sábado, 30 de outubro de 2010

Solaris - Stanislaw Lem (parte 9)




 – É impossível, amor.

Olhou-me de cima para baixo. Depois agarrou-me subitamente na mão. E a minha mão deixou-se ficar, subiu pelo braço quente e roliço. Contra minha vontade, estava a acariciá-la. O meu corpo reconhecia o seu corpo; o meu corpo desejava-a, o meu corpo estava atraído pelo dela para lá de toda a razão, pensamento ou medo.

Tentando desesperadamente manter-me calmo, repeti:
– Rheya, é impossível. Tem que ficar aqui.
Pelo quarto ecoou uma única palavra:
– Não.
– Porquê?
– Não... não sei.

Olhou em volta, depois mais uma vez ergueu os olhos para mim.
– Não posso — sussurrou.
– Mas porquê?
– Não sei. Não posso. É como se... como se...

Lutou para encontrar a resposta, e, quando a proferiu, esta pareceu ter sobre ela o efeito de uma revelação.
– É como se não pudesse te ter longe da vista.

O tom resoluto da sua voz dificilmente poderia sugerir uma declaração de amor; sugeria algo de absolutamente diferente. Quando cheguei a esta conclusão, o modo como abraçava Rheya sofreu uma alteração abrupta, se bem que não imediatamente perceptível. Segurava-a nos braços e fixava-a nos olhos.
Imperceptivelmente, quase que por instinto, comecei a puxar-lhe as mãos para trás das costas, ao mesmo tempo que estudava o quarto com os olhos: precisava de alguma coisa que servisse para lhe amarrar as mãos.

De repente arremessou os dois cotovelos e deu-me um forte empurrão.
Resisti menos de um segundo.
Atirado para trás e quase levantado do chão, mesmo que fosse um atleta não me poderia ter libertado.
Rheya endireitou-se e deixou cair os braços.
A sua face, iluminada por um sorriso incerto, não tomara parte na luta.
Olhava-me com o mesmo interesse calmo que mostrara quando eu tinha acordado — como se absolutamente desinteressada pela minha tentativa desesperada, como se não tivesse a mínima consciência de que algo acontecera e não tivesse notado o meu súbito pânico. Estava ali em pé à minha frente, à espera, grave, passiva, ligeiramente surpresa.

Abandonando Rheya no meio do quarto, fui até ao lavatório.

Estava prisioneiro, apanhado numa ratoeira absurda de que estava decidido a escapar a todo o custo. Teria sido incapaz de pôr em palavras o significado do que me acontecera ou do que me estava a passar pela cabeça, mas apercebi-me agora de que a minha situação era idêntica à dos outros habitantes da Estação, que tudo o que experimentara, descobrira ou adivinhara fazia parte de um único todo, aterrador e incompreensível.
Entretanto, espremia o cérebro para pensar nalguma artimanha para descobrir qualquer processo de fuga.

Sem me voltar, podia sentir os olhos de Rheya sobre mim.
Sobre o lavatório havia um armário de remédios. Verifiquei rapidamente o seu conteúdo e descobri um frasco com comprimidos para dormir. Tirei quatro — a dose máxima —, meti-os num copo e enchi-o com água quente. Fiz pouco esforço para esconder de Rheya as minhas ações. Porquê? Nem me dei o trabalho de pensar na razão. Quando os comprimidos se dissolveram, voltei para junto de Rheya, que continuava no mesmo lugar.

– Está zangado comigo? — perguntou-me em voz baixa.
– Não. Bebe isto.
Inconscientemente, sempre soubera que ela me obedeceria. Pegou no copo sem uma palavra e bebeu a mistura escaldante de uma só vez. Pousando o copo vazio sobre um banco, fui sentar-me numa cadeira no canto do quarto.
Rheya veio para junto de mim, sentando-se no chão, como era seu costume, com as pernas dobradas sob o corpo e atirando o cabelo para trás.

Eu já não tinha qualquer ilusão: isto não era Rheya; e, contudo, reconhecia todos os seus gestos habituais.

Uma sensação de horror apertou-me a garganta; e o que era mais horrível era que eu tinha de continuar a enganá-la, fingindo tomá-la por Rheya, enquanto ela própria sinceramente acreditava qüe era Rheya — disso eu tinha a certeza, se ainda podia ter a certeza de alguma coisa.

Estava encostada aos meus joelhos, o cabelo roçava-me pela mão.
Assim permanecemos algum tempo. De vez em quando olhava para o relógio.
Meia hora passou; os comprimidos para dormir deviam ter começado a fazer efeito.
Rheya murmurou algo:
– Que disse?
Não houve resposta.

Embora atribuísse seu silêncio ao sono, no fundo duvidava de que os comprimidos fizessem efeito. Mais uma vez não me perguntei por quê. Talvez fosse porque o meu subterfúgio me parecia demasiado simples.
Lentamente a sua cabeça escorregou sobre os meus joelhos, o cabelo negro caído sobre a face. A respiração tornou-se mais profunda e regular: dormia.

Curvei-me para levantá-la e pôr na cama. Quando o fiz, os seus olhos abriram-se; lançou-me os braços em volta do pescoço e rebentou às gargalhadas.
Fiquei aturdido.

Rheya mal podia conter a hilaridade. Com uma expressão que era simultaneamente ingênua e astuciosa, observava-me por entre as pálpebras semi-cerradas.
Sentei-me de novo, tenso, estupidificado, desamparado.
Com uma risada final, enovelou-se contra as minhas pernas.
Em voz sem expressão, perguntei:
– Por que está rindo?
De novo um olhar de ansiedade e surpresa apareceu-lhe na face. Era visível que me queria dar uma explicação honesta. Deu um suspiro profundo e coçou o nariz como uma criança.
– Não sei — disse, por fim, com genuíno espanto. — Estou me comportando como uma idiota, não estou? Mas você também... está com um ar idiota, todo rígido e pomposo como... como Pelvis.

Quase não podia acreditar nos meus ouvidos.

– Como quem?
– Como Pelvis. Sabes bem a quem me refiro, aquele homem gordo...
Rheya nunca poderia ter conhecido Pelvis ou até ter-me ouvido mencionar o seu nome, pela simples razão de ter ele regressado de uma expedição três anos depois da morte dela. Não o tinha conhecido anteriormente, e por isso desconhecia o seu hábito inveterado de deixar as sessões arrastarem-se indefinidamente sempre que presidia a reuniões do Instituto. E mais, o seu nome era Pelle Willis, e até ao seu regresso eu não sabia que lhe tinham posto a alcunha de Pelvis.

Rheya apoiou os cotovelos nos meus joelhos e fixou-me nos olhos.
Estendi a mão e acariciei-lhe os braços, os ombros e a base do pescoço nu, que senti pulsar sob os meus dedos. Embora parecesse que a estava a acariciar (e, a julgar pela sua expressão, era assim que ela interpretava o toque das minhas mãos), na realidade estava a verificar mais uma vez que o seu corpo era quente ao tato, um corpo humano vulgar, com músculos, ossos, articulações.

Fitando-a calmamente nos olhos, senti o horrível desejo de apertar seu pescoço.
Recordei de súbito as mãos manchadas de sangue de Snow e larguei-a.
– Que estranho olhar — disse Rheya placidamente.

O meu coração batia com tanta fúria que me sentia incapaz de falar.
Fechei os olhos. Nesse mesmo instante surgiu-me na mente um plano de ação, completo em todos os detalhes. Não havia um segundo a perder. Levantei-me.

– Tenho de sair, Rheya. Se insiste terminantemente em vir, te levo comigo.
– Ótimo.
Pôs-se de pé de um salto.
Abri o armário e escolhi um traje para cada um de nós. Depois perguntei:
– Por que estás descalça?
Respondeu de modo hesitante.
– Não sei... Devo ter deixado os sapatos em qualquer lado.
Não insisti no assunto.
– Tem que despir o vestido e enfiar isto.
– Traje de vôo? Para quê?
Quando tentou tirar o vestido, ficou patente um fato extraordinário: não tinha qualquer fecho ou botão; os botões encarnados que se viam na frente eram apenas decorativos. Rheya sorriu, embaraçada.

Como se fosse o modo mais banal de proceder, apanhei do chão uma espécie de abridor de cartas e fendi-lhe o vestido nas costas, do pescoço até à cintura, para que o pudesse tirar pela cabeça.
Quando acabou de vestir o traje (que era um pouco grande para ela) e estávamos prontos para sair, perguntou:
– Vamos fazer um voo?
Apenas acenei que sim. Estava com medo de me cruzar com Snow. Mas o átrio estava vazio e a porta que dava para a cabina de rádio encontrava-se fechada.
No piso de aterragem pairava ainda um silêncio de morte.
Rheya seguia atentamente os meus movimentos.

