segunda-feira, 31 de maio de 2010

O Capacitor Fantástico também liberta livros




Libertar um livro

Inclusão literária, redes sociais de compartilhamento, openbook, bookrings, bookcrossing... o nome é irrelevante diante da gratificante ideia de compartilhar livros, seja através da simples troca, ou deixando um livro em um canto qualquer do planeta, para que qualquer pessoa possa também ler, e repassá-lo adiante.

Sabemos do poder de transformação contido em um livro, o quanto ele é capaz de abrir nossas mentes e nos possibilitar enxergar o mundo de outra forma. Além é claro, de divertir e proporcionar um enorme prazer.

Segue uma lista com diversas opções para compartilhamento de livros, sendo que na maioria destas, basta se cadastrar, e registrar o local onde o livro foi deixado.


LEIA E LIBERTE !
































Vale a pena conhecer também, iniciativas como a Biblioteca Pote de Mel , Borrachalioteca, o Açougue Cultural T-Bone , Chuva de Livros, Leia Brasil, Livro Sem Fronteiras, Projetos de Leitura, Cidade da Leitura e o Plano Nacional do Livro e Leitura



e para você que está animado com esta dica, ou quer algumas ideias para fazer suas próprias tarjas...











domingo, 30 de maio de 2010

FC do B gratuito para leitura no site da Bookess



Em mais uma ótima iniciativa de seus organizadores, a primeira edição do Concurso Literário FC do B, está agora disponível para leitura

O concurso, o único dedicado inteiramente à FC brasileira, recebeu na ocasião (2006-2007), mais de duzentos contos de todo o país.

As histórias selecionadas, variam entre realidades alternativas, narrativas de experimentos científicos, mundos futuros distópicos ou virtuais, mas sempre com um ponto em comum: a visão brasileira.

No site da Bookess é possível também, comentar o livro, votar seu favorito, baixar para o e-reader de sua escolha, além de utilizar outras ferramentas disponíveis para compartilhamento.




Philip José Farmer


Philip José Farmer (26 de janeiro de 1918 - 25 de fevereiro de 2009) nasceu em North Terre Haute, Indiana (EUA).

Autor de Ficção Científica e Fantasia, é conhecido principalmente por em muitos de seus trabalhos, envolver  personagens já existentes da ficção e da História, como Phileas Fogg, ou trazendo para o papel, os heróis do cinema como Tarzan e Doc Savage. No romance 'The Adventure of the Peerless Peer', Tarzan e Sherlock Holmes trabalham juntos.

Aos seis anos de idade, brincando na rua, Phil olhou para cima e avistou um dirigível prateado. A partir deste momento, se interessou tanto por veículos mais leves do que o ar, a ponto de alegar ter escrito mais histórias com dirigíveis, do que qualquer outro escritor em todo mundo.

Desde criança Philip lia os livros de Oz e se interessava por Mitologia Grega. Com dez anos descobriu a ficção científica e começou a ler Edgar Rice Burroughs, Jules Verne, Sherlock Holmes e As Viagens de Gulliver.

Aos dezoito graduou-se na Peoria Central High School e entrou pata a Universidade de Missouri para estudar Jornalismo, porém seu pai, perdeu todo o dinheiro da família em ações, e Phil teve que trabalhar para Illinois Power and Light, para ajudar o pai a pagar as dívidas e também juntar dinheiro e voltar para a faculdade. Ao retornar aos estudos, Philip escolheu estudar Letras (Inglês) no Instituto Politécnico de Bradley, em Peoria. Casou-se às escondidas e tornou-se também cadete da aviação na Força Aérea do Exército, pouco antes do Japão atacar Pearl Harbor.

Com o fim da guerra, trabalhando em período integral na Keystone Steel Wire & Company, Phil arranjava tempo para escrever, e publicou sua primeira história de ficção científica, 'The Lovers', na edição de agosto da Startling Stories. A partir dai, passou a ser publicado constantemente em revistas populares.

Em 1953 ganhou o seu primeiro prêmio Hugo, como escritor mais promissor. Apesar dos prêmios, Phil continuou a escrever somente nas horas vagas e publicou vários contos e poemas. Seu trabalho cada vez ocupava-o mais, e como escritor técnico para a divisão militar de eletrônicos da Motorola, não publicou durante bastante tempo, ou pouco produziu.

Somente no início da década de 60, já com três livros publicados, Farmer se tornaria um escritor em tempo integral.

Farmer trabalhava frequentemente com temas sexuais: um tabu da FC, e sua coleção de contos, 'Strange Relations' foi um evento notável na história do sexo na ficção científica. Apesar disso, sua obra, por vezes, também explora temas religiosos, chegando a utilizar Jesus como um personagem (Jesus on Mars).

Farmer escreveu um livro (Venus on the half-shell) sob o pseudônimo de Kilgore Trout, personagem que aparece nas obras de Kurt Vonnegut. Ele havia planejado escrever mais livros assim, mas um desacordo com Vonnegut deu fim a esses planos.

Mais tarde escreveria como Cordwainer Bird, um pseudônimo inventado por Harlan Ellison para os projetos de cinema e televisão de que ele não queria ser associado.

Em 2001 ganhou o World Fantasy Lifetime Achievement (pela SFWA), e recentemente vinha trabalhando em um romance ('The Evil in Pemberley House', finalizado posteriormente por Scott Eckert), quando veio a falecer.

PJF site oficial


Philip José Farmer (After King Kong Fell, El Hacedor de Universos,Carne, Lord Tyger, Los Amantes, Madre, Relaciones extranãs, Una historia de tantas del mundo de solo Martes, Mundo do Rio série, Riverworld series, Philip Jose Farmer 1952-1964, Opar 2, A Barnstomer in Oz, A Feast unknown, Biological revolt, Dare, Dark is the sun, Day of the great shout, Dayworld series, Flesh, Image of the beast, Inside outside, Jesus on Mars, Lord of the trees and the Mad Goblin, Mother, Night of light, Riverworld SS, The book of Philip Jose Farmer, The Empire of the nine omnibus, The gate of time, The green odyssey, The sliced crosswise only on Tueday World, The stone god awakens, The wind whales of Ishmael, Time's last gift, Tongues of the moon, Traitor to the living, Venus on the half-shell, World of Tiers series ) [ Download ]

sábado, 29 de maio de 2010

O Caçador de Andróides - Philip K. Dick (parte 9)



DEPOIS DE ESTACIONAR o veloz e "envenenado" hovercar do departamento no telhado do Palácio da Justiça de São Francisco, na Lombard Street, o caçador de cabeças a prêmio Rick Deckard, pasta na mão, desceu para o escritório de Harry Bryant.

— Você voltou cedo pra burro — disse o superior, recostando-se na cadeira e tomando uma pitada de rapé Específico N.° 1.
— Consegui o que o senhor me mandou buscar. — Rick sentou-se, de frente para a secretária. Pôs de lado a pasta. Estou cansado, reconheceu. A coisa começava a pegá-lo, agora que voltara. Perguntou-se se recuperaria o suficiente para o trabalho que o aguardava. — Como está Dave? — perguntou. — Suficientemente bem para que eu fale com ele? Eu gostaria, antes de pegar o primeiro dos andros.
— Em primeiro lugar — disse Bryant — você vai tentar pegar Polokov. O cara que atingiu Dave com um laser. É melhor tirá-lo logo da jogada, uma vez que ele sabe que está em sua lista.
— Antes de eu falar com Dave?

Bryant pegou uma cópia de papel de seda, uma indistinta terceira ou quarta cópia a carbono.
— Polokov arranjou um emprego na prefeitura como gari, lixeiro.
— Não são só especiais que fazem esse tipo de trabalho?
— Polokov está passando por especial, debilóide. Muito deteriorado, ou é isso que ele pretende ser. Foi isso o que enganou Dave. Aparentemente, Polokov parece-se e age de modo tão igual a um debilóide que Dave se esqueceu. Tem certeza agora a respeito da Escala Voigt-Kampff? Está absolutamente certo, à vista do que aconteceu em Seattle, que...
— Estou — disse, seco, Rick. Não deu maiores explicações.
— Aceito sua palavra nisso — concordou Bryant. — Mas não pode haver nem mesmo um único deslize.
— Jamais pode haver, em caçada de andros. Isto não é diferente.
— O Nexus-6 é diferente.
— Eu já descobri o meu primeiro — disse Rick. — E Dave descobriu dois. Três, se contar Polokov. Muito bem, vou aposentar Polokov hoje, e depois, talvez à noite ou amanhã, converso com Dave. — Estendeu a mão para a cópia apagada, a última notícia sobre o andróide Polokov.
— Mais uma coisa — lembrou Bryant. — Um policial soviético, do W.P.O., está a caminho daqui.

Enquanto você estava em Seattle, recebi um telefonema dele. Ele está a bordo de um foguete da Aeroflot que descerá no campo público daqui dentro de uma hora. O nome dele é Sandor Kadalyi.
— O que é que ele quer? — Raramente tiras do W.P.O. apareciam em São Francisco, se é que alguma vez apareceram.
— O W.P.O. está tão interessado nos novos tipos Nexus-6 que quer que um de seus homens trabalhe com você. Será um observador...e, também, se puder, lhe dará ajuda. Cabe a você decidir quando e se ele será de valor. Mas já dei permissão para ele trabalhar com você.
— E o prêmio? — perguntou Rick.
— Você não terá que dividi-lo — respondeu Bryant, com um fraco sorriso.
— Eu simplesmente não consideraria essa combinação como financeiramente justa. — Ele não tinha absolutamente nenhuma intenção de dividir o prêmio com um gorila do "W.P.O. Estudou a informação sobre Polokov. Continha uma descrição do homem, ou melhor, do andro, e fornecia seu atual endereço e local de trabalho: Departamento de Limpeza Urbana da Área da Baía, com escritórios em Geary.
— Quer adiar a aposentadoria de Polokov até que o tira soviético chegue para ajudá-lo? — perguntou Bryant.

Rick eriçou-se todo.
— Eu sempre trabalhei sozinho. Claro, a decisão é sua... eu farei o que quiser. Mas eu preferia pegar Polokov agora mesmo, sem esperar que Kadalyi chegasse à cidade.
— Então vá em frente, sozinho — resolveu Bryant. — E quanto ao segundo, que será uma Srta. Luba Luft — você também tem aí a folha sobre ela — você poderá convocar Kadalyi.

Tendo enfiado as cópias a carbono na pasta, Rick deixou o gabinete do superior e subiu mais uma vez para o telhado, onde estava estacionado seu hovercar. Agora, vamos visitar o Sr. Polokov, disse a si mesmo. E deu uma palmadinha em seu tubo de laser.

