quarta-feira, 30 de junho de 2010

Cei, o Gigante - Curt Siodmak



Jan Van Buren inclinou o rosto angelical para o velho na estreita cama da prisão espacial.

Seus olhos, de órbitas profundas, brilhantes e cruéis como um pedaço de cristal, observam com prazer sensual a agonia do homem drogado.

Através do vycorglass das paredes da sala, a Terra surgiu como um gigante, enchendo o espaço, salpicado de estrelas, desaparecendo com a rotação do satélite em seu eixo.

Van Buren endireitou o corpo cuidadosamente exercitado e, num gesto narcisista, sacudiu os compridos cabelos louros caídos obre os ombros.

- Ele está começando a lutar contra a droga - disse a Hans Hallstadt, escandindo cada sílaba com cuidado retórico. Vamos acabar com isso antes que ele acorde.

A sala era quase nua, exceto quanto a uma mesa presa ao assoalho, uma cadeira de balanço que pendia da parede, uma estante com alguns poucos livros amarrados uns aos outros para impedi-los de flutuar na reduzida gravidade do satélite.

- É o diabo ter de esvaziar um quarto! - observou Hallstadt. O rosto, manchado pelo câncer que um sol tropical lhe queimara na pele, contraiu-se num sorriso triste que inspirava compaixão.
Van Buren ergueu o velho e, com a ajuda de Hallstadt, colocou-o em uma padiola.

- Ele não sabe - disse, para consolar Hallstadt.

Entre os dois homens havia uma comunicação profunda que ultrapassava a amizade.
- Mas soube por algum tempo - replicou Hallstadt com uma piedade que não parecia inspirada pelo homem drogado mas por si mesmo. - Ele ainda teria alguns anos de vida.

Ergueram a padiola. Na reduzida gravidade parecia quase sem peso.
- Ele não sabe - repetiu Van Buren com orgulhosa impaciência. - E se o soubesse,não teria ideia de quando. Ora, que é isso? É como um derrame cerebral. Repentino. Inesperado. Você gostaria de saber quando vai morrer?
- Eles não me matariam desse modo! - murmurou Hallstadt.
Entraram em um corredor e passaram diante de portas fechadas.
- A Terra vai mandar um substituto. Pierre Bardou, um francês - disse Hallstadt, carregando a maca como um garçom suporta uma bandeja.
- Qual foi o seu crime? - perguntou Van Buren com agressivo sarcasmo. - Tentou matar o presidente da República?
- Não! Divulgou documentos secretos que implicavam militares franceses.
- Ah! Atacar os militares! É um crime pior que o assassínio! - Van Buren parou, pousando a maca no chão.
- Primeiro Deus - disse - depois os generais, ou vice-versa.
- A guerra é uma profissão excitante - afirmou Hallstadt. - Você deve saber! Gosta de ver pessoas morrendo.
Tinham chegado a um pequeno nicho na parede do corredor. Uma pesada porta em semicírculo, com grossos batentes de aço, como os dos submarinos, fecha a câmara de compressão que leva ao mundo exterior.

O velho, na maca, sentiu a morte próxima e lutou para recuperar a consciência.
Murmurou palavras desconexas. Hallstadt curvou-se para ele, mas Van Buren empurrou-o delicadamente.
- Não ouça Hans.
Tinha um olhar estranho, drogado.
- Essas palavras não têm nenhum sentido, mas ficariam em sua mente.
Puxou uma alavanca na parede. O ar uivou como um animal, por trás da porta.
Van Buren observou os painéis que indicavam a pressão do ar dentro da câmara. As atmosferas equilibraram-se, a porta girou lentamente nos gonzos e se abriu.

- Não precisa ficar aqui perto, Hans. Eu sei como você é fraco – disse Van Buren, a respiração acelerada, tocando o rosto do amigo com suavidade.
- Não me importo - replicou Hallstadt com um dar de ombros - Quantos já não matamos aqui! Isso já não me afeta.
Silenciosamente os dois homens viraram a maca na câmara de compressão e fecharam a pesada porta.
- Assisti o julgamento de Bardou pela televisão - disse Hallstadt observando Van Buren abaixar a alavanca. O ritmo cadenciado do compressor precipitou-se.

- Quase foi absolvido, mas houve um tiroteio diante do tribunal e algumas pessoas morreram. Foi por isso que o juiz o enviou para nós.
- Que mistério! - Van Buren apoiou as mãos abertas contra o vycorglass e olhou para baixo, para o homem na maca - A pressão se equilibrou - murmurou. - Abra a porta exterior. O ar da câmara fluiu de novo para os tambores de pressão. Uma parede na câmara de arejamento abriu-se e o espaço negro pontilhado de galáxias formou um aveludado pano de fundo. Nada há de misterioso - disse Hallstadt prosseguindo na conversação. Enrolou um cigarro, acendeu-o, deu uma tragada profunda. Depois passou-o ao amigo, absorvido na contemplação do homem na câmara de compressão. Este tomou o cigarro sem sequer voltar a cabeça. - O governo jamais desiste quando persegue uma presa - disse Hallstadt.
- Nunca! Bardou não teve a menor oportunidade!

O corpo na câmara de compressão jazia imóvel. Mas agora começava a tremer de leve, quase imperceptivelmente. As faces afundaram dando ao rosto o aspecto de uma caveira. Os olhos sumiram nas órbitas e a pele começou a encolher, expelindo tufos de pelos cor de cinza. Van Buren observava a transformação com concentração hipnótica.

- Jamais me cansarei deste espetáculo - confessou, sem pretender desculpar-se. - Ver pessoas morrendo deste modo leva-me a filosofar. Que somos nós? Noventa e cinco por cento de água e algumas gramas de ossos, cabelos, carne e unha? Como pode o homem ser a imagem de Deus? Deus é feito de água? - Riu baixinho.

Nos lábios do homem morto bolhas surgiam, cresciam, estouravam e se evaporavam como se o cadáver estivesse fervendo por dentro. Sua roupa, um macacão como os de Hallstadt e Van Buren, tornou-se muito larga para o corpo.
- Deixe-o só!
Hallstadt virou o rosto e puxou o amigo pelo braço.
- Muitas horas serão precisas para que ele fique completamente seco. Não é um espetáculo agradável, exatamente antes do jantar.
Tomando o cigarro dos lábios de Van Buren, aspirou-o profundamente.
Van Buren não podia desviar os olhos do corpo que encolhia.
- Eu gosto de olhar. Você pensa que Bardou se adaptará a nossa pequena comunidade?
- É possível. Ele parece inteligente - disse Hallstadt. E se isso não acontecer, bem, temos um quarto vazio, mas não por muito tempo. O pessoal lá de baixo fica feliz com a morte de quem quer que seja aqui de cima. Se pudessem, eles substituiriam toda a tripulação a cada mês.

Lançou um olhar ao corpo. Ele mudara de forma. As pernas erguiam-se vagarosamente como se puxadas por cordéis. A pele se transformara em pergaminho. Van Buren colou o rosto, com força, contra o vidro.
- Divirta-se, sádico, filho da ...
Bateu de leve nas costas de Van Buren.
- Que estranho processo de fazer funcionar o sexo! Alguém precisa morrer para que você chegue ao orgasmo!
Van Buren não lhe deu atenção. Hallstadt afastou-se com movimentos de cegonha,cada um de seus passos cobrindo uma extensão de cerca de três metros, na reduzida gravidade da prisão espacial.



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terça-feira, 29 de junho de 2010

Dinossauros - Arthur C. Clarke e outros



Por 140 milhões de anos, o mundo foi governado por monstros.

Monstros cobertos de chifres, espinhos, cristas e armaduras impenetráveis; monstros cheios de garras, mandíbulas gigantescas que se abriam para mostrar filas de dentes mortais, afiados como os dos tubarões, monstros que pairavam e deslizavam nos céus pré-históricos como grandes dragões e nadavam como serpentes do mar nas profundezes geladas dos oceanos.

Monstros que ainda hoje habitam nossos pesadelos e podem ainda dividir o mundo conosco.
Monstros que nos fascinam.
Dinossauros.

Se você cresceu nos anos cinquenta ou sessenta, provavelmente foi ensinado a pensar nos dinossauros como imensas, desajeitadas, estúpidas feras de sangue frio que passavam os dias submersas até o pescoço em águas profundas (para ajudar a suportar seu vasto peso), ou talvez vagando lentamente por algum pântano tropical.

Há um esperto ar de auto-parabenização nessa visão; os dinossauros desapareceram por que eram muito estúpidos e inflexíveis, incapazes de adaptar-se às mudanças de condições - diferentes de nós, espertos primatas.

O termo “dinossauro” ainda é usado nesse sentido hoje em dia, aplicado a instituições fora de moda e obsoletas ou pessoas que são incapazes de acompanhar a mudança dos tempos em suas profissões, e ainda há uma presunção mamífera para esse uso.

Como se nós tivéssemos sobrevivido - ou, ao menos, nossos ancestrais distantes - baseados em cérebro, habilidade e coragem, enquanto os obtusos titãs de cérebro de ervilha não o conseguiram; como se tivéssemos superado os dinossauros, como se os tivéssemos expulso do Terra.

Nada podia estar mais longe da verdade. Como Adrian J. Desmond disse: “Os mamíferos existiam desde o fim do Triássico, 190 milhões de anos atrás, e ainda assim pelos primeiros cento e vinte milhões de anos de sua existência, do fim do Triássico até meados do Cretáceo, foram uma raça reprimida, incapaz de gerar, nesse período, algum carnívoro maior que um gato ou um herbívoro maior que um rato...

Os dinossauros eram os senhores do mundo, criaturas tão eficientes em sua fisiologia e locomoção que arrebataram o mundo das garras dos mamíferos e o monopolizaram por 120 milhões de anos.”

É verdade que muitos dinossauros eram imensos - o “Ultrassauro”, por exemplo, que acredita-se ter pesado cerca de setenta toneladas e medido quinze metros, pode ter sido o maior animal que já existiu. E é verdade que muitos dinossauros eram relativamente estúpidos - o grande Brontossauro (conhecido agora como “Apatassauro” pela paleontologia moderna), por exemplo, tinha um cérebro que pesava apenas 1/100.000 do peso de seu corpo.

Mas esses eram apenas alguns dos dinossauros. Com diversidade espantosa, os dinossauros adaptaram-se com sucesso - e preencheram - quase todos os nichos ecológicos, exceto pelo nicho ultrapequeno, do tamanho de ratos, que era o refugio para onde se retiraram os mamíferos pelos 120 milhões de anos seguintes. Diz Desmond: “Durante sua (dos dinossauros) temporada como senhores da terra, eles produziram uma corrente de formas para preencher os nichos hoje ocupados por mamíferos e pássaros tão diferentes quanto elefantes, tigres e avestruzes.”

Havia alguns dinossauros, como o Echinodon e o Compsognathus Longipes, que tinham o tamanho de galinhas.

Havia alguns que eram graciosos e ligeiros. E enquanto alguns dinossauros eram bem burros, alguns dromaeosarurídeos dos meados do Cretáceo, como o Deinonychus e o Sauronithoides, eram relativamente inteligentes, com grandes cérebros, visão binocular e dedos para agarrar com um polegar opositor; dinossauros que, nas palavras de Desmond: “são separados de outros dinossauros por um golfo comparável com aquele que divide homens de vacas”.

O debate sobre se os dinossauros tinham ou não sangue quente (pela primeira vez levantado por Robert T. Bakker e outros no inicio da década de 70) continua a existir e, provavelmente, será assunto de controvérsia em círculos científicos por décadas.

Ainda assim, qualquer que seja o lado que essa controvérsia favoreça, nossa visão de vida dos dinossauros mudou consideravelmente daquela existente nos anos cinquenta, de obtusos chafurdadores de lama. Como Silva J. Czerkas e Everett C.Olson disseram: “Quilo por quilo, a maioria dos dinossauros gigantes era mais forte, mais rápido e mais manobrável que os rinocerontes e elefantes de hoje em dia”.

Agora é amplamente aceito que alguns dinossauros viajavam em bandos, com uma organização social similar aos animais de rebanho de hoje, e mesmo o maior dos comedores de plantas é agora cada vez mais considerado como habitante de florestas, preenchia um nicho parecido com o que é hoje ocupado por elefantes e girafas, ao invés de vagueadores de pântanos. Alguns outros dinossauros, como algumas variedades de hadrossauro “bico de pato”, são conhecidos por terem posto ovos em grandes colônias ou “incubadoras”, como alguns pássaros marinhos de hoje, e acredita-se que realmente criavam seus filhotes depois de nascidos, em vez de abandonarem os ovos ainda fechados ao seu próprio destino, como muitas tartarugas fazem.