Abri um cubículo e examinei o veículo para curtas distâncias que estava dentro. Verifiquei, um após outro, o micro-reator, os controles e os difusores.
Depois, tendo retirado a cápsula vazia da sua base, conduzi a carreta elétrica em direção à rampa inclinada.
Tinha escolhido uma nave pequena, usada para transportar material entre a Estação e o satélite, uma que normalmente não transportava pessoal porque não abria do lado de dentro. A escolha fora cuidadosamente calculada de acordo com o meu plano.
Claro que não tinha qualquer intenção de lançá-la, mas simulei os preparativos para uma verdadeira partida.
Rheya, que muitas vezes me acompanhara em voos espaciais, conhecia bem a rotina preliminar. Dentro da cabine, verifiquei que os sistemas de climatização e de abastecimento de oxigênio estavam a funcionar. Liguei o circuito principal e os indicadores do painel dos instrumentos acenderam-se.
Saí novamente, e disse a Rheya, que esperava no fundo das escadas:
– Entra.
– E você?
– Vou depois. Tenho de fechar a escotilha.

Não deu sinal de suspeitar de qualquer partida.
Quando desapareceu no interior, enfiei a cabeça pela abertura e perguntei:
– Está confortável?
Ouvi um “sim” abafado vindo do interior da cabine. Tirei a cabeça e fechei a escotilha com toda a força. Fiz deslizar os ferrolhos e apertei os cinco parafusos de segurança com a chave especial que trouxera comigo.
O esguio charuto de metal ali ficou, apontando para o alto, como se realmente estivesse pronto para partir para o espaço.

A prisioneira dentro dele não corria qualquer perigo: os tanques de oxigênio estavam cheios e havia alimento na cabine.
De qualquer modo, não pretendia mantê-la infinitamente presa.
Precisava desesperadamente de duas horas de liberdade para poder concentrar-me nas decisões que tinham de ser tomadas e para, juntamente com Snow, estudar um plano.
Quando apertava o penúltimo parafuso, senti uma vibração no gancho de três braços que segurava a base da nave. Pensei que, ao manejar precipitadamente a pesada chave, devia ter desapertado um pouco o suporte, mas, quando recuei para verificar, fui recebido por um espetáculo, que espero nunca mais ver.

Todo o veículo abanava, como se sacudido do interior por uma força sobre-humana. Nem mesmo um robô de aço poderia ter provocado tal tremor convulsivo numa massa de oito toneladas, e contudo, a cabina continha apenas uma frágil moça de cabelo negro.
Os reflexos das luzes tremiam sobre os lados reluzentes da nave.
Não ouvia pancadas; do interior não vinha o menor som. Mas os esteios vibravam como cabos muito esticados. A violência das ondas de choque era tal que temi que toda a armação acabasse por cair.

Apertei o último parafuso com a mão a tremer, atirei fora a chave e saltei da escada.
Enquanto recuava lentamente, notei que os amortecedores, desenhados para resistir a uma pressão contínua, vibravam furiosamente.
Parecia-me que a camada exterior da nave estava a enrugar-se.

Freneticamente, precipitei-me sobre o painel de controle e, com ambas as mãos, levantei a alavanca de partida. Assim que o fiz, o inter-comunicador ligado ao interior da nave lançou um som penetrante — não um grito, mas um som que não tinha a mínima semelhança com a voz humana, no qual pude, contudo, perceber o meu nome, continuamente repetido:

— Kris! Kris! Kris!

Tinha pressionado os controles de tal modo, atrapalhando-me com a pressa, que os meus dedos tinham ficado feridos e a sangrar.
Um fulgor azulado, como o de uma madrugada fantasmagórica, iluminou as paredes.

Nuvens rodopiantes de uma poeira etérea redemoinharam em volta da base de lançamento; a poeira transformou-se numa coluna de violentos relâmpagos, e os ecos de um trovejar apagaram todos os outros barulhos.
Três chamas, juntando-se instantaneamente num único pilar de fogo, fizeram subir a nave, que se elevou através da escotilha aberta na cúpula, deixando atrás de si um rastro reluzente, que ondeava enquanto gradualmente se desvanecia.
Escudos correram sobre a escotilha e os ventiladores automáticos começaram a sugar a fumaça acre que se amontoava na sala.

Só mais tarde me lembrei de todos estes detalhes; na altura mal sabia o que estava a ver. Agarrado ao painel de controle, o calor terrível a queimar-me a cara e chamuscando-me o cabelo, inalava o ar acre, que cheirava a uma mistura de carburante em combustão e de ozônio, produzido pela ionização.

No momento da partida fechara instintivamente os olhos, mas o clarão atravessara-me as pálpebras. Durante algum tempo podia ver somente espirais pretas, encarnadas e douradas, que lentamente se apagaram. Os ventiladores continuavam a zunir; a fumaça e a poeira desapareciam gradualmente.
A luz verde da tela de radar chamou-me a atenção. Minhas mãos voaram sobre os  controles quando comecei a procurar a nave. Quando finalmente a localizei, voava já acima da atmosfera. Nunca lançara um veículo tão às cegas e sem pensar, sem velocidade ou direção pré-estabelecidas. Nem mesmo conhecia o seu raio de ação, e temia causar qualquer desastre imprevisível. Calculei que a coisa mais fácil a fazer seria pô-la numa órbita estacionária em volta de Solaris e desligar os motores.
Verifiquei nas tabelas que a altura necessária eram 725 milhas.
Não tinha qualquer garantia, claro, mas não via outra saída.

Não tive coragem para ligar o inter-comunicador, que fora desligado no momento da largada. Não suportava a idéia de novamente me expor ao som daquela voz aterradora, que não era nem remotamente humana.
Pensei que se justificava pensar que vencera o “simulacro” e que, por trás da ilusão, contrariamente a tudo o que se poderia esperar, encontrara novamente a verdadeira Rheya — a Rheya das minhas recordações, a qual teria sido destruída pela hipótese de loucura da minha parte.

À uma hora saí da zona de lançamento.


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sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Fuga para parte alguma - Jeronymo Monteiro





— Devíamos dar parte, Osm.
— Ainda não. Nós mesmos vamos resolver o problema aqui. Você sabe como é que eles agem, Vic. Estão assustados demais. Se a gente der parte, chegam aqui e destroem tudo. Acho que não há necessidade.
— Ontem destruiram completamente as culturas do Setor 16.
— É o que eles sabem fazer. Temos ainda 34 setores intatos e devemos protegê-los contra a destruição inútil. Não convém perder a cabeça. Temos que exterminar sozinhos estas malditas formigas.
— Mas eles dizem que...
— Viu o que fizeram na zona B? Não ficou uma única planta viva e todos os pavilhões precisam ser reconstruídos.
— E parece que as formigas apareceram de novo...
— Miseráveis!

Vic e Osm penetraram no grande pavilhão e pouco depois tornaram a aparecer, agora acompanhados por mais seis homens. Todos traziam a tira-colo seus tubos projetores de raios Vonde — engenhos terríveis capazes de destruir e calcinar tudo aquilo que atingiam.

Tomaram a estrada que levava ao Setor 16, conduzindo rapidamente seus pequenos carros de campo. Em poucos minutos alcançaram o grande terreno, antes inteiramente cultivado, mas agora cenário de devastação total. Metodicamente, como mandavam as instruções, puseram-se a atacar, com os Raios Vonde, os grandes orifícios que as formigas tinham deixado abertos à flor da terra. Por esses orifícios haviam desaparecido, durante a noite, toneladas de folhas, caules e galhos que agora, no interior das câmaras dos formigueiros, estavam sendo submetidos ao tratamento que fazia surgir os fungos de que as formigas se alimentavam. Os projetores de Raios Vonde silvavam e o feixe calcinante penetrava os enormes orifícios.

Durante várias horas os oito homens se entregaram ao monótono trabalho, sentindo na carne o sacrifício. Sabiam que durante muito tempo aquele solo atormentado nada produziria.

Terminado o serviço, os homens voltaram à sede do Setor. Não falavam. Sentiam um estranho peso no peito.