Em sua primeira tentativa para pegar o andróide Polokov, Rick visitou a sede da Companhia de Limpeza Urbana da Área da Baía.
— Estou à procura de um de seus empregados — disse à severa e grisalha mulher que operava a mesa telefônica. O edifício impressionava-o: grande e moderno, possuía um bom número de empregados puramente burocráticos, de alta classe. Os grossos carpetes, as caras escrivaninhas de madeira autêntica, lembraram-lhe que a coleta e remoção de lixo tornara-se, desde a guerra, uma das mais importantes indústrias da Terra.

O planeta inteiro começava a transformar-se em sucata e mantê-lo habitável para a população restante exigia que o lixo fosse ocasionalmente tirado do caminho... ou, como Buster Amigão gostava de dizer, a Terra morreria sob uma camada — não de poeira radiativa — mas de entulho.
— O Sr. Ackers — informou a telefonista. — Ele é o gerente de pessoal. — Apontou para uma escrivaninha imponente, mas imitação, de carvalho, atrás da qual sentava-se um pequenino e afetado indivíduo de óculos, em meio a uma pletora de documentos.

Rick apresentou-lhe seu cartão de identidade da polícia.
— Onde se encontra, neste exato momento, um empregado de vocês chamado Polokov? No trabalho ou em casa?

Após uma relutante consulta aos registros, o Sr. Ackers respondeu:
— Polokov deve estar no trabalho. Achatando hovercars em nossa fábrica de Daly City e lançando-os na baía. Contudo... — O gerente de pessoal consultou outro documento, apanhou o videofone e fez uma chamada interna para alguém no edifício. — Ele não está, então — disse, encerrando a chamada. Pondo o aparelho no gancho, disse a Rick: — Polokov não apareceu hoje para trabalhar. Nenhuma explicação.

O que foi que ele fez, Senhor Investigador?
— Se ele aparecer — recomendou Rick —, não lhe diga que estive aqui à sua procura. Compreendeu?
— Sim, compreendi — respondeu mal-humorado Ackers, como se seu profundo treinamento em assuntos policiais houvesse sido ridicularizado.

No hovercar "envenenado" do departamento, Rick voou em seguida para o prédio de apartamentos de Polokov, situado no Tenderloin. Nós nunca vamos pegá-lo, disse a si mesmo. Eles — Bryant e Holden — esperaram demais. Em vez de ter-me mandado a Seattle, Bryant devia ter-me mandado pegar Polokov — ainda melhor, na noite passada, logo que Dave foi ferido.

Que lugar nojento, pensou, enquanto cruzava o terraço na direção do elevador. Chiqueiros abandonados de animais, cobertos por meses de poeira. Numa gaiola, um animal falso que não mais funcionava, uma galinha.

Pelo elevador, desceu até o andar de Polokov e encontrou o corredor às escuras, como se fosse uma caverna subterrânea. Utilizando sua lanterna policial de feixe selado, iluminou o corredor e, mais uma vez, lançou um olhar à cópia a carbono. O Teste Voigt-Kampff já fora administrado a Polokov. Podia ignorar essa parte e passar diretamente à tarefa de destruir o andróide.

É melhor pegá-lo daqui mesmo, decidiu. Pondo no chão o estojo de armas, abriu-o e tirou um transmissor de ondas não-direcional Penfield. Apertou o botão de catalepsia, protegido contra a emanação de estado de espírito graças a uma irradiação de contra-onda que lhe chegava pelo cabeçote de metal do transmissor, e que era dirigida somente para ele.

Eles estão agora, todos eles, duros como pedra, disse a si mesmo. Todos, seres humanos e andróides, nas vizinhanças. Nenhum risco para mim. Tudo o que eu tenho a fazer é entrar e abatê-lo com o laser. Suponho, naturalmente, que ele esteja no apartamento, o que não é provável.

Utilizando uma chave de infinito, que analisava e abria todas as formas de fechaduras conhecidas, entrou no apartamento de Polokov, feixe de laser na mão.

Nenhum sinal de Polokov. Apenas móveis semi-arruinados, um lugar de entulho e decadência. Na verdade, nenhum artigo pessoal: o que o recebia consistia de restos não reclamados que Polokov herdara quando ocupara o apartamento e que ao deixar abandonava ao futuro morador, se algum surgisse.

Eu sabia, disse Rick a si mesmo. Bem, lá se vão os primeiros mil dólares de prêmio.
Provavelmente, escafedeu-se o caminho todo até o Círculo Antártico.
Fora de minha jurisdição; outro caçador de cabeças a prêmio, de outro departamento de polícia, aposentará Polokov e reclamará o dinheiro.
Agora, é ir atrás dos andros que, acho, não foram avisados, como Polokov foi. De Luba Luft.

De volta ao telhado, fez pelo telefone do hovercar um relatório a Bryant:
— Nenhuma sorte com Polokov. Provavelmente, foi embora logo depois de ter atingido Dave com o laser. — Olhou para o relógio de pulso. — Quer que eu vá receber o tal Kadalyi no campo? Isto economizará tempo e estou ansioso para ir atrás da Srta. Luft. — Já tinha à sua frente a folha de informações e fazia um exame minucioso.
— Boa idéia — disse Bryan —, exceto que o Sr. Kadalyi já está aqui. A nave da Aeroflot — como sempre, diz ele — chegou antes da hora. Espere um momento. — Uma conferência invisível. — Ele vai voar para onde você está agora — disse Bryant, reaparecendo na tela. — Enquanto isso, estude os dados sobre a Srta. Luft,
— Cantora de ópera. Supostamente, natural da Ale» manha. No momento, com a Companhia de Ópera de São Francisco. — Inclinou a cabeça, numa atitude pensativa, sua mente na folha de informações. — Deve ter uma boa voz, para fazer relações com tal rapidez. Muito bem, espero aqui por Kadalyi. — Deu a localização a Bryant e desligou.

Vou fingir que sou um aficionado de ópera, resolveu, continuando a ler. Gostaria, especialmente, de vê-la como Donna Anna, no Don Giovanni. Na minha coleção pessoal, tenho fitas de velhas estrelas, como Elisabeth Schwarzkopf, Lotte Lehmann, e Lisa Delia Casa. Isto nos dará algo para discutir enquanto preparo meu equipamento Voigt-Kampff.

Tocou o telefone do carro. Apanhou o aparelho.
— Sr. Deckard — disse a telefonista da polícia —, um telefonema para o senhor, de Seattle. O Sr. Bryant mandou fazer a ligação. Da Rosen Association.
— Muito bem — disse Rick, e esperou. O que é que eles querem?, perguntou-se. Tanto quanto podia compreender, já descobrira que os Rosens eram más notícias. E, sem dúvida, continuariam sendo, o que quer que tencionassem fazer.

O rosto de Rachael Rosen apareceu na minúscula tela.
— Alô, Investigador Deckard. — O tom dela parecia tranqüilizador e isto lhe chamou a atenção. — Está ocupado neste momento ou posso conversar com o senhor?
— Continue — disse ele.
— Nós, da empresa, estivemos discutindo sua situação no tocante aos tipos Nexus-6 que escaparam, e conhecendo-os como os conhecemos, achamos que o senhor teria mais sorte se um de nós trabalhasse com o senhor.
— Fazendo o quê?
— Bem, acompanhando-o. Quando o senhor sair para pegá-los.
— Por quê? O que mais quer dizer?
— Os Nexus-6 ficariam em guarda se fossem abordados por um humano. Mas se outro Nexus-6 fizesse o contato...
— Especificamente, você quer dizer, você?
— Isso mesmo — confirmou ela, rosto sério.
— Eu já tenho ajuda demais.
— Mas eu, realmente, penso que o senhor precisa de mim.
— Duvido. Mas vou pensar no caso e depois lhe telefono. — Em algum tempo, em futuro distante, não especificado, pensou. Ou, o que era mais provável, nunca. Isto é tudo o que eu preciso: Rachael Rosen me seguindo pela poeira, a cada passo.
— O senhor não está falando sério — retrucou Rachael. — Nunca vai me telefonar. Não compreende como é agil um Nexus-6 ilegal, fugitivo, como ele será impossível para o senhor. Achamos que lhe devemos isto porque o senhor sabe, pelo que fizemos.
— Aceito isto como se fosse um anúncio — respondeu ele, e fez um movimento para desligar violentamente.
— Sem mim — disse Rachael — um deles o pegará antes que o senhor possa pegá-lo.
— Adeus — disse ele, e desligou, Que mundo é este, pensou, em que um andróide telefona para um caçador de cabeças a prêmio e lhe oferece ajuda? Chamou de volta a telefonista da polícia. — Não retransmita para mim. qualquer outro telefonema de Seattle — ordenou.
— Sim, Sr. Deckard. O Sr. Kadalyi já chegou aí?
— Continuo esperando. E era melhor ele andar depressa, porque não vou ficar aqui muito tempo. — E desligou.

No momento em que reiniciava a leitura da informação sobre Luba Luft, um táxi hovercar desceu e parou no telhado a alguns metros de distância. Dele desceu, sorrindo, mão estendida, e aproximou-se do carro de Rick, um homem de rosto vermelho, aparência de querubim, evidentemente na metade da casa dos cinqüenta, usando um pesado e impressionante sobretudo estilo russo.

— Sr. Deckard? — perguntou o homem, sotaque eslavo. — O caçador de cabeças a prêmio do Departamento de Polícia de São Francisco? — O táxi vazio alçou vôo. O russo ficou a observá-lo, com ar distraído. — Eu sou Sandor Kadalyi — disse, abrindo a porta do carro e imprensando-se ao lado de Rick.
Apertando a mão de Kadalyi, notou Rick que o representante do W.P.O. trazia um tipo estranho de tubo de laser, uma subforma que ele nunca vira antes.
— Oh, isto? — perguntou Kadalyi. — Interessante, não? — Deu um puxão na cartucheira. — Consegui este em Marte.
— Eu pensava que conhecia todas as armas portáteis até agora fabricadas — observou Rick. — Mesmo as manufaturadas nas colônias e para emprego nelas.
— Nós mesmos fabricamos isto — disse Kadalyi, sorrindo, radiante como um Papai Noel eslavo, o rosto vermelho cheio de orgulho. — Gosta dele? O que é diferente nele, o funcionamento, é ... hei, segure-o. — Passou a arma a Rick, que a examinou com conhecimento, graças a anos de experiência.
— Como é que ele difere, funcionalmente? — perguntou. Não percebia a diferença.
— Aperte o gatilho.

