sábado, 27 de agosto de 2011

O Oitavo Passageiro - Alan Dean Foster (Parte 3)


II


Embora aquém do confortável, a sala comum era suficientemente ampla para reunir toda a tripulação. Uma vez que raramente comiam juntos as suas refeições (o cozinheiro automático, sempre funcional, encorajava indiretamente o individualismo em matéria de hábitos de comer), a sala não fora projetada tendo em vista sentar sete pessoas confortavelmente.

Parker e Brett estavam aborrecidos e não faziam esforço para escondê-lo. Seu único consolo era saber que nada havia de errado com as máquinas. Se haviam sido despertados para enfrentar uma emergência, esta nada tinha a ver com a engenharia. Saná-la caberia aos outros.

Ripley já comunicara a todos a desconcertante ausência do seu porto de destino.
Parker imaginou que teriam de reentrar no hipersono, processo que, além de tudo, era nojento e desconfortável. Praguejou entre dentes. Tinha ódio de tudo que atrasasse o recebimento do seu cheque de fim de viagem.

— Sabemos que não chegamos ao Sol, capitão. Kane falava por todos. Os outros olhavam expectantes para Dallas.
— Não estamos nem remotamente perto de casa. E, apesar disso, a nave houve por bem despertar-nos. Já era tempo de sabermos por quê.
— Sim, já era tempo — apressou-se em dizer Dallas. — Como sabem — continuou, dando-se uma certa importância —, como sabem, a Mãe está programada para interromper nossa viagem e arrancar-nos ao hipersono se determinadas circunstâncias sobrevierem...
Fez uma pausa, para maior efeito. Disse:
— Pois foi o que aconteceu.
— Terá de ser coisa muito séria — disse Lambert, enquanto com o rabo do olho via Jones brincar com um dos pisca-piscas de alerta. — Você sabe disso. Tirar uma tripulação inteira do hipersono não é coisa de somenos. Há sempre certo risco na operação...
— Grande novidade — resmungou Parker, mas tão indistintamente, que só Brett podia ouvi-lo.
— Todos ficarão felizes em saber — continuou Dallas — que a emergência que temos de enfrentar, que fomos acordados para enfrentar, não diz respeito à astronave. A Mãe diz que o Nostromo está em perfeitas condições.
Dois 'améns' de alívio soaram no recinto apertado.

— A emergência jaz em outro lugar, especificamente no sistema desconhecido, não mapeado, em que entramos há pouco. Devemos estar rumando para o planeta em causa nesse exato momento.
Olhou de relance para Ash, que o recompensou com um aceno confirmatório de cabeça.
— Captamos uma transmissão de alguma outra fonte. Estava mutilada e, aparentemente, a Mãe levou algum tempo para decifrá-la. Mas era, sem dúvida nenhuma, um sinal de perigo.
— Mas isso não faz sentido!
Lambert também parecia perplexa.
— De todos os sinais do código, os de perigo e socorro são os mais claros e os menos complexos. Por que a Mãe teria trabalho para interceptar um deles?
— A Mãe entende que não se trata de um sinal 'do código'. É uma espécie de sinal direcional, acústico, repetido a intervalos regulares de doze segundos. Isso, pelo menos, não é incomum. Todavia, ela não acredita que tenha origem humana.
Esse último dado provocou um murmúrio geral de espanto.
Quando a primeira excitação passou, ele explicou um pouco mais:
— A Mãe não está muito certa do que diz. E isso é algo que me escapa. Nunca vi um computador demonstrar confusão antes. Ignorância, sim. Mas não confusão. Pode bem ser um primeiro caso, histórico.
— O que importa é que ela está tão segura de tratar-se de um sinal de perigo que julgou necessário despertar-nos.
— E daí? — Brett dava a impressão de nada ter a ver com a história.
Kane respondeu-lhe com uma ponta de irritação.
— Vamos, homem. Você conhece seu manual. Estamos obrigados pela seção B 2 das normas de viagem da Companhia a dar a assistência de que formos capazes em situações dessas. Seja humano ou não o pedido.
Parker chutou o chão, de raiva:
— Cristo! Detesto dizer isso, mas nós somos um rebocador comercial com uma carga muito grande e difícil de manusear. Não somos nenhuma unidade de salvamento. Essa espécie de dever não consta do nosso contrato.
Animou-se um pouco, a essa altura, e acrescentou:
— Naturalmente, a coisa muda de figura se houver algum dinheiro extra num trabalho desses...
— Você faria melhor se relesse o seu contrato — recitou Ash, com uma precisão digna do computador de que tanto ele se orgulhava: — Qualquer transmissão sistemática que indique origem inteligente deve ser investigada. Qualquer negligência é punida com a perda de salários e bônus devidos ao fim da viagem. E não consta que haja prêmios pela ajuda prestada a alguém em perigo.

