Shannahan e Timolis (o voto de Trahier não conta)— rejeitou as minhas recomendações. Agora vou apresentar o assunto directamente ao Instituto; mas, como bem podes imaginar, os meus protestos não vão convencer ninguém. Impedido pelo juramento que fiz, não posso, infelizmente, revelar-te o que Berton me contou. Se o Conselho não aceitou o testemunho de Berton, foi basicamente devido ao fato dele não ter treino científico, embora qualquer cientista invejasse a presença de espírito e poder de observação deste piloto.
Ficaria muito grato se, na volta do correio, me mandasse as seguintes informações:
I) A biografia de Fechner, particularmente pormenores relativos à sua infância.
II) Tudo o que souber a respeito da sua família, fatos e datas — provavelmente se perdeu os pais quando ainda era criança.
III) A topografia do lugar onde foi criado. Gostaria de, mais uma vez, te dizer o que penso com relação a toda esta história. Como sabes, pouco tempo depois da partida de Fechner e Carucci, apareceu uma mancha no centro do sol vermelho. Esta erupção cromosférica causou uma trovoada magnética, principalmente sobre o hemisfério sul, onde estava situada a nossa base (segundo as informações fornecidas pelo satélite), e as ligações de rádio foram cortadas. As outras equipas inspecionaram a superfície do planeta sobre uma área relativamente limitada, ao passo que Fechner e Carucci se tinham afastado consideravelmente da base.
Nunca, desde a nossa chegada ao planeta, se tinha verificado nevoeiro tão persistente ou silêncio tão ininterrupto. Penso que o que Berton viu foi uma das fases de uma espécie de “Operação Homem”, a que se dedicava este monstro viscoso. A origem de todas as várias formas observadas por Berton é Fechner — ou antes, o cérebro de Fechner, sujeito a uma incrível “dissecação psíquica”, com o propósito de uma espécie de recriação, uma reconstrução experimental, baseada em impressões (indubitavelmente as mais duradouras) gravadas em sua memória.
Sei que tudo isto parece fantástico; sei que posso estar enganado. Mas ajuda-me, por favor. De momento estou no Alaric, onde aguardo ansioso tua resposta.
Teu amigo
A.

Estava escurecendo e mal se podiam distinguir os caracteres pouco nítidos no topo da página cinzenta — a última folha da descrição da aventura de Berton. A minha própria experiência levava-me a considerar Berton como uma testemunha digna de crédito.

Voltei-me para a janela.
Acima da linha do horizonte luziam ainda algumas nuvens, quais brasas moribundas.
O Oceano estava invisível sob o manto formado pela escuridão púrpura.
As tiras de papel esvoaçavam preguiçosamente sob os ventiladores de ar. No ar sereno e quente sentia-se um sopro de ozônio.
Nada havia de heróico na nossa decisão de permanecer na Estação. A época dos heroísmos acabara, desaparecida com a era dos grandes triunfos interplanetários, das expedições arrojadas e dos sacrifícios.

Fechner, a primeira vítima do Oceano, pertencia a um passado distante. Quase deixara de me interessar pela identidade dos visitantes de Snow e Sartorius. Em breve, disse para comigo, deixaríamos de nos sentir envergonhados, de nos manter isolados. Se não podíamos nos libertar dos nossos visitantes, nos acostumaríamos à sua presença, aprenderíamos a viver com eles. Se o criador deles alterasse as regras do jogo, nos
adaptaríamos às novas regras, mesmo que a princípio resmungássemos ou nos rebelássemos, mesmo se um de nós caísse em desespero e se matasse.
Com o tempo, voltaria a estabelecer-se um certo equilíbrio.

A noite chegou, não muito diferente de outras noites na Terra.
Agora conseguia apenas distinguir os contornos brancos do lavatório e a superfície polida do espelho.
Levantei-me. Tateando o caminho até ao lavatório, procurei por entre os objetos que enchiam a prateleira e encontrei o pacote de algodão. Lavei a cara com um pedaço de algodão molhado e estendi-me na cama.
Ouvi uma traça a bater as asas... não, era a fita do ventilador.
O zunido parou, recomeçou novamente. Já não conseguia ver a janela; tudo estava imerso em escuridão. Um misterioso raio de luz atravessou a negrura e pairou em frente de mim — tendo por pano de fundo a parede, ou o negro do céu. Recordei como, no dia anterior, o vazio da noite tinha me assustado e sorri com a lembrança. Já não tinha medo da noite; não tinha medo de nada.
Ergui o pulso e olhei para o anel de números fosforescentes; mais uma hora e amanheceria o dia azul.

Respirei profundamente, saboreando a escuridão, o espírito vazio e em repouso.
Ao mudar de posição, senti de encontro à cintura, a forma achatada do gravador: Gibarian, a sua voz imortalizada nas bobinas de fita. Esquecera-me de ressuscitá-lo, de o ouvir — a única coisa que podia fazer por ele.

Tirei o gravador do bolso para escondê-lo debaixo da cama.
Ouvi um leve roçar; a porta abriu-se.
— Kris? — Uma voz ansiosa segredou o meu nome. — Kris, você está aí? Está tão escuro...
Respondi:
— Sim, estou aqui. Não tenha medo. Entra!



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