Apontando para cima pela janela do carro, Rick apertou o gatilho. Coisa alguma aconteceu, nenhum feixe emergiu. Confuso, devolveu-o a Kadalyi.
— O circuito de disparo — disse alegre Kadalyi — não faz parte da peça. Continua comigo. Está vendo? — Abriu a mão, mostrando uma pequenina unidade. — E posso também dirigi-lo, dentro de certos limites. Não importa para onde seja apontado.
— Você não é Kadalyi, você é Polokov — disse Rick.
— Você não quer dizer o contrário? Você está um pouco confuso.
— Quero dizer que você é Polokov, o andróide. Você não é da Polícia Soviética. — Rick, com o pé, premiu o botão de emergência no piso do carro.
— Por que meu tubo de laser não dispara? — exclamou Kadalyi-Polokov, ligando e desligando a aparelhagem miniaturizada de disparo e apontando a arma que tinha na mão.
— Por causa de uma onda senoidal — respondeu Rick. — Ela corta as emanações de laser e transforma o feixe em luz comum.
— Neste caso, vou ter que quebrar seu pescoço de lápis.

O andróide deixou cair a arma e, com um rosnado, estendeu ambas as mãos para o pescoço de Rick.
No momento em que as mãos do andróide mergulhavam em sua garganta, Rick disparou do coldre de ombro sua pistola regulamentar do velho estilo, e a bala magnum calibre 38 pegou a andróide na cabeça e arrebentou-lhe a caixa cerebral.

A unidade Nexus-6 que a operava desfez-se em pedaços, numa pancada de vento furiosa, alucinada, que repercutiu por todo o carro. Pedaços da unidade, da mesma forma que a própria poeira radiativa, rodopiaram na direção de Rick.

Os restos aposentados do andróide saltaram para trás, colidiram com a porta do carro, rebotaram e caíram pesadamente sobre ele. Quando deu por si, estava lutando para empurrar para longe os restos do andróide ainda em contorções.

Abalado, conseguiu finalmente pegar o telefone e chamar o Palácio da Justiça.
— Posso fazer meu relatório? — perguntou. — Diga a Harry Bryant que eu peguei Polokov.
— "Você pegou Polokov." Ele vai entender isso?
— Vai — disse Rick, e desligou, Cristo, aquilo fora por pouco, pensou. Devo ter reagido em excesso ao aviso de Rachael Rosen; fiz o contrário e isto quase acabou comigo. Mas peguei Polokov, disse a si mesmo.

As glândulas supra-renais, aos poucos, deixaram de bombear suas várias secreções para sua corrente sangüínea, o ritmo cardíaco voltou ao normal e a respiração tornou-se menos ofegante. Mas tremia ainda.

De qualquer modo, acabei de ganhar mil dólares, informou a si mesmo. Assim, valeu a pena. E minhas reações são mais rápidas do que as de Dave Holden. Claro, contudo, a experiência de Dave evidentemente me preparou para isto. Isto eu tenho que admitir. Dave não teve um aviso como este.

Mais uma vez, levantando o telefone, fez uma ligação para casa, para Iran. Enquanto esperava, conseguiu acender um cigarro, o tremor começava a passar.

O rosto da esposa, lerda com as seis horas de depressão auto-acusatória que ela profetizara, manifestou-se na videotela.
— Oh, alô, Rick.
— O que foi que aconteceu com 594 que disquei para você, antes de sair? O reconhecimento satisfeito de...
— Eu redisquei. Logo que você saiu. O que é que você quer? — Sua voz caiu para um tom monótono, cansado, de desalento. — Estou tão cansada que simplesmente não tenho mais esperança, de coisa alguma. De nosso casamento e de você ser morto por um desses andros. É isso o que você quer me dizer, Rick? Que um andro pegou-o? — No fundo, Buster Amigão trovejava e zurrava, apagando-lhe as palavras; viu-lhe a boca mover-se, mas escutou apenas a TV.
— Escute aqui — interrompeu ele —, você está me ouvindo? Estou na pista de alguma coisa importante. Um novo tipo de andróide com o qual ninguém pode, aparentemente, salvo eu. Já aposentei um deles e, para começar, isto é maravilhoso. Sabe o que é que nós vamos ter antes de eu terminar?
Iran olhou-o cegamente.
— Oh — disse ela, inclinando a cabeça.
— Eu não disse ainda! — Podia dizer-lhe, nesse momento. Nesta altura, a depressão da esposa se tornara tão imensa que ela nem mesmo mais o escutava. Para todos os fins, ele falava num vácuo. — Até a noite — disse amargamente e bateu com força o telefone. Diabos a levem, disse a si mesmo. Qual é a vantagem disso, de eu arriscar minha vida? Ela nem se importa se possuímos uma avestruz ou não! Coisa alguma penetra. Que pena que não me livrei dela há dois anos, quando estivemos pensando em nos separar. Mas ainda posso fazer isso, lembrou a si mesmo.

Macambúzio, inclinou-se. reuniu no chão do carro seus papéis amarfanhados, incluindo a informação sobre Luba Luft. Nenhum apoio, disse a si mesmo.

A maioria dos andróides que conheço tem mais vitalidade e desejo de viver do que minha mulher.
Ela nada tem para me dar.

Isto o fez pensar outra vez em Rachael Rosen. O aviso dela sobre a mentalidade dos Nexus-6, compreendeu, revelara-se correto. Supondo que ela não queira parte alguma do dinheiro do prêmio, talvez eu possa usá-la.

O entrevero com Kadalyi-Polokov mudara profundamente suas idéias.

Ligando em força máxima o motor do hovercar, subiu como uma bala para o céu, dirigindo-se para a velha Casa da Ópera, onde, de acordo com as notas de Dave Holden, encontraria Luba Luft naquela hora do dia.
Nesse momento, pensou nela, também, em dúvida.

Algumas mulheres andróides pareciam-lhe bem bonitas; sentira-se fisicamente atraído por várias delas e isto era uma sensação estranha, sabendo, intelectualmente, que eram máquinas que não reagiam emocionalmente, afinal de contas.

Por exemplo, Rachael Rosen. Não, decidiu, magra demais. Nenhum desenvolvimento real, especialmente no busto. Um corpo como de uma criança, chato e manso. Podia arranjar coisa melhor.
Que idade aquela folha de informações dava a Luba Luft? Enquanto manobrava o carro, puxou mais uma vez as notas amassadas e descobriu a sua "idade". Vinte e oito, dizia o papel.
A julgar pela aparência, o que, no caso dos andros, era o único padrão útil.

É uma boa coisa eu conhecer algo sobre ópera, refletiu Dick. Isto é outra vantagem que tenho sobre Dave. Sou mais culturalmente orientado.

Vou tentar pegar mais um andro antes de pedir ajuda a Rachael, decidiu. Se a Srta. Luft revelar-se excepcionalmente difícil — embora sentisse a intuição de que não seria. Polokov fora o perigoso; os demais, inconscientes de que alguém andava caçando-os ativamente, cairiam um depois do outro, liquidados como patinhos em fileira.

Descendo para o grande e bem decorado telhado da Casa da Ópera, cantarolou em voz alta um pot-pourri de árias, com palavras pseudo-italianas que inventou na hora. Mesmo sem o órgão condicionador de estados de espírito Penfield ali para ajudá-lo, sua animação se transformou em otimismo, e numa esfomeada e jubilosa prelibação.



O Caçador de Andróides - Philip K. Dick (parte 9) [ Download ]

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Nothing (trailer)




David e Andrew têm sido melhores amigos desde que tinham nove anos de idade.

Não é exatamente um duo dinâmico, eles dividem uma casa situada entre dois viadutos da auto-estrada.
Andrew tem agorafobia crônica, e David é um mal sucedido vendedor de uma empresa de fios.

Um dia, um acontecimentos vira seus mundos de ponta cabeça.

Fora dos limites da sua casa não há nada. Nada. Niente. Zilch.
O mundo inteiro é só há branco, uma eternidade de branco, nada além do branco.

Superar o medo de estar ao ar livre leva Andrew e David, a se preparam para explorar o grande desconhecido, onde eles descobrem que podem fazer o que bem quiser.

Totalmente bizarro e muito engraçado, o filme de Vincenzo Natali (diretor de Cube) é um quase sonho niilista.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Love Story 2050 (trailer)




Apenas na Índia, eles poderiam fazer um romance musical que envolve viagens no tempo, robôs e reencarnação.

Este filme tem todos os elementos que fazem de Bollywood, uma das indústrias cinematográficas mais prolíficas do mundo, com audiências de milhões de pessoas.

Amor não correspondido, famílias disfuncionais, música espetacular, números de dança, vilões desagradáveis, belos heróis, em três horas de duração - sem esquecer os efeitos especiais.

Karan é o filho rebelde de um empresário rico e que se apaixona por Sana, que não está muito interessada nele. Eventualmente, ele ganha seu amor, apenas para perdê-la em seguida num trágico acidente.

Mas ela vai ser ressuscitada. O tio inventor de Karan usa sua máquina do tempo para levá-lo até 2050, onde Sana é agora uma famosa diva pop. Karan, com a ajuda de um andróide fêmea chamada QT, deve conquistá-la novamente, enquanto luta contra o malvado Dr. Hoshi.

Se você nunca experimentou um filme de Bollywood, nada melhor do que com este espetáculo musical de FC, com muitos efeitos especiais.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

One (trailer)




Baseado no ensaio 'One Human Minute' de Stanislaw Lem, o filme inicia com um mistério.

Uma livraria famosa pelas suas obras raras é completamente preenchida por cópias de um único livro intitulado 1, que não parece ter uma editora ou autor.

O estranho livro descreve o que acontece a toda a humanidade no espaço de um minuto.

A investigação policial começa e os funcionários da livraria são colocados numa solitária pelo Bureau de Pesquisa Paranormal. Conforme a investigação avança, a situação se torna mais complexa e o livro gera inúmeras controvérsias (políticas, científicas, religiosas e artísticas).

Atormentado pela dúvida, o protagonista tem que encarar os fatos: a realidade só existe na imaginação das pessoas... o que poderia se esperar de um filme baseado na obra do autor de Solaris?

Visualmente rico, beirando o surreal, e pontuado por imagens de arquivo de notícias, o filme questiona o próprio sentido de nossa existência.

terça-feira, 25 de maio de 2010

2033 (trailer)



No futuro, a essência vital do México como conhecemos hoje - sua religiosidade e sua liberdade de expressão - são proibidas. Em seu lugar, uma sociedade governada por um governo totalitário militar que controla o povo através de uma alimentação sintética.