Já foi sugerido que os pássaros modernos são descendentes diretos dos dinossauros; assim, num sentido, os dinossauros não se extinguiram realmente - em vez disso, você vê um representante vivo deles cada vez que vai ao parque. Você até mesmo pode ter alimentado-o com pedaços de pão.

Entretanto, se isso é verdade, - e ainda é altamente controvertido - então os pássaros são apenas descendentes remanescentes dos dinossauros. Porque há 65 milhões de anos, todos os outros dinossauros desapareceram repentina e misteriosamente da terra, do mar e do ar. Mortos. Todos eles, mortos - num período que calcula-se variar de um milhão a alguns milhares de anos, ou mesmo alguns dias.
Extintos.

O que matou os dinossauros?

Esse tem sido um dos maiores mistérios da ciência por décadas, e há quase tantas teorias quanto há teorizadores. Por anos, a teoria principal era que uma supemova próxima havia atingido a Terra com uma mortal onda de radiação.

Outras favoritas eram as teorias da seca global (lembra-se daqueles dinossauros em Fantasia, vagando pelo deserto e morrendo de sede?), ou uma mudança do clima, quando então morreram de frio (embora haja algumas novas evidências que sugerem que alguns deles já viviam em áreas com um clima frio o bastante para formar gelo e congelar lagos). Períodos de grande atividade vulcânica por todo o mundo já foram acusados, assim como a chuva ácida.

Uma teoria sugere que pequenos mamíferos furtivos correram pelas florestas comendo os ovos dos dinossauros. Há uma teoria que atribui seu desaparecimento à mudança da dieta causada pelo aumento das plantas floridas; outra diz que os dinossauros foram mortos por envenenamento alcalóide ao se alimentarem de plantas floridas; ainda outra diz que morreram de febre do feno pelo aumento das plantas floridas; e há ainda uma teoria que diz que os dinossauros morreram de constipação quando uma certa planta com propriedades laxativas se tomou extinta.

A última favorita, sugerida pela primeira vez em 1979 pelo Dr. Luiz de Alverez, é que um imenso asteróide atingiu a superfície da Terra provocando monstruosos terremotos, imensos maremotos, incêndios globais e, muito pior, nuvens de poeira de rocha, fumaça, sujeira e vapor de água que espalharam-se pela atmosfera, bloqueando o sol e criando um cenário similar àquele de um “inverno nuclear”: nenhuma luz solar, uma catastrófica queda de temperatura por todo o mundo e a morte da maior parte da vida vegetal, incluindo o tão importante plâncton no oceano, a base de toda a cadeia alimentar. Essa teoria foi amplamente aceita durante os anos 80. Mas detratores começaram a aparecer, e agora está novamente sob ataque.

A verdade é que nenhuma dessas teorias parece explicar adequadamente todos os intrincados detalhes da Grande Extinção Cretácea. Você pode muito bem sugerir, como Clifford D. Simak fez, que alienígenas famintos comeram os dinossauros, ou sugerir, como Isaac Asimov, que aqueles inteligentes e vorazes pequenos dinossauros que mencionamos, Sauronithoides e sua espécie, desenvolveram uma arma e caçaram seus parentes maiores e mais tolos até a extinção antes de inventarem a guerra e se virarem uns contra os outros.

É interessante especular sobre como seria o mundo hoje se os dinossauros não tivessem se tornado extintos. O professor Carl Sagan da Universidade Comell escreveu: “Se não fosse pela extinção dos dinossauros, as formas de vida dominantes na terra hoje seriam descendentes do Sauronithoides, escrevendo e lendo livros, especulando sobre o que teria acontecido se os mamíferos tivessem prevalecido?” E o título deste livro teria que ser... “Mamíferos!”!
Sabe-se lá. Enquanto isso, fique feliz de que as coisas tenham acontecido desse modo, e continue lendo.

Jack Dann e Gardner Dozois.



Caminho do Tempo - ARTHUR C. CLARKE
Os Corredores - BOBBUCKLEY
Pobre Pequeno Guerreiro - BRIAN W. ALDISS
Estratos - EDWARD BRYANT
Dinossauros - GEOFFREY A. LANDIS
Estação de Incubação - HARRY TURTLEDOVE
Irmão Verde - HOWARD WALDROP
Mudança de Tempo - JACK DANN & GARDNER DOZOIS
Os falsáurios - JAMES TIPTREE, JR
Arma para Dinossauros - L. SPRAGUE DE CAMP
O Último Cavalo-Trovão a Oeste do Mississippi - SHARON N. FARBER
TEM Dinossauro - STEVE RASNIC
Pulando Fora - STEVE NUTLEY
Dinossauro de Bicicleta - TIM SULLIVAN

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segunda-feira, 28 de junho de 2010

O retorno do Capitão Kirk - William Shatner



Picard fitava Kirk fixamente. Acionou o próprio comunicador.
- Aqui é Picard, Enterprise. Detenha sua aproximação. Repito...

Kirk puxou a mão de Picard e acionou o próprio comunicador.
- Ignore a última ordem, Spock. Traz essa nave logo.
- Eu não vou embora.
 Kirk estava prestes a gritar quando, de repente, desistiu.
- Você já tentou salvar a Kobayashi Maru na Academia? Picard olhava para Kirk com profunda suspeita.
- Sim... Mas isso não pode ser feito. É um cenário sem solução criado para testar os cadetes.

Kirk sorriu.


- É nisso que eles querem que você acredite. Mas há uma estratégia que pode ser vitoriosa. Só que ninguém em sua época parece tentá-la. Spock disse-me que é uma arte perdida.
- Está sugerindo um compromisso?
Kirk pensou um pouco.
- Pode chamar assim.
- Bom, vá em frente. Estou sempre aberto a sugestões.

Kirk assentiu.
- Ótimo.

Então, desfechou um soco no queixo de Picard, da forma mais violenta que podia. Picard caiu como um peso morto. Kirk arrastou o outro capitão pela gola até se afastarem bastante do conduíte.
Depois arrancou seu comunicador e o ativou.
- Kirk para Enterprise.
- Spock falando.

Kirk sorriu. Isso já o fazia se sentir melhor.
- Mantenha a nave fora de perigo, Sr. Spock

Ele estudou a insígnia-comunicador da Frota Estelar em sua mão.

Lembrou-se da época em que aquele formato usado na insígnia designava apenas os tripulantes da Enterprise. Mas as coisas precisavam mudar.

Assim era o mundo.

O Universo.

Ele estava feliz por ser parte disso tudo.


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domingo, 27 de junho de 2010

William Shatner



William Shatner (22 de Março de 1931) nasceu em Montreal, Quebec (Canadá).

Ator, escritor, produtor, diretor e cantor, Shatner, de ascendência judia ucraniana, estudou na Baron Byng High School em Montreal e possui o diploma de Bacharel em Comércio pela McGill University de Montreal.

Shatner estudou teatro clássico, se apresentando no famoso Shakespeare Stratford Festival do Canadá, em Stratford, Ontario, antes de ir para os Estados Unidos trabalhar como ator.

Em 1954 fez sua estreía na TV, como "Bill Ranger" no popular Howdy Doody Show.
Seu primeiro filme foi 'Os Irmãos Karamazov' (Metro, 1958), com Yul Brynner. Em 62, ele estrelou no premiado filme "The Intruder" e apareceu em dois episódios de The Twilight Zone. Em 1965 trabalhou no inusitado filme de terror gótico Incubus, um dos dois únicos filmes conhecidos para ter todos os diálogos falados em Esperanto.

Em 1966 ele assinaria o contrato para trabalhar em uma série de tv que marcaria sua carreira, no papel do capitão James T. Kirk da USS Enterprise, na série Jornada nas Estrelas (Star Trek, 1966-1969), que teve continuação pelos 7 filmes desta franquia.

Na literatura Shatner teve sucesso com a série TEK, de ficção científica. O ano é 2045, e o ex-policial Jake Cardigan é acordado de prisão depois de 4 anos em uma prisão criogênica por um crime que não cometeu. Ele trabalha para a COSMOS Detective Agency, na guerra contra o TEK, uma droga viciante que tem o efeito de criar uma realidade simulada

Esta série popular de livros deu origem a um filme, no qual Shatner desempenhou um papel, e uma série de televisão de curta duração (dirigida por ele), além de um game para computadores.

A carreira de Shatner alcançou após Star Trek, outro auge, quando ganhou dois prêmios Emmy por interpretar o advogado Denny Crane na série de televisão The Practice e Boston Legal.

William Shatner  (Tek War series (9 livros), Quest for tomorrow series (3 livros), Dark Victory ) [ Download ]

sábado, 26 de junho de 2010

O Caçador de Andróides - Philip K. Dick (parte 13)




NA CASA DA ÓPERA, foram informados de que o ensaio terminara. E que Luba Luft fora embora.
— Ela disse para onde pretendia ir? — perguntou Phil Resch, mostrando a um empregado de palco sua identificação da polícia.
— Para o museu. — O empregado examinou a identificação. — Disse que queria ir ver a exposição de Edvard Munch que há por lá atualmente. Acaba amanhã.
E Luba Luft, pensou Rick, acaba hoje.

Enquanto os dois desciam a calçada em direção ao museu, perguntou Phil Resch:
— Que chances você dá? Ela bateu as asas. Não vamos encontrá-la no museu.
— Talvez — disse Rick.
Chegaram ao prédio, verificaram onde era a exposição de Munch, e subiram.
Pouco depois, andavam ao léu entre pinturas e xilogravuras.

Numerosas pessoas haviam comparecido para ver a exposição, incluindo uma turma de escola secundária e, enquanto a voz aguda da professora ressoava por todas as salas reservadas à mostra.
Rick pensou: Era com isso que você esperaria que soasse — e parecesse — uma andróide. Em vez de se parecer com Rachael Rosen e Luba Luft. E com o homem ao seu lado. Ou, melhor, a coisa a seu lado.
— Você já ouviu falar em um andróide possuir algum bichinho de estimação? — perguntou-lhe Phil Resch.
Por alguma razão, Rick sentiu a necessidade de ser brutalmente honesto; já começara a preparar-se para o que o aguardava.
— Em dois casos que conheço, andros possuíram e cuidavam de animais. Mas isto é raro. Pelo que pude aprender, a coisa geralmente falha, o andro é incapaz de manter vivo o animal. Para florescer, o animal precisa de um ambiente de calor humano. Exceto répteis e insetos.
— Um esquilo precisaria disso? De uma atmosfera de amor? Por que Buffy está indo muito bem, tão lustroso como uma lontra. Eu o escovo e penteio, dia sim, dia não. — Em frente a um quadro a óleo, Phil Resch parou e ficou a examiná-lo com atenção.

O quadro mostrava uma criatura calva, oprimida, com uma cabeça parecendo uma pêra invertida, as mãos fechadas em horror nas orelhas, a boca aberta num imenso e mudo grito. Ondas contorcidas do sofrimento da criatura, ecos de seu grito, vibravam no ar que a cercava; o homem, ou mulher, o que quer que fosse, estava contida em seu próprio uivo. Cobrira as orelhas para não ouvir seu próprio som. A criatura encontrava-se numa ponte e não havia ali ninguém mais e ela gritava em completo isolamento. Separada — ou a despeito — da explosão de seu grito.
— Ele fez uma xilografia disto — disse Rick, lendo o cartão preso com um percevejo embaixo do quadro.
— Eu acho — especulou Phil Resch — que é assim que um andro deve sentir-se. — No ar, traçou circunvoluções, visíveis no quadro, do grito da criatura. —Eu não me sinto assim, de modo que eu talvez não seja... — Interrompeu-se quando várias pessoas se aproximaram para ver o quadro.
— Lá está Luba Luft — apontou Rick e Phil Resch parou sua lúgubre introspecção e autodefesa. Em passos medidos, os dois se dirigiram para ela, sem pressa, como se nada os esperasse. Como sempre, era vital preservar a atmosfera comum. Outros humanos, sem conhecimento da presença de andróides entre eles, tinham que ser protegidos a todo custo — mesmo ao de perderem a presa.

