quarta-feira, 9 de março de 2011

Ficção científica como uma Igreja (3/5) - Thomas M. Disch



[Ler 2/5]

Se você não tem uma religião para esses fins, então é terrível. Mas deixei de fora algo óbvio. A idéia central da religião é supostamente sobre a experiência humana de nossa relação com outra coisa: Deus, o infinito, ou o quer que seja. A questão é: pode este paralelo ser prolongado a partir dai? Se existem todas essas semelhanças com a religião, então não refletiria a FC também, este aspecto central da religião?

(Há muitas histórias na FC sobre religião, e vou recomendar a você apenas a sensacional Enciclopédia de Ficção Científica, onde Brian Stableford escreveu um artigo absolutamente definitivo sobre o assunto É um assunto extenso, e há muito o que dizer. Mas não é bem onde eu quero chegar aqui.)

O que tenho em mente é: Todo fã de FC irá lhe dizer que o elemento básico da FC é a Sensação de Deslumbramento (Sense of Wonder). Esta sensação pode ser facilmente relacionada com a religião, e posso dar-lhe um nome diferente, o Sublime.

Comecei a ler recentemente um livro chamado 'Turner and the Sublime' (de Andrew Wilton). O Sublime é instantaneamente reconhecível em pinturas de JMW Turner, ou John Martin (se você viu a pintura do Apocalipse na Tate Gallery, com o raio colidindo com o penhasco, sabe do que estou falando). Martin fez dilúvios e catástrofes em larga escala, e há uma série de paisagens marinhas, com tempestades no mar e turbilhões distantes. A imensidão faz parte disso, mas não apenas o tamanho, também a sensação de olhar para grandes distâncias e perder-se em reverência.

É como olhar as estrelas, de certa forma, mas observar estrelas envolve um pouco de pensamento. Se você não tem imaginação, um céu negro com poucos pontos que piscam pode ser interpretado como uma espécie de show de luzes. Quando você começa a especular sobre o que o céu realmente é, o quão longe estão as estrelas e como quão grande cada uma delas é, você começa a ficar perdido nessas idéias, que é quando a Sensação de Deslumbramento começa a acontecer.

Acho que o arquétipo dos livros de FC são aqueles que apelam diretamente para esse sentimento, que o ajudam a formar uma visão da vastidão do espaço. (Olaf) Stapledon, e outro que vem imediatamente à mente (comparável a uma imagem de John Martin) é 'Rendez-vous com Rama' de (Arthur Charles) Clarke, onde você tem um artefato que é misterioso, explorado em suas grandes dimensões, totalmente impressionante, e que desaparece sem ter sido explicado, é apenas observado. Ringworld (e Larry Niven) é outro exemplo óbvio da satisfação que contemplar um fenômeno em grande escala pode te dar. Em menor escala, eu escrevi uma história sobre um elevador que só vai para baixo, sempre, sem parar.

Você pode percorrer esta trilha até o início do romance gótico - não é FC, mas um primo amado: O Castelo de Otranto (romance de 1764 escrito por Horace Walpole e considerado o primeiro romance gótico) é um livro absolutamente idiota que eu não acho que alguém poderia ler hoje em dia sem rir, mas em um ponto só, bate todos os outros. A única coisa que acontece é que a interessante Sensação de Deslumbramento é um capacete gigante que aparece do nada e cai no meio da praça da cidade, matando o amado da heroína. Isso acontece na página 2. Ninguém pode explicá-lo, é um capacete muito grande. Mais tarde, outros pedaços de armadura aparecem, da mesma forma, gigantescos.

Tem que ser algo na noção de grandeza que é inspiradora, que desperta o sentimento de admiração e nos faz ajoelhar e rezar. Tudo isto está relacionado ao que Freud escreveu sobre a ‘experiência oceânica’ - que é uma religião sem uma teoria, o sentimento que você tem em uma noite estrelada.

Mas isso não é tudo que existe do Sublime, porque não há nenhum sistema para tal ainda: está relacionado com o universo. As religiões sempre olham para o universo e descobrem deuses. E os deuses têm invariavelmente uma forma muito humana. É na formação da idéia de qual forma humana os deuses devem ter, é que entra o negócio de escrever histórias.


Ficção científica como uma Igreja (4/5)