sábado, 31 de julho de 2010

O Caçador de Androídes - Philip K. Dick (parte 18)




DEPOIS, desfrutaram de um grande luxo: Rick mandou o serviço de quarto trazer café. Durante um longo tempo, permaneceu sentado na grande poltrona de folhagem verde, preta e dourada, bebericando o café e meditando sobre as horas seguintes.

Rachael, no banheiro, murmurava, cantarolava e chapinhava num banho quente de chuveiro.
— Você fez um bom negócio ao fazer aquele negócio — gritou ela, depois de fechar a água; pingando água, os cabelos amarrados num elástico, apareceu nua e rosada na porta do banheiro. — Nós, andróides, não podemos controlar nossas paixões físicas, sensuais. Você provavelmente sabia disso. Na minha opinião você se aproveitou de mim.— Ela, contudo, não parecia realmente zangada. Se alguma coisa, tornara-se alegre e certamente tão humana como qualquer moça que ele conhecera. — Temos, realmente, que ir pegar aqueles três andros hoje à noite?
— Temos — disse ele. — Dois que eu aposentarei; um que você aposentará. — Como dissera Rachael, o negócio fora feito.
Envolvendo-se numa grande toalha branca de banho, Rachael perguntou:
— Você gostou?
— Gostei.
— Você irá novamente para a cama com uma andróide?
— Se fosse jovem, e caso se parecesse com você.
— Sabe qual é — perguntou Rachael — a esperança de vida de uma robô humanóide como eu? Eu existo há dois anos. Quantos anos mais você calcula que eu disponho?
Depois de hesitar por um instante, ele respondeu:
— Mais ou menos mais dois anos.
— Eles nunca puderam solucionar esse problema. Quero dizer, a substituição de células. A renovação perpétua ou, de qualquer modo, semi-perpétua. Bem, é isso aí. — Vigorosamente, começou a enxugar-se. Seu rosto tornou-se inexpressivo.
— Sinto muito — disse Rick.
— Bolas — disse Rachael —, estou arrependida de ter mencionado isso. De qualquer modo, evita que seres humanos fujam para ir viver com um andróide.
— E isso é verdade também com os tipos Nexus-6?
— É o metabolismo. Não a unidade cerebral.
Saiu do banheiro, vestiu a calcinha e começou a se preparar.

Ele se vestiu também. Juntos, conversando pouco, subiram para o campo do telhado, onde seu hovercar fora estacionado pelo agradável garagista humano, vestido de branco.
No momento em que tomavam a direção dos subúrbios de São Francisco, Rachael observou:
— Está fazendo uma noite agradável.
— A esta hora, minha cabra provavelmente está dormindo — respondeu ele. — Ou talvez caprinos sejam animais noturnos. Alguns animais jamais dormem. Ovelhas, nunca, não que eu pudesse ver. Todas as vezes em que olhamos para elas, estão olhando para a gente.
— Que tipo de esposa você tem?
Ele não respondeu.
— Você...
— Se você não fosse uma andróide — interrompeu-a Rick —, se eu pudesse; legalmente, me casar com você, eu casaria.
— Ou poderíamos viver em pecado, exceto que eu não sou viva — observou Rachael.
— Legalmente, não é. Mas é, realmente. Biologicamente. Você não é feita de circuitos transistorizados, como um falso animal. Você é uma entidade orgânica. — E em dois anos pensou, você se desgastará e morrerá. Porque nós nunca solucionamos o problema da substituição das células, conforme você mesma disse. Assim, acho que não importa, de qualquer maneira.

Este é o meu fim, disse a si mesmo. Como caçador de cabeças a prêmio. Depois dos Batys, nenhum mais. Não depois disto, desta noite.
— Você parece tão triste — observou Rachael.
Estendendo a mão, ele tocou-lhe o rosto.
— Você não vai ser mais capaz de caçar andróides — disse ela, calma. — Assim, não fique triste. Por favor.
Ele olhou-a fixamente.
— Nenhum caçador de cabeças continuou — disse Rachael —, depois de ter estado comigo. Exceto um. Um homem muito cínico. Phil Resch. E ele é doido. Trabalha num campo só seu.
— Compreendo — disse Rick. Sentia-se embotado. Inteiramente. O corpo todo.
— Mas esta viagem que estamos fazendo — disse Rachael — não será desperdiçada porque você vai conhecer um homem maravilhoso, espiritual.
— Roy Baty — disse ele. — Conhece todos eles?
— Conheci-os a todos, quando eles ainda existiam. Conheço três, agora. Tentamos detê-lo esta manhã, antes de você começar a trabalhar com a lista de Dave Holden. Eu tentei novamente, pouco antes de Polokov encontrar você. Mas, depois disso, tive que esperar.
— Até que eu pifasse — sugeriu ele. — E tivesse que chamá-la.
— Luba Luft e eu fomos amigas muito íntimas durante quase dois anos. O que você pensava dela? Gostava dela?
— Gostei dela.
— Mas matou-a.
— Phil Resch matou-a.
— Oh, então Phil acompanhou-o de volta até a Casa da Ópera, Nós não sabíamos disso. Nosso sistema de comunicações pifou, mais ou menos nessa ocasião. Sabíamos apenas que ela fora morta. Naturalmente, presumimos que por você.
— Com base nas notas de Dave — observou Rick —, acho que posso ainda continuar e aposentar Roy Baty. Mas talvez não Irmgard Baty. — E não Pris Stratton, pensou. Mesmo agora; mesmo sabendo de tudo isto. — De modo que tudo o que aconteceu no hotel consistiu numa. .
— A empresa — explicou Rachael — queria pegar os caçadores de cabeças, daqui e da União Soviética. Isto parecia funcionar... por motivos que não conseguíamos compreender inteiramente. Nossas limitações, mais uma vez, acho.
— Duvido que funcione com tanta freqüência e tão bem como você diz — contestou ele, zangado.
— Mas funcionou com você.
— Isso é o que vamos ver.
— Eu já sei — declarou Rachael. — Quando vi aquela expressão em seu rosto, aquela mágoa. Eu procuro isso.
— Quantas vezes você fez isto?
— Não me lembro. Sete, oito. Não, acredito que é a nona. — Ela, ou melhor, a coisa, inclinou a cabeça. — Sim, nove vezes.
— Essa idéia é bem antiga — comentou Rick.
Sobressaltada, Rachael disse:
— O q-quê?
Empurrando o volante para a frente, Rick colocou o carro em planeio de descida.
— Ou, de qualquer modo, é assim que me parece. Vou matá-la — disse ele. — E, depois, vou pegar Roy e Irmgard Baty, e Pris Stratton, sozinho.
— E por isso que você está pousando? — Apreensiva, acrescentou: — Há uma muita. Eu sou propriedade, propriedade legal, da empresa. Não sou um andróide que está aqui fugido de Marte Não estou na mesma classe que os outros.
— Mas — disse ele —. se eu puder matá-la, posso matar os outros também.
As mãos delas mergulharam na bolsa volumosa, inchada, cheia de entulho. Procurou frenética e, em seguida, desistiu.
— Droga de bolsa — disse feroz. — Jamais consigo encontrar coisa alguma nela. Você me matará de uma maneira que não doa? Quero dizer, faça isso com cuidado. Se eu não resistir, certo? Prometo não lutar. Concorda?
— Eu agora compreendo por que Phil Resch disse aquilo — observou Rick. — Ele não estava sendo cínico. Simplesmente aprendera demais. Tendo passado por isto... Simplesmente, não posso censurá-lo. A experiência deformou-o.
— Mas da maneira errada. — Nesse momento, externamente, ela parecia mais controlada. Mas continuava basicamente agitada, tensa. Ainda assim, aquele fogo sombrio desaparecera e a força da vida escoava-se dela, como ele, com tanta freqüência, observara nos casos de outros andróides. A clássica resignação. Aceitação mecânica, intelectual, daquilo com que um organismo autêntico — com dois bilhões de anos de pressão para viver e desenvolver o desejo de viver — jamais se reconciliaria.
— Eu não posso agüentar a maneira como vocês, andróides, desistem de tudo — disse ele selvagemente. Nesse momento o carro quase tocava o chão. Ele teve que puxar para cima o volante a fim de evitar um desastre. Freando, conseguiu pará-lo, sacudindo-se todo e derrapando. Desligou com um repelão o motor e sacou o tubo de laser.
— No osso occipital, na base de meu crânio — disse Rachael. — Por favor. — Virou-se, de modo que não veria o tubo de laser. O feixe penetraria sem que ela o percebesse.
Guardando o tubo, Rick disse:
— Não posso fazer o que Phil Resch aconselhou. — Religou o motor e, um momento depois, subiam aos ares.
— Se você algum dia vai fazer isto — pediu Rachael —, faça-o agora. Não me faça esperar.
— Eu não vou matá-la. — Mais uma vez, embicou o carro na direção do centro de São Francisco. — Seu carro está no St. Francis, não? Vou deixá-la saltar lá, e você pode voltar para Seattle. — Com estas palavras, acabou o que tinha a dizer. Continuou a dirigir em silêncio.
— Obrigada por não ter me matado — disse logo Rachael.
— Bolas, como você disse, de qualquer modo você só tem dois anos de vida. E eu tenho cinqüenta. Viverei vinte e cinco vezes mais do que você.
— Mas você realmente me censura — disse Rachael. — Pelo que fiz. — Voltara a tranqüilidade e a ladainha de sua voz ganhou velocidade. — Você se comportou da mesma maneira que os outros. Os caçadores de cabeças a prêmio, como você. Todas as vezes, ficam furiosos e falam em me matar, mas quando chega a hora, não conseguem. Exatamente como você, há pouco. — Acendeu um cigarro e tragou com prazer. — Você compreende o que isto significa, não? Significa que eu tinha razão. Você não conseguirá aposentar mais andróide algum. Não apenas eu, mas os Batys e Stratton, também. Assim, volte para casa e para sua cabra, E descanse um pouco. — Subitamente, bateu com força no casaco, violentamente. — Ai! Uma brasa do cigarro caiu aqui... apagou. — Recostou-se no assento, relaxando.
Ele permaneceu calado.
— Aquela cabra — disse Rachael —, você a ama mais do que a mim. Mais do que a sua esposa, provavelmente. Em primeiro lugar, a cabra, depois sua esposa e, por último ...— Riu alegre. — O que é que a gente pode fazer, senão rir?
Ele não respondeu. Continuara em silêncio durante algum tempo enquanto Rachael procurava e encontrava o rádio do carro, ligando-o,
— Desligue isso — ordenou Rick.
— Desligar Buster Amigão e seus Amicíssimos Amigos? Desligar Amanda Werner e Oscar Scruggs? Está na hora de ouvir a grande e sensacional denúncia de Buster, quase na hora, finalmente. — Inclinou-se para ver o mostrador do relógio à luz do rádio. — Daqui a pouco. Sabia a respeito disso? Ele vem falando no caso, preparando o ambiente para ele, para...

Nesse momento, do rádio partiu a voz:
"—... hei, eu quero falar com vocês, pessoal, estou aqui, sentado com meu amigão Buster, e estamos falando em ter um tempo realmente bom, esperando, ansiosos, que chegue a hora para o que, eu sei, será o anúncio mais importante do..."
Rick desligou o rádio.
— Oscar Scruggs — disse. — A voz de um homem inteligente.
Rachael religou o rádio no mesmo instante.
— Eu quero escutar. Pretendo escutar. Isto é importante, o que Buster Amigão tem a dizer em seu programa hoje à noite.

A voz idiota pairou outra vez no alto-falante e Rachael Rosen recostou-se, procurando uma posição confortável.
Ao lado de Rick, na escuridão, a brasa do cigarro dela brilhava como a traseira de um complacente vagalume: uma indicação regular, que não tremia, do sucesso de Rachael Rosen. Da vitória dela sobre ele.



O Caçador de Androídes - Philip K. Dick (parte 18) [ Download ]

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Fenda no Tempo - Gerald C, Izaguirre



A noite descia triste, chuvosa e escura, com nuvens negras que pressagiavam a continuação, ainda por algumas horas, de muita chuva. A água, rebrilhando no piso plástico da estrada que era iluminada pelo feixe de luz, à passagem do veículo, logo voltava ao seu negrume e à sua quietude.

O homem sentado à direção do veículo pensava qual seria a melhor forma de iniciar a inverossímil história que naquela noite deveria contar, já que não poderia ocultar por mais tempo toda aquela sucessão de fatos.

Precisava de alguém que o ouvisse, Que fosse suficientemente seu amigo e que nele acreditasse de forma a compartilhar daqueles estranhos acontecimentos, como também orientá-lo em alguns pontos que ainda permaneciam nebulosos em toda aquela trama.

Enfim, em poucos minutos estaria estacionando seu veículo, na moradia do Dr. Meilli, seu amigo de muitos anos, a quem relataria toda sua história.
Assim pensando, Cidhar Dim sentia-se um pouco mais calmo e confiante e por isso quando foi recebido por Meilli, sua fisionomia apresentava-se calma e sorridente.
O Dr. Meilli, encaminhando Cidhar para dentro do seu escritório, ia dizendo:
— Já estava imaginando que você cancelaria sua vinda, em virtude da chuva torrencial que neste momento desaba nesta região.
A resposta de Cidhar foi incisiva:
— Por nada deste mundo deixaria de vir hoje conversar com você, pois, tenho um relato muito importante a ser feito e que jamais poderia constar de qualquer relatório oficial da minha vida profissional.
— Se o assunto é tão sério assim pedirei que não nos interrompam, sob qualquer pretexto.

