sábado, 25 de dezembro de 2010

Solaris - Stanislaw Lem (parte 17)


O OXIGÊNIO LÍQUIDO

Não tenho ideia do tempo que fiquei deitado na escuridão a olhar para o mostrador luminoso do meu relógio de pulso. Ouvindo-me respirar.
Sentia uma vaga surpresa, mas o meu sentimento fundamental era de profunda indiferença, tanto para com aquele anel de algarismos fosforescentes como para com a minha própria surpresa.
Disse para comigo que aquele sentimento era provocado pela fadiga.
Quando me voltei, a cama pareceu-me maior do que o costume. Suspendi a respiração; o silêncio não era quebrado por nenhum som. Devia ouvir-se a respiração de Rheya. Estendi a mão, mas não encontrei nada. Estava só.

Ia chamá-la quando ouvi o som de pesadas passadas que se aproximavam de mim.
Caiu sobre mim uma calma entorpecente:
— Gibarian?
— Sim, sou eu. Não acenda a luz.
— Não?
— Não há necessidade disso, e é melhor que fiquemos às escuras.
— Mas você está morto...
— Não se preocupe com isso. Reconhece a minha voz, não reconhece?
— Sim. Por que se matou?
— Não tinha por onde escolher. Você chegou com quatro dias de atraso. Se tivesse vindo mais cedo, não teria sido forçado a matar-me. Porém, não se preocupe com isso; não lamento.
— Está mesmo ai? Não estou dormindo?
— Oh, pensa que está sonhando comigo? Como fez com Rheya?
— Onde está ela?
— Como posso saber?
— Tenho o pressentimento de que sabe.
— Guarde os seus pressentimentos para você. Digamos que estou agindo em nome dela.
— Quero-a aqui também.
— Não é possível.
— Por que não? Sabe muito bem que você não é o seu eu real, apenas à minha...
— Não, eu sou o verdadeiro Gibarian, apenas numa nova encarnação. Mas não percamos tempo com tagarelices inúteis.
— Vai novamente embora?
— Sim.
— E nesse momento ela volta?
— Para que se importar com isso?
— Ela me pertence.
— Você tem medo dela.
— Não.
— Ela enoja-o.
— Que quer de mim?
— Guarde a sua piedade para si, tem direito a ela, mas não para Rheya. Ela sempre terá vinte anos. Já deve saber isso.
De repente, por nenhuma razão aparente, voltei a sentir-me à vontade, pronto para ouvir até ao fim. Parecia ter se aproximado mais, embora não o pudesse ver no escuro.
— Que quer?
— Sartorius convenceu Snow de que você estava enganando-o. Neste exato momento estão tentando dar-lhe o mesmo tratamento. A construção de um aparelho de raios X é um disfarce para construir um destruidor de campos magnéticos.
— Onde ela está?
— Não sei. Tenha cuidado. Precisa arranjar uma arma. Não pode confiar em ninguém.
— Posso confiar em Rheya.
Abafou uma risada.
— Claro, pode confiar em Rheya, até certo ponto. E pode sempre seguir o meu exemplo, se tudo mais vier a falhar.
— Você não é Gibarian.
— Não? Então quem sou? Um sonho?
— Não, é apenas um boneco. Mas não se apercebe de que o é.

Tentei levantar-me, mas não consegui mover-me.
Embora Gibarian continuasse a falar, não lhe percebia as palavras; ouvia apenas o ruído da sua voz. Lutei para recuperar o domínio do meu corpo, senti um puxar súbito e... acordei e aspirei grandes sorvos de ar. Estava escuro e tinha tido um pesadelo.
Ouvi então uma voz monótona e distante:
—... um dilema que não estamos equipados para resolver. Somos a causa do nosso próprio sofrimento. Os Políteres agem estritamente como uma espécie de amplificador dos nossos próprios pensamentos. Qualquer tentativa para compreender a motivação destas ocorrências é bloqueada pelo nosso próprio antropomorfismo. Onde não há homens, não podem existir motivos acessíveis a homens. Antes de podermos prosseguir com as nossas pesquisas, terão de ser destruídos os nossos pensamentos ou as suas formas materializadas. Destruir os nossos pensamentos é coisa que não está dentro do nosso poder. Quanto à hipótese de destruir as suas formas materiais, poderia assemelhar-se a cometer um crime.

Reconheci imediatamente a voz de Gibarian.
Quando estendi os braços, vi que estava só. Voltara a adormecer. Isto era outro sonho.
Chamei Gibarian pelo nome, e a voz parou a meio de uma frase.
Houve o som de uma exclamação surda, depois uma corrente de ar.
— Bem, Gibarian — bocejei —, parece que me segue de um sonho para o outro...
Ouvi um roçar perto de mim e chamei novamente o nome dele.
As molas da cama estalaram, e uma voz segredou-me ao ouvido:
— Kris... sou eu...
— Rheya? É você? E Gibarian?
— Mas... disse que ele estava morto, Kris.
— Pode estar vivo num sonho — disse-lhe desanimadamente, embora não estivesse completamente certo de que tinha sido um sonho. — Ele falou comigo... Esteve aqui...
Deixei cair a cabeça de novo na almofada.
Rheya disse algo, mas eu já estava caindo de sono.


À luz vermelha da manhã, voltaram-me à memória os acontecimentos da noite anterior. Tinha sonhado que conversara com Gibarian. Mas, mais tarde, poderia jurar que lhe ouvira a voz, embora não conseguisse recordar o que dissera, e não fora uma conversa — era mais um discurso.

Rheya tomava um banho. Espreitei para debaixo da cama onde escondera o gravador uns dias antes. Já não estava lá.
— Rheya! — Passou a face pela fresta da porta. — Viu um gravador que estava debaixo da cama, um aparelho pequeno de bolso?
— Havia um monte de coisas debaixo da cama. Coloquei tudo ali. — Apontou para uma prateleira junto ao armário dos remédios e desapareceu no banheiro.
Não havia nenhum gravador na prateleira, e quando Rheya saiu, pedi-lhe que pensasse novamente no assunto. Sentou-se penteando o cabelo e não respondeu. Só então notei como estava pálida e como me observava atentamente no espelho.
Voltei ao ataque:
— O gravador Rheya.
— É só isso que tem para me dizer?
— Desculpa. Tem razão, é estupidez ficar tão preocupado por causa de um gravador.
Tudo para evitar uma discussão.
Mais tarde, no café da manhã, a alteração no comportamento de Rheya era evidente, mas não a conseguia definir. Não me olhava nos olhos e estava freqüentemente de tal modo perdida nos seus pensamentos que nem me ouvia.
Uma das vezes levantou a cabeça e tinha a face molhada.
— Que aconteceu? Está chorando.
— Deixa-me em paz — rebentou Rheya. — Não são lágrimas reais.
Talvez não devesse ter deixado passar uma resposta assim, mas uma “conversa honesta” era a última coisa que desejava. De qualquer modo, tinha outros problemas na mente; sonhara que Snow e Sartorius conspiravam contra mim e, embora tivesse a certeza de que não passara de um sonho, perguntava-me se haveria algo na Estação que pudesse usar para me defender. Ainda não chegara ao ponto de decidir o que faria com uma arma, se a encontrasse.

Disse a Rheya que tinha de fazer uma inspeção e seguiu-me silenciosa.
Revistei malas e cápsulas, quando cheguei ao piso inferior eu fui incapaz de resistir e ir espreitar no frigorífico. Como não queria que Rheya entrasse, passei a cabeça pela porta e olhei em volta. A figura jacente continuava tapada com a mortalha negra, mas da minha posição na entrada não podia distinguir se a mulher negra dormia ainda junto ao corpo de Gibarian.
Tive o pressentimento de que lá não estava.

Vagueei de uma área para a outra, incapaz de localizar o que quer que fosse que pudesse servir de arma, com um crescente sentimento de depressão.
De repente, notei que Rheya não estava comigo. Depois reapareceu; deixara-se ficar para trás no corredor. Apesar do sofrimento que sentia quando não me podia ver, tentara manter-se afastada. Deveria ter ficado espantado: em vez disso, continuei a agir como se tivesse sido ofendido —  mas quem me ofendera? —, e amuado como uma criança.

A cabeça latejava-me e percorri todo o conteúdo do armário dos remédios sem encontrar nem mesmo uma aspirina. Não queria voltar à enfermaria.
Não queria fazer nada.
Nunca me sentira com disposição mais sombria.
Rheya andava na ponta dos pés pela cabina, como uma sombra.
De vez em quando saía para qualquer lado. Não sei para onde; não lhe prestava atenção; depois, voltava a entrar.

Naquela tarde, na cozinha (acabávamos de comer, embora na verdade Rheya não tivesse tocado na comida e eu não tivesse tentado persuadi-la), Rheya levantou-se e veio sentar-se ao meu lado. Senti-lhe a mão sobre a manga e resmunguei:
 — Que é?
Pretendia ir ao piso de cima, porque os canos fizeram o agudo som crepitante que significava que estava em serviço a aparelhagem de alta voltagem, mas Rheya teria de ir comigo. Fora já bastante difícil justificar a sua presença na biblioteca; junto à maquinaria havia a hipótese de Snow deixar escapar qualquer comentário desagradável. Desisti da ideia de ir investigar.

— Kris — sussurrou —, o que está acontecendo?
Dei um involuntário suspiro de frustração perante tudo o que acontecera desde a noite anterior:
— Está tudo bem. Por quê?
— Quero falar contigo.
— Muito bem, sou todo ouvidos.
— Assim, não.
— O quê? Sabe que estou com dor de cabeça e que essa é a menor das minhas preocupações...
— Não está sendo justo.
Forcei-me a sorrir; deve ter sido uma pobre imitação.
— Vai querida, diz logo, por favor.
— Me dirá a verdade?
— Para que haveria de mentir? — Era um começo de mau agouro.
— Pode ter as suas razões... poderia ser necessário... Mas, se quiser... Olha, vou contar-lhe uma coisa e depois é a tua vez. Só que nada de meias verdades. Promete! — Não tive coragem para a olhar nos olhos. — Já te disse que não sei como vim parar aqui. Talvez você saiba. Espera, talvez não saiba. Mas, se sabe e não me pode dizer agora, promete dizer-me um dia, mais tarde? Não posso ficar pior do que estou e mereço uma oportunidade.
— Do que está falando, criança? — titubeei. — Que oportunidade?
— Kris, seja eu o que for, criança é que certamente não sou. Prometeu-me uma resposta.
“Seja eu o que for...”
Minha garganta contraiu-se e fiquei a olhar para Rheya e a abanar a cabeça como um imbecil, como que para me proibir de ouvir mais.
— Não estou pedindo explicações. Precisa apenas me dizer que não é permitido dizer-me.
— Não estou escondendo nada — disse em voz rouca.
— Muito bem.

Levantou-se. Eu queria dizer alguma coisa. Não podíamos abandonar o assunto naquele ponto. Mas não me vinham as palavras.
Rheya...
Ela estava junto à janela, de costas voltadas.
O Oceano azul-escuro estendia-se sob um céu sem nuvens.
— Rheya, se acredita em mim... Sabe muito bem que te amo...
— A mim?
Aproximei-me para a enlaçar com os braços, mas afastou-se para trás.
— É muito amável — disse-me. — Diz que me ama? Preferia que me batesse.
— Rheya, querida!
— Não, não, não digas mais nada.

Voltou para junto da mesa e começou a levantar os pratos.
Eu olhava para o Oceano.
O Sol estava a se pôr e a Estação lançava uma sombra alongada que dançava sobre as vagas.

Rheya deixou cair um prato no chão. Ouvi água a cair na pia.
Um halo cor de ouro velho sublinhava o horizonte.
Se ao menos eu soubesse o que fazer... se ao menos... De repente fez-se silêncio.
Rheya estava por trás de mim.
— Não, não se vire — murmurou. — Não é culpa sua, eu sei. Não se atormente.
Estendi a mão, mas ela fugiu para o lado oposto da sala e agarrou numa pilha de pratos.
— É uma pena que sejam inquebráveis. Queria parti-los todos, um a um.
Por um momento pensei que iria atirá-los ao chão, mas olhou para mim e sorriu.
— Não te aflija, não vou fazer cena.

No meio da noite acordei de repente.
O quarto estava às escuras e a porta estava aberta para trás e via-se uma luzinha fraca a brilhar no corredor. Ouvia-se um assobio agudo cortado por um bater pesado e surdo, como se um objeto pesado estivesse a bater contra uma parede.
Um meteoro tinha atravessado is escudos da Estação!
Não, um meteoro não, mas uma nave de apoio, pois ouvia-se um horrível e doloroso lamento...

Estremeci. Não era um meteoro, nem uma nave.
O som era produzido por alguém que estava no fundo do corredor.
Corri até ao lugar onde saía luz da porta da pequena oficina e precipitei-me lá dentro.
O quarto estava cheio de vapor gelado, a minha respiração parecia neve, e viam-se flocos brancos a esvoaçar sobre um corpo coberto com um roupão e que estremecia debilmente e voltava a bater no chão.
Mal se podia ver através da neblina gelada.
Levantei-a, agarrei-a nos braços, e o roupão queimou-me a pele.
Enquanto a levava aos tropeções pelo corredor fora, não sentindo mais o frio, só a sua respiração no meu pescoço a queimar como fogo, Rheya continuava a fazer aquele mesmo ruído louco.

