sábado, 29 de janeiro de 2011

Solaris - Stanislaw Lem (parte 22)



Mal arrumado entre os espessos volumes do Anal, descobri um pequeno livro encadernado em pele de cabra, e por um momento estudei a capa esmurrada e gasta. Era a Introduction to Solaristics de Muntius, publicado muitos anos atrás. Tinha-o lido numa única noite, depois de Gibarian, sorridente, me ter emprestado a sua cópia pessoal; e, quando voltara a última página, pela minha janela via-se a luz de uma nova madrugada na Terra.

Segundo Muntius, a solarística é, para a era espacial, o equivalente à religião: a fé disfarçada em ciência.

O “contato”, a meta declarada da solarística, não é menos vaga ou obscura que a comunhão dos santos ou a segunda vinda do Messias. A exploração é uma liturgia que emprega a linguagem da metodologia; a enfadonha tarefa dos solaristas é desempenhada apenas na esperança de realização, de uma Anunciação, pois não há, nem pode haver, qualquer ponte entre Solaris e a Terra. A comparação é reforçada através de vários paralelos óbvios: os solaristas rejeitam argumentos — nada de experiências em comum, nada de noções comunicáveis —, tal como antigamente os fiéis rejeitavam os argumentos que minassem os alicerces da sua fé. E também, que pode a humanidade ter a esperança de conseguir com uma “troca de informações” com o Oceano vivo? Uma lista das vicissitudes ligadas a uma existência de duração tão infinita que provavelmente já se não recorda das suas origens? Uma descrição das aspirações, paixões e sofrimentos que se exprimem na perpétua criação de montanhas vivas? A apoteose da matemática, a revelação da plenitude no isolamento e renúncia? Mas tudo isto representa um conjunto de conhecimentos incomunicáveis. Transpostos para qualquer língua humana, os valores e significados envolvidos perdem todo o seu conteúdo; não podem transpor intactos essa barreira. Em todo o caso, os “adeptos” não esperam tais revelações — mais dentro da poesia que da ciência—, uma vez que, inconscientemente, é a própria Revelação que esperam, e esta revelação é que lhes seja explicado o significado do destino do homem! A solarística é o ressurgimento de mitos há muito desaparecidos, a expressão de místicas nostalgias que os homens não têm a coragem de confessar abertamente. A pedra de esquina está profundamente enraizada nos alicerces do edifício: é a esperança da Redenção.

Os solaristas são incapazes de reconhecer esta verdade, e por isso têm o cuidado de evitar qualquer interpretação de contato, o qual é apresentado nos seus escritos como a meta última, ao passo que originalmente tinha sido considerado como um começo e como um passos para um novo caminho de entre vários outros caminhos possíveis.
Com o decorrer dos anos, o contato tornou-se santificado.
Tornou-se o paraíso da eternidade.

Muntius analisa esta “heresia” da planetologia de um modo muito simples e cortante. Desfaz brilhantemente o mito solarístico, ou antes, o mito da Missão da Humanidade.
A voz de Muntius foi a primeira que se elevou em protesto e foi recebida pelo silêncio cheio de desprezo dos peritos, numa época em que tinham ainda uma romântica confiança no desenvolvimento da solarística. Afinal de contas, como poderiam aceitar uma tese que atingia os alicerces dos seus heróicos feitos.

E a solarística continuou à espera de um homem que a restabelecesse numa base sólida e definisse com precisão as suas fronteiras. Cinco anos depois da morte de Muntius, quando o seu panfleto se tinha tornado uma peça rara de colecionadores, um grupo de investigadores noruegueses fundou uma escola com seu nome. Em contato com a personalidade dos seus diversos herdeiros espirituais, o calmo pensamento do mestre sofreu profundas alterações; levou à corrosiva ironia de Erle Ennesson e, num plano mais mundano, à solarística “utilitária” e “utilitarianística” de Faleng, que defendia a opinião de que a ciência se devia satisfazer com as vantagens imediatas oferecidas pela exploração e não se preocupar com qualquer comunhão intelectual entre as duas civilizações ou com qualquer ilusório contato.

Comparadas com a análise impiedosa e lúcida de Muntius, as obras dos seus discípulos pouco mais são que compilações e por vezes degradações, com exceção dos ensaios de Ennesson e talvez dos estudos de Takata. O próprio Muntius já tinha definido todo o desenvolvimento dos conceitos solarísticos. À primeira fase dava o nome de era dos “profetas”, entre os quais incluía Giese, Holden e Sevada; à segunda, chamada o “grande cisma” — a fragmentação da igreja única solarística em várias seitas antagônicas; e antecipara uma terceira fase, que se estabeleceria quando já nada houvesse para investigar e que se manifestaria num dogmatismo acadêmico e obscuro. Contudo, a profecia viria a provar-se inexata. Em minha opinião, Gibarian tinha razão em classificar as críticas de Muntius como monumentais simplificações, que ignoravam todos aqueles aspectos da solarística que nada tinham em comum com um credo, pois o trabalho de interpretação baseava-se apenas sobre a evidência concreta de um globo que girava em órbita à volta de dois sóis.

Entre duas páginas do panfleto de Muntius descobri uma revista trimestral Parerga Solariana, que afinal era um dos primeiros escritos de Gibarian, do tempo antes de ser nomeado diretor do Instituto. O artigo tinha o título “Por que sou solarista?” e começava com uma breve resenha de todos os fenômenos materiais que confirmavam a possibilidade de contato. Gibarian pertencera à geração de investigadores que tinham sido suficientemente ousados e otimistas para querer regressar à época áurea e que não escondiam a sua própria versão de uma fé que ultrapassava as fronteiras impostas pela ciência, mantendo-se porém concreta, pois pressupunha o sucesso da perseverança.

Gibarian tinha sido influenciado pela obra clássica em bioeletronica que tornou famosa a escola Eurasiana de Cho Enmin, Ngyalla e Kawakadze. Os estudos destes tinham estabelecido uma analogia entre a atividade elétrica registrada do cérebro e certas descargas que ocorriam nas profundezas do plasma, por exemplo, antes da aparição de polimorfos elementares ou solaríades gêmeos. Gibarian opunha-se a interpretações antropomórficas e às mistificações das escolas psicanalítica, psiquiátrica e neurofisiológica, que tentavam ver no Oceano os sintomas de doenças humanas, entre elas a epilepsia (que supunham corresponder às erupções espasmódicas das assimetríades). Foi um dos mais cautelosos e lógicos proponentes do contato e não via qualquer vantagem na espécie de sensacionalismo que, em todo o caso, se estava a tornar cada vez mais raro em relação a Solaris.


A minha própria tese de doutoramento recebera razoável dose de atenção, e nem toda bem-vinda. Baseava-se nas descobertas de Bergmann e Reynolds, que tinham conseguido isolar e “filtrar” os elementos das mais poderosas emoções — desespero, sofrimento e prazer — dentre a massa dos processos mentais gerais. Comparando sistematicamente os registros deles com as descargas elétricas do Oceano, observara oscilações em certas partes das simetríades e na base de mimóides a nascer que eram suficientemente análogas para merecerem uma investigação mais aprofundada. Os jornalistas lançaram-se sobre a minha tese, e em alguns jornais o meu nome vinha associado a grotescos cabeçalhos — “A Gelatina em desespero”, “O planeta em orgasmo”. Mas esta fama duvidosa teve a feliz conseqüência (ou assim pensei até há uns dias) de atrair a atenção de Gibarian, que naturalmente não podia ler todas as novas publicações que tratavam de Solaris.

A carta que me mandou acabou um capítulo da minha vida e encerrou outro...



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sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Channeling the Future - Essays on Science Fiction and Fantasy Television


Channeling the Future focuses on the disparate visions of the past, present,and future that the science fiction and fantasy genres have offered television audiences. It not only shines new light on often overlooked and forgotten series but also examines the “look” of science fiction and fantasy television, determining how iconography (spaceships, machines, technology), location and landscape (space, Earth, the city, the countryside), mise-en-scène, CGI and special effects, art and set design, props, costumes, lighting, and manipulation of visual and virtual space contribute to the creation of real, fully imagined, and often all-too-familiar future and alternate worlds.

Establishing how the medium of television can create a certain “look” for individual series leads contributors to discuss the cultural, historical, and political impact these series had on both the genre and wider society. However, the collection also locates their visual aesthetics within broader historical, industrial, and production contexts to fully understand their cultural value. Notions of history and historical periodization clearly influence how science fiction and fantasy television series were imagined by their writers and designers and received at the time of broadcast, but we must also consider how older series and their particular future visions are perceived and interpreted by contemporary audiences compared to the more modern series of today.


Contents

Acknowledgments
Introduction: Future Visions 
Lincoln Geraghty

Part I: America’s New Frontier

Chapter 1 Retro Landscapes: Reorganizing the Frontier in Rod Serling’s The Twilight Zone
Van Norris

Chapter 2 Irwin Allen’s Recycled Monsters and Escapist Voyages
Oscar De Los Santos

Chapter 3 The Future Just Beyond the Coat Hook: Technology, Politics, and the Postmodern Sensibility in The Man from U.N.C.L.E.
Cynthia W. Walker

Part II: British Dystopias and Utopias

Chapter 4 Pulling the Strings: Gerry Anderson’s Walk from “Supermarionation” to “Hypermarionation”
David Garland

Chapter 5 Farmers, Feminists, and Dropouts: The Disguises of the Scientist in British Science Fiction Television in the 1970s
Laurel Forster

Chapter 6 Secret Gardens and Magical Realities: Tales of Mystery, the English Landscape, and English Children
Dave Allen

Part III: Fantasy, Fetish, and the Future

Chapter 7 There Can Be Only One: Highlander: The Series’ Portrayal of Historical and Contemporary Fantasy
Michael S. Duffy

Chapter 8 Kinky Borgs and Sexy Robots: The Fetish, Fashion, and Discipline of Seven of Nine
Trudy Barber

Chapter 9 “Welcome to the world of tomorrow!”: Animating Science Fictions of the Past and Present in Futurama
Lincoln Geraghty

Part IV: Visions and Revisions

Chapter 10 Plastic Fantastic? Genre and Science/Technology/Magic in Angel
Lorna Jowett

Chapter 11 Remapping the Feminine in Joss Whedon’s Firefly
Robert L. Lively

Chapter 12 “Haven’t you heard? They look like us now!”: Realism and Metaphor in the New Battlestar Galactica
Dylan Pank and John Caro

Index
About the Editor and Contributors




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quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Science Fiction Television Series - 1990-2004




Contents
Acknowledgments 
Foreword by Brad Wright 

Introduction 
Andromeda (2000–2005)
Babylon 5 (1994–1998)
Beyond Reality (1991–1993) 
Century City (2004)
Cleopatra 2525 (2000–2001)
Code Name: Eternity (1999)
Crusade (1999)
Dark Angel (2000–2002)
Dark Skies (1996–1997)
The Dead Zone (2002–2007)
Earth: Final Conflict (1997–2002)
Earth 2 (1994–1995)
Farscape (1999–2003)
Firefly (2002)
First Wave (1998–2001)
Harsh Realm (1999–2000)
The Invisible Man (2000–2002)
Jake 2.0 (2003)
Jeremiah (2002–2004)
Lexx: The Dark Zone (1997–2002)
Mann & Machine (1992)
Mercy Point (1998–1999)
Mysterious Ways (2000–2002)
Night Visions (2001–2002)
Odyssey 5 (2002, 2004)
The Outer Limits (1995–2002)
Prey (1998)
Psi-Factor: Chronicles of the Paranormal (1996–2000)
Quantum Leap (1989–1993)
RoboCop (1994)
Roswell (1999–2002)
seaQuest DSV (1993–1996)
Seven Days (1998–2001)
Sleepwalkers (1997–1998)
Sliders (1995–2000)
Space: Above and Beyond (1995–1996)
Space Precinct (1994–1995)
Space Rangers (1993)
Special Unit 2 (2001–2002)
Star Trek: Deep Space Nine (1993–1999)
(Star Trek) Enterprise (2001–2005)
Star Trek: The Next Generation (1987–1994)
Star Trek: Voyager (1995–2001)
Stargate: Atlantis (2004–2008)
Stargate SG-1 (1997–2007)
Starhunter (2001–2003)
Strange World (1999)
TekWar (1995–1996)
Time Trax (1993–1994)
Timecop (1997–1998)
Total Recall 2070 (1999)
Tracker (2001–2002)
Tremors: The Series (2003)
The Twilight Zone (2002–2003)
The Visitor (1997–1998)
VR5 (1995)
Welcome to Paradox (1998)
The X-Files (1993–2002)

Table of Contents
Appendix A: Who Goes There?
Appendix B: Looking Back at Science Fiction Television Series, 1955–1989
Index

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quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Tales Before Narnia - The roots of modern fantasy and science fiction



My previous anthology, Tales Before Tolkien (2003), is a selection of early fantasy literature that influenced Tolkien, that he admired, or that presented similar themes to those that would later be found in his writings. The present volume is in many ways a companion to the earlier one, with the focus this time being on the writings of C. S. Lewis (1898–1963), Tolkien’s friend and colleague. Though this volume is titled Tales Before Narnia, it is not restricted solely to precursors of Lewis’s seven volumes of The Chronicles of Narnia; rather, it encompasses the much wider breadth of his fictional output.