Nesse momento, o visio-comunicador emitiu o seu tic-tac característico durante alguns segundos e logo depois apareceu no vídeo do aparelho, o código de quem estava chamando. Imediatamente, pela lateral saiu uma tira de papel que foi cortada automaticamente. O Dr. Meilli, com um olhar significativo a Cidhar recolheu a ficha para ler seu conteúdo. Depois de um momento, disse a Cidhar:
— Tenho que atender, pois, trata-se do Prof. Luogui, do observatório astronômico Lunar; deve ser muito importante a sua comunicação, pois, para chegar até o meu visio-comunicador ele teve que usar um canal de satélite e um canal de uma estação terrena de recepção. Vou responder:

Manipulando dos botões do visio-comunicador, Meilli fez com que aparecesse no vídeo a fisionomia do prof. Luogui que foi logo dizendo:
— Suponho que você está sozinho no seu escritório, pois, o que tenho a dizer é altamente confidencial.
O Dr. Meilli não hesitou em dizer:
— Estou acompanhado de um alfa especial cujo nome é Cidhar Dim, do Instituto Eclético e agente do governo; se você desejar, ele deixará este escritório, enquanto estamos em comunicação.
— Conheço o nome desse agente, porém não o conheço pessoalmente; ele poderá ouvir nossa comunicação, desde que venha para frente do vídeo, pois, assim poderei identificá-lo em outra oportunidade.

Com um movimento de cabeça, Meilli convidou Cidhar a sentar-se ao seu lado, de forma a também ele aparecer no vídeo.
O prof. Luogui fixou longamente a fisionomia de Cidhar, como que procurando uma completa fixação mental da sua fisionomia e depois continuou dizendo:
— O que vou dizer é completamente confidencial e extraoficial, pois não consta — pelo menos por enquanto — em nenhum relatório oficial.

“Há quatro noites terrestres — aqui estamos completando a décima noite lunar — que estou a postos junto ao nosso computador para escuta extra-solar. Este é um trabalho de rotina e até cansativo, pois, o tempo passa e o terminal do computador permanece inativo através de meses e meses sem apresentar sequer uma novidade.
“Entretanto, há quatro noites e sempre à mesma hora ele sai da sua inatividade e vai imprimindo no papel uma série de letras que no final não compõem uma palavra sequer. A sensação que tenho é que um psicopata avariou nosso computador, fazendo uma estúpida brincadeira. O mais estranho é que quando pedi dados sobre a origem da mensagem e seu significado, o computador gravou no terminal que ainda não poderia fornecê-los por serem ainda muito imprecisos.”

Após uma pausa, continuou o Prof. Luogui:
— Você, Meilli, é o psicólogo do nosso departamento lunar e por isso lhe faço o meu apelo. Poderíamos ter um doente entre nós?
Enquanto o prof. Luogui fazia a sua explanação sobre os estranhos acontecimentos do observatório lunar, o Dr. Meilli procurava as fichas de saúde e dados psicoanalíticos das pessoas que tinham acesso ao computador ligado ao receptor sideral. Após alguns momentos, conseguia responder com segurança:
— As possibilidades de alguém introduzir no computador, dados extravagantes, é muitíssimo remota. Francamente não vejo condições — pelo menos nas fichas que tenho aqui presentes — de nenhum desses funcionários tomar uma iniciativa desse tipo. Creio, prof. Luogui, que os fatos devem ser encarados por outra ótica.
— Você está insinuando — respondeu Luogui — que o computador está realmente recebendo essas mensagens desconexas?
— Estou insinuando que as mentes dos seus funcionários não poderiam estar tão extraviadas ao ponto de avariar tão seriamente e conscientemente o seu computador. Você deverá procurar outras causas se não quer acreditar na realidade das mensagens.
Cidhar Dim, não podendo mais conter a sua impulsividade, interferiu no diálogo, dizendo:
— Suponha por um momento prof. Luogui — que o computador dentro de algumas horas possa fornecer dados que poderão ser preciosos para a solução ou decifração da mensagem recebida. Não seria de bom alvitre esperar essas informações?
— Bem, desde que o Dr. Meilli não vê possibilidade de avaria do computador, acho que só me resta esperar essas informações. Vou desligar.
— Espere — disse o Dr. Meilli — desejava pedir a você que mantenha contato comigo sobre o assunto e se a minha presença na Lua for necessária, pode chamar--me que irei imediatamente.
— Certo e desligo, disse o prof. Luogui.

Os dois amigos ficaram por um longo tempo, completamente absortos em seus próprios pensamentos. As afirmações do prof. Luogui eram muito estranhas e poderiam ter reais conotações com uma mensagem sideral enviada de algum longínquo planeta habitado por seres inteligentes. Por fim Cidhar quebrou o demorado silêncio:
— Porque não pensar que o Prof. Luogui tem em mãos uma mensagem inteligente, enviada de um planeta de outro sistema solar?
O Dr. Meilli respondeu:
— Você sempre foi daquele tipo verossímil, nunca admitindo teorias amalucadas; porque, de repente você admite uma possibilidade como essa?
— Por que o que eu tenho a contar a você, foge completamente à realidade e entretanto eu vivi tudo o que sucedeu...
— Desde alguns dias adquiri a certeza de que alguma coisa você tinha a dizer-me. É com relação à sua operação e à inexplicável inconsciência que durante horas o manteve em completa imobilidade corporal e mental?
— Sim, Meilli, exatamente sobre essas horas que me mantive inconsciente, que desejo falar ou melhor contar o que sucedeu...

Cidhar Dim continuou, narrando todos os acontecimentos que se sucederam durante o seu período de inconsciência. Dizer da estupefação do Dr. Meilli, seria pouco. Jamais poderia ele pensar que Cidhar passara todas aquelas horas com sua mente completamente ausente do seu corpo, vivendo uma assombrosa aventura, fora da Terra, usando apenas sua energia mental.

— Enfim, Meilli — continuou Cidhar — com todos esses acontecimentos, ficou provado que pode existir um espaço sem tempo e que a recíproca deverá ser verdadeira. Você imagina que se nós pudermos provar que podemos sobreviver no Tempo sem termos o Espaço circundante ou em outras palavras vivermos no Tempo e fora do Espaço, o campo que se abre para pesquisarmos o Passado e o Futuro, será inesgotável...
Meille interrompeu Cidhar perguntando:
— Você já fez alguma experiência com o intuito de novamente separar sua mente do seu corpo?
— Desde que sai do hospital, venho procurando diariamente entrar novamente em inconsciência e provocar essa separação, porém todos os meus esforços têm sido inúteis. Pensava contar com sua ajuda para tentar novas experiências. Talvez com sua ciência médica aliada ao meu esforço, consigamos obter um resultado satisfatório. Não sei como, mas acho que você pode ajudar.

Meilli ficou pensativo por um longo minuto. Sabia que não poderia recusar a Cidhar a ajuda que pedia, mesmo porque a pesquisa científica era sua própria razão de viver. Obviamente faria experiências com Cidhar, mas levaria algum tempo para equacionar o problema, estudando a melhor forma de enfrentá-lo.
— Bem, em princípio, não poderia recusar ajudá-lo, porque acredito na sua história e também porque o simples pensamento de pesquisar sobre o assunto me entusiasma. Ademais, ajudá-lo a repetir essa descorporização, e conseguí-la, será a única forma de provar a veracidade da sua história, para os descrentes.
— Quando começamos? perguntou Cidhar, com certa ansiedade no tom de voz.
Meilli, após alguns momentos de reflexão, respondeu:
— Nestes sábado e domingo, iremos para as montanhas, ao meu pavilhão de caça onde ficaremos completamente isolados e poderemos fazer algumas primeiras experiências; aliás, tenho lá, aparelhos eletrônicos de apoio à ciência médica que poderão ser úteis em certas circunstâncias. Você quer fazer alguma sugestão especial sobre o assunto?
— Não tenho muita certeza, respondeu Cidhar, mas, se tivéssemos algum tipo de anestésico semelhante ao que me foi ministrado na ocasião da operação, creio que poderia ser de alguma ajuda.
— Entendo, replicou Meilli, entrarei em contato com o seu médico anestesista e pedirei a ele a informação que desejamos. Você espera que com esse anestésico possa chegar a um tal ponto de inconsciência que lhe permita fazer sua mente flutuar fora da matéria?
— Talvez esse seja o caminho inicial, porém não o ideal, pois, essa qualidade, a meu ver, não deverá depender de agentes externos e sim, sua dependência necessariamente estará ligada ao meu estado de conciência e à minha vontade.

Durante um longo período ficaram ambos em completo silêncio, cada um raciocinando sobre a possibilidade de Cidhar poder contar em qualquer momento, com a prerrogativa de sua energia mental separar-se do seu corpo. Nenhum dos dois amigos sabia ainda como e para que empregar essa qualidade, pois, no momento estavam sendo levados pela curiosidade científica. O Dr. Meilli esperava que a psicologia pudesse alcançar uma nova fase criando uma nova Classe Alfa à qual seria ministrada a nova qualidade da mente desencorporada, desenvolvendo novos caminhos para a Civilização.

Cidhar Dim, engolfado em seus pensamentos, tentava imaginar uma viagem espacial com muitíssimos anos de duração, na qual seria usado o sistema de vida suspensa, após a libertação da energia mental, de cada uma das pessoas da tripulação; a matéria teria sua vida física suspensa, porém a mente, sendo pura energia continuaria vivendo, pensando, trabalhando e observando todo o tempo da viagem. Seria o guardião da sua própria vida, pois, teria sob sua própria responsabilidade, a vida do seu corpo. Durante uma viagem, fora do seu sistema solar, uma nave com sua estranha tripulação, poderia fazer todo o tipo de observação e trabalho desde que contasse com um equipamento adequado para ser comandado pela energia mental e não normalmente manipulado pelo homem. Sim, seria um grande passo para a exploração das estrelas mais próximas, ou seja, a libertação do homem, do seu sistema solar...

Repentinamente, o Dr. Meilli interrompendo a divagação de ambos, disse:
— Se você puder chegar ao ponto ideal de poder desprender-se do seu corpo, mentalmente, a humanidade dará novo passo para novas conquistas em todos os setores da atividade humana.
— Sim, temos que conseguir esse ponto ideal, Meilli, pois, não posso imaginar que para o resto da minha vida não entrarei mais em contato com Luzia, aquele ser maravilhoso do mundo do Poliedro.
— Realmente o relato que você fez daquele mundo, é impressionante e inverossímil. O simples fato da sua mente estar separada do seu corpo, cientificamente já é impossível, apesar de que teoricamente podemos admitir, se envolvermos um pouco de parapsicologia no assunto. Por outro lado creio que manter contato com os habitantes do mundo do Poliedro — e a única forma seria a separação do binômio mente-matéria — seria uma forma de enriquecer nossos conceitos filosóficos com injeção de pensamentos completamente alienígenas. Na verdade, as ciências humanas seriam engrandecidas a ponto, talvez, de modificar as conceituações do bem e do mal, legados por nossos antepassados do século XX, e até o momento não conseguimos transformações radicais das suas afirmações.
— Você realmente, disse Cidhar, é um verdadeiro soldado da nossa ciência mental, pois, já está pensando na possibilidade de mudar as regras do jogo psíquico aos quais a humanidade até hoje está atrelada...
Meilli com o olhar vago e a flutuar no espaço, disse:
— Se nós pudéssemos ensinar à humanidade que o bem não deve ser ligado, comparado ou equacionado com o mal, evidentemente estaríamos mudando as regras do jogo e faríamos deste planeta o tão sonhado lar paradisíaco.
— De qualquer forma se nós pelo menos conseguirmos comigo, a minha separação de mente-matéria, já teremos dado um grande passo a favor da ciência. Mas, voltando ao nosso fim de semana, vamos combinar a forma de chegar até lá.
— Naturalmente você virá também no meu aero-carro e para tanto, descerei no seu teto, às 18 horas. Não se preocupe com bagagem, pois, como você sabe, tenho suprimento para todas as nossas necessidades, naquele meu refúgio.
— Então, estamos combinados, disse Cidhar Dim, às 18 horas de sexta-feira, estarei pronto à sua espera. Até lá, não creio que nos possamos ver novamente, em pessoa, porém se qualquer novidade surgir nos veremos via visio-comunicador. Boa noite Meilli.

O Dr. Meili acompanhou Cidhar até o seu veículo que após alguns segundos desapareceu na noite brumosa e fria.


Fenda no Tempo - Gerald C. Izaguirre [ Download ]

quinta-feira, 29 de julho de 2010

As Exterminadoras - Edmundo Cooper



Estava uma linda manhã de Estio - perfeita para o Dia da Exterminação.

Rura tinha o carro flutuador a média elevação, para uma duração média de viagem, elementos que se adequavam quase exatamente aos escarpados vales de Cumberland. Cento e cinquenta quilômetros à hora, um metro acima do solo. Àquela velocidade não era provável ter quaisquer surpresas pelo caminho. Tinha muito tempo para chegar às Terras Altas da Escócia e fazer derramar sangue antes do anoitecer.
De qualquer modo, o detector de caça que girava preguiçosamente sobre a sua cabeça podia apontar a existência de alvos convenientes muito antes de chegarem às Terras Altas.

Alguns dos rebeldes aventuravam-se já a avançar para sul.
Rura estava cansada. Assim estavam, provavelmente, as suas companheiras, Moryn e Olane. A tradicional orgia da véspera da exterminação tinha este ano batido todos os recordes. Sem dúvida entraria para a história da Universidade como uma das maiores do século XXV. Rura lembrava-se ainda de ter feito amor com três moças.
Depois disso, as coisas tornavam-se confusas. Sabiam as deusas quantas moças a tinham então amado.
Agora, o carro flutuador sibilava ao longo da encosta de Windermere. A luz do Sol inclinava-se sobre os baldios, transformando montes, rochedos e charnecas em texturas de infinita beleza. Num dia destes... Num dia destes, pensou Rura, como era fastidioso ter de ir caçar homens e borrar-se no seu revoltante sangue. Mas a tradição era a tradição. O Dia da Formatura na Universidade das Exterminadoras tinha sempre incluído este derrame de sangue simbólico. Era uma afirmação de fé e marcava o fim de dois anos de intensiva aprendizagem e treino.

«Mais duas semanas», pensou Rura, «e terei vinte anos. Terei direito à plena Condição de Mulher. Passarei a usar a caveira de ouro e os ossos cruzados, símbolos de uma exterminadora qualificada. As mulheres desejar-me-ão. E eu poderei escolher.»