Pousei-a na mesa de operações e abri o roupão.
A face estava contorcida de dor, os lábios cobertos por uma espessa camada negra de sangue gelado, a língua uma massa de luzentes cristais de gelo.
Oxigênio líquido... As garrafas que estavam na oficina continham oxigênio líquido. Quando saíra com Rheya nos braços, lascas de vidro se esmagavam sob os pés.
Quanto teria engolido? Não interessava agora. A traquéia, a garganta e os pulmões deviam estar completamente queimados — o oxigênio líquido corrói a carne mais eficazmente que fortes ácidos. A respiração estava cada vez mais difícil, com um som seco como o papel a rasgar-se. Os olhos continuavam fechados.
Estava morrendo.

Olhei para os grandes armários de portas de vidro, atulhados de instrumentos e drogas. Uma traqueotomia? Uma intubação? Mas ela não tinha pulmões! Fiquei a olhar para as prateleiras cheias de frascos coloridos e caixas de cartão. Ela continuava a ofegar roucamente, e da sua boca aberta saía um fio de vapor.
Termóforos...
Comecei a procurá-los. Mudei de opinião, corri a outro armário e tirei uma caixa de ampolas. Agora, uma agulha hipodérmica — onde estão?, aqui—, precisa ser esterilizada. Lutei com a tampa do esterilizador, mas os meus dedos entorpecidos tinham perdido toda a sensibilidade e não conseguia dobrá-los.

O rouco estertor subiu de tom, e os olhos de Rheya estavam abertos quando cheguei junto à mesa. Abri a boca para dizer o seu nome, mas desaparecera-me a voz e os lábios não me obedeciam. A cara era como se me não pertencesse; era uma máscara de gesso.
Sob a pele branca, viam-se as costelas de Rheya a subir e a descer. Os cristais de gelo tinham derretido e os cabelos molhados estavam emaranhados sobre o apoio da cabeça. E olhava para mim.

— Rheya! — Foi tudo o que consegui dizer. Fiquei ali paralisado, as mãos caídas e inúteis, até que uma sensação de queimadura me subiu pelas pernas e me chegou aos lábios e às pálpebras.

Uma gota de sangue derreteu e escorregou-lhe pela bochecha.
A sua língua estremeceu e recuou. O doloroso arquejar continuou.
Não sentia seu pulso e encostei o ouvido ao peito gelado. Muito tênue, por trás da terrível camada de gelo, o coração batia tão rápido que não conseguia contar seus batimentos, e permaneci ali agachado junto dela, de olhos fechados.
Algo me tocou na cabeça — era a mão de Rheya no meu cabelo.
Levantei-me.

— Kris! — Um suspiro rouco.
Peguei-lhe na mão, e a pressão que tive em resposta fez os meus ossos estalarem. Depois, a face contorceu-se em agonia e perdeu novamente a consciência.
Os olhos reviraram, um sibilar gutural rasgava-lhe a garganta e o corpo arqueava em convulsões. Precisava de todas as minhas forças para segurá-la em cima da mesa de operações; conseguiu soltar-se, e a cabeça foi embater de encontro a uma bacia de porcelana.

Arrastei-a de novo para o lugar e lutei, para mantê-la deitada, mas violentos espasmos continuamente a faziam saltar do meu amplexo. Estava alagado em suor e sentia as pernas como se fosse gelatina. Quando as convulsões começaram a acalmar, tentei fazê-la ficar deitada e plana, mas o seu peito atirava- se para cima, para tragar o ar.
De súbito vi os seus olhos a olharem para mim detrás da pavorosa máscara manchada de sangue que era a sua face.

— Kris... quanto tempo... quanto tempo?
Engasgou-se. Apareceu-lhe uma espuma rosada na boca e as convulsões voltaram a atacá-la. Com a minha última reserva de forças segurei-a pelos ombros de encontro à mesa e ficou deitada.
Ouvia seus dentes a bater.

— Não, não, não — soluçou de repente, e pensei que a morte estava próxima.
Mas os espasmos continuaram, e de novo tive de segurá-la para baixo. De tempos a tempos ela engolia em seco, e as suas costelas elevavam-se. Depois as pálpebras semicerraram-se sobre os olhos, que nada viam, e ficou rígida. Isso devia ser o fim.

Nem tentei limpar-lhe a espuma que tinha na boca.
Uma campainha distante zumbia-me na cabeça.
Esperava o seu último suspiro antes que me faltassem as forças e desfalecesse no chão.

Rheya continuava a respirar, e o seu ofegar era agora apenas como um ligeiro suspiro.
O peito, que deixara de se arquear para fora, movia-se de novo ao compasso rápido do bater do coração. Voltava-lhe a cor às faces.
Contudo, eu ainda não me apercebera do que estava a acontecer.
As minhas mãos estavam pegajosas, e ouvia como se através de várias camadas de algodão, mas aquele tinido continuava.




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sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Feliz Natal !

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

O Futuro também é nosso



Vários autores brasileiros já pensaram sobre a ficção científica (FC) e sua história, como Raul Fiker (Ficção Científica - Ficção, Ciência ou uma Épica de Época?, L&PM, 1985), Gilberto Schoereder (Ficção Científica, Francisco Alves, 1986), Léo Godoy Otero (Introdução a uma História da Ficção Científica, Lua Nova, 1987) e Braulio Tavares (O que É Ficção Científica, Brasiliense, 1992). Essas obras, porém, foram breves introduções ou guias de leitura para fãs do gênero, presas demais a seus critérios e convenções.
A obra de Roberto de Sousa Causo, Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil, 1875 a 1950 (UFMG, 2003), projeto orientado por professores da Faculdade de Letras da USP, é a primeira a abordar especificamente a FC no Brasil e a considerar a teoria literária e a história social para colocá-la em um contexto mais amplo. Sem nada da estrutura rígida e indigesta de uma típica tese acadêmica, é uma leitura agradável e reveladora para aficionados da FC e da cultura brasileira e uma nova referência para historiadores da cultura e críticos literários.

Causo delimitou seu objeto de estudo – a ficção especulativa – de uma forma não usual para a crítica literária tradicional, nem para a maioria dos autores e fãs do gênero. Não se trata de uma subliteratura menor e ou de fuga kitsch da realidade. Também não é necessariamente marcada pela antecipação do futuro, pela promoção de utopias ou pelo uso e valorização da ciência. Não é um gênero encerrado em convenções tradicionais, como o das histórias de detetive.

A característica que define a ficção especulativa é a figuração de mundos além dos cânones da experiência comum e da noção costumeira de “real”, mas que têm, cada um deles, uma lógica com a qual o leitor precisa se familiarizar e que o autor se obriga a manter – dentro de determinado texto, bem entendido (é comum que obras do mesmo autor proponham realidades contraditórias). Certamente não são ficções arbitrárias nas quais “tudo pode acontecer”.

Um exemplo é o subgênero da FC recentemente fundado pelo romance The Difference Engine (1991) de William Gibson e Bruce Sterling, geralmente chamado de steampunk, do qual os filmes As Loucas Aventuras de James West e A Liga Extraordinária são subprodutos paródicos. Desenvolve um século XIX alternativo, no qual a tecnologia do vapor teria ido muito além do que historicamente foi.

Existiriam computadores como os projetados por Charles Babbage em 1832 e as máquinas maravilhosas sonhadas por Jules Verne e H. G. Wells, junto com os preconceitos e os problemas políticos e sociais da era vitoriana. Esse mundo não pertence ao passado, ao futuro, nem ao espaço interestelar. Não é uma utopia nem uma sátira no sentido convencional. É uma ficção que, entre outras coisas, relativiza o nosso “cronocentrismo” e faz ver nossa própria realidade sob outra luz.

Além da ficção científica propriamente dita, que especula sobre desenvolvimentos das ciências naturais e da tecnologia (em sua vertente hard), ou  da cultura e da sociedade (na versão soft), cabem nessa definição seus gêneros irmãos, a fantasia e o horror.

Nessa perspectiva, obras como a Odisséia de Homero, a História Verdadeira de Luciano de Samósata e as Viagens de Gulliver de Jonathan Swift, bem como as incursões no fantástico de escritores canônicos, como Machado de Assis (O Imortal), são precursores e modelos legítimos para a ficção especulativa moderna que, mais que a manifestação específica de uma época, é a continuação de uma tradição paralela à da corrente principal da literatura.

Como marco inaugural do romance científico no Brasil, Causo indica O Doutor Benignus (1875), de Augusto Emílio Zaluar, escrito para jornais do Rio de Janeiro. Foi confessadamente influenciado por Verne e pelo astrônomo Camille Flammarion, mas já mostrava características típicas das primeiras gerações de assimilação brasileira do gênero.

Ao contrário dos heróis de Wells e Verne, prontos a aplicar com ousadia as descobertas científicas de sua época e defender especulações ainda mais arrojadas, a ciência do Dr. Benignus é passiva e contemplativa. Sua ocupação é exibir erudição e sugerir utopias redentoras, como a fundação de uma comunidade em uma ilha da América Central na qual as “nações principais” atrairiam “à civilização pela santa comunhão do trabalho, as raças ainda mergulhadas na indolência e no barbarismo”.

No início do folhetim, o desiludido Benignus se isola do convívio humano em uma fazenda de Minas Gerais. Ao descobrir, porém, um papiro com uma inscrição indígena que sugere vida no Sol, lança-se a uma expedição ao interior do Brasil que vai dar à ilha do Bananal. Reúne, para isso, recursos tecnológicos modernos, mas quase não faz uso deles. A maior parte da história reside na descrição da natureza e de suas atrações e perigos, aos quais o distraído doutor sobrevive graças à coragem e ao senso prático de Katini, seu fiel cozinheiro peruano.

O toque especulativo vem do sonho de Benignus com a visita de um ser espiritual proveniente do Sol que o cumprimenta por sua “impaciência de saber” e o exorta a infiltrar o bem na alma de seus semelhantes. Mas no final o leitor descobre que o misterioso papiro havia sido forjado por Katini para arrancá-lo de sua melancolia e desesperança. O saldo material da aventura é que Benignus e seu patrocinador norte-americano – o engenheiro James Wathon – juntam-se para criar uma companhia agrícola e industrial na ilha do Bananal, na qual os filhos do doutor serão “grandes proprietários agrícolas” e Katini o intendente.
A postura de espectador é uma característica muito freqüente na FC brasileira, principalmente (mas não só) em seus primeiros tempos. Nota-se também a falta de sociedades, congressos e institutos científicos como os citados em romances de Wells e Verne.

Como em a Viagem à Aurora do Mundo (1939), de Érico Veríssimo, influenciado por A Máquina do Tempo de Wells, O Mundo Perdido de Conan Doyle e a Viagem ao Centro da Terra de Verne. Mas em vez de viajar no tempo ou a lugares onde sobreviviam seres pré-históricos, o herói limita-se a criar uma máquina para visualizar a era dos dinossauros. E o objetivo do capitalista que o financia é apenas conquistar a jovem filha do cientista. Vê na fantástica máquina, quando muito, um meio de entretenimento.
É a visão de uma intelectualidade que, ao contrário de Marx, acreditava que seu papel era interpretar o mundo e não transformá-lo. Como disse o crítico Antonio Candido, “partilhava da ideologia ‘ilustrada’, segundo a qual a instrução traz automaticamente todos os benefícios que permitem a humanização do homem e o progresso da sociedade”, quando não via na ciência apenas mais uma forma de entreter os saraus da burguesia e brilhar nas mansões dos barões do café.

Esse não era o pior dos casos. Muitos autores que se meteram a usar a FC para pontificar a sério sobre o futuro do País e do mundo fizeram um papel muito mais deplorável.

O caso mais tristemente célebre é o de O Presidente Negro ou o Choque das Raças (1926), de Monteiro Lobato, que leva o preconceito “cordial” de suas histórias infantis às últimas conseqüências. Um “porviroscópio” revela, em 2228, uma Europa conquistada e colonizada por chineses e um Brasil acorrentado ao atraso pela mestiçagem – exceto no sul branco, que se funde à Argentina para formar a segunda nação mais progressista do planeta.

A primeira, é claro, são os EUA, graças à segregação que impediu que suas raças se “desnaturassem”. A tensão, porém, explode quando uma divisão entre os homens e mulheres da raça branca, provocada pelo movimento feminista, permite a eleição de um presidente negro. A solução é final: o genocídio da raça negra, seduzida em massa pelo ardil de um tratamento alisador de cabelos que esteriliza totalmente o usuário.
O modelo era The Unparalleled Invasion (1910), do norte-americano Jack London, em que a ameaça de uma China finalmente desperta, com 800 milhões de habitantes, é debelada por um ataque biológico que extermina sua população e permite aos brancos vitoriosos ocupar seu território. Buck Rogers, primeiro herói da FC em quadrinhos (1929), também lutou contra o futuro “perigo amarelo”.
A idéia, vê-se, não era especificamente brasileira. A cor local está na postura de espectador do protagonista – hóspede do inventor, estrangeiro, do “porviroscópio” – e no caráter da ameaça: a raça “inferior” não é uma rival perigosa, mas um estorvo passivo à ordem e ao progresso.
A Liga dos Planetas (1923), de Albino Coutinho, conta uma viagem à Lua, Marte e Vênus. Em toda parte, o autor ufana-se das belezas do Brasil. Mas quando um grupo de venusianas pede para conhecer esse País encantador, desconversa: “Se as levo e elas se assustam ou lhes contrariam as nossas modas, os vestidos pelos joelhos (...), os homens pardos nos passeios das ruas principais, entorpecendo a marcha dos transeuntes… Não voltarei por aqui para evitar desgostos”.