Tendo nas mãos um catálogo impresso, Luba Luft, usando calças justas brilhantes e uma espécie de colete dourado iluminado, parecia absorta em frente a um quadro: o desenho de uma moça, mãos cruzadas, sentada à beira de uma cama. com uma expressão de confuso espanto e um novo e sorrateiro medo gravado na face.
— Quer que o compre para você? — perguntou Rick a Luba Luft.
Ao lado dela, segurava-a levemente pela parte superior do braço, dizendo-lhe, pela frouxa empunhadura, que sabia que tinha sua posse, que não precisava fazer força para detê-la. No outro lado, Phil Resch colocou a mão no ombro dela e Rick viu a protuberância de um tubo de laser. Phil Resch não tencionava arriscar-se, não depois do quase fracasso com o Inspetor Garland.
— Não está à venda. — Luba Luft lançou-lhe um olhar preguiçoso e, em seguida, violento, quando o reconheceu. Seus olhos desmaiaram e a cor diminuiu em seu rosto, deixando-o cadavérico, como se já começasse a apodrecer, como se a vida houvesse, num instante, se retirado para algum ponto bem dentro dela, deixando o corpo à sua ruína automática. — Eu pensei que o haviam prendido. Quer dizer que o soltaram?
— Srta. Luft — ele apresentou —, este é o Sr. Resch. Phil Resch, esta é a famosa cantora de óperas, Luba Luft.

A Luba, disse: — O guarda uniformizado que me prendeu é um andróide. Como era também o superior dele. Você conhece, conhecia, um certo Inspetor Garland? Ele me disse que vocês todos chegaram aqui em uma única nave, como um grupo.
— O departamento policial para o qual ligou — disse-lhe Phil Resch —, e que opera de um prédio na Mission, é a agência organizadora, através da qual parece que seu grupo se mantém em contato. Eles se sentem tão confiantes que até contratam um caçador de cabeças humano. Evidentemente...
— Você? — perguntou Luba. — Você não é humano. Não mais do que eu. Você é andróide, também.
Caiu um silêncio até que Phil Resch disse em voz baixa e controlada:
— Bem, trataremos disso no momento oportuno. — Virou-se para Rick: — Vamos levá-la para meu carro.
Escoltada de cada lado enquanto a empurravam na direção do elevador do museu, Luba Luft não os acompanhou de bom grado, mas; por outro lado, não resistiu ativamente. Aparentemente se resignara. Rick vira isso antes em andróides, em situações cruciais.

A força de vida artificial que os animava como que falhava, se pressionada demais, pelo menos em alguns deles. Não em todos. E podia explodir furiosamente.

Os andróides, contudo, possuíam, isto ele sabia, um desejo inato de permanecerem despercebidos. No museu, com tantas pessoas andando em volta, Luba Luft tenderia a permanecer inativa. O choque real — para ela provavelmente o último — teria lugar no carro, onde ninguém mais poderia vê-los. Sozinha, com apavorante subtaneidade, ela podia descartar-se de suas inibições. Preparou-se — e não pensou em Phil Resch. Conforme Resch dissera, seu assunto seria tratado no devido tempo.

Ao fim do corredor, perto dos elevadores, havia sido instalada uma espécie de lojinha que vendia gravuras e livros de arte. Luba parou, procurando ganhar tempo.
— Escute — disse ela a Rick. Um pouco de cor voltara a seu rosto. Uma vez mais ela parecia, pelo menos por um curto instante, viva.— Compre para mim uma reprodução daquele quadro que eu estava vendo quando você me encontrou. Aquele da moça sentada na cama.
Após um momento, Rick virou-se para a vendedora, uma mulher de meia-idade, bochechas caídas e cabelos grisalho preso numa rede:
— A senhora tem uma cópia de Puberdade, de Munch?
— Apenas neste livro de sua obra reunida — respondeu a vendedora, pegando um belo volume em papel lustroso. — Vinte e cinco dólares.
— Vou levá-lo — resolveu Rick e estendeu a mão para tirar a carteira.
— Meu departamento — comentou Phil Resch —, nem em um milhão de anos incluiria em seu orçamento despesas para...
— Com meu dinheiro — esclareceu Rick, entregando as notas à mulher e o livro a Luba. — Agora, vamos embora — disse a ela e a Phil Resch.
— Foi uma grande bondade sua — reconheceu Luba, quando entraram no elevador. — Há alguma coisa muito estranha e comovente nos humanos. Um andróide jamais teria feito aquilo. — Olhou de soslaio, friamente, para Phil Resch. — Isto não teria ocorrido a ele. Como ele disse, nunca, nem em um milhão de anos. — Continuou a olhar para Resch, neste momento com hostilidade e aversão multiplicadas. — Eu, realmente, não gosto de andróides. Desde que cheguei aqui; vinda de Marte, minha vida tem consistido em imitar os humanos, em fazer o que eles fariam, em agir como se eu tivesse os pensamentos e impulsos que um humano teria. Imitar, no que me interessa, uma forma de vida superior. — A Phil Resch, disse: — É assim que tem sido com você, Resch? Tentando ser...
— Eu não posso agüentar isto — disse Phil Resch, enfiando a mão no casaco, à procura,
— Não — ordenou Rick, segurando-lhe a mão.
Resch recuou, afastando-se dele. — O Teste Boneli — lembrou Rick.
— A coisa admitiu que é um andróide — retrucou Resch. — Nós não temos que esperar.
— Mas aposentá-la — comentou Rick — por que ela o está aborrecendo... Dê-me isso. — Tentou tomar o tubo de laser da mão de Resch, mas não conseguiu. Resch girava dentro do apertado elevador, evitando-o, toda sua atenção em Luba. — Muito bem — concordou Rick. — Aposente-a. Mate-a agora. Mostre-lhe que está certa. — Mas notou que Resch ia fazer isso mesmo. — Espere. .

Phil Resch atirou e, no mesmo instante, Luba Luft, num espasmo de medo de criatura encurralada, torceu-se e girou para longe, caindo enquanto fazia isso.

O feixe errou o local para onde fora apontado, mas, quando Resch abaixou-o, abriu um estreito orifício, silenciosamente, no estômago da moça. Ela começou a gritar, gritou agachada contra a parede do elevador. Como no quadro, pensou Rick e, com seu próprio laser, matou-a.

O corpo de Luba Luft desmoronou para a frente num monte, o rosto primeiro.
Nem mesmo tremeu.
Com o tubo de laser. Rick queimou e reduziu sistematicamente a cinzas o livro de reproduções que, minutos antes, comprara para Luba.
Fez esse trabalho minuciosamente, calado.

Phil Resch observava, sem compreender, sua face uma máscara de perplexidade.
— Você podia ter ficado com o livro — disse, quando o trabalho acabou. — Ele lhe custou...
— Você acha que andróides têm alma? — interrompeu-o Rick.
Inclinando a cabeça para um lado, Phil Resch fitou-o, mais perplexo ainda.
— Eu tinha dinheiro de sobra para o livro — disse Rick. — Ganhei hoje, até agora, três mil dólares e não estou nem ainda pela metade.
— Você está reclamando Garland? — perguntou Phil Resch. — Mas fui eu que o matei, não você. Lá, você ficou simplesmente olhando. E Luba, também. Eu a peguei.
— Você não pode cobrar — lembrou-lhe Rick. — Não de seu próprio Departamento, nem do nosso. Quando chegarmos ao seu carro, eu lhe aplicarei o Teste Boneli e o Voigt-Kampff e então veremos. Mesmo que você não esteja na minha lista. — Mãos trêmulas, abriu a pasta e procurou entre as cópias amarfanhadas a carbono.
— Não, você não está aqui. Assim, legalmente, não posso reclamar a recompensa por matá-lo. Para ganhar alguma coisa, tenho que alegar que fui eu quem matou Luba Luft e Garland.
— Você tem certeza de que eu sou um andróide? Foi isso realmente o que Garland disse?
— Foi isso o que ele disse.
— Talvez ele estivesse mentindo — lembrou Phil Resch. — Para nos separar. Como estamos separados agora. Nós somos malucos, deixando que eles nos separem. Você tinha toda razão a respeito de Luba Luft... Eu não devia ter deixado que ela me irritasse daquele jeito. Devo ser sensível demais. Isso seria natural para um caçador de cabeças, acho. Você, provavelmente, reage da mesma maneira. Mas, escute aqui, nós teríamos, de qualquer maneira, de aposentar Luba Luft, dentro de meia hora a partir de agora... apenas mais meia hora. Ela nem mesmo teria tido tempo de folhear aquele livro que você lhe deu. Mas ainda não consigo pensar por que o destruiu. Isso foi um desperdício. Não posso seguir seu raciocínio. Não é racional, é esse o motivo.
— Eu vou abandonar este negócio — disse Rick.
— F. trabalhar em quê?
— Qualquer coisa. Seguros, corretagem, como Garland devia estar fazendo. Ou emigrarei. Sim. — Inclinou a cabeça. — Vou para Marte.
— Mas alguém tem que fazer este trabalho — observou Resch.
— Podem usar andróides. Será muito melhor se andros fizerem isto. Eu não posso mais. Já enchi. Ela era uma cantora maravilhosa, O planeta poderia tê-la usado. Isto é uma loucura.
— Isto é necessário. Lembre-se: eles mataram humanos para conseguirem fugir. E se eu não o tivesse tirado da estação de polícia da Mission, eles o teriam matado. Foi para isso que Garland me chamou. Foi por isso que ele disse para eu ir ao seu escritório. Polokov quase não o matou? E Luba, quase? Estamos agindo defensivamente. Eles estão aqui, em nosso planeta... são alienígenas cruéis, ilegais, fazendo-se passar por...
— Por policiais — completou Rick. — Como caçadores de cabeças.
— Muito bem. Aplique-me o Teste Boneli. Talvez Garland tenha mentido. Acho que ele mentiu... Falsas memórias simplesmente não são tão boas assim. O que é que você diz de meu esquilo?
— Sim, seu esquilo Esqueci-me de seu esquilo.
— Se eu for um andróide — disse Phil Resch —, e você me matar, pode ficar com meu esquilo. Vou botar isto no papel, deixá-lo a você em testamento.
— Andros não podem deixar coisa alguma. Não podem possuir coisa alguma para deixar em testamento.
— Neste caso, fique simplesmente com ele — sugeriu Phil Resch.
— Talvez eu faça isso — retrucou Rick. O elevador chegara ao primeiro andar. Abriram-se as portas. — Fique aqui com Luba. Vou chamar um carro de patrulha para levá-la ao Palácio de Justiça. Para o teste de medula óssea.

Viu uma cabine telefônica, entrou, inseriu uma moeda e, os dedos tremendo, discou. Enquanto isso, um grupo de pessoas, que estivera à espera do elevador, reunia-se em volta de Phil Resch e do corpo de Luba Luft.

Ela era realmente uma cantora soberba, pensou, quando desligou, completada sua ligação. Não entendo isto: como um talento como aquele pode ser um passivo para nossa sociedade? Mas não era o talento, lembrou a si mesmo, era ela. Como é Phil Resch, pensou. Ele é uma ameaça exatamente da mesma maneira, pelas mesmas razões. Por isso, não posso desistir agora. Saindo da cabine, abriu caminho entre o grupo, de volta a Resch e ao corpo tombado da andróide. Alguém a cobrira com um casaco. Não o de Resch.

Aproximando-se de Phil Resch — que se encontrava de um lado, tirando vigorosas baforadas de um pequeno charuto cinzento — disse-lhe: — Queira Deus que o teste revele que você é um andróide.
— Você realmente me odeia — exclamou Phil Resch, espantado. — E assim, de repente. Não me odiava lá na Mission Street. Não, enquanto eu estava salvando sua vida.
— Estou começando a perceber um padrão. Na maneira como você matou Garland e, em seguida, matou Luba. Você não mata como eu mato. Tudo de que você precisa é um pretexto. Se tivesse um, você me mataria. Foi por isso que agarrou a possibilidade de Garland ser um andróide. Isto o tornava disponível para ser morto. Eu gostaria de saber o que vai fazer quando for reprovado no Teste Boneli. Você cometeria suicídio? Andróides, às vezes, fazem isso. — Mas a situação era rara.
— Sim, eu cuidarei disso — prometeu Phil Resch. — Você não terá que fazer coisa alguma, salvo aplicar o teste.