The critic William Empson is said to have described Lewis as “the bestread man of his generation, one who read everything and remembered everything he read.” Lewis’s published writings range from book-length narrative poems to science fiction, children’s books to works of scholarship— particularly on medieval and renaissance literature, but also including volumes on the poet Milton and on the study of words and language. Lewis is renowned for his Christian apologetics, and additionally he was a prolific poet, essayist, letter writer, and book reviewer.

CONTENTS
Introduction
Proem: “Tegnér’s Drapa” by Henry Wadsworth Longfellow
“The Aunt and Amabel” by E. Nesbit
“The Snow Queen: A Tale in Seven Stories” by Hans Christian Andersen
“The Magic Mirror” by George MacDonald
“Undine” by Friedrich de la Motte Fouqué
“Letters from Hell: Letter III” by Valdemar Thisted
"Fastosus and Avaro” by John Macgowan
“The Tapestried Chamber; or, The Lady in the Sacque” by Sir Walter Scott
“The Story of the Goblins Who Stole a Sexton” by Charles Dickens
“The Child and the Giant” by Owen Barfield
“A King’s Lesson” by William Morris
“The Waif Woman: A Cue—From a Saga” by Robert Louis Stevenson
“First Whisper of The Wind in the Willows” by Kenneth Grahame
“The Wish House” by Rudyard Kipling
“Et in Sempiternum Pereant” by Charles Williams
“The Dragon’s Visit” by J.R.R. Tolkien
“The Coloured Lands” by G. K. Chesterton
“The Man Who Lived Backwards” by Charles F. Hall
“The Wood That Time Forgot: The Enchanted Wood” by Roger Lancelyn Green
“The Dream Dust Factory” by William Lindsay Gresham
Author Notes and Recommended Reading

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terça-feira, 25 de janeiro de 2011

King of Thorn


King of Thorn (Ibara no Ou) é um manga de ficção científica de Yuji Iwahara.

Um grupo de pessoas são colocadas em animação suspensa para escapar de uma misteriosa praga que transforma as pessoas em pedra, o Vírus Medusa. Ao acordarem, parece haver somente oito sobreviventes em um mundo selvagem, incluindo uma adolescente, Kasumi, e o americano Marco Owen.

Os sobreviventes descobrem que as ruínas estão repletas de criaturas estranhas, como dinossauros e outras monstruosas aberrações da natureza.

Logo os sobreviventes descobrirão que a situação em si é muito diferente do que eles podem imaginar.





King of Thorn - tomo 1 [ Download ]


Assista também ao trailler do anime/OVA de King of Thorn.



segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Science Fiction and Empire - Liverpool Science Fiction Texts and Studies




[Science fiction (SF) has historically been perceived as a genre of the fabulous, a form of writing far outside the canon of ‘literature’, one that lacks boundaries, connections with reality or formal precedent. To some, that perception may be a vital attraction or a critical downfall.

What is the purpose of a genre which deals with the extremes of our imagination? Indeed, is there a purpose? Does SF exist as a socially acceptable method of expressing those wild ideas for which there are few other public forums?

Admittedly, many SF narratives are romantic fantasy: that is, they present caricatures from the human imagination, and are derivative and quick to resort to a deus ex machina. Yet the SF genre cannot so easily be reduced to an assembly of remnants from other styles of writing mingled with exciting gadgets and exotic backgrounds, nor can its appeal and longevity be dismissed as the lure of scientific romance. Beneath a sometimes superficial appeal, SF is responsible for opening a variety of legitimate and strategic cultural discourses. It is in these cultural disquisitions that we discover the fundamental power and rationale of a genre that ultimately contributes to the knowledge and awareness humanity has of itself...]


Contents

Introduction

1. The Self and Representations of the Other in Science Fiction 

2. Resistance Is Futile: Silencing and Cultural Appropriation 

3. The Word for World Is Forest: Metaphor and Empire in Science Fiction 

4. Things Fall Apart: Relativity, Distance and the Periphery

5. Moments of Empire: Perceptions of Lasswitz and Wells 

6. Exoticising the Future: American Greats

7. The Shape of Things to Come: Homo futuris and the Imperial Project 

8. A Postcolonial Imagination: Kim Stanley Robinson’s Mars 

9. Beyond Empire: Meta-empire and Postcoloniality 

Conclusion 
Notes
Bibliography
Index

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domingo, 23 de janeiro de 2011

Classics Illustrated - Lord Jim de Joseph Conrad



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Joseph Conrad



Józef Teodor Konrad Korzeniowski (3 de Dezembro de 1857 – 3 de Agosto de 1924) nasceu em Berdyczów (Berdychiv), na época território pertencente a Polônia mas ocupado pela Rússia e atualmente Ucrânia.

Nascido na aristocracia, seu pai era um tradutor renomeado de Victor Hugo e Shakespeare, posteriormente exílado em Vologda (Sibéria), por conta de suas atividades políticas (a Polônia lutava contra o domínio czarista russo). O clima impiedoso no nordeste da Russia teve consequências trágicas para Conrad e sua família. Aos oito anos de idade perdeu a mãe e quatro anos depois o pai, ambos para a tuberculose, sendo então enviado para um orfanato.

Aos doze seria mandado para viver com um tio materno abastado, na Suiça, e posteriormente em Cracóvia (Polônia), onde além do polonês, estudou francês, latim, grego, geografia e matemática, apesar de não gostar de estudar.

De espírito indócil, o jovem Conrad aos 17 anos de idade fugiu para Marselha (sul da França), onde conseguiu um trabalho como aprendiz embarcado em um cargueiro francês. Mais tarde revelaria que tudo em que pensava era conhecer o 'continente negro', embora seus biógrafos afirmem que ele buscava fugir do serviço militar russo.

Seus primeiros anos na marinha foram repletos de 'aventuras' nem sempre tão afortunadas pelas Indias Ocidentais. Por conta de uma vida desregrada, afundado em dívidas de jogo, envolveu-se com comércio e contrabando de armas, e esteve várias vezes à beira da morte, incluindo uma tentativa de suicídio mal sucedida, atirando contra o próprio peito.

Ciente dos problemas do sobrinho e protegido, seu tio interveio pagando suas dívidas e afastando-o temporariamente da vida de marinheiro. Mas não por muito tempo. Aos 21 anos, Conrad conseguiu emprego em um navio britãnico onde aprendeu inglês e com o tempo obteve seu certificado de 'homem do mar' e a cidadania inglesa, assumindo o nome pelo qual ficou conhecido mundialmente.

A cidadania inglesa custaria a ele, o direito de poder voltar a Rússia (no caso, a sua Polônia).

Em mais de 15 anos na marinha, Conrad viajou por todos os oceanos e conheceu uma centena de portos. E empregado pela Societé Anonyme pour le Commerce du Haut-Congo em 1890, Conrad finalmente mergulhou no 'continente negro'. Nesta temporada escreveu o seu 'Diário do Congo', que mais tarde se tornaria o rascunho de seu famoso 'Heart of Darkness'(Coração das Trevas).

As duras condições de vida no Estado Livre do Congo agravaram a sua já frágil saúde (sofria de gota e tinha períodos de depressão intensos). Foi enviado de volta a Inglaterra onde foi internado em um hospital.

Este acontecimento apressaria a sua aposentadoria da marinha. Vivendo em Kent (Inglaterra) aos 36 anos, Conrad trocou definitivamente o balanço do mar pela carreira de escritor. Seu primeiro romance 'Almayer's Folly'(A Loucura do Almayer - 1895), como não poderia deixar de ser, tinha como enredo os colonizadores europeus fracassados que conhecera nas ilhas do pacífico. Conrad era capaz de escrever fluentemente nos três idiomas. Neste seu início, muitas das suas histórias eram passadas a bordo de navios. 'Nostromo'(1904) é um estudo sobre a revolução na América do Sul, enquanto 'Secret Agent'(1907) e 'Under western eyes' (Sob os Olhos Ocidentais - 1911) tratam de assuntos como terrorismo e espionagem.

Agora casado e pai de dois meninos, passou a ser respeitado como um escritor, publicando um romance por ano.Seu estilo é apontado por muitos criticos, como um elo genuíno entre a literatura realista tradicional (de Charles Dickens) e a escola modernista emergente. Uma marca de suas preocupações como escritor é luta intemporal, do homem frente a seus conflitos internos, como em 'Heart of Darkness', a história da viagem de Marlow ao Congo também expõe a exploração e a barbárie entre as sociedades europeias e africanas durante o século 19.

Aos 63 anos, Conrad declinou do título de Cavaleiro do Império, dizendo-se não merecedor de tamanha honra.

Apesar de sofrer com as consequências de doenças contraidas na África, Joseph Conrad produziu em quantidade e qualidade até sua morte, vitimado por um ataque do coração fulminante.

Controverso em sua época, sua obra inspirou cineastas e autores como F. Scott Fitzgerald, Gabriel García Márquez, de DH Lawrence, Joseph Heller, Albert Camus, Ernest Hemingway, Arthur Koestler, T.S. Eliot, Marcel Proust, André Malraux, Louis-Ferdiand Céline, Jean-Paul Sartre e Virginia Woolf.

A influência de 'Heart Of Darkness' teve na literatura é bem conhecida mas poucos sabem que Conrad também escreveu Ficção Científica. Intitulada 'The Inheritors' (Os Herdeiros - 1901), e escrito em colaboração com o quase tão famoso quanto Ford Madox Ford, trata-se de um grupo de pessoas da "quarta dimensão" que busca influenciar a ordem na Terra para criar a sua própria hegemonia de moral duvidosa.

Com este livro, Conrad pretendia lançar-se oficialmente como escritor de outros gêneros além daqueles em que notavelmente trabalhava (e ganhar algum dinheiro nisso), mas apesar de se tratar de um livro fascinante, teve uma publicação difícil e complicada pela partilha entre os editores e mesmo na época, quase não vendeu.

Joseph Conrad ( Coração das Trevas, One day more, Lord Jim. Nostromo, El Agente secreto, The arrow of gold, The mirror of the sea, A Tale in two parts, A Tale of the Seaboard, The Rescue, A Set of six, Laguna, Amy Foster, Cuentos del inquietud, Duelo, El corazon de las tieneblas, Gaspar Ruiz, Linea de Sombra, Relatos de los mares del sur, Situation Limite, Tifon, Typhon, Victoria, Notes on life and letters, Inheritors, El Negro del Narciso, Heart of Darkness, Juventude, The Secret Agent, Under Western Eyes ) [ Download ]

sábado, 22 de janeiro de 2011

Solaris - Stanislaw Lem (parte 21)



 Descemos a rampa que levava à biblioteca. Havia três portas que davam para o pequeno átrio de entrada e ao longo das paredes viam-se globos de cristal com flores. Abri a porta do meio, que era almofadada de couro sintético de ambos os lados. Quando entrava na biblioteca, sempre evitava tocar nesse material de estofo. Fomos recebidos por agradável lufada de ar fresco.