Essa viagem, vale notar, revela-se simples sonho. Usar tal recurso como veículo é um hábito irritante a que recorreram muitos dos primeiros autores brasileiros de FC para fugir da dificuldade de pensar nos meios de realizar suas especulações e da responsabilidade de discutir seriamente as conseqüências de suas utopias.
Foi especialista nessa tática o primeiro autor sistemático de FC no Brasil: o arquimisógino Berilo Neves, cujos contos foram reunidos nas coletâneas A Costela de Adão (1932) e Século XXI (1934). Em um deles, o protagonista viaja em sonho de 1927 para 2000 e acorda em um Rio de Janeiro limpo de sujeira e de mulheres: “A humanidade evoluiu. Nós somos criados sinteticamente por processos químico-biológicos. A estufa substituiu o ventre materno, e a mulher perdeu sua principal função na terra.”
Teve um imitador: Gomes Netto. Em seu O Cronomóvel (1934), o protagonista, que dispõe (em sonho) de uma máquina do tempo, prefere bisbilhotar a vida de sua noiva a investigar os mistérios da história.
Sua contrapartida feminina foi Adalzira Bittencourt, fundadora da Academia Brasileira Feminina de Letras, que em Sua Excia. a Presidente da República no ano 2500 (1929), descreveu um Brasil tão rico e poderoso quanto racista e xenófobo. Os negros foram expulsos e os imigrantes proibidos, salvo se “privilegiados de Deus”. Graças à ascensão das mulheres na política, que implementaram um rígido programa de eugenia e higiene social, o mais comum dos homens mede 2,40 metros.

Não é feminismo como hoje o entendemos. A mulher não concorre com o homem no trabalho: seu lugar é em casa – ou na política, na qual se mostra impiedosa. A heroína, presidenta Dra. Mariangela de Albuquerque, apaixona-se por um pintor do qual vira os quadros maravilhosos, mas ordena a eutanásia do amado ao descobrir que se trata de um anão corcunda. “Era mulher”, conclui triunfalmente a narrativa.
Felizmente, há também precursores dos quais os atuais autores brasileiros podem se orgulhar. Um deles é Afonso Schmidt com a impagável novela Zanzalá, publicada em 1936 no jornal Estado de S. Paulo e em 1949 em livro. Na comunidade do Vale de Zanzalá, na Cubatão de 2036, televisores e viagens interplanetárias convivem com ritos afro-brasileiros.  Nessa utopia cabocla, vive-se junto à natureza, em choupanas desmontáveis. As pessoas usam maiôs despojados e se tratam por apelidos.
Os dançarinos Zeca e Tuca compram uma briga contra os figurões do Instituto Musical para que Flanela, um maluco local, possa fazer seu concerto, que acaba por ser um sucesso mundial. Depois, os zanzalianos são atacados por europeus liderados por “trogloditas de cartola”. Esses primitivos aparecem em seus televisores “em formações compactas, com os capacetes de aço brilhando ao sol”, conduzindo bandeiras e máquinas de guerra.
Multidões de zanzalianos curiosos inundam de surpresa o campo de batalha, a ponto de romper as linhas do inimigo e determinar sua “derrota”. Milhares de zanzalianos morrem, mas o castigo dos inimigos se limita a um banho prolongado, depois do qual seus uniformes piolhentos são trocados pelos trajes leves e higiênicos de Zanzalá.

Outra boa história é de Gastão Cruls: A Amazônia Misteriosa (1925), por fim uma aventura de verdade. Perdido na selva, o narrador encontra as amazonas, herdeiras das “vestais” (as aclla) do Império Inca, das quais recebe uma beberagem que o põe em contato com o espírito de Atahualpa. Este lhe relata as conquistas de sua civilização e as atrocidades dos europeus que a destruíram. O narrador é então recebido por um pesquisador alemão que descobriu como combinar espécies diferentes e experimenta com seres humanos, aproveitando-se do desprezo das amazonas por seus filhos homens. O cientista, porém, quer agora um cérebro europeu. Sua ambição se volta contra a própria esposa e contra o narrador e ambos fogem com a ajuda de uma jovem e sagaz amazona.

Menos interessante e premonitório – e cientificamente mais equivocado –, mas bem escrito e passável como aventura, é A República 3000 (1927), de Menotti del Picchia. O capitão Fragoso, descobre, nas selvas do Brasil Central, uma cidade supertecnológica fundada por cretenses que já se preparam para emigrar para as estrelas – e uma “princesa inca” branca, Raymi, que o romântico capitão resgata dessa utopia fria e insensível.

Poderosas civilizações ocultas, como as de A cidade perdida (1948) e A serpente de bronze (1949) também foram especialidade de Jerônymo Monteiro. Não foi o primeiro autor de FC no Brasil, como às vezes se diz, mas sem dúvida foi um dos que mais a popularizou. Sua melhor obra – uma das jóias do período – foi 3 meses no século 81 (1947). Um brasileiro conhece o autor de A máquina do tempo e promete realizar o que ele imaginou. Com ajuda de um grupo de médiuns de São Paulo, encarna-se em um industrial do ano 8000 que produz o “raio da morte” usado na guerra com os marcianos. Indignado com as deficiências dessa sociedade, é cooptado pela resistência e lidera uma rebelião que termina com um holocausto global e a fundação de uma sociedade alternativa no que restou da Amazônia.

Não custa citar alguns dos autores brasileiros de livros de FC da segunda metade do século XX, ainda que estejam fora do âmbito da obra de Causo. Hoje, o mais conhecido é Jorge Luiz Calife. Seguidor de Arthur C. Clarke, deu-lhe a idéia para 2010 (continuação do clássico 2001) e publicou seis livros desde 1985. O mais recente é As Sereias do Espaço (2001), uma coletânea de contos que retoma uma velha tradição brasileira: desenvolver temas típicos da FC dos países centrais, mas com toques nacionais de humor, ironia, sentimento e sensualidade.

A sexualidade, vale notar, é um dos traços mais característicos da FC nacional recente. Uma das publicações mais recentes no gênero é uma engraçadíssima antologia organizada por Gerson Lodi-Ribeiro, Como era gostosa a minha alienígena! (2002), 21 contos que exploram o tema das formas mais inesperadas. É sintomático que, no subgênero da FC utópica, a obra mais interessante dos últimos tempos tenha sido Amorquia (1991), de André Carneiro: uma sociedade futura na qual o sexo é ensinado e praticado nas escolas e a fidelidade, considerada uma doença mental.

O segmento oposto, a distopia – descrições de um futuro ameaçador, como em 1984 – teve seu auge, logicamente, durante a ditadura militar, com Não verás país nenhum (1981), de Ignácio Loyola Brandão que descreve um Brasil extremamente autoritário, aterrorizado, violento e ecologicamente devastado.
A FC com caráter esotérico ou espiritualista não é exclusiva destas terras – vide Doris Lessing – mas é particularmente comum neste País, por razões óbvias. Para os brasileiros dos tempos estudados por Causo, uma sessão espírita parecia uma forma mais plausível e compreensível de viajar no tempo do que uma máquina estrambótica, épocas mais recentes continuaram a usar o mesmo recurso, agora para viajar no espaço.

Sem contar os textos “psicografados” por Chico Xavier e outros sobre a vida em outros planetas (inclusive em Marte, antes das fotos da Voyager acabarem com as ilusões de Flammarion e Kardec), mas apenas as publicadas como ficção, vale citar Contos do amanhã (1978) de Zora Seljam.
Curiosamente, a tradição foi retomada pela autora norte-americana Patricia Anthony, que em 1997 fez do Brasil o cenário de Cradle of Splendor (Berço Esplêndido, mas ainda sem tradução em português). Nosso país torna-se uma potência mundial e choca-se como os EUA quando a ditadora Ana Maria Bonfim põe em uso uma tecnologia antigravitacional, aparentemente fornecida por inteligências alienígenas através de um médium.

Não se pode esquecer de Rubens Teixeira Scavone (sete livros, de 1961 a 1993), literariamente dos melhores e um especialista em outra bem compreensível fantasia nacional – o contato com OVNIs e alienígenas muito mais avançados do que nós. A tradição de especular sobre poderosas civilizações ocultas em nosso planeta também continua viva no Brasil, como mostra Os Deuses Subterrâneos (1994), do atual ministro Cristovam Buarque.

Já as guerras futuristas e a exploração e conquista de planetas desconhecidos, clássicos na FC norte-americana, são aqui muito raros – o que é natural em um país vítima, e não protagonista do imperialismo.
Três escritores famosos, é verdade, fizeram do Brasil a futura potência dominante do planeta e a cabeça de um poderoso império interestelar. Só que foram norte-americanos: Lyon Sprague de Camp e sua esposa Catherine Crook, nos oito livros da saga Viagens Interplanetarias (assim mesmo, em português), escritos de 1951 a 1991 e John Wyndham, na coletânea The Outward Urge (A Ânsia de Expansão, 1959), que culmina no conto Space is a Province of Brazil.

De Camp foi um dos “monstros sagrados” da idade de ouro da FC nos EUA, tanto quanto Isaac Asimov e Arthur C. Clarke. Destacou-se, entre eles, pelo realismo social, histórico e científico do seu trabalho e sua obra é muito cultuada em seu país. Não teve, porém, repercussão nem seguidores no Brasil. Alguns de seus livros foram traduzidos, nos anos 70, pela Francisco Alves, mas há muito estão esgotados. É mais fácil encontrá-los (e aos livros de Wyndham), em Portugal, publicados na coleção Argonauta. A aventura do imperialismo foi o futuro que menos eco encontrou na alma nacional.




Antonio Luiz M.C.Costa (follow @ALuizCosta)

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Natal sem fome de leitura



domingo, 19 de dezembro de 2010

A Ciência da Ficção - O que é Ficção Científica?



O debate sobre uma definição adequada para a Ficção Científica (FC) é antigo.

A edição de 1979 da Enciclopédia da Ficção Científica tinha mais de vinte definições.
Em 1993, a equipe editorial baixou para onze. O livro de referência da FC cita sessenta e oito definições.
A maioria insatisfatórias, algumas irrelevantes e deixam escapar algo crucial.

Não se pode dizer que a FC é realista, porque não é limitada aos seus métodos, e pela mesma razão não pode ser classificado como naturalismo.

Definir FC como "narrativas do futuro" também é equivocado. Como disse o escritor e teórico de FC, Philip K. Dick, "não é o trabalho da ficção científica, fazer previsões". Dick dá também uma outra razão muito simples pela qual a FC não pode ser definida como uma ficção do futuro, ou seja, pode haver ficção científica no presente, ou em um mundo alternativo.

Hugo Gernsback (considerado o 'Pai da FC') definiu como "um romance com fatos científicos e visão profética entremeadas".

Na visão do croata Darko Suvin, estudioso e crítico de FC, esta definição identifica apenas "estágios primários de desenvolvimento da FC", como qualquer definição que se  concentra na tecnologia, ao invés do âmbito social onde estes avanços tiveram origem.

"Fornecer detalhes técnicos corretos" não é, de acordo com o professor Patrick Parrinder, o elemento definidor da FC. Isso porque os escritores lidam também com extrapolações não tecnológicas, como aspectos sociais, normas de comportamento sexual, cultos religiosos, formas de arte do futuro, etc.

Williams corrobora no mesmo ponto, quando afirma que a FC, além de explorar novas tecnologias, pode explorar um novo conjunto de leis, tais como novas relações abstratas - o que ele chama de "novo máquinário social".

O escritor de FC Kurt Vonnegut, falando sobre seu alter ego, o também escritor de FC, Kilgore Trout, declara que "se Kilgore Trout pode ser um escritor de FC, e ainda assim, não saber quase nada sobre ciência, então qual é a relação entre ciência e ficção científica?"

Outros escritores, como Ben Bova, Burroughs e Damien Broderick, definem a FC como "a ficção que trata de mitos modernos". Essa definição é equivocada, na minha opinião, e explicarei o por que mais tarde.

Se FC não pode ser definida como sendo sobre narrativas do futuro, nem como ficção tecnológica, e se não é o naturalismo, realismo ou mito, então o que exatamente é?

