sábado, 20 de agosto de 2011

O Oitavo Passageiro - Alan Dean Foster (Parte 2)



 
Não se poderia dizer que a ponte do Nostromo fosse espaçosa.

Era menos claustrofóbica que os outros cômodos e câmaras da nave, mas não muito. Cinco poltronas esperavam seus respectivos ocupantes. Luzes acendiam-se e apagavam-se pacientemente nos múltiplos consoles, enquanto inúmeras telas de vários tamanhos e formatos aguardavam a chegada dos humanos preparados para dizer-lhes o que deveriam mostrar.

Uma grande ponte teria sido uma frivolidade muito cara, uma vez que a tripulação passava a maior parte do tempo de vôo imóvel nos congeladores. Era projetada estritamente para o trabalho, não para descanso ou recreio. As pessoas que trabalhavam ali sabiam disso tão bem quanto o sabiam as máquinas.

Uma porta de vedação hermética deslizou sem ruído na parede. Kane entrou, seguido imediatamente de Ripley, Lambert e Ash. Dirigiram-se, todos, para suas estações respectivas, e sentaram-se atrás de consoles com a naturalidade e familiaridade de velhos amigos que se saúdam depois de uma longa ausência. Um quinto lugar permaneceu desocupado, e continuaria desocupado até que Dallas voltasse de seu tête-à-tête com a Mãe, o Banco de Memória do Nostromo.
O apelido era correto e não fora dado de brincadeira. As pessoas tendem a tratar com seriedade a maquinaria responsável pela sua sobrevivência. De seu lado, a máquina aceitava a designação com solenidade equivalente, menos talvez a conotação emocional.

As roupas que usavam eram tão informais com os corpos, e eram apenas simulacros de uniformes. Cada qual refletia a personalidade do seu usuário. Blusões e calças, coçados e amassados depois de anos de armazenagem. Como os corpos que vestiam.

As primeiras palavras proferidas na ponte depois de anos resumiam os sentimentos de todos os presentes, embora fossem ininteligíveis. Jones miou lastimavelmente quando o depositaram no convés. Transformou, depois, o miado num ronrom, ao acomodar-se, sinuosa e sensualmente, no assento de espaldar alto.

— Ligue-nos.

Kane verificava seu próprio console, acariciando com os olhos os botões automáticos, buscando incongruências e discrepâncias, enquanto Ripley e Lambert começavam a apertar os necessários interruptores e a martelar os controles exigidos.
Houve uma festa visual. Luzes de todas as cores correram, coruscando, por painéis e telas. Era como se os instrumentos se alegrassem também, a seu modo, pela reaparição daqueles parceiros de carne e osso e estivessem ansiosos por demonstrar seus próprios talentos. Números e palavras surgiram nas saídas à frente de Kane. Ele os relacionou com o que tinha gravados na mente.

— Parece que tudo está bem, pelo menos até agora. Mostre-nos alguma coisa.

Os dedos de Lambert tamborilaram um arpejo num conjunto apertado de controles. Visores animaram-se por todo lado, à volta da ponte. Alguns pendiam do teto para maior facilidade de leitura. A navegadora escrutinou os olhos quadrados mais próximos de onde ela estava e cerrou o cenho. Muito do que vira era esperado. Muito mais, porém, não o era. A coisa mais importante, a forma subconscientemente antecipada que deveria dominar o campo de visão de todos, primava pela ausência. Isso era um fato tão importante que desmentia a normalidade de todo o resto.

— Onde está a Terra?

Examinando cuidadosamente sua própria tela, Kane viu apenas a escuridão pontilhada de estrelas. Admitindo a possibilidade de haverem emergido do hipersono um pouco cedo demais, pelo menos o sistema solar deveria aparecer com clareza na tela. Mas o Sol estava tão invisível quanto a esperada Terra.
— Você é a navegadora, Lambert. Cabe a você dizer-nos.

Havia um sol central, firmemente instalado no centro dos múltiplos painéis da sala. Mas não era o Sol. Tinha a cor errada e os pontos que giravam em órbita à sua volta e que o computador acentuava, eram mais que errados. Eram impossíveis, por impropriedade de forma, de dimensões e de número.

— Esse não é o nosso sistema — observou Ripley, numa voz sem cor. Era expressar o óbvio.