Rura sentiu o peso da culpa. Devia estar feliz. Mas sentia-se culpada. Culpada por que não estava feliz? Então por que não estava feliz? Não sabia. Tentou lembrar-se das moças que abraçara e com quem fizera amor. Tentou lembrar o largo olhar de surpresa estampado nos olhos delas. Tentou lembrar-se de lábios, seios, toque, intimidade, dádiva e aceitação. Mas só conseguia trazer à mente o vazio. Talvez tivesse
andado a trabalhar de mais.
- Dirige para a água! - disse Moryn. - Querida, dirige para a água. Vamos fazer um vale de espuma sob a luz do Sol. Deixemos atrás de nós uma pista para assinalar o Dia da Exterminação!
Rura sorriu e fez rodar o carro de utilização terrestre para o lago. Tinha sido um lago calmo, assim como um lençol de vidro. Mas agora o jato de ar do carro flutuador retalhava-o, erguendo e abandonando atrás de si pulverizadas paredes de água, através das quais o Sol construía efémeros arco-íris.

Olane olhou para trás, para a esteira que morria.
- Escrevemos na água, escrevemos no ar - disse ela de modo estranho. - Mas nenhuma de nós escreverá na rocha!
Olane era uma das moças que Rura tinha beijado e abraçado e levado ao êxtase na véspera da exterminação , Rura lançou-lhe um olhar rápido, viu a tristeza nos seus olhos e, no mesmo instante, sentiu-se deprimida.
- Olane querida, não podemos viver para sempre!
- Às vezes - disse Olane - acho que não podemos viver, muito simplesmente.
Moryn sentiu a melancolia no ar e quis combatê-la com uma instantânea excitação.
- Tenho aqui comigo uma garrafa de brande! - disse ela. Bebamos a um bom derrame de sangue!
Rura estava surpreendida.
- O álcool é estritamente proibido no Dia da Exterminação. Podemos ser expulsas.
- Quem poderá vir a saber? Haverá sangue nos nossos rostos e a garrafa de brande estará bem no fundo de qualquer lago escocês. Bebamos e alegremo-nos porque hoje... nós matamos.
Rura verteu o seu brande logo que se afastou de Windermere e se elevou sobre as montanhas. Ao todo, havia cinco carros flutuadores e quinze novatas na caçada. Mas não havia nenhum outro carro à vista agora. Apenas o detector de caça, circulando e flutuando como uma ave de rapina que realmente era. A tenente Kayt estava à frente do detector. Corriam rumores de que ela podia farejar um homem a cinco quilômetros
de distância.
Olane estava a embebedar-se de brande.

- Queridas, não me julguem pateta, mas eu estou com medo do sangue. Não sei porquê. Estou só com medo.
Moryn beijou-a.
- Doçura, não há de que ter medo. Falo a sério. Não há nada que recear. Aqueles porcos não têm senão espadas, facas e lanças. Talvez bestas, se estiverem com sorte. Nós temos granadas, temos gás e temos pistolas laser. Assim, o que é que nos pode magoar?
- Talvez nós próprias. Talvez sejamos nós a magoar-nos.
- Não sejas tonta. Odeias os homens?
- Claro que odeio os homens!
- Então não há problema. Kayt vai dar-nos um belo alvo. Pintamo-nos com o sangue deles e vamos para casa. E é o fim do Dia da Exterminação. O fim de dois duros anos.
- Dois anos! - suspirou Olane. - Eu nunca quis realmente ser uma exterminadora.
Mas a minha mãe tinha ambições para mim. Foi isto que ela sempre desejou.
Moryn ergueu o sobrolho .

- Tens uma mãe de útero? - perguntou.
- Não sejas tão felina! - censurou Olane desabridamente. Sabes bem que eu nasci por reprodução assexuada: um bebê entre quatro. Mas não faz qualquer diferença.
Continuo a pensar em Siriol como minha mãe. .
- Ela é apenas tua superior no processo de reprodução!
- Irra! Ela é minha mãe!
- Meninas! Meninas! - Rura tentava serenar os ânimos. - Vão discutir precisamente hoje, entre todos os dias?
Moryn serviu-se de mais brande.
- Desculpa, querida. Se queres que Siriol seja a tua mãe, ela será a tua mãe.
Olane estava arrependida e envergonhada.
- A culpa foi minha. Não devia ser tão susceptível. Vou sentir--me melhor logo que termine esta miserável sangria...
- Vou chamar a Kayt - disse Rura. - Quero saber o que está acontecendo.
Rura rodou o botão do receptor e falou com o detectar de caça.
Nos assentos traseiros do carro flutuador, Moryn e Olane descansavam, bebiam brande, observavam as montanhas e as charnecas de Cumberland cruzando-se como relâmpagos.. Olhando em frente na direção da Escócia, elas estavam impacientes por chegar aos Planaltos do Sul - os começos da região rebelde. Terra de porcos.
- A Kayt diz que os outros quatro carros estão cerca de dez quilômetros à nossa frente - transmitiu Rura às outras.
- Raios! Vão fazer sangue antes de nós! - Moryn olhou para o mapa. - Rura, vamos tomar um atalho. Pede permissão a Kayt para sobrevoarmos Solway Firth. Se formos por rota marítima podemos ganhar cinquenta quilômetros.
Rura conferiu os dados com o detector.
- Permissão concedida. Mas Kayt diz que tem de ficar com os outros quatro carros.
Se houver alguns alvos antes do encontro geral nos Planaltos do Sul, os outros terão direito sobre eles.
- Pff! Ora, nós encontraremos os nossos próprios alvos. Podes ir a direito através de Solway e pôr-nos meia hora à frente das outras. Já estaremos sangradas quando o resto da equipe lá chegar. E além disso o mar vai estar uma maravilha esta manhã.

Bebam mais um pouco de brande.
- Não, muito obrigada! - Rura foi peremptória. - Eu tenho de pilotar esta coisa. Se o sangue nas nossas faces viesse a ser o nosso próprio, seríamos o motivo de riso de toda a Londres.
Rura rodou o carro numa curva apertada, erguendo-o acima dos milhares de metros de altura de Skiddaw. Estava uma manhã bem clara. Quinze quilômetros à frente quedava-se o mar, cegando de tão inundado pela luz do Sol - belo...

Com Skiddaw para trás de si, Rura carregou no acelerador. O carro flutuador saltou para a frente a cento e oitenta quilômetros por hora. Duzentos. Duzentos e vinte. Velocidade máxima, alta elevação média. Era maravilhoso correr assim numa coluna de ar até ao mar.
Estava um dia de ouro! Que pena ter que o desperdiçar com a morte, ainda que apenas com a morte de um homem.
- A Deusa seja louvada! - berrou Moryn bebendo mais brande. - A Deusa seja louvada!
Nós somos o escol, as invencíveis, as imortais. Neste dia, hoje, homens vão morrer às nossas mãos. Eu sei! Recordaremos para sempre este dia.
O mar não era aqui tão calmo e liso como em Windermere. Mas era um mar agradável, com a mais leve das ondulações. O carro flutuador mergulhou um pouco, mas ninguém se sentiu nauseado. O mar era ouro e o azul hipnotizava.
Olane começou a chorar quando despontou à sua frente a costa da Escócia.
- Não quero matar ninguém! - soluçou ela. - O dia está lindo de mais para matar!
- Não vais matar ninguém! - disse Moryn. - Só vais matar homens. Um homem.
Um homem não é nada. Um homem é um animal. Queres que um animal se deite em cima de ti? Queres que ele te force a abrir as pernas, te morda os seios, te encha o ventre com a semente da destruição?
- Não! Não! Não!
- Então ouve-me, garota! Vamos encontrar o nosso animal. Vamos caçá-lo e matá-lo!
Vamos sentir o seu sangue sobre as nossas faces. E depois, regressaremos a Londres como conquistadoras, como verdadeiras mulheres. Seremos livres de espírito e de coração. Já teremos destruído o grande conto-do-vigário, a degradação de milhões de anos!
- Eu não quero matar!
- Descansa e acalma-te! Rura e eu faremos a matança!
Rura disse então:
- Sigo este rio ou volto na direção este para o encontro com as outras?
Moryn olhou para o mapa.
- São só trinta ou quarenta quilômetros fora do nosso caminho. Segue o rio. Os homens precisam de água fresca e - por esta vez nós precisamos de homens


As Exterminadoras - Edmundo Cooper [ Download ]

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Guerra de Estrelas - Francis Carsac



Nesta manhã de Março de 195... bati na porta do meu velho amigo, o Dr. Clair, não suspeitando que, dentro de pouco tempo, iria ouvir o mais extraordinário e fantástico relato de toda a minha vida.

Disse "meu velho amigo" (se bem que tanto ele como eu só outro dia tivéssemos ultrapassado a casa dos 30) porque nos conhecíamos desde a infância, embora há quatro anos tivéssemos perdido o contacto.

A porta foi aberta - melhor, entreaberta - por uma velha mulher vestida de negro, como é hábito de todas as velhas mulheres desta região. Resmungou:
- Se é para uma consulta, o doutor não recebe hoje. Está fazendo experiências...

Sendo um excelente médico, Clair, todavia, não exercia regularmente a profissão.
Graças a uma sólida fortuna, podia consagrar quase todo o seu tempo a complexas experiências de biologia. O seu laboratório, instalado na casa paterna, perto de Rouffignac, era, na opinião das sumidades médicas que o visitaram, um dos melhores do mundo. Muito discreto no que dizia respeito a suas investigações, a elas
se referia muito por alto na correspondência que trocávamos, mas, no entanto, eu sabia, pelas suas visitas, que ele era um dos que, como tantos outros dispersos pelo mundo, procuravam a solução do problema do câncer.

A velha mulher fitava-me, desconfiada.
- Não, não venho fazer consulta - respondi. - Diga ao doutor que Frank Borie deseja vê-lo.
- Ah! É o Sr. Borie? Isso é diferente. Ele está lhe esperando.
Do fundo do corredor uma voz de baixo, profunda, gritou:
- Então, Madalena. que é? Quem está aí?
- Sou eu, Séva!
- Entra, com os diabos!
Clair herdara de sua mãe, russa emigrada, uma voz à Chaliapine, uma estatura de cossaco siberiano e o prenome de Vsévolod; de seu pai, natural do Périgeux, uma tez morena e cabelos negros, o que lhe tinha valido, no nosso grupo de estudantes, a alcunha de Claro-Escuro.

Dirigiu-se para mim em grandes passadas, quase me arrancou o braço com um aperto de mão, abalou-me com uma valente palmada nos ombros e, em vez de me mandar entrar para o seu gabinete, como de costume, reconduziu-me para a porta.
- Que belo dia! - declamou ele, enfaticamente - O sol brilha e você veio! A verdade é que só esperava que chegasse de noite, no automotriz.
- Trouxe o meu automóvel. Mas venho lhe causar incômodo?
- Não, não, de forma nenhuma! Estou verdadeiramente contente por lhe ver. O que faz você? Como vai a pilha atômica?
- Silêncio! Mistério! Você sabe muito bem que não posso falar disso.
- Está bem, cientista misterioso! A propósito: quero lhe agradecer a última remessa de isótopos radioativos. Me foram muito úteis. Mas não aborrecerei você com outros pedidos. Estou tratando de coisas melhores.
- O que? - perguntei, admirado.
- Calma! É mistério! Não posso falar disso!

No corredor, atrás de nós, ouviu-se um ligeiro ruído de passos e pela porta, que ficara entreaberta, pareceu-me distinguir uma delicada silhueta feminina. Todavia, segundo eu sabia, Clair era solteiro e não mantinha qualquer ligação. Notou, sem dúvida, a direção do meu olhar e, segurando-me pelo braço, fez com que me voltasse.
- Pois muito bem. Você não mudou. Está o mesmo. Entremos.
- Não posso lhe retribuir o cumprimento. Você envelheceu.
- Ah! Talvez... talvez! Passe primeiro.

O gabinete dele que eu bem conhecia, com as estantes de livros (dos quais bem poucos tratavam de medicina), estava vazio, mas nele flutuava um sutil e agradável perfume, que aspirei. Clair apercebeu-se disso e, evitando qualquer pergunta minha, esclareceu:
- Sim, recebi há alguns dias - oh! em consulta... uma célebre atriz e o seu perfume ainda permanece. É extraordinário o progresso da química!
Estabelecemos uma conversa sem sequência. Comuniquei-lhe a morte de minha mãe e tive a surpresa de o ouvir dizer: "Ah ! Muito bem!".
- O quê? Muito bem?! - exclamei, indignado e penalizado.
- Não, eu queria dizer que compreendo, finalmente, porque você me deixou tanto tempo sem notícias suas. Então você está agora sozinho no mundo?
- Sim.
- Pois bem, talvez proponha a você uma coisa muito interessante. Mas é ainda um vago projeto. Falaremos dele hoje de noite.
- E no laboratório? Algo de novo?
- Quer vê-lo? Venha comigo.

O laboratório - construído após a minha última visita, há quatro anos - era uma ampla divisão envidraçada, mais comprida do que larga, que ocupava os fundos da casa. Detive-me na porta, assobiando de admiração. Percorri-o, notando, de passagem, o micromanipulador, o coração artificial. Num quarto escuro contíguo
erguia-se um enorme gerador de raios X. No centro do laboratório, sobre uma mesa, uma cobertura dissimulava um aparelho.
- E isto? - perguntei.
- Não é nada. Não está ainda pronto. É uma experiência...
- Ignorava que você construía aparelhos. Sabe que, como físico, poderei talvez lhe ajudar.
- Veremos. mais tarde. Agora prefiro não falar no assunto.
- Seja - disse eu, um pouco constrangido. - Se isso lhe desagrada...

A campainha da porta da rua tiniu.
- Bolas! A Madalena saiu. Tenho de ir abrir.
Tendo ficado só, aproximei-me do aparelho e, indiscretamente, ergui a cobertura.
Fiquei boquiaberto. Em lugar do mecanismo improvisado que esperava, vi um maravilhoso conjunto de tubos de vidro e de metal, de ampolas transparentes ou opacas, de ligações. Em múltiplos mostradores agulhas bífidas marcavam graduações de que eu não pude adivinhar o significado. Estou habituado a toda a espécie de aparelhos científicos e utilizamos, no meu laboratório, alguns bem complexos. Mas não conhecia nenhum que se assemelhasse a este. Ouvindo no corredor os passos apressados do meu amigo, deixei cair rapidamente a cobertura e, com ar indiferente, pus-me a olhar distraidamente o jardim, através da janela.
- Um caso de difteria num garoto. O meu colega está ausente. Tenho de ir. Leia um livro no meu gabinete enquanto não volto.
- Quer que lhe leve? O meu carro está na porta.
- Ótimo. Isso evitará que vá tirar o meu da garagem.