Na sala da Administração reuniram-se aos outros homens para ouvir as instruções que estavam sendo transmitidas pelo televisor — instruções, notícias e conselhos. A luta contra as formigas se propagava por todo o globo terrestre, cada dia mais ampla e completa. Era muito urgente exterminar aqueles temíveis insetos que pareciam dispostos a destruir todas as culturas vegetais da terra. As brigadas volantes de ataque aos formigueiros subiam agora a dez mil e movimentavam-se rapidamente para qualquer ponto do globo, em seus aviões-foguetes, atendendo aos apelos onde quer que fossem formulados. Organizara-se um P.G. que centralizava o serviço, recebendo os pedidos e transmitindo as ordens.

Nesse dia os homens ficaram sabendo que haviam sido assinalados os primeiros ataques de formigas a zonas não agrícolas. Durante a noite anterior, uma colônia de pesca do litoral do Pacífico fora invadida e várias crianças, surpreendidas quando dormiam na praia, foram devoradas pelas formigas negras gigantes. Quando deram conta do ataque, já nada se pôde fazer. Alguns parentes que, levados pelo amor às crianças, tentaram socorrê-las, foram também atacados e seus cadáveres se amontoaram sobre os das crianças. A colônia fora abandonada mais tarde, depois de verem, horrorizados, que as formigas, aos milhões, haviam deixado apenas os ossos de suas vítimas, tendo carregado toda a carne, aos pedacinhos, para seus insondáveis formigueiros.

O Comitê Mundial recomendava insistentemente a todos que não se descuidassem, que comunicassem qualquer ocorrência de formigas, por menor que fosse — porque o perigo era muito maior do que se poderia supor à primeira vista.

As notícias referentes às atividades das formigas vinham de todos os pontos do globo e quase se atropelavam:

— Um setor da Usina de Energia Atômica da Europa acaba de submergir num imenso formigueiro! Há milhares de vítimas!
— Um quarteirão inteiro da cidade de Oslam ruiu, tragado por um formigueiro cuja cúpula se abateu. O Serviço de Socorros conseguiu salvar apenas 350 das 4.893 pessoas vitimadas pela catástrofe.
— Foram destruídas pelas formigas todas as plantações do Campo Experimental do Norte da América.
As notícias se sucediam por períodos, com intervalos irregulares de sossego. Nenhuma delas, porém, anunciava vitória dos homens sobre as formigas. Era sempre o contrário.
— Isto está ficando pior a cada momento — comentou Vic, interpretando o pensamento geral. — Se os sábios não descobrirem rapidamente um meio eficaz de destruir formigas, vai haver grande desgraça em todo o mundo. Vai haver fome.
— E essas que devoram gente? — perguntou, arregalando os olhos, um homenzinho baixo e magro. — Que coisa pavorosa! Como é que a gente vai se livrar delas? Não há jeito! A gente tem que vêr com os próprios olhos as formigas devorar nossos filhos — sem poder fazer nada!
— Precisamos é de coragem — continuou Vic. — Se desanimarmos, estará tudo perdido. Quanto mais graves forem os acontecimentos, mais coragem teremos que ter. É claro. Felizmente, por aqui só temos essas formigas herbívoras. As carnívoras não chegaram por estes lados. O perigo aqui é menor.
— Tomara que você não se engane, Vic...
— Que quer dizer, Osm?
— Nada...


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quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Magazine de Ficção Científica num.10 (1971)



CONTOS ESTRANGEIROS
A Garota com Olhos de 1000 - Ron Webb
Encontro em Lankhmar - Fritz Leiber
A Execução Fatal - Poul Anderson
Tlön, Uqbar, Orbis Tertius - Jorge Luis Borges
CONTO BRASILEIRO
Alfredo - Luciano Rodrigues
CIÊNCIA
Preenchendo as Lacunas - Isaac Asimov

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quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Magazine de Ficção Científica num.5 (1970)



EDITORIAL

Os caminhos da FC tomaram hoje rumos tão diferentes daqueles que o gênero trilhava há apenas 10 ou 15 anos que os que não vêm acompanhando o desenrolar dos temas e dos recursos têm dificuldade em identificar as modernas estórias com aquelas publicadas nos “velhos” tempos.

Os autores partiram da viagem interplanetária, das estórias de conquistas de planetas, de invasão da Terra, das batalhas espaciais para a busca do mundo que há dentro do Homem, sempre usando o recurso da extrapolação - para, partindo de possibilidades científicas, dar outra dimensão ao homem e a seus anseios na realização dos seus ideais. E nisto não há campo que não possa ser explorado.

Percorram os volumes desta revista já publicados e contem os trabalhos que versam sobre lutas espaciais, viagens e coisas assim: Quantos encontrarão? Em compensação, pensem um pouco nos temas variadíssimos explorados nas estórias que vimos apresentando. Têm, aí, um panorama bem evidente na moderna FC. Mesmo os contos de autores nacionais que estampamos aqui, são típicos. “A Invasão”, de Clovis Garcia, publicado no n.° 4, aborda um assunto clássico, mas de maneira tão moderna, que pode ser incluído entre o que há de mais novo no gênero.

E não podemos perder de vista a advertência de Charles-Noel Martin (citado por Rubens Teixeira Scavone, no Suplemento Literário de “O Estado de São Paulo”, de 25/10/69):

“A ciência não é apenas aquilo que a tradição do século XIX estabeleceu, mas tudo aquilo que o nosso espírito pode imaginar”.

A FC é o gênero literário mais válido da atualidade e, caminhando, como caminha, ao lado das descobertas, do avanço científico, das pesquisas em todos os ramos da ciência, será, cada vez mais, a literatura do futuro.

Jeronymo Monteiro


Editorial
Contos Estrangeiros
Redução de Armamentos - Tom Purdom
A Bolha - J. W. Schutz
Experimente Uma Faca Cega - Harlan Ellison
Era Uma Vez... - Phyllis Murphy
Segregacionista - Isaac Asimov
A Casa do Mar - William M. Lee
Trinta Dias de Setembro - Robert Young
Conto Brasileiro
A Toca - Walmes Nogueira Galvão
Ciência
O Conflito dos Sexos - Isaav Asimov
Cartas




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terça-feira, 26 de outubro de 2010

Magazine de Ficção Científica num.3 (1970)



EDITORIAL

Recebendo este terceiro número do “Magazine de Ficção Científica” o leitor brasileiro já pode verificar que tem nas mãos um pequeno tesouro e, o que é melhor, um tesouro que se oferece todos os meses à sua gulodice intelectual e literária.

A FC é realmente um tesouro no campo da literatura: um gênero que, nascido não faz muito tempo, conquista terreno rapidamente, impondo-se à preferência das pessoas que, gostando de ler, se encontram subitamente ante um panorama extraordinário que só pode ser visto quando corajosamente se afastam as cortinas que impediam à imaginação o avanço no espaço e no tempo — cortinas que permanecem cerradas à literatura tradicional.

Nesta época tumultuada, em que os povos se agitam, a ciência e a técnica avançam como carros de assalto, o homem de pensamento precisa de novos meios para se exprimir. Onde buscar esses novos meios? Na ciência e na técnica, no tumulto do pensamento moderno.
É a ficção científica que nos dá a possibilidade dessa realização. Por isso é a literatura do momento e é, principalmente, a literatura do futuro: progride, cresce, se avoluma juntamente com a ciência e a técnica, juntamente com o pensamento, as dúvidas, as reivindicações do nosso século. É o retrato mais válido desta época de transição que estamos vivendo, momento em que os cientistas moldam, em todos os campos, o mundo futuro.

Temos neste número uma noveleta de Evelyn E. Smith: “Preto + Branco = Verde”. É um estranho trabalho, cheio de humor, em que se debatem o problema racial, o problema sociológico, o choque das gerações.
“Metamorfose”, do grande Damon Knight é um conto curtinho, que poderíamos chamar de brincadeira literária, deliciosa e dramática fantasia de amor e ciúme com feitiçaria pelo meio.

O conto nacional é de Walter Martins o qual; que nos lembremos, só não juntou o cômico à tragédia em sua estória “Tuj” (publicada na coletânea da EDART “Além, do Espaço e do Tempo”). Em outras, como “Ohmmmmmml”, “O Forte” ou “O olho”, o autor tira das situações embaraçosas em que vivem suas personagens, uma deliciosa comicidade irônica. Neste conto, “A volta de Adalbeu”, ele deixa a FC e se diverte no mundo da fantasia, fazendo o diabo com o pobre diabo Adalbeu.

