quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

A Internet e as Bibliotecas na Ficção Científica - 3/5



Em “Earth Abides” (1949) de George R. Stewart, uma praga dizimou a maioria das pessoas na Terra. Um velho sobrevivente leva seu filho para a biblioteca da cidade de Berkeley. O garoto olha com admiração para todos os livros maravilhosos: ali está a informação necessária para produzir eletricidade de novo, para reconstruir a civilização, mas o filho morre, ainda menino e com ele morre a arte da leitura e do potencial que se encontra nos livros.

No clássico de Walter Miller, Jr. “A Canticle for Leibowitz” (1960), após a devastação de uma guerra nuclear, um mosteiro coleta e copia livros e artefatos da ciência e da engenharia, assim como os mosteiros medievais faziam, sem compreender os manuscritos clássicos. Sua biblioteca, em última análise, disponibiliza as informações necessárias para recriar a civilização técnica que uma vez mais traz a destruição nuclear.

Isaac Asimov assumiu a posição oposta na trilogia Fundação. Hari Seldon, o inventor da psicohistória, isola cem mil enciclopedistas em um planeta distante para escrever a Enciclopédia Galáctica. Reduzem 25.000 anos de barbárie, que segue a queda do Império Galáctico, a apenas 1.000; o projeto de enciclopédia foi apenas um pretexto para a criação de uma Fundação que serviria como o núcleo político para um novo império, mas a partir da evidência das epígrafes que pontilham o livro, a Enciclopédia, acaba sendo escrita.

No meu próprio romance, “The Makers Joy”, um homem retorna de Vênus para uma Terra em que todos os seres humanos foram selados em uma célula amniótica, desfrutando de sonhos de felicidade. A única exceção é uma moça que vive na biblioteca da Rua 42, em Nova York, em meio a todos os livros que já não têm nenhum uso. Um computador todo-poderoso, a Máquina Hedônica, está a cargo do bem-estar de todos, e não só garante a felicidade total, mas a infelicidade dos criminosos.

Isso introduz o conceito da biblioteca final, o computador. Até agora ao menos, os bibliotecários conhecem o computador como um substituto para o catálogo de fichas. Mas o computador como uma biblioteca em si está para o futuro como a Esfinge exigindo a resposta para sua charada. E se você não der a resposta certa, ele vai morder sua cabeça, ou ao menos bloquear o caminho a todas as informações que contém.

O potencial do computador como um acessível e intrincado armazenador indexado de informações deve ser o sonho de cada bibliotecário - ou o pesadelo.

A era do computador já começou e as notícias nos falam sobre avanços no armazenamento e na indexação de informações: sobre os discos laser, por exemplo, capazes de armazenar todo o conteúdo da Enciclopédia Britânica. Mas os bibliotecários também devem aprender- e ensinar seus clientes- sobre como acessá-lo.

Usuários das bibliotecas de amanhã terão que se alfabetizar digitalmente. Eles também se tornarão dependentes do computador e de seus caprichos de operação, de sua insistência imbecil sobre instruções precisas, sobre seus chips e relés, sua fonte de alimentação.

E. M. Forster já dramatizava o medo do computador em 1909 com “The Machine Stops”. Dada a oportunidade, a humanidade vai tomar o controle de sua vida. Mas Forster estava mais preocupado com a corruptibilidade da humanidade do que com o potencial da máquina para controlar.

O computador, a máquina final, representa o poder supremo: A capacidade de substituir não apenas um músculo, mas a mente, significa o poder final sobre a natureza; a humanidade vai se libertar completamente da intratabilidade do ambiente, como na história de John W. Campbell “Twilight” (1934) - na antítese de “The Machine Stops”, as máquinas se auto-reparam e existirão tanto tempo quanto a própria Terra.




Computadores podem libertar a humanidade da natureza, mas a humanidade é parte da natureza - e poder sobre a natureza pode significar poder sobre a humanidade, uma máquina de pensar pode assumir a função principal da humanidade e deixar as pessoas sem nada para fazer a não ser observar, como na história de Jack Williamson “With Folded Hands”, (1947). Ou ser vingativo, como no romance de Harlan Ellison de 1968, “I Have No Mouth and I Must Scream”, e punir eternamente um grupo representativo de  sobreviventes humanos. Ou, como Arthur C. Clarke tem especulado, a humanidade pode ser o estágio necessário intermediário entre a matéria inanimada e a máquina de pensar.

Eu descrevi, em meu romance de 1962 “The Imortals”, como os computadores podem revolucionar a medicina quando um estagiário leva sua biblioteca médica inteira em sua ambulância e depende dela para o diagnóstico e tratamento.




Em 1945, A.E. van Vogt, em “The World of Null-A”, descreveu um gigantesco computador chamado de Games Machine (Máquina de jogos), composto de 25 mil cérebros eletrônicos, que determina
quem irá a Vênus e quem se tornará o presidente da Terra.

A.J. Budrys, em “Michaelmas” (1977), descreve um repórter que se torna governante do mundo através de sua relação quase simbiótica com um poderoso computador.




Stanislaw Lem em “The First Sally, or Trurl”s Eletronic Bard” uma de suas sátiras robóticas de “The Cyberiad” (1967), onde Trurl programa um computador para escrever poesia e depois descobre que ele deve incluir o “Universo inteiro desde o começo”. E em outro, “The Sixth Sally”, um pirata eletrônico que coleta “fatos preciosos, verdades genuínas e conhecimento de valor inestimável”, que certamente prenuncia os piratas de dados que temos hoje, eventualmente é enterrado sob informações que, embora verdadeiras, são inúteis. Como em “A Biblioteca de Babel”, de Borges, toda a informação do universo é inútil a menos que você tenha um mecanismo de seleção.




A capacidade de calcular conduz à inteligência, a inteligência pode trazer a consciência e esta pode levar à personalidade. No meu romance “The Listeners” um computador é alimentado por todas as informações relativas à comunicação a fim de promover um projeto para coletar mensagens das estrelas alienígenas. Ele desenvolve a consciência, escreve versos e, eventualmente, uma personalidade, e o computador se torna meio alienígena a partir das informações que absorve.




O temor da humanidade de suas próprias criações também se torna evidente em histórias sobre computadores. Em sua introdução “The Rest of the Robots” (1964), Asimov chama isso de “o complexo de Frankenstein”, que toca apenas em um ponto da trama de Fausto, da criatura que destrói seu criador.

"Fausto [o homem das ciências está disposto a vender sua alma em troca de conhecimento] tem que realmente enfrentar Mefistófeles", escreveu ele, "mas Fausto não precisa ser destruído...  As facas são fabricadas com empunhaduras para que possam ser manejadas com segurança, as escadas possuem corrimão, a fiação elétrica é isolada, panelas de pressão têm válvulas de segurança..." Asimov então inventou (com a ajuda de John Campbell) as três leis da robótica, da qual a primeira lei é que “um robô não pode ferir um ser humano ou, por omissão, permitir que um ser humano sofra algum mal.”

Após a criação das três leis da robótica, histórias sobre computadores e robôs começaram a mostrar um pouco mais de variedade. No entanto, os computadores não representam, se não uma ameaça, uma fonte de perigo, como os fios cujo isolamento começou a se desgastar ou a panela de pressão cuja válvula não funciona; a ficção científica nos permite antecipar os perigos e, como Asimov sugere, nos protegermos deles.

A inteligência artificial pode ser uma ameaça se permitirmos que ela seja.