— Talvez o problema seja só a nossa orientação, não a das estrelas — disse Kane, mas não parecia muito convencido disso, nem convenceu ninguém. — Já houve casos de naves que saíram do hipersono de costas para a sua direção. Isso aí em frente pode ser Centauro, em amplificação máxima. O Sol pode estar atrás de nós. Vamos fazer uma exploração completa antes de entrar em pânico.
O que não disse foi que o sistema visível nas telas parecia-se menos ainda com o de Centauro que com o do Sol.
Câmaras seladas no casco já sofrido do Nostromo começaram a mover-se silenciosamente no vácuo do espaço, buscando detectar, no infinito, sinais de uma calorosa Terra. Câmaras secundárias no cargueiro do Nostromo, monstruoso agregado de formas avultadas e grandes recipientes de metal, contribuíram com sua própria linha de observação.
Seres de uma era mais antiga ficariam pasmos se soubessem que o Nostromo rebocava uma considerável quantidade de óleo cru pela vastidão que separa as estrelas, fechado na sua própria refinaria automática e de funcionamento ininterrupto. Todo esse óleo estaria transformado em petroquímicos quando a nave orbitasse de novo na Terra. Tais métodos se tinham revelado necessários. Embora a humanidade tivesse produzido há muito tempo maravilhosos e eficientes substitutos dos combustíveis fósseis, e com eles movimentasse a sua civilização, só o fizera depois que a cupidez de certos indivíduos sugara a última gota de petróleo da Terra.
A fusão nuclear e a energia solar alimentavam todas as máquinas do homem. Mas não substituíam os petroquímicos. Um motor nuclear não produz plásticos, por exemplo. Se os mundos modernos não podiam existir sem energia com muito mais razão não podiam dispensar os plásticos. Daí a presença, no Nostromo, de um cargueiro de maquinaria — comercialmente viável se bem que historicamente incongruente — e do barulhento líquido negro que ela pacientemente fabricava.
O único sistema que as câmaras apanharam foi o que aparecia no centro de todos os painéis, com seu insólito colar de planetas e sua estrela central de cor imprópria. Não restava dúvidas, agora, na mente de Kane, e muito menos na de Lambert, de que o Nostromo tinha aquele sistema como destinação imediata deles.
E, todavia, talvez se tratasse de um erro de tempo e não de espaço.
O sistema solar poderia estar localizado a distância, só que à direita ou à esquerda daquela estrela visível. Havia um modo de averiguá-lo com precisão.

— Tente contacto com o controle de tráfego — disse Kane, mordiscando o lábio inferior. — Se conseguirmos captar alguma coisa, saberemos que estamos no quadrante certo. Se o Sol estiver em algum lugar das imediações, receberemos resposta de uma estação qualquer de retransmissão da periferia do sistema.
Os dedos de Lambert mexeram em vários controles.
— Aqui é o rebocador comercial Nostromo do espaço exterior matrícula número um oito zero, dois quatro seis, em rota para a Terra com carga bruta de petróleo cru e competente refinaria. Controle de tráfego Antártica. Vocês me ouvem? Desligo.

Só o ruído cosmológico, esse silvo ao mesmo tempo tênue e constante de sóis muito remotos, respondeu-lhe nos alto-falantes. Enrodilhado aos pés de Ripley, Jones ronronava em ritmo com a harmonia das esferas.
Lambert tentou de novo:
— Rebocador comercial Nostromo do espaço exterior chamando o controle de tráfego Antártica, do Sol. Temos problemas de navegação. Este é um chamado prioritário. Por favor, respondam.
E só o mesmo sibilar de antes.
— S.O.S., S.O.S. O cargueiro Nostromo chamando o controle solar de tráfego ou qualquer astronave capaz de captar este sinal. S.O.S. Respondam.

Esse injustificado sinal de apuros (Lambert sabia que não estavam em perigo imediato) passou despercebido e não teve resposta. Desanimada, desligou o transmissor, mas deixou o receptor para todos os canais, para o caso de cruzarem com alguma outra nave.

— Eu sabia que não podíamos estar perto do nosso sistema — disse Ripley. — Conheço a área. — E com um sinal de cabeça para o painel suspenso acima do seu console:
— Isso aí não está perto do Sol e muito menos estamos nós.
— Continue a tentar — ordenou-lhe Kane, e voltou-se para encarar Lambert:
— Então, onde estamos? Você já procedeu a uma leitura?
— Você me concede um minuto? Não é fácil, sabe? Estamos perdidos na selva.
— Pois tente.
— Estou tentando.
Vários minutos de intensa busca com a cooperação dos computadores produziram um risinho de amarga satisfação no rosto dela:
— Achei... e a nós também. Estamos ligeiramente aquém da retícula de Zeta II. Não alcançamos sequer o anel mais externo habitado. Longe demais de casa para captar um sinal gravitacional, muito menos uma emissão de qualquer estação solar retransmissora.
— E que diabo estamos fazendo aqui? — indagou-se Kane, em voz alta. — Se não há
nada de errado com a nave e se não estamos em casa, por que a Mãe nos descongelou?