Queremos destacar, ainda o 2.° artigo “metálico” de Asimov, “O Sétimo Metal”, que continua o assunto começado no n.° 2 e se encerrará no n.° 4. É, como das outras vezes, uma estória rigorosamente científica, com o sabor delicioso que Asimov sabe dar ao que escreve.


Editorial
Contos Estrangeiros
Preto + Branco = Verde - Evelyn E. Smith 
A Metamorfose - Damon Knight 
Hora de Partir - Douglas Angus 
Depois do Enfer - Philip Lathan 
Alter Ego - Hugo Correa 
O Décimo Segundo Leito - Dean R. Koontz 
A Estrada Real Para Lá - Robert M. Green Jr. 
Fora de Tempo e de Lugar - George Collyn 
Bichos - Charles Harness 131
Conto Brasileiro
A Volta de Adalbeu - Walter Martins
Ciência
O Sétimo Metal - Isaac Asimov
Cartas

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segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Machado e Zumbis

Magazine de Ficção Científica num.2 (1970)



EDITORIAL

Este segundo número do MAGAZINE DE FICÇÃO CIENTÍFICA está em nível tão alto como o primeiro, nível que pretendemos manter, mesmo incluindo em cada um, contos de FC menos avançados, em atenção aos leitores ainda não familiarizados com o gênero.

Porque a FC evoluiu e os autores modernos chegaram a um ponto em que, às vezes, os “Não-iniciados” têm certa dificuldade em acompanhar a trama e o pensamento do escritor. Especialmente entre os autores americanos, verifica-se que eles se utilizam, em seus trabalhos, de idéias, expressões e estilos de velhos autores, para “gozá-los”, o que escaparia ao leitor brasileiro. Sempre que se der esse caso, esclareceremos os nossos leitores em notas ao pé da página.

Temos aqui mais um artigo de Isaac Asimov, da série científica, “O primeiro metal”, no qual o famoso escritor para tratar do seu assunto, o que faz de maneira fascinante, nos dá uma descrição histórica ideal das conquistas do homem desde os velhos tempos. É o primeiro de uma série de três, que aparecerão seguidamente.

O conto de autor brasileiro é de Dirceu Borges (autor do romance “O ídolo de Cedro”, considerado um marco da literatura brasileira). É uma honra para nós tê-lo em nossas páginas. “Baby” é uma peça literária e é FC, dentro das normas mais modernas.

Como já dissemos anteriormente, acolheremos com satisfação contos de FC de autores nacionais: fazemos empenho em publicar um por número, e os meses vêm vindo aí, rapidamente, uns atrás dos outros.



Editorial 
Contos Estrangeiros
Volta à Terra - Fritz Leiber
Os Vitanuls - John Brunner
O Mistério de Stonehenge - Harry Harrison
O Colecionador - Robert Taylor
À Sua Própria Imagem - Lloyd Biggle Jr.
Winnie, a Vegy - Rog Phillips
O Primeiro Postulado - Gerald Jonas
O Noctívago - Larry Brody
Lukas, o Lobo - Lukas, o Homem - L. J. T. Biese
Conto Brasileiro
Baby - Dirceu Borges
Ciência
O Primeiro Metal - Isaac Asimov
Cartas


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domingo, 24 de outubro de 2010

Savage Chikens

sábado, 23 de outubro de 2010

Solaris - Stanislaw Lem (parte 8)



RHEYA

Enquanto trabalhara com o computador, o desespero e uma espécie de raiva surda tinham-me dado forças. Agora, absolutamente esgotado, nem mesmo conseguia lembrar-me de como se fazia baixar uma cama mecânica. Esquecendo-me de abrir os fechos,  puxei com todo o meu peso e o colchão caiu por cima de mim.

Arranquei as roupas que tinha no corpo e atirei-as para longe, depois mergulhei sobre o travesseiro, sem mesmo me dar ao trabalho de inflá-lo convenientemente.
Caí no sono com as luzes acesas.
Quando voltei a abrir os olhos tive a impressão de ter apenas dormido durante alguns minutos. O quarto estava banhado por uma luz tênue vermelha.
Estava menos calor e senti-me refrescado..
Continuei deitado, as roupas da cama empurradas para trás, completamente nu.
As cortinas estavam meio fechadas, e ali, em frente a mim, junto ao vidro iluminado pelo sol vermelho, alguém estava sentado.
Era Rheya.

Usava um vestido de praia branco, o tecido muito esticado sobre os seios.
Estava sentada de pernas cruzadas; os pés estavam descalços. Imóvel, apoiada nos braços bronzeados pelo sol, fitava-me por entre as negras pestanas: Rheya, com o seu cabelo negro escovado para trás.
Por muito tempo continuei deitado, fitando-a calmamente.

O primeiro pensamento que tive foi tranquilizador: eu estava sonhando e sabia que estava sonhando. Apesar disso, teria preferido que ela não estivesse ali.
Fechei os olhos e tentei acabar com o sonho.
Quando os voltei a abrir, Rheya continuava sentada em frente de mim.

Tinha os lábios ligeiramente contraídos — um hábito seu —, como se fosse assobiar, mas a sua expressão era séria.
Recordei as minhas recentes especulações a respeito de sonhos.
Rheya não mudara desde o dia em que a vira pela última vez; uma moça de dezenove anos. Agora devia ter vinte e nove.
Mas, claro, os mortos não mudam; ficam eternamente jovens.

Continuou a fitar-me com uma expressão de surpresa na face.
Pensei em atirar-lhe com qualquer coisa, mas, mesmo em sonhos, não conseguia convencer-me a atacar uma pessoa morta.
Murmurei: —  Pobrezinha, veio visitar-me?
O som da minha voz assustou-me; o quarto, Rheya, tudo parecia extremamente real. Um sonho tridimensional, colorido em dois tons...
Vi no chão vários objetos em que não reparara quando fora para a cama.
“Quando acordar”, disse para comigo, “hei de verificar se estas coisas ainda lá estão ou se, como Rheya, apenas as vi em sonho.”
– Pensa em ficar muito tempo? — perguntei.
Notei que falava baixinho, como alguém com medo de ser ouvido por terceiros.
Porquê preocupar-me com isso num simples sonho?
O Sol levantava-se no horizonte. Era bom sinal. Deitara-me durante um dia vermelho, a que devia seguir-se um dia azul, depois outro dia vermelho!
Não dormira quinze horas seguidas. Portanto era um sonho!
Tranqüilizado, olhei atentamente para Rheya.
A sua silhueta desenhava-se de encontro ao Sol. Os raios escarlates faziam brilhar a pele macia da sua face esquerda, e as sombras provocadas pelas pestanas caíam-lhe sobre a face.

Como era linda!

Mesmo dormindo, a minha recordação dela era estranhamente precisa.
Observei os movimentos do Sol, à espera de ver aparecer a covinha que tinha num lugar pouco comum, ligeiramente abaixo do canto dos lábios.
Em todo o caso, teria preferido acordar.
Estava na hora de trabalhar um pouco. Fechei as pálpebras com força.

Ouvi um ruído metálico e abri novamente os olhos.
Rheya estava sentada sobre a cama, a meu lado, e continuava a fitar-me gravemente. Sorri-lhe. Teve um sorriso de resposta e inclinou-se para a frente.
Beijámo-nos. Primeiro um beijo tímido, infantil, depois beijos mais prolongados. Durante muito tempo apertei-a contra mim.
Seria possível sentir tanto durante um sonho, perguntava-me.
Não estava a trair a sua memória, pois era com ela que sonhava, apenas ela.
Nunca antes me tinha acontecido...
Seria então que comecei a sentir dúvidas?
Continuei a afirmar a mim próprio que era um sonho, mas o meu coração contraiu-se.
Entesei os músculos, pronto a saltar para fora da cama.
Estava mais ou menos preparado para falhar, porque muitas vezes, em sonhos, o corpo entorpecido recusa-se a responder. Esperava que o esforço me arrancasse ao sono.
Mas não acordei; sentei-me na beira da cama, as pernas pendentes.
Nada haveria a fazer; tinha de suportar este sonho até ao seu amargo fim.
A minha sensação de bem-estar desapareceu.
Estava com medo.

— Que... — perguntei. Limpei a garganta. — O que quer?