Os compiladores da edição de 1993 da Enciclopédia da Ficção Científica concluíram que uma definição única, que englobe tudo, é provavelmente impossível. No entanto, na introdução de "The Last Frontier: Imaging Other Worlds From the Copernican Revolution to Modern Science Fiction"  (A Última Fronteira: Imaginando Outros Mundos - Da Revolução de Copernico à Ficção Científica Moderna), o professor e historiador Karl Guthke, explora uma definição que julgo que revela os princípios filosóficos por detrás das obras de ficção científica. Um dos defensores mais proeminentes desta definição de FC é também Darko Suvin, que insiste que: "A FC é um gênero literário, cujas condições necessárias e suficientes são a presença e a interação de estranhamento e cognição, e cujo principal dispositivo formal é uma plataforma alternativa imaginada à partir do ambiente empírico do autor."

Embora não haja estranhamento ou "deslocamento", em toda a ficção de FC, o que distingue de outros gêneros é o fato de que seus estranhamentos são cientificamente possíveis ou acredita-se serem cientificamente possíveis.

Suvin dá uma definição do que se entende por literatura de estranhamento cognitivo: "A FC se distingue pela dominância narrativa ou a hegemonia de um 'novum' (novidade,  inovação), validado pela lógica cognitiva".

O 'novum' central de qualquer trabalho de FC, de acordo com Suvin, tem que estar dentro dos limites da razão científica. Se uma obra contém um ‘novum’ fora da "lógica cognitiva", não seria correto então, classificar como um exemplo de FC.

Fundamentalmente, não é a mera presença de um 'novum' que distingue a FC do resto da literatura, pois como diz Brian McHale (teórico e estudioso de literatura): "Qualquer ficção, de qualquer gênero, envolve pelo menos um 'novum', um personagem que não existe no mundo empírico, um evento que realmente não ocorreu.”

O que distingue a FC é o tipo de 'novum' que ela utiliza.

A FC se preocupa com 'novum's baseados em nossa compreensão da lógica e da ciência. Os mundos criados pelos livros de FC não são empíricos, no sentido em que eles estão de acordo com o mundo externo que conhecemos, e são empíricos, no sentido em que o escritor constrói seu mundo alternativo.

Obras de FC não são empíricas, porque descrevem o mundo exterior, como o escritor o experimenta, eles são empíricos em sua metodologia: são construídos de modo com que sejam compatíveis com um mundo cientificamente plausível, um mundo onde a investigação científica é possível e frutífera.

"É uma premissa da FC que, em princípio, tudo deve ser interpretável, empírica e racionalmente", afirma o também escritor de FC, Stanislaw Lem.

Isso quer dizer que uma história de ficção científica deve ser escrita a partir do espírito do conhecimento empírico, com aquilo que Eric S. Rabkin (professor de literatura e escritor de FC&F)  chama de "os hábitos científicos da mente."

O filósofo R.H.Popkin, prescreve que a única fonte de "informação sobre o mundo disponível, são as impressões que obtemos através dos nossos sentidos".

A ficção que o escritor de FC cria deve ser empírica para os seres dentro dela.

Para a escritora premiada Joanna Russ, a FC "se dirige à mente, não ao olho. Não somos  apresentados a uma representação daquilo que sabemos ser verdade, através da experiência direta, ao invés disso, nos é dado aquilo que sabemos ser, ao menos possível."

Uma outra característica que define a FC é o papel que o 'novum' científico desempenha na narrativa, que deve funcionar como o núcleo de todo o projeto, da qual fluem o enredo, estrutura e até mesmo o estilo. O 'novum', Suvin formula, "é tão importante e significativo que determina a lógica narrativa inteira."

Philip K. Dick, define a ficção científica da mesma forma que Suvin. Dick argumenta que se, uma preocupação com o futuro e com a tecnologia não são suficientes para definir a FC, então o que é?

"O que podemos chamar de FC? Temos um mundo fictício, que é o primeiro passo: Uma sociedade que de fato não existe, mas está baseada em nossa própria sociedade, isto é, a sociedade é o ponto de partida para isso; e avança para além da nossa própria, de alguma forma, talvez ortogonalmente, como acontece em um mundo alternativo. 
É o nosso mundo deslocado por algum tipo de esforço mental, por parte do autor, o nosso mundo transformado no que ainda não é. Este mundo deve ser diferente em pelo menos um modo, e esse deve ser suficiente para dar origem a eventos que não poderiam ocorrer em nossa sociedade, ou em qualquer outra sociedade conhecida, presente ou passada."

Dick, como Suvin e Robert E. Scholes (teórico e crítico de FC), vê como fator crucial a maneira pela qual o mundo ficcional é diferente da nossa, ou seja, o tipo de 'novum' que é usado.

"Deve haver uma idéia coerente envolvida neste deslocamento. Ou seja, o deslocamento deve ser conceitual, não apenas uma questão trivial ou bizarra"

O tripé da definição Suvin-Dick de FC, portanto, se apóia em 3 premissas:

   1. Temos um mundo que de uma ou mais formas é diferente do mundo real. (Ficção)
   2. Essa diferença (deslocamento, 'novum', etc) tem de ser concebível dentro da filosofia científica moderna. (Empírica)
   3. Esse deslocamento cognitivo tem de agir como o coração da narrativa. (Central)

Muitos outros escritores e críticos definem a FC da mesma maneira, mesmo com uma terminologia um pouco diferente.
Rabinn diz que: "Uma obra pertence ao gênero FC se o seu mundo narrativo é pelo menos um pouco diferente do nosso, e essa diferença é aparente contra o pano de fundo do conhecimento".

Outros teóricos cujas definições de ficção científica são semelhantes ao estranhamento cognitivo incluem Thomas Pavel, Annie Dillard, William Gass e Frank L. Cioffi, que afirmam que em obras de ficção científica a "base da ordem social", é diferente da nossa "realidade empírica" própria.

Stanislaw Lem escreveu: "FC é a arte de colocar premissas hipotéticas em um fluxo muito complicado de ocorrências psicossociais".

Como Suvin e Dick, Lem é seletivo quanto ao tipo de premissas hipotéticas que podem ser usadas: elas não podem ser de qualquer tipo, como um conto de fadas, por exemplo.

O que Dick se refere como um "deslocamento bizarro" Suvin chama de "estranhamento não cognitivo metafísico". O que Dick define como "deslocamento trivial", Suvin define como "naturalista".

Como o filósofo David Hume apontou em seu famoso livro ‘An Enquiry concerning Human Understanding’; Empirismo e ciência só podem trabalhar em um mundo que é suscetível às leis observáveis. Um universo que não é suscetível à lógica, à razão, um mundo sem causa e efeito, um mundo governado pela magia é um anátema que para o empirismo equivale a uma admissão de derrota. Temos que acreditar que o mundo (qualquer mundo) é compreensível em algum nível.

"Lógica", como diria o filósofo Nietzsche, "por sua natureza, é uma questão de otimismo".

Para Lem, "na ficção científica, não pode haver maravilhas inexplicáveis, transcendências, nem demônios."

A proibição de Lem a demônios é idêntica ao que Dick diz: "a religião nunca deve aparecer em FC, exceto como perspectiva sociológica."

Suvin também só permite aspectos religiosos se for examinada “como um fenômeno humano cientificamente observável". Não se deve "brincar com a religião para além do seu interesse puramente histórico ou antropológico".

Tudo isso sugere que no centro da definição Suvin-Dick de FC, há um compromisso muito sério de alguma espécie com a ciência, e é esse compromisso que torna a FC diferente de todas as outras formas literárias.

O professor Gerald Prince resume a situação assim: "a ficção científica está ligada à ciência, e mesmo sendo frágil esta ligação, que forneça um cenário privilegiado para a razão se aventurar, com suas derrotas e vitórias".

Mas do que se trata esta ligação entre Ciência e Ficção Científica?

O termo criado por Lem, "premissa hipotética" sugere que o escritor de FC é semelhante ao cientista. FC é uma ficção escrita a partir de uma maneira científica de olhar para o universo(s).

O que a FC tem da ciência, segundo a definição Suvin-Dick, é a sua metodologia.
Afirma Suvin que 'novum's de FC são "postulados validados pelos métodos científicos pós-cartesiano e pós-baconiano".

Narrativas de FC, narrativas sérias de FC, são escritas dentro do espírito da ciência.
FC não é ficção sobre ciência, mas ficção através do método científico.

A noção central da ciência para Albert E. Moyer (estudioso da ciência na sociedade), é que "regras metodológicas operam e se desenvolvem independentemente do background  social e cultural do cientista", e que tais regras metodológicas de "funcionamento universal" devem ser apreendidas por escritores de FC, já que a FC é um "experimento mental" (termo de Suvin) a partir de dados científicos, ou seja, cognitivo, da lógica.

Rabkin engloba tudo maravilhosamente ao dizer que: "O que é importante na definição de ficção científica não são os acessórios, as armas de raios, mas o hábito científico da mente do autor" (http://www.columbia.edu/ccnmtl/projects/frontiers/habits.html).

A base do método científico de experimentação é o controle de todas as variáveis, excluindo aquela sob investigação. Este é o que precisamente a FC, de acordo com Suvin-Dick faz, ela imagina o mundo como ele é, com uma diferença (novum) significativa e cientificamente plausível (cognitiva, ou não-trivial, não bizarra), e imagina que mudanças isso provocaria ao fluxo de "ocorrências psicossociais".

Para Rabkin, "Uma boa obra de ficção científica faz apenas uma suposição sobre o seu mundo narrativo e que viola nosso conhecimento sobre o nosso próprio mundo e extrapola toda a narrativa a partir desta diferença."

Se aceitarmos que a FC está edificada sobre a crença no método científico, algo mais importante se torna visível. Algo que se soma ao termo de Lem, o "fluxo de ocorrências  psicossociais". Ver o mundo social, psicológico e físico, a partir de uma perspectiva científica, é vê-lo como um determinado conjunto de variáveis. A perspectiva científica é uma visão profundamente cinética do mundo, uma visão de um mundo predisposto a mudanças. Tal perspectiva, que vê paradigmas como transitórios, é diametralmente oposta à certeza ao absoluto. Não se dá devido aos escritores de FC usarem a metodologia científica, eles a utilizam como sua perspectiva filosófica sobre o mundo.

Dentro da FC há um compromisso filosófico, uma crença no método racional.

Parrinder se refere à dívida dos escritores de FC com a "ideologia" científica, o que Aldous Huxley chamou de "espírito ético" da ciência, ou o que Tanner chamou de "a moralidade da flexibilidade".

Para Huxley, um escritor ou é um propagandista da "ciência pura e da filosofia analítica" ou da "idolatria nacionalista, da mentira organizada [por exemplo: a religião] e de um número sem fim de distrações".

É por este motivo que a FC não pode ser classificada como um mito moderno: o mito é estático, eterno: "O caráter ontológico do mito é antiempírico... vive na ficção mas se esforça para sair deste estado antinômico de ser", disse Lem.

“A ficção tradicional compartilha as ilusões (os mitos) da sociedade que a produz.
Já a FC se esforça, por vezes com bastante sucesso, para ficar de fora" diz Nicholls.

Broderick descreve a FC como principalmente um meio diacrônico, um histórico de mudanças acumulativas, em que cada passo é diferente do último. O mito, pelo contrário, opera normalmente e, principalmente, numa sincrônica ou “dimensão atemporal".

O trabalho da FC, de acordo com Bachard, é por abaixo intuições imediatas e desconstruir um universo de "clichés arquetípicos".

Cioffi acredita que "A FC é uma expressão inteligível de uma sociedade em que as visões do mundo podem mudar", e Campbell afirma que "ao contrário de outras literaturas, a FC assume que a mudança é parte natural da ordem das coisas."

Há muito se tem uma associação óbvia entre o ceticismo e o empirismo.

O filósofo racionalista Anthony Flew atesta sobre a relação entre os dois: "O empirismo caracteristicamente está voltado para a aquisição do conhecimentos, um processo lento e fragmentado, repleto de auto-correção e limitada pelas possibilidades de experimentação e observação, e tem sido caracteristicamente cético quanto a abraçar sistemas metafísicos."

Este espírito cético, que acompanha a defesa do método científico, insiste em que tudo pode ser descentralizado, e respeita a crença de que a verdade absoluta é cognoscível como errônea e anacrônica. “Os cientistas não talham verdades na pedra e nem devem os escritores de FC fazê-lo”, pois como adverte Broderick, “a metodologia a qual se filiaram, não permite isso, a virtude está em destruir a pedra e disseminar as palavras."

O professor de literatura Robert M. Philmus reduz a um simples ponto ao afirmar que enquanto a FC requer e permite a explicação científica, a fantasia (o mito, a metafísica) não pode permitir isso. O mito é antiempírico, precisamente porque não vê o Universo como um conjunto de variáveis, mas como algo absoluto. As visões do mundo mítico não aceitam o  método científico, o processo racional, não clama por um universo razoável. O Mito reside no aforismo de Nietzsche: "O inexplicável deve ser completamente inexplicável, o inexplicável dever ser completamente sobrenatural, miraculoso como assim exigem todos os religiosos e metafísicos... apesar do homem de ciência ver nesta exigência o princípio de todo mal."

Suvin coloca a dicotomia entre o mito e método científico, assim: "Matematicamente falando, o mito é orientado para as constantes, enquanto a FC, para as variáveis."