Apesar do sol estilizado pintado no teto, o grande salão circular continuava fresco.
Passando um dedo preguiçoso pelas lombadas dos livros, escolhi, entre os clássicos solaristas, o primeiro volume de Giese, como que para refrescar a lembrança do retrato da capa, quando deparei com um livro em que antes não reparara, um volume de encadernação já arrebentada. Era o Compendium de Gravinsky, usado principalmente pelos estudantes para fazer colas.

Sentado numa poltrona com Rheya a meu lado, folheei a classificação, por ordem alfabética, de Gravinsky, das várias teorias solarísticas. O compilador, que nunca pusera pé em Solaris, passara a pente fino todas as monografias, relatórios de expedições, descrições provisórias e esboços fragmentários, incluindo até enxertos de comentários acidentais sobre Solaris em obras planetológicas a respeito de outros mundos. Fizera um inventário de formulações simplistas, que roubavam grosseiramente a sutileza das ideias que resumia.

Destinado originalmente a ser um relatório global, o livro de Gravinsky era hoje em dia pouco mais que uma curiosidade. Tinha sido publicado há apenas vinte anos, mas, desde essa data, tinha-se acumulado num único volume.
Percorri o índice, praticamente uma lista obituária, pois poucos dos autores citados eram ainda vivos e, entre os sobreviventes, nenhum tinha já parte ativa em estudos solarísticos. Ao ler todos aqueles nomes, e fazendo a soma de todo o esforço intelectual que representavam em todos os campos de pesquisa, tinha-se a tentação de pensar que certamente uma das teorias citadas devia ser correta e que cada uma das milhares de hipóteses coligidas devia conter um grão de verdade, não podia estar totalmente desligada da realidade.

Na introdução, Gravinsky dividiu em períodos os primeiros sessenta anos de estudos solarísticos. Durante o período inicial, que começou com a nave de reconhecimento que estudou o planeta a partir de uma posição em órbita, ninguém apresentou teorias, no sentido restrito da palavra. O “senso comum” sugeria que o Oceano era um
aglomerado químico sem vida, uma massa gelatinosa que, através da sua atividade “quase vulcânica”, produzia criações maravilhosas e estabilizava a sua excêntrica órbita por meio de um processo mecânico de geração própria, tal como um pêndulo que, depois de posto em movimento, se mantém dentro de um âmbito fixo.
Para ser mais exato, Magenon surgira com a ideia três anos depois da primeira expedição, mas segundo o Compendium, o período de hipóteses biológicas só começava nove anos depois, quando as ideias de Magenon tinham já adquirido numerosos seguidores. Os anos seguintes pululavam de relatórios teóricos sobre o Oceano vivo, extremamente complexos e todos justificados com análises biomatemáticas.
Durante o terceiro período, a opinião científica, até aí praticamente unânime, tornou-se dividida.

O que se seguiu foram guerras entre inúmeras novas escolas de pensamento.
Foi a era de Panmaller, Strobel, Freyus, Le Greuille e Osipowicz: todo o legado de Giese foi submetido a um exame impiedoso. Apareceram os primeiros atlas e inventários, e novas técnicas de controle à distância, permitiram a criação de instrumentos que transmitiam estereofotografias do interior das assimetríades, outrora consideradas impossíveis de explorar.

No calor da controvérsia, as hipóteses “secundárias” eram desdenhosamente postas de lado: mesmo que o tão ansiado contato com o “monstro racional” se não materializasse, defendia-se que valia a pena investigar as cidades de cartilagem dos mimóides e as montanhas em balão que se erguiam acima do Oceano, pois ganharíamos valiosas informações químicas e fisioquímicas e alargaríamos a nossa compreensão da estrutura de moléculas gigantes.

Ninguém se deu ao trabalho nem mesmo de refutar as ideias daqueles correligionários desta linha de pensamento tão derrotista. Os cientistas dedicaram-se a elaborar listas das metamorfoses típicas, obras essas que ainda hoje são usadas, e Frank desenvolveu a sua teoria bioplasmática dos mimóides, a qual, desde então, se provou não estar certa, mas que continua a ser um soberbo exemplo de audácia intelectual e construção lógica.

Os trinta e tal anos dos primeiros três “períodos de Gravinsky”, com a sua certeza plena e romantismo irresistivelmente otimista, constituem a infância dos estudos solarísticos. Depois, um ceticismo crescente anunciava já a idade da maturidade.
Para os fins do primeiro quarto de século, as primeiras teorias colóidomecânicas tinham encontrado um descendente distante no conceito de um “oceano apsíquico”, uma ortodoxia nova e quase unânime que reduzia a pó a opinião de toda a geração de cientistas que acreditavam serem as suas observações a evidência de uma vontade consciente, processos teológicos e uma atividade motivada por uma necessidade íntima do Oceano. Este ponto de vista era agora determinantemente repudiado, e abriu-se caminho para a equipe encabeçada por Holden, Ionides e Stoliva, cujas especulações lúcidas e analiticamente baseadas se concentravam num exame escrupuloso de um crescente corpo de dados.

Foi a época dos arquivistas. As bibliotecas lotadas com documentos; expedições, algumas com mais de mil pessoas, eram equipadas com a mais requintada aparelhagem que a Terra podia fornecer — gravadores robôs, sonar e radar, toda a gama de espectrômetros, contadores de radiação, etc.
Acumulava-se material a um ritmo acelerado, mas o ímpeto essencial da pesquisa esmoreceu, e no decurso deste período, ainda otimista apesar de tudo, começou o declínio.

A primeira fase da solarística fora modelada pela personalidade de homens como Giese, Strobel e Sevada, que sempre mantinham o seu espírito aventureiro que defendessem quer atacassem uma posição teórica. Sevada, o último dos grandes solaristas, desapareceu próximo do pólo sul do planeta, e a sua morte nunca foi explicada de modo satisfatório. Caiu, vítima de um erro que nem um novato teria feito. Voando a baixa altitude, à vista de inúmeros observadores, a sua nave mergulhou no interior de um agilus que nem estava diretamente no seu caminho. Houve especulações a respeito da possibilidade de um súbito ataque de coração ou um desmaio ou uma falha mecânica, mas, pessoalmente, sempre pensei que este tivesse na realidade sido o primeiro suicídio na história de Solaris, provocado pela primeira crise abrupta de desespero.
Houve outras “crises”, não mencionadas em Gravinsky, de cujos pormenores me recordava enquanto olhava para as páginas impressas em letra miúda e já amareladas.
Em todo o caso, as posteriores expressões de desespero foram menos dramáticas, na medida em que as personalidades excepcionais foram rareando. O recrutamento de cientistas para qualquer campo particular de estudo numa época dada nunca foi estudado como um fenômeno de direito próprio. Todas as gerações produzem um número mais ou menos constante de homens brilhantes e decididos; a única diferença está na direção por eles escolhida.
A presença ou ausência de tais indivíduos num particular ramo de estudo é provavelmente explicável em termos das novas perspectivas que se oferecem. Podem variar as opiniões a respeito dos investigadores da fase clássica dos estudos solarísticos, mas ninguém poderá negar a sua estrutura, até o seu gênio. Durante várias décadas, o misterioso Oceano atraíra os melhores matemáticos, físicos e os principais especialistas em biofísica, teoria da informação e eletrofisiologia.
Depois, sem aviso prévio, o exército de pesquisadores encontrou-se sem chefe. Ficou apenas uma amálgama sem face de industriosos colecionadores e compiladores. Ainda se planeava uma ocasional experiência original, mas a sucessão de vastas expedições montadas à escala mundial tinha acabado e o mundo científico não retumbava já com teorias ambiciosas e controversas.

A maquinaria da solarística caiu em desuso e enferrujou, com hipóteses que só nos pormenores se diferenciavam e que eram unânimes na sua concentração sobre o tema da degeneração, regressão e introversão do Oceano. Uma vez ou outra talvez emergisse um conceito mais audacioso e interessante, mas sempre se resumia a uma espécie de acusação contra o Oceano, considerado como o produto último de um desenvolvimento que há muito tempo, milhares de anos atrás, passara por uma fase de organização superior e agora nada mais tinha que uma unidade física. Baseavam-se no argumento de que as suas muitas criações inúteis e absurdas eram as cobertas mortuárias — embora impressionantes —, que se arrastavam há séculos. Assim, por exemplo, os extensores e mimóides eram considerados tumores, e todos os processos à superfície do gigantesco corpo fluido, como expressões de caos e anarquia. Esta maneira de ver o problema tornou-se uma obsessão. Durante sete ou oito anos, a legislatura acadêmica produziu uma imensidão de afirmações, as quais, se bem que expressas em termos polidos e cautelosos, pouco mais eram que insultos, a vingança de uma turma de admiradores sem líder, quando se aperceberam de que o objeto das suas mais prementes atenções continuava indiferente, ao ponto de obstinadamente ignorar todos os seus avanços.

Um grupo de psicólogos europeus lideraram a opinião pública por um período de vários anos. Os seus relatórios não estavam diretamente ligados a estudos solarísticos e não foram incluídos na coleção da biblioteca, mas eu os tinha lido e tinha ainda uma lembrança clara a respeito das suas descobertas. Os investigadores tinham demonstrado, de modo impressionante, que as alterações na opinião leiga estavam intimamente relacionadas com as flutuações de opinião que se registravam nos círculos científicos.
Essa alteração notava-se até no comitê coordenador do Instituto de Planetologia, que controla os subsídios financeiros para a pesquisa, traduzindo-se numa progressiva redução dos orçamentos dos institutos e organizações dedicados aos estudos solarísticos e também em restrições na dimensão das equipas de exploração.

Alguns cientistas adotaram uma posição no extremo oposto e reclamavam no sentido de se tomarem medidas mais vigorosas. O diretor administrativo do Instituto Cosmológico Universal aventurou-se a afirmar que o Oceano vivo não desprezava os homens nem um pouco, mas que não reparava neles, tal como um elefante também não vê nem sente as formigas que correm nas suas costas. Para atrair e manter a atenção do Oceano, seria necessário inventar estímulos mais poderosos e máquinas gigantescas desenhadas à medida de todo o planeta.
Comentaristas maliciosos não perderam tempo para fazer notar que o diretor bem se podia permitir ser generoso, pois era o Instituto de Planetologia quem teria de pagar a conta.

Mas as hipóteses continuavam a chover — hipóteses velhas e “ressuscitadas”, superficialmente modificadas, simplificadas ou complicadas ao extremo—, e a solarística, uma disciplina relativamente bem definida apesar do seu âmbito, tornou-se um labirinto cada vez mais confuso, onde cada saída aparente levava a um beco sem saída. Neste desalento, o Oceano de Solaris ia submergindo sob um oceano de papel impresso.

Dois anos antes de eu começar o meu estágio no laboratório de Gibarian, estágio esse que acabou quando obtive o diploma do Instituto, a Fundação Mett-Irving ofereceu um prêmio enorme a qualquer pessoa que conseguisse descobrir um método viável de medir a energia do Oceano. A ideia não era nova. No passado, já várias camadas de geléia  plasmática tinham sido trazidas para a Terra e vários métodos de preservação tinham sido pacientemente experimentados: temperaturas altas e baixas, microatmosferas e microclimas artificiais, radiação prolongada. Tinha-se percorrido toda a gama de processos físicos e químicos, apenas para obter sempre o mesmo resultado, um gradual processo de decomposição, que passava por fases bem definidas, começando com um enfraquecimento, maceração, depois uma liquefação de primeiro grau (primária) e depois final (secundária). As amostras tiradas das excrescências e criações plasmáticas sofriam o mesmo destino, com algumas variações nas fases de decomposição. O produto final era sempre uma leve cinza metálica.

Logo que os cientistas reconheceram que era impossível manter vivo, ou até em estado “vegetativo”, qualquer fragmento do Oceano, grande ou pequeno, dissociado do organismo no seu todo, desenvolveu-se uma crescente tendência (sob a influência da escola de Meunier-Proroch) para isolar este problema, como sendo a chave do mistério. Foi considerado como um caso de interpretação — resolvam-no, e todo o resto se lhe seguirá.