Tateei o assoalho a meu lado com os pés descalços, à procura de um par de chinelos.
Bati com um dedo contra a aresta aguda e abafei um grito de dor.
Isto vai acordar-me, pensei com satisfação, lembrando-me ao mesmo tempo de que não tinha chinelos.
Mas aquilo continuava.
Rheya afastara-se para trás e estava encostada ao fundo da cama.
O vestido subia e descia ao ritmo da sua respiração. Observava-me com calmo interesse.
Rápido, pensei, um banho de chuveiro!
Mas depois apercebi-me de que, num sonho, um chuveiro não me interromperia o sono.
— De onde vieste?
Agarrou na minha mão e, com um gesto que eu tão bem conhecia, atirou-a ao ar e voltou a apanhá-la. Depois pôs-se a brincar com meus dedos.  
– Não sei — respondeu. — Está zangado?
Era a sua voz, aquela voz familiar, de tom grave, ligeiramente distante, e aquele seu ar de quem não liga ao que está a dizer, de estar já a pensar em qualquer outra coisa.
As pessoas costumavam considerá-la desinteressada, até malcriada, porque a expressão da sua face raramente mostrava outra coisa que não um vago espanto.
– Alguém... alguém te viu?
– Não sei. Cheguei aqui sem problemas. Por quê, Kris, isso é importante?
Continuava a brincar com os meus dedos, mas a sua face estava agora ligeiramente franzida.
– Rheya!
– O quê, querido?
– Como soubeste onde eu estava?
Pensou. Um sorriso aberto revelou os seus dentes.
– Não faço a mínima idéia. Não é engraçado? Quando entrei, você dormia. Não te acordei porque você se zanga com tanta facilidade. Tens mau gênio!
Apertou-me a mão.
– Foi lá abaixo?
– Sim. Estava gelado. Fugi correndo.
Soltou-me a mão e recostou-se para trás. Com o cabelo caindo para o lado, olhou-me com aquele meio sorriso que tanto me irritara antes de me cativar.
– Mas, Rheya... – balbuciei.
Inclinei-me sobre ela e levantei-lhe a manga curta do vestido.
Ali, logo acima da cicatriz da vacina, havia uma pinta encarnada, a marca de uma agulha hipodérmica.

Não fiquei propriamente surpreendido, mas o meu coração deu um salto.
Toquei com um dedo na pinta encarnada. Há anos já que eu sonhava com aquilo, vezes sem conta, acordando sempre com um arrepio e sempre na mesma posição, enrolado entre os lençóis amarfanhados. Tal como a tinha encontrado, já quase fria.

Era como se, durante o sono, tentasse reviver tudo aquilo por que ela tinha passado; como se esperasse poder andar com o relógio para trás e pedir-lhe o seu perdão ou fazer-lhe companhia durante esses minutos finais, enquanto sentia os efeitos da injeção e estava dominada pelo terror.

Ela que tinha medo do mais pequeno arranhão, que odiava a dor ou a visão de sangue, tinha deliberadamente feito aquela coisa horrível, deixando apenas algumas palavras dirigidas a mim.
Guardara o papel na minha carteira.
Agora estava já sujo e enrugado, mas nunca tivera a coragem de jogar fora.

Repetidamente a imaginei escrevendo aquelas palavras e a fazer os seus últimos preparativos. Persuadi-me de que ela tencionara apenas fingir, que tinha querido assustar-me e que só por engano tomara uma dose exagerada.
Todos me diziam que era isso que devia ter acontecido ou então que fora uma decisão súbita, resultado de uma depressão de momento.

Mas as pessoas não sabiam o que lhe tinha dito cinco dias antes; não sabiam que, para mais cruelmente enterrar a faca, eu levara comigo todas as minhas coisas e que, quando eu fechava as malas, ela me dissera muito calmamente: “Suponho que sabe o que isto significa?”
E eu fingira não perceber, embora soubesse muito bem ao que ela se queria referir; considerava-a demasiado covarde e até lhe dissera...

E agora ali estava ela estendida na cama, olhando atentamente para mim, como se não soubesse que tinha sido eu quem a matara.
– E então? — perguntou. Os seus olhos refletiam o sol vermelho. Todo o quarto estava vermelho. Rheya olhou com interesse para o seu braço porque eu o estivera a examinar durante tanto tempo, e, quando recuei, pousou a face macia e fresca na palma da minha mão.
– Rheya — balbuciei —, não é possível...
– Chiu!
Podia sentir o movimento dos seus olhos sob as pálpebras fechadas.
– Onde estamos, Rheya?
– Em casa.
– E onde é isso?
Um olho abriu-se e logo voltou a fechar-se. As longas pestanas faziam-me cócegas na mão.
– Kris.
– O quê?
– Estou feliz.
Erguendo a cabeça, podia ver parte da cama no espelho do lavatório: uma cascata de cabelo macio — o cabelo de Rheya — e os seus joelhos nus.

Com o pé puxei para junto de mim um dos objetos deformados que encontrara na caixa e apanhei-o com a mão que tinha livre. Era uma rosca sem fim, e uma das suas extremidades derretera e parecia o bico de uma agulha.
Segurei essa ponta de encontro à minha pele e enterrei-a, logo acima de uma pequena cicatriz rósea. A dor percorreu-me todo o corpo. Fiquei a ver o sangue escorrer-me pelo interior da coxa e pingar, sem ruído, no chão.

Para quê? Assaltavam-me pensamentos aterradores, pensamentos que começavam a tomar forma definida. Já não dizia para comigo: “É um sonho.”
Deixara de acreditar nisso.
Agora pensava: “Preciso de estar preparado para me defender.”

Examinei os seus ombros, a anca sob o vestido justo, os pés pendentes e descalços. Inclinando-me para frente, apanhei um dos seus tornozelos e passei os dedos pela sola do pé. A pele era macia, como a de um recém-nascido.

Soube então que não era Rheya, mas estava quase certo de que ela própria não sabia.
O pé nu contorceu-se e os lábios de Rheya abriram-se num riso silencioso.
– Pára com isso — murmurou.
Retirei cuidadosamente a mão de sob a sua face e levantei-me.
Vesti-me rapidamente. Ela continuava sentada a observar-me.
– Onde estão as tuas coisas? — perguntei-lhe. Imediatamente me arrependi da pergunta.
– As minhas coisas?
– Não tens mais nada além desse vestido?

Daqui em diante ia jogar com os olhos abertos. Tentei parecer despreocupado, indiferente, como se apenas nos tivéssemos separado na véspera, como se nunca nos tivéssemos separado.

Rheya levantou-se. Com um gesto familiar, puxou a saia para desfazer as rugas.
As minhas palavras tinham-na preocupado, mas nada disse.
Pela primeira vez examinou o quarto com um olhar inquiridor e curioso. Depois, confusa, respondeu:
– Não sei. — Abriu a porta do armário. — Aqui, talvez?
– Não, aí há apenas trajes de trabalho.

Encontrei uma tomada elétrica junto ao lavatório e comecei a fazer a barba, tendo o cuidado de não afastar os olhos dela. Andava de um lado para o outro, rebuscando por todo o lado.
Finalmente veio até junto de mim e disse:
– Kris, tenho a impressão de que aconteceu alguma coisa...
Interrompeu-se. Desliguei a máquina da barba e esperei.
– Tenho a sensação de que me esqueci de alguma coisa — continuou —, que me esqueci de imensas coisas. Só a ti consigo lembrar. Não... não consigo lembrar mais nada.

Ouvi-a, forçando-me a parecer despreocupado.
– Estive... estive doente? — perguntou.
– Sim... de certo modo. Sim, esteve ligeiramente doente.
– Então é isso. Isso já explica os meus lapsos de memória.
Ficara novamente bem disposta. Nunca serei capaz de descrever como se sentia nesse momento. Enquanto a observava a movimentar-se pelo quarto, ora sorrindo ora séria, conversadora um momento, silenciosa noutro, sentando-se e voltando a levantar-se, o meu terror foi gradualmente dominado pela convicção de que era a verdadeira Rheya quem estava ali no quarto comigo, embora a minha razão me dissesse que ela parecia um tanto estilizada, reduzida a certas expressões, gestos e movimentos característicos.
De repente agarrou-se a mim.
– O que está acontecendo Kris? — Enterrava os punhos no meu peito. — Está tudo em ordem? Há algum problema?
– Não podia estar melhor.
Sorriu um sorriso pálido.
– Quando você responde assim quer dizer que as coisas dificilmente poderiam estar piores.
– Que absurdo! — disse apressadamente. — Rheya, querida, tenho que te deixar. Espere aqui por mim. — E porque estava com fome, acrescentei: — Quer comer alguma coisa?
– Comer? — Abanou a cabeça. — Não. Vou ter de esperar muito tempo?
– Só uma hora.
– Vou contigo.
– Não podes vir comigo. Tenho trabalho a fazer.
– Vou contigo.