Pablo, o equivalente futuro de um yuppie, que gosta de "designer drugs", está sendo preparado para ser o próximo líder. Porém, quando o chefe carismático de um culto religioso revela que seu pai ainda está vivo, mas escravizado pelo governo, Pablo se junta aos rebeldes para resgatá-lo e derrubar o regime militar-industrial.

Este filme mexicano de qualidade, mostra o por que do México ser uma força a ser reconhecida no mundo da ficção científica.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Drones (trailer)



Drones são familiares para os fãs de ficção científica, mas não se trata de Halo, Stargate ou Borgs.
Este filme é sobre o mais infeliz de todos os seres - os trabalhadores de escritório que habitam o mundo cinza e bege, dos artigos de papelaria, copiadoras e apresentações em PowerPoint.

Brian acidentalmente descobre que um de seus colegas de trabalho é na verdade um alienígena, quando ele o pega escondido, transmitindo uma mensagem para seu planeta natal. Ele logo descobre que alguns de seus outros colegas são também extra terrestres ("eu também as vezes acho isso"), mas de mundos opostos, com diferentes planos para a Terra.

Brian será capaz de salvar o dia e ganhar a garota?

Drones leva a mundanidade e o humor de The Office para a Ficção Científica.

domingo, 23 de maio de 2010

Robert Silverberg



Robert Silverberg (15 de janeiro de 1935) nasceu em Brooklyn, NY(EUA).

Escritor prolífico de ficção científica, vencedor de vários prêmios Hugo e Nebula, Silveberg foi o modelo do escritor americano de FC, bem sucedido e vivendo integralmente de sua ficção.

Leitor voraz desde a infância, começou a enviar histórias para as revistas de ficção científica em sua adolescência. Seu primeiro romance, um livro infantil chamado 'Revolt em Alpha C' foi publicado em 1955, e no ano seguinte, ele ganhou seu primeiro Hugo, como melhor escritor novato.

Nos quatro anos seguintes, por sua própria conta, escreveu um milhão de palavras por ano.

Em 1959, o mercado de ficção científica desmoronou, e Silverberg voltou sua capacidade de escrever para outros campos, da ficção histórica até pornografia soft das revistas masculinas.

Em meados dos anos 60, os escritores de ficção científica estavam começando a serem mais ambiciosos,  buscando reconhecimento literário. Frederik Pohl, então editor de três revistas de ficção científica, ofereceu a Silverberg carta branca para escrever. Assim, Silverberg voltou a escrever, dando muito mais atenção a profundidade do personagem e de sua origem social, do que tinha feito no passado, e passou a misturar elementos da literatura moderna que havia estudado na Universidade de Columbia.

Seus livros, a partir dessa época, apresentam um grande salto de qualidade em relação a tudo que já publicara antes. Em 1969 seu livro "Nightwings" foi premiado com o Hugo de melhor romance. Ele ganhou o prêmio Nebula em 1970, com o conto "Passanger", e mais dois no ano seguinte. Ganharia ainda um outro, em 1975, sendo escolhido como personalidade do ano da FC e convidado de honra na World Science Fiction Convention.

Porém Silverberg estava cansado demias, depois de anos e anos de alta produção.
Também sofria com um problema na tireóide, que o forçava a se recolher para tratamento; além de ter perdido sua casa em um incêndio. Silverberg anunciaria sua aposentadoria em 1975.

Em 1980 ele retornaria com um estilo mais popular, beirando a fantasia, publicando 'Lord Valentine's Castle' e até hoje mantem-se trabalhando.


Robert Silverberg ( Hot sky at midnight, Legends, A happy day in 2381, A tip on a turtle, Across a billion years, Against the current, Alaree, Alas nocturnas, Amanda and the alien, Basileus, Beauty in the night, Born with the dead, Call me Titan, Choke Chain, Colision course, Company store, Cronos, Downward to the Earth, Dying inside, Earthmen and strangers, Face of the waters, Gilgamesh in the Outback, Good news from the Vatican, Great short novels, Guardian of the Crystal Gate, Hawksbill station, Homefaring, In the beginning, Invaders from Earth, Kingdoms of the Wall, Legends II, Long life the Kejwa, Longest way home, Lord Valentine's Castle, Lost race to Mars, Majipoor series, Master of Life and Death, Man and Machines, Multiples, New Springtime series, Nightwings, On the road of Jorslem, Our Lady of Sauropods, Postmark Ganymedes, Prestimion Trilogy, Recalled to Life, Roma Eterna, Rumo aos mundos do Futuro, Sailing to Bysantium, The Best of 2001-2002, Shadown of the Stars, Shadrach in the furnace, Shipsister Starsister, Starman's Quest, Stochastic Men, The asenion solution, The Emperor and the Maula, The face of the waters, The longest way home, The Macauley circuit, The man who never forget, The Martian Invasion, The masks of time, The palace at midnight, The pardoner's tale, The positronic man, The secret sharer, The seventh shrine, The silent invaders, The world inside, The world outside, Thebes of the hundred gate, This is the road, Those who watch, To live again, To Open the Sky, Tom O'Bedlam, Tower of Glass, Travelers, Up the Line, Valentine Pontifex, Venustrap, Waiting for the earthquake, With Caesar, Yokel with portfollio ) [ Download ]

sábado, 22 de maio de 2010

O Caçador de Andróides - Philip K. Dick (parte 8)



ENTÃO É ASSIM, pensou J. R. Isidore, apertando ainda na mão o cubo mole de margarina. Talvez ela mude de idéia sobre eu chamá-la de Pris. E possivelmente sobre o jantar também, se eu conseguir achar uma lata de verduras de antes da guerra.

Mas talvez ela não saiba cozinhar, lembrou-se de repente. Muito bem, eu posso. Preparo o jantar para nós dois. E mostro-lhe como, de modo que ela possa fazê-lo no futuro, se quiser. Provavelmente, vai querer, logo que eu lhe mostre como. Tanto quanto posso entender, a maioria das mulheres, mesmo jovens como ela, gosta de cozinhar. É um instinto.

Subindo os degraus escuros, voltou para seu apartamento.
Ela está realmente fora de alcance, pensou enquanto vestia seu uniforme branco de trabalho. Mesmo que se apressasse, chegaria atrasado e o Sr. Sloat ficaria zangado, mas, e daí? Por exemplo, ela jamais ouvira falar em Buster Amigão. E isso é impossível. Buster é a pessoa viva mais importante, exceto, claro, "Wilbur Mercer... Mas Mercer, refletiu, não é um ser humano. Evidentemente, é uma entidade arquetípica vinda das estrelas, superposto sobre nossa cultura por um gabarito cósmico.
Pelo menos, foi isso que ouvi pessoas dizerem. É isso o que o Sr. Sloat diz, por exemplo. E Hannibal Sloat deve saber.

Estranho que ela não seja coerente sobre seu próprio nome, ponderou. Talvez precise de ajuda. Posso lhe dar alguma ajuda?, perguntou a si mesmo. Um especial, um debilóide? O que é que eu sei? Não posso casar, não posso emigrar e, no fim, a poeira vai acabar comigo. Não tenho coisa alguma a oferecer.

Vestido e pronto para sair, deixou o apartamento e subiu ao telhado, onde se encontrava estacionado seu usado e arruinado hovercar.

Uma hora depois, ao volante do caminhão da companhia, apanhara o primeiro animal defeituoso do dia. Um gato elétrico. Deitado na gaiola plástica à prova de poeira do caminhão, arfava espasmodicamente. Quase se pensaria que era real, observou Isidore, voltando ao Hospital Van Ness de Animais de Estimação — a pequena empresa com o nome cuidadosamente mal escolhido, que mal conseguia sobreviver no duro e competitivo campo de reparos de falsos animais.

O gato, em seu sofrimento, gemeu.
Uau, pensou Isidore, ele parece mesmo que está morrendo. Talvez sua bateria de dez anos de duração tenha entrado em curto e todos os seus circuitos estejam sistematicamente queimando. Um trabalho grande. Milt Borogrove, mecânico do hospital, teria as mãos ocupadas. E eu não dei uma estimativa do custo ao dono, pensou deprimido Isidore. O cara simplesmente me lançou o gato nas mãos, disse que ele começara a enguiçar durante a noite e depois, acho, foi trabalhar. De qualquer modo, de repente, cessara a momentânea troca verbal: o dono do gato subira para o céu em seu novo e belo modelo de hovercar, feito sob medida. E aquele homem constituía um novo cliente.

Ao gato, disse:
— Você não pode esperar até chegarmos à loja? — O gato continuou a gemer. — Vou recarregá-lo, enquanto estamos a caminho — decidiu. Baixou o caminhão para o telhado disponível mais próximo e lá, temporariamente estacionado e com o motor em funcionamento, foi até o fundo do veículo, abriu a gaiola de transporte à prova de poeira, a qual, juntamente com seu uniforme branco e o nome do caminhão, criavam a impressão total de um verdadeiro veterinário apanhando um animal de verdade.

O mecanismo elétrico, dentro de sua pelagem cinzenta convincentemente autêntica, gorgolejou e expeliu bolhas, vidradas suas videolentes, as mandíbulas de metal trancadas. Isto sempre o deixara atônito, esses circuitos de "doença" instalados nos falsos animais. A peça que segurava nesse momento no colo fora construída de tal maneira que, quando um componente básico enguiçava, a coisa toda parecia não quebrada, mas organicamente doente. Ele teria me enganado, pensou Isidore, enquanto tateava pela pele falsa do estômago, em busca do painel de controle oculto (bem pequeno nessa variedade de animal artificial), além dos terminais da bateria de rápido carregamento. Não encontrou nenhum dos dois. Tampouco pôde procurar muito tempo: o mecanismo entrara quase em pane total. Se o defeito consiste de um curto, refletiu, que está queimando todos os circuitos, então talvez o melhor seja soltar um dos cabos da bateria; o mecanismo parará e nenhum outro mal será feito.
E lá na loja, Milt pode recarregá-lo.

Habilmente, passou os dedos pela pseudo-espinha óssea. Os cabos deviam estar por ali. Um trabalho danado de perfeito, uma imitação absolutamente perfeita. Os cabos não eram visíveis nem mesmo com a observação mais cuidadosa. De ser um produto Wheelright & Carpenter — custam mais, mas vejam só que bom trabalho fazem.

Desistiu. O falso gato deixara de funcionar, de modo que evidentemente o curto-circuito — se era isso o que fazia mal à coisa — acabara com o suprimento de energia e o mecanismo básico de propulsão. Isso vai custar um bocado de dinheiro, pensou, pessimista. Bem, a coisa evidentemente não passara pela limpeza e lubrificação trianual, o que fazia toda a diferença. Talvez isto ensine a seu dono — da pior maneira.