Chegou nesse momento um carro de patrulha. Dele saltaram dois policiais, aproximaram-se da multidão e imediatamente abriram caminho. Um deles reconheceu Rick e inclinou a cabeça em sua direção. Bom, agora podemos ir, pensou Rick. Nosso negócio aqui está terminado. Finalmente.

Descendo ele e Resch a rua, de volta à Casa da Opera, onde estava estacionado o hovercar, disse Resch:
— Vou-lhe entregar agora meu tubo laser, de modo que não vai ter que se preocupar com minha reação ao teste. Em termos de sua própria segurança pessoal. — Estendeu a arma, que Rick aceitou.
— Como é que você se suicidaria sem ela? — perguntou. — Se não passar no teste?
— Prenderei a respiração.
— Pelo amor de Deus — exclamou Rick, — Isso não pode ser feito.
— Num andróide não há interrupção automática no nervo pneumogástrico. Como há nos humanos. Não lhe ensinaram isso quando o treinaram? Disseram-me isso há dez anos.
— Mas morrer dessa maneira — protestou Rick.
— Não há dor. Qual é o problema com isso?
— É... — Fez um gesto, incapaz de encontrar as palavras apropriadas.
— Eu não penso, realmente, que vá ter que fazer isso — observou Phil Resch.
Juntos subiram até o telhado da Casa da Ópera e até junto do hovercar de Resch.
Colocando-se ao volante e fechando a porta, disse Phil Resch:
— Eu preferiria que você usasse o Teste Boneli.
— Não posso. Não sei como avaliá-lo. — Teria que depender de você para uma interpretação das leituras, pensou. E isto está fora de cogitação.
— Você vai me dizer a verdade, não? — perguntou Resch. — Se eu for um andróide, você me dirá?
— Certamente.
— Porque eu, realmente, quero saber. Tenho que saber. — Reacendeu o charuto, mexeu-se no assento individual do carro, procurando uma posição mais confortável. Evidentemente, não pôde encontrá-la. —

Você gostou realmente daquele quadro de Munch que Luba Luft estava vendo? — perguntou. — Não gostei dele. O realismo na arte não me interessa. Gosto de Picasso e...
— Puberdade data de 1894 — disse seco Rick. — Naquela época nada havia, salvo realismo. Você tem que levar isso em conta.
— Mas aquele outro; do homem segurando as orelhas e gritando... aquilo não foi figurativo.
Abrindo a pasta, Rick tirou o equipamento de teste.
— Refinado — disse Phil Resch, observando-o. — Quantas perguntas você tem que fazer antes de poder chegar a uma conclusão?
— Seis ou sete. — Entregou-lhe o disco adesivo. — Prenda-o ao rosto. Firmemente. E esta luz... — Apontou-a com cuidado. — Ela permanece focalizada em seu olho. Não se mova. Mantenha o globo ocular tão imóvel quanto puder.
— Flutuações de reflexo — disse Phil Resch, demonstrando conhecimento do assunto. — Mas não ao estímulo físico. Você não mede dilatação, por exemplo. Serão às perguntas verbais, o que chamamos de reação de esquiva.
— Você acha que pode controlá-la? — perguntou Rick.
— Não, realmente. No fim, talvez. Mas não a amplitude inicial. Isto fica fora do controle consciente, Se não fosse... — Interrompeu-se. — Continue. Estou tenso. Desculpe-me, falo demais
— Fale o quanto quiser — aconselhou Rick. Fale o caminho todo até à sepultura, pensou. Se tiver vontade. Isto não lhe importava.
— Se no teste eu revelar que sou andróide — tagarelou Phil Resch —, você terá renovada sua fé na raça humana. Mas desde que não vai ser assim, sugiro que comece a elaborar uma justificativa? que explique...
— Vamos à primeira pergunta — disse Rick, que já instalara o equipamento e os dois ponteiros tremiam nos mostradores. — O tempo de reação é um fator, de modo que responda com toda a rapidez que puder.

De memória escolheu a primeira pergunta. O teste começara.
Depois, Rick permaneceu em silêncio durante algum tempo. Em seguida, começou a reunir o equipamento e guardá-lo na pasta.
— Posso ver pelo seu rosto — disse Phil Resch, exalando um suspiro de alívio completo, imponderável, quase convulsivo. — Muito bem, você pode me devolver minha arma. — Estendeu a mão, palma para cima, à espera.
— Evidentemente, você teve razão — respondeu Rick. — Sobre os motivos de Garland. Querendo nos separar. Aquilo que você disse. — Sentia-se psicológica e fisicamente cansado.
— Já elaborou sua justificativa? — perguntou Phil Resch. — Que me explicaria como parte da raça humana?
— Há um defeito na sua capacidade empática, de assunção de papéis. Um defeito para o qual não fazemos testes. Seus sentimentos em relação a andróides...
— Claro que não fizemos testes para isso.
— Talvez devêssemos. — Nunca pensara nisso antes, nunca sentira empatia alguma em relação aos andróides que matara. Sempre supusera que, em toda sua psique, percebia o andróide como uma máquina inteligente — como na sua opinião consciente. Ainda assim, em contraste com Phil Resch, havia-se manifestado uma diferença. E, instintivamente, sabia que tinha razão. Empatia para com uma construção artificial? perguntou a si mesmo. Para com algo que apenas finge ser vivo? Mas Luba Luft parecera autenticamente viva, não apresentara o aspecto de uma simulação.
— Você compreende — perguntou quietamente Phil Resch — o que isto significaria, se incluíssemos andróides em nossa faixa de identificação empática, como fazemos com animais.
— Nós não poderíamos proteger-nos?
— De modo nenhum. Esses tipos Nexus-6...cairiam sobre nós e nos esmagariam. Você e eu, todos os caçadores de cabeças, nos colocamos entre o Nexus-6 e a humanidade, somos uma barreira que mantém separados os dois. Além disso...— Interrompeu-se, notando que Rick, mais uma vez, tirava da pasta o equipamento de teste. — Pensei que o teste tinha acabado.
— Eu quero fazer a mim mesmo uma pergunta — explicou Rick. — E quero que você me diga o que os ponteiros registram. Simplesmente me dê a calibração. Eu posso computá-la. — Colou o disco adesivo no rosto e colocou o feixe de luz de modo a que incidisse diretamente em seu olho. — Pronto? Observe os mostradores. Nisto vamos excluir a defasagem temporal. Quero simplesmente magnitude.
— Certo, Rick — concordou de boa vontade Phil Resch.

Em voz alta, disse Rick:
— Estou descendo num elevador com um andróide que capturei. E, de repente, alguém o mata, sem aviso.
— Nenhuma reação especial — observou Phil Resch.
— Que marcas os ponteiros atingiram?
— O esquerdo, 2,8. O direito, 3,3.
— Um andróide feminino — disse Rick,
— Agora subiram para 4 e 6, respectivamente.
— Isso é suficientemente alto — concluiu Rick. Tirou do rosto o disco adesivo e desligou o feixe de luz. — Isso foi uma reação categoricamente empática. Mais ou menos o que um sujeito humano demonstra com a maioria das perguntas. Exceto nos casos das perguntas extremas, como as que tratam de peles humanas usadas decorativamente... as realmente patológicas.
— O que significa?
— Sou capaz de sentir empatia por, pelo menos, certos andróides, específicos. Não por todos eles, mas... por um ou dois. — Como por Luba Luft, disse a si mesmo. Assim, eu me enganei. Não há coisa alguma de antinatural ou anti-humano nas reações de Phil Resch: sou eu.
E eu bem que gostaria de saber, pensou, se qualquer ser humano já se sentiu assim antes a respeito de um andróide.

Claro; refletiu, isto talvez nunca mais volte a acontecer em meu trabalho. Isto poderia ser uma anomalia., alguma coisa, por exemplo, com meus sentimentos no tocante a A Flauta Mágica. E à voz de Luba, na verdade, à sua carreira como um todo. Certamente isto nunca lhe acontecera antes, ou pelo menos que ele soubesse. Não, por exemplo, no caso de Polokov. Nem no de Garland. E, compreendeu, se Phil Resch houvesse demonstrado no teste que era um andróide, eu poderia tê-lo morto sem sentir coisa alguma, depois da morte de Luba.

Mas basta dessa distinção entre humanos vivos autênticos e construções humanóides. Naquele elevador no museu, pensou, desci com duas criaturas, uma humana e a outra andróide... e meus sentimentos foram o contrário do que deveriam ter sido. Do que estou acostumado a sentir — do que tenho obrigação de sentir.
— Você está numa enrascada, Deckard — observou Phil Resch. Parecia divertir-se.
— O que. o que é que eu devo fazer?
— É sexo — disse Phil Resch.
— Sexo?
— Porque ela...a coisa... era fisicamente atraente. Isso nunca lhe aconteceu antes? — Resch soltou uma gargalhada. — Disseram-nos que isso constitui um dos principais problemas na caçada de cabeças. Você não sabe, Deckard, que nas colônias há amantes andróides?
— Isso é ilegal — declarou Rick, conhecendo a lei sobre esse assunto.
— Claro que é. Mas a maioria das variações em sexo é ilegal. Mas as pessoas as praticam, de qualquer maneira.
— O que é que você me diz de, não sexo, mas amor?
— O amor é outro nome de sexo.
— Como o amor pelo país — disse Rick. — O amor pela música.
— Se é amor por uma mulher, ou uma imitação andróide, é sexo. Acorde e olhe-se de frente. Deckard.
Você queria ir para a cama com um tipo feminino de andróide, nada mais, nada menos. Eu me senti assim, uma única vez. Quando iniciei a caçada de cabeças. Não deixe que isso o abata. Você se cura. O que aconteceu foi que sua ordem de valores se inverteu. Não a mate, ou esteja presente quando ela for morta, e, em seguida, sinta-se fisicamente atraído. Faça isso ao contrário.

Rick olhou-o fixamente,
— Ir para a cama com ela primeiro. .
— ... e em seguida matá-la — disse sucintamente Phil Resch, mantendo seu sorriso duro, indecifrável.
Você é um bom caçador de cabeças, reconheceu Rick. Sua atitude prova isso. Mas, e eu?

De repente, pela primeira vez na vida, ficou em dúvida.



O Caçador de Andróides - Philip K. Dick  (parte 13) [ Download ]

sexta-feira, 25 de junho de 2010

A Sonda do Tempo - As Ciências na Ficção Científica - Arthur C.Clarke





INTRODUÇÃO
Ciência e Ficção Científica

A ficção científica deve ser um dos campos da literatura que mais antologias mereceu — o que é, naturalmente, um tributo à sua vitalidade e à sua popularidade.

Mas esta mesma popularidade é embaraçosa para o suposto antologista — a maioria dos melhores contos já foi usada vezes sem conta e é difícil pensar em uma nova forma de abordar o assunto.

Robôs, Invasores do Espaço, Viagens no Tempo, Mutantes — todos os temas clássicos — já foram empregados para dar coerência às coletâneas de contos (a maioria editada por Groff Conklin).

Entretanto, qualquer antologia, salvo se compilada, marcando fichários ao acaso, deve ter um padrão ou esboço global. Neste volume o esquema é muito simples, embora, pelo que me conste, nunca tenha sido usado antes. Estes contos foram todos selecionados porque ilustram um aspecto particular da ciência ou da tecnologia — de preferência um aspecto surpreendente ou estranho.

Dito isto, quero acrescentar, rapidamente, algo para tranqüilizar o leitor. A primeira função de um conto é o de entreter — não instruir ou pregar. Nenhum escritor deve jamais esquecer as palavras imortais de Sam Goldwyn: "Se você tiver uma mensagem use o Cabo Submarino." Embora estes contos tenham sido escolhidos, principalmente, devido ao seu conteúdo científico, a seleção final teve por base o entretenimento. Portanto, numerosos contos, cheios de inventividade, foram rejeitados, simplesmente, porque não se enquadravam nesta categoria.

O teste definitivo de qualquer história se faz quando é relida, de preferência após o lapso de alguns anos. Se for boa, a segunda leitura dará tanto prazer quanto a primeira. Se for excelente, a segunda leitura será mais saborosa. Se for uma obra-prima, melhorará a cada leitura. E inútil dizer que existem muito poucas obras-primas, tanto dentro como fora da ficção científica, e não garanto que se encontre alguma neste volume.

Entretanto, estou razoavelmente certo de que todos estes contos valem a pena ser lidos ao menos duas vezes e que a maioria deixará uma lembrança duradoura na memória do leitor. A prova de que uma história é realmente medíocre é que a pessoa não poderá lembrar-se de que já a leu alguma vez.