Pelo caminho meditava nas singularidades que havia notado. Clair só me esperava de noite e ficara com um ar embaraçado por eu ter chegado mais cedo. Tinha-me entretido durante alguns minutos na porta, embora fizesse frio. Eu percebera uma silhueta esquivando-se no corredor e, logo a seguir, Clair conduzira-me para dentro. Mostrara um ar satisfeito quando soubera do falecimento de minha mãe e por eu ficar sozinho no mundo. E, por fim, havia aquele estranho aparelho... Diabos me levem se descortinava para que servia! E, ainda por cima, num laboratório de biologia! Seria Clair o inventor? Isso já me parecia possível. E o construtor? Recordei me das suas montagens de física, no liceu, e não pude deixar de sorrir.
Paramos em frente a uma chácara. Clair só se demorou um quarto de hora.
- Não é nada. Vim a tempo. O meu colega continuará o tratamento.
- Você não clinica mais?
- Raramente. Não tenho tempo. Somente quando o Dr. Gauthier está ausente ou quando me pede consulta.

No regresso guardou o meu automóvel na garagem e transportou a minha bagagem para o quarto que habitualmente me era destinado.
Era contíguo ao dele, e pareceu-me ouvir, quando passamos na porta, um ligeiro ruído no interior.
A refeição do meio-dia, servida pela velha criada, era excelente, como de costume.
Clair falou pouco. Estava preocupado, hesitante. Quando lhe comuniquei que, após o almoço, ia aos Eyzies ver alguns amigos, mostrou-se aliviado e marcou-me encontro para as 19 horas.

Nos Eyzies visitei o paleontologista Bouchard, que me relatou uma estranha história. Seis meses antes a região fora alarmada pelo aparecimento de "diabos" na floresta de Rouffignac. Tinha corrido o boato de que esses diabos tinham levado o Dr. Clair, mas tudo isso era vago, pois no dia seguinte ao do desaparecimento dos diabos, "numa coluna de fogo verde", o doutor reaparecera. Tinha, muito simplesmente, ficado dois dias em casa. efetuando uma experiência. Quanto aos "diabos", o mais curioso da história era que quinze camponeses pretendiam tê-los visto: diziam que se assemelhavam a homens, mas tinham o poder sobrenatural de imobilizar as pessoas. O presidente da Câmara ordenara um inquérito, bem como o bispo de Périgeux. Mas perante as autoridades os camponeses tinham sido menos afirmativos. Finalmente, tudo se acalmara. "No entanto", acrescentou Bouchard, "devo dizer que na noite em que os tais "diabos" teriam desaparecido, vi no céu uma intensa luz verde para os lados de Rouffignac" .

Em verdade, esta história, por si, não apresentava grande interesse. Diariamente são publicadas histórias assim nos jornais. Mas, não sei porquê, associei-a com as singularidades de Clair. Quando cheguei na casa dele .encontrei-o aliviado, como se tivesse tomado uma resolução, depois de ter hesitado muito. A mesa da sala de jantar estava posta para três pessoas.
Espera alguém? - perguntei.
- Não, mas vou lhe apresentar minha mulher.
- Sua mulher?! Você é casado?!
E pensei: "A silhueta!".
- Oficialmente, ainda não. Mas não demorará, desde que tenhamos os papéis. Ulna é estrangeira.
Hesitou um momento.
- É escandinava: finlandesa. Quero lhe advertir de que ainda fala mal o francês.
- Você fala finlandês? É novidade para mim!
- Aprendi no ano passado, numa viagem de dez meses. Creio que mandei lhe dizer.
- Não. E julgava eu que o finlandês era difícil!
- E é. Mas, você sabe, a minha hereditariedade eslava...
Chamou: "Ulna!".
Uma esguia e estranha rapariga entrou: alta, loura, de um louro-pálido, olhos de uma cor indecisa - que não se poderia dizer se era cinzenta, azul ou verde -, de traços regulares. Era muito bela. Mas qualquer coisa nela surpreendia, sem que se pudesse precisar o que era. Talvez a pele dourada, contrastando com o louro-pálido dos cabelos? Ou a inverosímil pequenez da boca? A notável amplidão dos olhos? Ou tudo isso junto?

Inclinou-se graciosamente perante mim e estendeu-me a mão, uma mão que me pareceu extraordinariamente alongada, pronunciando ao mesmo tempo algumas palavras em voz muito baixa, mas cantante.

Fiquei sentado na frente dela. Quanto mais a olhava mais estranha me parecia.
Servia-se com presteza da faca e do garfo, mas não com aquele automatismo inconsciente que o hábito dá.

Me conservei mais ou menos calado durante o jantar. Clair falou por todos nós. A
velha Madalena era uma cozinheira de primeira qualidade, mesmo nesta região, onde as boas cozinheiras abundam. O meu amigo tinha feito uma razia na adega. Notei que Ulna comia pouco e não bebia, contrariamente ao doutor e, devo confessá-lo, a mim próprio. À medida que o jantar prosseguia perdi pouco a pouco o constrangimento que me paralisava. Ulna nada dizia, mas de vez em quando fitava Clair nos olhos, e tive a curiosa impressão de haver uma comunicação, não de sentimentos, mas de ideias.

Após a sobremesa, Clair dobrou cuidadosamente o guardanapo, afastou a cadeira, sentou-se em frente do fogo, numa poltrona baixa. Com um sinal convidou-me a sentar-me diante dele e depois chamou pela criada, para que servisse o café. Ulna tinha saído. Voltou trazendo um jornal dobrado em quatro, em que Clair pegou e depois me estendeu. Com um rápido olhar ao cabeçalho verifiquei que datava de há seis meses. Ia restituir-lho, pedindo-lhe uma explicação, quando notei, no fundo da página, um artigo circulado a vermelho:

"AINDA OS DISCOS VOADORES...



Guerra de Estrelas - Francis Carsac [ Download ]

terça-feira, 27 de julho de 2010

Apocalipse 2000 - Guy Snyder



Era um deserto.

Na verdade, não se tratava bem de um deserto, mas sim de um descampado - e não muito descampado.

Os habitantes da região, na falta de melhor nome, chamavam-lhe um deserto.
Durante o dia, abutres voavam sobre ele. Sob o calor, vários pequenos répteis, muitos deles sugerindo estranhas mutações do camaleão, esgueiravam-se graças ao que Deus lhes dera como meio de propulsão primitiva. O ar fremia sob o calor, em direção ao céu, no Verão. De vez em quando aparecia um veado em busca de uma floresta. Os animais da próxima, e por vezes normal, "boa" terra, tinham uma tendência
muito pronunciada para se perderem no deserto, isolando-se dos seus grupos.

Eventualmente, acabavam por cair mortas - o clima não os tolerava: era... pouco hospitaleiro para eles. Morriam, ou de envenenamento local ou de sede, conforme as suas capacidades individuais. Os abutres, adaptáveis como eram, cuidavam-lhe da carne.
Os abutres.
Os abutres eram sempre muito magros.
Os abutres passaram um mau bocado. Eram os pássaros mais odiados, ainda que fossem muito necessários. Por vezes, quando as condições do tempo estavam a seu favor, comiam muito bem. Na realidade não eram nativos daquela área - ninguém sabia de onde eles tinham vindo. Subitamente tinham aparecido ali, a deslizar sobre as correntes aéreas. Talvez alguém se tivesse esquecido de fechar uma cova perto dali, e eles tivessem vindo por ela do Inferno.

Por vezes, no Verão, o solo do deserto estava muito quente, mas nunca mais de 38 graus.

O deserto era uma zona queimada com cerca de seis mil metros quadrados.
Durante o Inverno o deserto era razoavelmente frio. Não havia muitas coisas que nascessem no seu solo. Quando a chuva ou a neve caiam, resíduos corriam para um rio que divida o espaço quase ao meio. O rio estava abrindo uma garganta. A erosão era terrível. O ar não podia ser respirado por períodos longos sem modificação - alguns minutos já eram um risco.

O deserto, mesmo quando visto do conforto da redoma de observação, deitava uma tremenda sensação de nada - uma sensação deslavada de monotonia.
O céu tinha perpetuamente a cor do aço ao lume - um azul intenso e sólido.
Ocasionalmente, encontrava-se a ruína de uma árvore, de pé ou caída.
As árvores eram mais comuns para além do centro do deserto - na direção das "boas terras" ainda com relvas e florestas que rodeavam a zona, mas nenhuma terra era boa. Muitas das árvores tinham, noutros tempos, sido bem tratadas. Mas que ainda estavam de pé. A maioria eram carvalhos, porque não apodreciam muito depressa.

Ainda estavam vivas? Parecia surpreendente que mesmo os carvalhos tivessem sobrevivido por tanto tempo.
Havia um próximo que ainda estava vivo. Estava perto do rio e as suas raízes bebiam a água corrente. Tinha folhas estranhas, de formas invulgares. Sem bagas. Fornecia alguma sombra aos animais deformados que eram suficientemente espertos para irem obter água em outros lugares, e não no rio. Não tardaria que a corrente que abria a garganta minasse as raízes do carvalho e então ele também cairia.

Havia muitos ossos abandonados no deserto e nas ruínas, branqueados pelo sol - muito bem limpos.
As noites eram melhores. As estrelas surgiam e o céu tornava-se negro e sempre extremamente límpido. Não havia nada que perturbasse a visão da Via Láctea.

No solo do deserto havia alguns trilhos; viam-se melhor dos poucos aparelhos que voavam. Para os lagartos que tomavam sol nos fragmentos e nas pedras arrancadas aos antigos leitos das estradas, pareciam formações muito naturais.

A maior parte dos lagartos tinham o tamanho de um bom rato da Republica. A pele era cor de areia e tinha a textura dos pedaços do pavimento. Integravam-se bem no ambiente e tinham uma tendência para procriar em excesso. Alguns mostravam um terceiro olho, ainda que cego.

As super-autoestradas tinham sido destruídas - eram pesadelos contorcidos e tinham morrido de choque.
...Não quero memórias; não quero memórias...
Havia algumas ervas que quase formavam um relvado, aqui e ali. Nenhum cacto, nada como aqueles que constavam dos arquivos de recursos constituídos para os inteligentes filhos do Rei, da Rainha e da Igreja.
No meio daquilo que era virtualmente nada, cresceria um dente-de-leão com uma flor de um metro de diâmetro; estava sempre florido e não dava sementes. Era muito bonito.

violação
violação
violação

Havia uma estrada bem reparada. Estava no alto de um monte de concreto com seis metros de altura - era uma estrada toda negra com a forma de um círculo de vinte metros de diâmetro e quatro e meio de largura. Dentro dela havia um quadrado de quatro metros e meio de lado, feito de um material metálico qualquer, e esse quadrado podia ser descido na terra, muito abaixo do nível da superfície. Tinha pintado nele um alvo negro.

Havia quatro arcadas brilhantes no monte e, a cerca de sete metros da encosta inclinada, uma redoma de observação ao nível do solo, colocada ao lado de uma estrada que levava a cada uma das arcadas, a partir de um segundo círculo pavimentado que rodeava o monte.

O círculo exterior do pavimento estava a trinta metros das arcadas. A estrada que partia da arcada virada para leste tinha nove metros de largura e não acabava no círculo pavimentado exterior. Continuava por mais cem metros, para além de um perímetro muito ferrugento de arame farpado, e então desfazia-se em pedaços e lajes, um pouco mais além. Nos mapas a estrada acabava por ligar à Interestadual 96, que para todos os efeitos práticos era um cemitério.

Os postos de observação eram feitos de um vidro especial, blindado, de cor verde baço. Assentavam em bases de aço brilhante, inoxidável. Um cano negro, curto, de um negro baço, saía de cada redoma. O aparelho inteiro poda rodar 360 graus e os canos podiam elevar-se de quarenta graus.
No papel, tudo podia existir.

Alguns animais tinham observado ocasionalmente a BiaMa de vários estranhos e muito misteriosos objetos da terra entre o monte de concreto e o perímetro de arame farpado. Um lagarto em particular - um tipo pequenino, com perto de quarenta e cinco centímetros e talvez uns quatro quilos e meio de gordura - fora uma vez muito perturbado por isso. Estava ele absorvendo inocentemente o bom sol de Junho, num da particularmente belo para os lagartos, sobre uma rocha particularmente boa para os lagartos (ele era muito racista), quando muito subitamente (sem qualquer aviso, calculem!), a terra começou a inclinar-se!

A princípio ele percebeu a coisa como uma miragem surrealista - o resultado de qualquer coisa que ele comera. Mas então a terra inclinou-se ao ponto de o atirar de cabeça sobre a cauda enrolada para a base da perpendicular que se formava rapidamente.
Pela atitude que o lagarto tomou depois de se endireitar e verificar que estava inteiramente em ordem, pareceu que ele considerava aquela coisa absolutamente indesejável!

Um objeto de forma estranha subiu então lentamente acima da terra tornada perpendicular e eu estou muito certo de que os sinais que nele se viam não satisfizeram o lagarto, considerando que o lagarto não os leu, provavelmente não os quis ler e, na verdade, nunca pensou em tal coisa.

QUADRANTE NORTE: C-42, ANTENA DE RADIO - PARABÓLICA - diziam os sinais.

O lagarto decidiu que era melhor ir para qualquer outro lado e pôs-se a andar.
Aparentemente ele não gostava de estar em lugares onde não apreciavam os banhos de sol, onde isso era negado por terras que se inclinavam, esmagado por forças invisíveis, e ameaçado por fantasmas metálicos de gigantes que o lagarto poda considerar serem os seus antepassados. O lagarto vira muitos esqueletos na sua vida limitada. Não se preocupava muito por aquele ser de alumínio, que não era um material orgânico - eram todos iguais aos olhos dele.