Voltando para o assento do motorista, colocou o volante em posição de subida, ganhou o ar mais uma vez com um zumbido e reiniciou o vôo de volta à oficina de reparos.

De qualquer modo, não ouvia mais o chiado asmático, de dar nos nervos, do falso gato. Podia relaxar. Engraçado, pensou, mesmo que eu saiba, racionalmente, que é falso o som emitido por um falso animal que queima seu elemento propulsor e ligações do suprimento de energia, meu estômago está revirado. Como gostaria, pensou tristemente, de conseguir outro emprego. Se não houvesse sido reprovado naquele teste de inteligência, não estaria reduzido a este trabalho ignominioso, com os subprodutos emocionais que o acompanham.

Por outro lado, os sofrimentos sintéticos dos falsos animais não incomodavam Milt Borogrove ou o chefe de ambos, Hannibal Sloat. Assim, talvez a culpa seja minha, disse a si mesmo. Talvez, quando uma pessoa se deteriora e retroage na escada da evolução, como eu, quando mergulha na fossa da sepultura do mundo sendo um especial, bem, é melhor abandonar esta linha de indagação. Coisa alguma o deprimia mais do que os momentos em que comparava seus atuais poderes mentais com os que antes possuíra. Todos os dias, declinava em sagacidade e vigor. Ele e milhares de outros especiais em toda a Terra, todos eles a caminho do monte de cinzas. Transformando-se em entulho vivo.
Para arranjar uma companhia, ligou o rádio do caminhão e sintonizou o programa de áudio de Buster Amigão, o qual, como a versão de TV, continuava durante vinte e três ininterruptas e cálidas horas por dia... a hora restante sendo tomada por uma despedida religiosa, dez minutos de silêncio e recomeço religioso...
"— ... que prazer tê-la no programa outra vez — dizia Buster Amigão. — Vejamos, Amanda. Fazem dois dias inteiros desde que tivemos sua última visita. Começando algum novo filme, querida?"
"— Bem, eu ia fazer um filme ontem, mas, bem, eles queriam que eu começasse às sete..."
"— Sete da manhã?" — interrompeu-a Buster Amigão.
"— Sim, isso mesmo, Buster, sete da manhã!" — Amanda Werner soltou seu famoso riso, quase tão imitado como o de Buster. Amanda Werner e várias outras senhoras, belas, elegantes, de seios cônicos, originárias de países não especificados e vagamente definidos, além de alguns chamados humoristas, constituíam o núcleo perpétuo da programação de Buster. Mulheres como Amanda Werner jamais faziam filmes, nunca apareciam em peças de teatro. Viviam vidas belas, refinadas, como convidadas do programa interminável de Buster, aparecendo, calculara Isidore certa vez, umas setenta horas por semana no vídeo.

Como era que Buster Amigão encontrava tempo para gravar seus programas de áudio e vídeo?, perguntou-se Isidore. E como era que Amanda arranjava tempo para ser convidada dia sim, dia não, mês após mês, ano após ano? Como era que continuavam a falar daquele jeito? Eles nunca se repetiam — não, tanto quanto podia saber.
Suas observações, sempre espirituosas, sempre novas, não eram ensaiadas.
O cabelo de Amanda brilhava, seus olhos faiscavam, seus dentes reluziam; ela nunca pifava, nunca se cansava, nunca lhe faltava uma resposta inteligente para a torrente contínua de piadas, graçolas e agudas observações de Buster.

O Programa Buster Amigão, transmitido pelas ondas sonoras e pelo vídeo para toda a Terra, via satélite, cobria também os imigrantes nos planetas-colônias. Transmissões experimentais, dirigidas para Próxima Centauri, haviam sido tentadas, para o caso de a colonização humana chegar até aquela distância. Tivesse o Salander 3 chegado ao seu destino, os viajantes teriam encontrado o Programa Buster Amigão à espera, e teriam ficado satisfeitos.

Mas havia algo em Buster Amigão que o irritava, uma coisa específica. De modo sutil, quase ridicularizava as caixas de empatia. Não uma, mas muitas vezes.
Na verdade, fazia isso exatamente naquele instante.

"—... nada de arranhões de pedras em mim" — disse ele a Amanda Werner. — "E, se vou subir a encosta de uma montanha, vou querer levar comigo umas duas garrafas de cerveja Budweiser!" — A platéia no estúdio bateu palmas e Isidore ouviu um borrifo de palmas isoladas. — "E mostrarei, de lá de cima, minha denúncia cuidadosamente documentada... a denúncia que será feita dentro de exatamente dez horas a partir de agora!"
"— Eu também, querido!" — borbotou Amanda. — "Leve-me com você! Vou com você e, quando atirarem uma pedra, eu o protejo." — Mais uma vez, a audiência uivou e John Isidore sentiu uma raiva confusa e impotente surgir em sua nuca. Por que seria que Buster Amigão dava sempre essas tacadinhas no mercerismo? Aparentemente, ninguém se incomodava com isso. Até as Nações Unidas aprovavam isso. E não obstante, as polícias americana e soviética haviam declarado publicamente que o mercerismo reduzira a taxa de crimes, ao tocar os cidadãos mais preocupados com as tributações de seus vizinhos. A humanidade precisa de mais empatia, declarara várias vezes Titus Corning, Secretário-Geral das Nações Unidas. Talvez Buster esteja com ciúme, conjecturou Isidore, Certo, isto explicaria a coisa: ele e Wilbur Mercer concorrem um com o outro. Mas pelo quê?

Nossas mentes, decidiu Isidore. Estão lutando pelo controle de nossos eus psíquicos: a caixa de empatia, de um lado, e as gargalhadas e as piadas improvisadas de Buster, do outro. Vou ter que dizer isso a Hannibal Sloat, resolveu. Perguntar se é verdade. Ele deve saber.

Logo que parou o caminhão no telhado do Hospital Van Ness de Pequenos Animais, apanhou rapidamente a gaiola plástica com o falso gato imóvel e desceu as escadas correndo para o escritório de Hannibal Sloat. No momento em que entrou, Sloat levantou os olhos de uma página de estoque de peças sobressalentes, seu rosto cinza e riscado de rugas tremendo como águas agitadas. Velho demais para emigrar, Hannibal Sloat, embora não fosse um especial, estava condenado a arrastar-se pelo resto de seus dias na Terra. A poeira, com o passar dos anos, havia-o corroído, encolhido seu corpo e lhe tornado as pernas finas como as de uma aranha, o andar trôpego.
Via o mundo através de óculos literalmente enevoados pela poeira.
Por alguma razão, Sloan jamais limpava os óculos. Era como se houvesse desistido; aceitara a sujeira radiativa e ela iniciara seu trabalho, há muito tempo, de sepultá-lo. E já lhe turvava a vista. Nos poucos anos que lhe restavam, degenerariam seus outros sentidos, até que sobrasse apenas sua voz de ave e, em seguida, ela emudeceria também.

— O que foi que você trouxe? — perguntou o Sr. Sloat.
— Um gato com um curto no suprimento de força. — Isidore colocou a gaiola na escrivaninha coberta de documentos do patrão.
— Por que o está mostrando a mim? — indagou Sloat.
— Leve-o para a oficina e entregue-o a Milt. — Contudo, pensativamente, abriu a porta e deu um puxão no gato. Outrora, fora mecânico. Um mecânico muito bom.
— Acho que Buster Amigão e o mercerismo estão lutando pelo controle de nossas almas psíquicas — disse Isidore.
— Se é assim — comentou Sloat, examinando o gato, — Buster está ganhando.
— Está ganhando agora — afirmou Isidore — mas, no fim, vai perder.

Sloat ergueu a cabeça e fitou-o.
— Por quê?
— Porque Wilbur Mercer renova-se sempre. Ele é eterno. No alto da colina, ele é empurrado para baixo, Cai na sepultura do mundo, mas sempre se levanta. E nós com ele. Assim, também somos eternos. — Sentia-se bem, falando assim tão desembaraçado. Em geral, na presença de Sloat, gaguejava.
— Buster é imortal, como Mercer. Não há diferença entre eles.
— Como é que ele pode ser? Ele é um homem.
— Não sei — reconheceu Sloat. — Mas é verdade. Mas eles nunca admitiram isso, claro.
— É assim que Buster Amigão pode fazer quarenta e seis horas de programa por dia?
— Isso mesmo — concordou Sloat.
— E Amanda Werner e aquelas outras mulheres?
— Elas são imortais também.
— Será que são uma forma de vida superior, vinda de outro sistema?
— Eu nunca consegui aparar isso com certeza — disse Sloat, ainda examinando o gato.

Nesse momento, tirou os óculos cobertos de pó, e olhou sem eles para a boca semi-aberta. — Como apurei conclusivamente no caso de Wilbur Mercer — terminou em voz quase inaudível. Soltou uma praga e, em seguida, uma série de palavrões que pareceu a Isidore durar um minuto inteiro.
— Este gato — disse finalmente Sloat — não é falso. Eu sabia que isto ia acontecer um dia. E ele está morto. — Olhou fixamente para o cadáver do gato. E soltou outro palavrão.