FC é, portanto, como sugere Nicholls, "a literatura da mudança", e como Suvin conclui, "ela enxerga a ilusão da identidade mítica estática, geralmente como fraude, na melhor das hipóteses, apenas como uma realização temporária de contingências potencialmente ilimitadas."


Bo Fowler (New Humanist Articles - Volume 116 - Primavera de 2001)







Uma lista do que é e do que não é FC, segundo Darko Suvin.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Solaris - Stanislaw Lem (parte 16)


Atravessamos vastos salões, cada um deles com a capacidade de dez unidades Kronecker, e arrastamo-nos como formigas, agarrando-nos aos rebordos das galerias que respiram e esticamos os pescoços para observar o voo de arrojadas vigas mestras, opalescentes à luz das lanternas, e as elásticas cúpulas que se entrecruzam e contrabalançam sem o mínimo erro — a perfeição de um momento, visto que tudo aqui passa e desvanece. A essência desta arquitetura é o movimento sincronizado com vista a um objetivo preciso. Observamos apenas uma fração do processo, que é como ouvir a vibração de uma única corda numa orquestra de super-gigantes. Sabemos, mas não conseguimos aprender, que acima e abaixo, para além dos limites da percepção ou da imaginação, estão a decorrer milhares e milhões de transformações simultâneas, interligadas por um contraponto metálico, tal como uma partitura de música.
Tem sido descrita como uma sinfonia em geometria, mas faltam-nos os ouvidos para a podermos ouvir.

Só observando a longa distância poderíamos abranger todo o processo, mas a camada externa da simetríade esconde a colossal matriz interior, onde a criação é incessante, o criado torna-se o criador e “gêmeos” absolutamente idênticos nascem em pólos opostos, separados por estruturas gigantescas à milhas de distância. A sinfonia cria-se a si própria e escreve a sua própria conclusão, o que é terrível de ver. Cada observador sente-se como um espectador de uma tragédia ou de um massacre público, quando, depois de duas ou três horas — nunca mais—, o Oceano vivo encena o seu próprio assalto. A superfície polida do Oceano redemoinha e encrespa-se, começa a borbulhar, e legiões de vagas, vindas de todos os pontos do horizonte, convergem para o centro, as bocarras abertas muito mais maciças que os lábios que envolvem o mimóide em embrião. A base submersa da simetríade é comprida, e o colosso eleva-se como se a ponto de ser cuspido para fora da força de gravitação do planeta. As camadas superiores do Oceano redobram a sua atividade e as vagas erguem-se cada vez mais altivas, para depois embater contra os lados da simetríade. Envolvem-na, endurecem e tapam todas as aberturas, mas o seu ataque nada é em comparação com a cena que se passa no interior. Primeiro, o processo de criação fica momentaneamente petrificado; depois, há o “pânico”. A suave interpenetração de formas em movimento e o jogo harmonioso de planos e linhas aceleram e não se pode deixar de ter a impressão de que a simetríade, em face do perigo, se apressa a completar uma tarefa qualquer. O temor que nos inspiram as metamorfoses e a dinâmica de simetríade intensifica-se quando o orgulhoso arco das cúpulas cede, as galerias são abaladas e desfalecem, e umas “notas erradas” — formas incompletas e mutiladas— fazem a sua aparição. Como um suspiro de agonia, um poderoso ronco moribundo brota das profundezas invisíveis, ecoa pelos estreitos funis e ressoa pelas cúpulas a desmoronar-se.

Apesar da crescente violência destrutiva destas convulsões, o espectador está pregado ao seu lugar. Só a força do furacão que jorra das entranhas e ribomba pelos milhares de galerias mantém ereta a grande estrutura. Breve colapsa e começa a desintegrar-se.
Há uns estremecimentos finais, contorções e espasmos cegos e ao acaso. Corroído e minado por baixo, o gigante afunda lentamente e desaparece, e o espaço onde se erguia fica coberto de redemoinhos de espuma.
E o que significa tudo isto?

Recordei um incidente que data do tempo em que fui assistente de Gibarian.
Um grupo de estudantes escolares de visita ao Instituto Solarista em Aden passava pelo salão principal da biblioteca e olhava para as prateleiras de microfilme, que ocupavam todo o lado esquerdo do salão. O guia explicava que, entre outros fenômenos imortalizados pela imagem, aqueles microfilmes continham aspectos fragmentários de simetríades há muito desaparecidas — não simples fotografias, mas rolos completos, mais de noventa mil!
Uma menina gorda (parecendo ter cerca de quinze anos e olhando inquiridora por cima dos óculos) perguntou abruptamente:
— E para que servem?
No embaraçoso silêncio que se seguiu, a professora da escola contentou-se com lançar um olhar reprovador à sua pouco dócil aluna. Dentre os solaristas que tinham por missão servir de guias (e eu era um deles) ninguém conseguiu apresentar uma resposta.

Cada simetríade é única em si mesma, e os fenômenos que se dão no seu âmago são, de modo geral, imprevisíveis. As vezes não há qualquer som. Algumas vezes o índice de refração aumenta ou diminui. Por vezes há pulsações rítmicas que são acompanhadas de alterações locais de gravidade, como se o coração da simetríade batesse por gravitação. Outras vezes ainda as bússolas dos observadores giram de um modo louco, e vêem-se jorrar camadas ionizadas, que depois desaparecem.
A lista podia continuar indefinidamente.
De qualquer modo, mesmo que um dia se viesse a descobrir o enigma das simetríades, teríamos ainda de nos haver com as assimetríades!

As assimetríades nascem do mesmo modo que as simetríades, mas acabam diferentemente e nada se consegue ver dos seus processos internos além de tremores, vibrações e centelhas bruxuleantes. Sabemos, contudo, que o seu interior abriga espantosas operações realizadas a uma velocidade que desafia todas as leis da física, e a que se deu o nome de “fenômenos quânticos gigantes”. A analogia temática com certos modelos tridimensionais do átomo é tão instável e transitória que alguns comentaristas classificam a semelhança sendo de importância secundária, se não mesmo puramente
acidental.

As assimetríades têm um tempo de vida muito curto, de quinze a vinte minutos, e a sua morte é ainda mais impressionante que a das simetríades: acompanhando a ventania ululante que ruge através da sua substância, um fluido denso jorra para fora, borbulha de um modo horrendo e tudo submerge sob uma espuma borbulhante e malcheirosa. Depois, coincidindo com uma erupção de lama, uma explosão lança para o ar um jato de entulho, que vai cair lentamente como chuva sobre o Oceano revoltoso. Este entulho é por vezes encontrado a grande número de milhas do foco da explosão, seco, amarelo e achatado, como panquecas de cartilagem.

Algumas outras criações do Oceano, as quais são muito mais raras e de duração muito variável, separam-se por completo do corpo que as gerou. As primeiras descobertas destas “independentes” foram consideradas —erradamente, como mais tarde se provou — restos de criaturas que vivem nas profundezas do Oceano. As formas de dimensão variável, quando saem como dardos dos troncos móveis do agilus, muitas vezes fazem lembrar pássaros com muitas asas; mas os conceitos da Terra não oferecem qualquer ajuda para desenredar os mistérios de Solaris. Nas saliências rochosas de uma ilha aparecem ocasionalmente estranhos corpos semelhantes a focas, estendidos ao sol ou arrastando-se preguiçosamente até voltarem a fundir-se com o Oceano.

Não havia processo de escapar às impressões nascidas da experiência do homem na Terra. As probabilidades de contato sofreram um recuo.

Muitos exploradores penetraram a centenas de milhas no interior de simetríades e instalaram aparelhos de medição e câmaras fotográficas de controlo remoto.
Satélites artificiais captavam o nascimento de mimóides e extensores e reproduziam fielmente as imagens do seu desenvolvimento e destruição.
As bibliotecas ficaram a abarrotar, os arquivos cresceram, e muitas vezes o preço pago por toda essa documentação era muito pesado.

Um desastre notório custou a vida a cento e seis pessoas, entre elas o próprio Giese: enquanto estudavam o que era indubitavelmente uma simetríade, a expedição foi subitamente destruída por um processo típico das assimetríades. Em dois segundos, uma erupção de lama glutinosa engoliu setenta e nove homens e todo o seu equipamento. Foram também apanhados na erupção vinte e sete observadores, que a bordo de uma nave e de helicópteros vigiavam a área. Em seguida à erupção dos Cento e Seis, e pela primeira vez na história dos estudos solaristicos, fizeram-se petições exigindo um ataque termonuclear ao Oceano. Tal resposta teria sido mais crueldade que vingança, pois significaria destruir aquilo que não se compreendia. O ultimato de Tsanken, que nunca chegou a ser oficialmente reconhecido, contribuiu provavelmente para que o resultado da votação fosse negativo. Ele estava no comando da equipe de reserva de Giese, e sobreviveu graças a um erro de transmissão que o fez desviar da rota, só chegando à área do desastre alguns minutos após a explosão e quando a nuvem negra em forma de cogumelo era ainda visível. Quando foi informado da proposta de um ataque nuclear, ameaçou explodir a Estação, juntamente com os dezenove sobreviventes que nela se abrigavam.

Hoje estamos apenas três pessoas na Estação.
A sua construção foi controlada por satélites e foi uma proeza técnica de que a raça humana tem o direito de se orgulhar, mesmo que o Oceano construa, no espaço de poucos segundos, estruturas muito mais impressionantes. A Estação é um disco com um raio de cem metros e tem quatro pisos na parte central e dois na periferia. É mantida a uma altura de quinhentos a mil metros acima do Oceano por meio de gravitadores programados para compensar o campo de atração do Oceano. Além de toda a maquinaria existente nas estações comuns e nos grandes satélites artificiais que estão na órbita de outros planetas, a Estação de Solaris está equipada com uma aparelhagem de radar especial, sensível à mínima flutuação da superfície do Oceano e que liga circuitos auxiliares poderosos, capazes de lançar o disco de aço para a estratosfera ao mínimo sinal de novas sublevações plasmáticas.

Mas hoje, apesar da presença dos nossos fiéis “visitantes”, a Estação estava estranhamente deserta. Desde que os robôs tinham sido encarcerados no piso inferior —por uma razão que eu ainda não tinha descoberto —, era possível uma pessoa andar de um lado para o outro sem encontrar um único membro da tripulação da nossa nave fantasma.

Quando voltei a colocar o nono volume de Giese na prateleira, o assoalho de aço recoberto de plástico pareceu estremecer sob os meus pés.
Fiquei imóvel, mas a vibração já tinha parado.
A biblioteca estava completamente isolada das outras divisões, e a única fonte possível de vibração devia ser qualquer nave de apoio a sair da Estação. Este pensamento fez-me voltar à realidade. Ainda não decidira se ia aceitar a sugestão de Sartorius e sair da Estação. Ao fingir aprovar o seu plano, pretendia mais ou menos adiar o começo das hostilidades, pois estava decidido a salvar Rheya.

Em todo o caso, Sartorius tinha certas probabilidades de ser bem sucedido. Ele tinha certamente a vantagem de ser um físico qualificado, ao passo que eu estava na irônica posição de ter de contar com a superioridade do Oceano. Durante uma hora estudei textos em microfilme e obriguei-me a lutar com a linguagem pouco familiar da física dos neutrinos. A princípio, o empreendimento parecia absolutamente sem esperança: havia nada menos que cinco teorias correntes que tratavam de campos de neutrinos, sinal evidente que nenhuma delas era definitiva. Finalmente, encontrei uma parte mais prometedora, e estava atarefado a copiar equações quando bateram à porta.