Havia ruínas naquele deserto, além das árvores. Eu as tinha visto. A trinta e três quilômetros a sul-sudeste do monte de concreto, havia a periferia do que fora uma das grandes cidades humanas.
Os abutres andavam agora pelas ruas. Ou voavam através delas.
Do ar podiam ver-se muitas paredes reforçadas com aço que permaneciam de pé dentro da cidade como se fossem estátuas, e estavam completamente mortas. Os abutres empoleiravam-se nelas. Faziam os seus ninhos no cimo delas.

O mundo? É muito estranho agora, de certo modo re-naturalizado. Seria verdade que, em algumas regiões, as florestas, ainda que tendo sofrido mutações, estavam a cobrir as cidades? Mas não será isso comum? Admito que se trate de um fenômeno que exige muito tempo.

Um segundo é um ano e depois um ano é um segundo.

(...)


Apocalipse 2000 - Guy Snyder [ Download ]

segunda-feira, 26 de julho de 2010

No Mundo da Ficção Científica - L.David Allen




Prefácio: A FICÇÃO CIENTÍFICA NO BRASIL - FAUSTO CUNHA.

ANÁLISE DE ROMANCES REPRESENTATIVOS:
20.00 LÉGUAS SUBMARINAS.
A MÁQUINA DO TEMPO.
EU, ROBÔ.
A TRILOGIA DA FUNDAÇÃO.
O HOMEM DEMOLIDO.
A IDADE DE OURO.
A ESPOSA DA MAGIA.
MISSÃO DE GRAVIDADE.
UM CÂNTICO PARA LEIBOWITZ.
DUNE.
UM ESTRANHO NUMA TERRA ESTRANHA.
REVOLTA NA LUA.
RITO DE PASSAGEM.
A MÃO ESQUERDA DA ESCURIDÃO.
MUNDO CIRCULAR.

UMA TENTATIVA DE DEFINIÇÃO DE FICÇÃO CIENTÍFICA.

UMA MANEIRA DE LER FICÇÃO CIENTÍFICA, OUTRA OLHADA EM DUNE.

ROTEIRO PARA LEITURA DE FICÇÃO CIENTÍFICA.

A VEROSSIMILHANÇA E SUSPENSÃO DA INCREDIBILIDADE NA FICÇÃO CIENTÍFICA.

PRÊMIOS DE FICÇÃO CIENTÍFICA.

UMA BIBLIOGRAFIA SELECIONADA DE FICÇÃO CIENTÍFICA.

UMA BIBLIOGRAFIA SELECIONADA DE OBRAS SOBRE FICÇÃO CIENTÍFICA.



No Mundo da Ficção Científica - L.David Allen [ Download ]

domingo, 25 de julho de 2010

Thea von Harbou



Thea Gabriele von Harbou (27 de Dezembro de 1888 - 1 de Julho de 1954) nasceu em Tauperlitz (Alemanha), mas viveu sua infância em Niederlössnitz, próximo a Dresden, onde completou sua formação colegial e iniciou seus estudos de artes dramáticas.

Descendente da nobreza prussiana, a jovem Thea era leitora ávida de Karl May, colaborava escrevendo para o jornal local com histórias ingênuas. Começou a escrever poemas em 1902 e publicou seu primeiro romance ("Wenn's Morgen wird") em um jornal de Berlin em 1905.

Em 1922, já trabalhando como atriz e integrante de vários grupos de teatro, Thea divorciou-se do diretor de teatro Rudolph Klein-Rogge, para casar-se com o também diretor austríaco Fritz Lang, que conhecera ao trabalharem juntos na adaptação de um livro para o cinema ("Das Indische Grabmal" ("Mistérios da Índia")).

Alternando sua carreira de atriz no teatro e no cinema, com a de escritora e roteirista, Thea passou a escrever todos os roteiros de Lang, de "Das wandernde Bild" ("The Moving Image", 1920) a "Das Testament des Dr. Mabuse" ("The Testament of Dr. Mabuse", 1933). Também escreveu roteiros para outros diretos importantes da época, como F. W. Murnau ("Der brennende Acker" ("Burning Soil") e "Phantom" ("The Phantom"); "Die Austreibung" ("The Expulsion") e "Die Finanzen des Großherzogs" ("The Grand Duke’s Finances"), Carl Theodor Dreyer ("Michael" ("Chained") e Arthur von Gerlach ("Zur Chronik von Grieshuus" ("The Chronicles of the Gray House").

Von Harbou ganhou o apelido de "A Condessa do Kitsch" do cinema alemão, misturando sentimentalismo com tendências revolucionárias e anseios populares, procurando agradar não a aristocracia, mas ao alemão comum.

A ideia de Metrópolis nasceu em 1924, como um projeto arrojado para a época, o de escrever um romance como série, a princípio para o jornal, utilizando-se de imagens/fotos/desenhos. Em 1925 tornou-se um livro e em 1927, um filme, nas mãos de seu marido, já na época, um dos ícones do expressionismo alemão.

Metrópolis foi o filme mais caro já realizado até aquela data, em todo o mundo.

Metrópolis crítica a mecanização da vida nos grandes centros urbanos, questionando o sentimento humano perdido com o progresso tecnológico.

Apesar de seu prestigio, Lang necessitou realizar cortes drásticos na sua versão para o mercado internacional, e também recebeu fortes críticas. H.G.Wells, por exemplo, acusou-o, não formalmente, de plagiar sua obra.

Outro livro de Thea, "Die Frau im Mond" também seria filmado por Lang, e lançado como "Woman in the Moon" ("Frau im Mond") em 1929, mas sem alcançar o mesmo sucesso de público e crítica de Metrópolis. "Frau im Mond" é considerado por muitos estudiosos como o primeiro filme "sério" de Ficção Científica.

Um ano antes de Hitler subir ao poder, Thea tornou-se membro do Partido Nazista, o que teria causado seu divórcio de Lang, que partiria para Paris em 1934 após seu filme, "O testamento do Doutor Mabuse" (Das Testament des Dr. Mabuse) ser declarado ilegal na Alemanha, por fazer críticas a ideologia nazista.


No auge do regime, Thea foi presidenta da associação de roteiristas da Alemanha, e devido a sua credibilidade, recebeu incentivos para escrever e dirigir dois filmes ("Elisabeth und der Narr" e "Hanneles Himmelfahrt"), além de tornar-se o principal nome na produção de cinema para a propaganda nazista.

Com a vitória aliada, Thea foi feita prisioneira pelos ingleses e obrigada a trabalhar na reconstrução das cidades bombardeadas, destruidas pela guerra. Posteriormente recebeu permissão para trabalhar na sincronização de filmes e continuou a escrever roteiros para cinema e alguns poucos livros.



Apesar de ter escrito outros livros bem sucedidos, entre prosa, poesia e ficção, foi Metrópolis que marcou sua carreira como escritora e a imortalizou, graças ao enorme sucesso do filme.

Metrópolis - Thea Von Harbou  [ Download ]




Introdução por Forrest J. Ackerman, vencedor do Prémio Hugo e um fã de Metrópolis.

Bem-vindos à Metrópolis, a minha cidade.

População estimada pelo meu amigo A. E. van Vogt, cinqüenta milhões aproximadamente.
Eu moro aqui desde que eu tinha dez anos. É a cidade mais fabulosa e emocionante que existe na face da terra e debaixo da terra também. Londres, Los Angeles, Nova York, Paris, Berlim, Tóquio... todas misturadas e combinadas em uma! Tente imaginar!

Quando eu pronuncio o nome mágico - "Metrópolis" - se reúnem a arrogância do Empire State Building, com a elegância do Taj Mahal, a fama da Torre Eiffel e o mistério da Esfinge do Egito.

"Metrópolis"... A Nova Babel, uma obra prima, magnificência arquitetônica monolítica.
Os arranha-céus do século XX são insignificantes perto das megaestruturas do século XXI.
E abaixo dela, em cavernas feitas pelo homem, as máquinas monstruosas de Moloch, a incrível e inumana máquina Geyser, a máquina-coração, mantida pelos homens-relógio, os subhumanos do subterrâneo, operários impotentes que vivem sem esperança, servos dos seres da superfície, marionetes cegas das ordens do Senhor de Metrópolis.

O Mestre de Metrópolis, John Fredersen, o homem forjado em aço, frio como a superfície de Plutão e tão distante quanto. Um governante tão implacável quanto os antigos Césares.

Escondido em algum lugar da superestrutura futurista de Metrópolis, está um sobrevivente anacrônico do barroco e do gótico, um laboratório onde eles realizam maravilhas da alquimia.
Com o selo de Salomão, na porta, aqui poderia ter nascido - centenas de anos antes - o lendário Golem.
Uma aranha de olhos arregalados e cabelos brancos, um gênio sinistro que sacrificou uma mão para a sua ciência sobre-humana. É a morada do fantasmagórico Rotwang, o diabólico Ralph 124C41 + do seu tempo.
Rotwang criou um simulacro de mulher, fabricada de metal. A robô feminina com a qual Rossum poderia ter sonhado.

'Metrópolis', o livro, tem sido comparado com 'RUR' de Karel Capek, com o utópico romance 'Erewhon', de Samuel Butler, "sobre um tempo futuro em que máquinas desenvolvem uma alma", com 'A Máquina do Tempo', que a mente inquieta e antecipatória de H. G. Wells criou, um retrato inesquecível do desenvolvimento económico e social de seus Eloi, aristocratas e epicuristas do mundo futuro, e os Morlocks, seus escravos sem inteligência.

'When The Sleeper Wakes' (Wells), 'Land under England' (O'Neill) , 'Looking Backward' (Bellamy) e 'The summer of 3000' (Martin), lembram alguns aspectos deste livro.

Thea von Harbou, sua inteligente autora, deu provas durante a sua vida, de uma mente literária longe da realidade. Quando os foguetes interplanetários eram ainda um embrião, ela escreveu a famosa 'Mulher na Lua', tanto o livro como o roteiro do filme. 'Túmulo indiano', 'A Ilha dos Imortais', 'Siegfried' (adaptado no filme 'Doutor Mabuse') estão entre o legado literário e cinematográfico de Madame Von Harbou. Casada com o famoso diretor Fritz Lang, que concretizou seu trabalho na prodigiosa obra-prima, Metrópolis, para a tela, um filme que permanece um incomparável clássico da ficção científica.

"Metropolis é diferente de qualquer outro romance escrito no mundo", disse um observador entusiasmado na época. "É diferente, único, original. Mantém o drama das tremendas forças em conflito, com o tema do amor idílico".

A linguagem deste romance é tão rica quanto Shiel, caleidoscópica como Merritt em 'O Imperador de metal', austera como 'Skeleton' de Bradbury, tão poética como Poe, macabra como a de Machen.

Ciência e fantasia, horror e beleza, mistério, ameaça, loucura, magnificência, significado... pela primeira vez na vida, todos esses elementos combinados magicamente para criar o clássico, a obra suprema: Metrópolis.

Este é o livro que tem sido definido como uma obra de gênio.

Eu concordo. A experiência que envolve a leitura vai durar o resto de sua vida.

Forrest J. Ackerman
Apt 4E - Torres Rotwang.
Nível Lang - Air Way Harbou
Metrópolis
24 de novembro de 2026.




Recentemente, partes não utilizadas do filme original foram encontradas na Argentina, e em breve, uma nova versão (30 minutos maior) será lançada.

sábado, 24 de julho de 2010

O Caçador de Androídes - Philip K. Dick (parte 17)



NO SUNTUOSO e enorme quarto do hotel, Rick Deckard lia as folhas a carbono, datilografadas, sobre os andróides Roy e Irmgard Baty.

Nestes dois casos, incluíam instantâneos telescópicos, fotos indistintas em 3D, que ele mal conseguia enxergar. A mulher parecia atraente. Roy Baty, contudo, era algo diferente. Algo pior.
Farmacêutico em Marte, leu. Ou pelo menos o andróide usara essa cobertura.

Na realidade, provavelmente fora um trabalhador braçal, um peão, com aspirações de coisa melhores. Será que andróides sonham? Perguntou-se

Roy Baty (informavam os antecedentes) tem um ar agressivo, afirmativo, de falsa autoridade. Dado a especulações místicas, este andróide propôs ao grupo a tentativa de fuga coletiva, garantindo-a ideologicamente com pretensiosa ficção sobre a sacralidade da chamada "vida" andróide. Além disso, este andróide roubou, e experimentou, vários tipos de drogas geradoras de fusão da mente, alegando, quando surpreendido, que alimentava a esperança de promover em andróides uma experiência grupal semelhante à do mercerismo, a qual, alegou, continua proibida aos andróides.

Evidentemente é por isso que eles, ocasionalmente, matam seus empregadores e fogem aqui para a Terra. Uma vida melhor, sem servidão. Como Luba Luft, cantando Don Giovanni e Le Nozze, em vez de labutar na face estéril de um campo cheio de pedras. Num mundo colonial basicamente inabitável.

O relato tinha um aspecto patético. Um rude e frio andróide na esperança de passar por uma experiência que, devido a um deliberado defeito inerente à sua constituição, lhe estava vedada. Mas não conseguia interessar-se muito por Roy Baty. Captou, pelas notas de Dave, algo de repelente pairando em volta desse andróide. Baty tentara forçar a criar para si mesmo, a experiência de fusão... quando fracassara, planejara o assassinato de grande número de seres humanos...seguido da fuga para a Terra.
E neste instante, especialmente neste dia, ocorria a destruição gradativa dos oito andróides originais, até que só restavam três. E eles, os principais membros do grupo ilegal, estavam condenados, uma vez que, se não conseguisse pegá-los, alguma outra pessoa os pegaria. O tempo e a maré, pensou. O ciclo da vida. Terminando desta maneira o último pôr-do-sol. Antes do silêncio da morte.
Nisto percebeu a existência de um micro-universo, completo.

A porta do quarto foi aberta com um estrondo.
— Que vôo — disse sem fôlego Rachael Rosen entrando vestida com um longo casaco tipo escama de peixe, com sutiã e short combinando. Trazia consigo uma grande e enfeitada sacola de papel. Este é um bom quarto. — Consultou o relógio de pulso. — Menos de uma hora. Fiz a viagem num bom tempo. — Estendeu a sacola de papel. — Eu trouxe uma garrafa. Bourbon.
— O pior dos oito continua vivo — disse Rick. — O que organizou o grupo.