Felizmente, hoje em dia, não há mais necessidade de defender a ficção científica contra os analfabetos que, até bem pouco, estavam inclinados a atacá-la. Entretanto, velhos aficionados como eu, conservam ainda mecanismos automáticos de defesa; é difícil abandonar os instintos de uma vida inteira, e posso ainda recordar os dias em que costumava esconder as capas das minhas Histórias Fantásticas e Espantosas de 1930. (Isso é que era Arte Pop.) Estes instintos fazem-nos cair às vezes no extremo oposto, como aconteceu comigo, recentemente, numa reunião do PEN Clube de Nova York, quando declarei que a ficção científica era uma ponte entre as famosas "Duas Culturas".

Hoje repudio, ou pelo menos modifico esta afirmação pois, pensando bem, não acredito que haja duas culturas; o que existe é a cultura e a não-cultura. Uma pessoa que conheça tudo sobre as comédias de Aristófanes e nada sobre a Segunda Lei de Termodinâmica é tão inculta como aquela que dominou a teoria quântica, mas pensa que Van Gogh pintou a Capela Sistina. (É ocioso dizer que estes tipos extremos não existem; mas há alguns bem parecidos.) Por conseguinte, agora afirmaria, não que a ficção científica é uma ponte entre duas culturas, mas que é uma das muitas pontes à cultura, e só isso. No momento, essa ponte tem muito pouco trânsito; mas terá mais.

É minha esperança que estes contos — alguns dos quais nunca figuraram em uma antologia e outros, tenho a satisfação de dizer, foram salvos do esquecimento — agradarão enormemente aos fãs da ficção científica e àqueles que pouco ou nada se interessam pela ciência. Mas, acima de tudo, espero que eles acendam nos jovens leitores um sentimento de espanto e admiração que, para a mente imaginativa e inquisidora, torna este tipo de literatura mais gratificante do que qualquer outro.

Desejaria agradecer ao meu infatigável agente, Scott Meredith, pela sugestão do plano desta antologia; a Bob Silverberg, pela sua pesquisa e por ter posto à minha disposição seus arquivos, que tanta nostalgia provocam, de Fantásticos, Assombrosos, Maravilhosos, etc.; a Bárbara Silverberg, pelas longas horas gastas com o aparelho de fotocópia; e a Don Fine por protelar tantas vezes o prazo para a entrega deste trabalho.

ARTHUR C. CLARKE - Londres, junho de 1966





SUMÁRIO

INTRODUÇÃO
Ciência e Ficção Científica

MATEMÁTICA
Robert A. Heinlein - ... E Ele Construiu Uma Casa Torta

CIBERNÉTICA
Murray Leinster -  O Wabbler

METEOROLOGIA
Theodore L. Thomas - O Meteorologista

ARQUEOLOGIA
Robert Silverberg - O Negócio de Antigüidades

EXOBIOLOGIA
James H. Schmitz - Vovô

FÍSICA
Isaac Asimov - Não é a Ultima Palavra!...

MEDICINA
Cyril Kornbluth - A Maleta Preta

ASTRONOMIA
Philip Latham - A Cegueira

FISIOLOGIA
Arthur C. Clarke - Respire Fundo

QUÍMICA
Jack Vance - Os Oleiros de Firsk

BIOLOGIA
Julian Huxley - As Experiências do Dr. Hascombe


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quinta-feira, 24 de junho de 2010

Asimov por Asimov



Muito embora eu já tenha escrito mais de cento e vinte livros, sobre qualquer assunto, desde astronomia até Shakespeare, e de matemática até sátira, é provavelmente como escritor de ficção científica que sou melhor conhecido.

Comecei como escritor de ficção científica, e durante os primeiros onze anos de minha carreira literária escrevi apenas e tão-somente histórias de ficção científica, apenas para publicação em revistas — e por um pagamento escasso. A idéia de efetivamente publicar bons livros nunca passou por minha mente, em essência humilde.

Mas veio o tempo em que comecei a produzir livros, e então comecei a reunir o material que de início escrevi para revistas.
Entre 1950 e 1969, dez coletâneas apareceram (todas publicadas pela Doubleday).

Estas continham oitenta e cinco histórias (mais quatro peças de versos cômicos) originalmente destinados, e publicados, em revistas de ficção científica. Quase um quarto delas veio dos primeiros onze anos.

Para registro, estes livros são:

Eu, Robô -1950 (I, Robot)
Fundação -1951 (Foundation)
Fundação e Império -1952 (Foundation And Empire)
Segunda Fundação- 1953 (Second Foundation)
Nós, os Marcianos -1955 (The Martian Way, And Other Stories)
A Terra é Espaço o Bastante -1957 (Earth Is Room Enough)
Nove Amanhãs -1959 (Nine Tomorrows)
O Resto Dos Robôs -1964 (The Rest Of The Robots)
Os Mistérios De Asimov -1968 (Asimov’s Mysteries)
O Cair Da Noite -1969 (Nightfall And Other Stories)

Pode-se argumentar que isto tenha sido bastante, mas com esta argumentação, omite-se o delirante apetite de meus leitores (abençoados sejam!). Estou constantemente recebendo cartas pedindo listas de histórias antigas, minhas, para que os missivistas possam revirar lojas de livros usados procurando revistas antigas.

Há pessoas que preparam bibliografias de minha ficção científica (não perguntem a mim por que) e que querem saber todo o tipo de pormenores insignificantes a meu respeito. Até mesmo ficam irritados quando descobrem que algumas das primeiras histórias nunca foram vendidas.

Querem essas, também, aparentemente, e parecem pensar que eu negligentemente destruí uma fonte natural.

Assim, quando a Panther Books, da Inglaterra, e a Doubleday, sugeriram que eu fizesse uma coleta daquelas minhas primeiras histórias ainda não coligidas nos dez livros arrolados acima, não mais pude resistir. Todos que me encontraram sabem como sou sensível a elogios, e se você pensa que posso suportar este tipo de adulação por mais de meio segundo (numa estimativa grosseira), está totalmente errado.

Afortunadamente, tenho um diário, que tenho mantido desde 1º de janeiro de 1938 (o dia anterior a meu décimo oitavo aniversário); e que pode me dar datas e pormenores.(ver nota 1)

Comecei a escrever quando era muito jovem — onze, creio. As razões são obscuras. Poderia dizer que foi o resultado de um impulso irracional, mas isto indicaria que apenas não poderia pensar em nenhuma razão.

Talvez foi porque eu era um leitor ávido numa família que era pobre demais para comprar livros, mesmo os mais baratos, além do que, uma família que considerava livros baratos, leitura inadequada. Eu precisava ir à biblioteca (meu primeiro cartão de biblioteca foi tirado para mim por meu pai, quando eu tinha seis anos de idade) e me permitia dois livros por semana.

Isto simplesmente não era suficiente, e minhas necessidades levaram-me a extremos. No começo de cada período letivo, avidamente lia todo livro escolar que era adotado, indo de capa a capa, como uma deflagração personificada. Como fui abençoado com uma memória tenaz e lembrança instantânea, era todo o estudo que eu tinha de fazer para aquele período letivo, mas eu já tinha acabado antes do fim da semana, e então, ler o
quê?

Então, quando eu tinha onze anos, ocorreu-me que se eu escrevesse meus próprios livros, poderia relê-los a meu bel-prazer. Nunca realmente escrevi um livro inteiro, claro. Eu começava um e continuava mexendo com ele até que me cansava e começava outro.

Todos estes escritos iniciais foram-se para sempre, embora ainda me lembre de alguns pormenores bem claramente.

Na primavera de 1934, fiz um curso especial de inglês dado na minha escola (“Boys’ High School, no Brooklyn, Nova Iorque), que enfatizava o aspecto da redação. O professor era também conselheiro da faculdade para a revista literária semestral feita pelos estudantes, e era intenção dele coletar material.
Fiz aquele curso.

Foi uma experiência humilhante. Tinha catorze anos na época, catorze anos bastante imaturos e inocentes. Escrevia trivialidades, enquanto que todo mundo na classe (que eram dezesseis ao todo) escreviam peças sofisticadas, de tom trágico. Todos eles não faziam segredo de seu particular desprezo por mim, e não obstante eu me ressentisse disto amargamente, não havia nada que eu pudesse fazer.

Por um momento, pensei que os vencera, quando uma de; minhas produções foi aceita para a revista semestral, ao passo que muitas das deles foram rejeitadas. Infelizmente, o professor contou-me, com uma rude insensibilidade, que a minha era a única apresentada que era humorística, e como ele precisava ter uma peça não-trágica, foi forçado a tomá-la.

Era chamada “Irmãozinhos” (“Little Brothers”), tratando do nascimento de meu próprio irmão mais novo, havia cinco anos, e foi minha primeira peça publicada. Suponho que pode ser localizada nos arquivos da “Boys’ High”, mas eu não a tenho. Por vezes imagino o que aconteceu com todos aqueles grandes escritores trágicos da classe. Não me lembro de um só nome e não tenho intenção de jamais tentar descobrilos — mas por vezes, fico pensando.

Apenas em 29 de maio de 1937 (de acordo com uma data que, uma vez anotei — se bem que foi antes que começasse meu diário, de modo que não tenho certeza), que a vaga idéia ocorreu-me de escrever algo para publicação profissional; algo pelo que seria pago!

Naturalmente, teria que ser uma história de ficção científica, pois eu tinha sido um fanático da ficção científica desde 1929, e não reconhecia nenhuma outra forma de literatura que de qualquer modo fosse digna de meus esforços.

A história que comecei a compor para este fim, a primeira história que jamais escrevera com o fito de me tornar um “escritor”, era intitulada “Saca-rolha Cósmico” (“Cosmic Corkscrew”).

Nela, eu via o tempo como uma hélice (isto é, algo como uma mola de cama).

Poder-se-ia cortá-la de uma volta diretamente para a próxima, assim movendo-se para o futuro por um exato intervalo, mas sendo incapaz de viajar um dia a menos no futuro.

Meu protagonista cortou o tempo e descobriu a Terra deserta. Toda a vida animal havia desaparecido; se bem que havia sinais de que a vida existira até muito tempo antes — e nenhuma indicação do que havia causado o desaparecimento. Era narrada na primeira pessoa, num asilo de loucos, porque o narrador, claro, fora colocado num hospício depois de voltar e tentar contar a história.

Escrevi apenas algumas páginas em 1937, então perdi o interesse, O mero fato de que tinha a publicação em mente, me paralisava. Enquanto algo que eu escrevia destinava-se apenas para meus olhos, podia ficar despreocupado. O pensamento de outros possíveis leitores pesava grandemente sobre cada uma de minhas palavras. — Então abandonei o projeto.

Então, em maio de 1938, a mais importante revista no campo, Astounding Science Fiction, mudou seu prazo de publicação da terceira quarta-feira do mês para a quarta sexta-feira.
Quando o número de junho não veio no seu dia de costume, fiquei deprimido.

A 17 de maio, não pude mais suportar, e tomei o metrô até o nº 79 da Sétima Avenida, onde a editora, Street & Smith Publications, inc, estava então localizada. Ali, um funcionário da firma informou-me da mudança de prazos, e a 19 de maio, chegou o número de junho. (ver nota 2)

A proximidade do desespero, e o alívio extático que se seguiu, reativaram meu desejo de escrever para publicação. Voltei a “Saca-rolha Cósmico”, e a 19 de junho, estava acabado.

A questão seguinte era: o que fazer com ele. Não tinha a menor idéia do que se fazia com um manuscrito que se desejava publicar, e tampouco quem eu conhecia. Discuti o assunto com meu pai, cujo conhecimento do mundo real era pouco maior do que o meu, e ele também não fazia idéia.

Mas então ocorreu-me que, no mês anterior, eu tinha ido até o nº 79 da Sétima Avenida meramente para perguntar sobre a não-aparição de Astounding. Não havia me dado conta de ter feito isso. Por que não repetir a viagem, então, e levar o manuscrito em pessoa?

A idéia era assustadora. Tornou-se ainda mais assustadora, quando meu pai sugeriu que preliminares necessárias incluíam a barba feita e minha melhor roupa. Isto significava que eu teria que gastar um tempo adicional, e o dia já estava acabando e eu teria que estar de volta para fazer a entrega dos jornais vespertinos. (Meu pai tinha uma doceira e uma banca de jornais, e a vida era muito complicada naqueles dias para um escritor criativo e de inclinação artística e sensível como eu.

