sábado, 14 de maio de 2011

Os Genocidas - Thomas Disch (Parte 10)



NOVE
OS VERMES PASTARÃO DOCEMENTE


Quando eles se aventuram para baixo na raiz nova, sete metros abaixo (onde como Orville havia prometido, era razoavelmente mais quente), chegaram a uma espécie de encruzilhada. Haviam três novos ramos para escolher, cada um tão cômodo como aquele através do qual eles estavam viajando. Dois descendentes, com raízes adequadas, embora na frente seguissem perpendicular à direita e à esquerda da principal, e o outro direto para cima.

"Isso é estranho" Buddy observou. "Raízes não sobem."
"Como você sabe que está subindo?" Orville perguntou.
“É só olhar. Está subindo. Para cima é…para cima. O oposto de para baixo.”
"Este é o ponto. Nós estamos olhando para a raiz de cima, que pode estar sob nós, crescendo de outra planta, talvez."
"Você quer dizer que essa coisa poderia ser apenas uma única grande Planta?" Anderson perguntou, entrando no círculo de luz da lamparina, carrancudo. Ele se ressentia de cada atributo adicional da Planta, mesmo aqueles que serviriam ao seu propósito.
"Todas ligadas aqui em baixo desse jeito?"
"Há um modo de descobrir, senhor, seguir a raiz. Se nos levar para outra raiz primária..."
"Nós não temos tempo para brincar de escoteiros. Não até que tenhamos encontrado o material que caiu por este buraco. Será que vamos chegar até eles desta maneira? Ou será que temos de recuar e descer a raiz principal pela corda?"
"Eu não saberia dizer. Desta forma é mais fácil, mais rápido e, no momento, mais seguro. Se as raízes se juntam como esta, talvez possamos encontrar um outro caminho de volta para a raiz principal mais para baixo. Então, eu diria que..."
"Eu direi" disse Anderson, retomando de alguma forma sua autoridade.

Buddy foi enviado à frente com a lamparina em uma ponta da corda, os outros trinta
seguiram depois, em fila indiana. Anderson e Orville na retaguarda, tendo somente os sons à frente para orientá-los: e tanto a luz e a corda não iam tão longe.
Mas havia uma plenitude de som: o arrastar dos pés sobre os galhos, os palavrões, Denny Stromberg chorando. Por vezes Greta perguntava nas trevas: "Onde estamos?" ou "Onde diabos estamos?" Mas isso era apenas um ruído entre muitos outros.
As trinta e uma pessoas que se deslocavam através da raiz estavam ainda bastante chocados. A corda que seguravam era sua motivação e vontade.
Anderson tropeçava nas raízes. Orville colocou um braço em volta da cintura do homem velho para firmá-lo. Anderson arrancou-o com raiva.
"Acha que estou sou algum tipo de inválido?" disse. "Sai daqui!"
Mas da próxima vez que tropeçou,  foi de cabeça ao chão áspero, arranhando seu rosto. Levantando-se, teve uma vertigem e teria caído novamente sem a ajuda de Orville. Apesar de tudo, ele sentiu uma pontada de gratidão para o braço que lhe segurara.
Na escuridão, ele não podia ver Orville sorrindo.

O trajeto seguia para baixo com a raiz, passando por dois cruzamentos como aquele acima. Ambas as vezes Buddy virou à esquerda, de modo que desciam em espiral.
O oco da raiz não deu nenhum sinal de diminuir. Não havia perigo de perder-se, já que o rendado do interior da raiz era uma trilha inconfundível através do labirinto.
Um tumulto na frente da fila os obrigou a parar. Anderson e Orville abriram caminho para a frente.
Buddy entregou a luz a seu pai.

"É um beco sem saída", anunciou. "Vamos ter que voltar por onde viemos."
A raiz oca era larga neste ponto,  mas a teia se raízes preenchia-a de forma condensada. Em vez de quebrar sob a força da golpe de Anderson, que arrancou em punhados, parecia tecido podre. Anderson pressionou uma dessas peças entre as mãos. Era feito o algodão doce e rosa das festas.
 "Vamos avançar através dessa coisa", anunciou Anderson. Ele deu um passo para trás, em seguida, jogou o seu ombro, como um jogador de futebol americano atacando-a. Seu impulso valeu-lhe  dois metros e meio à frente. Então, já que não havia nada sólido sob seus pés, ele começou lentamente a afundar.  Sob seu peso, o algodão doce cedeu. Buddy esticou o braço para frente, e Anderson foi capaz apenas de agarrar a ponta dos dedos. Anderson puxou Buddy para aquilo com ele. Buddy, caindo em uma posição horizontal, serviu como um pára-quedas, e afundaram mais lentamente até parar de todo, em segurança, alguns metros abaixo.