Estendeu-lhe a informação sobre Roy Baty.
Rachael pôs de lado a sacola de papel e recebeu a folha.
— Localizou este? Perguntou terminada a leitura.
— Tenho um endereço de apartamento. Lá nos subúrbios, onde provavelmente uns dois especiais deteriorados, debilóides ou cabeças de camarão, levam suas versões de vida.
Rachael esticou a mão:
— Vejamos os outros.
— Mulheres, ambos.
Entregou-lhes as folhas, uma referente a Irmgard Baty e a outra sobre uma andróide que a si mesma chamava de Pris Stratton.
Lançando um olhar à última folha, Rachael disse:
— Oh! — Sacudindo no chão as folhas, foi até a janela do quarto para olhar o centro de São Francisco. — Acho que você vai ser derrotado pela última. Talvez não. Talvez você não se importe. — Empalidecera e sua voz tremia.

De repente, ela se tornara excepcionalmente instável.
— Exatamente, sobre o que é que você está resmungando aí?
Apanhou as folhas, voltou a estudá-las, perguntando-se ao mesmo tempo que parte delas perturbara Rachael.

— Vamos abrir o uísque. — Levou a sacola para o banheiro, apanhou dois copos e voltou. Parecia ainda distraída e incerta — e preocupada. Rick sentiu-lhe a fuga rápida e os seus pensamentos ocultos: as transições mostravam-se em seu rosto carrancudo, tenso. — Será que você pode abrir isto? — perguntou ela. — Vale uma fortuna, como você sabe. Não é sintético. É de antes da guerra, feito com malte autêntico.
Pegando a garrafa, Rick abriu-a e encheu dois copos com a bebida.
— Diga-me qual é o problema — sugeriu.
— Ao telefone — começou Rachael — você me disse que se eu viesse aqui hoje à noite, você desistiria dos três andros restantes. "Vamos fazer uma coisa diferente", você disse. Mas aqui estamos nós.. .
— Diga-me o que foi que a perturbou — pediu ele.
Encarando-o, desafiadora, Rachael respondeu:
— Diga-me o que é que vamos fazer, em vez de nos alvoroçarmos e nos preocuparmos com esses três últimos andros Nexus-6.

Desabotoou o casaco e levou-o até um armário, onde o pendurou.
Isto deu a Rick a oportunidade de dar uma boa olhada no corpo dela.
As proporções de Rachael, notou mais uma vez, eram estranhas.
Com sua abundante massa de cabelos pretos, a cabeça parecia grande, e devido aos seios pequeninos o corpo assumia uma postura esgalgada, quase infantil.
Mas os grandes olhos, com os longos e finos cílios, só podiam ser de uma mulher adulta; neles terminava a semelhança com a adolescência.
Rachael descansava, bem de leve, sobre a parte dianteira dos pés, e seus braços, da forma como pendiam, curvavam-se nas articulações. A postura, refletiu, de um cauteloso caçador, talvez da raça Cro-Magnon. A raça do altos caçadores, refletiu. Nenhum excesso de carne, barriga chata, pequenas nádegas e peito amplo.

Rachael fora modelada de acordo com o tipo físico céltico, anacrônico e atraente. Abaixo dos curtos shorts, as pernas, esguias, tinham uma aparência neutra, não sexual, não muito bem acabadas, em curvas núbeis. A impressão total, contudo, era boa, Embora, definitivamente, de uma mocinha, não de uma mulher.
Exceto pelos olhos inquietos, ardilosos.
Provou o bourbon. O poder da bebida, sabor e cheiro fortes, havia-se tornado quase estranho para ele e teve dificuldade em engoli-la. Rachael, ao contrário, nenhuma dificuldade teve com a sua.

Sentando-se na cama, Rachael alisou distraída a colcha, numa expressão, nesse momento, de melancolia, Ele pôs o copo na mesinha de cabeceira e sentou-se ao lado dela. Sob o seu peso, a cama cedeu e Rachael mudou de posição.
— O que foi? — perguntou. Segurou-lhe a mão, que achou fria, ossuda, ligeiramente úmida — O que foi que a perturbou?
— A última droga de tipo Nexus-6 — disse ela, falando com um esforço — é do mesmo tipo que eu.

Olhou fixamente para a colcha, encontrou um fio e começou a rolá-lo entre os dedos e transformá-lo numa bolinha. — Não notou a descrição? É a minha. Ela pode usar de modo diferente o cabelo, vestir-se de outra maneira . pode ter mesmo comprado uma peruca. Mas, quando a vir, você vai entender o que estou querendo dizer. — Riu, irônica. — Foi uma boa coisa que a empresa tenha admitido que sou uma andro. De outro modo, você provavelmente teria ficado louco quando conhecesse Pris Stratton.
Ou pensasse que ela era eu.

— Por que isso a incomoda tanto assim?
— Bolas, eu vou estar junto quando você aposentá-la.
— Talvez não. Talvez eu não a encontre.
— Eu conheço a psicologia Nexus-6. Esse é o motivo porque estou aqui. É por isso que posso ajudá-lo. Eles estão escondidos, juntos, os últimos três. Em volta de um tipo mentalmente desequilibrado que se diz chamar Roy Baty. É quem dirigirá a defesa crucial, total, final deles. — Mordeu os lábios. — Jesus! — exclamou.
— Anime-se — disse ele. Pegou-lhe o pequeno queixo na palma da mão e levantou-lhe a cabeça, de modo que ela teve que olhá-lo. Como será beijar uma andróide, pensou.

Inclinando-se um pouco, beijou-lhe os lábios secos. Nenhuma reação se seguiu; Rachael permaneceu impassível. Como se não houvesse sido afetada. Ainda assim, ele sentiu uma coisa diferente. Ou, talvez, era mero desejo seu pensar assim.
— Eu gostaria — disse Rachael — de ter sabido disso antes de vir para cá. Eu nunca teria vindo. Acho que você está me pedindo demais. Sabe o que eu sinto? Em relação a essa andróide Pris?
— Empatia — respondeu ele.
— Alguma coisa assim. Identificação. Lá vou eu. Meu Deus, talvez seja isso o que vai acontecer. Na confusão, você me aposentará, não ela. E ela poderá voltar a Seattle e levar minha vida. Nunca me senti assim antes. Nós somos máquinas, estampadas como quem estampa rolhas de metal de garrafas. É uma ilusão que eu, eu pessoalmente, exista. Sou apenas representativa de um tipo.
Estremeceu.

Ele não pôde deixar de sentir-se alegre; Rachael se tornara tão piegamente sentimental e abatida...
— Formigas não se sentem assim — disse —, e elas são fisicamente idênticas.
— Formigas, Elas não sentem, ponto final.
— Gêmeos humanos univitelinos. Eles não...
— Mas eles se identificam entre si. Sei que eles têm um laço especial, empático. — Levantando-se, pegou a garrafa, um pouco trôpega, reencheu seu copo e bebeu-o de um gole. Durante algum tempo, vagueou pelo quarto, sobrancelhas sombriamente contraídas. Em seguida, como vindo para o lado dele por acaso, sentou-se na cama. Lançou para cima as pernas e estirou-se, encostando-se nos grandes travesseiros. E suspirou. — Esqueci-me dos três andros — disse, a voz demonstrando cansaço. — Estou tão esgotada da viagem, acho. E do que descobri hoje. Só quero dormir.
— Fechou os olhos. — Se eu morrer — murmurou — talvez eu nasça novamente quando a Rosen Association estampar sua próxima unidade de meu subtipo. — Abriu os olhos e fitou-o ferozmente. — Você sabe — perguntou — por que eles vieram realmente para cá? Por que Eldon e os outros Rosens, os humanos, queriam que eu viesse com você?
— A fim de observar — sugeriu ele. — Detalhar exatamente o que um Nexus-6 faz que o denuncia no Teste Voigt-Kampff.
— No teste ou de outra maneira. Tudo o que lhe dá uma característica diferente. E, em seguida, apresentar um relatório, de modo que a empresa possa fazer modificações em banho de zigotos de fatores de DNS. E depois teremos o Nexus-7. E quando ele for descoberto, modificaremos o modelo mais uma vez e, no fim, a empresa conseguirá um tipo que não poderá ser distinguido de um ser humano comum.
— Você conhece o Teste Boneli de Reflexo de Arco?
— Nós estamos trabalhando também nos gânglios espinais. Algum dia, o Teste Boneli desaparecerá na mortalha encanecida de ontem do esquecimento espiritual. Sorriu inocentemente, em contraste com suas palavras. A esta altura, ele não podia discernir-lhe o grau de seriedade. Um tópico de uma importância capaz de abalar o mundo e, no entanto, discutido com leviandade; um traço andróide, possivelmente, pensou. Nenhuma percepção emocional, nenhum senso de sentimento do significado real do que dissera. Só as definições rasas, formais, intelectuais, das palavras separadas.

E mais, Rachael começara a implicar com ele. Imperceptivelmente, passara de lamentar seu próprio estado para azucriná-lo sobre o dele.
— Diabos a levem — disse.
Rachael riu.
— Estou bêbada. Não posso ir com você. Se sair daqui — fez um gesto de despedida —, eu fico, durmo e depois você pode me contar o que foi que aconteceu.
— Exceto — disse ele — que não vai haver um depois, porque Roy Baty vai me pegar.
— Mas, de qualquer modo, não posso ajudá-lo mais porque estou bêbada. Afinal de contas, você conhece a verdade, a dura, irregular, escorregadia superfície da verdade. Eu sou apenas uma observadora e não intervirei para salvá-lo. Não me importo se Roy Baty pega-o ou não, Eu me importo se me pegam. — Esbugalhou os olhos. — Cristo, estou empática comigo mesma. E, se eu for àquele prédio arruinado nos subúrbios... — Estendeu a mão e brincou com o botão da camisa dele. Em lentos e fáceis movimentos dos dedos começou a abri-la. — Não ouso ir porque andróides não têm lealdade um para com o outro e sei que aquela maldita Pris Stratton me destruirá e ocupará meu lugar. Entendeu? Tire o paletó.

— Para quê?
— Para podermos nos deitar — disse Rachael.
— Eu comprei uma cabra núbia preta — disse ele. — Tenho que aposentar mais três andros. Tenho que acabar meu trabalho e voltar para, junto de minha esposa, em casa. 
Levantou-se, deu a volta à cama e foi até a garrafa de uísque.
Com todo cuidado, serviu-se de um segundo drinque; suas mãos, observou, tremiam apenas de leve. Provavelmente, de fadiga. Nós dois, compreendeu, estamos cansados. Cansados demais para caçar três andros, com o pior dos oito dando as cartas.
Ali naquele lugar, de repente, reconheceu que adquirira um medo total, incontestável, do principal andróide. Tudo dependerá de Baty — dependera desde o começo. Até então, enfrentara e aposentara, um depois do outro, manifestações mais fracas de Baty. Chegara agora a vez do próprio Baty. Pensando nisso, o medo agravou-se, envolveu-o por completo, agora que o deixara aproximar-se de sua mente consciente.
— Agora, eu não posso ir sem você — disse a Rachael.
— Não posso nem mesmo sair daqui. Polokov veio atrás de mim; Garland virtualmente procurou-me.
— Você acha que Roy Baty virá pegá-lo? — Pondo de lado o copo vazio, ela inclinou-se para a frente, estendeu as mãos para trás e soltou o sutiã. Ágil, tirou-o do corpo, levantou-se, cambaleando, e riu alegre porque estava cambaleando. — Na minha bolsa — disse — tenho um mecanismo que nossa fábrica automática em Marte constrói como dispositivo de emer... — Fez uma careta. — Um aparelho de emergência de segurança, que têm sempre à mão quando submetem um andro recém-acabado a controles de inspeção de rotina. Apanhe-o. Parece uma ostra. Procure que você acha.

Ele já começara a mexer na bolsa. Como uma mulher humana, Rachael tinha na bolsa todos os tipos concebíveis de objetos surrupiados e escondidos. Continuou a busca interminável.

Enquanto isso, Rachael tirara as botas com um pontapé e descera o fecho do short. Equilibrando-se sobre um pé, pegou a peça retirada com o dedão e atirou-a para o outro lado do quarto. Caiu de novo na cama, rolou para apanhar o copo, acidentalmente derrubou-o no chão carpetado.

— Droga — disse ela e, trôpega, levantou-se outra vez.
Ali de calcinha, ficou a olhá-lo mexendo em sua bolsa.
Em seguida, com gestos deliberados e toda atenção, puxou para trás as cobertas, deitou-se e cobriu-se.
— É isto? — perguntou ele, mostrando uma esfera metálica, da qual se projetava um botão.
— Esse aparelho faz com que o andróide entre em estado de catalepsia — disse Rachael, olhos fechados. — Durante alguns segundos. Suspende-lhe a respiração, a de vocês também, mas humanos podem agir sem respirar...perspirar durante alguns minutos, mas o nervo pneumogástrico de um andro...
— Eu sei. — Espigou-se. O sistema nervoso autônomo do andróide não é tão flexível como o nosso para iniciar e interromper uma função. Mas, como você disse, isto não funcionará por mais de cinco ou seis segundos.
— É o suficiente — murmurou ela — para salvar sua vida. Assim, compreenda... — Ergueu-se, sentou-se na cama. — Se Roy Baty aparecer por aqui, você deve estar com isso na mão e apertar o botão dessa coisa. E enquanto ele estiver duro, sem suprimento de ar para o sangue e suas células cerebrais se deterioram, você pode matá-lo com seu laser,
— Você tem um tubo de laser — disse ele. — Em sua bolsa.
— Uma imitação. Andróides — bocejou, olhos fechados — não têm permissão para conduzir lasers.