Por exemplo, vivíamos num apartamento em que todos os quartos estavam alinhados, e o único modo de ir da sala de estar para o quarto de meus pais, ou de minha irmã, ou de meu irmão, era passando por meu quarto.

Meu quarto era freqüentemente passagem, e o fato de que eu poderia estar nas dores da criação, nada significava para ninguém.) Cheguei a um meio-termo. Fiz a barba, mas não me incomodei em trocar de roupa, e lá fui eu. A data era 21 de junho, 1938.

Eu estava convencido de que, por ousar pedir para ver o editor de Astounding Science Fiction, eu seria atirado fora do edifício, e meu manuscrito seria picotado e jogado atrás de mim, como confete. Meu pai, porém (que tinha ideais nobres) estava convencido de que um escritor — com o que ele significava qualquer um com um manuscrito — seria tratado com o respeito devido a um intelectual. Não tinha receios nenhum — mas era eu que ia entrar naquele edifício.

Tentando mascarar o pânico, pedi para ver o editor. A garota atrás da mesa (posso ver a cena agora com o olho de minha mente exatamente como ocorreu) falou brevemente ao telefone e disse: — “O sr. Campbell poderá vê-lo”.

Conduziu-me por uma sala grande, pomposa, cheia de grandes rolos de papel e enormes pilhas de revistas e permeada com o cheiro celestial de papel (cheiro que até hoje recorda minha juventude com dolorosa minúcia e reduzem-me a lágrimas de nostalgia). E ali, numa pequena sala do outro lado, estava o sr. Campbell.

John Wood Campbell Jr. estava trabalhando para Street &Smith já há um ano, e tomara o comando de Astounding Stories (que logo rebatizou como Astounding Science Fiction), havia quase dois meses.

Tinha então apenas vinte e oito anos. Sob seu próprio nome e seu pseudônimo, Don A. Stuart, era um dos mais famosos e altamente considerados autores de ficção científica, mas estava para enterrar sua reputação para sempre sob o renome muito maior que estava para ganhar como editor.

Deveria permanecer como editor de Astounding Science Fiction e de seu sucessor — “Analog Science Fact— Science Fiction por um terço de século. Durante todo esse tempo, ele e eu permanecemos amigos, mas por mais velho que eu ficasse, e por mais venerável e respeitável astro de nosso campo mútuo eu me tornasse, nunca me aproximei dele com nada senão o respeito que ele me inspirou na ocasião de nosso primeiro encontro.

Ele era um homem grande, e obstinado, que fumava e falava constantemente, e que apreciava, acima de tudo, a criação de idéias ultrajantes, com que agredia seu interlocutor, e desafiava-o a refutar. Era difícil refutar Campbell, mesmo quando suas idéias eram absoluta e loucamente ilógicas.

Conversamos por mais de uma hora, naquela primeira vez. Ele mostrou-me os próximos números da revista (números verdadeiramente futuros, já produzidos). Vi que ele publicara uma de minhas cartas no número seguinte, e outra no próximo — de modo que conhecia a genuinidade de meu interesse.

Contou-me a respeito dele mesmo, sobre seu pseudônimo e sobre as suas opiniões.

Contou-me que seu pai havia enviado um de seus manuscritos para Amazing Stories quando tinha dezessete anos, e que deveria ser publicado, mas a revista o perdeu, e ele não tinha cópia em carbono. (Neste ponto, fiz melhor do que ele. Trouxe a história eu mesmo, e tinha um carbono.) Também prometeu ler minha estória naquela noite, e enviaria uma carta, quer aceitando ou rejeitando, no dia seguinte. Prometeu também que em caso de rejeição, diria o que estava errado, de modo que eu pudesse me aperfeiçoar.

Cumpriu todas as promessas. Dois dias mais tarde, a 23 de junho, tive notícias dele. Era uma rejeição.

(Como este livro trata de eventos reais, e não é uma fantasia — você não deve se surpreender se minha primeira história foi instantaneamente rejeitada.)

Eis o que eu disse no meu diário sobre a rejeição: “As 9:30 recebi de volta o “Saca-rolha Cósmico”, com uma educada carta de rejeição. Ele não gostou do começo lento, e do suicídio no final.”

Campbell também não gostara da narrativa na primeira pessoa e do diálogo rígido,e também apontou que a extensão (nove mil palavras) era inconveniente — muito longo para um conto, e muito curto para uma novela. As revistas precisam ser montadas como quebra-cabeças, e certos comprimentos de contos eram mais convenientes que outros.

Por aquela época, porém, estava em plena euforia. A alegria de ter passado mais de uma hora com John Campbell, a emoção de conversar face a face em termos iguais com um ídolo, já tinha me enchido com a ambição de escrever outra história de ficção científica, melhor que a primeira, de modo que pudesse consultá-lo de novo. A agradável carta de rejeição — duas páginas inteiras — em que discutia minha história seriamente e sem traços de paternalismo ou desprezo, reforçou minha alegria. Antes de 23 de junho terminar, estava a meio caminho do primeiro esboço de outra história.

Muitos anos mais tarde, perguntei a Campbell (com quem, então, tinha travado grande amizade) por que ele havia se ocupado de mim, já que aquela primeira história era literalmente intragável.

“Realmente era”, disse, francamente, pois nunca adulava. “Por outro lado, eu vi algo em você. Você estava ansioso e escutava, e sabia que não desistiria, não importando quantas rejeições eu lhe desse. Enquanto você estivesse desejoso de trabalhar duro e aperfeiçoar-se, eu estava pronto a trabalhar com você.”

E assim era John. Eu não era o único escritor, calouro ou veterano, com quem ele trabalhava deste modo. Pacientemente, e com sua enorme vitalidade e talento, construiu um corpo dos melhores escritores de ficção científica que o mundo tinha, até então,jamais visto.

O que aconteceu a “Saca-rolha Cósmico” depois disto, sinceramente, não me lembro. Abandonei-a e nunca a apresentei em nenhum outro lugar. De fato, não a rasguei e joguei fora; simplesmente repousou em alguma gaveta de escrivaninha, até que, eventualmente, a perdi de vista. Em qualquer caso, não mais existe.

Esta parece ser uma das principais fontes de desconforto entre os arquivistas — parecem pensar que a primeira história que escrevi para publicar, por pior que fosse, seria um importante documento. Tudo o que posso dizer, amigos, é que sinto muito, mas não havia modo de saber, em 1938, que minha primeira tentativa pudesse ter interesse histórico algum dia.

Posso ser um monstro de vaidade e arrogância, mas não sou tão monstruosamente vaidoso e arrogante.

Além do que, antes de terminar o mês, eu terminava minha segunda história,“Clandestino” (“Stowaway”), e estava concentrado nela.Levei-a ao escritório de Campbell a 18 de.julho de 1938, e ele apenas demorou-se um pouquinho mais para devolvê-la, mas a rejeição veio a 22 de julho.

Disse em meu diário, quanto à carta que a acompanhava: “... foi a rejeição mais simpática que se possa imaginar.

Realmente, a melhor coisa depois de ser aceita. Disse-me que a idéia era boa, e o enredo, passável. O diálogo e a movimentação, continuava, não eram rígidos e lentos (o que foi uma agradável surpresa para mim) e que não havia nenhum erro em particular, mas apenas um ar geral de amadorismo, constrangimento forçado. A história não se desenvolvia suavemente. Isto, ele disse, eu superaria assim que tivesse experiência suficiente. Assegurou-me que eu provavelmente estaria apto a vender minhas histórias, mas isto significava talvez trabalho de um ano e uma dúzia de histórias antes de começar realmente...”

Não é de surpreender que tal “carta de rejeição” mantivesse-me carregado com um enorme entusiasmo para escrever, e logo pus-me a trabalhar numa terceira história.

Além disso, eu estava suficientemente encorajado a tentar submeter “Clandestino” a alguém mais. Naqueles dias, havia três revistas de ficção científica nas bancas.

Astounding era a aristocrata delas, mensal, com os cantos encurvados, e uma aparência de classe. As outras duas, Amazing Stories e Thrilling Wonder Stories eram um tanto mais primitivas na aparência e publicava histórias com mais ação e enredos menos sofisticados.

Enviei “Clandestino” a Thrilling Wonder Stories, que, porém, rejeitou-a prontamente a 9 de agosto de 1938 (com uma carta impressa). A estas alturas, porém, eu estava profundamente engajado com minha terceira história, a qual, como veio a ser, estava fadada a se sair melhor— e mais depressa. Neste livro, no entanto, estou incluindo minhas histórias não na ordem de publicação, mas na de redação — que, presumo, é mais significativo do ponto de vista do desenvolvimento literário. Tratarei, portanto, de “Clandestino”.

No verão de 1939, no tempo em que obtive meus primeiros poucos sucessos, retomei a “Clandestino”, remodelei-o, e tentei Thrihing Wonder Stories de novo. Indubitavelmente, eu tinha uma leve suspeita de que o novo lustro de meu nome faria com que lessem-no com uma atitude diferente do que havia sido o caso quando eu era completamente desconhecido. Estava completamente errado. Fui rejeitado de novo.

Então tentei Amazing, e, de novo, foi rejeitada.

Isto significaVa que a história tinha morrido, ou teria significado, se não fosse o fato de que a ficção científica estava entrando numa pequena expansão, ao aproximar-se o fim da década de 30. Novas revistas estavam sendo fundadas, e pelo fim de 1939, planos foram feitos para publicar uma revista a ser chamada Astonishing Stories que era vendida a dez centavos (Astounding custava vinte centavos o exemplar).

A nova revista, juntamente com uma revista-irmã, Super Science Stories, seria editada com grandes dificuldades por um jovem fã da ficção científica, Frederik Pohl, que estava completando vinte anos (era um mês mais velho do que eu) e que, desta forma, fazia sua entrada no que viria a ser uma marcante carreira profissional na ficção científica.

Pohl era um rapaz magro, de voz suave, com o cabelo já escasseando, um rosto solene, e seus dentes se projetavam ao sorrir, dando-lhe um aspecto de coelho. Os fatos econômicos de sua vida mantinham-no afastado da escola, mas ele era muito mais brilhante (e sabia disso) do que qualquer graduado que já encontrei.

Pohl era amigo meu (e ainda é) e talvez tenha feito mais para me ajudar a começar a minha carreira literária do que ninguém exceto, claro, o próprio Campbell. íamos juntos às reuniões do fã-clube. Ele tinha lido meus manuscritos e gostara deles — e agora precisava de histórias depressa — e a preço baixo para suas novas revistas.

Pediu para ver meus manuscritos de novo. Começou escolhendo uma de minhas histórias para seu primeiro número. A 17 de novembro de 1939, quase um ano e meio depois de “Clandestino” ter sido escrito, Pohl selecionou-a para inclui-lo em seu segundo número de Astonishing. Era um inveterado trocador de títulos, porém, e colocou “A Ameaça de Calisto” na história, e foi assim que foi publicada.

Notas
1- O diário começou com o tipo de coisa que um adolescente escreveria, mas logo degenerou num tom simples de registro literário. E, para qualquer um que não eu, literalmente entediante tanto, de fato, que deixo-o para quem quer que o queira ler. Ninguém nunca lê mais do que duas paginas. Ocasionalmente alguém me pergunta se nunca senti que meu diário deveria registrar meus sentimentos mais íntimos, e emoções, e minha resposta é sempre “Não, nunca!” Afinar, para que ser um escritor se vou desperdiçar meus sentimentos e emoções mais íntimos num mero diário
2- Contei esta história com com alguma minúcia num artigo intitulado “Retrato do Escritor enquanto Rapaz”, incluído no Capítulo 17 de meu livro de ensaios, "Ciência, Números e EU". Nele, confiando apenas na memória, disse que tinha chamado Street & Smith ao telefone. Quando consultei meu diário para verificar as datas reais para este livro, fiquei surpreso ao descobrir que realmente havia feito a viagem de metrô — realmente uma aventura ousada para mim naqueles dias, e uma medida de meu desespero


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quarta-feira, 23 de junho de 2010

O Planeta Duplo - Jack Vance


As montanhas Marcativas, entre Fantaeria e Djanad, ao se estenderem para oeste, formam Clarim — uma terra árida, improdutiva e pouco povoada, ainda que, em proporção aos seus recursos, não menos apinhada de gente que a própria Fantaeria.