Assim que caíram, um cheiro doce e forte, como de frutas podres, encheu o ar.
Orville foi o primeiro a perceber a boa sorte. Ele agarrou um pedaço da massa densa e a mordeu. Pode sentir o sabor anis característico da Planta, mas havia além disso uma plenitude e doçura, uma satisfação, que era nova. Sua língua reconheceu antes de sua mente e quis mais. Não, não apenas a língua, a barriga dele. Cada célula do seu corpo desnutrido quis mais.

"Atira-nos a corda” Anderson gritou com voz rouca. Ele não estava ferido, mas abalado.
Em vez de jogar a corda, Orville, com um grito de felicidade, despreocupado, mergulhou na massa sedosa. Assim que foi engolido em sua escuridão, ele se dirigiu ao velho e disse:

"Suas orações foram atendidas, senhor. Nos conduziu através do Mar Vermelho, e agora o Senhor está nos alimentando do maná. Prove isso! Nós não temos que nos preocupar com os mantimentos. Este é o fruto das Plantas. Este é o maná do céu."

No tumulto breve sobre a borda, Mae Stromberg torceu seu tornozelo. Anderson sabia manter sua autoridade contra a fome cruel. Ele hesitou em comer a fruta, pois poderia ser venenosa, mas precisava de seu corpo tenso contra uma vontade por demais cuidadosa. Se o resto deles iria ser envenenado, ele poderia muito bem se juntar a eles.
Tinha um gosto bom.  Sim, pensou, deve parecer como um maná para eles. E assim que o fio açucarado condensou na língua em gotas de mel, ele odiou a Planta por parecer tão amiga deles e sua libertadora.
Por fazer o seu veneno tão delicioso.
Aos seus pés a lamparina queimava brilhante. O piso, apesar de forte o suficiente para segurá-lo, não era sólido. Ele tirou a faca do bolso, e cortou uma fatia da substância mais sólida do fruto. Era crocante como uma batata de Idaho, e suculenta. Tinha um ácido mais brando e menos gosto. Ele cortou um outro pedaço. Ele não conseguia parar de comer.
Ao redor de Anderson, fora do alcance da luz, estavam os cidadãos de Tassel (mas ainda haveria uma Tassel da qual eles pudessem ser chamados de cidadãos?)  fungavam e comiam como porcos em um cocho. A maioria deles não se preocupou em arrancar nacos adequados, mas empurravam cegamente em sua boca, mordendo seus próprios dedos e engasgando na sua pressa gananciosa. A polpa se aderiu às suas roupas e seus cabelos emaranhados. Prendia-se aos cílios de seus olhos fechados.
Uma figura de pé avançou para a esfera da luz da lamparina. Era Orville Jeremiah.

"Sinto muito", disse ele, "se eu comecei tudo isso. Eu não deveria ter falado. Eu deveria ter esperado  você dizer o que fazer. Eu não estava pensando direito."
"Está tudo bem" Anderson garantiu-lhe, com a boca cheia de frutas semi-mastigada. "Teria acontecido mesmo, não importa o que você fez. Ou o que eu fiz."
Orville sentou ao lado do homem mais velho.
"Pela manhã..." Começou a dizer.
"Manhã? Dever ser manhã agora."
De fato, eles não tinham como saber. Os únicos relógios que funcionavam, um alarme m relógio, e dois relógios de pulso, eram mantidos em uma caixa na Sala Comum por segurança.
Ninguém ao escapar do fogo tinha pensado em resgatar a caixa.
"Bem, quando todos estiverem alimentados e depois de dormir um pouco, foi o que eu quis dizer, então você pode prepará-los para o trabalho. Perdemos uma batalha, mas ainda há uma guerra para lutar."

O tom de Orville foi educadamente otimista mas Anderson achou-o opressivo. Ter chegado a um santuário depois de um desastre não apagava a memória do desastre. De fato, Anderson, só agora  tinha parado de lutar contra isso, para ter o reconhecimento da magnitude.
"Que trabalho?" perguntou, cuspindo o resto do fruto.
"Qualquer trabalho que você disser, senhor. Explorar. Limpar um espaço aqui embaixo para se viver Voltar à raiz principal para recuperar os suprimentos que cairam por lá. Logo, você pode até enviar um olheiro para ver se algo se salvou do fogo."