A procura desta chave, a pedra filosofal dos estudos solarísticos, absorveu o tempo e a energia de toda a espécie de pessoas com pouco ou nenhum treino científico. Durante a quarta década da solarística, a loucura espalhou-se como uma epidemia e proporcionou terra fértil aos psicólogos. Um número desconhecido de loucos e fanáticos ignorantes labutavam nas suas desajeitadas pesquisas com um entusiasmo maior do que aquele que animou os velhos profetas que pregavam o movimento perpétuo ou a transformação do circulo em quadrado. A loucura gastou-se em poucos anos, e na altura em que fiquei pronto para partir para Solaris, desaparecera dos cabeçalhos dos jornais e das conversas e o próprio Oceano estava praticamente esquecido pelo público.

Tive o cuidado de colocar de novo o Compendium na correta posição alfabética e, ao fazê-lo, desloquei um delgado panfleto da autoria de Grastrom, um dos mais excêntricos autores na literatura solarística. Eu lera já o panfleto, que fora ditado pela necessidade de compreender o que há para além do alcance da humanidade e que ataque em particular o indivíduo, o homem, a espécie humana.
Era o trabalho abstrato e ácido de um autodidata que anteriormente tinha feito uma série de contribuições pouco comuns a vários ramos marginais e diversificados da física quântica. Neste livrinho de quinze páginas (a sua obra magna), Grastrom propôs-se demonstrar que as mais abstratas realizações da ciência, as mais avançadas teorias e vitórias das matemáticas, nada mais representavam que um tropeçante avanço de um ou dois passos na rude, pré-histórica e antropomórfica compreensão do universo que nos rodeia. Apontou correspondências com o corpo humano — as projeções dos nossos sentidos, a estrutura da nossa organização física e as limitações fisiológicas do homem— nas equações da teoria da relatividade, no teorema dos campos magnéticos e nas várias teorias dos campos unificados. A conclusão de Grastrom foi que nunca houvera, nem nunca poderia haver, qualquer hipótese de “contato” entre a humanidade e qualquer civilização não humana.

Este ataque contra a humanidade não fazia menção específica ao Oceano vivo, mas a sua presença constante e o seu silêncio cheio de desprezo e vitorioso podia sentir- -se por entre as linhas, pelo menos tal fora a minha impressão pessoal. Foi Gibarian quem para ele me chamou a atenção e deve ter sido Gibarian quem o acrescentou à coleção da Estação. Por sua própria conta, visto o panfleto de Grastrom ser considerado mais uma curiosidade que verdadeira contribuição para a literatura solarística.

Com estranho sentimento, quase de respeito, pus cuidadosamente o delgado panfleto na prateleira apinhada e, com as pontas dos dedos, acariciei a encadernação verde e bronze do Anal de Solaris. No espaço de poucos dias, tínhamos inegavelmente ganho informações positivas acerca de várias das questões básicas que tinham feito correr rios de tinta e dado origem a inúmeras controvérsias, tendo porém continuado estéreis por falta de argumentos. Hoje, o mistério tinha-nos praticamente sitiados, e já tínhamos poderosos argumentos.

O Oceano seria uma criatura viva? Dificilmente alguém poderia continuar a duvidar, salvo se fosse amante do paradoxo ou da obstinação. Já não era mais possível negar as funções “psíquicas” do Oceano, fosse qual fosse o sentido em que se definisse o termo. Era certamente mais do que óbvio que o Oceano tinha “reparado” em nós. Este fato bastava para invalidar toda a classe das teorias solarísticas que afirmavam que o Oceano era um mundo “introvertido”, uma “entidade eremita”, que, devido a um processo de degeneração, estava privada dos órgãos pensantes que outrora possuíra, inconsciente da existência de objetos e acontecimentos externos, prisioneiro de um vórtice gigantesco de correntes mentais criadas e confinadas nas profundezas desse monstro que girava entre dois sóis.

Mas não só isso, tínhamos também descoberto que o Oceano era capaz de reproduzir aquilo que nós próprios nunca tínhamos conseguido criar artificialmente — um corpo humano perfeito, modificado na sua estrutura subatômica para fins que não conseguíamos adivinhar.

O Oceano vivia, pensava e agia. O “problema Solaris” não tinha sido aniquilado pelo seu próprio absurdo. Estávamos verdadeiramente a lidar com a criatura viva. A faculdade “perdida” não estava nada perdida. Tudo isso parecia agora provado sem sombra de dúvida. Quer gostem quer não, os homens terão de dar atenção a este vizinho, á distância de vários anos luz, mas um vizinho situado dentro da nossa esfera de expansão e mais inquietante que todo o resto do universo.

Talvez tivéssemos chegado a um ponto crítico. Qual iria ser a decisão a alto nível? Receberíamos a ordem de desistir e regressar à Terra imediatamente ou num futuro próximo? Seria até possível que nos mandassem liquidar a Estação? Pelo menos não era de todo improvável. Eu não apoiava a solução pela retirada.

Era bem possível que a existência do colosso pensante continuasse a perseguir a mente dos homens. Mesmo depois de o homem ter explorado todos os recantos do cosmo e estabelecido relações com outras civilizações fundadas por criaturas semelhantes a nós próprios, Solaris continuaria a ser um eterno desafio.




Solaris - Stanislaw Lem (parte 21) [ Download ]

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

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quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

The H. G. Wells Reader - A Complete Anthology from Science Fiction to Social Satire




For the first half of the twentieth century H. G. Wells was a tremendously popular fiction writer, an influential thinker, and a widely heeded voice of insight and rationality.

George Orwell’s remark that Wells was too sane to be of much help in the dark years of the late 1930s follows his acknowledgment that for young people at the time Wells had been the most important writer in the first twenty years of the century. The comment also implies that it is in relation to Wells that one can calibrate the crises in modern history. Wells’s opinions on biology, on the novel, on politics, on sexuality startled and made people rethink their ideas.

As the works included here should amply demonstrate, Wells’s fiction renders with complexity, intelligence, and flair crucial modem situations. At the most obvious, he engages increasingly serious issues of technology and the possibilities of the future. He is an important Darwinian. He may be the greatest English utopianist.
He has few rivals as a comic writer. Finally-though this is a quality that is seldom acknowledged as a virtue-he brings to the level of art the experience and understanding of the lower classes. Only Dickens is his match in this respect. Put these virtues together and you have an art full of the richness we associate with the great realist novels, enlivened by an ironic intelligence of the first order, and engaged on important subjects even when most fanciful.

Introduction
Chronology
“The Stolen Bacillus” (1894)
“The Triumphs of a Taxidermist” (1894)
”Wpornis Island” (1894)
from The Time Machine (from chapters 4,14,15 and the epilogue) (1895)
from The Wheels of Chance (chapters 28-29) (1895)
from The Island ofDoctor Moreau (from chapters 12 and 16) (1896)
from The Invisible Man (chapters 5-7) (1897)
from The War ofthe Worlds (book 1, chapters 1,2,5, 13, and 17; book 2,chapter 8) (1898)
from The First Men in the Moon (chapter 6 to the end) (1901)
from The Food ofthe Gods (from chapters 2 and 3) (1904)
”The Country of the Blind” (1904)
from In the Days of the Comet (book 1; book 2, from chapters 1 and 3; book 3, from chapters 1 and 3, and the epilogue) (1906)
from Tono-Bungay (book 2, chapter 2; book 4, chapter 3) (1909)
The History of Mr. Polly (1910)
A Note on Sources
Bib1iography


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quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Lost in Space - Geographies of Science Fiction



"The two things for which science fiction is best known are these: the creation of new environments, and the evocation of a sense of wonder. New places are wrought and telling futures conjured, and within both we hold up a mirror to ourselves. Whether in the guise of traditional space opera or slick 1990s cybernoir,
the lyricism of Ray Bradbury's Mars stories, the gnostic unrealities of Philip K. Dick or the head-swirling complexity of Greg Egan's new conceptual worlds, much of the genre's sense of possibility comes from this revitalized consideration of where we live now, and what we think we know about it.'
Foreword
Michael Marshall Smith

1 Lost in space
James Kneale and Rob Kitchin

2 The way it wasn't: alternative histories, contingent geographies
Barney Warf

3 Geography's conquest of history in The Diamond Age
Michael Longan and Tim Oakes

4 Space, technology and Neal Stephensbn's science fiction
Michelle Kendrick

5 Geographies of power and social relations in Marge Piercy's He,She and It
Barbara J. Morehouse

6 The subjectivity of the near future: geographical imaginings in the work of J. G. Ballard
Jonathan S. Taylor

7 Tuning the self: city space and SF horror movies
Stuart C. Aitken

8 Science fiction and cinema: the hysterical materialism of pataphysical space
Paul Kingsbury

9 An invention without a future, a solution without a problem: motor pirates, time machines and drunkenness on the screen
Marcus A. Doel and David B. Clarke

10 What we can say about nature: familiar geographies, science fiction and popular physics
Sheila Hones

11 Murray Bookchin on Mars! The production of nature in Kim Stanley Robinson's Mars trilogy
Shaun Huston

12 In the belly of the monster: Frankenstein, food, factishes and fiction
Nick Bingham

References
Index

Lost in Space - Geographies of Science Fiction [ Download ]

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

E-books e novos formatos



Com a proliferação dos diversos leitores de e-books, e o número cada vez maior de autores e editoras partindo para a digitalização, vale a pena dar uma passada pelos principais formatos que estão surgindo e que você encontrará eventualmente nos próximos anos.



.ePub
'O MP3 dos livros' vem aos poucos tomando o lugar do nosso velho PDF (que é praticamente uma imagem e não o texto em si, e portanto impossível de alterar a formatação nem redimensionar). O ePub é um padrão internacional para e-books, livre e aberto, organizado por um consórcio de empresas chamado IDPF (International Digital Publishing Forum).  Um livro no formato ePub permite uma leitura muito boa em qualquer tipo de tela, independente da plataforma, seja um e-reader, seu computador, iphone ou um celular. Pode-se aumentar ou reduzir o tamanho da fonte, alargar ou diminuir o tamanho da página.
Recomendamos o Adobe Digital Editions (um gerenciador de epubs) ou o FBREADER.
Para os portateis, o gratuito Ereader.
Outra possibilidade, sem precisar instalar nada é subir o epub para o site Bookworm e asim poder ler em qualquer plataforma que acesse internet. No mesmo site é possível validar seu arquivo e-pub.


.PRC (mobipocket)
Formato destinado ao PDA Palm OS. 
Para o windows utilize o FBREADER 
Se você quiser começar a produzir seus próprios e-books  na extensão .prc, poderá fazer o download gratuito do Mobipocket Publisher (Windows 95/98/NT/2000).
No site da Mobipocket.com, você encontra gratuitamente o Mobipocket Reader para seu PDA, seja ele PalmOS (versão 3.0 e acima), Windows CE (versão 2.0 e acima, inclusive PocketPCs) ou Epoc32 (Psion Series 5), seja seu computador um PC, MacOs, Linux ou Unix... E também o Mobipocket Reader para o PC.


.LIT
Livros eletrônicos no formato LIT são compatíveis com OeB [desenvolvido pela Open Book Forum ].
Foi criado como uma tentativa de resposta da Microsoft ao PDF (Adobe).
Para ler, basta ter instalado o MS Reader para todas as plataformas


.LRF
É o formato criado pela Sony para seus leitores de e-book. Existem poucos utilitários para a leitura deste formato, mas é possível convertê-lo no formato de sua preferencia com o ABC Amber Sony Converter.


.TK3
TK3 Multimedia eBook. Formato de livro eletrônico que suporta texto, imagens, sons e vídeo, pode ser usado para criar documentos interativos e projetos educacionais, tais como guias de referência, catálogos e apresentações.Arquivos em TK3 podem ser criados e editados pelo software TK3 Author e lidos em qualquer plataforma pelo software TK3 Reader.