Parker deu um segundo chute no piso da nave, mas ficou de bico calado. Nem ele nem Brett tinham vocação heróica. Qualquer que fosse a coisa capaz de forçar uma nave a descer num mundo desconhecido, tratá-los-ia igualmente com desconsideração. Não que tivessem qualquer prova de que o emissor do sinal tivesse sido forçado a descer. Mas sendo um realista num universo hostil, Parker tendia naturalmente ao pessimismo.
Brett encarava simplesmente a volta em termos de atraso no seu pagamento.

— Nós vamos descer. Não há alternativa — Dallas encarou Brett e Parker, um depois do outro. Estava farto dos dois. Também ele não via com prazer esse desvio da rota, e estava tão ansioso quanto eles em chegar e descarregar. Mas havia momentos em que a manifestação de desagrado raiava pela desobediência.
— Certo — disse Brett, sardonicamente.
— Certo, o quê?
O técnico não era nenhum imbecil. A combinação do tom de voz de Dallas com a expressão do seu rosto indicavam lhe que era tempo de ceder.
— Certo que devemos descer — disse. E como Dallas continuasse a fixá-lo duramente, acrescentou: — Senhor.
O capitão lançou também um olhar envenenado a Parker, mas essa estimável figura já estava domada.
— Podemos descer? — perguntou a Ash.
— Alguém desceu antes de nós.
— Mas é isso o que me inquieta — disse Dallas. — Descer é um termo inócuo. Implica uma seqüência de operações levadas a cabo com sucesso e resultando no pouso, sem choque nem risco, de uma nave numa superfície dura. Estamos, porém, em face de um pedido de socorro. Isso implica eventos nada benignos. Vamos descobrir o que se passa, mas com cuidado, pisando em ovos...