Ela mudara.

Esta não era a Rheya; a verdadeira Rheya não seria capaz de me impor a sua presença pela força.



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sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Como Construir um Dinossauro - A Extinção não tem que ser para sempre



 Nothing is too wonderful to be true if it be consistent with
the laws of nature, and in such things as these, experiment
is the best test of such consistency.
—Michael Faraday

Let’s suppose you wanted to pick a moment in the history of life and play it over again, backward and forward, like a football play on a highlights DVD, so you could see exactly how it happened. Rewind. Stop. Play. Rewind frame by frame. Stop. Play frame by frame.

Stephen Jay Gould, one of the best-known evolutionary biologists of his time, wrote in Wonderful Life, his book on the weird and wonderful fossils of a rock formation known as the Burgess Shale, that you can’t go home again, evolutionarily, unless you want to risk not being here when you come back. What he was saying was that evolution is a chance business, contingent on many influences and events. You can’t rewind it and run it over and hope to get the same result. The second time through Homo sapiens might not appear. Primates might not appear.

That’s evolution on a grand scale, major trends in the history of life that involved mass extinctions and numerous species jockeying for evolutionary position. We can’t rewind that tape without a planet to toy with. But I’m thinking about a time machine with a somewhat closer focus, an evolutionary microscope that could target, say, the first appearance of feathers on dinosaurs, or the evolution of dinosaurs into birds.

This time machine/microscope could zero in on one body part. For birds we might start small, with a much maligned body part—the tail. We don’t think about tails much, not at the high levels of modern evolutionary biology, but they are more intriguing than you might imagine. They appear and disappear in evolution. They appear and disappear in the growth of a tadpole. Most primates have tails. Humans and great apes are exceptions.

The dinosaurs had tails, some quite remarkable. Birds, the descendants of dinosaurs, now almost universally described by scientists as avian dinosaurs, do not have tails. They have tail feathers but not an extended muscular tail complete with vertebrae and nerves. Some of the first birds had long tails, and some later birds had short tails. But there is no modern bird with a tail.
How did that change occur? Is there a way to re-create that evolutionary change and see how it happened, right down to the molecules involved in directing, or stopping, tail growth?...



INTRODUCTION

HELL CREEK
TIME, SPACE, AND DIGGING TO THE PAST 

IT’S A GIRL!
A PREGNANCY TEST FOR T. R E X 

MOLECULES ARE FOSSILS TOO
BIOLOGICAL SECRETS IN ANCIENT BONES 

DINOSAURS AMONG US
CHICKENS AND OTHER COUSINS OF T. R E X 

WHERE BABIES COME FROM
ANCESTORS IN THE EGG 

WAG THE BIRD
THE SHRINKING BACKBONE

REVERSE EVOLUTION
EXPERIMENTING WITH EXTINCTION 
APPENDIX: CHICKENOSAURUS SKELETON 
BIBLIOGRAPHY 
ACKNOWLEDGMENTS 
INDEX



HOW TO BUILD A DINOSAUR - EXTINCTION DOESN’T HAVE TO BE FOREVER [ Download ]

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Feeling Very Strange




The term slipstream was coined by Bruce Sterling in a column he wrote for a fanzine called SF Eye in 1989. Sterling was attempting to understand a kind of fiction that he saw increasingly in science fiction publications
and elsewhere.

He quite rightly asserted that it was not true science fiction, and yet it bore some relation to science fiction.


In a key passage of his essay, Sterling wrote, this genre is not category SF ; it is not even “genre” SF . Instead, it is a contemporary kind of writing which has set its face against consensus reality.

It is fantastic, surreal sometimes, speculative on occasion, but not rigorously so. It does not aim to provoke a
“sense of wonder” or to systematically extrapolate in the manner of classic science fiction.
Instead, this is a kind of writing which simply makes you feel very strange; the way that living in the late twentieth century makes you feel, if you are a person of a certain sensibility.

We could call this kind of fiction Novels of a Postmodern Sensibility. . .for the sake of convenience and argument, we will call these books “slipstream.”



Introduction - John Kessel & James Patrick Kelly

Al - Carol Emshwiller
The Little Magic Shop - Bruce Sterling
The Healer - Aimee Bender

I Want My 20th-Century Schizoid Art – I
The Specialist’s Hat - Kelly Link
Light and the Sufferer - Jonathan Lethem
Sea Oak - George Saunders

I Want My 20th-Century Schizoid Art – II
Exhibit H: Torn Pages Discovered in the Vest Pocket of an Unidentified Tourist - Jeff VanderMeer
Hell is the Absence of God - Ted Chiang
Lieserl - Karen Joy Fowler
Bright Morning - Jeffrey Ford

I Want My 20th-Century Schizoid Art – III
Biographical Notes to “A Discourse on the Nature of Causality, with Air-planes” by Benjamin
Rosenbaum - Benjamin Rosenbaum
The God of Dark Laughter - Michael Chabon
The Rose in Twelve Petals - Theodora Goss

I Want My 20th-Century Schizoid Art – IV
The Lions Are Asleep this Night - Howard Waldrop
You Have Never Been Here - M. Rickert

Author notes

Feeling Very Strange - the slipstream anthology [ Download ]

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

James Blish - 250 Séculos após...

... Martels teve sonhos esquisitos.

Sonhou que estava caindo dentro dum tubo cheio de dentes parecidos com espinhos o qual terminava num vácuo e tinha a sensação apavorante de que ao abrir os olhos outra coisa não veria senão um chão cheio de
poeira, estátuas amontoadas de qualquer jeito e um muro não muito distante. Mas quando estava relutando para livrar-se do sonho, pelas suas narinas penetrou um cheiro de terra e vegetação úmidas e seus ouvidos captavam o farfalhar dos ramos da floresta e assim percebeu que pelo menos estava livre daquela parte do pesadelo.

Logo ficou surpreso ao notar que seus músculos não lhe doíam depois de ter dormido no chão; mas logo percebeu que, afinal de contas, os músculos não eram seus e que Tlam devia ter dormido desta maneira centenas de vezes durante sua vida. Visto que o membro tribal não parecia ainda estar acordado, Martels demorou para abrir seus olhos e em lugar disto ficou procurando e analisando consigo mesmo a presença de Qvant. Adormecer tinha sido o mais criminoso dos descuidos; e no entanto como podia ele ter evitado isso?

De qualquer forma, aparentemente saiu-se bem. Do ex-Autárquico não conseguia encontrar o mínimo vestígio. E agora, o que iria acontecer? Qvant dissera que para se chegar à Antártica e à região de Términus se teria que passar pelo pais dos Pássaros; mas podia ser que ao falar estivesse referindo-se apenas ao caminho mais direto - aquele que o traria de volta no menor espaço de tempo possível à sua própria caixa craniana - isto porque Amra, o suplicante que aparecera imediatamente antes de Tlam, viera de um
território fronteiriço à Antártica e chegara ao museu sem ter precisado atravessar a região dos Pássaros. Isto insinuava que o território de Amra não ficava excessivamente distante do museu, porquanto com toda certeza os tribais não teriam meios nem vontade nenhuma de atravessar os continentes inteiros, e muito menos
oceanos, só para se beneficiar do duvidoso e secreto conselho de Qvant.

Que eles não atribuíam grande importância àquilo que Qvant lhes dizia já havia sido evidenciado pelas raras vezes que a ele recorriam e pelo pouco proveito que disso auferiam na luta cotidiana para enfrentar as vicissitudes do mundo em que viviam.


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terça-feira, 19 de outubro de 2010

Espantomania



O medo é o sentimento mais antigo e íntimo do Homem. Por causa do medo os homens primitivos passaram a viver em “residências” fechadas e pararam de migrar, formando assim os alicerces da civilização. O mesmo medo também nos ensinou a utilizar o fogo, a criar a roda e a pressentir os perigos que nos rondam.


Ele também foi o empurrão principal para grandes mudanças na história da Humanidade; mudanças boas e ruins, mas que deram um novo sentido ao mundo e àqueles que nele habitam.