A extremidade noroeste de Clarim, estendendo-se do cabo Junção até as colinas de Alvião, constituía o território Droad, cuja posse pertencia a Benruth, o Droad da Casa Droad e primeiro da parentela.

Em virtude das rígidas leis de transmissão em Fantaeria, Trewe, o filho mais velho, entraria por fim na posse total da terra. Para Jubal, o segundo filho, o futuro não oferecia perspectivas tão otimistas.

Não obstante, abençoado com um corpo forte e ânimo confiante, Jubal passou uma infância agradável, animada com os banquetes semanais nos quais Benruth obsequiava a família Droad e celebrava a doce fugacidade da existência. Com freqüência, os banquetes tornavam-se tempestuosos. Certa vez, o que poderia ter sido apenas uma brincadeira pesada foi levado longe demais. Benruth bebeu de um frasco de vinho e caiu no chão com cãibras. De imediato, o irmão Vaidro meteu-lhe à força azeite e açúcar goela abaixo, golpeando-lhe em seguida a barriga até ele vomitar, infortunadamente sobre um inestimável tapete djan  , que passou a ostentar depois disso uma nódoa amarela.

Vaidro molhou a língua com uma gota do vinho de Benruth, provou e cuspiu. Não fez comentário; não era preciso.

Benruth sentiu dores por várias semanas, e a palidez persistiu por um ano. Concordaram todos em que a ocorrência transcendera qualquer definição razoável de humor. Quem tinha perpetrado a irresponsável façanha?

As pessoas presentes formavam a família imediata de Benruth: sua mulher Voira; Trewe, em companhia da jovem esposa Zonne e das filhas Merliew e Theodel; e Jubal. Ainda presentes estavam Vaidro; Cadmus de Droad, filho ilegítimo de Benruth com uma moça fantária da parentela Cargus, que passara sua Permissão no cabo Junção; e quatro outros da família Droad, incluindo um certo Rax, bem conhecido por suas gafes e conduta imoderada. Rax negou ser responsável por uma brincadeira tão brutal, mas seus protestos foram ouvidos em silêncio. Rax voltaria à Casa Droad uma única vez, para participar de eventos ainda mais funestos.

Depois disso, os banquetes de Benruth foram tanto menos freqüentes quanto mais contidos. Ele começou a definhar, a perder o cabelo, e morreu três anos após o envenenamento. Cadmus de Droad apareceu no funeral acompanhado de um tal Zochrey Cargus, fantário de expressão finória da cidade de Wysrod, que se apresentou como genealogista e árbitro de heranças litigiosas. Antes mesmo que o cadáver de Benruth tivesse sido deposto sobre a pira, Cadmus se adiantou para proclamar-se Droad da Casa Droad por direito de primogenitura. Zochrey Cargus, subindo no estrado funerário para conseguir um ângulo mais vantajoso, endossou a pretensão e citou inúmeros precedentes. Trewe e Jubal ergueram-se, chocados e estupefatos, mas Vaidro, sem alvoroço, fez sinal a alguns parentes, e Cadmus e Zochrey Cargus foram agarrados e empurrados de lá, Cadmus gritando e praguejando por sobre o ombro. Como Rax Droad, ele voltaria à Casa Droad uma única vez.

Trewe tornou-se o Droad da Casa Droad e Jubal foi seriamente forçado a refletir sobre o futuro. As opções não eram animadoras. Rejeitou de imediato a idéia de mourejar nas fábricas fantárias, mesmo que, como homem diligente e meticuloso, fosse capaz de impor-se no trabalho. Como clarímio, Jubal não poderia progredir nem na Patrulha Aérea nem na Milícia. A Marinha Espacial e o Serviço Salutar   estavam reservados aos descendentes das altas famílias fantárias e, por conseguinte, completamente fechados para ele. Os ofícios especializados não só exigiam anos de disciplina preparatória, como operavam distorções psicológicas sobre seus profissionais. Podia ficar na Casa Droad no posto de meirinho, pescador ou auxiliar de serviços gerais, uma vida não desprezível, mas inteiramente em desacordo com seu amor-próprio. Ele poderia singrar o Longo Oceano num palucho nacional   ou empreender o passo definitivo e irrevogável da emigração  . Cada possibilidade conduzia a becos igualmente sem saída. Impaciente e deprimido, Jubal saiu do país em Permissão.

Da Casa Droad, tomou a estrada que enovelava Goldwater Glen, através das colinas de Alvião, de través pelas Cinco Quedas e até o distrito de Isedel, descendo depois o vale do rio Grafa até Tissano, na costa. Aí ele ajudou a reparar a armação que sustentava uma passagem de pedestres, distribuindo estacas de cinqüenta pés por sobre as rentemarés  até a ilha da Roca Negra. Continuou o caminho leste ao longo da praia Larga, joeirando areia, queimando gravetos e sargaços secos; depois, voltando-se para o interior, percorreu o distrito Kroy, aparando sebes e limpando os prados da erva hariah. Em Zaim, para evitar a cidade de Wysrod, desviou-se para o sul, depois abriu caminho por Drune Tree e Famet.

Em Chilian, cortou árvores de especiarias caídas e trocou as toras com um mercador de madeiras de lei. Seguindo viagem para Athander, trabalhou um mês nas florestas, livrando as árvores dos saprófitos e da pestilência de micróbios e pragas rastejadoras. Passou outro mês consertando caminhos na Baixada Roxa, depois, tomando o rumo sul para as terras altas de Silviolo, chegou à Alta Estrada. Fez aí uma pausa para olhar longamente em ambas as direções. Para o leste, estendiam-se os vinhedos de Dorvolo e novos meses de perambulação. Para o oeste, o caminho galgava as Altas Marcativas, e, correndo paralelamente à fronteira Djanad, reconduzia a Clarim.

Melancolicamente, como se já estivesse entrando no outono da vida, Jubal voltou-se para o oeste.

A trilha levou-o para uma terra de brancos penhascos dolomitas, lagos claros refletindo o céu violeta, florestas de tirso, kil e diakapre. Jubal viajava lentamente, emendando o caminho, podando plantações de cardos, queimando meadas de feixes mortos de galharia. À noite, com medo de desgarrados  e rebentos venenosos, dormia nas estalagens da montanha , onde freqüentemente era o único hóspede.

Abriu caminho através da orla meridional dos distritos Kerkaddo e Lucan, e dirigiu-se para o distrito de Swaye. Agora, somente Isedel o separava de Clarim, e ele vagava cada vez mais pensativo. Chegando à aldeia de Ivo, foi para a Pousada do Fruto Selvagem. O estalajadeiro trabalhava no vestíbulo: um homem comprido, como se tivesse saído de um espelho cômico, impressão realçada pelo topete, que ele usava encerrado num cilindro bordado.

Jubal disse do que precisava; o hospedeiro indicou um corredor.
— A Câmara Ave Canora está pronta para ser ocupada. Jantamos ao segundo gongo; a taverna está à sua disposição até meio serão.

Ele examinou o cabelo cor de poeira de Jubal e logo esfriou:
— Você parece clarímio, e está tudo muito bem, desde que contenha o caráter brigão e não desafie ninguém para provas de coragem ou capacidade.
— O senhor tem uma curiosa opinião sobre os clarímios — disse Jubal.
— Pelo contrário! — afirmou o estalajadeiro. — Se você é corajoso, não está certo o que eu falei?
— Não pretendo lançar desafios — disse Jubal. — Não me interesso por política. Bebo com moderação.
Estou cansado e pretendo me retirar logo após o jantar.

O estalajadeiro balançou a cabeça em sinal de aprovação.
— Muitos o considerariam uma companhia sem graça, mas eu não! Além disso, o fiscal saiu agora mesmo; encontrou uma barata na cozinha e estou farto de arengas.

Pegou um caneco de cerveja, que colocou diante de Jubal, depois tirou outro para si.
— Para relaxar nossos nervos.

Inclinando a cabeça para trás, despejou a cerveja dentro da boca. Jubal contemplou-o, fascinado. As faces cavadas permaneceram cavadas; a garganta ossuda não tremeu nem vibrou. A cerveja desapareceu como se derramada por um poço abaixo. O estalajadeiro largou o caneco e fez uma melancólica inspeção em Jubal.
— Você está viajando em Permissão, então?
— Estou perto de chegar ao fim.
— Eu sairia outra vez amanhã, se minhas pernas agüentassem. Ai de mim, que não se pode ser jovem para sempre! Que novidades soube pelo caminho?
— Nada de importante. Em Lurlock, eles se queixavam da demora das chuvas de verão.
— Imagine você os caprichos da natureza! Semana passada, apanhamos um aguaceiro que destruiu todos os nossos bueiros. O que mais?
— Um desgarrado, em Faneel, matou duas mulheres com uma machadinha. Fugiu para Djanad, nem meia hora antes de minha passagem.
— Djanad está perto demais para nos sentirmos seguros.

O hospedeiro ergueu o braço e apontou um dedo comprido:
— São apenas sete milhas até a divisa! Cada dia, ouço um novo rumor. Djanad não é uma terra tranqüila, como gostaríamos de acreditar! Já pensou que eles são vinte para cada um dos nossos? Se todos fossem "solitários" em conjunto, seríamos carne-seca em poucas horas. E não é falta de sensibilidade o que os faz desistir... Não se deixe enganar pela cortesia deles.
— Mas eles seguem os outros — disse Jubal. — Nunca tomam a dianteira.
— Olhe lá longe! — disse o estalajadeiro, apontando através do batente da janela para a massa monstruosa de Skay. — Há os líderes! Eles descem em espaçonaves, aterrissam praticamente em nossas fronteiras. Eu considero isso uma clara provocação.
— Espaçonaves? — perguntou Jubal. — O senhor as viu?
— Meu djan me traz notícias.
— O djan lhe dirá o que muito bem entender.
— Até certo ponto. Eles são confusos, concordo, e levianos também, mas não são dados a fantasias inventivas.
— Não podemos controlar os saidaneses. Se resolveram visitar Djanad, como impedi-los?
— Os servos devem ter tirado suas conclusões — disse o estalajadeiro — e eles não vieram me avisar de nada. Quer mais cerveja? Ou já está pronto para o jantar?

Jubal jantou, e depois, por falta de melhor entretenimento, foi para a cama.

A manhã estava luminosa, brilhante. Partindo da estalagem, Jubal atingiu uma terra de reluzentes penhascos brancos e ar fresco com aroma de tirso umedecido e garoa. Duas milhas a oeste de Ivo, na encosta meridional do monte da Alface Brava, a trilha chegou ao fim, varrida por um deslizamento de pedra.
Jubal inspecionou o estrago, depois voltou para Ivo. Lá, recrutou três djans, tomou ferramentas emprestadas ao feitor e, voltando ao monte, pôs-se a trabalhar.

Não se tinha encarregado de tarefa banal. Um muro de sustentação, de pedras irregulares encaixadas umas nas outras, do comprimento de setenta pés com cinco a dez pés de altura, fora arrastado trezentos pés ladeira abaixo e se reduzira a uma pilha de pedras pontiagudas.

Jubal pôs os djans trabalhando num novo alicerce, depois cortou quatro tirsos retos, com os quais construiu um guindaste grosseiro, pendendo sobre o barranco. Depois que o alicerce foi cavado, os quatro homens levaram pedras para o declive e começaram um novo muro.



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terça-feira, 22 de junho de 2010

Os Guardiões do Tempo - Poul Anderson



PRECISA-SE DE HOMENS - 21-40, pref. solteiro, exp. milit. ou téc, bom físico, para trabalho bem pago com viagens ao exterior. Engineering Studies Co., 305 E. 45, 9-12 & 2-6.


- O trabalho é, bem, o senhor entende, um tanto incomum - disse o senhor Gordon. - E confidencial. Acredito que o senhor possa guardar um segredo, não?
- Normalmente, sim - disse Manse Everard. - Depende do que consiste o segredo, claro.

O senhor Gordon sorriu. Foi um sorriso curioso, uma curva fechada dos seus lábios, que em nada se parecia com o que Everard já havia visto antes. Ele falava tranqüilo o americano coloquial do povo e trajava um terno simples, mas havia algo estranho nele, algo que era mais do que tez escura, as faces imberbes e a incongruência dos olhos mongóis sobre um fino nariz caucasiano. Era difícil de definir.