Havia um mapa iluminado na ponte.
Dallas, Kane, e Ash postaram-se em pontos cardeais opostos, enquanto Lambert sentava-se na sua estação.
— Aí está ele — disse Dallas, mostrando um ponto brilhante na superfície da carta de mesa. — E há uma coisa que quero que todos escutem.
Eles retomaram seus lugares e ele deu um sinal a Lambert. Os dedos dela pousaram numa chave específica.
— Muito bem. Ouçamos. Observem o volume.
A navegadora torceu a chave. Assobios e estática encheram o salão. Mas tudo clareou de repente, e ficou um único som, que deu arrepios na espinha de Kane. Para Ripley foi como se seres nojentos lhe passassem pelo corpo.
Durou doze segundos. Depois, voltou a estática.
— Deus todo poderoso! — exclamou Kane. Sua expressão era de abatimento.
Lambert desligou os alto-falantes. A ponte se fez de súbito humana outra vez.
— Que diabo poderá ser isso? — Ripley mostrava uma expressão curiosa, como se tivesse visto um bicho morto no seu prato de comida. — Não se parece a qualquer sinal de perigo que eu tenha jamais ouvido.
— Mas é assim que a Mãe o chama — informou Dallas. — Chamá-lo de 'alienígena' parece ter sido mais uma tentativa de minimizar sua importância, e não qualquer espécie de ironia por parte da Mãe.
— Talvez seja uma voz...
Lambert interrompeu a frase, considerou-a, achou suas implicações desagradáveis e procurou fingir que não tinha dito nada.
— Em breve saberemos. Você já dirigiu a nave para lá?
— Já localizei a seção do planeta de onde provém o sinal — disse Lambert virando-se com alívio para o seu console. Alegrava-a ter de ocupar-se de matemática, conjurando pensamentos inquietantes.
— Estamos perto.
— A Mãe não nos teria acordado se não estivéssemos — murmurou Ripley.
— Vem de ascensão seis minutos e vinte segundos, declinação menos vinte e nove graus, dois segundos.
— Mostre-me isso na tela.
A navegadora fez funcionar uma sucessão de botões. Um dos painéis tremeluziu, depois ofereceu-lhes um ponto brilhante.
— Alta incidência de luz refletida. Poderíamos chegar um pouco mais perto?
— Não. Vai ser preciso observar a coisa a essa distância. É o que eu, aliás, vou fazer.
Imediatamente, a tela foi posta em zoom e revelou uma forma oblonga, pouco espetacular, pousada no vazio.
— Você é uma filha da puta! — exclamou Dallas sem malícia. — Tem certeza de que se trata disso? Olha que é um sistema apinhado.
— É isso sim, pode estar seguro. Um simples planetóide, na verdade. Talvez tenha uns mil e duzentos quilômetros, mas não mais.
— Rotação?
— Sim. De umas duas horas, descontados os algarismos iniciais.
— Isso basta, por ora. Qual é a gravidade?
Lambert estudou diversas leituras.
— Ponto oito seis. Deve ser um troço muito denso.
— Não conte a Parker e Brett — disse Ripley. — Podem pensar que é metal pesado e sólido e iniciar uma prospecção em algum canto antes que tenhamos tempo de identificar o nosso transmissor...
O comentário de Ash foi mais prosaico:
— É possível andar em cima dele.
E puseram-se a calcular como melhor entrar em órbita...

O Nostromo aproximou-se do minúsculo mundo, puxando a reboque sua vasta carga de tanques e equipamento de refino.

— Aproximando-nos do apogeu, Mark. Vinte segundos. Dezenove. Dezoito...
E Lambert continuou a contagem regressiva enquanto seus colegas se atarefavam à sua volta.
— Dar uma guinada de noventa e dois graus para estibordo...
Na vastidão do espaço, rebocador e refinaria regiraram, numa pirueta maciça. Acendeu-se uma luz na popa do rebocador e o seu motor secundário inflamou-se por um momento.
— Órbita equatorial no papo — anunciou Ash.
Abaixo deles o mundo em miniatura girava indiferente.
— Dê-me uma leitura de pressão.
Ash examinou instrumentos e falou, sem voltar-se para encarar Dallas:
— Três ponto quatro cinco em corte em redondo... aproximadamente cinco psia, capitão.
— Avise se mudar.
— O senhor teme que uma manipulação redundante possa desarranjar o controle CMGS quando estivermos ocupados com outra coisa?
— Isso.
— O controle CMG fica neutralizado via DAS/DCS. Podemos aumentar com TACS e controlar através de ATMDC e computador. Mais aliviado?
— Muito mais.

Ash era engraçado. Frio como amigo, mas extremamente competente. Nada o perturbava. Dallas sentiu-se confiante, com o oficial de ciência secundando-lhe as decisões, vendo-o operar.
— Preparar para desengajar da plataforma.
Virou uma chave e falou para um pequeno pick-up:
— Engenharia, preparar para desengajar.
— L alinhado com o porto e estibordo verde — informou Parker, sem sombra do habitual sarcasmo.
— Verde para o desligamento do umbilicus espinhal, acrescentou Brett.
— Cruzando o terminal — informou Lambert, para conhecimento de todos. — Estamos entrando no lado escuro.
Abaixo deles, uma linha cortava espessas nuvens. Metade ficava na luz, a outra metade era escura como o fundo de uma sepultura.
— Está se aproximando, está se aproximando. Atenção. — Lambert manejou vários comutadores em sucessão. — Atenção. Quinze segundos, dez... cinco... quatro. Três. Dois. Um. Agora.
— Desengajar — ordenou Dallas, secamente.
Minúsculas baforadas de gás apareceram entre o Nostromo e a vasta massa da plataforma de refinaria. As duas estruturas artificiais, uma pequena e habitada, a outra enorme e deserta, afastaram-se lentamente. Dallas observou a separação atentamente na tela número dois.