Usando seu sujo avental de pano azul grosso, o corpulento e sardento Milt Borogrove apareceu à porta do escritório.
— O que é que está havendo? — perguntou. Vendo o gato, entrou e levantou o animal.
— O debilóide — disse Sloat — trouxe-o para cá. — Nunca, anteriormente, utilizara ele essa palavra em frente a Isidore.
— Se ainda estivesse vivo — disse Milt —, poderíamos levá-lo a um verdadeiro veterinário. Duvido que isto valha a pena. Alguém por aí tem um exemplar do Sidney's?
— O s-s-seu s-s-eguro cobre isto? — perguntou Isidore a Sloat. Sob o corpo, suas pernas vacilaram e achou que a sala começava a tornar-se marrom, pintalgada de pontos verdes.
— Cobre — respondeu Sloat finalmente, meio rosnando, — Mas é o desperdício que me irrita. A perda de mais uma criatura viva. Você não pôde ver, Isidore? Não notou a diferença?
— Eu pensei — conseguiu Isidore dizer — que fosse um trabalho realmente bem-feito. Tão bem-feito que me enganou. Quero dizer, parecia vivo e um trabalho tão bom assim...
— Acho que Isidore não pôde ver a diferença — observou baixinho Milt. — Para ele, todos são vivos, falsos animais inclusive. Ele provavelmente tentou salvá-lo. — Virando-se para Isidore, disse: — O que foi que você tentou fazer, recarregar a bateria? Ou localizar o curto?
— I-s-so mesmo — reconheceu Isidore.
— Ele provavelmente estava tão doente que não teria feito a mínima diferença — comentou Milt. — Deixe em paz o debilóide, Han. Ele tem um bom argumento: os falsos estão começando a parecer quase reais, principalmente com esses circuitos de doença que estão instalando nos novos modelos. E animais vivos, de fato, morrem. Este é um dos riscos de possuí-los. Nós simplesmente não estamos acostumados com isso, por que tudo o que vemos são os falsos.
— Que droga de desperdício — repetiu Sloat.
— De acordo com M-mercer — observou Isidore —, t-toda vida retorna. O ciclo é c-cc-completo também para a-animais. Quero dizer, todos nós subimos com ele, morremos ...
— Diga isso ao cara que era dono deste gato — sugeriu Sloat.
Sem saber bem se o patrão falava sério, Isidore perguntou :
— O senhor quer dizer que vou ter que fazer isso? Mas é o senhor que faz sempre as videochamadas. — Tinha fobia aos videofones e, para ele, era virtualmente impossível fazer uma chamada, especialmente no caso de estranhos. O Sr. Sloat, claro, sabia disso, também.
— Não o obrigue a fazer isso — disse Milt. — Eu faço. — Estendeu a mão para o aparelho. — Qual é o número dele?
— Eu tenho o número em algum lugar. — Isidore procurou nos bolsos de seu guarda-pó.
— Eu quero que o debilóide faça isso — disse Sloat.
— Eu n-n-não p-posso usar o videofone — protestou Isidore, o coração batendo-lhe com força. — Porque sou cabeludo, feio, sujo, encurvado, desdentado, e grisalho. Além disso, a radiação me faz mal. Penso que vou morrer.
Milt sorriu e disse a Sloat:
— Acho que se me sentisse assim, também não usaria o videofone. Vamos com isso, Isidore. Se não der o número do dono, não vou poder telefonar e você terá que fazer isso. — Estendeu cordialmente a mão.
— O debilóide faz a chamada — insistiu Sloat — ou está despedido. — Não olhou nem para Isidore nem para Milt, apenas fixamente para a frente.
— Ora, vamos — protestou Milt.
— Eu n-n-não gosto de ser c-chamado de debilóide. Quero dizer, a p-p-poeira também f-fez um bocado com o senhor, fisicamente. Embora, talvez n-n-não ao seu cérebro, como no meu caso. — Estou demitido, compreendeu. Não posso dar o telefonema.
De repente, lembrou-se de que o dono do gato partira em grande velocidade para o trabalho. Não haveria pessoa alguma em casa. — A-a-acho que posso telefonar para ele — disse, tirando finalmente do bolso a etiqueta com a informação.
— Está vendo? — disse Sloat a Milt. — Ele pode, se tiver que dar o telefonema.
Sentado ao videofone, aparelho na mão, Isidore discou.
— Isso mesmo — concordou Milt —, mas ele não devia ter que fazer isso. E ele tem razão. A poeira afetou-o. Você está quase cego e, dentro de uns dois anos, não vai mais ouvir.
— E pegou você também, Borogrove. Sua pele está da cor de bosta de cachorro.

Na videotela aparecera um rosto, uma mulher de aparência bem-cuidada, mitteleuropaische, que usava os cabelos num coque apertado.
— Sim? — disse ela.
— S-S-Sra. Pilsen? — perguntou Isidore, o terror percorrendo todo seu corpo. Não pensara nisso, naturalmente, mas o dono tinha uma esposa que, naturalmente, se encontrava em casa. — Eu queria lhe f-f-falar a respeito do seu g-g-gato. — Interrompeu-se e esfregou num tique nervoso o queixo. — Seu gato.
— Oh, sim, o senhor veio buscar Horace — disse a Sra. Pilsen, — É mesmo pneumonia? Foi isso o que o Sr. Pilsen pensou.
— Seu gato morreu — disse Isidore.
— Oh, não, Deus no céu!
— Nós o substituiremos — disse ele. — Temos seguro.
— Lançou um olhar ao Sr. Sloat, que pareceu de acordo.
— O proprietário de nossa firma, o Sr. Hannibal Sloat — parou, à procura de palavras — pessoalmente...
— Não — disse Sloat — nós lhe daremos um cheque. No valor da lista de preços da Sidney's.
—... pessoalmente escolherá outro gato para substituí-lo — descobriu-se Isidore dizendo.
Tendo iniciado uma conversa que não podia suportar, verificava que não podia livrar-se dela. O que dizia possuía uma lógica intrínseca que não tinha meios de deter, e que teria que ir forçosamente até sua conclusão. Sloat e Milt Borogrove olharam-no fixamente enquanto ele continuava:
— Dê-nos as especificações do gato que deseja. Cor, sexo, subtipo, tais como Manx, Persa, Abissínio...
— Horace morreu . — disse a Sra. Pilsen.
— Ele estava com pneumonia — explicou Isidore. — Morreu a caminho do hospital. Nosso médico-chefe, Dr. Hannibal Sloat, disse que no estado em que ele se encontrava, coisa alguma poderia tê-lo salvo. Mas, Sra. Pilsen, não é uma boa notícia a de que vamos substituí-lo? Certo?

Lágrimas enchendo-lhe os olhos, a Sra. Pilsen disse:
— Só havia um gato como Horace. Ele costumava, desde que era apenas um gatinho, olhar para a gente, como se estivesse fazendo uma pergunta. Nunca compreendemos que pergunta era essa. Talvez, agora, ele saiba a resposta. — Novas lágrimas apareceram. — Acho que, no fim, todos nós descobriremos.

Ocorreu uma inspiração a Isidore:
— Que tal uma duplicata elétrica exata de seu gato?
Podemos conseguir um soberbo serviço artesanal da Wheelright & Carpenter, no qual todos os detalhes do antigo animal são fielmente reproduzidos em permanente...
— Oh, isso é horrível — protestou a Sra. Pilsen. — O que é que o senhor está dizendo? Não diga isso a meu marido. Não sugira isso a Ed ou ele enlouquecerá. Ele amava Horace mais do que qualquer outro gato que já teve, e teve gatos desde menino.
Tomando o videofone de Isidore, Milt disse à mulher:
— Podemos dar-lhe um cheque no valor listado na Sidney's ou, como sugeriu o Sr. Isidore, podemos escolher um novo gato para a senhora. Sentimos muito a morte de seu gato, mas, como disse o Sr. Isidore, ele estava com pneumonia, uma doença quase sempre fatal. — Continuou a falar em tom profissional.
Dos três ali no Hospital Van Ness de Pequenos Animais, Milt era o que se saía melhor na questão de telefonemas de negócios.
— Eu não posso contar a meu marido — disse a Sra. Pilsen.
— Muito bem, madame — respondeu Milt e fez uma leve careta — nós telefonaremos para ele. Poderia me dar o número do trabalho dele? — Estendeu a mão para pegar caneta e um bloco. Sloat passou-lhe os dois artigos.
— Escute aqui — disse a Sra. Pilsen. Parecia ter recobrado o ânimo. — Talvez o outro cavalheiro tenha razão. Talvez seja bom eu encomendar um substituto elétrico de Horace, mas sem Ed jamais saber. Poderia ser uma reprodução tão fiel que meu marido não notasse a diferença?

Em dúvida, Milt respondeu:
— Se é isso o que a senhora quer. Mas, segundo nossa experiência, o dono do animal jamais é enganado. Isto só acontece com observadores casuais, como vizinhos. A senhora compreende, logo que se examina bem um animal falso .
— Ed nunca se tornou fisicamente íntimo de Horace, embora o amasse, Era eu que cuidava de todas as necessidades pessoais de Horace, como levá-lo à caixa de areia.

Acho que gostaria de tentar um sucedâneo e, se a coisa não desse certo, os senhores nos poderiam arranjar um animal autêntico para substituir Horace. Eu, simplesmente, não quero que meu marido saiba. Acho que ele não conseguiria sobreviver a essa perda. Foi por isso que ele nunca se aproximou muito de Horace. Tinha medo de aproximar-se. E quando Horace adoeceu — com pneumonia, como o senhor disse —, Ed entrou em pânico e, simplesmente, não queria enfrentar a realidade. Foi por isso que esperamos tanto antes de chamar os senhores. Demorou demais, como eu sabia, antes que vocês telefonassem, eu sabia. — Inclinou a cabeça, as lágrimas nesse instante sob controle. — Quanto tempo vai demorar isso?
Milt fez um cálculo mental:
— Podemos tê-lo pronto dentro de dez dias. Faremos a entrega durante o dia, enquanto seu marido estiver no trabalho. — Encerrou a conversa, despediu-se, e desligou: — Ele vai saber — disse ao Sr, Sloat. — Dentro de cinco segundos. Mas se é isso o que ela quer...
— Donos que chegam a amar seus animais — disse sombrio o Sr. Sloat — ficam arrasados. Estou contente porque em geral não nos envolvemos com bichos de verdade.

Vocês compreendem que autênticos veterinários têm que dar telefonemas como esse o tempo todo? — Olhou para John Isidore. — De algumas maneiras, você não é tão estúpido, afinal de contas, Isidore. Você tratou do assunto razoavelmente bem. Mesmo que Milt tivesse que intervir e tomar a frente depois.
— Ele estava indo muito bem. — disse Milt. — Deus, aquilo foi duro. — Apanhou o falecido Horace. — Vou levá-lo para a oficina. Han, telefone para a Wheelright & Carpenter e peça para mandar aqui o construtor deles, para medir e fotografar o gato. Não vou deixar que o levem para a oficina deles. Eu mesmo quero comparar a réplica.
— Acho que vou mandar Isidore conversar com eles — decidiu o Sr. Sloat. — Foi ele quem começou isto. Deve poder tratar com a Wheelright & Carpenter depois de ter tratado com a Sra. Pilsen.
— Simplesmente, não deixe que eles levem o original — disse Milt a Isidore. Entregou-lhe Horace. — Vão querer porque isso torna o trabalho deles muito mais fácil. Seja firme.
— H-h-hummm — fez Isidore, pestanejando. — Muito bem. Talvez seja bom telefonar agora, antes que o corpo comece a apodrecer. Corpos mortos não apodrecem, ou coisas assim? — Sentiu-se jubiloso.



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sexta-feira, 21 de maio de 2010

Depositários (trailer)


Neste mundo do futuro, mães 'depositárias', carregam nos úteros, clones genéticos de crianças.
Os clones são mantidos em redes de tanques, e as doenças das pessoas, e a dor, são transferidas para o clone ao longo de sua vida.
Em casos de emergência, também podem ser utilizados como peças de reposição.

Um polícial e uma jornalista estão investigando crimes envolvendo depositários, como o homem apaixonado que seqüestra o clone de seu ex-amante e a mantém em seu quarto.