Levantei-me rapidamente, abri-a alguns centímetros e vi a cara suada de Snow e, por trás dele, um corredor vazio.
— Sim, sou eu. — A voz estava rouca e tinha papos sombrios por baixo dos olhos injetados de sangue. Trazia um avental anti-radiações de borracha lustrosa e as mesmas calças velhas, arregaçadas e presas com braçadeiras elásticas.
O olhar de Snow percorreu toda a sala circular e iluminou- ao se deparar com Rheya, de pé junto a uma cadeira de braços, no lado oposto da sala. Depois voltou a fixar-se sobre mim e eu baixei imperceptivelmente as pálpebras.
Snow anuiu com a cabeça e falei em tom casual:
— Rheya, venha cá para que eu te apresente o Dr. Snow... Snow, a minha mulher.
—  Eu... sou apenas um membro menor da tripulação. Não ando muito por aí... — Vacilou, mas conseguiu dizer: — Por isso ainda não tive o prazer de encontre-la...
Rheya sorriu e estendeu-lhe a mão, que ele apertou algo surpreendido. Piscou várias vezes os olhos e ficou ali a olhar para ela, incapaz de falar, até que lhe peguei no braço.
— Perdoe-me — disse ele a Rheya. — Preciso falar contigo Kelvin...
— Claro. — (A minha compostura era uma farsa, mas que outra coisa poderia fazer?) — Não se importe conosco, Rheya. Vamos só falar de trabalho...
Guiei Snow até às cadeiras que havia do outro lado da sala e Rheya sentou-se na cadeira que eu antes ocupara, fazendo-a rodar até poder ver-nos quando levantasse os olhos do livro. Baixei a voz:
— Novidades?
— Estou divorciado — segredou ele. Se, uns dias antes, alguém me tivesse dito esta frase como abertura de conversa, teria desatado às gargalhadas, mas a Estação embotara-me o sentido de humor. — Parece que passaram anos desde ontem de manhã — continuou. — E você?
— Nada. — Não sabia o que dizer. Gostava de Snow, mas não confiava nele, ou melhor, desconfiava da intenção da sua visita.
— Nada? Certamente...
— O quê? — Fingi não perceber.
De olhos semicerrados, inclinou-se até ficar tão próximo que podia sentir sua respiração em minha cara:
— Esta história está deixando a todos confusos, Kelvin. Não consigo estabelecer contato com Sartorius. Tudo o que sei é o que lhe escrevi, e foi o que ele me disse depois da nossa pequena conferência.
— Ele desligou o videofone?
— Não, houve um curto-circuito naquele terminal. Pode tê-lo feito de propósito, mas há também... — cerrou o punho e imitou uma pessoa a dar um murro, ao mesmo tempo em que retorcia os lábios numa careta desagradável. — Kelvin, vim cá para... O que é que você pretende fazer?
— Você quer a resposta à sua carta. Muito bem, eu faço a viagem, não há razão para recusar. Só estou preparando-me...
— Não — interrompeu. — Não é isso.
— O quê então? Diga.
— Sartorius pensa que talvez esteja na pista certa — disse num murmúrio. Não tirava os olhos de cima de mim, e senti-me obrigado a ficar imóvel e a tentar manter com um ar descontraído. — Tudo começou com aquela experiência de raios X que ele organizou com Gibarian, como se recorda. Isso poderia ter provocado uma alteração ...
— Que espécie de alteração?
— Eles dirigiram os raios diretamente para o Oceano. A intensidade foi regulada de acordo com um programa preestabelecido.
— Eu sei. Já foi feito também por Nilin e muitos outros.
— Sim, mas os outros trabalharam com baixa intensidade. Desta vez eles empregaram o nosso máximo.
— Isso pode trazer complicações... é uma violação à convenção dos quatro poderes e às Nações Unidas...
— Ora, Kelvin, você sabe tão bem quanto eu que isso agora já não interessa. Gibarian está morto.
— Então Sartorius faz dele o bode expiatório, hem?
— Não sei. Não falamos disso. Sartorius está intrigado com as horas das visitas. Só aparecem quando acordamos, o que sugere que o Oceano está especialmente interessado nas nossas horas de sono e que é nessa altura que ele localiza os seus modelos. Sartorius quer enviar os nossos eus acordados, os nossos pensamentos conscientes. Percebe?
— Pelo correio?
— Deixe de brincadeiras. A ideia é regular os raios X, ligando a eles um eletro encefalograma tirado de um de nós.
— Ah! — Começava a ver a luz. — E esse um de nós sou eu?
— Sim, Sartorius estava pensando em si.
— Diga-lhe que me sinto lisonjeado.
— Você aceita?
Hesitei. Snow lançou um olhar para Rheya, que parecia absorta no livro.
Senti a face empalidecer.
— Então?
— A ideia de utilizar raios X para pregar sermões a respeito da grandeza da humanidade parece-me absolutamente ridícula. Não acha?
— Está falando sério?
— Sim.
— Certo — disse sorrindo, como se eu tivesse ido ao encontro de qualquer ideia sua. — Então, opõe-se ao plano?
A sua expressão dizia-me que, por qualquer razão, ele estiver a todo o tempo um passo à minha frente.
— Muito bem — continuou. — Há um segundo plano, construir um aparelho Roche.
— Um aniquilador?
— Sim. Sartorius já fez os cálculos preliminares. É realizável, e nem mesmo vai exigir grande dispêndio de energia. O aparelho gera um campo negativo durante as vinte e quatro horas do dia e por período ilimitado.
— E o seu efeito?
— Simples. Será um campo de neutrino negativo. A matéria comum não será por ele afetada. Só as... estruturas de neutrinos serão destruídas. Percebe?
Snow lançou-me um sorriso satisfeito. Permaneci imóvel e de boca aberta, a tal ponto que ele deixou de sorrir, olhou para mim de cenho franzido e esperou um momento antes de falar:
— Abandonamos então o primeiro plano, o plano da “Onda Cerebral”, não é? A esta mesma hora, Sartorius está já trabalhando no outro. Chamamos de “Projeto Libertação”.
Precisava, tomar uma decisão rápida. Snow não era físico, e o videofone de Sartorius estava desligado ou arrebentado. Resolvi arriscar-me:
— À segunda ideia eu prefiro dar o nome de “Operação Matadouro”.
— E você sabe disso! Não me diga que ultimamente não tem tido alguma prática do assunto. Só que desta vez haverá uma diferença radical: nunca mais haverá visitantes, nunca mais, as criaturas Phi serão desintegradas no momento em que apareçam.
Acenei concordando e tentei o que eu esperava que fosse um sorriso convincente:
— Você não percebeu bem o sentido. A moralidade é uma coisa, mas a auto-preservação... Só não quero ver-nos a todos mortos Snow.
Olhou-me com suspeita quando lhe mostrei as equações que escrevera.
— Tenho andado a trabalhar dentro das mesmas linhas. Não me olhe tão espantado. A teoria dos neutrinos foi primeiro ideia minha, lembra-se? Olhe. É certo que se podem criar campos negativos. E a matéria comum não é afetada. Mas o que acontece à energia que mantém a estrutura de neutrinos quando esta se desintegrar? Deve haver considerável libertação de energia. Partindo do princípio de que um quilograma de matéria comum representa 10 ergs, para uma criação Phi obtemos 5? multiplicado por 10. Isso significa o equivalente a uma pequena bomba atômica a explodir dentro da Estação.
— Está querendo me dizer que Sartorius não deve ter tomado isso em consideração?
Foi a minha vez de sorrir com malícia:
— Não necessariamente. Sartorius segue a escola de Frazer-Cajolla. As suas teorias dizem que a energia potencial seria libertada sob a forma de luz, poderosa sim, mas não destrutiva. Mas essa não é a única teoria que há a respeito de campos de neutrinos. Segundo Cayatte, Avalov e Sion, o espectro de radiação seria muito mais amplo. No seu máximo, haveria uma forte explosão de radiações gama. Sartorius tem fé nos seus mentores. Não digo que não possamos respeitar isso, mas há outros mentores e outras teorias. E outra coisa, Snow — podia ver-se que começava a hesitar—, não podemos esquecer o próprio Oceano! Pode bem ter usado o melhor meio para as suas criações. Parece-me que não podemos dar-nos ao luxo de apoiar Sartorius tanto contra o Oceano como contra as outras teorias.
— Dê-me esse papel, Kelvin.
Entreguei-lho e vi-o estudar as minhas equações.
— Que é isto? — Apontou para uma linha de cálculos.
— Isso? O tensor de transformação do campo magnético.
— Ficarei com isto.
— Por quê?  (Eu já sabia a resposta.)
— Tenho de mostrar para Sartorius.
— Se prefere — encolhi os ombros. — É claro que pode levar, mas não pode esquecer que estas teorias nunca foram postas à prova experimentalmente. Até hoje, as estruturas de neutrinos têm sido meras abstrações. Sartorius se apóia em Frazer, e eu segui a teoria de Sion. Ele vai dizer que eu não sou físico e que Sion também o não é, pelo menos sob o seu ponto de vista. Vai pôr os números em dúvida e não me vou deixar envolver numa discussão em que ele tentará intimidar-me apenas para sua própria satisfação. Você eu posso convencer. Sartorius, nem de longe, nem tenciono tentar.
— Então, o que quer você fazer? Ele já começou a trabalhar...
Toda a sua anterior animação desapareceu, e falava em tom monocórdio. Não sabia se ele confiava em mim, nem me importava.
— Que é que eu quero fazer? O que faz qualquer pessoa quando a sua vida está em perigo. Vou tentar contatá-lo. Talvez ele descubra uma espécie de engenho de segurança... E depois, há o nosso primeiro plano. Você estaria disposto a cooperar? Sartorius estaria de acordo, tenho a certeza. Pelo menos, vale a pena tentar.
— Pensa que sim?
— Não — retorquiu abrupto. — Mas, o que temos a perder?
Não tinha pressa de aceitar. Do que eu precisava era de tempo, e Snow podia ajudar-me a prolongar o prazo:
— Vou pensar no assunto.
— Bem, vou andando. — Quando se levantou, os ossos gemeram. — Teremos de começar com o encefalograma — disse, esfregando a bata como que para tirar uma nódoa invisível.
Sem uma palavra para Rheya, foi até à porta, e quando esta se fechou depois de ele sair, levantei-me e amarrotei a folha de papel que tinha na mão. Não tinha falsificado as equações, mas duvido que Sion tivesse concordado com o modo como alargara a sua teoria.

Tive um sobressalto quando a mão de Rheya me tocou no ombro.
— Kris, quem é ele?
— Já te disse, o Dr. Snow.
— Como é ele?
— Não o conheço muito bem... por quê?
— Lançava-me um olhar tão estranho...
— Você é uma mulher atraente...
— Não, este olhar era diferente... era como se... — Estremeceu, olhou para mim de esguelha e voltou a baixar os olhos. — Vamos voltar para a cabine.




Solaris - Stanislaw Lem (parte 16) [ Download ]

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Fantastic Flashbacks




Fantastic Flashbacks

Moonbase Central



Moonbase Central

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Robot Loves Monster



Dedicado à preservação histórica e estudo de robôs e monstros de plástico.

Robot Loves Monster.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Tales of Future Past



Há pouco tempo atrás tínhamos um futuro.

Quero dizer, nós temos um agora, o mundo não vai colidir com o Sol ou qualquer coisa assim.

O que quero dizer é que tínhamos um futuro que podíamos claramente imaginar.

O futuro não era amanhã, na próxima semana, no próximo ano ou no próximo século.

Era um lugar com uma forma, uma estrutura, um estilo. É verdade que nós não sabíamos exatamente o que o futuro seria, mas nós sabíamos que tinha que ser uma destas poucas alternativas, algumas boas, outras nem tanto.

O futuro era um mundo com uma arquitetura distinta. Ele tinha sua própria maneira de nos falar. Ele tinha sua própria tecnologia. Para todos os efeitos, era uma terra diferente, onde as pessoas se vestiam de maneira diferente, falavam diferente, comiam de maneira diferente, e mesmo o pensamento era diferente. Os cientistas eram magos, as máquinas eram magicamente eficazes e eficientes, onde os tiranos eram ao menos romanticamente malvados, e não banais, e onde os céus eram um parque onde os sonhos podiam literalmente se tornar realidade.

Alguns anos atrás as pessoas falavam sobre a construção de uma ponte para o século 21. Agora que estamos lá, a frase parece tão estranha. Para as pessoas da minha geração, que viveram as promessas da Era Atômica, da Era Espacial, da Era do Computador, o ano de 2001 era uma porta para outro tempo.

Esperamos vinte, trinta, quarenta anos e alguns mais para passar por ela, para o tempo de naves espaciais do tamanho de transatlânticos viajando entre planetas colonizados, onde as cidades eram coloridas, sem um único edifício antigo ou uma folha de grama, onde as pessoas vestiam macacões como se fossem as togas de uma Roma tecnocrática, onde os robôs eram nossos poderosos servos obedientes, e onde mochilas voadoras eram tão comuns como galochas.

Cara, como estávamos errados.

Não eram simplesmente as previsões que estavam erradas. Ninguém com metade de um cérebro realmente esperava que esse tipo de coisa fosse acontecer. E é verdade, apesar de algumas destas maravilhas não acontecerem, outras que não foram previstas aconteceram.
Certamente vivemos vidas muito diferentes dos nossos pais e avós, isso não está em questão, mas...

Supondo que escapássemos de 1984 e do Admirável Mundo Novo, o nosso futuro era para ser uma espécie de tecnocracia atômica, controlada por computadores, anti-séptica, viajaríamos para achar Jerusalém no espaço, e que finalmente nos libertaria da maldição do Éden e do original pecado. Nós esperávamos de alguma forma, de alguma maneira, estarmos no caminho da libertação da condição humana.

Esperavamos uma Revolução Francesa benigna com Hugo Gernsback como o nosso Voltaire e Carl Sagan como o nosso Robespierre. E o que temos? Tivo.

O fato é que a ficção científica e a ciência popular tinham elevado tanto as nossas expectativas que só uma Segunda Vinda com armas de raios, teria nos deixado satisfeitos.

Ainda assim, havia uma inocência romântica sobre a visão do século 20 do futuro.
Uma espécie de Camelot de plástico, em ambos os sentidos do termo.

Então pegue sua mochila voadora, engatilhe o seu Blaster e sintonize a Videotron numa turnê pelo Future Past!

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Robot Island


If you're looking for toy robots, you have come to the right island. Robot Island is the largest source for tin toy robots and space toys with over 250 items to choose from. Specializing in rare vintage tin robots and limited editions robots. 

Doc Atomic's Attic of Astounding Artifacts



Robôs, foguetes e armas de raios!

Em meados do século 20, o espaço era o futuro logo alí na esquina. 