Foi só por coincidência e não como resposta direta a essa observação do executivo que um sinal de alarme se fez ouvir, de súbito, intermitente, mas alto e imperativo...
Junto da popa do Nostromo havia um amplo recinto quase todo ocupado por sua maquinaria pesada e complexa. Era, a bem dizer, o coração da nave, o seu intrincado sistema de propulsão, que lhe permitia distorcer o espaço, ignorar o tempo, torcer seu nariz metálico a Einstein e também — mas só incidentalmente — alimentar os apetrechos que mantinham viva a fragílima tripulação de humanos.
Na extremidade direita desse maciço e trepidante complexo de máquinas, havia um cubículo de vidro, que era como uma espinha transparente na ponta desse iceberg de hipervelocidade. Dentro dela, em assentos pré-moldados, ficavam dois homens. Eram responsáveis pela saúde e bem-estar da marcha da nave, situação que muito lhes agradava. Tomavam conta dela, e ela tomava conta deles.
Na maior parte do tempo, a maquinaria funcionava perfeitamente bem sozinha, o que lhes permitia empregar seu tempo em atividades mais inteligentes e agradáveis, como tomar cerveja e contar pilhérias pornográficas. No momento, era a vez de Parker falar. Contava, pela centésima vez, a história do aprendiz de maquinista.
Era uma boa história, que jamais deixava de arrancar um frouxo de riso do calado Brett e uma gargalhada do próprio narrador.
— "... e então a madame chega pra mim, toda nervosa e zangada ao mesmo tempo — dizia o engenheiro —, e insiste em que a gente vá e salve o pobre diabo. Achava que ele não sabia onde estava se metendo.
Como sempre, ele ria da própria pilhéria.
— Você se lembra daquele lugar. As quatro paredes, o teto e o soalho perfeitamente espelhados, e sem cama. Só uma rede de veludo suspensa no centro do quarto para confinar as atividades do cara e impedi-lo de ricochetar contra as paredes.
Sacudiu a cabeça de um lado para outro, desaprovando a lembrança.
— Aquilo não é lugar para amadores nem para brincadeiras. Não senhor! Imagino que o rapaz ficou encabulada ou que foi animado a tentar pelos seus colegas.
— Segundo me contou mais tarde a jovem em causa, enquanto se limpava, eles começaram bem. Mas quando começaram a rodopiar, ele entrou em pânico. Não sabia como deter aquilo. Ela tentou, mas são necessários dois para parar como são necessários dois também para começar a queda livre. E com os espelhos atrapalhando seu senso de orientação e tudo, mais a tonteira do giro, ele não pôde deixar de vomitar.
Parker tomou um pouco mais de cerveja.
— Você nunca viu porcaria maior em toda a sua vida. Aposto como ainda estarão limpando aqueles espelhos.
— Puxa! — disse Brett, apreciando.
Parker ficou imóvel no assento, deixando que os últimos vestígios da recordação se apagassem. Deixaram um resíduo agradavelmente lascivo. Distraidamente, torceu uma chave no seu console. Uma aprazível luzinha verde apareceu imediatamente por cima dele e manteve-se acesa.
— Como está a sua luz?
— Verde — admitiu Brett, depois de repetir o que o outro fizera, apertando a chave e conferindo no seu próprio instrumental.
— A minha também.

Parker ficou a contemplar as bolhas da cerveja. Poucas horas livres do hipersono e já se sentia enfadado. A silenciosa eficiência com que marchava a sala de máquinas fazia-o sentir-se deslocado e irrelevante. Não havia com quem discutir — exceto Brett —, e era impossível armar um debate dos bons com um homem que falava por monossílabos e para quem uma sentença completa era um esforço inaudito.

— Continuo a pensar que Dallas ignora de propósito as nossas reclamações — arriscou. — Talvez não tenha autoridade para decidir que recebamos os bônus na íntegra, mas afinal de contas é o capitão. Se quisesse, poderia requerer isso, ou dizer uma palavrinha a nosso favor. Isso ajudaria muito.
Estudou uma leitura. Exibia uma série de números com mais e menos para a direita e a esquerda. A linha vermelha, fluorescente, que corria pelo centro do mostrador, descansava precisamente em zero, cortando a desejada indicação de neutralidade em duas.

Parker podia ter continuado indefinidamente a sua conversa descosida, alternando casos e queixas, se o sinal acima deles não tivesse começado nesse momento o seu intermitente sinal de alerta.

— Cristo! O que poderá ser isso agora? É só a gente ficar um pouco mais a gosto e já alguém começa a peidar.
— Certo.
Brett debruçou-se para a frente a fim de ouvir melhor, enquanto quem falava limpava sua distante garganta.
Era a voz de Ripley.
— Apresentem-se na sala comum.
Almoço não pode ser, e jantar é que não será.
Parker estava perplexo.
— Ou vamos ficar de prontidão para descarregar ou...
Olhou interrogativamente para o companheiro.
— Logo saberemos — disse Brett.

Em trânsito, Parker lançou um olhar crítico para as paredes do corredor C, não tão anti-septicamente limpas quanto seria de esperar.

— Gostaria de saber por que nunca chegam com o esfregão até aqui, onde o verdadeiro trabalho se faz!
— Pela mesma razão pela qual ganhamos só metade do que eles ganham. Nosso tempo lhes pertence. É assim que pensam.
— Pois olha, vou dizer uma coisa: é uma boa droga! Não restava dúvida, pelo tom de Parker, que ele se referia a outra coisa, e não ao cheiro que impregnava as paredes do corredor...




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