Dentro da fórmula do filme policial e das histórias de amor, o filme aborda muitas questões, como o direito à vida e a ética na engenharia genética.

Um filme mexicano instigante, cheio de ação, e um bom exemplo de que se pode fazer um filme original e inteligente de FC.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Splice (trailer)


Os engenheiros genéticos Clive e Elsa, especializam-se em unir DNA de diferentes animais para criar incríveis novos híbridos.

Agora, eles querem usar o DNA humano em um híbrido que pode revolucionar a ciência e a medicina.

Mas quando a companhia farmacêutica que patrocina a pesquisa a proíbe, Clive e Elsa secretamente realizam suas próprias experiências.

O resultado é Dren, incrível e linda criatura que exibe inteligência incomum.
E apesar de, num primeiro momento, Dren ultrapassar seus sonhos, ela começa a crescer e aprender em um ritmo acelerado - e começa o pesadelo.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Cargo (trailer)



O planeta Terra já não pode garantir a vida, para a maioria dos seus antigos habitantes, que vivem agora no espaço em superlotadas estações espaciais.

A única esperança da humanidade de escapar do caos é Rher, um planeta-paraíso, distante cinco anos-luz da Terra.

Kassandra, uma nave espacial enferrujada, está a caminho, com a jovem médica Laura no comando, enquanto o resto da tripulação dorme em hibernação criogênica.

Com quatro meses que ainda restam em seu turno, Laura começa a ter a sensação de que não está sozinha.

Cargo é um filme suiço assustador, dentro da longa tradição hollywoodiana de humanos e monstros confinados em um veículo espacial, como Alien e Pandorum recentemente.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Earthling (trailer)


No filme do diretor Clay Liford, Earthling, (candidato a se tornar um cult movie) um estranho objeto atinge a Estação Espacial Internacional, e na Terra, uma professora chamada Jude, tem um ataque epilético e bate com seu carro - este é apenas o começo da descoberta de Jude, de que ela não pode ser humana.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Design Fiction



Sou um escritor de ficção científica, e, como me tornei mais familiarizado com o design, ocorreu-me que os objetos e serviços dentro da ficção científica são completamente mal projetados.

Por quê? Esta não é uma pergunta feita freqüentemente.

A razão é muito simples: A ficção científica é uma forma de entretenimento popular.
A recompensa emocional do gênero ficção científica, é a sensação de deslumbramento (sense of wonder) que ele transmite. O design da ficção científica, portanto, requer algo fantástico, enquanto o design industrial exige segurança, focado na utilidade, na serventia, com restrições de custo, e que seja atraente na prateleira. Para essas virtudes da velha escola poderíamos acrescentar hoje a sustentabilidade e uma interface decente.

Os totens clássicos da ficção científica (FC) são a arma de raios, as naves espaciais, andróides, robôs, máquinas do tempo, inteligência artificial e a nanotecnologia. Eles estão em profunda comunhão: São produtos imaginários que não podem mutilar o consumidor, não recebem feedback do usuário e não sofrem regulamentação.

É por estes motivos, seu design é glamoroso e fantástico e, portanto, basicamente, uma porcaria!

Ocasionalmente, prognósticos da FC se tornam objetos reais e serviços. Gosto de pensar que a minha ficção científica tornou-se um pouco menos flácida, uma vez que aprendi a escrever "design fiction", como hoje geralmente eu faço. Acredito que solucionei este problema, ao menos na minha prática pessoal.

No entanto, quando a ficção científica se propõe a projetar o pensamento, os problemas parecem ainda maiores. Têm a ver com a cultura especulativa de maneira em geral, a maneira com que nossa sociedade imagina-se através de suas disciplinas progressistas.

Muitos problemas que outrora eu considerei estritamente literários, são melhores compreendidos como questões de design interativo.

A literatura tem suas plataformas.
Refiro-me as estruturas físicas em que a literatura é concebida, projetada, escrita, produzida e distribuída, lembrada e esquecida. A infra-estrutura literária restringe o usuário.

Para expandir o assunto, consideremos a ficção científica, uma forma literária que é jovem, pequena e nerd. A literatura fantástica é tão antiga quanto as escrituras. A ficção científica, por contraste, surgiu na década de 20, a partir de catálogos baratos de peças eletrônicas para jovens entusiastas por montar rádios.
Esta foi a plataforma original da ficção científica.

Esta plataforma, da 'pulp fiction' americana, está morta há muito tempo. Ainda assim, qualquer web designer contemporâneo pode facilmente, compreender como e porque a ficção científica funcionou nos seus primeiros dias.

As revistas eram baratas, acessíveis, de fácil distribuição, e capazes de atender a nichos de mercado. Ícones gráficos eficazes rapidamente distinguiram a FC de seus gêneros irmãos: mistério, western, aventuras, as revistas femininas, revistas de esportes, sobre o crime, e outros.

Por 80 anos, a ficção científica tem sido capaz de encontrar e recrutar adeptos, e transformar alguns usuários em produtores culturais. Fez o suficiente para não perecer sob o capitalismo. E sob o comunismo também, pois a ficção científica soviética foi um enorme sucesso. Era muito mais popular que o design industrial soviético, que era medonho e agora está extinto.

Abaixo do nível profissional das publicações com fins lucrativos, a subcultura de fãs de ficção científica explorou desde cedo tecnologias (na base do faça-você-mesmo) tais como o mimeógrafo (gestetners) e hectógrafos (aparelho que permite obter cópias de desenhos ou textos, usando papel hectográfico; duplicador a álcool).

Haviam associações de imprensa amadoras, grupos de escritores locais, convenções regionais de ficção científica, em abundância. Pode-se até argumentar que a cultura contemporânea da Web, se parece e se comporta como o fandom de ficção científica de 1930, só que digitalizado e globalizado.

Esta situação, há muito desaparecida, não era idílica, e tomou forma dentro de um conjunto específico de condições infra-estruturais. Os primeiros escritores de ficção científica e editores imaginavam estar vendendo ficção popular sobre ciência e tecnologia. Eles estavam errados.

Aquilo era um artefato de interface de usuário.

A plataforma era uma fração da população disposta a consumir obras de imaginário radical, através de impressão em papel, aquela fração composta por gente vidrada em ciência. Os cientistas de verdade, nunca publicaram ficção científica.

O que a base de usuários de ficção científica realmente desejava não era possível em 1930. Acreditando na sua própria retórica, os usuários de ficção científica supostamente desejavam um futuro atômico propulsionado a jato. Mas sempre que se ofereceu a chance de tais bens e serviços, eles nunca a agarraram. Eles realmente não queriam essas coisas, não na vida real.

O que a base de usuários realmente queria eram fantasias imersivas.
Eles queriam subculturas solidárias, nas quais poderiam seguramente abandonar a limitação cruel da vida real, e temporariamente brincar de fantasia. Os filmes de ficção científica ajudavam nisso: a televisão também.
Quando os jogos do tipo RPG online para multi-jogadores (MMORPGs) foram inventados, os limites físicos da infra-estrutura impressa foram demolidos.
E base de usuários explodiu.

Nenhuma pessoa sã lê romances de ficção científica, 80 horas por semana.
Mas é bastante comum que os melhores jogadores gastem este tempo jogando Warcraft.

Isso não deve ser confundido com "progresso". Não é nem mesmo uma simples questão de obsolescência.
A mídia digital é muito mais frágil e contingente do que a mídia impressa.

Prefiro imaginar que as pessoas estarão lendo H P. Lovecraft – provavelmente o melhor escritor de ficção científica das revistas populares – ainda por muito tempo, e os MMORPGs, cheios de defeitos, estarão tão mortos quanto o Univac.

O que verdadeiramente me interessa aqui são os limites do imaginável. Claramente a infra-estrutura de papel/celulose limitava o que os seus artistas eram capazes de pensar. Eles usavam antolhos, não podiam ver e, portanto, não puderam transcender. A máquina de escrever limitava os escritores. A quantidade estipulada de palavras das revistas limitava os escritores. Mesmo a barganha cultural implícita entre autor e leitor apresenta limitações sobre o que poderia ser pensado, dito e entendido em público.

Esses mecanismos de interação, as colunas de cartas, o correio dos fãs, a aparência da livraria, as convenções, são pobres se vistas como uma interação. Eram todas práticas emergentes em vez de experiências de design.

Pode-se usar aqui um argumento wittgensteiniano (Ludwig Wittgenstein (1889-1951) sobre os limites ontológicos da própria linguagem. Wittgenstein, uma vez escreveu uma frase famosa sobre a necessidade de filósofos de se calar diante do inimaginável. Ele diz o seguinte:
"O sentido do todo do livro pode ser resumido nas seguintes palavras: O que pode ser dito sobre tudo deve ser dito claramente, e o que não podemos falar, devemos passar em silêncio."

Muitos escritores de FC, acredite ou não, foram capazes de compreender Wittgenstein. Contudo, um designer experiente, está longe deles. Também além de Wittgenstein, porque há coisas que podemos imaginar e falar sobre o que deixamos em silêncio, porque nós escrevemos livros.

O sentido total do livro, não contém todo o sentido das palavras.

Olhe para esta estranha "Google erudição", do jornalismo baseado em pesquisa online. Considere a hibridez da mídia das plataformas de blogues. As linhas de comandos no software estão para o texto como uma expressão da vontade.

Deixe-me oferecer um exemplo mais antigo aqui, para mostrar o quão profundo isso pode chegar.

Pense nas plataformas literárias de mil anos atrás.
Este período remoto viu o nascimento, ou melhor, o parto natimorto, do romance, com 'The Tale of Genji' de Murasaki Shikibu. Um pergaminho escrito em japonês com um pincel, em 990 e que foi publicado nos tempos modernos, como um livro, no entanto, como um verdadeiro romance. Mais especificamente, é um romance de mulheres. Os fãs de Jane Austen poderiam facilmente gostar de 'The Tale of Genji'.

Enquanto este proto-romance estava sendo escrito, um trabalho rival surgiu, conhecido como 'The Pillow book' de Sei Shonagon. Este outro não era certamente um romance. Era intensamente literário, ainda assim não pode ser descrito pela terminologia da plataforma literária contemporânea.
'The Pillow Book' é um conjunto de escritos, não-lineares, anotados em amontoados de sobras de papeis.

'The Pillow Book' não é um diário, uma miscelânea, um almanaque, uma lista, ou mesmo uma compilação de poesia japonesa, embora pareça para nós possuir alguns aspectos dessas estruturas modernas.

É melhor descrito em termos da experiência do usuário.