O propósito do festival ESPANTOMANIA é o de apresentar o medo como um velho amigo, pois apesar de ser um sentimento extremamente poderoso e temível, o ser humano é atraído por ele em diversos gêneros como esportes, centros recreativos, jogos e afins.  Nesta primeira edição do evento pretendemos apresentar as faces menos conhecidas dos filmes de horror que não foram “agraciadas” com a divulgação da mídia mainstream. São películas alternativas de todas as partes do mundo que contaram com o sangue, suor e lágrimas de seus criadores e que nem por isso devem ser depreciadas. Muito pelo contrário, devem ser tidas como exemplos de criatividade, perseverança e amor a 7° arte. É a primeira vez que um evento deste é apresentado na periferia do Grajaú e pretendemos manter a idéia sempre ativa para que não se torne o último e por isso que o festival depende apenas de você, fã inveterado dos filmes de horror/fantástico.

Monsters Origami





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segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Anime - From Akira to Princess Mononoke




CONTENTS
Acknowledgments

P A R T    O N E
INTRODUCTION

C H A P T E R  1
Why Anime?

C H A P T E R  2
Anime and Local/Global Identity

P A R T    T W O
BODY, METAMORPHOSIS, IDENTITY

C H A P T E R  3
Akira and Ranma 1/2: The Monstrous Adolescent

C H A P T E R  4
Controlling Bodies: The Body in Pornographic Anime

C H A P T E R  5
Ghosts and Machines: The Technological Body

C H A P T E R  6
Doll Parts: Technology and the Body in Ghost in the Shell
MAGICAL GIRLS AND FANTASY WORLDS

C H A P T E R  7
The Enchantment of Estrangement: The Shojo in the World ofMiyazaki Hayao

C H A P T E R  8
Carnival and Conservatism in Romantic Comedy

P A R T   F O U R
REMAKING MASTER NARRATIVES: ANIME CONFRONTS HISTORY

C H A P T E R  9
No More Words: Barefoot Gen, Grave of the Fireflies, and “Victim’s History”

C H A P T E R 10
Princess Mononoke: Fantasy, the Feminine, and the Myth of “Progress”

C H A P T E R 11
Waiting for the End of the World: Apocalyptic Identity

C H A P T E R 12
Elegies

C O N C L U S I O N
A Fragmented Mirror

A P P E N D I X
The Fifth Look: Western Audiences and Japanese Animation
Notes
Bibliography
Index


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domingo, 17 de outubro de 2010

Pat Cadigan



Pat Cadigan (1953) nasceu em Schenectady, New York (EUA).

Apesar de seu trabalho como escritora de Ficção científica ser descrito como parte integrante do movimento cyberpunk, ela, assim como outros tantos escritores igualmente batizados como ciberpunks, recusa o titulo. Todos os seus livros no entanto, possuem um tema em comum: Exploram a relação entre a mente humana e a tecnologia.

Cursou a Universidade de Massachusetts e a Universidade de Kansas (onde estudou com James Gunn), graduando-se em 1975 em Lingua Inglesa e Teatro, passando em seguia a trabalhar como escritora para a Hallmark Cards. No início dos anos 1980, ela editou as revistas Shayol e Chacal. Teve sua primeira publicação (um conto) publicado em 1980, e a boa recepção de crítica e público, a encorajou a escrever em tempo integral a partir de 1987.

Ganhou o Prêmio World Fantasy Award e o Locus de 1988 (pelo conto 'Angel'), e passou a ser, com frequência, finalista ao Prêmio Hugo, bem como ao Prêmio Nebula.

Com Patterns (uma coletânea de seus contos) ganhou o Prêmio Locus (1990) e foi também indicada aos prêmios Bram Stoker e Thorpe Menn.

Seu primeiro livro, Mindplayers (indicado para um prêmio Philip K.Dick), introduziria um tema comum a todas as suas obras. Suas histórias flertam com a percepção da realidade. Já seu segundo romance, Synners, expande-se sobre o mesmo tema, e ambos tratam de um futuro onde o acesso direto à mente será possível através da tecnologia. Este seu segundo livro, e o terceiro, Fools, lhe dariam além dos Prêmios Arthur C. Clarke, um lugar de destaque entre os novos e promissores escritores de FC.

A partir do reconhecimento de seu talento, os contos de Pat tem aparecido em diversas coletâneas e revistas, incluindo Omni e Isaac Asimov Science Fiction Magazine. Já foi traduzida para francês, alemão, polonês, japonês e tcheco.

A obra de Pat Cadigan demonstra também sua habilidade em tratar com uma ampla variedade de gêneros, tanto a fantasia e o horror, à ficção científica e o mistério (hard-boiled) característico dos livros de detetives. Seu estilo é muitas vezes marcado pelo vigor e pelo humor negro - uma caracteristica do punk dos anos 80.

Pat vive na Inglaterra desde 1996.

Site Original


Pat Cadigan ( Death in the promised land, Dervish is digital, Johnny come home, Life on Earth, True Faces, Angel, Dirty Work, Dispatches from the Revolution, Fool to Believe, Icy You Juice Me, Is there life after Rehab, Lunatic Bridge, My Brother's keeper, Naming Names, Pretty boy crossover, The Final Remake Of Little Latin Larry, True Faces, Upgrade & Sensuous Cindy, (c/ Chris Fowler) Freeing the Angels. ) [ Download ]

sábado, 16 de outubro de 2010

Solaris - Stanislaw Lem (parte 7)



A zona de aterragem estava exatamente como a deixara.

A minha cápsula chamuscada continuava ali aberta sobre a sua plataforma.
Enquanto escolhia um traje atmosférico, apercebi-me subitamente de que as clarabóias por onde contava observar Sartorius provavelmente seriam feitas de placas de vidro opaco, e perdi o interesse na minha saída à camada exterior.

Em lugar disso, desci a escada em espiral que conduzia aos depósitos do piso inferior.
A passagem estreita que havia no fundo continha o habitual amontoado de caixotes e cilindros. As paredes eram recobertas de metal e tinham uma reverberação azulada.
Um pouco mais adiante, os canos gelados do sistema de refrigeração apareciam sob uma abóbada, e segui-os até à extremidade do corredor, onde desapareciam sob uma carapaça com amplo colarinho de plástico. A porta do frigorífico tinha duas polegadas de espessura e era revestida por um composto isolante.

Quando a abri, fui atingido por um frio de gelo. Fiquei ali parado, a tremer, na entrada de uma caverna escavada num iceberg; das gigantescas serpentinas de tubos, como esculturas em relevo, pendiam inúmeras estalactites. Também aqui, soterrados sob uma camada de neve, havia caixotes e cilindros e prateleiras carregadas de caixas e sacos transparentes que continham uma substância amarela e oleosa. O teto em cúpula descia até ao lugar onde uma cortina de gelo escondia a parte de trás da caverna.
Parti o gelo e passei. Numa prateleira de alumínio estava estendida uma figura alongada, coberta com um lençol de lona.

Levantei um dos cantos da lona e reconheci as feições rígidas de Gibarian.
O lustroso cabelo negro estava colado sobre o crânio.
As curvas da garganta sobressaíam como ossos. Os olhos vítreos olhavam para o teto, com uma lágrima de gelo opaco pendendo no canto de cada pálpebra.
O frio era tão intenso que tive de cerrar fortemente os dentes para os impedir de bater. Toquei na face de Gibarian; era como tocar num bloco de madeira petrificada, eriçada de pêlos negros e hirsutos.
A curva dos lábios parecia exprimir uma paciência infinita e plena de desdém.
Quando ia deixar cair a lona, notei, por entre as dobras junto aos pés, cinco objetos redondos e reluzentes, como pérolas negras, arrumadas por ordem de tamanho.

Fiquei rígido de horror.

O que eu vira eram as cabeças dos cinco dedos de um pé descalço.
Sob a mortalha, comprimida contra o corpo de Gibarian, jazia a negra.

Lentamente, puxei a lona para trás. A sua cabeça, o cabelo encarapinhado enrolado em pequenos carrapitos, pousava no recôncavo de um braço maciço. As costas rebrilhavam, a pele muito esticada sobre a coluna vertebral. O gigantesco corpo não dava sinais de vida.

Olhei de novo para as solas dos pés nus; não tinham ficado achatados ou de qualquer modo deformados, apesar do peso que tinham de suportar. O andar não lhes calejara a pele, que era tão perfeita como a dos ombros.
Com um esforço muito superior ao que precisara para tocar no cadáver de Gibarian, forcei-me a tocar num dos pés descalços. Então, fiz uma segunda descoberta espantosa: este corpo, abandonado num congelador, este cadáver aparente, vivia e mexia-se.
A mulher puxara o pé para trás, tal como um cão a dormir quando se tenta agarrar-lhe na pata.