Ele aproximou-se da cama.
Contorcendo-se, Rachael conseguiu finalmente rolar para cima do estômago, o rosto enterrado no lençol branco.
— Este é o tipo limpo, nobre, virgem de cama — declarou ela. — Apenas moça:; limpas, nobres, que... — Pensou um pouco. — Andróides não podem conceber filhos — disse em seguida. — Isto é mau?
Ele acabou de despi-la e lhe expôs o ventre pálido e frio.
— É um mal? — repetiu Rachael. — Não sei, realmente. Não tenho como saber. Como é que é ter um filho? Por falar nisto, como é nascer? Nós não nascemos, não crescemos; em vez de morrer de doença ou velhice, gastamo-nos, como as formigas. Formigas, novamente, é isso o que somos. Não você. Quero dizer eu. Máquinas quitinosas capazes de reflexos, que não estão realmente vivas. — Torceu a cabeça para um lado e disse em voz alta: — Eu não estou viva! Você não vai para a cama com uma mulher. Não fique desapontado, certo? Já fez amor antes com uma andróide?
— Não — confessou ele, tirando a gravata e a camisa.
— Sei — disseram-me que é convincente, se o humano não pensa muito na coisa. Mas se pensar demais, se refletir no que está fazendo...então você não pode continuar. Por  razões psicológicas.

Curvando-se, ele beijou-lhe o ombro nu.
— Obrigada, Rick — disse ela, lânguida —, lembre-se, porém, não pense nisto, simplesmente faça. Não pare e se meta a filosofar, porque, do ponto de vista filosófico, é desolador, para nós dois.
— Mas depois — disse ele — eu ainda tenciono ir pegar Roy Baty. Ainda vou precisar de sua presença comigo. Sei que o tubo de laser que você tem na bolsa é...
— Você pensa que vou aposentar para você um de seus andróides?
— Eu penso que, a despeito de tudo o que disse, você me ajudará no que puder. De outro modo, você não estaria deitada aí nessa cama.
— Eu amo você — disse Rachael. — Se eu entrasse num quarto e encontrasse um sofá forrado com seu couro, eu marcaria pontos bem altos no Teste Voigt-Kampff.

Hoje à noite, em algum momento, pensou enquanto desligava a luz da cabeceira, vou aposentar uma Nexus-6 que se parece exatamente com esta pequena nua.
Meu bom Deus, pensou, acabei onde Pris Resch disse que eu acabaria.
Faça amor com ela primeiro, lembrou-se. Depois, mate-a.
— Eu não posso fazer isto — disse ele e afastou-se da cama.
— Eu gostaria que pudesse — respondeu Rachael trêmula.
— Não por causa de você, mas por causa de Pris Stratton, do que vou ter que fazer com ela.
— Nós não somos a mesma. Eu não me importo com Pris Stratton. Escute aqui. — Mexeu-se na cama, levantando-se. Na escuridão, ele ainda assim conseguia distinguir a forma elegante, quase destituída de seios. — Faça amor comigo e eu aposentarei Stratton. Certo? Porque não posso suportar chegar assim tão perto e...
— Obrigado — disse ele. A gratidão, sem dúvida devido ao uísque, subiu em seu corpo, apertando-lhe a garganta.

Dois, pensou. Agora só tenho dois para aposentar, simplesmente os Batys.
Faria Rachael realmente isso? Evidentemente. Andróides pensavam e funcionavam assim. Ainda assim, em toda sua vida jamais encontrara coisa parecida.
— Droga, venha para a cama — disse Rachael.
Ele foi.



O Caçador de Androídes - Philip K. Dick (parte 17) [ Download ]

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Planet of the apes - An unofficial companion



CHAPTER ONE
THE MAN WHO STARTED IT ALL: PIERRE BOULLE

CHAPTER TWO
APES AT THE MOVIES

CHAPTER THREE
APES AT TELEVISION

CHAPTER FOUR
APES IN PRINT

CHAPTER FIVE
THE HISTORY OF PLANET OF THE APES:
A TIMELINE

CHAPTER SIX
GORILLAS FOR SALE:
MERCHANDISING PLANET OF THE APES:

CHAPTER SEVEN
GOING APE!
THE PLANET OF THE APES SUPERFANS

CHAPTER EIGHT
PLANET OF THE APES
REFERENCES/SPOOFS/TRIBUTES

CHAPTER NINE
THERE'S NO BUSINESS
LIKE MONKEY BUSINESS

CHAPTER TEN
WHATEVER HAPPENED TO ...

CHAPTER ELEVEN
2001: AN APES ODYSSEY

CHAPTER TWELVE
FOR MORE INFORMATION

CHAPTER THIRTEEN
BIBLIOGRAPHY


Planet of the apes - An unofficial companion [ Download ]



quinta-feira, 22 de julho de 2010

Guerre Stellari (HQ)



Guerre Stellari (HQ) [ Download ]

quarta-feira, 21 de julho de 2010

The World Treasury of Science Fiction



Este livro é a maior e a mais ambiciosa coletânea de ficção científica de todo o mundo já compilada.

Ela representa o estado da arte hoje. A data dos trabalhos selecionados se inicia em 1939 até o presente.
A maioria deles são dos últimos trinta anos, já que a ficção científica não era vista como uma forma literária internacional até 1950, e não se tornou verdadeiramente difundida, até mesmo no Ocidente, até a década de 1970.

Assim, esta antologia não poderia ter sido feita antes.



Foreword
Introduction

Kurt Vonnegut, ]r. - HARRISON BERGERON

John W Campbell,jr. - FORGETFULNESS

John Berryman - SPECIAL FLIGHT

I. G. Ballard - CHRONOPOLIS

Kono Tensei - TRICERATOPS

Theodore Sturgeon - THE MAN WHO LOST THE SEA

Karl Michael Armer - ON THE INSIDE TRACK

Avram Davidson - THE GOLEM

René Rebetez-Cortes - THE NEW PREHISTORY

Arthur C. Clarke - A MEETING WITH MEDUSA

Gérard Klein - THE VALLEY OF ECHOES

Gene Wolfe - THE FIFTH HEAD OF CERBERUS

John Updike - THE CHASTE PLANET

Nathalie-Charles Henneberg - THE BLIND PILOT

Alfred Bester - THE MEN WHO MURDERED MOHAMMED

Manuel van Loggem - PAIRPUPPETS

C. M. Kornbluth - TWO DOOMS

Stanislaw Lem - TALE OF THE COMPUTER THAT FOUGHT A DRAGON

Robert A. Heinlein - THE GREEN HILLS OF EARTH

Robert Sheckley - GHOST V

John Varley - THE PHANTOM OF KANSAS

Josef Nesvadba - CAPTAIN NEMO'S LAST ADVENTURE

Larry Niven - INCONSTANT MOON

Frederik Pohl - THE GOLD AT THE STARBOW'S END

Italo Calvino - A SIGN IN SPACE, THE SPIRAL

Isaac Asimov - THE DEAD PAST

Annemarie van Ewyck - THE LENS

Theodore Sturgeon - THE HURKLE IS A HAPPY BEAST

Ray Bradbury - ZERO HOUR

Ursula K. Le Guin - NINE LIVES

Anthony Burgess - THE MUSE

Steve Allen - THE PUBLIC HATING

Fritz Leiber - POOR SUPERMAN

Thomas M. Disch - ANGOULEME

Damon Knight - STRANGER STATION

Boris Vian - THE DEAD FISH

Kirill Bulychev - I WAS THE FIRST TO FIND YOU

Walter M. Miller, Jr.- THE LINEMAN

Jorge Luis Borges - TLON, UQBAR, ORBIS TERTIUS

Tor Age Bringsvaerd - CODEMUS

Brian Aldiss - A KIND OF ARTISTRY

Philip K. Dick - SECOND VARIETY

Keith Roberts - WEIHNACHTSABEND

Robert Bloch - I DO NOT LOVE THEE, DOCTOR FELL

Samuel R. Delany - AYE, AND GOMORRAH

Stanislaw Lem - HOW ERG THE SELF-INDUCTING SLEW A PALEFACE

Joanna Russ - NOBODY's HOME

Gerard Klein - PARTY LINE

Lewis Padgett - THE PROUD ROBOT

Henry Kuttner and C. L. Moore - VINTAGE SEASON

Arkady and Boris Strugatsky - THE WAY TO AMALTEIA

Acknowledgments


The World Treasury of Science Fiction - coletânea editada por David G.Hartwell [ Download ]

terça-feira, 20 de julho de 2010

Perry Rhodan (HQ)




Perry Rhodan - HQ - Nosso Homem no Espaço [ Download ]

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Visão Alienígena - Ensaios sobre a Ficção Científica Brasileira




A Devir estará lançando no dia 22 de Julho de 2010, na Livraria da Vila em São Paulo, o novo livro da brasilianista M. Elizabeth Ginway.

Visão Alienígena - Ensaios sobre a Ficção Científica Brasileira (232 páginas, R$ 35,00) é uma reunião de 14 ensaios publicados originalmente em livros e revistas acadêmicas dos Estados Unidos e no Brasil.

A autora americana, especialista em FC brasileira, estará autografando no local, além de participar de uma palestra com os presentes.

A Livraria da Vila fica na Alameda Lorena num.1731, Bairro Jardins, São Paulo.

Seu primeiro livro, Ficção Científica Brasileira: Mitos Culturais e Nacionalidade no País do Futuro (Brazilian Science Fiction: Cultural Myths and Nationhood in the Land of the Future) foi publicado nos EUA em 2004, e no ano seguinte aqui.

O lançamento inaugura o selo “Enciclopédia Galáctica” da Devir, dedicado a discussão e análise dos gêneros ficção científica, fantasia e horror.

domingo, 18 de julho de 2010

Entrevista com Terry Pratchett



Terry Pratchett é um escritor milionário.

É provavelmente o escritor mais apreciado e seguido fanaticamente da Inglaterra. Quase sempre está entre os primeiros nas listas de livros mais vendidos, e o único a fazer sucesso tanto com crianças quanto com adultos.

Prolifico, escreve praticamente dois livros por ano, e ninguém se espanta ao entrar em uma livraria e encontrar paredes inteiras tomadas com seus lançamentos. Nas suas turnês, centenas de fãs apaixonados ficam horas nas filas atrás de seu autógrafo. Ganhou a Carnegie Medal de literatura infantil.


Porém, se você cruzar com ele na rua, provavelmente não vai percebê-lo.
Entre seus colegas, Pratchet não desperta nem entusiasmo, nem reconhecimento.

Pratchet é um homem pequeno, quase sempre vestido de preto e usando um chapelão que esconde a calvicie. Apesar de seus muitos fãs e seus milhões no banco, e mesmo sendo um sucesso de vendas, sempre foi desprezado pela elite literária que torce o nariz para o gênero fantasia.

Pergunta: Você pode fazer um monte de inimigos aparecendo contente por ai, vendendo um monte de livros, ganhando muito dinheiro, sem se importar muito com isso.

Terry Pratchett: Se alguém me oferecesse, ganhar um prêmio famoso como o The Booker, ou ser o número um de vendas, eu diria que prefiro ser o número um! É uma coisa típica de um jornalista, você quer que suas palavras entrem na cabeça das pessoas, quanto mais gente melhor, e é claro, você quer ser pago por isso!

Seu carro-chefe de vendas, a série Discworld (um mundo que se sustenta nas costas de 4 elefantes que por sua vez são amparados por uma gigantesca tartaruga que navega no espaço) é sombrio e repleto de coisas estranhas, o mesmo elenco bizarro de gnomos, trolls, magos, zumbis, vampiros e duendes de sempre, comum, mas a fantasia escrita por Pratchett não é do tipo Harry Potter; ele assume que tem mais a ver com GK Chesterton neste aspecto, que é 'pegar aquilo que é familiar e cotidiano e transformá-lo, mostrando ao leitor, um ponto de vista diferente, como se visse tudo pela primeira vez.'

Pratchett: Minhas histórias mexem com conceitos reais, como política, liberdade de expressão..., mas basta colocar um dragão no meio disso para alguém te taxar de escritor de fantasia.

Sua primeira inspiração veio de 'The wind in the willows'. Como filho único, ele teve uma infancia idílica em uma vila de Beaconsfield, entre outros moleques. Não sabia ler até os dez anos, mas quando começou, lia tudo que podia ler e foi num sábado na biblioteca, que ele enveredou pela estante de literatura adulta.

Pratchett: 'The wind in the willows' era um livro incrivelmente estranho. Eu não o entendia muito bem, e por isto fiquei apaixonado por ele.

Pergunta: Discworld vai acabar algum dia?

TP: Sim, tem que acabar. Eventualmente vai se tornar muito restritivo. Enquanto eu puder fazer com que seja interessante... é um mundo, não preciso me fixar em um determinado personagem ou outro, mas há um limite. Tenho me preocupado estes anos em escrever livros, não em publicá-los, ou sendo um autor, o que pode ser dito em meu detrimento. Isso ocupa cada vez mais o meu tempo. Eu vou ter que dar um tempo e decidir onde diabos eu quero chegar.

Pergunta: Você raramente, ou nunca, disse muito sobre as origens de seu trabalho, e como nascem as ideias para suas histórias.

Pratchett: Eu nasci em uma enfermaria, mas logo fui levado para uma pequena aldeia em Buckinghamshire. Sou o típico exemplo de filho único. A casa em que eu cresci sequer tinha água. Era uma espécie de terra perdida. Tínhamos lampiões e minha mãe costumava voltar para casa com uma bateria de 90 volts para o rádio. Mas nós não pensávamos que éramos pobres. Sabíamos que estávamos todos na mesma situação, por isso pensei que era a maneira como as coisas eram.

Isso foi logo depois da guerra (Segunda Grande Guerra), de modo que, se você tivesse uma casa com um telhado sobre ela, você era um privilegiado. Havia muitas crianças na aldeia, e era idílico, porque nós éramos a geração pré-televisão. Estávamos sempre em meio a uma nuvem de poeira, com braços e pernas de fora. Nós não tivemos uma lagoa perto, caso contrário eu teria me afogado bem jovem. Mas tínhamos tudo o que se precisava nesta idade. Nós provavelmente nunca nos afastamos mais do que uma milha de nossa casa. Mas havia bosques e campos, você sabe. Era magnífico.