.RB
Rocket Books. Você deve instalar em seu computador, o simulador eRocket. O eRocket é um programa que simula o aparelho dedicado a leitura Rocket eBook [reading device desenvolvido pela empresa norte-americana NuvoMedia, Inc.].

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

domingo, 16 de janeiro de 2011

Os pássaros - Daphne Du Maurier






"Em 03 de dezembro, o vento mudou durante a noite, e chegou o inverno.
Até então, o outono tinha sido suave e pacífico. As folhas, vermelho dourado, permaneciam nas árvores e as sebes ainda estavam verdes. A terra era fértil em locais onde o arado tinha removido.
Nat Hocken, devido a uma deficiência sofrida durante a guerra, gozava de uma pensão e não precisava trabalhar todos os dias na fazenda. Trabalhava durante três dias por semana e sempre pedia para executar as tarefas mais simples: levantar cercas, reparos...
Embora casado e com filhos, Nat tinha uma tendência a solidão, preferindo trabalhar só..."

Desta forma começa o romance 'The Birds', de Daphne du Maurier. Somos apresentados a Nat Hocken, que enquanto observa o céu, vê que os pássaros parecem mais agitados que o normal.
Sr. Trigg, o dono da fazenda onde trabalha Nat, atribui o comportamento incomum das aves a um inverno rigoroso por vir.

Naquela noite, enquanto toda a sua família dorme, Nat ouve uma batida na janela de seu quarto. Quando ele a abre, sente algo ferir sua mão e vê um pássaro voar para longe e percebe que sua mão está sangrando.

Logo depois retornam as batida, com mais força. Quando abre a janela, uma duzia de aves vem contra seu rosto. Após uma luta intensa, ele é capaz de vencê-los e eles voam para longe. Em seguida ouve sua filha gritar no quarto ao lado. Um bando de pássaros está atacando as crianças. Mais uma vez, ele é capaz de afugentá-los, embora muitas das aves estejam mortas.

Após o ataque, Nat tenta acalmar e confortar sua família, explicando que o inverno rigoroso teria perturbado os pássaros e que entraram na casa porque estavam assustados e perdidos e queriam abrigo.

Na manhã seguinte, Nat, com sua filha Jill, vai até a fazenda de Trigg para se certificar que tudo está bem.
A sra. Trigg, esposa do fazendeiro, pensa que Nat exagera na sua história sobre o ataque, já que ela e o marido nunca tiveram nenhum problema.

Nat volta para casa e está retirando as aves mortas do quarto das crianças quando olha para o mar e vê milhares de gaivotas planando sobre as ondas.

Sua esposa conta que ouviu vários relatos no rádio sobre ataques de aves em todo o país, incluindo Londres.
Ele fala sobre as milhares de gaivotas no mar, esperando para começar um ataque.
A fim de protegê-los, Nat prende placas nas janelas e bloqueando a chaminé. Os pássaros atacam e eles se escondem na cozinha, ouvindo sons de pássaros raspando e se esmagando contra as janelas, tentando entrar de ualquer maneira. Através do rádio ficam sabendo que fora declarada emergência nacional devido aos ataques. Em poucas horas o ataque desaparece, junto com a mará vazante.

Nat observa que as aves partiram as barricadas de madeira e assim precisa reforçá-las com o mobiliário.
Durante o próximo ataque, que começa algumas horas depois, as aves invadem a casa pelo quarto das crianças, e Nat percebe que a rádio de emergência foi tirada do ar.

Quando o ataque para, a família vai até a fazenda de Trigg para reunir material, continuamente observados pelas gaivotas pousadas, que estão esperando para começar o próximo ataque. Eles encontram os cadáveres do Sr. e Sra.Trigg. Nat percebe que nenhuma fumaça está vindo das chaminés das outras casas na área e lamenta que ele não avisou as famílias vizinhas.

Após a coleta de comida e combustível da fazenda, a família de volta para casa e logo o ataque recomeça.
A história termina com Nat ouvindo o som de madeira sendo partida.



Du Maurier utiliza-se do cenário para reforçar o sentido de ameaça.
Suas descrições do tempo e dos elementos sugerem que estas forças estão trabalhando em conjunto com os pássaros. Nat observa a mudança abrupta no tempo, que ele considera anti-natural e estranha a noite antes do primeiro ataque. Ele diz que o vento frio parece querer cortar-lhe até o osso, muito parecido com o que as aves planejam fazer...
O mar e o vento parecem ser aliados das aves, quase como se fossem participantes dos ataques. Nat nota que havia alguma lei que as aves obedecem e tinha a ver com o vento leste e a maré. As gaivotas passeiam antes de entrarem por terra, e seus ataques são cronometrados pelas marés. Após as aves mergulharem como bombas contra a casa de Hocken, o vento varre as suas carcaças.

Após ter sido publicada em 1952 como parte da coletãnea de contos 'The Apple Tree', 'The Birds' tornou-se um dos trabalhos mais conhecidos e elogiados de Daphne du Maurier.


 Os pássaros - Daphne Du Maurier [ Download ]






Alfred Hitchcock dirigiu e produziu 'The Birds' para a Universal Pictures em 1963, tendo Evan Hunter escrito o roteiro adaptado e estrelado por Tippi Hedren, Rod Taylor e Jessica Tandy.

Alfred Hitchcock declarou ter sido motivado a abraçar o projeto por conta de dois incidentes separados, ocorridos na California, quando grandes grupos de pássaros se atiraram contra casas e carros, quebrando janelas e assustando os moradores.

Contudo o diretor não contava com o sucesso do filme nos EUA, por achar que os americanos, sem ter conhecido os horrores dos bombardeiros aéreos sofridos pelos ingleses, não iriam se apavorar com ataques vindos dos céus.



Evan Hunter - The Birds (Screenplay Based On The Novel By Daphne du Maurier) [ Download ]

Daphne du Maurier


 
Daphne du Maurier (13 de maio de 1907 -  19 abril de 1989) nasceu em Londres (Inglaterra) em uma família rica e de parentes famosos no meio artistico.

Como uma criança inteligente e muito ativa, Daphne gostava de ler e de inventar histórias de fantasia, o que a ajudou a desenvolver seus talento literário. Durante a maior parte de sua vida viveu na Cornualha, primeiro perto de Plymouth e mais tarde em Menabilly. A paisagem da gótica Cornualha, cenário para as lendas do Rei Arthur, Tristan e Isolda, e muitos contos de piratas, inspirou o seu trabalho e muitas vezes tornou-se a paisagem de sua própria ficção.

Um de seus biógrafos, Wayne Templeton, observou que durante a sua adolescência, du Maurier exibia um intenso desejo de ser um menino. Nos primeiros anos ela costumava fingir ser um rapaz chamado Eric Avon. Devido ao estigma da homossexualidade, du Maurier vivia em um círculo restrito e mínimo, que a afastava do convívio social. O isolamento e as tendências masculinas teriam influenciado seus primeiros romances e contos, muitas vezes dominados por um narrador masculino.

Sua carreira literária iniciou em 1925, quando começou a escrever versos sombrios e histórias claramente influenciados por Katherine Mansfield, Guy de Maupassant, e Somerset Maugham. Suas primeiras publicações foram contos curtos, que apareceram por volta de 1929 no The Bystander, um jornal editado por seu tio, William Beaumont.

O primeiro romance, aos 24 anos de idade, chamou-se 'The Loving Spirit', um romance histórico que se tornou um best-seller e também ganhou elogios da crítica. O livro inspirou Frederick ''Boy' 'Browning, um major do regimento Grenadier Guards, a conhecê-la e, em breve, estariam casados (durante sua vida, du Maurier nunca admitiu sua bisexualidade).

Sua reputação literária como uma nova e talentosa escritora seria solidificada com a publicação do seu quarto romance, 'Jamaica Inn' (1936). Os críticos na época, observaram semelhanças de estilo com os romances góticos das irmãs Brontë, 'Jane Eyre' e 'O Morro dos Ventos Uivantes'.

'Rebecca' de 1938 talvez tenha marcado o auge de sua carreira e fama, vendendo números expressivos para a época (mais de um milhão de exemplares em menos de um ano). O romance narra a vida e uma mulher jovem e frágil que enfrena os fantasmas do passado numa mansão isolada na costa da Cornualha.

A partir dos anos 50, du Maurier deixou de lado o tema de mistério e romances sentimentais, passando a dedicar-se a outros gêneros, como a ficção científica de 'The Birds' (Os Pássaros), que questiona o domínio do homem sobre a natureza e 'The House on the Strand' (O Espião do Passado), abordando a viagem no tempo.

Suas coletâneas de contos também eram bem sucedidas, especialmene 'The Apple Tree: A Short Novel and Some Stories' (1952), publicada nos EUA como 'Kiss Me Again, Stranger' (1953) assim como 'The Birds and Other Stories' (1963); e 'Not After Midnight and Other Stories' (1971), republicada como 'Don’t Look Now' (1971).

Suas histórias acabaram chegando a um público bem maior, através de adaptações de sucesso no cinema como 'Rebecca', 'Jamaica Inn', 'The Birds' e ‘Don’t Look Now.’

Du Maurier recebeu o prêmio National Book Award de 1938 por 'Rebecca' e a honraria de Dame Commander da Ordem do Império Britânico em 1969.

Sobreviveu a sua morte, o rumor de que 'Rebecca' seria um plágio de um romance brasileiro pouco conhecido chamado 'A sucessora', publicado em 1934 e escrito por Carolina Nabuco, que somente ganharia destaque ao ser levado para a televisão na forma de uma telenovela em 1978. Apesar da suspeita de plágio nunca ser confirmada, não foi a única vez que este tipo de acusação caiu sobre du Maurier. Em 1947, seu romance 'Blind Windows' sofreria da mesma suspeita (esta comprovadamente infundada).


Site oficial


Daphne du Maurier ( Rebecca (em portugues), Los pajaros y otros relatos, My cousin Rachael, Frenchman's Creek, Hungry Hill, Jamaica Inn, Los lentes azules y otros relatos, Not after midnight, The Apple Tree, The House on the strand ) [ Download ]

sábado, 15 de janeiro de 2011

Solaris - Stanislaw Lem (parte 20)



 OS PENSADORES

— Kris, é na experiência que anda pensando?
O som da sua voz fez-me dar um salto de surpresa. Há horas que estava deitado às escuras, de olhos abertos e sem poder dormir. Como não ouvia a respiração de Rheya, tinha esquecido dela e deixara-me arrastar numa vaga de especulações ao acaso.
O sonho acordado tinha-me feito esquecer a medida e o sentido da realidade.
— Como sabia que eu não estava dormindo?
— Quando você dorme a sua respiração é diferente — disse docemente, como se a desculpar-se da pergunta. — Não queria intrometer-me... Se não puder, não responda.
— Por que não iria te contar? De qualquer modo, você acertou; estou pensando na experiência.
— Que esperam conseguir?
— Eles próprios não sabem. Algo. Seja lá o que for. Não é “Operação Onda Cerebral”, é “Operação Desespero”. Na verdade, um de nós devia ter a coragem de desistir da experiência e tomar sobre si a responsabilidade da decisão, mas a maioria das pessoas pensa que essa espécie de coragem seria sinal de covardia e o primeiro passo de uma retirada. Pensam que isso significaria uma capitulação indigna da parte da humanidade, como se pudesse haver qualquer dignidade em nos debatermos e afogarmos no que não compreendemos, nem nunca viremos a compreender. — Parei, mas um novo ataque de fúria em breve se apoderou de mim. —Argumentos é que não lhes falta. Afirmam que, mesmo que não se consiga estabelecer contato, não teremos perdido o nosso tempo no que diz respeito ao estudo do plasma e que eventualmente acabaremos por descobrir o segredo dessa matéria. Sabem muito bem que estão enganando a si próprios. É como vagar por uma biblioteca onde todos os livros estão escritos numa língua que não se consegue decifrar. A única coisa que nos é familiar é a cor das encadernações!
— Não há outros planetas como este?
— É possível. Mas este é o único que atravessou no nosso caminho. De qualquer modo, está numa categoria extremamente rara, ao contrário do que acontece com a Terra. A Terra é do tipo comum, no universo é mato! E orgulhamo-nos dessa universalidade. Não há lugar onde não possamos ir; fiados nessa crença, nos lançamos, transbordando de confiança, à procura de outros mundos. E que íamos fazer com eles? Dominá-los, ou ser por eles dominados: era essa a única ideia que tínhamos nos nossos patéticos espíritos! Que desperdício inútil...
Saí da cama e rebusquei no armário dos remédios. Os meus dedos reconheceram o formato do grande frasco dos comprimidos para dormir, e, na escuridão, voltei-me para  Rheya:
— Vou dormir, querida.
Lá em cima no teto, o ventilador zunia. — Preciso dormir um pouco...