  
Hoje os brinquedos representam a visão espacial de ontem do amanhã. Eles são imaginativos, evocativos, e muito divertidos.

Doc Atomic's Attic of Astounding Artifacts é o lugar para encontrar alguns desses brinquedos, bem como entrevistas, artigos, etc. 

Então suba até o sótão e descubra o futuro mais uma vez!

sábado, 11 de dezembro de 2010

Solaris - Stanislaw Lem (parte 15)


 Na manhã vermelha, o inchado disco do sol elevava-se acima da linha do horizonte.
Na entrada do quarto estava um envelope; abri-o com um rasgão.
Podia ouvir Rheya a cantarolar no banho, a qual de tempos a tempos espreitava para o quarto, e podia então ver sua face meio escondida sob o cabelo molhado.
Fui até junto da janela e li:

“Kelvin, as coisas parecem estar melhorando. Sartorius decidiu que talvez seja possível utilizar uma forma qualquer de energia para desestabilizar a estrutura de neutrinos. Ele quer examinar um pouco o plasma Phi em órbita. Sugere que você faça um vôo de reconhecimento e leve na cápsula, uma quantidade de plasma. É você quem resolve, mas me diga o que decidir. Não tenho opinião a este respeito. Sinto-me como se já não tivesse coisa nenhuma. Se me inclino a favor da sua ida é porque ao menos daríamos uma ideia de progresso. De outro modo, podemos apenas invejar G.
Snow
P.S. — Tudo que lhe peço é que fique fora da minha cabina. Podemos falar pelo videofone.

Tive um sentimento de apreensão ao ler a carta, e a reli cuidadosamente, antes de rasgá-la aos bocadinhos e atirar no aparelho de despejo.
Voltei a viver a mesma charada terrível que começara na véspera e a inventar uma história qualquer para benefício de Rheya. Ela não pressentiu a mentira, e quando lhe disse que tinha que ir fazer uma inspeção, sugeri que viesse comigo, ficou encantada. Paramos um momento na cozinha para tomar o café da manhã — Rheya comeu pouco— e seguimos para a biblioteca.

Antes de me aventurar na missão sugerida por Sartorius, queria dar uma olhadela nas obras que tratavam de campos magnéticos e estruturas de neutrinos.
Ainda não tinha qualquer ideia definida a respeito do caso, mas tinha resolvido fazer uma verificação pessoal sobre as atividades de Sartorius. Não que tencionasse impedir Snow e Sartorius de se “libertarem” quando o aniquilador ficasse pronto: tencionava tirar Rheya da Estação e esperar pela conclusão da operação na cabina de uma nave.

Lancei-me ao trabalho com o bibliotecário automático. Algumas vezes respondia aos meus pedidos lançando uma lacônica inscrição: “Não existe nos arquivos.”
Outras vezes submergia-me sob uma vaga de livros de física especializados, que eu hesitava em aproveitar o conselho.
Mas também não tinha qualquer desejo de abandonar a grande sala circular.
Sentia-me à vontade naquele ovo, por entre as fileiras de armários repletos de fitas gravadas e microfilmes. Situada no centro da Estação, a biblioteca não tinha janelas: era a área mais isolada em toda a grande concha de aço e me dava uma sensação de alívio, apesar de as minhas pesquisas apresentarem tantos obstáculos.

Vagueando pela vasta sala, parei junto a uma estante de prateleiras que chegavam ao teto e que continham cerca de seiscentos volumes — obras clássicas sobre a história de Solaris, começando com os nove volumes da monografia monumental de Giese, mas já relativamente obsoleta. Naquele ambiente, era pouco provável que estivesse ali apenas para exibição. A coleção era um tributo respeitável à memória dos pioneiros.
Retirei os maciços volumes de Giese e me sentei para folheá-los.

Rheya também encontrara algo para ler.
Espreitando-lhe por cima dos ombros, vi que escolhera um dos muitos livros trazidos pela primeira expedição, o Interplanetary Cookery Book (Livro de Cozinha Interplanetária), que devia ter sido propriedade do próprio Giese.
Rheya estudava as receitas adaptadas às árduas condições de um voo interestelar.
Nada comentei e voltei ao livro que tinha sobre os joelhos.

Solaris — Dez Anos de Exploração aparecera na coleção solariana nos volumes 4 a 12, e as mais recentes adições dessa coleção atingiam já os milhares.
Giese era um homem sem emoções, mas no estudo de Solaris a emoção é apenas um problema para o explorador. Ao aproximar-nos de um planeta onde —como ficou bem evidente— tudo é possível, a imaginação e uma teorização prematura são desvantagens muito importantes. É quase certo que as improváveis descrições das metamorfoses plasmáticas do Oceano sejam relatórios fiéis de fenômenos observados, embora essas não possam ser verificadas, pois o Oceano raramente se repete.

O caráter extravagante e a escala gigantesca desses fenômenos ultrapassam por demais, a experiência do homem para que possam ser compreendidos por qualquer pessoa que os observe pela primeira vez, e essa pessoa, se visse ocorrências análogas em escala reduzida, por exemplo, num vulcão de lama na Terra, o consideraria como “brincadeiras da natureza”, manifestações acidentais de força cega.

Tanto o gênio como a mediocridade ficam estupefatos perante a múltipla diversidade das formações oceânicas de Solaris; nenhum homem conseguiu ficar verdadeiramente familiarizado com elas.

Giese não era de modo algum um medíocre, embora também não fosse nenhum gênio. Era um ‘classificador’ erudito, o tipo de homem cuja compulsiva aplicação ao trabalho os isola completamente das pressões da vida comum.
Giese criou uma terminologia descritiva simples, suplementada por termos de sua própria invenção, e embora estes não fossem muito adequados e até por vezes pouco condizentes, temos que admitir que ainda não dispomos de qualquer sistema semântico para ilustrar o comportamento do Oceano.
As palavras “montanhas em árvore”, “extensores”, “fungóides”, “vertébridos” e “agilus” são termos artificiais e linguisticamente incorretos, mas também é certo que servem para dar uma ideia de Solaris a alguém que tenha visto o planeta apenas em fotografias pouco nítidas ou filmes incompletos.
O fato é que, apesar da sua natureza cautelosa, o escrupuloso Giese mais de uma vez tirou conclusões prematuras.
Mesmo quando estão alerta, os seres humanos inevitavelmente teorizam.

Giese, que se julgava imune a tal tentação, decidiu que os “extensores” pertenciam à categoria de formas básicas. Comparava-os a acumulações de vagas gigantescas, semelhantes ao movimento das marés dos oceanos da Terra.
Na primeira edição da sua obra, originalmente são citados como “marés”.
Este geocentrismo poderia ser até considerado divertido, se não fosse testemunho do dilema em que ele se encontrava.

Se quisermos falar em termos de comparação com a Terra, teremos de compreender que “extensores” são formações que fazem parecer minúsculo o Grand Canyon, que são produzidas por uma substância que externamente se assemelha a um colóide espumoso (durante esta fantástica “fermentação”, a espuma solidifica em grinaldas de renda engomada; alguns peritos referem-se a “tumores ossificados”) e que, em camadas mais profundas, aquela substância se torna cada vez mais resistente, como um músculo retesado, e que cinqüenta pés abaixo da superfície é tão dura quanto rocha, mas mantém a sua flexibilidade. O “extensor” parece uma criação independente, que se estende por vários quilômetros, por entre inchadas muralhas membranosas de “excrescências ossificadas”, como uma colossal cobra píton que, após ter engolido uma montanha, vai preguiçosamente digerindo a refeição, e cujo corpo serpenteante é ocasionalmente percorrido por lento estremecimento.
Só de cima o “extensor” se parece com um réptil em estado de letargia.
De perto, quando as duas “paredes do desfiladeiro” se erguem ameaçadoras, pode ver-se que aquele cilindro insuflado, que se estende de uma a outra extremidade do horizonte, incrivelmente vivo e em movimento.

Primeiro nota-se o contínuo movimento rotativo de uma lama oleosa verde-acinzentada que reflete a ofuscante luz do Sol, mas, pairando rente acima do “dorso da cobra píton” (a “ravina” que abriga o “extensor” parece agora os lados de uma brecha geológica), verificamos que, na realidade, o movimento é muito mais complexo e consiste em flutuações concêntricas cruzadas por correntes mais escuras.
Por vezes este manto transforma-se em reluzente carapaça, que reflete o céu e as nuvens e depois é perfurada por erupções explosivas de gases e fluidos internos.
O observador vai lentamente percebendo de que está olhando para forças dirigentes, que lançam para cima as duas muralhas gelatinosas, que vão gradualmente cristalizando.
Porém, a ciência não aceita o óbvio sem outras provas, e através dos anos têm ecoado virulentas controvérsias a respeito do problema-chave de saber a exata seqüência dos acontecimentos no interior dos “extensores”, os quais atravessam o vasto Oceano vivo aos milhões.
Aos “extensores” foram atribuídas várias funções orgânicas.

Alguns peritos defenderam que o propósito dos “extensores” é a transformação da matéria; outros sugeriram processos respiratórios; outros ainda afirmaram que eram portadores de material alimentar. Uma infinita variedade de hipóteses está agora a ganhar mofo nas bibliotecas, eliminadas que foram por experiências engenhosas, por vezes até perigosas.

Hoje em dia os cientistas limitam-se a referir-se aos “extensores” como formações estáveis e relativamente simples, cuja duração é medida em termos de semanas — uma característica excepcional entre os fenômenos do planeta de que há relatórios.

As formações “mimóides” são consideravelmente mais complexas e bizarras e provocam no observador uma resposta mais veemente, uma resposta instintiva, claro. Podemos sem exagero declarar que Giese se apaixonou pelos “mimóides”, e em breve lhes dedicava todo o seu tempo. Até ao fim da vida estudou-os e descreveu-os e fez apelo a toda a sua imaginação para tentar definir a sua natureza.
O nome que lhes deu retrata a sua característica mais espantosa, a imitação de objetos, próximos ou longínquos, externos ao próprio Oceano.
Previamente escondido sob a superfície do Oceano, surge de repente um grande disco plano, de bordas irregulares, recoberto de uma substância parecida com alcatrão. Passadas algumas horas começa a separar-se em placas planas, que se elevam lentamente. O observador torna-se então o espectador do que parece ser uma luta de morte, à medida que maciços de vagas convergem de todas as direções, como retorcidas e carnudas bocas que avidamente trincam a esfarrapada folha palpitante e mergulham para as profundezas.

À medida que cada anel de vagas arrebenta e mergulha, a queda dessas massas de centenas de milhares de toneladas é acompanhada, por um instante, por um ribombar viscoso, um imenso trovão.
A folha de alcatrão é dominada, bombardeada, rasgada; a cada novo assalto, fragmentos circulares vão-se separando e seguem à deriva sobre a superfície do Oceano, como asas palpitando fracamente. Aglomeram- se em cachos com feitio de pêra ou longas correntes, emergem e surgem novamente e arrastam consigo partículas coaguladas da base do disco primitivo. As vagas circundantes continuam a quebrar-se em volta da cratera, que continuamente se alargando.
Este fenômeno pode durar um dia ou arrastar-se por todo um mês, e por vezes nada mais acontece.

O consciencioso Giese chamou um “nado-morto” a esta primeira variante, convencido de que cada uma destas sublevações aspirava a uma condição última, o “mimóide maior”, como uma colônia de pólipos (só que cobrindo uma área maior que uma cidade) de pálidas excrescências, possuindo a faculdade de imitar corpos estranhos.
Uyvens, pelo contrário, considerava este estádio final como uma degeneração ou necrose: segundo ele, a aparição das “cópias” correspondia a uma dissipação localizada das energias vitais do Oceano, o qual já não controlava mais as formas originais que criara.

Giese recusava-se a abandonar a sua teoria segundo a qual as várias fases do processo constituíam um progresso estudado em direção à perfeição, e a sua recusa era acompanhada de uma convicção particularmente surpreendente da parte de um homem com uma disposição de espírito tão moderada e cautelosa, ao aventar as mais triviais hipóteses a respeito de outras criações do Oceano.
Usualmente mostrava a audácia de uma formiga a escalar um glaciar.

Visto de cima, o mimóide assemelhava-se a uma cidade, uma ilusão que é produto da nossa necessidade de procurar analogias com o que conhecemos. Quando o céu está limpo, uma tremeluzente neblina de calor cobre as estruturas flexíveis de cachos de pólipos encimados por paliçadas membranosas.
A primeira nuvem que lhes passa por cima acorda o mimóide.

Todos os ramos lançam subitamente novos rebentos, depois a massa de pólipos lança uma capa espessa, que se dilata, bufa, muda de cor e, no espaço de poucos minutos, produz uma espantosa imitação das volutas de uma nuvem. O enorme “objeto” lança uma sombra avermelhada sobre o mimóide, e os picos deste estremecem e inclinam-se, sempre em direção oposta ao movimento da nuvem real.
Calculo que Giese estaria pronto a dar a mão direita para descobrir o que levava os mimóides a comportarem-se de semelhante modo, mas estas produções isoladas nada são em comparação com a atividade frenética desenvolvida pelo mimóide quando estimulado por objetos de origem humana.