Anderson não respondeu. Mau humorado reconheceu que Orville estava certo. Mau humorado admirou a sua desenvoltura, assim como, vinte anos antes, ele poderia ter admirado o estilo de luta de um oponente em uma briga no Red Fox Tavern. Embora Anderson achasse seu estilo um pouco extravagante, você tinha que dar crédito pelo bastardo se manter em pé.
Foi estranho, mas todo o corpo de Anderson ficou tenso, como se para uma luta, como se tivesse bebido.
Orville estava dizendo alguma coisa.
"...o que... você disse?" Anderson perguntou em tom zombeteiro. Ele esperava que fosse algo que lhe daria uma desculpa para arrebentar a cara dele, maldito pilantra inteligente.
"Eu disse que estou muito triste por sua esposa. Eu não consigo entender por que ela fez aquilo. Eu sei como você deve estar se sentindo."

Os punhos de Anderson se estenderam, a mandíbula fechou. Sentiu a pressão das lágrimas por detrás de seus olhos, a pressão que estava lá o tempo todo, mas sabia que não podia dar ao luxo de deixa-las sair. Ele não podia demonstrar a menor fraqueza.

"Obrigado", disse. Em seguida, cortou um outro pedaço sólido em cunha da fruta suculenta, dividiu-o em dois, e deu uma parte a Jeremias, Orville.

"Você se saiu bem esta noite", disse ele. "Eu não vou esquecê-lo."
Orville deixou-o com seus pensamentos, quaisquer que fossem e foi à procura de Flor.
Anderson, sozinho, pensava em sua esposa com uma tristeza, dura e muda. Não podia entender por que ela tinha, como ele achava, cometido suicídio. Ele nunca saberia, ninguém saberia, que ela tinha voltado pelo seu próprio bem. Ele ainda não tinha lembrado da Bíblia que tinha sido deixada para trás, e, mais tarde, quando lembrasse, ele iria se arrepender, nem mais nem menos, do que a morte de Gracie ou das centenas de outras perdas irremediáveis que tinha sofrido. Mas a Senhora tinha previsto com bastante precisão que, sem um artefato, no qual ela mesma não tinha fé, sem a sanção que emprestou a sua autoridade, o velho seria despojado, e que a sua força, a tanto tempo preservada, em breve entraria em colapso, como um telhado quando as madeiras estão podres.
Mas ela não tinha conseguudo, e seu fracasso nunca seria compreendido.


Mais do que o apetite, as pessoas exigiam por satisfação naquela noite. Saciados pelo alimento,  homens e mulheres, sentiam uma fome insaciável que o restrito código da Sala Comum  havia tanto tempo lhes negado. Ali, no calor e na escuridão, tal código não teria vez. Em seu lugar, a democracia perfeita do carnaval se proclamou, a liberdade reinou durante uma breve hora.
Mãos acariciando, como que por acidente outras mãos. A morte não teve escrúpulos para escolher maridos e mulheres, e nem eles. Linguas se limparam da doçura pegajosa de lábios encontrando outras línguas e se beijando.

"Eles estão bêbados" Alice Nemerov declarou de forma inequívoca.
Ela, Maryann e Flor sentaram-se em separado numa depressão escavada a partir da polpa da fruta, ouvindo, tentando não ouvir. Embora cada casal tentasse observar um silêncio decoroso, o efeito acumulativo era inconfundível, mesmo para Flor.
“Bêbados? Como pode?" Maryann perguntou. Ela não queria falar, mas a conversa foi a única defesa contra os sons voluptuosos das trevas. Falar e ouvir Alice falar, não ouviria os suspiros, os sussurros ou pensaria qual seria de seu marido.
"Estamos todos bêbados, minhas queridas. Bêbados de oxigênio. Mesmo com este fruto fedorento, eu sei como uma tenda de oxigênio cheira.”
"Eu não sinto cheiro de nada" disse Maryann.
Era verdade: seu resfriado havia atingido o estágio em que ela não podia mais sentir o cheiro adocicado da fruta.
"Eu trabalhei em um hospital, não? Então, eu devo saber. Meus queridos, estamos todos altos que nem pipas".
"Alta como a bandeira no quatro de julho" Flor disse. Ela realmente não se importava em estar bêbada, se fosse assim. Flutuante. Ela queria cantar, mas percebeu que não era a coisa certa a fazer. Agora não. Mas a canção, uma vez iniciada e mantida dentro de sua cabeça não faria mal:

Estou apaixonada, apaixonada, estou apaixonada, estou apaixonada, estou apaixonada por um rapaz maravilhoso.