Essa experiência foi um esforço de quatro ou cinco anos para escapar ao tédio de um pequeno círculo de cortesãs imperiais. A experiência teve uma autora/designer – a glamorosa e sedenta por atenção, Sei – mas não havia imprensa, nenhuma editora, ou editor, nenhum distribuidor, e nunca foi vendida. Sua base de usuários, um total aproximado de 200 mulheres, provavelmente nunca o leu. Em vez disso, eles o ouviram recitado em voz alta, por alguém agachado perto de uma lanterna, após escurecer.

A abordagem estritamente literário dessa experiência fere nossa capacidade em compreender o que 'The Pillow Book' significa. Este antigo "livro" está distante, em termos de relação, dos nossos livros.
Em termos de função e público, tem mais parentesco com um blogue em pequena escala.

A parte mais famosa de 'The Pillow Book' é uma lista de coisas que Sei Shonagon considera "inadequadas". Tal como:
"A neve sobre as casas de pessoas comuns. Isso é especialmente lamentável quando o luar brilha sobre ela."

O que Sei Shonagon está dizendo aqui? A neve iluminada pelo luar é "inadequada" para as casas dos camponeses. A neve é boa demais para os humildes, as pessoas pobres. O glamour da neve não combina com a miséria.

Sei Shonagon recebeu muitas críticas de observadores contemporâneos, devido à natureza esnobe desta observação. É claro que nós nos encontramos obrigados a interpretar essa declaração como ofensiva, de ódio, e politicamente incorreta. Além de tudo, o que aconteceria se um desses pobres plebeus, lesse este insulto grosseiro?

Mas plebeus nunca poderiam fazê-lo.
Primeiro porque os camponeses eram analfabetos; depois porque o trabalho era copiado à mão, e divulgada dentro de um pequeno grupo, e terceiro lugar por que foi utilizada uma escrita especial usada apenas por mulheres. Era 'conversa para mulheres', e nenhum homem poderia saber.

Nesta estrutura de interação, era impossível que este tipo de comentário tornar-se-ia ofensivo. Sua grosseria para nós era inimaginável para Sei Shonagon. Pensar o contrário é um anacronismo.

O que nos faz hesitar diante da impensável ideia de que a linda neve sobre as casas dos camponeses, fosse realmente inadequada. Sei Shonagon estava dizendo a verdade, embora nós dificilmente possamos imaginar isso agora. Esta não foi uma observação maliciosa, mas uma avaliação estética, refinada e apolítica.

Se Sei Shonagon, de alguma forma, tivesse dito isso diretamente a um camponês, ele teria prontamente retirado a neve. Ele não iria querer que algo assim perturbasse alguém tão importante.

A infra-estrutura de publicação, portanto, restringe o pensamento dos escritores.
Obviamente todas as formas de arte e design tem alguma limitação inerente, mas parece-me que os escritores são especialmente enganados pela aparente liberdade da linguagem.

Publicar a linguagem em papel, não é a linguagem por si só: É um artefato industrial.

Escritores se agarraram à palavra, à semântica, ao sentido e com sensibilidade.
O design, por outro lado, é menos verbal. O design está ocupado em inventar novas maneiras de seguir adiante. O design assume mais riscos do que a própria literatura. É por isso que o design contemporâneo sente-se moderno, enquanto a literatura parece arcaica e sitiada.

Design e literatura não conversam muito entre si, mas o design tem mais a oferecer a literatura, no momento, do que a literatura pode oferecer ao design.

O design procura maneiras de ultrapassar seus próprios muros conceituais, como pela opinião do usuário, em brainstorming, prototipagem rápida, design crítico, e a concepção especulativa. Há ainda o "experience design", que é seguramente o mais pretensioso, a forma mais espectral de design já inventada.
“Experience design” está mais próximo, em espírito, do teatro, da poesia ou até mesmo da filosofia, do que da linha de montagem tradicional. O que na Terra não é "experiência"? E o que não é, em certo sentido, "interativo"?

Quando a ficção científica nasceu dos catálogos de peças para montagem de rádios, o design também nasceu como serva racionalizada da indústria. Os primeiros designers industriais, Norman Bel Geddes, em particular, contribuíram  em muito com a FC extravagante: asas voadoras, represas gigantes, e supercidades do futuro.

Mas estas duas disciplinas irmãs, nascidas dentro da mesma década e, certamente, por razões semelhantes, logo se separaram. As irmãs estavam cordialmente distantes, mas não viam nenhum propósito comum.

Design, que é industrial, tem clientes e consumidores, enquanto a ficção científica, uma forma de arte, tem seus mecenas e uma audiência.

Nenhum grande designer já se envolveu em escrever ficção científica. Estas duas empreitadas visionárias nunca compartilharam uma base de usuários. Ao menos até surgir a Internet.

Quando a impressão começou a se dissolver, a indústria passou a digitalizar. Os consumidores, e o público, tornaram-se usuários, os participantes via-teclado, são as pessoas anteriormente conhecidas como audiência.

Em 2009 me perguntei muito sobre velhas comunalidades da década de 20.
A tecnocultura que atualmente habitamos (não é mais o pós-moderno, podemos defectivamente chamá-la de cibernetizado, um capitalismo liberal globalizado em colapso financeiro) bem, não é nem racionalmente concebida, nem prevista pela ficção científica.

Por que isso? O que aconteceu? Por que estamos assim agora? E o que vem depois, pelo amor de Deus? Será que não podemos fazer nada melhor?

Entramos em uma cultura não-imaginada. Nesse mundo de motores de busca e links cruzados, de palavras-chaves e redes, as disciplinas de outrora foram sopradas para longe. Em vez de estarem blindadas pela técnica, ou escondidos sob uma subcultura, o design e a ficção científica tornaram-se como dois balões frágeis, bolsões polimórficos de ar quente, flutuando em um ambiente cultural contaminado.

Estas duas escolas de pensamento e ação, inerentemente progressistas, parecem de alguma maneira cegas e sem conseguir imaginar de forma eficaz. Poderia ser porque ambas nasceram com pontos cegos, com suposições não examinadas, 80 anos atrás?

Há muito em que se pensar, falando de inovação, de transformação, de colaboração, e de transdisciplinaridade. Estas são palavras de ordem, uma língua que não dura.

O que estamos realmente enfrentando agora, é uma hemorragia maciça cibernética de maneiras de se conhecer o mundo.

Mesmo o dinheiro, o ponto de partida todo-poderoso, a realidade final para a sociedade americana, falhou, com os antolhos de sua própria infra-estrutura, e perdeu sua capacidade de mapear valores.

Os visionários já não sabem o que pensar e, não por acaso, os financistas não podem fazer suas apostas.

Eu mal sabia o que fazer sobre isso.
Como disse Charles Eames, o design é um método de ação.
A literatura é um método de significado e sentimento.

Honestamente, sei como me sinto sobre essa situação. E ainda tenho uma vaga idéia do que significa.
Ao invés de pensar de forma não convencional (outside the box) – que quase sempre era uma "caixa registradora", sinceramente – certamente precisamos de uma melhor compreensão das "caixas". Talvez algum novo, e mais amplo design criativo, possa mapear os limites do imaginável dentro do meio tecnosocial contemporâneo.

Esse esforço não ocorreu no século 20, e eu duvido que tenha sido tentado.
Parece-me que uma boa resposta aos eventos.

Os ventos da Internet estão cheios de palha. Quem irá fazer os tijolos?



Design Fiction - Interactions Magazine XVI
Bruce Sterling, autor, jornalista. editor e crítico, nasceu em 1954. É mais conhecido por seus nove romances de ficção científica, e também escreve um blog.

Radio Free Albemuth




Mais uma adaptação da obra de Philip K. Dick chega na telona..


Baseado em um romance semi-autobiográfico de 1976, e publicado postumamente em 1985, Radio Free Albemuth relata suas visões de Jesus e da Roma antiga, e sobre a força cósmica que ele chamava de Valis.





Neste filme do diretor John Alan Simon, as visões são vividas por Nick Brady, um produtor musical bem-sucedido, cuja vida é guiada por VALIS, a ponto de instrui-lo a conduzir uma campanha subversiva contra o presidente dos EUA, um neo-fascista que inventa uma organização terrorista para justificar criar um Estado Policial no país (soa familiar?).

Phil, amigo de Nick, é um escritor de ficção científica, que narra a história de Nick e tenta descobrir sobre a organização Aramchek, ao mesmo tempo que são investigados pelo governo.

Este filme, que traz a cantora Alanis Morissette, diferente das adaptações passadas, opta para dar mais realismo, bem como abordar as idéias de espiritualidade e de conspirações políticas de Dick, tão relevantes hoje como eram a 35 anos atrás.

No elenco Alanis Morissette, Shea Whigham, Jonathan Scarfe.

Mais notícias no blog do filme.

domingo, 16 de maio de 2010

Greg Egan



Greg Egan (20 de agosto de 1961) nasceu em Perth, Western Australiais (Austrália).

Programador de computador e autor de ficção da ciência, graduou-se bacharel em Matemática pela University of Western Australia.

Egan é especializado em fc hard, com temas como ontologia e matemática quântica, incluindo a natureza da consciência. Outros temas incluem genética, sumulação da realidade, a transferência de mente, sexualidade, inteligência artificial, e a superioridade do materialismo racional sobre a religião.

Ele é um vencedor do Prêmio Hugo (e foi pré-seleccionado por outras três vezes), e também ganhou o John W. Campbell Memorial Award de Melhor Romance.

Alguns de seus primeiros contos usavam como recurso, elementos de horror sobrenatural.

Egan tem contos publicados em várias revistas, incluindo aparições regulares na Interzone e na Asimov's Science Fiction.

Egan faz questão de manter-se longe das convenções de FC, dos fãs, e não dá entrevistas nem autografa seus livros, além de não posar para fotos, preferindo a reclusão total e o anonimato.

Apesar disso, responde aos emails dos leitores, pelo seu site.

Greg Egan ( Capullo, Ciudad Parmutacion, Collection, Crystal nights, Cyber city, Diaspora, El asessino infinito, Foundation series, Mind Vampires, Senor Volicion, Blood sisters, Border guards, Closer, Cocoon, Dark Intergers, Diccionario del Nuevo Orden Mundial, Distress, Dust, Glory, Learning to be me, Luminous, Mitochondrial Eve, Neighbouhood Watch, Oceanic, Only connect, Oracle, Our Lady of Chernobyl, Permutation City, Quarantine, Reasons to be cheerful, Riding the crocodile, Scatter my ashes, Schild's Ladder, Singleton, Steve Fever, Tap, The demon's passage, The Extra, The moral virologist, The planck drive, The Vat, Wang's carpet, Worthless, Yeyuka ) [ Download ]