Uma das minhas primeiras memórias é a de ser levado pela minha mãe até uma grande loja chamada Gammages, em Londres, para ver o Papai Noel. Um menino que cresce em uma casa com velas e lampiões e derrepente vai parar em Londres, de trem... o que por si só já é uma emoção. Tinha uns seis anos. Fomos até uma loja de departamentos iluminada. Mais brinquedos do que eu era capaz de imaginar.
Muito da minha escrita no futuro se deveria ao que aconteceu naquele dia. Eu me perdi naquela loja. Quando minha mãe me encontrou, eu estava subindo as escadas para descer em seguida, do outro lado.

O bom desta época era que, ao passo que outras crianças tinham muitos irmãos e irmãs, eu tinha um quarto só para mim, e na época do Natal, todos os presentes eram para um garoto só.

Pergunta: E então, no decorrer do tempo você descobriu o fandom.

Pratchett: Isso veio mais tarde. Em 1957, a Brook Bond (chá); lançou seus cartões sobre o espaço. Minha família toda bebia chá para que eu pudesse colecionar essas coisas. Eram como cartões de beisebol. Levei um tempo para perceber isso, e só no último ano eu descobri a astronomia. Tínhamos um céu muito limpo. Tinha uns 50 destes cartões de chá e, basicamente, eu sabia mais de astronomia do que 99,99 por cento da população. E eu colecionava avidamente e observava o céu.

Você sabe, depois que você sai de casa, sua mãe joga fora todas as suas coisas. Recentemente entrei em contato com um colecionador, graças a Internet, e comprei os cartões novamente. Eu era como Proust menino. Ele come um biscoito e volta no tempo. Olhei para o cartão com Júpiter, o planeta é preto e roxo nesse cartão, e eu tenho 9 anos de idade novamente.

Meus pais então me compraram um telescópio. Tudo o que você podia ver tinha um halo em volta dele. Fiquei especialista na lua. E depois de alguns anos comprei um LX2000 Meade, e depois tive um observatório próprio.

Curiosamente, a ficção científica veio da astronomia. Eu não era realmente um astrônomo, porque os astrônomos têm que levar a coisa a sério, e fazer matemática. Eu achava muito legal porque você podia ficar acordado a noite toda.

Eu tenho um tipo de mentalidade turística. Tenho interesse nas coisas. Eu aprendo o bastante, mas nunca vou totalmente a fundo. Eu tinha um rádio de ondas curtas. Eu o construí, um receptor, e era divertido. Então, eu inventei o circuito integrado.

Pergunta: Como assim?

Pratchett: Foi interessante. Eu não sabia de alguém que tinha feito isso antes, mas eu estava sentado lá pensando, construía esses rádios transistores pouco maiores que caixas de fósforos. Eu tinha um transistor, que me custou sete shillings e seis pence, um terço de uma libra hoje. E transistores eram caros, tinha que juntar dinheiro para comprar um transistor. E eu pensei: "OK, e se eu pudesse fazer com que o resistor, o capacitor e o transistor e o diodo, todos fizessem parte da mesma peça? Para que você precisa de fio entre eles?” Eu tinha apenas 13 anos na época, mas se eu fosse um pouco mais velho, e corresse rápido ao escritório de patentes, quem sabe?

Pergunta: Lembro-me da história de Arthur C. Clarke, de que se ele patenteasse o conceito de satélites de comunicações, teria se aposentado rico em 1947.

Pratchett: Ficção Científica. Tudo isso me excitava. Isso e o fato de te lido "The wind in the willows”, de Kenneth Grahame, eu estava ficando interessado em fantasia. Estava sendo atraído e finalmente seria sugado pela "ficção científica". Acho que li tudo que foi publicado em capa dura de FC. Nem toda FC era publicada em revistas, mas se você fosse numa convenção, todos tinham lido o que você leu. E as meninas eram proibidas nestes lugares.

Pergunta: E sua primeira venda?

Pratchett: Eu tinha 13 anos. Depois da escola eu costumava ir a um lugar em Alta Wickham, um pequeno barracão que chamávamos de "A pequena livraria", onde uma senhora idosa fazendo tricô e chá durante todo o dia, vendia pornografia. Mas para ter algo para colocar nas vitrines, ela parecia ter um suprimento ilimitado, de qualidade razoavelmente boa, de FC britânica e americana. Acho que deve ter vindo da base aérea nas proximidades. Eu ia lá duas vezes por semana, depois da escola.

Estava consciente de que as prateleiras mais altas tinham um material proibido.

Mas todo o chão estava tomado por caixas de papelão cheias de coisas maravilhosas; Deus sabe, eu acho que minha mãe jogou tudo fora.

Qualquer pessoa que soubesse o que a loja vendia, deveria ficar perplexa com esse garoto de 13 anos de idade, que ia lá duas vezes por semana e saia com uma mochila cheia! Quero dizer, como diabos ele encontrava tempo para fazer sua lição de casa?

Sim, eu fiz uma venda e eu descobri sobre o fandom, e fui para minha primeira convenção em 1963 ou 64, e foi isso. Eu abandonei o colégio depois de três ou quatro anos, porque tinha um emprego, eu era um jornalista estagiário no jornal local, o que significava que você era um coitado. Trabalhava duro e eles te pagavam uma ninharia, mas você era o aprendiz, você estava aprendendo um ofício. Eu trabalhava à noite, e eu estava namorando, e estava estudando para os exames que você tem que passar para obter o seu certificado de formação, e não tinha tempo para mais nada.

Mas eu sempre tive um livro na cabeça, e que levaria cerca de cinco anos para escrevê-lo. Depois que eu publiquei 'The colour of Magic' (1983), ele realmente começou a vender rápido. E assim, ganancioso, eu escrevi Light Fantastic (1986), e minha vida mudou de repente. Quando escrevi Mort (1987), que foi o quarto livro, eu estava fazendo dinheiro com os livros, mais do que o suficiente para largar o trabalho, que como todos sabem, eu era assessor de imprensa de uma usina de energia nuclear.

Pergunta: Estou certo em recordar que assumiu o cargo logo após o acidente de Three Mile Island?

Pratchett: [riso] Entrei para a indústria não muito depois de Three Mile Island (1979), e eu estava lá quando veio Chernobyl (1986). Mas nós tínhamos nossos próprios acidentes locais. Toda sexta-feira parecia que um dos reatores iria explodir. Meu trabalho era dizer: "Bem, nós não deixamos escapar muita radioatividade!" Na verdade, nada muito grave realmente aconteceu, mas a sensibilidade para as questões nucleares era tanta que até um desligamento planejado se tornou um grande negócio.

Eu aprendi muito sobre esse trabalho. Quando você coloca cientistas e engenheiros e burocratas, todos juntos no mesmo edifício, todo tipo de coisas interessantes surgem.

Pergunta: Discworld é possivelmente a mais bem sucedida saga sobre eras.

Pratchett: Bem, tem essa mulher, eu não sei se você já ouviu falar dela... Se você reduzir um pouco os parâmetros, como "a maior saga escrita por um careca", esse tipo de coisa, bem, talvez seja. OK, ok, vendeu bem. Cerca de 40 milhões de cópias em todo o mundo até agora.

Como eu posso explicar... Era para me divertir com alguns clichês do gênero. Foi tão simples assim. Ao longo dos anos foi sendo construída, de toda a leitura aleatória que eu lia, uma espécie de investigação sem saber o que é que você está pesquisando. A natureza de Discworld me deu a oportunidade de fazer todo tipo de coisas. Poderia caber tudo nele. Por volta do quarto livro eu descobri a alegria da trama. (em Mort). Voltei um pouco no tempo com Sourcery [1988], porque eu sabia que os fãs queriam mais de Rincewind. Eu particularmente não gostei de escrevê-lo, mas ficou na lista dos best-seller por três meses. E então eu disse: "Esquece os fãs, vou fazer o que eu gosto!"

Agora, eu meio a fazer minhas próprias coisas, e pelo fato que muito mudou ao longo dos anos, acho que no geral eu escrevo melhor do que antes. Havia, de certa modo, mais liberdade nos livros iniciais, porque o maior problema com um universo criado como este é que ele fica cheio.

Isso se torna um tipo de problema, é como ter o Superman no local e não há realmente muito espaço para Batman. Será o simples peso da história e da geografia que provavelmente irá acabar com Discworld ao fim.

Pergunta: Como o conceito de bruxaria chamou a atenção de um menino?

Pratchett: Uma coisa particular sobre a Inglaterra é que a magia está em toda parte. Certamente nos campos, cada pedra tem uma lenda sobre ela. Cada morro é um lugar onde Arthur esteve.

Pergunta: Cada nascente...

Pratchett: ...é santa ou algo parecido, ou provavelmente pertence a fadas ou santos, ou ambos. Quando morávamos em Mendips, a uma curta distância de Wimblestone, no Solstício de Verão tinha gente que ia dançar no campo, e há todas aquelas histórias sobre um agricultor que tentou arrancar as pedras com seus cavalos e não conseguiu movê-las. Na verdade, é um pedaço de conglomerado dolomítico, se por acaso você souber do que falo.

Pergunta: Eu tenho que perguntar, qual era o pub mais próximo?

Pratchett: Dizem que todos os pubs de Mendips são conectados por linhas retas... a sidra faz coisas muito estranhas ao cérebro.

Pergunta: Terry, você prestou o serviço militar?

Pratchett: Não, ele deixou de ser obrigatório cerca de três anos antes da minha vez, senão eu teria servido.

Pergunta: Eu pergunto isso porque muitas das observações em seus livros, sobre militares, são agudas, por exemplo, a forma como os soldados jovens fumam cigarros.

Pratchett: Bem, sim. Eu realmente vi um cara que quando via alguém chegando, e ele não deveria ser pego fumando, ele fazia isso. [Ele imita um homem escondendo um cigarro aceso na boca.] É apenas uma observação da vida. Eu fico o tempo todo respondendo a coisas assim, sobre os militares, como você sabe sobre bruxas... Bem, é dinâmica de grupo. Como a dinâmica de um grupo, com uma classe de oficiais acima deles, por exemplo. É apenas a maneira como as pessoas agem. 

(...) Sou fascinado com motores a vapor e telégrafo, e mecanismos intrincados. Acho que a tecnologia estava em sua melhor forma, pouco antes da era digital, porque você só usava a eletricidade para girar os motores. No momento que a telefonia substituiu a telegrafia, encontraram formas de receber 12 mensagens simultaneamente ao longo de um fio telegráfico.

A verdadeira ingenuidade de um Jules Verne aplicada a um mundo de engrenagens e palhetas vibratórias. Era bem mais divertido do que circuitos integrados.

Pergunta: Você já ganhou muitos prêmios, e há um em particular que continua mais misterioso para aqueles nascidos na América, do que qualquer outro. Em 1998 lhe foi concedida a Ordem do Império Britânico. Agora, se eu entendi bem, você não tem que ir ao Palácio de Buckingham e conhecer a rainha?

Pratchett: Foi o príncipe Charles neste dia. E ele se disse um admirador de Discworld.

Pergunta: E como foi a conversa?

Pratchett: Bem, eu queria colocá-lo à vontade. Eu disse, "Bom, há quanto tempo você tem sido um príncipe? Tanto tempo assim?" Ele fez algumas perguntas. Ele não disse: "Ei, sou um dos seus maiores fãs. Pode autografar um livro para mim?" A família real não faz esse tipo de coisa.

Deixe-me explicar como funciona. Você recebe uma carta do gabinete do primeiro-ministro, e a primeira coisa que fiz foi telefonar para o meu agente e dizer: "Isto é uma piada, não é?" E ele fez um silêncio para depois dizer: "Não é uma piada."

Foi um grande dia quando tudo aconteceu. Maio. Meu último livro tinha alcançado o número um em vendas. Então eu saí no meu jardim e uma orquídea selvagem tinha florescido. E então eu abri esta carta dizendo que eu tinha sido indicado a OBE (Order of the British Empire). Assim, foi algo como se os leitores, Deus e a realeza, tivessem me premiado no mesmo dia.

A carta do gabinete do primeiro-ministro é muito estranha. Ela diz: "Agora olhe, se fôssemos dar-lhe um prêmio, e nós não estamos dizendo que vamos dar, se nós disséssemos que sim, você não diria não, certo?" Tudo isso para salvar do embaraço. E então eu escrevi uma carta de volta, dizendo: "Se vocês o fizerem, e eu entendo que vocês talvez não o façam, eu com toda a probabilidade diria sim". Você tem que ter muito calma sobre isso. O que é um pouco difícil.

Como quando eu ganhei o prêmio Carnegie, que é possivelmente o maior prêmio de livros infantis. Você fica sabendo cerca de dois meses antes da divulgação. E é muito difícil não falar sobre isso. Você tem que manter o silêncio sobre o assunto.

E então minha mãe veio me ver receber a ordem. E vocês podem imaginar a minha mãe andando pelo Palácio de Buckingham. [ele imita a mãe limpando a poeira da mesa e balançando a cabeça em desaprovação] Minha esposa e minha filha também estavam lá. Foi muito bom.

Mas foi estranho. Todos os OBEs entrando, e todos os CBEs e MBEs e IBES, HGI, HIVS, tudo de uma só vez. E não há álcool. O Palácio de Buckingham tem feito isso já há muito tempo. Não há nenhum álcool na cerimônia. De qualquer modo, eu estava em um traje elegante de morrer e depois de você finalmente conversar um pouco, tudo que você quer é um brandy.

É meio estranho, porque o único serviço que eu prestei para a literatura foi declarar em cada ocasião possível que eu não gostava daquilo. Eu não estou muito certo porque aceitei. É quase que uma moda fazer pouco disso. Mas só vale a pena fazê-lo se você pode dizer às pessoas que você menospreza aquilo, não adianta se ninguém souber, não é? Eu pensei; quando as pessoas me perguntarem por que eu aceitei, darei a melhor razão: Para fazer minha mãe orgulhosa.

Outra resposta seria que nós sempre brigamos para tirar a Ficção Científica do seu gueto. Bem, se eles estão indo te premiar com tanta pompa, esteja lá quando as medalhas forem entregues. Nunca recuse uma medalha ou uma promoção.



Entrevista concedida a Jim Young na Minicon (2005) e ao The Guardian (8-11-02)