O processo de reprodução engloba qualquer objeto que exista num raio de oito ou nove milhas. Geralmente, o fac-símile é uma amplificação do original, cujas formas são por vezes copiadas apenas de maneira tosca. A reprodução de máquinas, em particular, apresenta simplificações que poderiam ser consideradas grotescas — praticamente caricaturas. A cópia é sempre modelada na mesma capa sem cor que paira sobre as excrescências, ligado à base por tênues cordões umbilicais; estica-se, ondula, enrola-se sobre si próprio, encolhe ou incha, e facilmente apresenta as mais complicadas formas. Uma nave espacial, uma rede ou simples estaca, todos são reproduzidos com a mesma rapidez. O mimóide não é estimulado pelos seres humanos pessoalmente e, na verdade, não reage a nenhuma matéria viva, por exemplo, nunca copiou as plantas importadas com fins experimentais. Por outro lado, reproduz facilmente uma boneca, a escultura de um cão ou uma árvore esculpida em qualquer material.
O observador não pode esquecer que, uma vez que não é consistente, a “obediência” do mimóide não constitui evidência de cooperação.
O mais evoluído dos mimóides tem os seus “dias negativos”, quando acontece “viver” em câmara lenta, ou quando a sua pulsação enfraquece.
(Esta pulsação é invisível a olho nu e foi apenas descoberta após o exame de filmes de mimóides em câmara apressada, os quais revelaram que cada pulsação leva duas horas.)
Durante esses “dias negativos” é fácil explorar o mimóide, mormente se for velho, pois a base ancorada no Oceano, tal como as protuberâncias que nela crescem, é relativamente sólida e permite apoio firme para os pés de uma pessoa.

É igualmente possível permanecer dentro de um mimóide durante os períodos de atividade, só que a visibilidade é praticamente nula por causa de uma poeira coloidal esbranquiçada continuamente emitida através dos rasgões da capa que tem por cima. De qualquer modo, de perto é impossível distinguir que forma está a tomar, por causa da sua vasta dimensão — a menor cópia é do tamanho de uma montanha. Além disso, uma espessa camada de neve coloidal cobre rapidamente a base do mimóide: o carpete esponjoso leva várias horas a solidificar (a crosta solidificada agüenta o peso de uma pessoa, embora a sua composição seja muito mais leve que pedra-pomes).
O problema é que, sem equipamento especial, corremos o risco de nos perdermos no labirinto de emaranhadas estruturas e brechas, que as vezes fazem lembrar confusas colunatas, outras, gêiseres petrificados. Mesmo à luz do dia, é fácil uma pessoa perder a noção da direção, pois os raios de sol não conseguem atravessar a atmosfera pelas “pseudo-explosões”.

Em dias de gala (tanto para os cientistas como para os mimóides), apresenta um espetáculo inesquecível quando o mimóide entra em hiper produção e realiza loucos vôos de fantasia, desenvolve variações sobre o tema de determinado objeto dado e cria “extensões formais”, que deliciam durante horas sem fim, para grande deleite do artista não figurativo e desespero do cientista, que se sente perdido ao tentar apreender qualquer tema comum na exibição.
O mimóide consegue produzir simplificações primitivas, mas pode de modo igualmente fácil dedicar-se a variantes barrocas de extravagante brilho.
Os mimóides mais velhos têm a tendência para produzir formas extremamente cômicas. Ao olhar para as fotografias, nunca fui levado a rir; o enigma que representam é demasiado inquietante para ter graça.
Durante os primeiros anos de exploração, os cientistas atiraram-se literalmente aos mimóides, que eram considerados como janelas abertas no Oceano e a melhor oportunidade para estabelecer o tão desejado contato entre as duas civilizações.
Cedo foram forçados a reconhecer que não havia o mínimo prospecto de comunicação e que todo o processo começava e acabava com a reprodução de formas.
Os mimóides eram um beco sem saída.

Cedendo à tentação de um antropomorfismo ou zoomorfismo latente, surgiram algumas escolas de pensamento que consideravam várias outras formações oceânicas como “órgãos sensoriais” ou até como “membros”; foi assim que peritos como Maartens e Ekkonai classificaram, durante um tempo, os “vertébridos” e os “agilus” de Giese.

Qualquer pessoa suficientemente louca para ver membros em protuberâncias que se erguem até duas milhas na atmosfera pode igualmente afirmar que os tremores de terra são meros exercícios de ginástica da crosta terrestre!

Trezentos dos capítulos de Giese formam uma lista das formações comuns que correm na superfície do Oceano vivo e que, no decurso de um dia qualquer, podem ser vistas às dúzias, até às centenas.

As simetríades — para continuar a usar a terminologia e definições da escola de Giese — são as formações menos “humanas”, com o que se quer significar que não apresentam a mínima semelhança com qualquer coisa da Terra. Na altura em que as simetríades estavam a ser investigadas, era já evidente que o Oceano não tinha tendências agressivas e que os seus redemoinhos de plasma só engoliriam o mais louco dos exploradores (claro que não estou a considerar os acidentes resultantes de falhas mecânicas). É perfeitamente possível voar em completa segurança de uma ponta à outra do corpo cilíndrico de um extensor ou dos vertébridos, autênticas escadas de Jacob oscilando por entre as nuvens: o plasma recua na atmosfera do planeta com a velocidade do som, para dar lugar a qualquer corpo estranho. Mesmo sob a superfície do Oceano, abrem-se profundos funis (com um tremendo gasto de energia, calculado por Scriabin em cerca de 1O19 ergs).

Contudo, a primeira incursão ao interior de uma simetríade foi acompanhada da máxima cautela e disciplina e de uma imensidão de medidas de segurança, que se revelaram desnecessárias. Qualquer aluno de escola na Terra ouviu falar nesses pioneiros.

Não é a sua aparência de pesadelo que torna perigosa as gigantescas formações simetríades, mas sim a total instabilidade e o caráter caprichoso da sua estrutura, onde nem as leis da física são respeitadas. A teoria de que o Oceano vivo é dotado de inteligência encontrou os seus mais firmes aderentes entre os cientistas que se aventuraram a penetrar as suas imprevisíveis profundezas.

O nascimento de uma simetríade surge como uma erupção súbita. Cerca de uma hora antes, uma área de dezenas de milhas quadradas fica vitrificada e começa a brilhar. Permanece fluida e não há qualquer alteração no ritmo das ondas. Por vezes, o fenômeno da vitrificação ocorre na vizinhança do funil deixado por um agilus. A reluzente cobertura do Oceano eleva-se até formar uma vasta bola que reflete o céu, o Sol, as nuvens e todo o horizonte, numa miscelânea de imagens variadas e sempre em alteração. A luz refratada cria um espetáculo caleidoscópico de cor.

Os efeitos de luz numa simetríade são particularmente impressionantes durante o dia azul ou o poente vermelho. O planeta parece estar a criar um duplo, que aumenta de volume de um momento para o outro. Mal o imenso globo flamejante alcança a sua expansão máxima acima do Oceano, logo rebenta pelo cimo e racha verticalmente. Não está a desfazer-se; esta é a segunda fase, que é conhecida pelo inapropriado nome de “fase do cálice floral” e que dura apenas alguns segundos. Os arcos membranosos que se erguiam para o céu inclinam-se agora para dentro e amalgamam-se, produzindo um denso trono que envolve uma cena de intensa atividade.

No centro do tronco (que foi pela primeira vez explorado pela expedição de Hamalei, composta por setenta homens), um processo de policristalização em escala gigante cria um eixo, a que geralmente se dá o nome de “coluna vertebral”, um termo que pessoalmente considero mal escolhido. A espantosa arquitetura deste pilar central é mantida no lugar por colunas verticais de consistência gelatinosa, quase líquida, que estão permanentemente a jorrar de vastas fendas. Entretanto, todo o tronco é rodeado por um cinto de espuma de neve, borbulhando com grandes bolhas de gás, e todo o processo é acompanhado por um constante rugido surdo. Do centro para a periferia elevam-se em parafuso poderosos arcos, que são recobertos por correntes de uma matéria maleável que brota das profundezas do Oceano.

Simultaneamente os gêiseres gelatinosos são convertidos em colunas móveis, que passam a lançar tendões, que se estendem em grupo em direção a certos pontos rigorosamente predeterminados pela dinâmica suprema de toda a estrutura: fazem recordar as guelras de um embrião, só que rodopiam a uma velocidade fantástica e deles se escoam fios de um “sangue” rosado e uma secreção verde-escura.

A simetríade começa agora a apresentar a sua mais exótica característica — a propriedade de “ilustrar”, por vezes contradizer, várias leis da física.
(Não esqueçamos que não há duas simetríades iguais e que a geometria de cada uma delas é uma “invenção” única do Oceano vivo.)
O interior da simetríade torna-se uma fábrica para a.produção de “máquinas monumentais”, como essas construções são por vezes chamadas, embora não se assemelhem a nenhuma máquina que esteja dentro das capacidades de construção da humanidade: a designação é aqui aplicada porque toda esta atividade tem fins definidos e é, portanto, em certo sentido, “mecânica”.

Quando os gêiseres de matéria oceânica estão solidificados em pilares ou em redes tridimensionais de galerias e passagens e as “membranas” tomam a forma de um complexo padrão de pisos, painéis e abóbadas, a simetríade faz jus ao seu nome, pois toda a estrutura está dividida em dois segmentos, cada um deles espelhando o outro até ao mais infinitesimal dos detalhes.

Passados vinte ou trinta minutos, altura em que o eixo talvez já esteja inclinado até oito ou dez graus da horizontal, o gigante começa lentamente a emergir.
(As simetríades variam muito em tamanho, mas, quando a base começa a submergir, até a menor delas atinge a altura de meia milha e é visível à distância de quilômetros.)
Por fim, a estrutura estabiliza e a simetríade, parcialmente submersa, cessa toda a sua atividade. É então possível explorá-la em absoluta segurança, penetrando por uma entrada próxima do cume, através de um dos muitos sifões que emergem da cúpula.

A simetríade final representa a analogia espacial de qualquer equação transcendental.
É lugar comum considerar-se que qualquer equação pode ser expressa na linguagem figurativa da geometria não euclidiana e ser representada em três dimensões. Esta interpretação vem relacionar a simetríade com os cones de Lobachevsky e as curvas negativas de Riemann, embora a sua inimaginável complexidade torne essa relação muitíssimo tênue.

A forma eventual ocupa um volume de várias milhas cúbicas e ultrapassa de longe todo o nosso sistema matemático. Além disso, esta extensão tem quatro dimensões porque os termos fundamentais das equações usam um simbolismo temporal impresso nas alterações internas durante um período dado.

É natural supor que a simetríade seja um “computador” do Oceano vivo, que executa cálculos para uma finalidade que não conseguimos perceber. Esta era a teoria de Fremont, mas não é hoje aceita por ninguém. A hipótese era tentadora, mas provou-se ser impossível manter o conceito de que o Oceano vivo examinava problemas da matéria, do cosmo e da existência por meio de erupções titânicas, em que cada partícula tinha uma função indispensável como elemento controlado num sistema analítico de infinita pureza. De fato, numerosos fenômenos contradizem este super simplificado (alguns dizem que infantilmente ingênuo) conceito.

Têm sido feitas inúmeras tentativas para transpor e “ilustrar” a simetríade e a demonstração de Averian foi particularmente bem recebida.

Imaginemos um edifício datando dos grandiosos dias de Babilônia, mas construído de uma substância viva e sensitiva, com a capacidade de evoluir: a arquitetura deste edifício passa por uma série de fases e a vemos adaptar-se à forma de uma construção grega, depois de uma romana. As colunas brotam como ramos e tornam-se mais delgadas, o telhado torna-se mais leve, eleva- se, encurva-se, o arco descreve uma parábola abrupta e depois cai em forma de seta: o gótico nasceu, amadurece e, a seu tempo, dá lugar a novas formas. A austeridade de linhas dá lugar ao motim de linhas e formas explosivas, e o barroco surge veloz. Se continuarmos com a progressão — e as sucessivas mutações devem ser consideradas como fases na vida de um organismo em evolução—, chegamos finalmente à arquitetura da era espacial e talvez também a uma certa compreensão em relação à simetríade.

Infelizmente, por mais que se desenvolva e melhore esta demonstração (houve tentativas para visualizar com a ajuda de modelos e filmes), a comparação continua a ser superficial. É evasiva e ilusória e esquece o ponto essencial, que é o fato de a simetríade ser completamente diferente de tudo o que a Terra até hoje produziu.

A mente humana é apenas capaz de absorver algumas coisas de cada vez. Vemos o que acontece à nossa frente no momento presente, mas não conseguimos simultaneamente considerar uma sucessão de processos, por mais integrados e complementares que sejam. Em conseqüência disso, a nossa capacidade de percepção fica limitada, mesmo no que diz respeito a fenômenos razoavelmente simples. O destino de um só homem pode ser rico em significado, o de algumas centenas não será tanto assim, e a história de milhares e milhões de homens não significa, absolutamente nada, no sentido restrito da palavra. A simetríade tem um milhão — ou melhor, um bilhão — de vezes mais poder do que nos é incompreensível.



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