“Ela vai congelar”, pensei confusamente, mas a sua pele estava quente ao tato e até me pareceu sentir o bater regular do pulso.
Recuei e fugi.

Quando emergi da caverna branca, o calor parecia sufocante.
Subi a escada em espiral, de volta à zona de aterragem.
Sentei-me sobre um pára-quedas enrolado e pus a cabeça entre as mãos.

Estava apavorado. Os meus pensamentos corriam desenfreados.

O que estava acontecendo? Se estava pendendo a razão, quanto mais depressa perdesse a consciência, melhor. A idéia de uma súbita extinção despertou em mim uma esperança inexprimível e pouco realista.

Era inútil procurar Snow ou Sartorius: ninguém poderia compreender inteiramente o que eu acabara de viver, o que vira, o que tocara com as minhas próprias mãos.
Havia uma única explicação possível, uma única conclusão: loucura.
Sim, era isso mesmo, eu enlouquecera mal aqui chegara.
O meu cérebro fora atacado por emanações do oceano, e as alucinações sucediam-se, uma após outra. Em vez de me cansar a tentar resolver estes enigmas ilusórios, o melhor que tinha a fazer era pedir auxílio médico, mandar um radiograma para o Prometheus ou qualquer outra nave, lançar um S.O.S.
Então, deu-se em mim uma curiosa mudança: perante a idéia de que enlouquecera, acalmei.
E contudo... ouvira as palavras de Snow com absoluta clareza.
Se, claro, era certo que Snow existia e que eu tivesse falado com ele.
As alucinações podiam ter começado muito antes.
Talvez estivesse ainda a bordo do Prometheus; talvez tivesse sido atacado por uma doença mental súbita e estivesse agora a confrontar as criações do meu próprio espírito doente.

Partindo do principio de que estava doente, tinha todas as razões para acreditar que iria melhorar, e isso deu-me alguma esperança, irreconciliável com a crença na realidade dos confusos pesadelos que acabara de viver.

Se ao menos conseguisse lembrar-me de qualquer experiência lógica — uma experiência-chave — que me revelasse se tinha realmente enlouquecido e era a presa indefesa das criações da minha imaginação, ou se, apesar de toda a sua inverosimilhança, eu vivera acontecimento reais.
Enquanto revolvia tudo isto na mente, olhava para o carrinho que conduzia à base de lançamento. Era uma viga de aço, pintada de verde-claro, que corria um metro acima do chão. Aqui e ali a pintura estava esfolada, gasta pela fricção das carretas dos foguetes. Toquei no aço, sentindo-o aquecer sob a mão, e bati no metal com os nós dos dedos.
A loucura poderia atingir um tal grau de realidade? Sim, respondi a mim próprio.
Afinal de contas, era a minha própria especialidade, sabia bem do que estava a falar.
Mas, seria possível criar uma experiência controlada?
A princípio disse para comigo que não, pois o meu cérebro doente (se estava realmente doente) criaria as ilusões que eu lhe exigisse. Mesmo a sonhar, quando estamos de perfeita saúde, falamos com estranhos, fazemos-lhes perguntas e ouvimos as suas respostas. E mais ainda, embora os nossos interlocutores sejam na realidade criações da nossa própria atividade psíquica, desenvolvidos por um processo pseudo- -independente, até nos falarem, nunca sabemos quais as palavras que irão sair da sua boca. E, contudo, essas palavras foram formuladas por uma parte separada da nossa própria mente; deveríamos ter delas consciência no preciso momento em que as inventamos para as por na boca de seres imaginários.

Consequentemente, fosse qual fosse a forma do teste que me propunha, e fosse qual fosse o método que empregasse para o pôr em execução, sempre haveria a possibilidade de eu estar a comportar-me exatamente como num sonho.

Se nem Snow nem Sartorius tinham existência real, seria inútil fazer-lhes perguntas.
Pensei em tomar qualquer droga forte, peyot, por exemplo, ou qualquer outro preparado que criasse alucinações vivas. Se lhe seguissem visões, seria uma prova de que eu realmente vivera os acontecimentos recentes e de que estes faziam parte integrante da realidade material que me rodeava.

Porém, não, pensei, não constituiria a prova de que necessitava, pois eu conhecia os efeitos da droga (que eu próprio iria escolher para mim) e a minha imaginação poderia sugerir-me a dupla ilusão de ter tomado a droga e de lhe sentir os efeitos.
Estava a andar em círculos; parecia não haver saída.
Era impossível pensar, a não ser com o próprio cérebro; ninguém podia sair para fora de si mesmo com o fim de verificar o funcionamento da sua atividade íntima.

De súbito, surgiu-me uma idéia, tão simples como eficaz.
Levantei-me de um pulo e corri até à cabina de rádio.
A sala estava deserta. Olhei para o relógio elétrico que havia na parede. Quase quatro horas, a quarta hora da noite artificial da Estação.
Lá fora brilhava o sol vermelho.
Liguei rapidamente o transmissor de longo alcance e, enquanto as válvulas aqueciam, revi na mente as principais fases da experiência.

Não conseguia recordar o sinal de chamada para a estação automática do satélite, mas encontrei-a num cartão suspenso por cima do painel principal do aparelho, emiti-o em morse e recebi o sinal de resposta oito segundos mais tarde. O satélite, ou antes, o seu cérebro eletrônico, identificava-se por meio de um pulsar rítmico.
Dei instruções ao satélite para me dar os valores dos meridianos galácticos que ia atravessando com intervalos de 22 segundos enquanto girava em órbita em redor de Solaris e exigi a resposta especificada até cinco casas decimais.
Depois sentei-me e esperei pela resposta.

Dez minutos mais tarde, esta chegou. Arranquei a tira de papel acabada de imprimir e escondi-a numa gaveta, tendo o cuidado de não olhar para ela.
Dirigi-me à estante e tirei os grandes mapas galácticos, as tábuas de logaritmos, um calendário com o percurso diário do satélite e vários outros livros.
Depois sentei-me para descobrir pessoalmente a resposta à pergunta que fizera.
Durante uma hora, ou mais, integrei as equações.
Há muito tempo que me não dedicava a cálculos tão elaborados. O último grande esforço que fizera nesse campo devia ter sido no meu exame prático de astronomia.
Trabalhei o problema com a ajuda do computador gigante da Estação.

O meu raciocínio era o seguinte: fazendo os meus cálculos a partir dos mapas galácticos, obteria um valor aproximado para comparar com os resultados fornecidos pelo satélite. Aproximado, porque o percurso do satélite estava sujeito a complexas variações devidas aos efeitos das forças gravitacionais de Solaris e dos seus dois sóis, assim como às variações locais de gravidade provocadas pelo oceano.
Quando tivesse as duas séries de valores, uma fornecida pelo satélite e a outra calculada teoricamente com base nos mapas galácticos, faria os ajustamentos necessários, e os dois grupos teriam de coincidir até à quarta casa decimal, pois só na quinta poderiam surgir discrepâncias motivadas pela imprevisível influência do oceano.

Se os valores obtidos do satélite fossem simplesmente o produto do meu cérebro perturbado, nunca poderiam coincidir com a segunda série. O meu cérebro podia estar avariado, mas era absolutamente incapaz de competir com o computador gigante da Estação e chegar aos cálculos que exigiam o trabalho de vários meses. Portanto, se os valores correspondessem, seguia-se que o computador da Estação existia realmente, que eu realmente me servira dele e que não estava em estado de delírio.
Minhas mãos tremiam enquanto tirava a fita do telégrafo da gaveta e a colocava junto à larga folha de papel saída do computador.

Como previra, as duas séries de valores correspondiam até à quarta casa decimal.
Arrumei todos os papéis na gaveta. O computador existia, independentemente de mim; isso significava que a Estação e os seus habitantes existiam realmente também.
Quando ia a fechar a gaveta, notei que estava repleta de folhas de papel cobertas de somas apressadamente escrevinhadas. Um simples olhar contou-me que alguém tentara já uma experiência semelhante à minha, mas perguntara ao satélite, não informações a respeito dos meridianos galácticos, mas sim as medidas do albedo de Solaris, a intervalos de quarenta segundos.

Eu não estava louco.
O último raio de esperança desapareceu.

Desliguei o transmissor, bebi o resto da sopa que havia na garrafa-térmica e fui para a cama.


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sexta-feira, 15 de outubro de 2010

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Fangoria 6 (1980)

























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quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Fangoria 4 (1980)
























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terça-feira, 12 de outubro de 2010

Fangoria 3 (1979)




















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