De manhã acordei sentindo-me calmo e refrescado.
A experiência parecia-me coisa sem importância e não podia perceber por que levava o encefalograma tão a sério. Nem estava muito preocupado por ter de levar Rheya para o laboratório.
Apesar de todos os seus esforços, ela não agüentava ficar mais de cinco minutos longe da vista e da possibilidade de me ouvir, por isso eu tinha abandonado a ideia de novos testes (ela estava até pronta para isso), convidei-a a vir comigo e aconselhei-a a trazer algo para ler.

Sentia-me particularmente curioso com respeito ao que iria encontrar no laboratório. Nada havia de estranho no aspecto da grande sala pintada de azul e branco, com exceção das prateleiras e armários destinados a conter instrumentos de vidro, que agora pareciam nus. O painel de vidro de uma porta estava rachado e em algumas outras tinha desaparecido por completo, sugerindo que houvera ali recentemente uma briga e que alguém fizera o melhor possível para apagar os sinais dessa briga.
Snow estava ocupado com o equipamento e comportou-se de modo muito educado, não mostrando qualquer surpresa perante a aparição de Rheya e cumprimentando-a com um rápido aceno de cabeça.

Eu estava deitado, e Snow passava-me uma solução salina nas têmporas e na testa, quando uma pequena porta se abriu e Sartorius emergiu de uma sala sem iluminação.  Vestia uma bata branca e um negro avental anti-radiações, que lhe descia até aos tornozelos, e o seu cumprimento foi autoritário e muito profissional.
Era como se fôssemos dois investigadores em qualquer grande instituto na Terra continuando um trabalho no ponto onde o tínhamos largado na véspera. Não usava dos óculos escuros, mas notei que tinha lentes de contato e calculei que fosse esta a explicação da sua falta de expressão.

Sartorius ficou olhando de braços cruzados, enquanto Snow colocava os elétrodos e me passava uma cinta em volta da cabeça. Olhou várias vezes em volta da sala, ignorando Rheya, que estava sentada num banco, com as costas apoiadas na parede, e que fingia ler.
Snow deu um passo para trás e eu movi a cabeça, que estava cheia de discos e de fios de metal, para vê-lo ligar o interruptor.
Nesse ponto, Sartorius levantou a mão e iniciou um floreado discurso:
— Dr. Kelvin, peço a sua atenção e concentração por um momento, por favor. Não pretendo ditar-lhe qualquer seqüência precisa de pensamentos, pois isso iria invalidar a experiência, mas insisto em que deixe de pensar em si próprio, em mim, no nosso colega Snow ou em qualquer outra pessoa. Faça um esforço para eliminar toda a intrusão de personalidades e concentre-se no assunto de que tratamos. Terra e Solaris; os cientistas, considerando como uma entidade única, embora as gerações se sucedam umas às outras, e o homem como indivíduo, tenha apenas um curto tempo de vida; as nossas aspirações e a nossa perseverança na tentativa de estabelecer contato intelectual; a longa marcha histórica da humanidade, a nossa certeza de que progrediremos nesse avanço e a nossa determinação em renunciar a todos os sentimentos pessoais com o fim de realizar a nossa missão; os sacrifícios que estamos dispostos a fazer e as dificuldades que estamos prontos a vencer... São estes os temas que devem ocupar a sua consciência. A associação de ideias não depende inteiramente de você e de sua própria vontade, mas o próprio fato da sua presença aqui é testemunho da autenticidade da progressão para a qual lhe chamei a atenção. Se não tiver a certeza de ter cumprido a sua tarefa, peço-lhe que confesse, e o nosso colega Snow fará outro registro. Temos muito tempo.

Um débil sorriso atravessou-lhe a face quando proferiu estas últimas palavras, mas a sua expressão continuou morosa. Tentei decifrar a pomposa fraseologia que tecera com a máxima das gravidades.
Snow quebrou o silêncio, que se prolongava:
— Pronto, Kris?
Apoiava-se com o cotovelo no painel de controle do aparelho do eletroencefalograma e tinha um ar completamente relaxado. O seu tom confiante deu-me a sensação de segurança, e fiquei-lhe grato por ter-me chamado pelo primeiro nome.
— Vamos a isso. — Fechei os olhos.

Depois de Snow ter fixado os elétrodos e se ter dirigido para os controles, tinha-se apoderado de mim um pânico louco e súbito: neste momento desapareceu de modo igualmente repentino. Pelas pálpebras semicerradas podia distinguir as luzes encarnadas que piscavam sobre o negro painel de controle. Já não sentia o contato úmido e desagradável da coroa de pegajosos elétrodos. A minha mente era uma arena sem cor e vazia, rodeada por uma multidão de espectadores invisíveis, amontoados em fileiras de assentos, atentos, silenciosos e traduzindo no seu silêncio um desprezo irônico por Sartorius e pela missão. Que poderia improvisar para estes espectadores?... Rheya... Introduzi o seu nome cautelosamente, pronto a retirá-lo de imediato, mas não surgiu nenhum protesto e continuei. Estava como que bêbedo de dor e ternura, pronto a sofrer pacientemente prolongados sacrifícios. Tinha o espírito cheio de Rheya, sem corpo ou face, mas viva dentro de mim, real e imperceptível.

De repente, como que impressa sobre essa presença sem esperança, vi nas sombras cinzentas a face erudita e professoral de Giese, o pai dos estudos solarísticos e dos solaristas. Não estava a visualizar a nauseabunda erupção de lama que engolira os óculos de ouro e o bigode cuidadosamente escovado. Estava vendo a gravura da capa da sua obra clássica e as pinceladas muito juntas que o artista usara para fazer sobressair a sua cabeça — tão parecida com a do meu pai, aquela cabeça, não nas feições, mas na expressão de sabedoria fora de moda e honestidade, que por fim fiquei incapaz de dizer qual deles estava a olhar para mim, se o meu pai ou Giese. Estavam ambos mortos e nenhum deles enterrado, mas também nos nossos tempos, mortes sem enterro são coisa comum.

A imagem de Giese desapareceu e, por momentos, esqueci a Estação, a experiência, Rheya e o Oceano. As memórias recentes foram obliteradas pela avassaladora convicção de que esses dois homens, o meu pai e Giese, hoje só cinzas, tinham um dia enfrentado a totalidade da sua existência, e essa convicção proporcionou-me uma profunda calma, que aniquilou a assembléia sem forma amontoada em redor da arena cinzenta, na expectativa de uma derrota.

Ouvi o clique de interruptores de circuito, e uma luz atravessou-me as pálpebras, que piscaram e se abriram. Sartorius não se movera da posição anterior e olhava para mim. Snow estava voltado de costas para operar o painel. Tive a impressão de que se divertia a bater com as sandálias no soalho.
— Pensa que a fase 1 foi bem sucedida, Dr. Kelvin? — perguntou Sartorius naquela voz anasalada que eu aprendera a detestar.
— Sim.
— Tem a certeza? — insistiu, obviamente muito surpreso e talvez até suspeitoso.
— Sim.
A minha certeza e a secura das minhas respostas fizeram-no, por um momento, perder a compostura.
— Oh... bom — gaguejou.

Snow aproximou-se de mim e começou a tirar-me a cinta da cabeça.
Sartorius recuou um passo, hesitou, depois desapareceu na sala escura.
Estava massageando as pernas para restabelecer a circulação, quando ele saiu de novo, segurando o filme já revelado. Umas linhas em ziguezague traçavam um desenho arrendado ao longo de cinqüenta pés de reluzente fita negra.
A minha presença já não era necessária, mas permaneci lá e vi Snow inserir a fita na moduladora. Sartorius fez um exame final, pleno de suspeitas, aos últimos pés de fita, como se estivesse a tentar decifrar o conteúdo das linhas ondulantes.
A experiência continuou sem a mínima complicação.
Snow e Sartorius estavam sentados cada um no seu banco de controle e pressionavam botões. Através do assoalho reforçado ouvia-se o rugido da energia a acumular-se nas turbinas. Dentro dos indicadores, as luzes iam descendo a compasso, com a descida do grande emissor de raios X até ao fundo do seu compartimento. Ambos pararam quando foi atingido o nível mais baixo dos indicadores.

Snow ligou a energia, e a agulha branca do voltímetro descreveu um semicírculo da esquerda para a direita. Agora, o zumbido da corrente mal se ouvia, ao mesmo tempo em que o filme se ia enrolando, invisível por trás de duas tampas redondas. No indicador do comprimento da fita passada iam correndo os números.

Fui até junto de Rheya, que nos observava por cima do livro. Ergueu para mim os olhos cheios de interrogações. A experiência acabara e Sartorius dirigia-se para a pesada cabeça cônica da máquina.
— Podemos ir? — articulou Rheya silenciosamente.
Respondi com um aceno, Rheya levantou-se e saímos da sala sem nos despedirmos dos meus colegas.
Pelas janelas do corredor do piso superior fulgia um soberbo pôr do sol.
Geralmente a esta hora, o horizonte apresentava-se avermelhado e triste. Desta vez estava de um rosado reluzente, entrelaçado de prata. Sob o suave fulgor da luz, os sombrios vales do oceano brilhavam num tom de violeta-pálido. Apenas no zênite o céu estava encarnado.
Chegamos ao fundo da escada e parei, relutante em emparedar-me novamente na cela da prisão que era a cabine.
— Rheya, quero ver uma coisa na biblioteca. Se importa?
— Claro que não — exclamou numa tentativa de mostrar boa disposição. — Talvez arranje alguma coisa para ler...

Eu sabia demasiado bem que desde o dia anterior um abismo se abrira entre nós. Deveria ter agido com mais consideração e tentado dominar a minha apatia, mas não conseguia reunir forças para tanto.



Solaris - Stanislaw Lem (parte 20) [ Download ]

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Aliens Vs. Coffee machine

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Ryan Church










quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Oryx & Crake por Jason Courtney


"Do outro lado da clareira, do sul vem um coelho, pulando, ouvindo, fazendo uma pausa para mordiscar o capim com seus dentes gigantescos. Ele brilha no crepúsculo, um brilho esverdeado surrupiado de uma água-viva das profundezas em algum experimento antigo. Na meia-luz, o coelho parece macio e quase translúcido, como um pedaço de manjar turco, como se você pudesse sugar seu pêlo como açúcar. Mesmo na infância do Homem das Neves, haviam coelhos luminosos verdes, embora não tão grandes e ainda não tinham escapado de suas gaiolas, misturando-se com a população selvagem, ao ponto de se tornar um incômodo."

 


"- Eu posso ir olhar os pigoons? Jimmy dizia.

O pigoons eram muito maiores e mais gordos do que os suínos normais, para deixar espaço para todos os órgãos extras. Eles foram mantidos em edifícios especiais, seguros: o seqüestro de um pigoon e de seu material genético por uma empresa concorrente teria sido um desastre. Quando Jimmy entrou para visitar o pigoons ele teve que colocar um bio-traje que era grande demais para ele, e usar uma máscara e lavar as mãos com sabão desinfetante primeiro. Ele gostava especialmente dos pigoons pequenos, doze deles alinhados em uma fileira mamando . Pigoonlets. Eles eram bonitos. Mas os adultos eram levemente assustadores, com o nariz escorrendo e pequenos olhos rosados. Eles olharam para ele como se o tivessem visto, de verdade, e pudessem ter planos para ele mais tarde."





Homem das Neves acordou antes do amanhecer.
Ficou imóvel, ouvindo a maré chegando, o burburinho baixo, o ritmo do batimento cardíaco. Desejava tanto acreditar que ainda estava dormindo.