"Shhh!" Alice fez.
"Desculpe-me!" Flor disse com uma risadinha. Talvez a música não tinha afinal sido totalmente dentro de sua cabeça. Então, porque sabia que era a coisa certa a fazer, quando embriagada, soluçou, graciosa, pressionado delicadamente as pontas dos dedos nos lábios. Então arrotou o gás em seu estômago.
"Está tudo bem, querida?" Alice perguntou, colocando a mão sobre o ventre cheio de Maryann. "Quero dizer, com tudo o que aconteceu..."
"Sim. Vê! Ele se mexeu!"

A conversa morreu, e o som recomeçou. Agora era um som irritante e persistente, como o zumbido de uma abelha. Maryann sacudiu a cabeça, mas o zumbido não parou.
"Ohhhh!" ela ofegou. "Ohhh!"
Alice acalmou-a.
"Quem você acha que está com ele?” Maryann desabafou.
"Por que você está brava sem nenhum motivo" disse Flor. "Ele provavelmente está com o papai e Orville."
A convicção de Flor quase balançou Maryann. Era possível. Uma hora atrás (Ou menos? Ou mais?) Orville tinha procurado Flor e explicado que ele estava levando seu pai (que, naturalmente, estava muito chateado) para um local mais privado, longe dos outros. Ele tinha encontrado um caminho para uma outra raiz, uma raiz enterrada ainda mais fundo na terra. Será que Flor queria ir lá com ele? Ou talvez preferiu ficar com as mulheres?
Alice pensou que Flor preferia ficar com as garotas no momento. Ela iria morar com o pai mais tarde, se quisesse.
Com a partida de Anderson foi-se a lamparina, tinha sido a deixa para tudo o que se seguiu.
Uma mão se estendeu das trevas e tocou a coxa de Flor. A mão de Orville! Não podia ser outro. Ela tomou a mão e apertou-a nos lábios. Não era a mão de Orville. Ela gritou. No mesmo instante, Alice pegou o intruso pela nuca. Ele gritou.
"Neil" exclamou ela. "Pelo amor de Deus! Esta é a sua irmã, seu idiota! Agora, saia! Vá procurar Greta .. Ou, por outro lado, talvez melhor não."
"Cale a boca!" Neil gritou. "Você não é minha mãe!"
Ela finalmente empurrou Neil para longe. Então deitou a cabeça no colo da Flor.
"Bêbado" ela repreendeu sonolenta. "Absolutamente bêbado."
Então começou a roncar. Em poucos minutos, Flor dormiu também e sonhou e acordou com um grito.
"O que é isso?" Maryann perguntou.
"Nada, foi só um sonho", disse Flor. "Você não estava dormindo?"
“Eu não posso."
Apesar de estar tranquilo agora, Maryann ainda ouvia com atenção. O que ela mais temia era que Neil encontrasse sua esposa. E Buddy. Juntos.


Buddy acordou. Ainda estava escuro. Seria sempre escuro daqui em diante.
Havia uma mulher ao lado dele, a quem ele tocou, apesar de não acordá-la. Não era nem Greta nem Maryann, ele reuniu suas roupas e se esgueirou para longe.
Pedaços da polpa pegajosa estavam agarrados em suas costas nuas e nos ombros, derretidos, desagradavelmente.
Ele ainda sentia a embriaguez. Bêbado e exaurido.
Orville tinha uma palavra para isso – qual era mesmo?
Desinchado.
O líquido escorrendo granulado pela sua pele nua, fê-lo tremer. Mas não de frio. Embora estivesse frio, chegou a pensar nisso.
Rastejando em frente com as mãos e os joelhos, ele encontrou outro casal dormindo.
"O quê?" disse a mulher. Ela soou como Greta. Não importa. Ele rastejou para outro lugar.
Encontrou um onde a polpa não tinha sido perturbada e recostou-se. Uma vez que você se acostumava com a sensação pegajosa, era bastante confortável: macio, quente, aconchegante.
Ele queria luz: a luz solar, da lamparina, mesmo a luz, vermelha instável da queima da noite passada. Algo na situação atual o horrorizava de uma forma que ele não entendia, não podia definir.
Era mais do que as trevas.
Ele pensou sobre isso e assim que caiu no sono novamente, a coisa veio até ele:
Vermes.
Eles eram vermes rastejando através de uma maçã.



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