— Tudo claro com umbilicus — anunciou Ripley depois de uma curta pausa.
— Precessão corrigida — disse Kane. E recostou-se na sua cadeira, descansando por um momento. — Tudo bem. Separação efetuada com êxito. Nenhum dano.
— Confere — disse Lambert.
— Confere — acrescentou Ripley, aliviada.
Dallas olhou de relance a navegadora.
— Tem certeza de que ela ficou numa órbita segura? Não quero ver aqueles dois bilhões de toneladas caírem e arderem enquanto investigamos lá embaixo. A atmosfera não é bastante densa aqui para funcionar como uma cobertura de proteção.
Lambert estudou uma leitura:

— A refinaria está segura em órbita por um ano ou dois. Fácil.
— Excelente. O dinheiro está seguro e seguros estamos nós também. Vamos descer. Preparar para vôo atmosférico.
Cinco humanos se puseram a trabalhar, cada um na sua tarefa específica. Jones, o gato, entronisado num console de bombordo, estudava as nuvens que se aproximavam.
— Caindo.
Lambert tinha a atenção fixa num determinado instrumento.
— Cinqüenta mil metros. Caindo. Caindo. Quarenta e nove mil. Entrando na atmosfera.
Dallas estudava seu próprio painel de instrumentos, procurava avaliar e memorizar as dúzias de algarismos em mutação incessante. Viajar pelo espaço consistia nisso: em honrar os próprios instrumentos e deixar que a Mãe fizesse o trabalho pesado. Mas vôo na atmosfera era outra coisa, inteiramente. Era tarefa para piloto e não para máquinas. Para variar.
Nuvens marrons e cor de chumbo roçavam pelo fundo da nave.

— Cuidado. As condições parecem difíceis, lá embaixo.

Típico Dallas, pensou Ripley. Em algum lugar, naquele inferno pardacento e oco, outra nave continuava a soltar seu lamento, regular, inumano, assustador. O próprio mundo em que estavam era desconhecido, o que significava que tinham de começar da estaca zero em matéria de peculiaridades atmosféricas, terreno, coisas assim. Mas para Dallas tais condições eram apenas 'difíceis'. Ripley muitas vezes perguntava a si mesma que diabo um homem tão competente quanto o capitão fazia em volta do cosmos a bordo de um rebocador sem importância como o Nostromo.
A resposta, se ela pudesse ler a sua mente, ter-lhe-ia causado surpresa: Dallas gostava daquela vida.

— Descida vertical computada e anotada. Corrigindo o curso ligeiramente — informou Lambert. — Curso correto, agora. Estamos chegando.
— E como o nosso planejamento se ajustará à propulsão secundária com um tempo desses?
— Estamos indo muito bem até agora, capitão. Não posso ter certeza até que atravessemos essas nuvens. Se é que vamos poder atravessá-las.
— Satisfatório,
Dallas franziu a testa a uma leitura; apertou um botão. A leitura melhorou.
— Avise-me se achar que vamos errar.
— Muito bem.

O rebocador chocou-se contra algo invisível. Invisível ao olho, não aos seus instrumentos. A nave saltou uma, duas, três vezes, depois acomodou-se mais confortavelmente na grossa camada de nuvens escuras.
A relativa facilidade da entrada era um tributo à habilidade de Lambert como estrategista e de Dallas como piloto.

Mas não durou.
Dentro do oceano do ar, fortes correntes redemoinhavam começaram a açoitar a nave que descia.



O Oitavo Passageiro - Alan Dean Foster (Parte 3) [ Download ]