No horizonte leste há uma neblina acinzentada, iluminada agora por uma letal incandescência rosada. Estranho como a cor ainda parece suave. Ele olhava excitado, não há outra palavra para isso. Êxtase. O coração aprisionado, levado como se por alguma grande ave de rapina. Depois de tudo o que aconteceu, como o mundo ainda podia ser tão belo?






Ilustrações de Jason Courtney com o tema Oryx & Crake de Margareth Atwood

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Humans are among us (SCIFI)



segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Concurso de Ficção Científica Brasileira



Estão abertas as inscrições para o FC do B, o mais esperado concurso de Ficção Científica nacional.

A cada dois anos, o concurso vem revelando o que há de melhor na atual FC brazuca,.

Para se inscrever (e conhecer o regulamento) basta acessar o site oficial do concurso.

Este ano, o concurso vem com uma novidade, uma categoria exclusiva para ilustrações de Ficção Científica.



Adquira o livro que agitou a FC brasileira em 2010:

Leia a primeira edição.

domingo, 9 de janeiro de 2011

H. Beam Piper



Henry (ou Horace) Beam Piper (23 de março de 1904 - 11 novembro de 1964) nasceu em Altoona, Pennsylvania.(EUA).

Autodidata, obteve um conhecimento profundo da ciência e da história, segundo ele: "sem me sujeitar à miséria ridícula de quatro anos nos confins desconfortável de um casaco de guaxinim." Aos dezoito anos de idade foi trabalhar como operário para os estaleiros da Estrada de Ferro da Pensilvânia. Trabalhou também como detetive e membro da equipe de engenharia da Pennsylvania Railroad, em Williamsburg, PA.

Piper publicou seu primeiro conto, "Time and Time Again", em 1947, na Astounding Science Fiction, e era essencialmente um autor de contos a partir de então até 1961, quando começou a escrever romances.

As histórias de Piper tratavam de dois campos em especial: "space opera" pura, como Space Viking, ou histórias de conflito ou mal-entendido cultural, tais como as séries Fuzzy e Paratime.

Sobrecarregado por dificuldades financeiras na sequência de um divórcio, e a percepção equivocada de que sua carreira estaria afundando (seu agente tinha morrido sem notificar-lhe de várias vendas), ele cometeu suicídio.

Piper não viveu para ver o efeito de sua literatura nos escritores futuros de Ficção Científica. Ao final de sua vida, mantinha correspondência com um jovem escritor chamado Jerry Pournelle.

Ele também foi um grande colecionador de armas (era membro da National Rifle Association e tinha sua própria coleção com mais de cem armas antigas e modernas), e escreveu romance de mistério policial.

Boa parte de sua obra jamais chegou ao público, pois Piper a destruiu juntamente com muitos dos seus outros documentos pessoais.

Seu trabalho, apesar de não receber prêmios e poucos elogios durante sua vida, iria ser objeto de culto postumamente.

Site de H.Beam Piper

H. Beam Piper ( Lone Star Planet, Little Fuzzy, Fuzzy Sapiens, Fuzzies and other people, The Cosmic Computer, Encuentro en Zarathusta, Four day planet, Operativo Policial, Viking Espacial) [ Download ]

A obra de H.Beam Piper no Projeto Gutenberg. 

sábado, 8 de janeiro de 2011

Solaris - Stanislaw Lem (parte 19)


 CONVERSA

Na manhã seguinte recebi outra nota mandada por Snow.
Sartorius deixara de trabalhar no aniquilador e estava preparando tudo para uma experiência final com raios X em alta voltagem.
— Rheya, querida, tenho que ir visitar Snow.
A madrugada vermelha, cujo fulgor entrava pela janela, dividia o quarto em duas partes. Nós estávamos na zona da sombra azul. Tudo o que ficava para além desta zona de sombra parecia de cobre polido: se um livro caísse de qualquer prateleira, o meu ouvido ficaria instintivamente à espera de um barulho metálico.
— É sobre a experiência. Só que não sei o que farei a esse respeito. Compreende, por favor, eu preferiria...
— Não precisas se justificar Kris. Espero que não leve demasiado tempo.
— É provável que seja demorado. Olha, você acha que poderia esperar no corredor?
— Vou tentar. Mas, e se perder o controle?
— O que está sentindo agora? Não pergunto por simples curiosidade, acredite, mas se discutirmos como isso funciona, talvez encontremos uma maneira de manter o controle.
Rheya empalideceu, mas tentou explicar:
— Sinto medo, não de qualquer coisa ou de qualquer pessoa... não há foco, só a  sensação de estar perdida. E sinto-me terrivelmente envergonhada comigo mesma. Depois, quando você volta, tudo acaba. Foi isso que me fez pensar que talvez estivesse  doente.
— Talvez isso só funcione dentro dessa maldita Estação. Vou organizar as coisas de modo a partirmos logo que possível.
— Acha que pode?
— Por que não? Não sou prisioneiro. Terei de falar com Snow. Tem alguma ideia a respeito do tempo que consegue ficar só?
— Depende... Se puder ouvir a tua voz, penso que poderia agüentar.
— Preferia que não escutasse. Não que tenha algo a esconder, mas nunca se sabe o que Snow poderá dizer.
— Não precisa dizer nada. Eu compreendo. Ficarei apenas perto o suficientemente para ouvir o som da tua voz.
— Vou até a sala de operações telefonar. As portas ficarão abertas.
Rheya acenou em sinal de acordo.

Passei a zona vermelha. Por contraste, apesar da iluminação, o corredor parecia estar às escuras. Do lado de dentro da porta aberta da sala de operações, sob uma fileira de tanques de oxigênio líquido, viam-se brilhar fragmentos de uma garrafa, os últimos indícios dos acontecimentos da noite anterior. Quando tirei o auscultador do descanso, a tela acendeu-se e marquei o número o da cabina de rádio. Por trás do vidro opaco apareceu um ponto de luz azulado, cresceu e arrebentou, e surgiu Snow a olhar para mim, sentado na beira da cadeira.
— Recebi o seu recado e quero falar contigo. Posso ir aí?
— Agora mesmo?
— Sim.
— Desculpe, mas você vem sozinho ou... acompanhado?
— Sozinho.
A testa enrugada e a face magra e bronzeada encheram a tela quando se inclinou para a frente para me estudar através do vidro convexo. Depois pareceu chegar a uma decisão abrupta:
— Ótimo, ótimo; te espero.

Voltei à cabina, onde mal podia distinguir a forma de Rheya para além da cortina de luz vermelha. Estava sentada numa poltrona, com as mãos crispadas nos braços da cadeira. Não deve ter ouvido os meus passos, e, por um momento, vi que lutava contra a inexplicável compulsão que dela se apoderava, debatendo-se com violentas contrações de todo o corpo, que logo pararam mal me viu chegar.
Engoli um sentimento de raiva cega e de piedade.
Seguimos em silêncio pelo longo corredor com as suas paredes multicolores; o intuito dos decoradores fora o das variantes de cor tornarem a vida mais tolerável dentro da concha blindada que era a Estação.
Uma faixa de luz vermelha à nossa frente significava que a porta da cabina de rádio estava aberta e olhei para Rheya. Totalmente absorvida nos seus preparativos para a batalha contra si própria que se aproximava, não fez qualquer tentativa para me responder ao sorriso. Agora que a dura prova ia começar, sua face estava contraída e branca. A quinze passos da porta parou e, quando ia voltar-me para trás, empurrou-me suavemente para frente com as pontas dos dedos.
De repente senti que Snow, a experiência, até mesmo a própria Estação, não valiam o terrível preço que Rheya estava pronta a pagar, tendo eu como ajudante na tortura.
Preparava-me para voltar, mas apareceu uma sombra através da porta da cabina e apressei-me a entrar.
Snow ficou em pé à minha frente, e o sol vermelho por trás dele transformava o seu cabelo grisalho num halo de luz purpúrea. Nos encaramos sem falar e pôde examinar-me à vontade sob a luz do sol que me ofuscava os olhos a tal ponto que quase o não podia ver. Passei junto dele e encostei-me a uma secretária alta, com microfones presos na extremidade das suas hastes flexíveis.
Snow rodou lentamente sobre si próprio e continuou a olhar-me com o habitual sorriso sem energia, em que não havia qualquer divertimento, só uma fadiga avassaladora. Sempre com os olhos nos meus, abriu caminho por entre os montes de objetos espalhados pela cabina — caixas térmicas, instrumentos, peças sobressalentes para o equipamento eletrônico —, encostou um banco à porta de um armário de aço e sentou-se.

Pus-me ansiosamente à escuta, mas do corredor não vinha qualquer som.
Por que é que Snow não falava? O prolongado silêncio estava tornando-se exasperante.
Limpei a garganta:
— Quando é que você e Sartorius estarão prontos?
— Podemos começar hoje mesmo, mas a gravação vai levar algum tempo.
— Gravação? Refere-se ao encefalograma?
— Sim; você concordou. Existe algum problema?
— Não, nada.
Outro longo silêncio. Snow interrompeu:
— Tinha algo para me dizer?
— Ela já sabe — segredei.
Franziu a sobrancelha, mas tive a impressão de que não estava verdadeiramente surpreendido. Então, para quê fingir? Perdi toda a vontade de lhe fazer confidências. Mesmo assim, tinha de ser honesto:
— Ela começou a suspeitar depois do nosso encontro na biblioteca. O meu comportamento, vários outros indícios. Depois, encontrou o gravador de Gibarian e ouviu a fita.
Snow estava atento e imóvel. Em pé junto à secretária, a minha vista sobre o corredor ficava bloqueada pela porta meio aberta. Baixei mais a voz:
— Na noite passada, enquanto eu dormia, ela tentou se matar. Bebeu oxigênio líquido...  Ouviu-se um leve roçar, como papéis sacudidos pelo vento. Parei e pus-me à escuta de qualquer ruído vindo do corredor, mas o barulho não vinha dali. Um rato na cabina? Fora de questão; era Sartorius. Lancei um olhar a Snow.
— Continue — disse calmamente.
— Não deu resultado, claro. De qualquer modo, ela sabe quem é.
— Por que me conta isso?
Por um momento, fiquei mudo de espanto, depois gaguejei:
— Para o informar, para o manter a par da situação...
— Avisei-o.
— Quer dizer que já sabia? — Minha voz elevou-se involuntariamente.
— O que acaba de dizer? Claro que não! Mas expliquei-lhe a posição. Quando chega, o visitante está quase em branco, apenas um fantasma feito de recordações e imagens vagas pescadas na... sua fonte. Quanto mais tempo fica com uma pessoa, mais humana se vai tornando. Até certo ponto, vai-se tornando também mais independente. E quanto mais tempo isso dura, tanto mais difícil torna... — Snow interrompeu-se, olhou-me de cima a baixo e continuou com relutância: — Ela sabe de tudo?
— Sim, é o que acabo de lhe dizer.
— Tudo? Ela sabe que tinha aparecido antes e que você...
— Não!
— Ouça, Kelvin — sorriu tristemente—, se é assim, o que quer fazer? Sair da Estação?
— Sim.
— Com ela?

O silêncio que reinou enquanto ele considerava a resposta que ia dar revelou também uma outra coisa. De novo, de qualquer ponto próximo, e sem que lhe conseguisse descobrir a origem, ouvi na cabina o mesmo leve roçar, como se vindo através da delgada divisória.