- Nós não somos espiões, se é o que o senhor está pensando - disse ele.
Everard sorriu malicioso.
- Perdão. Por favor, não pense que fiquei tão histérico quanto o resto do país. Em todo caso, nunca tive acesso a informações confidenciais. Mas seu anúncio classificado mencionava operações além-mar e pelo jeito das coisas... eu gostaria de conservar o meu passaporte, o senhor compreende.
Ele era um homem corpulento, com ombros atarracados e um rosto ligeiramente esgotado sob cabelos castanhos, cortados curtos. Seus documentos estavam diante dele: baixa do Exército, e registro de trabalho em diversos lugares como engenheiro mecânico. O senhor Gordon parecera mal ter passado os olhos por eles.

O escritório era comum, uma escrivaninha e um par de cadeiras, um arquivo e uma porta dando para os fundos. Uma janela abria-se para o barulhento tráfego de Nova York, seis andares abaixo.
- Espírito independente - disse o homem atrás da escrivaninha. - Gosto disso. Alguns entram aqui bajulando, como se tivessem que sentir-se agradecidos por um pontapé no traseiro. Naturalmente que, com sua experiência, você ainda não está desesperado. Você ainda pode trabalhar, até mesmo em... ah, acredito que o termo corrente é reajustamento de rodízio.
- Eu estava interessado - disse Everard. - Já andei trabalhando no estrangeiro, como o senhor pode ver, e gostaria de viajar de novo. Mas, francamente, eu ainda não tenho a menor idéia do que a sua equipe de trabalho faz.
- Fazemos muitas coisas - disse o senhor Gordon. - Deixe-me ver... você já esteve em combate. França e Alemanha. - Everard pestanejou; seus documentos incluíam anotações sobre medalhas, mas ele seria capaz de jurar que o homem não havia tido tempo para lê-las. - Hum... você se importaria em apertar esses botões nos braços de sua cadeira? Obrigado. E agora, como você reage aos perigos físicos?
Everard eriçou-se.
- Olha aqui...

Os olhos do Sr. Gordon desviaram-se para um instrumento em sua escrivaninha: era apenas uma caixa com uma agulha indicativa e um par de mostradores.
- Não tem importância. Qual a sua opinião sobre o internacionalismo?
- Olha, agora...
- Comunismo? Fascismo? Mulheres? Suas ambições pessoais...? Isso é tudo. Você não precisa responder.
- Mas que diabo é isto? - vociferou Everard.
- Um pouco de teste psicológico. Esqueça! Não tenho interesse em suas opiniões, exceto quando elas refletem uma orientação emocional básica. - O Sr. Gordon recostou-se no espaldar da cadeira, formando uma ponte com os dedos. - Muito prometedor, até aqui. Bem, agora vamos ao esquema da coisa. Estamos realizando um trabalho, como eu já lhe disse, altamente confidencial. Nós... ah... estamos planejando uma surpresa para nossos competidores - ele deu uma gargalhada. - Vá em frente e apresente-me ao FBI, se assim o desejar. Nós já fomos investigados e temos um atestado de saúde bem limpo. Você descobrirá que nós realizamos de fato operações financeiras e de engenharia pelo mundo inteiro. Mas há um outro aspecto do trabalho e este é o único para o qual estamos precisando de homens. Pagarei a você cem dólares para ir ao quarto dos fundos e realizar uma série de testes. Isso vai demorar cerca de três horas. Se você não passar, será o fim de tudo. Caso você passe, nós o contrataremos, diremos os fatos e começaremos o seu treinamento. Está pronto para o combate?

Everard hesitou. Tinha a sensação de estar sendo precipitado. Havia mais coisas naquele empreendimento do que um escritório e um desconhecido gentil. Entretanto...
Decisão.
- Assinarei o contrato depois que o senhor me tiver dito que negócio é esse.
- Como quiser - o Sr. Gordon encolheu os ombros com desdém. - Faça como você quiser. Os testes irão dizer se você passa ou não, você sabe. Nós usamos algumas técnicas muito avançadas.

Isto, pelo menos, era inteiramente verdadeiro. Everard conhecia um pouco sobre a psicologia moderna: encefalográficos, testes de associação, o perfil de Minnesota. Ele não reconheceu nenhuma das máquinas cobertas que zumbiam e piscavam em volta dele. As perguntas que o assistente - um homem de tez branca, completamente calvo, de idade indeterminada, com um sotaque carregado e sem nenhuma expressão facial - despejou em cima dele, pareciam irrelevantes para qualquer coisa. E que era aquele capacete metálico que ele presumia que usaria na cabeça? Aonde iriam os fios que dele saíam?

Ele lançou olhares furtivos para os medidores das faces, mas as letras e algarismos não se assemelhavam a nada que ele já houvesse visto antes. Não era inglês, francês, russo, grego, chinês, qualquer coisa que pertencesse a 1954 DC. Talvez ele já estivesse começando a compreender a verdade, mas mesmo neste caso...

Um estranho autoconhecimento florescia nele à medida que os testes seguiam. Manson Emmert Everard, 30 anos, ex-tenente do corpo de engenheiros do Exército dos EUA; experiência em projeto e produção na América, Suécia, Arábia; ainda solteiro, apesar de pensamentos de inveja crescente com relação aos amigos casados; nenhuma namorada atual, nenhum laço estreito de nenhum tipo; um pouco bibliófilo; um jogador de pôquer incorrigível; predileção por veleiros, cavalos e rifles; um aficionado de acampamentos e pescarias em épocas de férias. Ele já sabia disso tudo, naturalmente, mas apenas como fragmentos isolados da realidade.

Era bem peculiar aquela percepção súbita de si mesmo como um organismo integrado, a compreensão de que cada característica era uma única faceta inevitável de um modelo global.

Ele saiu exausto e ensopado de suor. O Sr. Gordon ofereceu-lhe um cigarro e lançou os olhos rapidamente sobre uma série de folhas em código que o assistente lhe deu. Vez por outra, ele resmungava uma frase:
- ... zete-20 cortical... avaliação indistinta aqui... reação psíquica à antitoxina... debilidade na coordenação central... - ele deixara escapar um sotaque, uma certa cadência e um tratamento de vogais, que em nada se assemelhavam com o que Everard já havia ouvido em sua longa experiência dos caminhos pelos quais o idioma inglês pode ser mutilado.

Passou-se meia hora antes que ele tornasse a levantar os olhos. Everard tornara-se inquieto, uma leve raiva mesclava-se ao tratamento descortês, mas o interesse manteve-o sentado calmamente. O Sr. Gordon deixou os dentes incrivelmente brancos reluzirem em um largo e satisfeito sorriso.

- Ah! Até que enfim. Você sabe que já fui obrigado a rejeitar vinte e quatro candidatos? Mas você servirá. Definitivamente, você serve.
- Servir para quê? - Everard inclinou-se para frente, consciente de que seu pulso se acelerava.
- Para a patrulha. Você será uma espécie de policial.
- É? Onde?
- Por toda parte. E a qualquer hora. Fique firme, isto será um choque. Você sabe, a nossa companhia, embora seja legalmente instituída, é apenas uma fachada e fonte de recursos. Nosso verdadeiro negócio é o patrulhamento do tempo.


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segunda-feira, 21 de junho de 2010

Um Estranho Numa Terra Estranha - Robert A. Heinlein



Era uma vez um marciano chamado Valentine Michael Smith.

A primeira expedição a Marte foi selecionada com base na teoria que considera que o maior perigo para o homem é o próprio homem.

Nessa época, oito anos terrenos após a fundação da primeira colônia humana na Lua, resolveu-se realizar uma viagem interplanetária feita por humanos em órbitas de queda livre: da Terra a Marte, duzentos e cinqüenta e oito dias para a viagem de ida, o mesmo para o regresso, mais quatrocentos e cinqüenta e cinco dias de espera em Marte, enquanto os planetas reocupavam lentamente as posições para a órbita de regresso.

Só reabastecendo-se numa estação espacial é que a nave Envoy poderia fazer a viagem. Depois de chegada a Marte poderia voltar — se não se esmagasse no solo, se encontrasse água para reabastecer os seus tanques de reação, se um sem-número de coisas não corresse mal.

Oito humanos, convivendo juntamente durante quase três anos terrestres, tinham de se dar muito melhor do que aquilo que é habitual nos humanos. Uma tripulação constituída apenas por homens foi vetada, por ser considerada pouco saudável e instável. Quatro casais casados foi considerado ótimo, se se conseguissem encontrar as especialidades requeridas em tal combinação.

A Universidade de Edimburgo, contratador principal, sub-contratou o Instituto de Estudos Sociais para selecionar a tripulação. Depois de pôr de lado numerosos voluntários, devido à sua idade, saúde, mentalidade, grau de instrução ou temperamento, o Instituto ficou com nove mil possíveis candidatos.

As especialidades requeridas eram: astro navegador, médico de clínica geral, cozinheiro, maquinista, comandante de nave, semântico, engenheiro químico, engenheiro eletrônico, físico, geólogo, bioquímico, biólogo, engenheiro atômico, fotógrafo, técnico de culturas hidropônicas, engenheiro de foguetes.

Havia centenas de possíveis combinações de oito voluntários possuindo estas especialidades; depois se transformaram em três combinações de casais — mas, em todos os três casos, os psicólogos que avaliavam os fatores de compatibilidade levaram as mãos à cabeça, horrorizados. O contratador principal sugeriu baixar o nível-padrão de compatibilidade; o Instituto ofereceu-se para devolver os seus parcos honorários.

Os computadores continuaram a rever os dados que se iam alterando devido a mortes, desistências, novos voluntários. O capitão Michael Brant, M. S., comodoro D. F. Reserve, piloto e veterano de trinta das viagens à Lua, levava uma certa vantagem no Instituto. Várias pessoas procuravam para ele nomes de mulheres solteiras que pudessem (juntamente com ele) completar uma tripulação, depois juntavam estes nomes ao dele e introduziam-nos nos computadores para determinar quando é que uma dessas combinações seria aceitável. Isto resultou no seu vôo para a Austrália para ir propor casamento à Dra. Winifred Cobum, uma solteirona nove anos mais velha do que ele.

Depois de se apagarem e acenderem muitas luzes e depois de muitos cartões emitidos pelas máquinas, encontrou-se uma tripulação:

Capitão Michael Brant, no comando: piloto, astro navegador, segundo-cozinheiro, segundo-fotógrafo, engenheiro de foguetes; Dra. Winifred Cobum, quarenta e um anos, semântica, enfermeira, oficial de armazém, historiadora; Sr. Francis X. Seeney, vinte e oito anos, oficial executivo, segundo-piloto, astro navegador, astrofísico, fotógrafo; Dra. Olga Kovalic Seeney, vinte e nove anos, cozinheira, bioquímica, técnica de culturas hidropônicas; Dr. Ward Smith, quarenta e cinco anos, físico e cirurgião, biólogo; Dra. Mary Jane Lyle Smith, vinte e seis anos, engenheira atômica e eletrônica e técnica de energia; Sr. Sergei Rimsky, trinta e cinco anos, engenheiro eletrônico, engenheiro químico, maquinista e operador dos instrumentos de bordo, criologista; Sra. Eleanora Alvarez Rimsky, trinta e dois anos, geóloga e selenóloga, técnica de culturas hidropônicas.

A tripulação possuía todas as especialidades requeridas, tendo algumas delas sido adquiridas através de um intenso treino durante as semanas que antecederam a partida.

Mas ainda mais importante que isso: eram mutuamente compatíveis.

O Envoy partiu. Durante as primeiras semanas os seus relatórios eram recolhidos por radiouvintes privados. À medida que os sinais se iam tornando mais fracos, eram retransmitidos pelos satélites terrestres.

A tripulação parecia saudável e bem disposta. As impigens eram a coisa mais grave que o Dr. Smith tinha de tratar: a tripulação estava habituada à queda livre e as drogas anti-náusea deixaram de ser necessárias a partir da primeira semana. Se o capitão Brant tinha problemas de disciplina, não os comunicava.

O Envoy atingiu uma órbita de estacionamento dentro da órbita de Fobos e passaram duas semanas em vigilância fotográfica.

Então o capitão Brant radio difundiu:

«Aterraremos amanhã a 1200 T. S. G. (Tempo sideral de Greenwich) ao sul do Lacus Soli.»

Não foi recebida mais nenhuma mensagem.



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