Snow remexeu-se no assento.
— Muito bem. Por que me olha assim? Pensa que seria capaz de ficar no seu caminho? Pode fazer o que quiser, Kelvin. Já temos problemas suficientes, sem necessidade de fazermos pressão um sobre o outro. Sei que seria impossível tentar convencê-lo, mas há uma coisa que preciso dizer-lhe: você está fazendo tudo o que pode para continuar humano numa situação que não o é. Talvez seja muito nobre da sua parte, mas não o leva a parte nenhuma. E não tenho a certeza de que seja assim tão nobre... não o é, se for simultaneamente idiota. Mas isso é da sua conta. Voltemos ao que interessa. Você nega a experiência e leva ela  consigo para longe. Ainda não percebeu que apenas vai embarcar numa espécie diferente de experiência?
— Que quer dizer? Se quer saber se ela agüenta enquanto estou com ela, não vejo... — fiz uma pausa.
Snow suspirou:
— Todos temos a cabeça enterrada na areia, Kelvin, e sabemos disso. Não precisa fingir.
— Não estou fingindo coisa alguma.
— Perdão, não queria ofendê-lo. Retiro o que disse, mas continuo pensando que está imitando os avestruzes, numa versão do jogo particularmente perigosa. Engana a si próprio, engana a ela e persegue a sua própria cauda. Sabe quais são as condições necessárias para estabilizar um campo de neutrinos?
— Não, nem você. Ninguém sabe.
— Exato. Tudo o que sabemos é que a estrutura é inerentemente instável e pode apenas ser mantida por meio de contínua alimentação de energia. Sartorius disse-me isso. Essa energia cria um campo de estabilização rotativa. Mas essa energia virá de fora do “visitante” ou será gerada internamente? Está percebendo a diferença?
— Sim. Se for externa, ela...
Snow acabou a frase em meu lugar:
— Longe de Solaris, a estrutura desintegra-se. É apenas uma teoria, claro, mas uma teoria que você pode verificar, pois já começou uma experiência. O veículo que você lançou para o espaço continua em órbita. Nos meus momentos vagos, até calculei a sua trajetória. Você podia levantar voo, interceptá-lo e descobrir o que aconteceu à sua passageira...
— Você está louco! — gritei.
— Acha? E se fizéssemos voltar o veículo? Não há qualquer problema, está ligado para controle à distância. O fazemos sair da órbita e...
— Cale-se!
— Também não adianta? Há outro método, um método muito simples. Não nos obriga a fazer retornar a nave, apenas a estabelecer contato pela rádio. Se estiver viva, ela responde e...
— O oxigênio já acabou há dias.
— Ela pode não precisar dele. Vamos tentar?
— Snow... Snow...
Zangado, imitou o meu tom de voz:
— Kelvin... Kelvin... Pense um pouco! Você é um homem ou não é? A quem está tentando agradar? A quem quer salvar? A si? A ela? E a qual das versões dela? Esta ou a outra? Não tem coragem para enfrentar ambas? Certamente se apercebe de que não estudou bem o assunto. Deixe-me dizer pela última vez: estamos numa situação que ultrapassa a moralidade.

O ruído roçante voltou, e desta vez pareciam unhas a raspar um muro.
De repente fui dominado por absoluta indiferença. Via a mim, via a ambos, como se à distância, como se pela extremidade errada de um telescópio, e tudo parecia sem interesse, trivial e ligeiramente ridículo.
— Então que sugere? Lançar outra nave de apoio? Amanhã ela estaria de volta. E no dia seguinte, e no dia a seguir a esse. Quanto tempo quer que continue? De que vale livrarmo-nos dela se sempre regressa? De que modo isso poderá me ajudar ou a você ou a Sartorius ou à Estação.
— Não, a minha sugestão é a seguinte: parta com ela. Será testemunha da transformação. Passados alguns minutos, verá...
— O  quê? Um monstro, um demônio?
— Não, irá vê-la morrer, é tudo. Não pense que são imortais, garanto-lhe que morrem. E depois, que vai fazer? Regressar... para uma nova edição? — olhava-me com  condescendência e escárnio.
— Basta! — exclamei cerrando os punhos.
— Oh, sou eu quem tem de se calar? Olhe, não fui eu quem começou esta conversa e, pelo que me diz respeito, ela já se prolongou mais que o suficiente. Deixe-me apenas sugerir-lhe uma maneira de você se divertir. Podia chicotear o Oceano, por exemplo. Meteu na cabeça que é um traidor se... — Acenou com a mão em sinal de despedida e levantou a cabeça como se para observar o voo de uma nave imaginária. — Sorrir, quando lhe apetece gritar, fingir-se alegre, quando lhe apetece bater com a cabeça nas paredes, isso não é ser traidor? E se for obrigado a ser traidor? Que fará? Vingar-se na besta do Snow, que é a causa de tudo isto? Nesse caso, Kelvin, você limita-se a pôr uma cobertura sobre o resto dos seus problemas e age como um idiota drogado!
— Você fala do seu próprio ponto de vista. Eu amo essa mulher!
— Quer dizer, a memória dela?
— Não, ela mesma. Já lhe contei o que tentou fazer. Quantos “verdadeiros” seres humanos teriam tal coragem?
— Então admite...
— Pare com sofismas.
— Certo. Então, ela o ama. E você quer amá-la. Não é bem a mesma coisa.
— Engana-se.
— Perdão, Kelvin, mas foi ideia sua vir contar-me tudo isso. Você não a ama. Você ama-a. Ela está pronta a dar a sua vida. Você também. É comovente, é maravilhoso, tudo o que você quiser, mas aqui está deslocado, está no ambiente errado. Não vê? Não vê porque não quer ver. Você anda em círculos para satisfazer a curiosidade de um poder que não compreendemos e não podemos controlar, e ela é um aspecto, uma manifestação periódica desse poder. Se ela fosse... se você estivesse a ser incomodado por uma velha bruxa apaixonada, não pensaria duas vezes antes de se ver livre dela, certo?
— Suponho que sim.
— Bom, então isso provavelmente explica por que ela não é uma velha bruxa! Sente-se de mãos atadas? E é esse o caso, estão mesmo atadas!
— Você limita-se a acrescentar mais uma teoria aos milhões de teorias que há na biblioteca. Deixe-me em paz, Snow, ela é... Não, não vou dizer mais nada.
— Isso é problema seu. Mas lembre-se de que ela é um espelho que reflete uma parte da sua mente. Se ela é bela, é porque as suas memórias o são. Você é quem fornece a fórmula. Só você pode acabar com o que começou, não se esqueça disso.
— Que espera que faça? Mandá-la embora? Já lhe perguntei por que e não me respondeu.
— Vou lhe dar uma resposta. Foi você quem quis esta conversa, não eu. Não me meti nos seus assuntos e não vou lhe dizer o que deve ou não deve fazer. Mesmo que tivesse esse direito, não o faria. Você vem aqui de livre vontade e atira com tudo para cima de mim. Sabe por quê? Para tirar o peso das suas próprias costas. Bom, eu já experimentei esse peso, não tente fazer-me calar, e deixo-o livre para encontrar a sua própria solução. Mas, você quer oposição. Se me atravessasse no seu caminho, você poderia lutar comigo, algo de tangível, um homem como você, com a mesma carne e o mesmo sangue. Lutava comigo e podia sentir que também era um homem. Como não forneço uma desculpa para lutar, você discute comigo ou, antes, consigo próprio. A única coisa que você não me disse é que morreria de desgosto se ela subitamente desaparecesse... — Por favor, já ouvi o suficiente! Retorqui, um pouco sem jeito: — Vim contar-lhe porque achei que devia saber que pretendo partir com ela para longe da Estação.
Ainda a bater na mesma tecla — Snow teve um encolher de ombros. — Apenas lhe dei a minha opinião porque percebi que você estava perdendo a noção da realidade. E quanto mais longe for, maior será a queda. Pode se encontrar com Sartorius amanhã, por cerca das nove?
— Sartorius? Julgava que ele não deixava ninguém entrar. Você disse-me que nem telefonar eu podia.
— Ele parece ter chegado a uma espécie de acordo. Nunca discutimos os nossos problemas domésticos. Com você o caso é outro. Amanhã de manhã?
— Está bem — resmunguei.
Reparei que Snow enfiara a mão esquerda para dentro do armário. Há quanto tempo  estava a porta aberta? Provavelmente há já algum tempo, e no calor da discussão não notara que a posição da sua mão não era natural. Era como se estivesse a esconder alguma coisa ou a segurar a mão de alguém.
Passei a língua pelos lábios.
— Snow, que diabo você...
— Agora, é melhor você sair — disse calmamente.

Fechei a porta na altura em que brilhava o último fulgor do crepúsculo vermelho.
Rheya estava aninhada junto à parede do corredor, à distância de alguns passos.
De um salto, pôs-se imediatamente de pé:
— Viu? Consegui Kris! Sinto-me muito melhor... Talvez fique cada vez mais fácil...
— Sim, claro... — respondi ausente.

Voltamos para os meus aposentos.
Continuava a pensar naquele armário e no que poderia estar escondido lá, ouvindo talvez toda a nossa conversa.
Minha face começou a arder de tal modo que involuntariamente passei por ela as costas da mão.
Que encontro idiota! E onde nos levara? A parte alguma!
Mas havia ainda a manhã seguinte...
Fui atravessado por um arrepio de medo. O meu encefalograma, um registro completo do funcionamento do meu cérebro, ia ser lançado para o Oceano, sob a forma de radiação.
Que tinha dito Snow? Que eu sofreria terrivelmente caso Rheya partisse?
Um encefalograma registra todos os processos mentais, conscientes e inconscientes. Se quiser que ela desapareça, será que isso acontece mesmo? E se eu quisesse me ver livre dela, ficaria assim tão perturbado com a ideia da sua iminente destruição?
Sou responsável pelo meu subconsciente? Mas ninguém o é, logo, eu também não.

Que estupidez ter concordado em deixá-los fazer isso. É claro que poderei examinar a gravação antes de ser utilizada, mas não serei capaz de interpretá-la. Ninguém seria.
Os peritos conseguem apenas identificar tendências mentais gerais.
Por exemplo, podem dizer que o indivíduo está a pensar em qualquer problema matemático, mas são incapazes de especificar os termos exatos. Afirmam que têm de limitar-se às generalizações porque o encefalograma não consegue descriminar por entre a amálgama de impulsos simultâneos, dos quais só alguns têm “contraparte” psicológica, e recusam terminantemente a arriscar qualquer comentário sobre os processos do subconsciente. Como se poderia então esperar que decifrassem memórias que tenham sido mais ou menos reprimidas?
Então, por que tinha tanto medo? Ainda nessa manhã dissera a Rheya que a experiência não podia dar resultado. Se os neurologistas da Terra eram incapazes de interpretar o registro, que hipóteses poderia haver para aquela grande criatura extraterrena...?
Contudo, tinha-se infiltrado na minha mente sem meu consentimento e pusera nu o meu ponto mais vulnerável. Isso era inegável. Sem qualquer ajuda ou transmissões radioativas, abrira caminho pela concha blindada da Estação, localizara-me e saira com os despojos...

— Kris? — sussurrou Rheya.
Em pé junto à janela, com olhos que não viam, não notara a chegada da escuridão.
Um tênue véu formado por uma nuvem alta tinha um brilho ligeiramente prateado, devido à luz do sol agora desaparecido, e obscurecia o céu.
Se Rheya desaparecer depois da experiência, isso significa que eu queria que desaparecesse — que a matei. Não, não irei ver Sartorius. Não podem me forçar a cooperar. Mas não posso contar-lhes a verdade; vou ter de dissimular e mentir e continuar sempre a fazê-lo... Porque na minha mente podem existir pensamentos, intenções e esperanças cruéis de que nada sei, por ser talvez um assassino, sem ter consciência disso. O homem lançou-se à procura de outros mundos e outras civilizações, sem antes ter explorado o seu próprio labirinto de caminhos sombrios e câmaras secretas e sem descobrir o que há para lá de portas que ele mesmo selou.
Iria abandonar Rheya por causa de uma falsa vergonha ou porque me faltava coragem?
— Kris — disse Rheya ainda mais docemente.
Estava agora muito perto de mim. Fingi não ouvir.
Nesse momento queria isolar-me. Ainda não tinha resolvido nada ou chegado a qualquer decisão. Permaneci imóvel a olhar para o céu sombrio e para as frias estrelas, pálidos fantasmas das estrelas que brilhavam na Terra. A minha mente estava vazia. Tudo o que tinha era a triste certeza de ter ultrapassado um  ponto sem possibilidade de regresso. Recusava-me a admitir que me encaminhava para algo que não podia alcançar. A apatia roubava-me até a força para desprezar a mim próprio.



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